{"id":25908,"date":"2020-01-10T08:05:59","date_gmt":"2020-01-10T12:05:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=25908"},"modified":"2020-01-10T08:06:07","modified_gmt":"2020-01-10T12:06:07","slug":"esperando-a-lama","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/01\/10\/esperando-a-lama\/","title":{"rendered":"Esperando a lama"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"750\" data-attachment-id=\"25909\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/01\/10\/esperando-a-lama\/image-35-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?fit=1200%2C750\" data-orig-size=\"1200,750\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-35\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?fit=600%2C375\" alt=\"\" class=\"wp-image-25909\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?resize=1024%2C640 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?resize=768%2C480 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/image-35.jpeg?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Amea\u00e7ado por barragem da Vale, vilarejo hist\u00f3rico do interior de Minas tem moeda paralela, moradores divididos em categorias e uma espera que n\u00e3o permite planos\u00a0<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>MARCELLA RAMOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>J<\/strong>aime\u00a0Gomes dos Santos estava em casa quando a sirene da Vale tocou. Al\u00e9m do barulho estridente e repetitivo, uma grava\u00e7\u00e3o explicava o motivo do alerta: a barragem B3\/B4, da mina Mar Azul, instalada logo acima do vilarejo de Macacos, em Nova Lima (MG), estava prestes a romper. Eram por volta das seis da tarde, do dia 16 de fevereiro de 2019, um s\u00e1bado. Morador do distrito, o aposentado de 72 anos saiu \u00e0 rua e encontrou os vizinhos debaixo da chuva, sem saber o que fazer, pois n\u00e3o haviam sido treinados para a situa\u00e7\u00e3o. Os \u00e2nimos se acalmaram quando a Defesa Civil esclareceu que aquela rua n\u00e3o seria atingida pelos rejeitos da barragem, em caso de rompimento, e que ningu\u00e9m precisava correr. Minutos depois, chegaram as pessoas que estavam na \u00e1rea de risco, entre elas a fam\u00edlia do filho mais novo de Santos. Todos passaram a noite no Centro Comunit\u00e1rio, localizado na mesma rua.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>Quase um ano depois, a barragem n\u00e3o rompeu. Macacos continua em estado de alerta e viveu uma lenta, mas inexor\u00e1vel transforma\u00e7\u00e3o \u2013 que mudou a economia, as ruas e o ritmo da cidade, mas sobretudo a forma como os moradores se relacionam entre si, esgar\u00e7ando la\u00e7os de conv\u00edvio estreitados durante anos. Mais de quatrocentos moradores do vilarejo com pouco mais de mil habitantes, cujo nome oficial \u00e9 S\u00e3o Sebasti\u00e3o das \u00c1guas Claras, est\u00e3o morando em hot\u00e9is ou pousadas. A Vale diz que n\u00e3o sabe quando as fam\u00edlias poder\u00e3o voltar para suas resid\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Da varanda de casa, Santos tem vista para tr\u00eas barragens da regi\u00e3o \u2013 s\u00f3 no munic\u00edpio de Nova Lima, existem 26 barragens de rejeitos \u2013 e para as obras que a mineradora est\u00e1 realizando nos arredores. \u201cEu queria que a Vale tivesse um pouco mais de responsabilidade pela vida humana e pela natureza, isso que eles fazem n\u00e3o est\u00e1 certo\u201d, reflete, olhando para seu quintal.<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana em que a sirene tocou, Santos trope\u00e7ou na coleira de um cachorro, caiu e machucou a coluna. Teve de ser levado \u00e0s pressas para o hospital. Deitado no leito da enfermaria, lembrou-se de que n\u00e3o era a primeira vez que uma barragem representava risco \u00e0 sua vida. Em 22 de junho de 2001, Santos pegou um \u00f4nibus de sua casa no Morro do Chap\u00e9u, nos arredores de Macacos, e saltou no ponto final.