{"id":26800,"date":"2020-03-09T15:22:34","date_gmt":"2020-03-09T19:22:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=26800"},"modified":"2020-03-09T15:22:41","modified_gmt":"2020-03-09T19:22:41","slug":"o-verbo-dominante-nos-videos-dos-intelectuais-bolsonaristas-e-eliminar-e-o-substantivo-e-limpeza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/03\/09\/o-verbo-dominante-nos-videos-dos-intelectuais-bolsonaristas-e-eliminar-e-o-substantivo-e-limpeza\/","title":{"rendered":"\u201cO verbo dominante nos v\u00eddeos dos intelectuais bolsonaristas \u00e9 eliminar. E o substantivo \u00e9 limpeza\u201d"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"339\" data-attachment-id=\"26801\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/03\/09\/o-verbo-dominante-nos-videos-dos-intelectuais-bolsonaristas-e-eliminar-e-o-substantivo-e-limpeza\/image-21-5\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?fit=620%2C350\" data-orig-size=\"620,350\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-21\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?fit=600%2C339\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?resize=600%2C339\" alt=\"\" class=\"wp-image-26801\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?w=620 620w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-21.jpeg?resize=531%2C300 531w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Professor doutor da UERJ diz que guerra cultural bolsonarista vem de \u201ctradu\u00e7\u00e3o inesperada, de consequ\u00eancias funestas\u201d, da doutrina de seguran\u00e7a nacional da Escola Superior Militar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No Jornal Op\u00e7\u00e3o, por Augusto Diniz <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas n\u00e3o levam a s\u00e9rio a guerra cultural bolsonarista.\u201d O tom \u00e9 de alerta. \u00c9 essa mesmo a inten\u00e7\u00e3o do professor doutor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, que trabalha na conclus\u00e3o de um livro sobre o que chama de guerra cultural bolsonarista. \u201c\u00c9 uma guerra cultural que fala dois idiomas\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com as hip\u00f3teses levantadas pelo professor titular de Literatura Comparada, doutor em Letras pela UERJ e Literatura Comparada pela Stanford University, nos Estados Unidos, a destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e a elimina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do inimigo interno s\u00e3o pontas de lan\u00e7a do projeto autorit\u00e1rio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).<\/p>\n\n\n\n<p>Castro Rocha afirma: \u201cH\u00e1 um ressentimento enorme. H\u00e1 um revanchismo evidente. H\u00e1 um desejo de destruir todas as institui\u00e7\u00f5es que caminharam no sentido do fortalecimento da democracia e da salvaguarda das institui\u00e7\u00f5es\u201d. E tudo parte de um livro secreto escrito pelos militares a partir de 1986 sob o comando do ent\u00e3o ministro do Ex\u00e9rcito, general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De onde parte o que o sr. chama de guerra cultural na estrutura do governo Bolsonaro?<br><\/strong>Minha ideia surgiu de uma perplexidade. Em um primeiro momento, provavelmente todos n\u00f3s ficamos muito surpresos com o n\u00edvel praticamente caricatural de v\u00e1rias \u00e1reas no governo. Declara\u00e7\u00f5es que pareciam a princ\u00edpio estapaf\u00fardias da ministra Damares Alves [Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos], do ministro Ernesto Ara\u00fajo [Rela\u00e7\u00f5es Exteriores], do primeiro ministro da Educa\u00e7\u00e3o [Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez], depois do segundo [Abraham Weintraub] e do ministro Ricardo Salles [Meio Ambiente].<\/p>\n\n\n\n<p>Havia um conjunto de declara\u00e7\u00f5es que parecia t\u00e3o descolado da realidade que de fato conformava uma esp\u00e9cie de Brasil paralelo. Mas essa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o me satisfazia. Me parece que \u00e9 um grave problema, porque n\u00f3s temos uma tend\u00eancia a reduzir essa situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima que vivemos \u00e0 caricatura. O que proponho \u00e9 passar da caricatura \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, tentar compreender a guerra cultural bolsonarista na sua pr\u00f3pria din\u00e2mica. Tentar entender qual \u00e9 sua fonte, qual \u00e9 a origem desse pensamento, quais s\u00e3o as din\u00e2micas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias. H\u00e1 um equ\u00edvoco quando reduzimos a guerra cultural a uma caricatura. Estamos, em uma boa medida, imaginando que a guerra cultural bolsonarista \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0s guerras culturais que ocorrem nos Estados Unidos e na Europa h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>A hip\u00f3tese que proponho \u00e9 bastante diferente. Proponho deixar de se relacionar com este modelo de guerra cultural, que na Europa e nos Estados Unidos tem de 15 a 20 anos. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX na Alemanha houve a \u201c<em>Kulturkampf<\/em>\u201d [a batalha pela cultura]. Nesses casos, em geral, o que ocorre \u00e9 uma total disputa de valores, de um lado progressistas, de outro conservadores.&nbsp;De um lado uma vis\u00e3o de mundo de esquerda, de outro uma vis\u00e3o de mundo de direita, e assim sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da guerra cultural bolsonarista, que n\u00e3o deixa de ter contato com esse tipo de modelo, proponho, a partir do estudo aprofundado que tenho feito, que o modelo da guerra cultural bolsonarista tem uma caracter\u00edstica muito pr\u00f3pria, muito relacionada \u00e0 hist\u00f3ria recente brasileira e \u00e9 a incapacidade que temos de compreender isso que n\u00e3o nos permite reagir a tempo para o que creio que pode ser um momento in\u00e9dito no Brasil em termos de ruptura e, sobretudo, em termos de paralisa\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em um dos artigos publicados recentemente, o sr. faz coment\u00e1rios sobre o document\u00e1rio \u201c1964 \u2013 Brasil Entre Armas e Livros\u201d, do Brasil Paralelo. O sr. diz que o filme faz uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria da ditadura militar de 1964 a 1985 sob o aspecto de que os militares teriam combatido a luta armada, mas n\u00e3o teria combatido os livros, a cultura e a educa\u00e7\u00e3o. Onde nasce essa constru\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a constante do comunismo no Brasil e at\u00e9 onde ela vai?<br><\/strong>Essa \u00e9 a pergunta-chave. S\u00f3 sou capaz de partir para uma nova hip\u00f3tese porque acredito que descobri a resposta. N\u00e3o nego que a guerra cultural bolsonarista se relacione com as guerras culturais que ocorrem hoje no mundo. Mas digo que isso est\u00e1 apenas na superf\u00edcie. \u00c9 muito mais na t\u00e9cnica de utiliza\u00e7\u00e3o da trolagem, do uso sistem\u00e1tico do WhatsApp. Mas o conte\u00fado da guerra cultural bolsonarista \u00e9 arraigadamente ligado a uma concep\u00e7\u00e3o revisionista da ditadura militar. Essa concep\u00e7\u00e3o tem um documento. E eu descobri o documento.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural bolsonarista realiza, de um lado, uma tradu\u00e7\u00e3o inesperada, de consequ\u00eancias potencialmente funestas, da doutrina de seguran\u00e7a nacional que foi desenvolvida durante a ditadura. Mas, mesmo antes, pela Escola Superior de Guerra. A doutrina de seguran\u00e7a nacional adaptou o direito internacional p\u00fablico para o caso brasileiro. Na doutrina de seguran\u00e7a nacional, uma vez identificado o inimigo n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: \u00e9 necess\u00e1rio elimin\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural bolsonarista tem muito pouco a ver com cultura como n\u00f3s entendemos e tem muito a ver com a concep\u00e7\u00e3o militar da doutrina de seguran\u00e7a nacional de elimina\u00e7\u00e3o do inimigo interno. Se voc\u00ea fizer o trabalho m\u00ednimo de assistir a alguns v\u00eddeos de intelectuais bolsonaristas, o verbo dominante \u00e9 eliminar. E o substantivo dominante \u00e9 limpeza. \u00c9 um vocabul\u00e1rio retirado diretamente do golpe militar de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Como traduzir em um ambiente democr\u00e1tico a doutrina de seguran\u00e7a nacional se a democracia necessariamente implica o contradit\u00f3rio e estar exposto \u00e0 diferen\u00e7a? Em 1985, depois de um trabalho de seis anos, foi publicado no Brasil um livro que marcou \u00e9poca chamado \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d. Seria o livro negro da ditadura militar. De maneira secreta, um grupo de pesquisadores compilou aproximadamente 5 mil p\u00e1ginas de documentos do Superior Tribunal Militar (STM) com processos de subversivos e guerrilheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, todos os documentos que fazem parte do projeto \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d foram produzidos pela ditadura militar. Os pesquisadores compilaram uma sele\u00e7\u00e3o dos documentos de modo a denunciar para a sociedade brasileira a tortura, o assassinato e o desaparecimento pol\u00edtico. Eu tinha 20 anos quando o \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d saiu. