{"id":25789,"date":"2020-01-04T21:07:07","date_gmt":"2020-01-05T01:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=25789"},"modified":"2020-01-04T21:07:15","modified_gmt":"2020-01-05T01:07:15","slug":"dois-papas-dois-modelos-de-homem-dois-modelos-de-igreja-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/01\/04\/dois-papas-dois-modelos-de-homem-dois-modelos-de-igreja-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"Dois Papas: dois modelos de homem, dois modelos de Igreja. Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/ratzinger-e-francisco.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Acabei de assistir o filme do consagrado cineasta brasileiro Fernando Meirelles:&nbsp;<strong>Dois Papas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Considero o filme tecnica e esteticamente bem elaborado, feito nos pr\u00f3prios espa\u00e7os grandiosos do Vaticano. Sua base \u00e9 fundada em fatos hist\u00f3ricos, evidentemente, com a criatividade que este tipo de arte permite, particularmente na constru\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos. Mas neles se entrev\u00ea suas respectivas teologias e afirma\u00e7\u00f5es conhecidas.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O que digo \u00e9 opini\u00e3o estritamente pessoal. Tive o privil\u00e9gio de conhecer a ambos os Papas pessoalmente e com os quais entretive e entretenho rela\u00e7\u00f5es de certa proximidade e at\u00e9 amizade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Papa Ratzinger: fin\u00edssimo e rigoroso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o&nbsp;<strong>Prof. Joseph Ratzinger<\/strong>&nbsp;tenho uma d\u00edvida de gratid\u00e3o por ter apreciado minha tese doutoral sobre \u201c<em>A Igreja como Sacramento Fundamental no Mundo secularizado<\/em>\u201d, volumosa, mais de 500 p\u00e1ginas impressas. Ajudou-me financeiramente com uma soma consider\u00e1vel de marcos e encontrou um editora para sua publica\u00e7\u00e3o, pois ningu\u00e9m queria assumir o risco de lan\u00e7ar um livro desta propor\u00e7\u00e3o. A acolhida na comunidade teol\u00f3gica internacional foi grande, considerada uma obra fundamental, especialmente pelo renomado especialista em Igreja Jean Yves Congar, dominicano franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Prof. Ratzinger \u00e9 uma pessoa fin\u00edssima no trato, extremamente inteligente e nunca o vi al\u00e7ando a voz; mas \u00e9 muito t\u00edmido e reservado.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Ao saber de sua elei\u00e7\u00e3o a Papa, logo pensei: \u201c\u00c9 um Papa que vai sofrer muito, pois talvez jamais tenha abra\u00e7ado pessoas,&nbsp;mesmo uma mulher e se exposto \u00e0s multid\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa amizade se fortaleceu porque durante cinco anos, a partir de 1974, toda semana de Pentecostes (por volta de maio) cerca de 25 te\u00f3logos e te\u00f3logas progressistas, renomados do mundo inteiro, nos encontr\u00e1vamos em Nimega na Holanda ou em outra cidade europeia. Durante uma semana discut\u00edamos ecumenicamente, acompanhados por um pequeno grupo de cientistas, inclusive de Paulo Freire, sobre temas relevantes do mundo e da Igreja. Edit\u00e1vamos uma revista&nbsp;<strong>Concilium<\/strong>&nbsp;que se publicava em 7 l\u00ednguas que ainda continua a ser publicada (no Brasil pela Editora Vozes). Ai colaboraram as melhores cabe\u00e7as mundiais, nas v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento que vai da sexualidade, da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, \u00e0 moderna cosmologia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Prof.Ratzinger sentava-se quase sempre ao meu lado. Depois do almo\u00e7o enquanto quase todos tiravam uma sesta eu e ele passe\u00e1vamos pelo jardim, discutindo temas de teologia, nossos preferidos, Santo Agostinho e S\u00e3o Boaventura dos quais li praticamente toda obra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cada um com seu papel sem