&nbsp; Um amigo caminhoneiro foi busc\u00e1-lo para ver umas plantas, mas os dois n\u00e3o chegaram ao destino. No meio do caminho, uma avalanche de lama de uma barragem da mineradora Rio Verde&nbsp;soterrou o caminh\u00e3o. Passaram-se 25 minutos at\u00e9 que Santos conseguisse abrir uma fresta na janela para respirar. Ao for\u00e7ar mais o vidro, conseguiu colocar o corpo para fora do caminh\u00e3o e sair. Acordou o amigo, desmaiado dentro do ve\u00edculo, e o puxou pelo bra\u00e7o. Salvaram-se os dois.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Logo que os homens do resgate chegaram, Santos desmaiou. Al\u00e9m de atingir 43 hectares e assorear 6,4 km do leito do c\u00f3rrego Taquaras, o acidente causou a morte de cinco homens que trabalhavam para a Rio Verde, respons\u00e1vel pela barragem que rompeu (a mineradora foi comprada pela Vale pouco tempo depois). Todos eram amigos ou conhecidos de Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde aquele epis\u00f3dio, passou a ser conhecido como um chor\u00e3o de carteirinha. Teve que fazer acompanhamento psicol\u00f3gico e se aposentou por invalidez do trabalho como mestre de obras, sem ter recebido nenhum tipo de indeniza\u00e7\u00e3o da mineradora Rio Verde. Ele conta que nem a morte de sua mulher em 2014, com quem estava casado havia mais de vinte anos, o abalou tanto quanto ter ficado soterrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fala do epis\u00f3dio de 2001, o ex-mestre de obras bate a palma da m\u00e3o de forma ritmada na perna, para controlar a emo\u00e7\u00e3o. Tem dificuldades de fazer planos, e sua \u00fanica meta \u00e9 engordar uma poupan\u00e7a que come\u00e7ou no final do ano passado para seu neto, Caetano, com o dinheiro do d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio da aposentadoria. Natural de Salvador, na Bahia, mas morador da regi\u00e3o h\u00e1 38 anos, Santos acredita que o vilarejo pode vir a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-1.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376681\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Da esquerda para a direita: D\u00e9bora Dumont, Caetano, Gabriel Francisco e Jaime dos Santos \u2013 Fotos: Marcella Ramos<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G<\/strong>abriel Francisco, filho de Santos e pai de Caetano, tem um restaurante no Centro de Macacos. Ele e a mulher, D\u00e9bora Dumont, viviam numa \u00e1rea que, caso a barragem rompesse, ficaria ilhada. Desde que a sirene tocou, s\u00f3 voltaram l\u00e1 uma vez, cerca de dez meses depois, para buscar objetos de valor sentimental. Depois de passarem dois meses num hotel em Belo Horizonte, hoje vivem numa pousada no distrito \u2013 longe da zona de risco \u2013 bancada pela Vale. As roupas que usam tamb\u00e9m foram compradas com o dinheiro da mineradora, que distribuiu 2 mil reais para cada morador desalojado, s\u00f3 para esse tipo de gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>Caetano tinha 37 dias de vida quando a barragem amea\u00e7ou romper. Saiu de casa debaixo da chuva, enrolado numa toalha de mesa. Hoje est\u00e1 perto de completar 1&nbsp; ano. Os pais se queixam de que ainda n\u00e3o conseguiram batizar o menino. \u201cO padrinho e a madrinha do meu filho \u00e9 a Vale\u201d, costuma debochar Gabriel. No in\u00edcio, dizem, a Vale atendia aos pedidos de assist\u00eancia sem colocar empecilho, mas nos \u00faltimos meses as coisas foram mudando. H\u00e1 tr\u00eas meses, o casal pediu para receber papinha da empresa, mas recebeu uma negativa. Os empregados da Vale justificaram que era necess\u00e1ria a aprova\u00e7\u00e3o de um nutricionista. A mineradora disse que essa \u00e9 uma medida de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da sirene tocar, o restaurante de Gabriel era bastante movimentado, principalmente nos fins de semana e feriados, quando turistas subiam a serra para visitar o vilarejo. O principal atrativo de Macacos era o turismo, o que mudou completamente desde que a barragem entrou em estado de alerta. Nos primeiros meses, a perda de turismo foi total e, ao todo, 15% dos estabelecimentos fecharam, de acordo com dados da prefeitura. Gabriel