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira. Ficaram comprovadas de uma maneira muito clara todas as arbitrariedades e a viol\u00eancia da ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, sob a lideran\u00e7a do ministro do Ex\u00e9rcito do governo Jos\u00e9 Sarney (MDB), que era o general da linha dura Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, um grupo de militares resolveu revidar. Resolveu, a seu modo, escrever outro livro. J\u00e1 que o \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d se tornou o livro negro da ditadura militar, os militares comandados pelo Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves decidiram escrever o livro negro da luta armada, isto \u00e9, o livro negro da esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Os militares compilaram material e documentos, sobretudo do servi\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o da Marinha, do Ex\u00e9rcito, da Aeron\u00e1utica e do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o (SNI), organizaram dois volumes de aproximadamente mil p\u00e1ginas e queriam publicar o livro. Seria a resposta do Ex\u00e9rcito ao \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Sarney, em 1989, vetou a publica\u00e7\u00e3o temendo a radicaliza\u00e7\u00e3o e a polariza\u00e7\u00e3o que da\u00ed poderiam surgir. A partir deste momento, algumas c\u00f3pias produzidas manualmente circularam entre oficiais de alta patente e poucos militantes de direita. At\u00e9 que um jornalista, Lucas Figueiredo, especialista na comunidade de informa\u00e7\u00e3o brasileira, autor do mais importante livro sobre o SNI, \u201cMinist\u00e9rio do Sil\u00eancio\u201d, descobriu e teve acesso ao livro. O projeto dos militares se chamava \u201cOrvil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livro de tr\u00e1s para frente.<\/strong><br>Realmente \u00e9 um livro de tr\u00e1s para frente porque \u00e9 um livro que procura inverter completamente o \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d. Porque se o \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d era o livro negro da ditadura militar, o \u201cOrvil\u201d era o livro negro da esquerda. Da luta armada em particular.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cOrvil\u201d compila em suas mil p\u00e1ginas documentos que mostram a morte de civis em a\u00e7\u00f5es da luta armada,&nbsp; que considera que todos os guerrilheiros eram terroristas, que n\u00e3o lutavam pela democracia. E fazia a compila\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica desses documentos. Depois, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra aproveitou esse material para publicar o seu livro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que \u00e9 o \u201cA Verdade Sufocada\u201d?<br><\/strong>Isso. Lucas Figueiredo descobriu o \u201cOrvil\u201d, que agora se encontra dispon\u00edvel. Hoje, o leitor do&nbsp;<strong>Jornal Op\u00e7\u00e3o<\/strong>, se colocar no Google \u201cVerdade Sufocada\u201d chega ao \u201cOrvil\u201d e pode baixar a vers\u00e3o fac-similar. \u00c9 uma leitura surpreendente. Primeiro porque mostra, pela vis\u00e3o do Ex\u00e9rcito, como foi a luta armada. \u00c9 interessante para quem tem preocupa\u00e7\u00e3o com o per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da compila\u00e7\u00e3o de documentos e de fatos, os militares procuram mostrar que a esquerda da luta armada, na concep\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, era terrorista e provocou tantos assassinatos e tantas mortes quanto o pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito. \u00c9 uma interpreta\u00e7\u00e3o. Uma narrativa. Tem uma linha narrativa que procura interpretar a hist\u00f3ria republicana brasileira a partir da d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vou dizer aqui \u00e9 exatamente o que dizem os ide\u00f3logos do presidente, exatamente o que diz o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, exatamente a base do document\u00e1rio e a estrutura de pensamento da produtora de conte\u00fado audiovisual, Brasil Paralelo. Eis o fundamento de toda a\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria deste governo para destruir as institui\u00e7\u00f5es. Desde o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis], que teve a sua estrutura de fiscaliza\u00e7\u00e3o desmontada, at\u00e9 a Capes [Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior], que est\u00e1 sendo destru\u00edda passo a passo.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa que o \u201cOrvil\u201d prop\u00f5e \u00e9 que o s\u00e9culo XX brasileiro assistiu a uma investida constante do movimento comunista internacional para impor ao Brasil uma ditadura do proletariado. \u00c9 uma narrativa delirante. \u00c9 uma teoria conspirat\u00f3ria, simplesmente absurda. Segundo o \u201cOrvil\u201d, houve tr\u00eas momentos fracassados. O primeiro foi a funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que assim se chamava em 1922, e a Intentona Comunista de 1935. Primeiro momento derrotado militarmente pelo Ex\u00e9rcito brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo momento come\u00e7aria ap\u00f3s o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas e se prolongaria at\u00e9 o golpe militar de 1964. E, de novo, a tentativa teria sido derrotada militarmente. O terceiro momento seria o da luta armada, entre 1968 e 1974. Nas cidades, a luta armada terminou em 1972. Destaca-se 1974 porque nesse ano os \u00faltimos guerrilheiros do Araguaia s\u00e3o assassinados pelo Ex\u00e9rcito. N\u00e3o s\u00e3o feitos prisioneiros, s\u00e3o eliminados em fidelidade \u00e0 doutrina de seguran\u00e7a nacional. Ainda em 1974 o presidente Ernesto Geisel come\u00e7ou a desmobilizar o aparato repressivo, o que explica o ressentimento que se encontra na base do \u201cOrvil\u201d. Assim tamb\u00e9m se esclarece a narrativa conspirat\u00f3ria do quarto e derradeiro momento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dentro da cria\u00e7\u00e3o do que o sr. chama de uma narrativa delirante dos ide\u00f3logos e membros do governo Bolsonaro de que havia de fato uma amea\u00e7a de tomada do poder pelos comunistas\u2026<br><\/strong>Constr\u00f3i-se uma narrativa de que haveria no Brasil uma real possibilidade de estabelecimento de uma ditadura do proletariado, que seria uma esp\u00e9cie de China da Am\u00e9rica Latina, dada a dimens\u00e3o continental e a import\u00e2ncia do Pa\u00eds no continente. Era o que eles diziam.