perder a rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Feito Cardeal e Presidente da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, teve a ingrata miss\u00e3o de me interrogar sobre o livro&nbsp;<strong>Igreja: carisma e poder<\/strong>&nbsp;em 1984. Ele cumpria institucionalmente sua fun\u00e7\u00e3o de interrogador e eu de defensor de minhas opini\u00f5es. Foi um di\u00e1logo firme, mas sempre elegante da parte dele, mesmo quando, ap\u00f3s o interrogat\u00f3rio, tivemos um encontro j\u00e1 mais duro com ele e os Cardeais brasileiros Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloysio Lorscheider que me acompanharam em Roma e testemunharam a meu favor. \u00c9ramos tr\u00eas contra um. Devo reconhecer que ele se sentia constrangido.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um ano, recebi a solu\u00e7\u00e3o do processo doutrin\u00e1rio com a deposi\u00e7\u00e3o da c\u00e1tedra de teologia, de minhas fun\u00e7\u00f5es na Editora Vozes e a imposi\u00e7\u00e3o de um \u201csil\u00eancio obsequioso\u201d que me impedia de falar, de ensinar, de dar entrevistas e de publicar qualquer coisa. A decis\u00e3o final ap\u00f3s o interrogat\u00f3rio foi feita por 13 cardeais (13 para desempatar). Soube mais tarde, atrav\u00e9s de um emiss\u00e1rio de seu secret\u00e1rio particular que ele, Card. Ratzinger, votou a meu favor mas foi voto vencido. Cabe dizer que sempre que jornalistas perguntavam a ele sobre mim, respondia, com certo humor, que sou \u201c<em>ein frommer Theolo<\/em>ge\u201d( um te\u00f3logo piedoso) que um dia vai aprofundar seu verdadeiro caminho teol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme n\u00e3o retrata a figura fina e elegante que o caracteriza. Em certa cena, levanta a voz e quase grita, o que, me parece, totalmente inveros\u00edvel e contra seu car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de estarmos agora em situa\u00e7\u00f5es diferentes, ele Papa e eu um um te\u00f3logo promovido a leigo, nunca perdemos a amizade. Por seus 90 anos, ao ser organizada uma&nbsp;<strong>Festschrift&nbsp;<\/strong>(um livro de homenagem), na qual muitos not\u00e1veis escreveram, a pedido dele solicitaram-me que escrevesse meu testemunho a seu respeito, o que fiz, prazerosamente. A amizade \u00e9 mais forte que qualquer doutrina sempre humana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Papa Francisco: terno, fraterno e inovador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com refer\u00eancia ao&nbsp;<strong>Jorge Mario Bergoglio<\/strong>, agora Papa Francisco, diria o seguinte: Conhecemo-nos em 1972 no Col\u00e9gio M\u00e1ximo de San Miguel em Buenos Aires, cada um discorrendo sobre a singularidade do caminho espiritual de Santo In\u00e1cio de Loyola (ele) e o caminho espiritual de S\u00e3o Francisco (eu). Ai discutimos a vertente da teologia da liberta\u00e7\u00e3o de tipo argentino (do povo silenciado e da cultura oprimida) e a nossa brasileira e peruana (sobre a injusti\u00e7a social e a opress\u00e3o hist\u00f3rica sobre os pobres e afrodescendentes). Deste encontro h\u00e1 uma foto que ele, desde Roma, teve a gentileza de me mandar, onde aparecemos, todo um grupo de te\u00f3logos e te\u00f3logas, a maioria n\u00e3o mais entre n\u00f3s, alguns perseguidos e torturados pela repress\u00e3o b\u00e1rbara dos militares argentinos ou chilenos. Depois nos perdemos de vista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/leonardoboff.files.wordpress.com\/2020\/01\/boff-bergoglio.jpg?w=600\" alt=\"\"\/><figcaption>(Ele \u00e9 o terceiro da esquerda para a direita e eu o segundo da esquerda)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O Papa Francisco: te\u00f3logo da liberta\u00e7\u00e3o integral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Soube pelo seu professor de teologia, recentemente falecido, Juan Carlos Scannone, o representante maior da teologia da liberta\u00e7\u00e3o argentina. que Bergoglio entrou para a Ordem Jesu\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o