mantinha um card\u00e1pio de refei\u00e7\u00f5es \u00e0 la carte, e cada prato custava em m\u00e9dia de 50 reais. Depois do acontecido, teve que transformar o servi\u00e7o em buffet para continuar funcionando. Sua principal clientela passou a ser dos oper\u00e1rios que a Vale contrata para tocar as obras no vilarejo. A maior parte do que vende agora sai por 20 reais, o valor da \u201cmoeda\u201d que a Vale introduziu na regi\u00e3o, para os moradores que perderam seus empregos poderem comprar comida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde fevereiro, a mineradora passou a distribuir, para quem estiver cadastrado na prefeitura como morador de Macacos, um voucher no valor de 20 reais para alimenta\u00e7\u00e3o (15 reais para um prato de comida e 5 para a bebida). Semanalmente, os moradores podem resgatar uma cartela com catorze vouchers, contendo um ticket para o almo\u00e7o e um para o jantar. No come\u00e7o, s\u00f3 alguns restaurantes podiam receber o voucher, que depois passou a ser uma moeda de uso mais generalizado. Hoje \u00e9 aceito em mercearias, mercados e bares. At\u00e9 a loja de artesanato, que com a fuga dos turistas deixou de vender enfeites, passou a comercializar comida para receber os vouchers e ter uma renda certa para manter o ponto. Semanalmente, os comerciantes trocam os vouchers por dinheiro no Posto de Atendimento (PA) da Vale.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG-2841.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG-2841.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376975\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Loja de artesanato vende alimentos para poder receber voucher de alimenta\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNesse caso n\u00e3o gosto de reclamar, porque o voucher \u00e9 o que possibilita que o restaurante esteja aberto at\u00e9 hoje\u201d, conta Gabriel. \u201cMas o turismo ainda n\u00e3o voltou \u00e0 cidade. Hoje a gente \u00e9 completamente dependente desse voucher, que pode acabar a qualquer momento.\u201d A Vale ainda n\u00e3o tem data para tirar o voucher de circula\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 apresentou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais (MPMG) uma proposta de troca dos t\u00edquetes por um valor&nbsp;mensal&nbsp;em dinheiro: um sal\u00e1rio m\u00ednimo por adulto, meio por adolescente e um quarto por crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova moeda tamb\u00e9m tem seus efeitos colaterais. O sorveteiro Jo\u00e3o Ricardo Nazareth de Lima recebe o voucher desde os primeiros meses e seu faturamento subiu como nunca. Antes da sirene tocar, vendia algumas dezenas de sorvetes por dia. Agora, com a op\u00e7\u00e3o de comprar com o voucher, as pessoas passaram a consumir mais sorvetes para completar o valor de 20 reais. H\u00e1 uns meses, Lima teve que mudar o status da sua empresa de Microempreendedor Individual (que deve manter arrecada\u00e7\u00e3o anual abaixo de 81 mil reais para s\u00f3 ter que pagar um imposto fixo mensal de cerca de 50 reais) para Simples Nacional (com impostos mais altos e a obrigatoriedade de ter um contador). Lima sabe, no entanto, que o aumento em seu faturamento \u00e9 tempor\u00e1rio. Ele teme pelo dia que o voucher deixar de existir e j\u00e1 calcula que ter\u00e1 que fechar a empresa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-3.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-3.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376683\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>O sorveteiro Jo\u00e3o Ricardo Nazareth de Lima<\/p>\n\n\n\n<p>Surgiu tamb\u00e9m o com\u00e9rcio paralelo de voucher. Frederico Luis de Amorim, de 34 anos, trabalhava como gar\u00e7om num restaurante e tinha carteira assinada antes da sirene tocar. Depois disso, perdeu o emprego e hoje faz bicos, inclusive no restaurante de Gabriel. Recebe os vouchers para as refei\u00e7\u00f5es. H\u00e1 alguns meses passou a vender o voucher para comerciantes por 15 reais cada, e com o dinheiro paga a pens\u00e3o aliment\u00edcia de seu filho Pedro, de 9 anos. Amorim j\u00e1 conversou com empregados da Vale sobre isso, e foi advertido. \u201cMas eu vou fazer o qu\u00ea? E o que eles podem fazer? Se eu deixar de pagar a pens\u00e3o, eu posso ir preso\u201d, justifica Amorim. \u201cPrefiro vender o voucher.