{"id":26524,"date":"2020-02-15T07:41:57","date_gmt":"2020-02-15T11:41:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=26524"},"modified":"2020-02-15T07:42:04","modified_gmt":"2020-02-15T11:42:04","slug":"asfaltando-a-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/02\/15\/asfaltando-a-amazonia\/","title":{"rendered":"ASFALTANDO A AMAZ\u00d4NIA"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"827\" data-attachment-id=\"26525\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/02\/15\/asfaltando-a-amazonia\/image-40-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?fit=1200%2C827\" data-orig-size=\"1200,827\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-40\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?fit=300%2C207\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?fit=600%2C414\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?fit=600%2C414\" alt=\"\" class=\"wp-image-26525\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?resize=300%2C207 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?resize=1024%2C706 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?resize=768%2C529 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/image-40.jpeg?resize=435%2C300 435w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Bolsonaro inaugura trecho de rodovia federal e planeja mais mil quil\u00f4metros cortando \u00e1reas protegidas de floresta no Norte do Par\u00e1&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>FERNANDA WENZEL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>agricultor Deuzimar Fernandes da Costa chega em casa suado, com o fac\u00e3o na m\u00e3o. Na ro\u00e7a de mandioca nos fundos da moradia, o ar quente da Amaz\u00f4nia se mistura com a poeira vermelha da estrada de terra que passa no munic\u00edpio de Oriximin\u00e1. Os autom\u00f3veis trafegam com cuidado para desviar dos buracos. \u201cA vida aqui \u00e9 do pesado para casa, de casa para o pesado\u201d, explicou. Mas uma promessa vinda do outro lado do Rio Amazonas faz Costa sonhar: a chegada da BR-163, asfaltada. \u201cCom a BR ia vir energia el\u00e9trica, ind\u00fastria, da\u00ed esse servi\u00e7o pesado parava.\u201d O motorista que sai da casa de Costa rumo ao Norte n\u00e3o consegue ir muito adiante. Logo se depara com um maci\u00e7o de floresta, que se estende a perder de vista. Dali para dentro, a promessa da BR vira pesadelo. \u201cA gente vai correr o risco de invadirem nosso territ\u00f3rio, nossa floresta\u201d, afirmou Gerv\u00e1sio dos Santos Oliveira, coordenador da Associa\u00e7\u00e3o da Comunidade de Remanescentes de Quilombos do Ariramba (Acorqa), enquanto limpava o peixe fresco, rec\u00e9m-pescado no Rio Cumin\u00e1.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do Rio Amazonas,&nbsp;o presidente Jair Bolsonaro se prepara para inaugurar nesta sexta-feira (14) o asfaltamento de mais 51 km da BR-163. Pela primeira vez desde que foi inaugurada pelo&nbsp;general Ernesto Geisel, em 1976, o trecho que liga&nbsp;Cuiab\u00e1, no Mato Grosso, at\u00e9 o porto de Miritituba, no Par\u00e1, est\u00e1 totalmente pavimentado.\u201cEm respeito ao compromisso que assumimos com caminhoneiros, produtores e cidad\u00e3os que aguardam h\u00e1 45 anos por este dia, comunicamos a conclus\u00e3o da pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-163 at\u00e9 Miritituba\/PA\u201d, comemorou o presidente no Twitter nesta ter\u00e7a-feira. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit),&nbsp; faltam mais 57 km do trecho entre Miritituba e Santar\u00e9m para que toda a BR-163 no Par\u00e1 esteja pavimentada.