adulta (era qu\u00edmico antes, como aparece no filme). Entusiasmou-se logo com a teologia da liberta\u00e7\u00e3o e a\u00ed mesmo fez um voto que cumpriu sempre, mesmo como cardeal de Buenos Aires: toda semana passar uma tarde ou mesmo um dia numa favela (<em>villa miseria<\/em>), sempre sozinho, entrando nas casas e conversando com todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi Superior Maior da Prov\u00edncia dos Jesuitas da regi\u00e3o de Buenos Aires. Era muito rigoroso. Aqui teve que enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima que carregou no cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje: dois jesuitas, o padre Jalish e o padre Yorio (que conheci pessoalmente em Quilmes) viviam numa favela, apoiando os pobres e marginalizados. Quem trabalhava com o povo, como no Brasil de 1964 (e talvez tamb\u00e9m hoje sob o novo governo) seriam considerados marxistas e subversivos. Eram vigiados pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a dos militares. Bergoglio soube que seriam sequestrados com as torturas que se seguiam. Tentou salv\u00e1-los at\u00e9 apelando ao voto de obedi\u00eancia, t\u00edpico de sua Ordem, no sentido de abandonaram a favela para n\u00e3o serem v\u00edtimas da repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles argumentaram de forma evang\u00e9lica: \u201cum pastor n\u00e3o abandona seu rebanho, seu povo; participa de seu destino; vale mais obedecer ao Deus dos pobres do que obedecer a um superior religioso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Efetivamente foram sequestrados e duramente torturados. Jalish se reconciliou com Bergoglio e vive na Alemanha, enquanto Yorio se sentiu abandonado e distanciou-se dele (morreu no Uruguai, anos atr\u00e1s). Pude sentir sua amargura pessoal, ao mesmo tempo que procurava entender o impasse que uma autoridade religiosa, com responsabilidade, enfrenta em situa\u00e7\u00f5es-limite. Mesmo assim, Bergoglio escondeu a muitos no Semin\u00e1rio Maior de San Miguel ou os levou at\u00e9 a fronteira de outro pa\u00eds para fugirem da morte certa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Papa Francisco: o cuidado da Casa Comum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser eleito Papa, voltamos a nos comunicar. Sabendo que havia me ocupado intensivamente com o tema da ecologia integral, envolvendo a Casa Comum, a M\u00e3e Terra, solicitou-me subs\u00eddios, coisa que fiz com assiduidade. Mas logo me advertiu:\u201dn\u00e3o mande os textos para o Vaticano, pois, n\u00e3o me ser\u00e3o entregues (o famoso&nbsp;<em>sottosedere<\/em>&nbsp;da C\u00faria: sentar em cima e esquecer) mas envie-os diretamente ao embaixador argentino junto \u00e0 Santa S\u00e9, especialmente aquele que todos os dias, bem cedo, toma o chimarr\u00e3o (<em>el mate<\/em>), comigo\u201d. Assim fiz sempre, mesmo com textos sobre o S\u00ednodo Panamaz\u00f4nico de 2019. Respondeu v\u00e1rias vezes agradecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao escolher o nome de&nbsp;<strong>Francisco<\/strong>&nbsp;sob inspira\u00e7\u00e3o de seu amigo brasileiro, o Card. Dom Cl\u00e1udio Hummes que lhe sussurou logo fazer uma op\u00e7\u00e3o clara pelos pobres, ele se transformou. O rigor jesu\u00edtico se uniu com a ternura franciscana. Com os problemas internos da C\u00faria, a pedofilia, a corrup\u00e7\u00e3o financeira dentro do Banco do Vaticano \u00e9 extremamente rigoroso. Contrariamenete, com o povo \u00e9 visivelmente terno e fraterno.