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz o \u201cOrvil\u201d que em 1974 come\u00e7ou a quarta fase, o momento \u201cmais perigoso\u201d. Na narrativa dos militares do Ex\u00e9rcito, em 1974, a esquerda, derrotada militarmente mais uma vez, mudou de rumo e decidiu adotar a t\u00e9cnica gramsciana, que os incultos da guerra cultural bolsonarista, em hostilidade constante com a l\u00edngua portuguesa, insistem em dizer \u201cgramscista\u201d, teria se infiltrado na cultura, acima de tudo nas universidades e nas artes, para a m\u00e9dio prazo tomar o poder. Essa \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o do \u201cOrvil\u201d. Em outras palavras, a esquerda triunfou somente quanto o aparato repressivo foi desativado! Culpa, pois, da distens\u00e3o proposta por Geisel\u2026 O \u201cOrvil\u201d \u00e9 uma pe\u00e7a de defesa para evitar a acusa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea analisa o discurso do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, do presidente Jair Bolsonaro, do Olavo de Carvalho, de seus seguidores e dos bolsonaristas abduzidos pela guerra cultural, toda estrat\u00e9gia ret\u00f3rica vem do \u201cOrvil\u201d. Vem do \u201cOrvil\u201d a fonte da concep\u00e7\u00e3o de mundo do bolsonarismo. A guerra cultural bolsonarista retoma literalmente os termos do projeto secreto do Ex\u00e9rcito e tenta transform\u00e1-lo em pol\u00edtica p\u00fablica. O resultado para o Pa\u00eds ser\u00e1 desastroso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando o \u201cOrvil\u201d trata do que seria a quarta fase na narrativa militar a respeito da ditadura, por que Antonio Gramsci e tamb\u00e9m a Escola de Frankfurt preocupam tanto o bolsonarismo e o novo conservadorismo brasileiro?<br><\/strong>Se estou certo, esta \u00e9 a guerra cultural bolsonarista, n\u00e3o a outra. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 eliminar o inimigo interno. E o inimigo interno \u00e9 qualquer um que n\u00e3o seja bolsonarista. E mais. O bode expiat\u00f3rio \u00e9 o esquerdista, o movimento comunista internacional, globalista no idioleto da guerra cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um ambiente democr\u00e1tico n\u00e3o se pode fazer o que a ditadura militar fez, que era prender, torturar, assassinar e desaparecer corpos \u2014 e o presidente negou recentemente que tenha havido tortura durante a ditadura, o que \u00e9 um absurdo completo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 at\u00e9 relat\u00f3rio do general Ernesto Geisel que reconhece a exist\u00eancia de tortura. Relat\u00f3rio encomendado por Castello Branco, primeiro presidente da ditadura militar. Isso \u00e9 um fato hist\u00f3rico. Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais eliminar fisicamente os advers\u00e1rios, enquanto conseguirmos defender a democracia, o que o bolsonarismo faz por meio das mil\u00edcias digitais \u00e9 tentar eliminar simbolicamente. Isso tem sido feito desde o in\u00edcio do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fez-se com Hamilton Mour\u00e3o (PRTB). O vice-presidente foi enquadrado. Foi feito com Gustavo Bebianno [ex-secret\u00e1rio-geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica]. Sem Gustavo Bebianno, Bolsonaro n\u00e3o teria sido sequer candidato. Quem defendeu Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) foi Gustavo Bebianno. Quem conseguiu o partido foi Gustavo Bebianno. Quem montou a estrutura de campanha foi Gustavo Bebianno. Ele foi eliminado simbolicamente.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>\u201cComo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais eliminar fisicamente os advers\u00e1rios, o que o bolsonarismo faz por meio das mil\u00edcias digitais \u00e9 tentar eliminar simbolicamente\u201d<\/strong><\/em><\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalopcao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Jo%25C3%25A3o-Cezar-de-Castro-Rocha-Foto-Reprodu%25C3%25A7%25C3%25A3o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-239583\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Cezar: \u201cIsso tem sido feito desde o in\u00edcio do governo\u201d | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem \u00e9 o Hamilton Mour\u00e3o de verdade: o candidato a vice-presidente com discurso muito pr\u00f3ximo ao de Bolsonaro ou o vice-presidente que o sr. diz que teria sido enquadrado pela milit\u00e2ncia digital?<br><\/strong>Mour\u00e3o n\u00e3o era pr\u00f3ximo a Bolsonaro na campanha. Surgiu como \u00faltima op\u00e7\u00e3o quando falhou a possibilidade de o [deputado federal] Luiz Philippe de Orleans e Bragan\u00e7a (PSL-SP) ser o vice. Depois que [deputada estadual] Jana\u00edna Paschoal (PSL-SP) recusou, que participou da conven\u00e7\u00e3o do PSL e, de maneira muito l\u00facida, disse que era preciso estar ao m\u00e1ximo aberto para receber cr\u00edticas e para escutar os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso a deputada Jana\u00edna Pascoal n\u00e3o podia evidentemente ocupar a vice-presid\u00eancia de Bolsonaro. Com Philippe de Orleans e Bragan\u00e7a houve controv\u00e9rsias e ele n\u00e3o foi escolhido vice. No \u00faltimo momento apareceu o Mour\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A mil\u00edcia bolsonarista tenta eliminar simbolicamente as pessoas. Mor\u00e3o se enquadrou. Bebianno foi eliminado. O general Santos Cruz [ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presid\u00eancia], que no in\u00edcio os bolsonaristas consideravam um \u00edcone, foi eliminado simbolicamente com uma crueldade que nunca se viu na hist\u00f3ria brasileira. Algo muito preocupante.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca generais foram tratados da maneira como essas pessoas foram tratadas. Nunca na hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira. Nem mesmo a guerrilha armada tratava os generais como a mil\u00edcia bolsonarista trata.N\u00e3o h\u00e1 paralelo. Nunca um general da import\u00e2ncia do Santos Cruz foi assim tratado: vilipendiado e humilhado nas redes sociais como ocorreu com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma quebra de hierarquia dentro do Ex\u00e9rcito cujas consequ\u00eancias ainda s\u00e3o nebulosas. Mas h\u00e1 m\u00e1goas. A fun\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias digitais \u00e9 eliminar simbolicamente os inimigos. Os bodes expiat\u00f3rios surgem e a viol\u00eancia da mil\u00edcia bolsonarista digital \u00e9 algo in\u00e9dito na hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que existe uma teoria conspirat\u00f3ria delirante de um movimento comunista internacional, e como n\u00e3o se pode eliminar fisicamente, o que se est\u00e1 fazendo \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es ligadas a toda pauta progressista ou \u00e0 cultura. A Ancine [Ag\u00eancia Nacional do Cinema] retirou do seu site cartazes de filmes brasileiros, porque muito seriam t\u00edpicos representantes da esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Zumbi dos Palmares hoje \u00e9 presidida por um senhor que nega a exist\u00eancia do racismo no Brasil. Que \u00e9 hostil ao negro, embora ele tamb\u00e9m o seja. Que despediu por telefone todos os funcion\u00e1rios de alto escal\u00e3o negros da Funda\u00e7\u00e3o Zumbi dos Palmares. A Capes est\u00e1 cortando sistematicamente todas as bolsas.<\/p>\n\n\n\n<p>As verbas do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico] est\u00e3o sendo reduzidas a quase nada. O ministro da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o consegue realizar uma execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria minimamente razo\u00e1vel como ainda n\u00e3o apresentou um projeto para o Fundeb [Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica].<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o houver um projeto para substituir o Fundeb que vai expirar este ano, em 2021 a educa\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios ser\u00e1 muito prejudicada. Na hip\u00f3tese que levanto, a doutrina da seguran\u00e7a nacional sup\u00f5e a elimina\u00e7\u00e3o do inimigo interno. Como havia uma situa\u00e7\u00e3o de guerrilha urbana e de luta armada, a elimina\u00e7\u00e3o do inimigo interno n\u00e3o foi a sua pris\u00e3o, seu ex\u00edlio ou seu banimento. Foi o seu desaparecimento.&nbsp;Foi a elimina\u00e7\u00e3o do corpo. Literalmente. Em um ambiente democr\u00e1tico, a guerra cultural bolsonarista coloca em pr\u00e1tica o relat\u00f3rio secreto dos militares, o \u201cOrvil\u201d. Est\u00e1 tudo l\u00e1. Foi o que descobri. Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel eliminar fisicamente, elimina-se simbolicamente nas redes sociais. \u00c9 a tarefa das mil\u00edcias bolsonaristas.