{"id":26829,"date":"2020-03-10T19:10:07","date_gmt":"2020-03-10T23:10:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=26829"},"modified":"2020-03-10T19:10:13","modified_gmt":"2020-03-10T23:10:13","slug":"o-virus-que-bloqueia-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/03\/10\/o-virus-que-bloqueia-o-mundo\/","title":{"rendered":"O v\u00edrus que bloqueia o mundo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"367\" data-attachment-id=\"26830\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/03\/10\/o-virus-que-bloqueia-o-mundo\/image-28-5\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?fit=640%2C391\" data-orig-size=\"640,391\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-28\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?fit=300%2C183\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?fit=600%2C367\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?resize=600%2C367\" alt=\"\" class=\"wp-image-26830\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?resize=300%2C183 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/image-28.jpeg?resize=491%2C300 491w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Como em menos de tr\u00eas meses o agente patog\u00eanico SARS-Cov-2 colocou o mercado financeiro em alerta, desacelerou a economia global, modificou os h\u00e1bitos cotidianos, reavivou medos ancestrais e p\u00f4s em xeque os l\u00edderes do planeta.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No El Pa\u00eds<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/marc_bassets_claret\/a\/\">MARC BASSETS<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O mundo olhava para o outro lado. Eram os \u00faltimos dias de 2019 e os primeiros de 2020, e os motivos de inquieta\u00e7\u00e3o abundavam. Eram reais, mas n\u00e3o os corretos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-01-12\/os-12-dias-que-mantiveram-o-mundo-em-suspense.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ordenar a execu\u00e7\u00e3o do general Qasem Soleimani<\/a>, homem forte do regime iraniano, o presidente dos Estados Unidos,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/donald-trump\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Donald Trump<\/a>, avivou os temores de um novo inc\u00eandio no Oriente M\u00e9dio, inclusive de um conflito global. As&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-01-13\/incendios-ameacam-diversidade-da-fauna-australiana.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">queimadas na Austr\u00e1lia<\/a>&nbsp;lan\u00e7avam um alerta de outro tipo: a urg\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. As grandes economias ofereciam sinais de fragilidade. Na Europa, os preparativos do&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/referendum-permanencia-reino-unido-ue\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Brexit<\/a>, somados \u00e0 a for\u00e7a dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/nacionalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">movimentos nacionalistas<\/a>, o medo da imigra\u00e7\u00e3o e o&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-03-09\/milhares-de-mulheres-mostram-sua-forca-nas-ruas-da-america-latina.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">descontentamento com as elites governantes<\/a>, refletiam uma crise mais profunda de um sistema sob tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a crise que faz parte da humanidade tremer neste in\u00edcio de d\u00e9cada vinha de outro lugar e era outra coisa. Finalmente o\u00a0<em>big one<\/em>\u00a0\u2013 a grande crise, o\u00a0grande terremoto, a amea\u00e7a escondida que poderia mudar tudo \u2013 n\u00e3o apareceu sob a forma de atentado maci\u00e7o, guerra ou recess\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00e3o tinha o rosto de\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/vladimir-putin\/\" target=\"_blank\">Vladimir Putin<\/a>nem de um obscuro terrorista do moribundo\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/eiil-estado-islamico-irak-levante\/\" target=\"_blank\">Estado Isl\u00e2mico<\/a>. Era algo diferente: um agente min\u00fasculo \u2013 125 nan\u00f4metros, ou seja, 0,000125 mil\u00edmetro \u2013 localizado possivelmente em um mercado de uma populosa cidade chinesa, embora a origem exata continue envolta em uma nebulosa.<\/p>\n\n\n\n<p>E este v\u00edrus, tecnicamente chamado&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ncov\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SARS-Cov-2<\/a>, causador da doen\u00e7a Covid-19, p\u00f4s em xeque Governos que se consideravam invulner\u00e1veis e poderosos; engripou a m\u00e1quina que faz funcionar a globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 o com\u00e9rcio, as viagens, a ind\u00fastria \u2013;&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-03-09\/ibovespa-despenca-e-bolsa-e-suspensa-apos-cair-mais-de-10.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">colocou o mercado financeiro em alerta, levando a economia ao momento mais cr\u00edtico desde a crise financeira de 2008<\/a>; despertou em muitos cidad\u00e3os medos at\u00e1vicos e lhes recordou que s\u00e3o mortais, e come\u00e7a a alterar nossos costumes, talvez de forma duradoura. O balan\u00e7o mundial supera os 100.000 casos e 3.500 mortos. E deixa em estado de semiexce\u00e7\u00e3o popula\u00e7\u00f5es inteiras em zonas ricas de pa\u00edses desenvolvidos, sem mem\u00f3ria recente de situa\u00e7\u00f5es similares, a n\u00e3o ser por alus\u00f5es liter\u00e1rias ou cinematogr\u00e1ficas. A not\u00edcia, nesta segunda-feira, de que o Governo italiano colocar\u00e1 o<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-03-09\/premie-italiano-teria-sido-criminoso-ocultar-dados-do-coronavirus-ou-minimiza-lo.html\">&nbsp;pa\u00eds inteiro em situa\u00e7\u00e3o de isolamento<\/a>, assim como j\u00e1 estavam 16 milh\u00f5es de pessoas nas regi\u00f5es da Lombardia e outras 14 prov\u00edncias do norte, \u00e9 uma evid\u00eancia tanto da preocupa\u00e7\u00e3o que a praga suscita entre as autoridades como de seu car\u00e1ter excepcional.