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro projeto gestado pela ditadura que o governo Bolsonaro fala em concluir \u00e9 a&nbsp;extens\u00e3o da BR-163 sobre a Calha Norte do Par\u00e1 \u2013 maior bloco de florestas protegidas do mundo, que se estende desde o Rio Amazonas at\u00e9 a fronteira com o Suriname. A ideia \u00e9 construir uma ponte sobre o Rio Amazonas e, cortando a ro\u00e7a do agricultor Costa e a terra quilombola Ariramba, estender a rodovia por cerca de 1 mil km sobre a Calha Norte at\u00e9 o Suriname. O projeto Bar\u00e3o do Rio Branco, homenagem ao diplomata que negociou as fronteiras brasileiras no s\u00e9culo XIX, inclui ainda a constru\u00e7\u00e3o de uma hidrel\u00e9trica no Rio Trombetas. O plano foi anunciado em janeiro de 2019 pelo general Maynard Marques de Santa Rosa, ent\u00e3o secret\u00e1rio especial de Assuntos Estrat\u00e9gicos,&nbsp;<a href=\"http:\/\/redenacionalderadio.com.br\/programas\/materias-da-voz\/21-01-19-graziella-mendonca-entrevista-general-santa-rosa.mp3\/view\">em entrevista para a&nbsp;<em>Voz do Brasil<\/em><\/a>. \u201cVamos estender a BR-163 de Santar\u00e9m at\u00e9 a fronteira com o Suriname. Al\u00e9m das demandas naturais do escoamento da soja do Centro-Oeste, existem outros benef\u00edcios que v\u00e3o advir da implementa\u00e7\u00e3o dessa rodovia, integrando uma \u00e1rea at\u00e9 ent\u00e3o des\u00e9rtica\u201d, disse o general.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril do mesmo ano, linhas gerais do projeto foram apresentadas a pol\u00edticos, empres\u00e1rios e ruralistas na sede da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do Par\u00e1, em Bel\u00e9m. Em julho, a Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, respons\u00e1vel pela proposta, informava que o desenvolvimento do projeto dependia da publica\u00e7\u00e3o de um decreto criando um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI). At\u00e9 hoje o decreto n\u00e3o foi publicado. Procurado novamente nesta semana, o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o respondeu \u00e0s quest\u00f5es enviadas pela reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>A Calha Norte \u00e9 uma \u00e1rea de 28 milh\u00f5es de hectares de floresta praticamente intocada, do tamanho do Reino Unido, que tem 80% do territ\u00f3rio protegido por Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (UCs), terras ind\u00edgenas e quilombolas. Integra o chamado Escudo das Guianas, e 40% das esp\u00e9cies de animais e plantas que vivem no escudo n\u00e3o existem em nenhum outro lugar do mundo. O tra\u00e7ado da extens\u00e3o da BR-163 n\u00e3o est\u00e1 oficialmente definido. Mas, segundo informa\u00e7\u00f5es do&nbsp;<a href=\"http:\/\/servicos.dnit.gov.br\/dnitcloud\/index.php\/s\/8gXNYH53mabZwaf#pdfviewer\">site do Dnit,<\/a>&nbsp;o tra\u00e7ado previsto para a extens\u00e3o da rodovia cortaria quatro Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, seis terras quilombolas e duas terras ind\u00edgenas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/familia_aldeiasantoantonio_140220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-377872\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Gerv\u00e1sio Oliveira e sua fam\u00edlia da Terra Quilombola Oriximin\u00e1, \u00e0s margens do Rio Amazonas \u2013 Fotos de Fred Rahal Mauro<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/terra_quilombola_140220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-377874\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A pesquisadora do Imazon Jakeline Pereira alerta que os impactos a BR-163 na margem Norte do Rio Amazonas v\u00e3o muito al\u00e9m das 15 mil pessoas que vivem nestas comunidades tradicionais. Na \u00e1rea se formam os rios voadores, corredores de \u00e1gua que evaporam na Amaz\u00f4nia e se transformam em chuvas no Sul do Brasil. Apenas uma das quatro Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o que podem vir a ser cortadas pela estrada \u2013 a Floresta Estadual do Trombetas \u2013 armazena, de acordo com seu plano de manejo, 2,3 bilh\u00f5es de toneladas de carbono, mais CO\u00b2 que o Brasil inteiro emitiu em 2018, segundo o Sistema de Estimativa de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa (Seeg).