{"id":26579,"date":"2020-02-18T21:20:03","date_gmt":"2020-02-19T01:20:03","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=26579"},"modified":"2020-02-18T21:20:11","modified_gmt":"2020-02-19T01:20:11","slug":"fantasias-na-mira-do-politicamente-correto-luiz-antonio-simas-opina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/02\/18\/fantasias-na-mira-do-politicamente-correto-luiz-antonio-simas-opina\/","title":{"rendered":"Fantasias na mira do politicamente correto: Luiz Antonio Simas opina"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/entretenimento\/3f\/2020\/02\/08\/componentes-do-bloco-cacique-de-ramos-1581187632610_v2_900x506.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Componentes do Bloco Cacique de Ramos - Luciola Villela\/ UOL\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>No UOL &#8211; Um dos maiores estudiosos do Carnaval, o historiador carioca Luiz Antonio Simas se diz surpreso com a grande pol\u00eamica da folia em 2020: a lista das fantasias politicamente corretas. A discuss\u00e3o, que parecia resolvida depois de ter chamado aten\u00e7\u00e3o h\u00e1 poucos anos, voltou a pegar fogo por causa da rela\u00e7\u00e3o divulgada pela Prefeitura de Belo Horizonte para indicar quais fantasias n\u00e3o s\u00e3o adequadas. &#8220;Eu n\u00e3o gosto. Acho que cria uma marola para o Carnaval que \u00e9 complicada&#8221;, opina Simas, autor de 18 livros sobre a cultura popular brasileira. <\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>V\u00e1rias caracteriza\u00e7\u00f5es muito populares est\u00e3o na lista, inclusive a de \u00edndio, o que levou internautas a fazerem cr\u00edticas ao tradicional bloco Cacique  de Ramos, em cuja quadra surgiram nomes valiosos do samba, como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Jorge Arag\u00e3o. Todos os componentes do bloco desfilam fantasiados de \u00edndio. &#8221; As pessoas n\u00e3o est\u00e3o entendendo: o Cacique tem 60 anos, \u00e9 um neg\u00f3cio s\u00e9rio. Tem preceito religioso, s\u00e3o o sagrado e o profano convivendo ali&#8221;, argumenta o historiador. &#8220;O Cacique \u00e9 que tem que conscientizar a cidade.&#8221; Quem insistir em encarnar qualquer desses personagens pode ser &#8220;cancelado&#8221;, g\u00edria que significa exclu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p> Simas acredita que essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que existe somente em uma bolha que n\u00e3o se comunica com o povo e vai contra o esp\u00edrito da folia, que \u00e9 o de invers\u00e3o de pap\u00e9is. Ele sugere pondera\u00e7\u00e3o  para discutir o assunto e que n\u00e3o se aplique a mesma regra a todos os casos: <\/p>\n\n\n\n<p> UOL &#8211; Voc\u00ea usou suas redes sociais para defender o tradicional bloco Cacique de Ramos que estava sendo atacado porque usa fantasia de \u00edndio. Como encara esse debate sobre o politicamente correto no Carnaval? Luiz Antonio Simas &#8211; Soube de uma figura que tinha sido &#8220;cancelada&#8221; (a palavra da moda) num bloco porque estava vestida de \u00edndio. Nos coment\u00e1rios, surgiu o assunto Cacique de Ramos e houve quem comentasse que os blocos tradicionais v\u00e3o ter que se adaptar. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o entendendo: o Cacique tem 60 anos, \u00e9 um neg\u00f3cio s\u00e9rio. Tem preceito religioso, s\u00e3o o sagrado e o profano convivendo ali. Teve o ax\u00e9 de candombl\u00e9 plantado na tamarineira pelo pessoal da M\u00e3e Menininha   Gantois. Eles n\u00e3o fazem nada que n\u00e3o seja autorizado. Al\u00e9m disso, tem o seguinte: a fantasia deles n\u00e3o \u00e9 de \u00edndio brasileiro, \u00e9 o \u00edndio apache dos filmes de Tom Mix (protagonista de faroeste americano nos anos 1920). <\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea pega um bloco de 60 anos, formado por pretos do sub\u00farbio do Rio de Janeiro&#8230; n\u00e3o se pode falar em racismo nesse caso. Fico numa posi\u00e7\u00e3o complicada porque n\u00e3o tenho nessa altura nenhum lugar de fala. Mas digo que o Cacique n\u00e3o