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum Papa anterior castigou t\u00e3o duramente o sistema que perdeu a sensibilidade, a solidariedade com os milh\u00f5es de pobres e famintos, a capacidade de chorar e que s\u00e3o adoradores do \u00eddolo do dinheiro. Depredam a natureza e s\u00e3o anti-vida e anti-M\u00e3e Terra. N\u00e3o precisamos declarar a que sistema se refere. Sua op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 altisonante. Tornou-se por suas posturas corajosas face \u00e0 emerg\u00eancia ecol\u00f3gica da Terra, ao aquecimento global e \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas, um l\u00edder religioso e pol\u00edtico. Sua voz \u00e9 ouvida e respeitada pelo mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dois modelos de homem e dois modelos de Igreja<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O prop\u00f3sito do filme \u00e9 mostrar dois modelos de personagens religiosas e dois modelos de Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente mostra como ambos, Ratzinger e Bergoglio. s\u00e3o humanos, profundamente humanos. Nesse sentido: ambos possuem seu lado luminoso e tamb\u00e9m seu lado sombrio. O Papa Bento XVI sua leni\u00eancia com os ped\u00f3filos. N\u00e3o devemos esquecer que escreveu a todos os bispos, sob sigilo pontif\u00edcio que jamais deve ser quebrado, de n\u00e3o entregar os padres e os bispos ped\u00f3filos aos tribunais civis. Isso desmoralizaria a institui\u00e7\u00e3o Igreja. Deviam, sim, confessar-se do pecado e ser transferidos para outro lugar. O Papa n\u00e3o se deu conta suficientemente de que n\u00e3o tinha a ver apenas com um pecado perdo\u00e1vel pela confiss\u00e3o. Tratava-se de um crime contra inocentes que a justi\u00e7a comum deve investigar e punir. N\u00e3o se pensou nas v\u00edtimas, apenas na salvaguarda da imagem da institui\u00e7\u00e3o-Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>O Papa Bento XVI colocou-se na esteira do Jo\u00e3o Paulo II que era moral e doutrinariamente conservador. Procurou relativizar&nbsp;<em>o arggiornamento<\/em>&nbsp;do Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965). Via a Igreja como uma fortaleza sitiada por todos os lados por inimigos, vale dizer, pelos erros e desvios da modernidade. A solu\u00e7\u00e3o que se propunha era a de voltar \u00e0 grande disciplina anterior, vinda do Conc\u00edlio de Trento (s\u00e9culo XVI) e do Conc\u00edlio Vaticano I (1870). A centralidade era a ortodoxia e a s\u00e3 doutrina, como se fossem as pr\u00e9dicas que salvassem e n\u00e3o as pr\u00e1ticas. Nesta linha o Card. Joseph Ratzinger foi rigoroso: mais de 110 te\u00f3logos ou te\u00f3logas foram condenados, depostos de suas c\u00e1tedras, silenciados (no Brasil Yvone Gebara e eu pessoalmente) ou de alguma forma punidos. Um deles, excelente te\u00f3logo, foi condenado sem recebernenhuma explica\u00e7\u00e3o. Ficou t\u00e3o deprimido que pensou em suicidar-se. S\u00f3 se curou quando foi \u00e0 Am\u00e9rica Central A trabalhar com as comunidades eclesiais de base.Viveu-se um inverno eclesial severo.Toda uma gera\u00e7\u00e3o de padres foi formada nesse estilo doutrin\u00e1rio e com os olhos voltados ao passado, usando os s\u00edmbolos do poder clerical.&nbsp; Igualmente, toda uma pl\u00eaiade de bispos foram sagrados, mais autoridades eclesi\u00e1sticas ortodoxas que pastores no meio de seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro modelo de personalidade religiosa \u00e9 o Papa Francisco. Ele vem do fim do mundo, de fora da velha e quase ag\u00f4nica cristandade europeia. Ele trouxe uma primavera para a Igreja e para o mundo secularizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente inovou os h\u00e1bitos. Ao negar-se de vestir a \u201cmozzeta\u201d o pequeno manto branco, cheio de brocados que os papas carregam aos ombros, s\u00edmbolo do absoluto poder dos imperadores romanos pag\u00e3os, diz o filme claramente : \u201cacabou-se o carnaval\u201d. N\u00e3o aceita a cruz dourada, continua com sua cruz de ferro; rejeita o sapato vermelho (Prada) e continua com o seu velho sapato preto. N\u00e3o se anuncia como Papa da Igreja, mas como bispo de Roma e somente a partir da\u00ed, Papa da Igreja universal. Animar\u00e1 a Igreja n\u00e3o com o direito can\u00f4nico, mas com o amor e com a colegialidade (consultando a comunidade dos bispos). Em sua primeira fala p\u00fablica diz \u201ccomo gostaria uma Igreja pobre para os pobres\u201d. N\u00e3o mora