<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada da&nbsp;BR-163 ao Par\u00e1, em 1976, est\u00e1 na origem de um processo de ocupa\u00e7\u00e3o desordenada da regi\u00e3o. No artigo&nbsp;<em>Terra de Ningu\u00e9m<\/em>, publicado em 1977 no livro&nbsp;<em>Amaz\u00f4nia, o Anteato da Destrui\u00e7\u00e3o<\/em>, o jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto relatou surtos de mal\u00e1ria, falsifica\u00e7\u00f5es de t\u00edtulos de terra e a derrubada da floresta para cria\u00e7\u00e3o de gado. D\u00e9cadas depois, nos tr\u00eas munic\u00edpios cortados pela rodovia \u2013 Novo Progresso, Altamira e Trair\u00e3o \u2013 perdeu-se uma \u00e1rea de floresta equivalente a dez cidades do Rio de Janeiro entre 2000 e 2018, segundo dados do Prodes, programa de monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nem mesmo as Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o criadas ao longo da rodovia ficaram imunes ao avan\u00e7o da pecu\u00e1ria, da soja e do garimpo. Um exemplo \u00e9 a maior floresta nacional do Brasil, a Flona do Jamanxim, que \u00e9 a UC federal mais desmatada do pa\u00eds. A \u00e1rea derrubada equivale a 180 mil campos de futebol, tamb\u00e9m de acordo com o Prodes. J\u00e1 a cidade de Novo Progresso ganharia as manchetes dos jornais de todo mundo em 2019. Ali foi planejado o \u201cDia do Fogo\u201d, quando fazendeiros, madeireiros e empres\u00e1rios combinaram de incendiar a floresta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o do desmatamento ao longo da BR-163 no Par\u00e1, de 1984 a 2016:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mapa 163 FINAL   convertido para vi\u0301deo\" width=\"600\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Z8WUQKZnRKA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>a&nbsp;Calha&nbsp;Norte, onde estudos do Imazon mostram que 90% da floresta est\u00e1 intocada, o desmatamento est\u00e1 restrito ao Sul, no entorno dos nove munic\u00edpios localizados \u00e0s margens do Rio Amazonas. Principal combust\u00edvel do desmatamento, a pecu\u00e1ria cresceu 87% na regi\u00e3o desde 2000, segundo o IBGE. Com o an\u00fancio do projeto Bar\u00e3o do Rio Branco e a perspectiva de extens\u00e3o da BR-163, a grilagem ganhou f\u00f4lego pela expectativa de valoriza\u00e7\u00e3o das terras ao longo da futura rodovia. Raimundo Torres da Silva, de 71 anos, tem uma fazenda no interior de Oriximin\u00e1, um dos munic\u00edpios que seriam cortados pela estrada. Apesar do bigode e cabelos grisalhos, o corpo \u00e9 r\u00edgido e a l\u00edngua \u00e9 ligeira. \u201cS\u00f3 com essa not\u00edcia de que v\u00e3o abrir a estrada j\u00e1 tem muita gente a\u00ed marcando terra. [\u2026] \u00c9 a famosa invas\u00e3o. Se fizer a estrada vai vindo gente, e n\u00e3o \u00e9 pouca n\u00e3o\u201d, explica Silva, enquanto observa o vaiv\u00e9m dos caminh\u00f5es carregados de gado e madeira. Durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, \u00e9 tanta lama que at\u00e9 o \u00f4nibus escolar tem dificuldade de passar. Por isso, quem mora nesta regi\u00e3o torce para que a BR-163 passe por aqui e v\u00ea as preocupa\u00e7\u00f5es com o meio ambiente como um entrave ao desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada da rodovia tamb\u00e9m alimenta a imagina\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos e empres\u00e1rios da regi\u00e3o, que reclamam da estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e da depend\u00eancia da pecu\u00e1ria. Em Oriximin\u00e1, est\u00e3o em andamento duas obras do governo federal: a constru\u00e7\u00e3o de um novo terminal hidrovi\u00e1rio e a ilumina\u00e7\u00e3o do aeroporto. Para o prefeito Ant\u00f4nio Odin\u00e9lio (PR), conhecido como Ludugero, s\u00e3o sinais de que o projeto Bar\u00e3o do Rio Branco sai mesmo do papel. O prefeito nos recebeu em seu gabinete numa segunda-feira, dia reservado para ouvir demandas dos moradores do interior do munic\u00edpio. Dezenas de pessoas se espalhavam pelos corredores, abanando-se para enganar o calor. \u201cTemos 23 etnias, se eu n\u00e3o estou enganado, e comunidades quilombolas s\u00e3o mais de vinte que vivem em torno do munic\u00edpio. E o munic\u00edpio \u00e9 que arca com toda essa situa\u00e7\u00e3o\u201d, explica o prefeito, entre um atendimento e outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Oriximin\u00e1 atrai inveja das cidades vizinhas. Ali est\u00e1 instalada a Minera\u00e7\u00e3o Rio do Norte, subsidi\u00e1ria da Vale e maior produtora de bauxita do pa\u00eds, que rende em m\u00e9dia R$ 2 milh\u00f5es por m\u00eas aos cofres do munic\u00edpio. Mas assim como o boi, que sai vivo para ser abatido em Manaus, a