faz nada que n\u00e3o seja referendado pela ancestralidade, \u00e9 uma coisa visceral. A gente tem que entender que o Carnaval tem muito de profanar o sagrado e sacralizar o profano. Quem acha que aquilo (o bloco) \u00e9 profano, est\u00e1 enganado, que aquilo (o bloco) \u00e9 profano, est\u00e1 enganado, ali tem preceito, tem uma coisa muito s\u00e9ria. H\u00e1 quem diga que \u00e9 preciso conscientizar o Cacique de Ramos para o politicamente correto. O que acha disso? Achei isso um absurdo. Como vai se chegar para uma institui\u00e7\u00e3o de 60 anos e falar isso? A esquerda do Rio de Janeiro querer conscientizar a turma do Cacique de Ramos? N\u00e3o tem sentido nenhum esse neg\u00f3cio. O Cacique \u00e9 que tem que conscientizar a cidade. O bloco \u00e9 que \u00e9 o elemento civilizat\u00f3rio. N\u00e3o somos n\u00f3s que vamos chegar ali com aquela postura paternalista para dizer: &#8220;N\u00e3o \u00e9 assim&#8230;&#8221; \u00c9 muito complicado isso. <\/p>\n\n\n\n<p> N\u00e3o acha que est\u00e3o deixando de levar em conta que o Carnaval \u00e9 o momento de se viver um personagem diferente do que voc\u00ea \u00e9 na vida cotidiana? Claro. Carnaval \u00e9 a festa da invers\u00e3o. Se voc\u00ea chega na festa vestido daquilo que voc\u00ea \u00e9 durante o resto do ano, o sentido morre. \u00c9 \u00f3bvio que temos que ter a dimens\u00e3o do tempo. Existem certas fantasias que o tempo mostra que n\u00e3o tem sentido. N\u00e3o \u00e9 vale tudo. N\u00e3o d\u00e1 para o cara se fantasiar de nazista, ou emular um espancador de mulher, ou aparecer como mach\u00e3o absoluto. N\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em quest\u00e3o. Mas n\u00e3o pode se perder de vista que \u00e9 a festa da invers\u00e3o e ningu\u00e9m est\u00e1 ali para fazer um desfile patri\u00f3tico. A gente n\u00e3o pode generalizar, \u00e9  \u00e9 preciso entender que cada caso \u00e9 um caso. O black face \u00e9 complicado, porque tem uma origem terr\u00edvel, de quando o negro n\u00e3o podia se apresentar publicamente em cinema e aparece um branco que se fantasia de preto. Ali tem uma carga pesada. A nega maluca tamb\u00e9m. Mas se a gente colocar tudo no mesmo saco, complica. Acho que tem que ter uma pondera\u00e7\u00e3o, est\u00e3o considerando que tudo \u00e9 a mesma coisa. O cara pode estar ali sem emular nada, pode ser uma homenagem. Quando se cria um discurso homog\u00eaneo para uma coisa que \u00e9 muito distinta, \u00e9 complicado. A gente n\u00e3o vai poder se fantasiar de nada. Acho que ningu\u00e9m se fantasia de \u00edndio com a inten\u00e7\u00e3o de ridicularizar o \u00edndio. A gente est\u00e1 num  momento muito complicado, levando muita pancada, no meio do genoc\u00eddio ind\u00edgena, e a\u00ed vamos ficar preocupado com o cara que est\u00e1 usando um cocar&#8230; \u00e9 quase ris\u00edvel. Acho que \u00e9 uma pauta fechada de uma bolha muito restrita, que n\u00e3o comunica com o pov\u00e3o. Imagina chegar no sub\u00farbio e dizer: voc\u00ea n\u00e3o pode se fantasiar disso e disso, o cacique n\u00e3o pode&#8230; N\u00e3o faz o menor sentido. Entre as fantasias n\u00e3o recomendadas est\u00e1 tamb\u00e9m talvez a mais tradicional, que \u00e9 o homem que se veste de mulher. Mas n\u00e3o \u00e9 uma festa de invers\u00e3o? Acho que est\u00e1 faltando dimens\u00e3o do que \u00e9 o Carnaval. \u00c9 um fen\u00f4meno psicanal\u00edtico. <\/p>\n\n\n\n<p>O Mois\u00e9s Xerife, zagueiro mais brutal do futebol carioca (jogou na d\u00e9cada de 70),  sa\u00eda no bloco das piranhas. A gente est\u00e1 pautando o Carnaval por uma l\u00f3gica que n\u00e3o \u00e9 a dele, onde voc\u00ea experimenta o que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. Temos uma direita reacion\u00e1ria, conservadora, mas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, eu conhe\u00e7o muita gente que est\u00e1 com medo de se fantasiar por causa da esquerda, n\u00e3o querem ser &#8220;cancelados&#8221;. \u00c9 moralismo. Mas voc\u00ea reconhece que essa discuss\u00e3o identit\u00e1ria \u00e9 importante? Obviamente tem coisas