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 um projeto em curso de elimina\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o, das institui\u00e7\u00f5es ligadas ao meio ambiente, cidadania e cultura. As consequ\u00eancias ser\u00e3o absolutamente desastrosas. Duas pesquisadoras da USP sequenciaram o genoma do coronav\u00edrus no Brasil em 48 horas. Em nenhum pa\u00eds do mundo isso aconteceu. Isso s\u00f3 ocorreu porque o laborat\u00f3rio havia recebido verbas de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pol\u00edtica de corte de verbas do CNPq e de corte de bolsas da Capes, o Pa\u00eds entrar\u00e1 em colapso. Se houver outra epidemia daqui a dez anos, n\u00e3o haver\u00e1 cientista, n\u00e3o haver\u00e1 laborat\u00f3rio, n\u00e3o haver\u00e1 pesquisa. O panorama \u00e9 l\u00fagubre, \u00e9 sombrio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas voltemos \u00e0 quest\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o bolsonarista da domina\u00e7\u00e3o pela cultura com uma suposta t\u00e1tica gramsciana.<br><\/strong>Da Escola de Frankfurt, de fato, Herbert Marcuse tornou-se uma figura muito importante nas revoltas estudantis de 1968. A obra de Marcuse e de toda a Escola de Frankfurt foi decisiva para o movimento estudantil. \u00c9 absolutamente correto dizer que nas agita\u00e7\u00f5es estudantis de 1968 o pensamento de Herbert Marcuse desempenhou papel muito importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcuse tinha algumas an\u00e1lises muito penetrantes de como as sociedades capitalistas haviam criado na apar\u00eancia de um regime democr\u00e1tico formas muito sutis de controle e repress\u00e3o. Theodor Adorno tinha uma tese muito importante que era, diante de um capitalismo de uma sociedade automatizada, de uma vida danificada pela planifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade cada vez mais produzida em massa e em s\u00e9rie, uma grande recusa diante dessa sociedade cada vez mais padronizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas duas vertentes da Escola de Frankfurt eram francamente cr\u00edticas de um mundo que hoje chamamos de capitalismo financeiro globalizado, isto \u00e9, de formas de consumo, de formas de padr\u00f5es, que Adorno recusaria, como manifesta\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria cultural. Por exemplo, se voc\u00ea for a qualquer lugar do mundo, existe um programa The Voice. Se voc\u00ea fora a qualquer lugar do mundo, existe um Big Brother.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que fui a Moscou (R\u00fassia), como fa\u00e7o em toda viagem, ligo a televis\u00e3o para escutar o idioma. Quando n\u00e3o entendo nada, pelo menos escuto o idioma. Tinha acabado de chegar ao hotel, liguei a televis\u00e3o e me familiarizava com o quarto. N\u00e3o estava olhando para a televis\u00e3o. Por algum motivo, tenho a impress\u00e3o que come\u00e7o a entender o que estou escutando. O que \u00e9 imposs\u00edvel, pois nunca estudei o idioma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tom de voz, o ritmo, o volume, o tipo de discuss\u00e3o. E digo \u201cespere a\u00ed, mas estou entendendo isso\u201d. E olhei para a televis\u00e3o. Voc\u00ea sabe por que eu tinha a impress\u00e3o de que estava entendendo? Era o Big Brother Russia! \u00c9 tudo igual. Contra essa padroniza\u00e7\u00e3o dos costumes, contra a padroniza\u00e7\u00e3o da \u201carte\u201d, Marcuse desenvolveu uma an\u00e1lise muito sutil de formas de repress\u00e3o de uma sociedade teoricamente livre.<\/p>\n\n\n\n<p>A Escola de Frankfurt foi muito importante para o movimento estudantil e para os anos 1960. Mas as an\u00e1lises que s\u00e3o feitas por Olavo de Carvalho e por seus seguidores sobre Marcuse e Adorno s\u00e3o absolutamente indigentes. \u00c9 \u00f3bvio que eles n\u00e3o sabem ler alem\u00e3o. E n\u00e3o t\u00eam ideia do que est\u00e3o falando. N\u00e3o leram com cuidado e olhos livres nem Adorno nem Marcuse. Isso \u00e9 muito claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Como, por exemplo, houve um momento em que Olavo de Carvalho sugeriu que as composi\u00e7\u00f5es dos Beatles foram feitas pelo Adorno. Ao ouvir algo assim, \u00e9 dif\u00edcil resistir \u00e0 caricatura. Mas precisamos resistir. Precisamos passar para a caracteriza\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a narrativa do \u201cOrvil\u201d. Porque o nome Marcuse aparece no \u201cOrvil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se diz hoje da guerra cultural gramsciana est\u00e1 no \u201cOrvil\u201d. Esta \u00e9 a origem. A guerra cultural bolsonarista \u00e9 inteiramente baseada no relat\u00f3rio secreto do Ex\u00e9rcito brasileiro chamado \u201cOrvil\u201d. Gramsci est\u00e1 l\u00e1. Marcuse est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou al\u00e9m. A produtora Brasil Paralelo representa, no plano do audiovisual, a difus\u00e3o da teoria conspirat\u00f3ria do \u201cOrvil\u201d. Porque toda a base da compreens\u00e3o profundamente equivocada da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira recente exposta nos filmes do Brasil Paralelo \u00e9 o \u201cOrvil\u201d. O document\u00e1rio \u201c1964 \u2013 Brasil Entre Armas e Livros\u201d \u00e9 uma transposi\u00e7\u00e3o literal para a tela, portanto para o grande p\u00fablico, do \u201cOrvil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento \u00e9 t\u00e3o singelo quanto este: os militares venceram pelas armas, a batalha militar, mas, como prop\u00f5e o subt\u00edtulo, perderam a guerra dos livros. \u00c9 exatamente a narrativa do \u201cOrvil\u201d. O Brasil Paralelo representa no audiovisual a populariza\u00e7\u00e3o da narrativa do \u201cOrvil\u201d. E as consequ\u00eancias para a cultura brasileira ser\u00e3o desastrosas, pois levar\u00e3o a uma ruptura como nunca houve e a uma paralisia administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel administrar um pa\u00eds com a complexidade do Brasil sem um m\u00ednimo de objetividade. Por exemplo, o diretor do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] adverte que h\u00e1 ind\u00edcios alarmantes do aumento das queimadas. A resposta de Jair Bolsonaro \u00e9 movida pela guerra cultural: diretor do Inpe \u00e9 de esquerda e as ONGs v\u00e3o promover queimadas porque perderam dinheiro f\u00e1cil do comunismo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve, inclusive, uma tentativa de criminalizar ativistas. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/ciencia\/demitido-por-bolsonaro-ricardo-galvao-e-eleito-cientista-do-ano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">diretor do Inpe foi demitido<\/a>&nbsp;porque \u00e9 de esquerda e as ONGs s\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o do mal na Terra. O que ocorreu 30 dias depois? As&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2020\/01\/08\/focos-de-queimadas-na-amazonia-aumentam-em-2019-informa-o-inpe.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">queimadas foram confirmadas<\/a>&nbsp;em um n\u00famero muito maior do que o alerta do Inpe.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro da Educa\u00e7\u00e3o deu uma entrevista na segunda-feira, 2, na qual disse que Paulo Freire era feio, fraco e sem resultados positivos. Se se trata disso, voc\u00ea n\u00e3o trabalhar\u00e1 com serenidade. Consequ\u00eancia: a<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/lupa\/2019\/06\/11\/verificamos-orcamento-educacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a menor da \u00faltima d\u00e9cada<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No servi\u00e7o p\u00fablico existe o or\u00e7amento. Ao contr\u00e1rio do que pensa o grande p\u00fablico, or\u00e7amento n\u00e3o quer dizer dinheiro. Quer dizer a previs\u00e3o de gasto para determinada \u00e1rea. Voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer nenhum gasto no servi\u00e7o p\u00fablico a partir de um certo valor se n\u00e3o tiver licita\u00e7\u00e3o, que exige no m\u00ednimo tr\u00eas or\u00e7amentos, an\u00e1lise de t\u00e9cnicos e outras etapas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil gastar dinheiro no servi\u00e7o p\u00fablico. \u00c9 preciso cumprir uma s\u00e9rie de requisitos. As pessoas pensam que o dinheiro est\u00e1 dispon\u00edvel em um banco. N\u00e3o \u00e9 assim. O or\u00e7amento de um minist\u00e9rio significa que o Congresso aprovou um gasto at\u00e9 aquele teto. Mas para o minist\u00e9rio gastar \u00e9 preciso gerar projetos com demandas pontuais. \u00c9 preciso empenhar, uma t\u00e9cnica administrativa que torna aquele valor em dinheiro, que n\u00e3o \u00e9 pago de imediato.