bauxita tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 beneficiada na cidade. \u201cO munic\u00edpio precisa agregar valor \u00e0 mat\u00e9ria-prima\u201d, diz o prefeito. O munic\u00edpio seria duplamente contemplado pelo projeto Bar\u00e3o do Rio Branco: ganharia a BR-163 e a hidrel\u00e9trica no Rio Trombetas, na comunidade de Cachoeira Porteira. Segundo o governo federal, a usina iria acabar com os apag\u00f5es nas cidades de Manaus, Macap\u00e1 e Boa Vista, al\u00e9m de garantir o abastecimento energ\u00e9tico de toda a regi\u00e3o da Calha Norte. Segundo&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/18CDoQwj-5Qj2111fZYYTcS_CvwY7q0Og\/view?usp=sharing\">nota t\u00e9cnica<\/a>&nbsp;produzida por quatro entidades ind\u00edgenas, para isso seria preciso inundar duas terras ind\u00edgenas e um territ\u00f3rio quilombola, deslocando 2 700 pessoas. Pelo menos uma Reserva Biol\u00f3gica e duas Florestas Estaduais tamb\u00e9m seriam impactadas, de acordo com levantamento da Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio de S\u00e3o Paulo. \u201cDizem que a hidrel\u00e9trica de Cachoeira Porteira seria a melhor de todo pa\u00eds, porque o dano \u00e9 bem pequeno na quest\u00e3o ambiental, e que fica numa margem que vai afetar pouqu\u00edssima gente\u201d, comemora o prefeito.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/mapa_br163_140220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-377873\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por onde deve passar a extens\u00e3o da BR-163&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No munic\u00edpio vizinho, \u00d3bidos, o porto \u00e0s margens do Rio Amazonas vai ser ampliado pelo governo federal. A cidade tamb\u00e9m vive a expectativa do in\u00edcio das obras do chamado linh\u00e3o, uma extens\u00e3o da rede el\u00e9trica que vai atravessar o Rio Amazonas e levar \u00e0 cidade a energia produzida na hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed. Duas comunidades quilombolas ser\u00e3o cortadas pela linha de transmiss\u00e3o e se op\u00f5em ao projeto. O projeto Bar\u00e3o do Rio Branco seria a cereja do bolo, no entender do presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da cidade, Giovanni Bentes Giordano: \u201cSeria uma reden\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, pois atrairia investimentos.\u201d Giordano acredita que o resultado geral \u00e9 positivo, mesmo para as comunidades tradicionais. \u201cNingu\u00e9m d\u00e1 alternativa para os nossos irm\u00e3os ind\u00edgenas fazerem alguma coisa. O meu pensamento, e tamb\u00e9m o que est\u00e1 na moda agora, \u00e9 de dar uma vida melhor para eles. [\u2026] eles querem crescer, evoluir\u201d, argumenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Calha Norte tamb\u00e9m desperta o interesse das empresas de minera\u00e7\u00e3o. Segundo a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio de S\u00e3o Paulo, apenas no munic\u00edpio de Oriximin\u00e1 existem 265 processos miner\u00e1rios dentro de terras ind\u00edgenas tramitando junto \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o, e 84 dentro de terras quilombolas. Essas empresas largam na frente caso v\u00e1 adiante o projeto que libera a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas, protocolado no \u00faltimo dia 5 de fevereiro pelo presidente Jair Bolsonaro. Outro atrativo do projeto Bar\u00e3o do Rio Branco para o setor de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 a proximidade da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), uma \u00e1rea do tamanho da Dinamarca e rica em cobre, ouro, tit\u00e2nio, t\u00e2ntalo e tungst\u00eanio. Em 2017, o presidente Michel Temer tentou abrir a \u00e1rea para explora\u00e7\u00e3o da iniciativa privada, medida que voltou a ser defendida em 2019 por Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>A extens\u00e3o da BR-163 foi&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2019\/11\/da-para-esperar-4-anos-de-um-liberal-democrata-apos-30-de-centro-esquerda-diz-guedes.shtml\">citada<\/a>&nbsp;pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como uma forma de aumentar a competitividade do