que s\u00e3o inadmiss\u00edveis, que tem que ponderar, mas a gente chegou a um ponto que n\u00e3o d\u00e1. N\u00e3o estou dizendo que vale tudo, longe disso. As pessoas confundem a cultura do evento com o evento da cultura. O Cacique de Ramos \u00e9 um evento da cultura, que est\u00e1 introjetada   h\u00e1 60 anos, tem uma l\u00f3gica inclusive sagrada, que est\u00e1 ligada a Ox\u00f3ssi, \u00e0 tamarineira, aos caboclos. \u00c9 um evento que acontece porque h\u00e1 um caldo de cultura ali muito importante. Mas existem os obcecados pela cultura do evento. O cara que n\u00e3o d\u00e1 a menor pelota para aquilo e bota uma fantasia de \u00edndio ou black face. Acho que \u00e9 preciso pondera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem regra isso. Cada caso \u00e9 um caso. O que achou da lista divulgada pela Prefeitura de Belo Horizonte, com fantasias n\u00e3o recomendadas? Eu n\u00e3o gosto. Acho que cria uma marola para o Carnaval que \u00e9 complicada. O Carnaval reflete discuss\u00f5es que s\u00e3o muito anteriores a ele. Ent\u00e3o n\u00e3o adianta voc\u00ea pautar que isso pode, isso n\u00e3o pode&#8230;  \u00c9 contra a pr\u00f3pria l\u00f3gica da festa. N\u00e3o \u00e9 producente, cria um precedente perigos\u00edssimo. Porque se hoje favorece causas identit\u00e1rias, amanh\u00e3 pode trabalhar na l\u00f3gica da censura e vai conter uma por\u00e7\u00e3o de coisas. Estudo Carnaval e, do s\u00e9culo 19 at\u00e9 hoje, toda vez que entra o poder p\u00fablico estabelecendo o que pode e o que n\u00e3o pode n\u00e3o funciona. O que se tem que fazer \u00e9 o trabalho cotidiano, fora do Carnaval, pedag\u00f3gico, em col\u00e9gios, com propaganda, para combater tudo isso, homofobia, misoginia e tal. Mas voc\u00ea n\u00e3o pode pegar uma circunst\u00e2ncia carnavalesca, em que se opera em outras dimens\u00f5es at\u00e9 simb\u00f3licas, e querer transformar aquilo no boi de piranha da sociedade. A\u00ed n\u00e3o d\u00e1&#8230;.  <\/p>\n\n\n\n<p> O que diria para algu\u00e9m que est\u00e1 em d\u00favida sobre qual fantasia usar, com medo de ser &#8220;cancelado&#8221; pelos grupos politicamente corretos? Eu acho que \u00e9 o seguinte: sai da bolha. Isso \u00e9 visto muito numa bolha universit\u00e1ria, Centro-Zona Sul, pilotis da PUC, \u00e9 o reflexo da cidade que n\u00e3o est\u00e1 entendendo o que est\u00e1 acontecendo. Se aqui no Rio o cara chegar na periferia, onde o coro come, isso n\u00e3o tem a menor proced\u00eancia. O cara tem que ponderar. Evidente que n\u00e3o pode fazer certas coisas, mas n\u00e3o pode ficar fechado nessa bolha universit\u00e1ria no Carnaval. Como a gente se comunica com as outras pessoas? Outra coisa, me preocupo muito com uma ideia, que hoje vejo na esquerda, que \u00e9 braba  (por isso talvez eu esteja a beira de um &#8220;cancelamento&#8221;), que \u00e9 a ideia da miss\u00e3o civilizat\u00f3ria. Como algu\u00e9m diz que &#8220;h\u00e1 necessidade de conscientizar&#8221;? Nessa altura do campeonato, voc\u00ea vai conscientizar quem? O Bira Presidente (dirigente do Cacique de Ramos)? N\u00e3o. Tem que entender outras l\u00f3gicas. N\u00e3o somos o umbigo do mundo.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No UOL &#8211; Um dos maiores estudiosos do Carnaval, o historiador carioca Luiz Antonio Simas se diz surpreso com a grande pol\u00eamica da folia em 2020: a lista das fantasias politicamente corretas. A discuss\u00e3o, que parecia resolvida depois de ter chamado aten\u00e7\u00e3o h\u00e1 poucos anos, voltou a pegar fogo por causa da rela\u00e7\u00e3o divulgada pela&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/02\/18\/fantasias-na-mira-do-politicamente-correto-luiz-antonio-simas-opina\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-26579","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6UH","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26579"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26580,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26579\/revisions\/26580"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}