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>nquanto Amorim contava sua hist\u00f3ria, sua m\u00e3e, Elza Luiza Amorim, passava pela rua. Professora aposentada, deu aula na escola municipal da regi\u00e3o e costumava conhecer quase todo mundo. Aos 64 anos, mora na regi\u00e3o h\u00e1 43, n\u00e3o pensava em deixar o vilarejo at\u00e9 a sirene tocar. Sua casa n\u00e3o seria afetada caso a barragem rompesse, mas toda a situa\u00e7\u00e3o da cidade mexe com sua vida e seu humor. J\u00e1 n\u00e3o conhece as pessoas nem reconhece a cidade povoada por gente estranha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde fevereiro a Vale vem investindo em obras na regi\u00e3o. A mineradora reformou o Centro Comunit\u00e1rio e uma feira local, criou uma escola provis\u00f3ria em 25 dias e j\u00e1 est\u00e1 construindo outra, longe da zona de risco. A empresa come\u00e7ou a reformar inclusive a Capela de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, do s\u00e9culo XVIII, uma das primeiras constru\u00e7\u00f5es do distrito, que passou a ser povoado depois da descoberta de ouro. A Prefeitura de Nova Lima informou que fiscaliza a revitaliza\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, tombado pelo munic\u00edpio, e todas as outras obras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-5.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-5.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376685\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Lateral da Capela de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, com obras custeadas pela Vale; na placa,&nbsp; a rota de fuga em caso de rompimento da barragem<\/p>\n\n\n\n<p>As constru\u00e7\u00f5es e reformas fazem parte de um projeto que t\u00e9cnicos da Vale chamam de&nbsp;Plano de Requalifica\u00e7\u00e3o Urbana de Macacos. O planejamento, segundo a mineradora, \u00e9 feito em parceria com a prefeitura e a comunidade local.&nbsp;A requalifica\u00e7\u00e3o do distrito integra o Plano de Desenvolvimento de Territ\u00f3rios Impactados da Vale, que ter\u00e1 investimentos de cerca de 190 milh\u00f5es, destinados tamb\u00e9m a Bar\u00e3o de Cocais e Itabirito, ambos em Minas Gerais.&nbsp;O projeto prev\u00ea ainda a reforma do campo de futebol e de uma pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>No acesso a Macacos, caminh\u00f5es carregados sobem e descem o dia inteiro. Eles deixam um rastro de terra por onde passam, e quando chove, tudo fica lamacento, os moradores agora colecionam v\u00eddeos de acidentes na estrada. O trajeto&nbsp;de 25 km&nbsp;at\u00e9 Belo Horizonte, antes feito em pouco mais de meia hora, agora pode levar duas horas. \u201cEu n\u00e3o tenho mais disposi\u00e7\u00e3o para ir a BH. E se acontece algo no caminho?\u201d, pontua Elza. \u201cA \u00e1rea em que a lama passaria foi esvaziada, mas agora existem esses novos perigos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A mineradora est\u00e1 abrindo uma nova estrada de acesso ao vilarejo, porque a atual seria atingida pela lama. Tamb\u00e9m est\u00e1 construindo um novo muro de conten\u00e7\u00e3o para impedir que, em caso de vazamento, os rejeitos atinjam a bacia do Rio das Velhas, respons\u00e1vel por 40% do fornecimento de \u00e1gua de toda a regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte. As obras foram aprovadas em car\u00e1ter de urg\u00eancia, embora ainda n\u00e3o seja conclusivo que estejam sendo tocadas nos par\u00e2metros corretos, uma vez que o Minist\u00e9rio P\u00fablico aguarda nova auditoria para calcular os danos do poss\u00edvel rompimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A Vale declarou que, em mar\u00e7o deste ano, devem ser conclu\u00eddas as obras de conten\u00e7\u00e3o dos rejeitos em caso de rompimento