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de o ministro ter tido a menor execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria da \u00faltima d\u00e9cada quer dizer que h\u00e1 uma paralisia administrativa, justamente caudadas pelo del\u00edrio da guerra cultural bolsonarista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) cobra do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o explica\u00e7\u00f5es para entender o motivo de mais de R$ 1 bilh\u00e3o do fundo da Lava Jato ter ficado parado no \u00f3rg\u00e3o em 2019.<br><\/strong>Quando o ministro esteve no Senado e foi perguntado sobre o recurso da Lava Jato, creio que o titular do MEC improvisou. Porque n\u00e3o se pode dizer que se vai empregar R$ 1 bilh\u00e3o para vouchers, porque n\u00e3o \u00e9 assim que funciona. \u00c9 preciso saber quanto custa cada voucher para creche por um m\u00eas ou um ano, quantos alunos ser\u00e3o beneficiados, quais s\u00e3o as creches.<\/p>\n\n\n\n<p>No servi\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o se pode contratar uma creche distantemente aparentada com qualquer funcion\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 dizer que ir\u00e1 pegar R$ 1 bilh\u00e3o e transformar em voucher. Isso n\u00e3o existe. N\u00e3o \u00e9 assim que funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural bolsonarista \u00e9 o n\u00facleo duro do governo. Pode sair o Paulo Guedes [Economia], pode sair o Sergio Moro [Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica], mas n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o da guerra cultural. Se a guerra cultural for abandonada, acaba o governo Bolsonaro. O governo Bolsonaro n\u00e3o tem projeto para o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico projeto do governo Bolsonaro \u00e9 levar adiante a narrativa conspirat\u00f3ria do \u201cOrvil\u201d, o que implica a destrui\u00e7\u00e3o de todo um aparato estatal constru\u00eddo desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. As consequ\u00eancias para a sociedade brasileira ser\u00e3o terr\u00edveis. Vejamos alguns exemplos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a lei, quando se apresenta uma solicita\u00e7\u00e3o ao INSS a resposta tem de ser dada em at\u00e9 45 dias. At\u00e9 o governo de Jair Bolsonaro, a resposta era dada nesse prazo. Agora o tempo m\u00e9dio \u00e9 de oito meses. O Bolsa Fam\u00edlia tem hoje&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/02\/23\/A-fila-do-Bolsa-Fam%C3%ADlia.-E-a-redu%C3%A7%C3%A3o-de-benefici%C3%A1rios\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a maior fila da hist\u00f3ria<\/a>&nbsp;de pessoas que se qualificam plenamente para o benef\u00edcio, mas est\u00e3o sem receber.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>At\u00e9 fevereiro, o ministro respons\u00e1vel pelo Bolsa Fam\u00edlia, Osmar Terra, era o mesmo que comemorou o fim da fila de benefici\u00e1rios do programa no governo Temer.<\/strong><br>O ent\u00e3o ministro da Cidadania, Osmar Terra, no in\u00edcio do governo vem ao Rio de Janeiro, caminha em Copacabana, d\u00e1 uma entrevista e diz que \u00e9 evidente que h\u00e1 uma epidemia de drogas no Brasil porque as ruas estavam vazias enquanto caminhava. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o minimamente racional de causa e efeito entre uma coisa e outra?<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, \u00e9 o contr\u00e1rio. Para comprar droga, a pessoa n\u00e3o pode ficar em casa! Al\u00e9m disso, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/ministro-ataca-fiocruz-diz-que-nao-confia-em-estudo-sobre-drogas-engavetado-pelo-governo-23696922\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ministro proibiu a divulga\u00e7\u00e3o de uma pesquisa<\/a>&nbsp;realizada pela Fiocruz. E a guerra cultural \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o da doutrina de seguran\u00e7a nacional para o s\u00e9culo XXI. A doutrina de seguran\u00e7a nacional implica a elimina\u00e7\u00e3o do inimigo interno.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>\u201cO \u00fanico projeto do governo Bolsonaro \u00e9 levar adiante a narrativa conspirat\u00f3ria do \u2018Orvil&#8217;\u201d<\/strong><\/em><\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalopcao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Jo%25C3%25A3o-Cezar-de-Castro-Rocha-Foto-Reprodu%25C3%25A7%25C3%25A3o-TV-Cultura-1.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-239584\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cImplica a destrui\u00e7\u00e3o de todo um aparato estatal constru\u00eddo desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988\u201d | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/TV Cultura<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a da guerra cultural bolsonarista que o sr. trabalha na sua pesquisa com a censura nas artes durante a ditadura militar?<br><\/strong>\u00c9 hora de ter coragem de pensar. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave do que parece. As pessoas n\u00e3o entenderam que a guerra cultural \u00e9 o n\u00facleo do governo. N\u00e3o \u00e9 um acaso, uma caricatura ou algo feito por pessoas simplesmente atrapalhadas. N\u00e3o: \u00e9 o n\u00facleo do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural bolsonarista \u00e9 uma amea\u00e7a maior \u00e0 arte, \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do que a ditadura militar. Porque a ditadura militar concentrou os esfor\u00e7os na elimina\u00e7\u00e3o do inimigo interno, que era a esquerda da luta armada ou de qualquer forma de oposi\u00e7\u00e3o ao regime. Contudo, a ditadura militar, ao contr\u00e1rio deste governo, tinha um projeto nacionalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura militar, ao contr\u00e1rio deste governo, n\u00e3o vendeu nem sucateou a coisa p\u00fablica. A ditadura militar, como tinha um projeto de uma p\u00e1tria grande, investiu em infraestrutura, criou estatais. Essa \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o muito importante. a guerra cultural bolsonarista \u00e9 mais s\u00e9ria porque est\u00e1 destruindo as institui\u00e7\u00f5es associadas ao meio ambiente, \u00e0 cidadania e \u00e0 cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se coloca na presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Zumbi dos Palmares uma pessoa que nega a exist\u00eancia de racismo no Brasil, algu\u00e9m que considera que a pol\u00edtica de cotas \u00e9 mimimi, uma pessoa que demite funcion\u00e1rios pelo telefone, voc\u00ea est\u00e1 destruindo a Funda\u00e7\u00e3o Zumbi dos Palmares.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea realiza uma pol\u00edtica que retira da Capes em aproximadamente dois anos algo em torno de 10 mil a 11 mil bolsas, voc\u00ea est\u00e1 destruindo a pesquisa no Brasil. Quando se reduz drasticamente a verba do CNPq a tal ponto que a verba \u00e9 inferior \u00e0s benesses de coisas absolutamente desnecess\u00e1rias do Poder Judici\u00e1rio, voc\u00ea est\u00e1 destruindo o CNPq.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 eliminando as pessoas fisicamente. Voc\u00ea as elimina simbolicamente nas redes sociais pelas mil\u00edcias bolsonaristas. Mas o que est\u00e1 ocorrendo no Pa\u00eds \u00e9 mais s\u00e9rio do que houve na ditadura militar: hoje, s\u00e3o destru\u00eddas todas est\u00e1 destruindo todas as institui\u00e7\u00f5es que levamos d\u00e9cadas para construir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando o presidente envia v\u00eddeos com convoca\u00e7\u00e3o para as manifesta\u00e7\u00f5es do dia 15 de mar\u00e7o contra o Congresso e o STF, h\u00e1 um incentivo a uma ideia de fechamento dos Poderes Judici\u00e1rio e Legislativo? At\u00e9 que ponto o autoritarismo est\u00e1 instalado no governo e at\u00e9 onde as institui\u00e7\u00f5es consegue frear esse \u00edmpeto?