no pal\u00e1cio papal, o que seria uma ofensa ao&nbsp;<em>poverello<\/em>&nbsp;de Assis, mas numa casa de h\u00f3spedes. Come na fila como os outros e comenta, com humor:\u201dassim \u00e9 mais dif\u00edcil que me envenenem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dispensa um carro especial e um corpo de prote\u00e7\u00e3o pessoal. Mistura-se no meio do povo, d\u00e1 as m\u00e3os a quem as estende e beija as crian\u00e7as. \u00c9 pai e av\u00f4 querido das multid\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu modelo de Igreja \u00e9 o de \u201cum hospital de campanha\u201d que atende a todos, sem perguntar de onde vem e qual \u00e9 sua situa\u00e7\u00e3o moral. \u00c9 uma \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d para as periferias humanas e existenciais. Respeita os dogmas e doutrinas mas diz claramente que prefere colocar-se vivamente diante do Jesus hist\u00f3rico, opta pelo encontro direto com as pessoas e a pastoral da ternura. Insiste que Jesus veio para nos ensinar a viver o amor incondicional, a solidariedade e o perd\u00e3o. Central para ele \u00e9 a&nbsp;<em>miseric\u00f3rdia infinita de Deus.<\/em>&nbsp;Vai mais longe ao dizer :\u201d<em>Deus n\u00e3o conhece uma condena\u00e7\u00e3o eterna<\/em>&nbsp;pois perderia para o mal. E Deus n\u00e3o pode perder. Sua miseric\u00f3rdia n\u00e3o conhece limites\u201d. Por isso chama a todos, uma vez purificados de suas maldades, para a casa que o Pai e M\u00e3e de bondade preparou para todos desde toda a eternidade. Morrer \u00e9 sentir-se chamado por Deus e vai-se alegre para o Grande Encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis outro tipo de pontificado, outro modelo de ser humano que reconhece que perdeu a paci\u00eancia quando uma mulher o puxou e apertou longa e duramente sua m\u00e3o. Irritado, bateu-lhe a m\u00e3o por duas ou tres vezes. Mas no dia seguinte pediu publicamente perd\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dois Papas: diferentes e complementares.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Papa Francisco abriu sua inteira humanidade, dando-se o direito \u00e0 alegria de viver, de torcer pelo seu time de estima\u00e7\u00e3o o San Lorenzo, de apreciar a m\u00fasica dos beatles at\u00e9 conquistar o Papa Bento XVI a dan\u00e7ar um tango, impens\u00e1vel a um severo acad\u00eamico alem\u00e3o. Aqui aparece n\u00e3o o Papa mas o homem Bergoglio que desentranha humanidade recolhida do homem Ratzinger. Ambos s\u00e3o diferentes mas se integram na dan\u00e7a de um tango de pessoas anci\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 uma bela met\u00e1fora da condi\u00e7\u00e3o humana, de dois modos diferentes de realizar a humanidade, que n\u00e3o se op\u00f5em mas se comp\u00f5em e se completam, uma com a ternura e a outra com o rigor. Vale ver o filme, pois nos faz pensar e nos oferece li\u00e7\u00f5es de m\u00fatua escuta, de verdades ditas sem rebu\u00e7os e de uma amizade que vai crescendo na medida em que a rela\u00e7\u00e3o se descontrai&nbsp; de encontro a encontro. O perd\u00e3o que um d\u00e1 ao outro e o abra\u00e7o final, longo e carinhoso, engrandece o humano e o espiritual presentes em cada&nbsp; um de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em>Leonardo Boff \u00e9 te\u00f3logo,fil\u00f3sofo e membro da Comiss\u00e3o Internacional da Carta da Terra<\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabei de assistir o filme do consagrado cineasta brasileiro Fernando Meirelles:&nbsp;Dois Papas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-25789","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6HX","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25789","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25789"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25789\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25790,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25789\/revisions\/25790"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}