da barragem. O prazo inicial era dezembro. Sobre a volta dos moradores para suas casas, n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o. Em nota, a mineradora afirmou que est\u00e1 \u201cempenhada em prestar assist\u00eancia aos moradores e reparar danos\u201d, e que \u201cas demandas b\u00e1sicas de sa\u00fade e nutri\u00e7\u00e3o s\u00e3o prontamente atendidas desde que sejam acompanhadas de um parecer emitido por especialista da \u00e1rea\u201d. Disse que os moradores da zona de risco ou os que possuem im\u00f3veis ou atividades comerciais nas \u00e1reas evacuadas j\u00e1 receberam \u201cdoa\u00e7\u00f5es financeiras\u201d da Vale no valor de R$ 5 mil para despesas emergenciais. Sobre as indeniza\u00e7\u00f5es, a mineradora informa que j\u00e1 fechou mais de 4 mil acordos individuais com lesados por rompimentos de barragens, sem especificar quantos em Macacos. Ao todo, a mineradora j\u00e1 destinou mais de R$ 2 bilh\u00f5es a esse tipo de a\u00e7\u00e3o em Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>lza \u00e9 sobrinha de Ruben Eust\u00e1quio de Amorim, de 72 anos, dono de uma loja de materiais de constru\u00e7\u00e3o. Ele vive na mesma rua desde que nasceu e \u00e9 filho de uma personagem da cidade, dona Dica, conhecida por ter aberto as portas da regi\u00e3o para o turismo. Foi ela quem fundou o primeiro restaurante de Macacos \u2013 um lugar badalado, que recebia artistas como Milton Nascimento e Elke Maravilha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-4.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/macacos-4.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376684\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Ruben Eust\u00e1quio de Amorim, dentro da loja de materiais de constru\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da sobrinha, Amorim n\u00e3o est\u00e1 contrariado com a situa\u00e7\u00e3o do vilarejo. \u201cFoi uma nuvem que passou, mas j\u00e1 t\u00e1 tudo normal. Todo mundo est\u00e1 recebendo seu voucher, meu menino entrou com um pedido de indeniza\u00e7\u00e3o e recebeu. Ent\u00e3o t\u00e1 tudo funcionando\u201d, conta num forte sotaque mineiro. Em outubro, seu filho recebeu uma indeniza\u00e7\u00e3o da Vale no valor de 246 mil reais. E a loja, segundo ele, tem prioridade no fornecimento de materiais para as obras em curso. \u201cEu, pelo menos, agrade\u00e7o \u00e0 Vale, porque n\u00e3o estou tendo perda\u201d, conta. \u201cAntes j\u00e1 estava ruim para todos, n\u00e3o estava circulando dinheiro por aqui\u201d, lembrando que a crise j\u00e1 vinha afetando o com\u00e9rcio local.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pousada em que estive hospedada em dezembro \u00faltimo, o gerente contou que j\u00e1 se esquivou de dar entrevista para grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o quer afastar o turismo. \u201cQuando sai uma mat\u00e9ria na Globo, por exemplo, se tenho alguma reserva marcada, perco na hora\u201d, explicou. \u201cTem dificuldades, mas a m\u00eddia amplifica demais a situa\u00e7\u00e3o.\u201d Num restaurante em que almocei, o dono me falou a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de Gabriel, D\u00e9bora Dumont, atenta para uma caracter\u00edstica imposta \u00e0 regi\u00e3o: a Vale separou os moradores em tr\u00eas categorias. Segundo a Defesa Civil, dos pouco mais de mil habitantes de Macacos, 384 s\u00e3o considerados moradores da Zona de Autossalvamento (ZAS); 2 350 pessoas, incluindo residentes de distritos vizinhos, s\u00e3o consideradas moradoras da Zona de Seguran\u00e7a Secund\u00e1ria (ZSS); e h\u00e1 os que est\u00e3o fora de qualquer \u00e1rea de risco. Tal divis\u00e3o criou uma esp\u00e9cie de rivalidade entre esses n\u00facleos, segundo Dumont. Ela diz que os moradores mant\u00eam grupos de WhatsApp separados e n\u00e3o est\u00e3o interessados em fazer processos conjuntos contra a mineradora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem mora na ZAS n\u00e3o pode voltar para casa at\u00e9 a Defesa Civil permitir. Quem mora na ZSS pode escolher voltar para