<br><\/strong>A destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es foi a ponta de lan\u00e7a do projeto autorit\u00e1rio do Jair Messias Bolsonaro. O que torna este projeto, inaceit\u00e1vel, palat\u00e1vel para uma parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a guerra cultural. O que torna palat\u00e1vel para pessoas que, de outra forma, jamais pensariam em abolir Congresso, destruir o Supremo Tribunal Federal, \u00e9 porque elas est\u00e3o absolutamente dominadas pela guerra cultural nos termos aqui definidos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o termos europeus e norte-americanos. S\u00e3o termos profundamente brasileiros, arraigados na interpreta\u00e7\u00e3o militar revisionista, revanchista, da ditadura militar em resposta ao \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d. H\u00e1 um ressentimento enorme. H\u00e1 um revanchismo evidente. H\u00e1 um desejo de destruir todas as institui\u00e7\u00f5es que caminharam no sentido do fortalecimento da democracia e da salvaguarda das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o grande trunfo da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. O trunfo real da Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3o, como \u00e9 chamada, foi procurar ter salvaguardas para assegurar que nunca mais um projeto autorit\u00e1rio fosse poss\u00edvel no Brasil. A guerra cultural bolsonarista n\u00e3o \u00e9 uma caricatura, por\u00e9m uma amea\u00e7a real \u00e0 jovem democracia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso caracteriz\u00e1-la. A guerra cultural bolsonarista \u00e9 a ponta de lan\u00e7a de um projeto autorit\u00e1rio, cuja finalidade \u00e9 destruir as institui\u00e7\u00f5es para estabelecer um governo de a\u00e7\u00e3o direta entre as massas e o presidente: destino final da voca\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na live do dia 27 de fevereiro, o presidente Bolsonaro tenta dizer que os v\u00eddeos na verdade s\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es de 2015, mas acaba por citar a facada, tentativa de homic\u00eddio que s\u00f3 vem a ocorrer 3 anos e 6 meses depois. H\u00e1 um foco no ataque \u00e0 imprensa, mas n\u00e3o houve cita\u00e7\u00e3o do presidente ao presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), nem aos ministros Celso de Mello e Dias Toffoli, presidente do STF, que criticaram a a\u00e7\u00e3o de Bolsonaro\u2026<br><\/strong>Os ministros do Supremo Tribunal Federal s\u00e3o profundamente atacados pela mil\u00edcia digital bolsonarista. O presidente faz esse ataque direto e estimula a radicaliza\u00e7\u00e3o. Bolsonaro difundiu o famoso v\u00eddeo das hienas. Eram colocados como hienas o Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre [presidente do Senado] e os ministros do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos de parar de imaginar que se trata de algu\u00e9m descontrolado que n\u00e3o sabe o que faz. \u00c9 o oposto. A guerra cultural bolsonarista \u00e9 um projeto autorit\u00e1rio que tem como ponta de lan\u00e7a a recupera\u00e7\u00e3o da narrativa conspirat\u00f3ria do \u201cOrvil\u201d para justificar que \u00e9 isso ou a esquerda, assim como na ditadura militar foi poss\u00edvel tornar a tortura pol\u00edtica de Estado, tornar o assassinato de advers\u00e1rios pol\u00edticos \u201caceit\u00e1vel\u201d e tornar o desaparecimento de corpos \u201ctoler\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro est\u00e1 jogando o mesmo jogo. \u00c9 seu autoritarismo ou o retorno do PT. N\u00e3o somos prisioneiros dessa dicotomia muito pouco inteligente! A guerra cultural bolsonarista \u00e9 um retrocesso a este passado cuja base \u00e9 a teoria do \u201cOrvil\u201d. Se n\u00e3o reagirmos a tempo, as consequ\u00eancias para a sociedade brasileira ser\u00e3o terr\u00edveis. Um professor universit\u00e1rio intelectual como eu tem de dar a cara a tapa e dizer o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou disposto a dialogar com qualquer bolsonarista. N\u00e3o tenho problema em dialogar com ningu\u00e9m. Sou professor universit\u00e1rio e j\u00e1 orientei no mestrado e no doutorado alunos de Olavo de Carvalho. Mantenho di\u00e1logo com intelectuais bolsonaristas. Se qualquer bolsonarista quiser discutir comigo, basta marcar o lugar. Irei com as mil p\u00e1ginas do \u201cOrvil\u201d minuciosamente lidas e apresentarei minha hip\u00f3tese. Se provarem que estou errado, aceitarei.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tem de ser feito agora. Se n\u00e3o fizermos isso agora, daqui a um ano voc\u00ea talvez n\u00e3o possa mais fazer esta entrevista comigo. A responsabilidade que tenho ao me expor \u00e9 porque estou pensando no Brasil. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave. A destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es pode tornar o Brasil um pa\u00eds atrasado por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Leio o que a direita escreve sem problema algum. Leio e anoto para estar por dentro do que se trata. Assisto aos v\u00eddeos dos youtubers de direita. No meu livro vou colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que se interessar links de v\u00eddeos-chave para an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um v\u00eddeo do Instituto Borborema de um colunista da Gazeta do Povo, Francisco Escorsim, um intelectual bolsonarista, que discute a guerra cultural. Escorsim define que algu\u00e9m sabe que est\u00e1 em guerra quando se recusa a escutar o outro. Independente do que o outro fala, voc\u00ea se recusa a escutar, porque se est\u00e1 em guerra cultural. Isso \u00e9 absolutamente espantoso para um intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive espantoso que tal gesto perten\u00e7a a uma guerra \u201ccultural\u201d. Mas \u00e9 isto a guerra cultural bolsonarista. \u00c9 um desejo radical de eliminar o outro. Se n\u00e3o compreendermos isso agora, se n\u00e3o fortalecermos as institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sei o que ir\u00e1 acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou questionando a legitimidade da presid\u00eancia de Jair Messias Bolsonaro. O presidente foi eleito em um pleito democr\u00e1tico com mais de 57 milh\u00f5es de votos. Bolsonaro \u00e9 o presidente leg\u00edtimo do Brasil. N\u00e3o questiono isso. Mas parto do princ\u00edpio de que 57 milh\u00f5es de eleitores e eleitoras que deram voto a Jair Messias Bolsonaro n\u00e3o votaram para que o presidente destru\u00edsse as institui\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 cultura, \u00e0 cidadania, ao meio ambiente, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 bem importante porque todo meu desejo \u00e9 dialogar. Quero muito dialogar com quem discorde de minhas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. E necess\u00e1rio entender porque votaram no Jair Messias Bolsonaro; para tanto, preciso ler o que seus eleitores escrevem e assistir aos v\u00eddeos que produzem. Voc\u00eas t\u00eam todo direito de imaginar que a melhor op\u00e7\u00e3o para o Brasil, no contexto de 2018, era votar no Bolsonaro. \u00c9 um direito que o eleitor tem. E tem de ser respeitado. Ademais, n\u00e3o se esque\u00e7a do princ\u00edpio da altern\u00e2ncia do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o presidente n\u00e3o foi eleito democraticamente para impor um projeto autorit\u00e1rio. Isto tem de ser denunciado. N\u00e3o questiono a legitimidade, questiono o projeto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O livro j\u00e1 tem data de lan\u00e7amento ou acerto com alguma editora?<\/strong><br>Ainda n\u00e3o. Mas deve estar pronto em at\u00e9 40 dias. O material est\u00e1 pontuado, muita coisa escrita. Espero um pouco porque minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 escrever um panfleto. Minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 escrever um convite ao di\u00e1logo nacional. No livro, deixarei claro logo no in\u00edcio que n\u00e3o questiono a legitimidade do governo. \u00c9 absurdo questionar a legitimidade de um governo eleito com 57 milh\u00f5es de votos em 14 meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o farei o mesmo que fizeram com Dilma Rousseff (PT). \u00c9 absurdo. Estou denunciando a fun\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do projeto e estou sugerindo que a guerra cultural \u00e9 a ponta de lan\u00e7a e a ess\u00eancia deste governo. Precisamos discutir e reverter esta guerra cultural. Caso contr\u00e1rio, daqui at\u00e9 2022 n\u00e3o sobrar\u00e1 muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>\u201c\u00c9&nbsp;isto a guerra cultural bolsonarista. \u00c9 um desejo radical de eliminar o outro. Se n\u00e3o compreendermos isso agora, se n\u00e3o fortalecermos as institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sei o que ir\u00e1 acontecer\u201d<\/strong><\/em><\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalopcao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Roberto-Alvim-v%25C3%25ADdeo-exclu%25C3%25ADdo-Foto-Reprodu%25C3%25A7%25C3%25A3o-Twitter.