Brasil e reduzir o tempo de transporte da soja at\u00e9 a China. Quando anunciou o projeto em janeiro de 2019, o general Maynard Marques de Santa Rosa disse que levar a rodovia at\u00e9 o Suriname atenderia \u00e0s \u201cdemandas naturais do escoamento da soja do Centro-Oeste\u201d. Mas esta rota \u00e9 desnecess\u00e1ria, afirma Edeon Vaz Ferreira, consultor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Produtores de Soja e diretor-executivo do Movimento Pr\u00f3-Log\u00edstica do Mato Grosso. \u201cN\u00e3o traria benef\u00edcio, porque aumentaria o trecho rodovi\u00e1rio. Se aumentar em qualquer quil\u00f4metro o trecho rodovi\u00e1rio vai estar encarecendo o escoamento da safra, e n\u00e3o barateando\u201d, explica. Segundo Ferreira, os portos j\u00e1 existentes no Rio Amazonas d\u00e3o conta do escoamento de gr\u00e3os pelo Norte do Brasil e ainda operam com sobra. O terminal de Miritituba, no Par\u00e1, pode dobrar sua movimenta\u00e7\u00e3o de carga sem precisar de amplia\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o porto de Santar\u00e9m opera com folga de 25% em sua capacidade instalada: exporta 3,8 milh\u00f5es de toneladas, mas tem capacidade para 5 milh\u00f5es. O principal entrave para o aproveitamento total destes terminais eram as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es da BR-163, problema resolvido com o asfaltamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o projeto Bar\u00e3o do Rio Branco, o governo federal adota o mesmo lema que motivou a abertura da BR-163 pela ditadura militar: \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d. A preocupa\u00e7\u00e3o com a soberania nacional ficou clara nos slides apresentados durante encontro realizado em abril do ano passado com representantes do governo, pol\u00edticos, empres\u00e1rios e ruralistas na sede da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do Par\u00e1, em Bel\u00e9m. O material apontava a atua\u00e7\u00e3o de ONGs ambientalistas e at\u00e9 mesmo o S\u00ednodo do Vaticano sobre a Amaz\u00f4nia como riscos \u00e0 soberania brasileira na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O bi\u00f3logo e cientista norte-americano Philip Fearnside \u00e9 respeitado internacionalmente por suas pesquisas sobre desmatamento e coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, queimadas, impactos de grande projetos de infraestrutura e manejo sustent\u00e1vel da floresta. Integrou a equipe do Painel Intergovernamental Sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) que venceu o Nobel da Paz em 2007 e hoje \u00e9 pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, \u00f3rg\u00e3o ligado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e sediado em Manaus. Os estudos de Fearnside mostram que a grilagem de terras \u00e9 sempre o primeiro efeito de uma estrada \u2013 e come\u00e7a antes mesmo da sua constru\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 garantir a posse das \u00e1reas antes que elas se valorizem. \u201cEste \u00e9 o primeiro motivo para desmatar, garantir a posse da terra\u201d, explica Fearnside. Depois de aberta a estrada, chegam madeireiras, criadores de gado e uma s\u00e9rie de outras atividades legais e ilegais. \u201cO impacto da abertura de uma estrada \u00e9 permanente, para sempre e imprevis\u00edvel. Uma rodovia gera outra. Tanto que abriram a BR-230 [<em>Transamaz\u00f4nica<\/em>], depois surgiu a BR-163, depois a BR-319 [<em>Manaus-Porto Velho<\/em>], e assim por diante. E todas as a\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que v\u00e3o ocorrer ao longo da rodovia tamb\u00e9m s\u00e3o imprevis\u00edveis\u201d, afirma um servidor federal que trabalhou por anos com fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental na regi\u00e3o da BR-163 no Par\u00e1, mas prefere n\u00e3o se identificar.