casa, embora muita gente n\u00e3o queira se arriscar (alguns im\u00f3veis tidos como integrantes da Zona Secund\u00e1ria est\u00e3o a apenas 100 metros da \u00e1rea por onde a lama passaria, segundo a proje\u00e7\u00e3o da Vale). A m\u00e3e de Dumont, Guiomar, dona de uma casa na ZSS, brigou com os moradores da ZAS para entrar no grupo deles no WhatsApp. Ela j\u00e1 queria vender a casa que tem no vilarejo, onde a filha e o genro estavam morando, antes da sirene tocar. Agora n\u00e3o encontra comprador para a sua propriedade, e a Vale se nega a arrematar o im\u00f3vel. Embora a casa n\u00e3o esteja, nos c\u00e1lculos da mineradora, no caminho da lama, o im\u00f3vel deixou de valer qualquer dinheiro, pois j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais comprador.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG-2694-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG-2694-1.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-376977\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Estrada de acesso ao vilarejo<\/p>\n\n\n\n<p>Dumont relata que j\u00e1 ouviu discuss\u00f5es entre moradores sobre quem tem mais ou menos direitos e que algumas amizades se desfizeram. Ela, que recebe&nbsp; da mineradora fralda para Caetano, lembra uma vez em que n\u00e3o conseguiu buscar os pacotes no pronto-atendimento da empresa e teve que pedir para receber na pousada. Quando os entregadores chegaram, ela se desculpou pelo trabalho. Os empregados da Vale disseram que era at\u00e9 melhor assim, porque n\u00e3o criava \u201cinveja\u201d nos outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Vale destruiu o senso de comunidade da regi\u00e3o\u201d, conta Dumont. \u201cIsso \u00e9 maquiav\u00e9lico, e tenho certeza de que eles fazem isso de prop\u00f3sito, porque os \u00fanicos beneficiados disso s\u00e3o eles.\u201d Os valores das indeniza\u00e7\u00f5es j\u00e1 liberadas variam muito. A empresa prefere analisar caso a caso. A promotora de Nova Lima, Cl\u00e1udia Ignez, conta que as indeniza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 foram distribu\u00eddas poder\u00e3o ser analisadas novamente ao final do processo, caso seja conclu\u00eddo que a mineradora pagou valores abaixo dos danos causados.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o lembra um grande canteiro de obras, onde se enxerga um rastro de areia avermelhada e homens com capacetes em todos os lugares. A Vale passou tamb\u00e9m a contratar, por meio da Preserves, uma empresa terceirizada, pessoas para monitorarem as estradas. A cada esquina, duplas de olheiros vestidos com coletes fluorescentes ficam sentadas 24 horas passando comandos por walkie-talkies. No hor\u00e1rio de almo\u00e7o, os restaurantes ficam lotados de pessoas de coletes, sejam olheiros ou oper\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando sai na rua, Elza, a professora aposentada, quase n\u00e3o reconhece ningu\u00e9m, pois a maioria de seus amigos saiu de casa e hoje est\u00e1 em pousadas afastadas ou hot\u00e9is em Belo Horizonte, e muita gente nova chegou ao vilarejo. \u201cN\u00e3o existe algu\u00e9m que n\u00e3o tenha sido afetado por isso tudo\u201d, suspira. Depois de&nbsp;43&nbsp;anos morando ali, a professora que ensinou as crian\u00e7as da cidade a ler, que conhecia todo mundo, que se sentia em casa em qualquer rua de Macacos, passou a fazer uma coisa que nunca fez na vida: trancar o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amea\u00e7ado por barragem da Vale, vilarejo hist\u00f3rico do interior de Minas tem moeda paralela, moradores divididos em categorias e uma espera que n\u00e3o permite planos\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-25908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6JS","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25908"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25908\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25910,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25908\/revisions\/25910"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}