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-231575\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cEstou denunciando a fun\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do projeto e estou sugerindo que a guerra cultural \u00e9 a ponta de lan\u00e7a e a ess\u00eancia deste governo\u201d | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Twitter Secretaria Especial da Cultura<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ex-secret\u00e1rio especial da Cultura Roberto Alvim ficou dois meses no cargo. Depois daquele v\u00eddeo publicado nas redes sociais da pasta com trechos de discurso do ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, acabou por cair. Mas horas antes chegou a ser elogiado pelo presidente Bolsonaro pelo mesmo direcionamento apresentado no v\u00eddeo em uma das lives presidenciais. Alguns analistas disseram que aquela era uma vis\u00e3o do Alvim, que n\u00e3o se tratava de uma ideia de Jair Bolsonaro.<br><\/strong>Era do pr\u00f3prio Bolsonaro. Tanto que o presidente n\u00e3o desejava demiti-lo. Bolsonaro tentou resistir. At\u00e9 que a comunidade israelense em peso demonstrou toda sua indigna\u00e7\u00e3o e n\u00e3o foi poss\u00edvel mant\u00ea-lo no cargo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Houve, inclusive, uma press\u00e3o do presidente do Senado, que \u00e9 judeu, para tentar convencer Bolsonaro de que era necess\u00e1rio derrubar o Alvim do governo. O projeto representado pelo ex-secret\u00e1rio da Cultura permanece ou caiu junto com o antigo ocupante do cargo, o da cria\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Nacional das Artes?<br><\/strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/secretaria-da-cultura-suspende-concurso-de-artes-anunciado-por-alvim\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Esse projeto acabou<\/a>. Acredito que n\u00e3o tenha como voltar. No sentido dado pelo Alvim, n\u00e3o era poss\u00edvel de nenhuma forma de ocultar o car\u00e1ter autorit\u00e1rio de um governo que pretende criar uma arte nacional e pura. Estamos em 2020. \u00c9 um del\u00edrio completamente absurdo. Maior do que os outros del\u00edrios do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que seja muito dif\u00edcil levar esse projeto adiante. O epis\u00f3dio Roberto Alvim o enterra de vez. Mas Roberto Alvim era uma das pontas de lan\u00e7a do projeto autorit\u00e1rio. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de compreender o Roberto Alvim? Ele n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Alvim n\u00e3o deve ser compreendido como uma caricatura, como um mero descontrole da t\u00e9cnica da \u201ctrolagem\u201d. Ele foi uma explicita\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel do car\u00e1ter autorit\u00e1rio do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, o que proponho com meu livro \u00e9 explicitar da maneira mais clara poss\u00edvel a natureza autorit\u00e1ria do projeto. Roberto Alvim conta porque, na tentativa de criar uma arte nacional pura, que \u00e9 um conceito em si mesmo absurdo, explicitou o que se procura ocultar: a natureza autorit\u00e1ria do projeto da guerra cultural bolsonarista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um acidente. \u00c9 uma ponta de lan\u00e7a. \u00c9 o motor do governo. O motor do governo \u00e9 guerra cultural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sempre que o governo anuncia uma medida, ou o pr\u00f3prio v\u00eddeo do Alvim, ao tentar voltar atr\u00e1s joga a culpa em algu\u00e9m, como a justificativa da \u201ca\u00e7\u00e3o sat\u00e2nica\u201d declarada pelo ex-secret\u00e1rio da Cultura. Chega a ser de fato um recuo?<br><\/strong>N\u00e3o \u00e9 um recuo. \u00c9 um refor\u00e7o da guerra cultural. A primeira an\u00e1lise feita por Olavo de Carvalho e seus seguidores foi de que o que ocorreu com Roberto Alvim foi a demonstra\u00e7\u00e3o concreta de que existe um aparelhamento de esquerda, logo, o ex-secret\u00e1rio de Cultura teria sido sabotado. Como assim? \u00c9 uma atitude absurda do Alvim. E tenta transformar-se a atitude absurda em uma confirma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio absurdo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, Alvim teria sido boicotado porque as institui\u00e7\u00f5es culturais est\u00e3o aparelhadas pela esquerda e h\u00e1 sabotadores de todos os lados. Em consequ\u00eancia, \u00e9 preciso n\u00e3o abrir m\u00e3o da estrat\u00e9gia de Roberto Alvim, mas intensific\u00e1-la, por\u00e9m, de modo discreto. \u00c9 de uma pervers\u00e3o absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o do Alvim, de que haveria uma for\u00e7a demon\u00edaca, \u00e9 importante de ser entendida n\u00e3o como uma caricatura. Todo meu discurso, sup\u00f5e levar a s\u00e9rio essa quest\u00e3o. Qual \u00e9 o segmento da popula\u00e7\u00e3o brasileira que aceita com enorme facilidade o argumento de que um equ\u00edvoco de uma pessoa boa foi causado por for\u00e7as demon\u00edacas? Qual \u00e9 a por\u00e7\u00e3o da sociedade que aceita esse argumento?&nbsp;Qual \u00e9 a por\u00e7\u00e3o imensa da sociedade brasileira que tem uma imagem do cotidiano como uma batalha constante contra esp\u00edritos malignos e obsessores? A explica\u00e7\u00e3o do Roberto Alvim, que para mim \u00e9 completamente inadequada e tola, \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o que explicita outra caracter\u00edstica da guerra cultural bolsonarista. \u00c9 uma guerra cultural que fala dois idiomas.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural bolsonarista fala um idioma que afeta diretamente a professores universit\u00e1rios, artistas, escritores e intelectuais. Mas fala uma outra linguagem. Essa outra linguagem quem a domina \u00e9 a Damares Alves. \u00c9 tamb\u00e9m o ministro da Educa\u00e7\u00e3o. A guerra cultural tamb\u00e9m procura calar fundo com o p\u00fablico evang\u00e9lico.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o aproximadamente 45 milh\u00f5es de brasileiros que t\u00eam a imagem do dia a dia como de uma luta constante e permanente contra o mal. Essa vis\u00e3o do mundo acolhe muito bem a narrativa delirante da guerra cultural bolsonarista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isso explica por que a imagem da&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/globonews\/estudio-i\/video\/damares-alves-e-a-segunda-ministra-mais-bem-avaliada-do-governo-bolsonaro-8151099.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ministra Damares Alves \u00e9 t\u00e3o bem avaliada<\/a>&nbsp;como integrante do governo junto aos apoiadores fi\u00e9is do presidente Jair Bolsonaro?<\/strong><br>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de Damares Alves no governo? Damares \u00e9 um dos esteios da guerra cultural nessa batalha bifronte de falar dois idiomas. Para o comando geral, \u201cvamos acabar com a balb\u00fardia nas universidades\u201d e \u201cvamos acabar com a Lei Rouanet\u201d.&nbsp;Da maneira como apresentam \u00e9 propriamente absurdo, mas cala fundo em boa parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E tem outro tipo de batalha cultural, que lan\u00e7a m\u00e3o da ideia de guerra e de batalha do cotidiano, que \u00e9 a vis\u00e3o de mundo dos indiv\u00edduos neopentecostais. H\u00e1 uma batalha constante contra o maligno. Li o \u00faltimo livro do Edir Macedo, \u201cComo Vencer Suas Guerras Pela F\u00e9: descubra como enfrentar suas batalhas do dia a dia\u201d (Editora Unipro, 2019). Ao ler o livro, tudo para mim ficou claro.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra cultural trabalha em v\u00e1rios n\u00edveis. Um n\u00edvel que a guerra cultural trabalha e que, em geral, os intelectuais de esquerda n\u00e3o se deram conta, e para atingir ao p\u00fablico neopentecostal. Para os neopentecostais, sobretudo para a Igreja Universal do Reino de Deus, o mundo e o dia a dia s\u00e3o batalhas constantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Assisto com seriedade todos os programas evang\u00e9licos para entender o que est\u00e1 acontecendo. Fa\u00e7a uma coisa. Se voc\u00ea puder, ao chegar em casa, assista a um programa evang\u00e9lico. Voc\u00ea ver\u00e1 o tempo todo que nas prega\u00e7\u00f5es, serm\u00f5es e cultos sempre h\u00e1 um inimigo a ser vencido. O inimigo, claro, \u00e9 Satan\u00e1s. As pessoas v\u00e3o para o p\u00falpito e relatam as suas batalhas cotidianas contra o mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma das faces da guerra cultural. \u00c9 isso que est\u00e1 no livro do Edir Macedo e \u00e9 o que trabalharei no meu livro. Tentarei mostrar que a guerra cala fundo na percep\u00e7\u00e3o neopentecostal, sobretudo da Igreja Universal do Reino de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 por isso que o sr. fala tanto em deixar a caricatura de lado e tentar caracterizar o fen\u00f4meno da guerra cultural bolsonarista?