<\/p>\n\n\n\n<p>Fearnside d\u00e1 dois exemplos de obras com custo ambiental para a Amaz\u00f4nia. A Usina de Belo Monte, uma das maiores do mundo, foi constru\u00edda ignorando os per\u00edodos de baixa vaz\u00e3o do rio que a abastece, o Xingu. Devido \u00e0 falta de \u00e1gua, a estrutura tem que ficar completamente desligada por cinco meses, todos os anos. Apesar de ter 11.233 MW de pot\u00eancia, Belo Monte entrega uma m\u00e9dia de 4.571 MW por ano, 40% do prometido. J\u00e1 a hidrel\u00e9trica de Balbina foi t\u00e3o cara e a capacidade de gera\u00e7\u00e3o de energia \u00e9 t\u00e3o baixa, que cada quilowatt de capacidade instalada custou US$ 3 mil. Para se ter uma ideia, os custos nas hidrel\u00e9tricas brasileiras de Tucuru\u00ed e Itaipu foram de US$ 675\/quilowatt US$ 1.206\/quilowatt, respectivamente. Para Balbina ser constru\u00edda, foi preciso inundar quase 3 mil km\u00b2 e deslocar duas aldeias ind\u00edgenas. \u201cA falta de racionalidade econ\u00f4mica n\u00e3o impede que sejam feitos grandes projetos, quando h\u00e1 motivos pol\u00edticos\u201d, diz o Fearnside.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No outro extremo da Calha Norte, ponto de chegada da BR-163, o cacique Aguinaldo Waratana Kaxuyana caminha orgulhoso pela aldeia Santo Ant\u00f4nio. Mostra a fartura de comida e o capricho das moradias, s\u00f3lidas e limpas. As mulheres trabalham na prepara\u00e7\u00e3o do beiju e da sakura, comida e bebida feitas de mandioca, enquanto as crian\u00e7as se banham no Rio Paru do Oeste. Uma tranquilidade que pode acabar com a chegada da estrada. \u201cO branco n\u00e3o sabe tomar conta da floresta que nem os ind\u00edgenas. Preferimos ficar longe, afastados, como estamos agora\u201d, diz o cacique.<\/p>\n\n\n\n<p>A aldeia Santo Ant\u00f4nio fica na terra ind\u00edgena Tumucumaque, pr\u00f3xima \u00e0 fronteira com o Suriname. Para chegar l\u00e1 \u00e9 preciso fretar um avi\u00e3o monomotor em Santar\u00e9m e sacudir por duas horas sobre uma floresta fechada, at\u00e9 avistar com al\u00edvio as casas na beira do rio e a pista de pouso de ch\u00e3o batido. A aldeia foi criada h\u00e1 menos de vinte anos e abriga cerca de quinze fam\u00edlias das etnias Kaxuyana e Tiriy\u00f3. Antes, elas viviam na Miss\u00e3o Tiriy\u00f3s, 150 km ao Norte, para onde foram levadas \u00e0 for\u00e7a nos anos 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, quando a terra ind\u00edgena do Tumucumaque foi homologada, as fam\u00edlias voltaram a se espalhar pela Calha Norte e hoje n\u00e3o querem saber de novas interven\u00e7\u00f5es do homem branco. Zenilton Kinumu Tiriy\u00f3 Kaxuyana, de 29 anos, anda pela aldeia de bermuda e camiseta. O rapaz participou do curso de forma\u00e7\u00e3o de jovens l\u00edderes promovido pelo Instituto de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena (Iep\u00e9), e quer dar continuidade \u00e0 luta dos mais velhos na defesa de seu povo. Zenilton sabe, pelo relato dos av\u00f3s, que o conv\u00edvio com os karaiwas, como s\u00e3o chamados os homens brancos, n\u00e3o tem sido pac\u00edfico. \u201cMeus av\u00f3s viviam bem. Depois os karaiwas chegaram, trouxeram doen\u00e7a, e os antigos morreram. Isso ficou na mem\u00f3ria. Ficam brincando com a gente. Eles deveriam nos deixar em paz.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/aldeiasantoantonio_140220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-377870\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Menina da aldeia Santo Ant\u00f4nio e o cacique Aguinaldo Kaxuyana: medo de perder a paz com a chegada de uma rodovia federal \u00e0 regi\u00e3o \u2013 Fotos de Fred Rahal Mauro<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cacique_aldeiasantoantonio_140220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-377871\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Esta reportagem foi produzida com o apoio do Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center e ((o))eco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolsonaro inaugura trecho de rodovia federal e planeja mais mil quil\u00f4metros cortando \u00e1reas protegidas de floresta no Norte do Par\u00e1&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-26524","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6TO","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26524"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26526,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26524\/revisions\/26526"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}