<br><\/strong>Uma ministra como Damares Alves est\u00e1 constantemente em batalha contra a esquerda. \u00c9 exatamente o que eles querem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 quem diga que o governo sempre tenta tensionar a rela\u00e7\u00e3o com a democracia no aguardo de uma resposta violenta da esquerda para justificar um ato mais duro. O sr. acredita que essa seja uma an\u00e1lise poss\u00edvel?<br><\/strong>N\u00e3o creio. Isso \u00e9 uma incompreens\u00e3o da guerra cultural bolsonarista. Em geral, algu\u00e9m na minha posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o considera poss\u00edvel supor guerra cultural em um governo de incultos, que vive em hostilidade permanente com a l\u00edngua portuguesa. As pessoas n\u00e3o levam a s\u00e9rio a guerra cultural bolsonarista.&nbsp;Acreditam que se trata de simples pretexto e de atitudes atrapalhadas de um conjunto de aloprados. Digo que n\u00e3o. \u00c9 o eixo do governo. Precisamos passar da caricatura para a caracteriza\u00e7\u00e3o. Esque\u00e7amos as caricaturas que envolvam essas figuras, pensemos na caracteriza\u00e7\u00e3o dos seus projetos e dos seus atos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao analisar o 15 de mar\u00e7o convocado pelo presidente com envios de v\u00eddeos pelo WhatsApp e como o eleitorado bolsonarista reagiu a pautas como o fechamento do Congresso e do STF, h\u00e1 uma possibilidade de um golpe militar ou a batalha \u00e9 a da guerra cultural dentro das institui\u00e7\u00f5es?<br><\/strong>Precisamos caracterizar a guerra cultural, exp\u00f4-la, discutir com a sociedade para que n\u00e3o se chegue a este extremo. Mas o projeto \u00e9 esse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas este extremo \u00e9 poss\u00edvel?<\/strong><br>Este \u00e9 o projeto. Espero que n\u00e3o seja poss\u00edvel. Uma forma de torn\u00e1-lo intrinsecamente mais dif\u00edcil do que seria de outra forma \u00e9 tentar expor, tentar caracterizar, a guerra cultural, compreendendo que \u00e9 o eixo do governo e a ponta de lan\u00e7a de um projeto autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou interessado em dialogar, escapar da bolha. Dialogar com a direita, com os bolsonaristas, compreender seus pontos de vista. N\u00e3o partir do princ\u00edpio de que tenho alguma esp\u00e9cie de superioridade intelectual s\u00f3 por ser um professor universit\u00e1rio. Quero dialogar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero mostrar minha enorme preocupa\u00e7\u00e3o. Porque nunca houve na hist\u00f3ria do Pa\u00eds uma polariza\u00e7\u00e3o t\u00e3o danosa, de consequ\u00eancias t\u00e3o desastrosas, que podem genuinamente implicar na destrui\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave. E somente se tornar\u00e1 mais grave se n\u00e3o formos capazes de come\u00e7ar a dialogar. Se n\u00e3o houver um esfor\u00e7o s\u00e9rio de se fazer uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o presente, n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece ris\u00edvel que se caracterize o governo Bolsonaro como nazista ou fascista. \u00c9 ris\u00edvel. Porque \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica completamente diferente. N\u00e3o h\u00e1 nenhum rigor nessa rotula\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais uma esp\u00e9cie de desabafo de quem acha que a situa\u00e7\u00e3o nunca lhe vai atingir.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00f3s n\u00e3o come\u00e7armos agora uma discuss\u00e3o s\u00e9ria e cuidadosa sobre as consequ\u00eancias da guerra cultural do governo como ponta de lan\u00e7a de um projeto autorit\u00e1rio, esse projeto autorit\u00e1rio alcan\u00e7ar\u00e1 a todos n\u00f3s. A hora \u00e9 agora para propor an\u00e1lises e, sobretudo, recuperar a capacidade da sociedade brasileira de dialogar.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade brasileira como um todo apresenta um sintoma extremamente preocupante, que \u00e9 totalmente descrito na palestra do Francisco Escorsim no Instituto Borborema, quando ele diz que estar em guerra \u00e9 fechar os ouvidos para o outro. Fechar os ouvidos para o outro n\u00e3o \u00e9 estar em guerra. \u00c9 estar morto vivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando as pessoas perderam a capacidade de dialogar com o outro?<\/strong><br>Teria de pensar com mais cuidado. Mas acredito que o primeiro momento em que isso come\u00e7a a ocorrer \u00e9 a partir das manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013. Esse \u00e9 um momento crucial na hist\u00f3ria, mas ainda n\u00e3o o compreendemos de todo. \u00c9 em 2013 que um sentimento antissist\u00eamico se torna dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro \u00e9 mais sist\u00eamico do que a maioria dos deputados; ora, ele \u00e9 o \u00fanico pol\u00edtico que tem tr\u00eas filhos que vivem de recursos p\u00fablicos como pol\u00edticos, que tem uma ex-mulher que se elegeu, que tem esta pr\u00e1tica no m\u00ednimo curiosa de funcion\u00e1rios nos gabinetes, O pol\u00edtico mais sist\u00eamico \u00e9 o Bolsonaro, que ficou 28 anos na C\u00e2mara e colocou a fam\u00edlia inteira para receber sal\u00e1rio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande intelig\u00eancia de Bolsonaro foi captar o movimento antissist\u00eamico, sendo ele o deputado mais sist\u00eamico. Por que isso foi poss\u00edvel? Porque no lugar de caracterizar o fen\u00f4meno Bolsonaro, passamos anos fazendo dele uma caricatura. Se tiv\u00e9ssemos tido o cuidado de caracterizar o fen\u00f4meno, mostrando que toda a fam\u00edlia ganha sal\u00e1rio p\u00fablico, talvez a hist\u00f3ria tivesse sido outra\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Toda fam\u00edlia do Bolsonaro vive do imposto que n\u00f3s pagamos. Como se pode ser antissistema dessa forma?&nbsp;Mas como perdemos anos fazendo caricatura do Bolsonaro, n\u00e3o caracterizamos o fen\u00f4meno. Chegou a hora de abandonar a caricatura e caracterizar o fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bolsonaro era tratado como piada no CQC, na Luciana Gimenez\u2026<\/strong><br>Enquanto isso todos os filhos eram pol\u00edticos. E quem pagava o sal\u00e1rio dos filhos? Eu e voc\u00ea. N\u00f3s erramos o alvo. Trocamos a caracteriza\u00e7\u00e3o pela caricatura. Em consequ\u00eancia perdemos. O correto agora seria, com seriedade, caracterizar o bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Seria um mal da sociedade do meme, que se acostumou com uma comunica\u00e7\u00e3o rasa, f\u00e1cil e engra\u00e7ada?<br><\/strong>Exatamente: em lugar de parar para pensar e refletir. N\u00e3o estou afirmando que o que digo seja a verdade. N\u00e3o tenho a verdade. Proponho hip\u00f3teses em decorr\u00eancia da gravidade da situa\u00e7\u00e3o que vejo.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o do Bolsonaro, tudo que fizeram foi caricatura. O que estou dizendo \u00e9 que chegou o momento de abandonar a caricatura e passar \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o. Antes que seja tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor doutor da UERJ diz que guerra cultural bolsonarista vem de \u201ctradu\u00e7\u00e3o inesperada, de consequ\u00eancias funestas\u201d, da doutrina de seguran\u00e7a nacional da Escola Superior Militar.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-26800","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6Yg","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26800"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26800\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26802,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26800\/revisions\/26802"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}