<\/p>\n\n\n\n<p>Observar como a irrup\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus ocorreu em um per\u00edodo t\u00e3o breve \u2013 um abrir e fechar de olhos na escala do tempo acelerado da informa\u00e7\u00e3o 24 horas e do fluxo turvo das redes \u2013 e como passou a dominar as agendas globais e pessoais, tem uma dupla utilidade. Primeiro, \u00e9 como se estivesse se estendendo um produto revelador sobre o planeta: mostra \u2013 e amplifica \u2013 suas fraquezas e falhas. E, segundo, tem a capacidade de acelerar processos em curso: do freio na&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/globalizacion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a>&nbsp;\u00e0 tend\u00eancia a erguer fronteiras nas democracias ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7a em dezembro na&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/china\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">China<\/a>, num mercado \u2013 at\u00e9 onde se soube \u2013, e a origem do v\u00edrus se encontra provavelmente em um morcego, do qual o ser humano se contagiou, talvez atrav\u00e9s de outro animal. Eis aqui, de sa\u00edda, dois elementos determinantes. Um, bem vis\u00edvel, taxativo, colossal: a China. Outro, invis\u00edvel, microsc\u00f3pico: os v\u00edrus ditos zoon\u00f3ticos, ou seja, transmiss\u00edveis de animais para humanos, que causam algumas das doen\u00e7as mais destrutivas das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-01-18\/china-cresce-61-em-2019-a-menor-taxa-em-29-anos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">China representa 17% da economia mundial<\/a>; 11% do com\u00e9rcio, 9% do turismo, 40% da demanda de algumas mat\u00e9rias-primas. \u00c9 o pa\u00eds mais populoso: 1,4 bilh\u00e3o. \u00c9 a f\u00e1brica do planeta, um experimento de turbocapitalismo governado por um regime autorit\u00e1rio, a pot\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mica e disputa a hegemonia mundial com os EUA, o grande triunfador da \u00faltima etapa de globaliza\u00e7\u00e3o dos bens e servi\u00e7os iniciada h\u00e1 cerca de 30 anos.Por que alguns v\u00edrus se espalham e infectam humanos?<\/p>\n\n\n\n<p>David Quammen, de Montana (Estados Unidos)<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo elemento s\u00e3o os v\u00edrus que passam de animais a seres humanos. As doen\u00e7as causadas por eles incluem a gripe de 1918, que matou 50 milh\u00f5es de pessoas segundo algumas estimativas, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/sida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">AIDS<\/a>, da qual j\u00e1 morreram 32 milh\u00f5es de pessoas, mas tamb\u00e9m o&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ebola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ebola<\/a>, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/sars\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SARS<\/a>, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/gripe-aviar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">gripe avi\u00e1ria<\/a>&nbsp;e o&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ncov\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Covid-19<\/a>. Sempre existiram, mas, como explica David Quammen, autor de&nbsp;<em>Spillover \u2013 Animal Infections and the Next Human Pandemic<\/em>&nbsp;(\u201ctransbordamento&nbsp;<em>\u2013<\/em>infec\u00e7\u00f5es animais e a pr\u00f3xima pandemia humana\u201d), vivemos \u201cuma era de zoonoses emergentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 muitos v\u00edrus vivendo em animais, plantas e bact\u00e9rias nos ecossistemas. Provavelmente milh\u00f5es. Alguns podem infectar os humanos, al\u00e9m das criaturas nas quais estiverem. Por que alguns v\u00edrus se espalham e infectam os humanos?\u201d, diz Quammen, por telefone, de Montana. \u201c\u00c9 porque estamos entrando em contato com esses animais, plantas e criaturas. Perturbamos ecossistemas diversos. Destru\u00edmos a floresta tropical. Constru\u00edmos povoados e minas nestes lugares. Destru\u00edmos \u00e1rvores.&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/planeta_futuro\/2020-03-06\/humanos-que-comem-animais-selvagens-sem-controle-um-barril-de-polvora-para-a-saude-mundial.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Comemos os animais que vivem nessas matas. Capturamos animais selvagens e os enviamos a mercados na China.<\/a>&nbsp;Com estas a\u00e7\u00f5es nos expomos a estes v\u00edrus.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um enigma quando o SARS-Cov-2 come\u00e7ou a circular e quando os primeiros casos foram detectados. A \u00fanica data segura, por enquanto, \u00e9 31 de dezembro. Nesse dia, o Governo chin\u00eas confirmou os primeiros casos de uma pneumonia de origem desconhecida. Tudo foi r\u00e1pido desde ent\u00e3o. Em 7 de janeiro, pesquisadores chineses identificaram o novo v\u00edrus. Quatro dias mais tarde, declarou-se o primeiro morto: um homem de 61 anos, cliente do mercado de&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/wuhan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wuhan<\/a>, cidade de 11 milh\u00f5es de habitantes no centro da China. E 10 dias mais tarde foram registrados os primeiros casos no&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/japon\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jap\u00e3o<\/a>, Coreia do Sul e Tail\u00e2ndia, e as autoridades chinesas impuseram o isolamento de Wuhan. A crise j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 chinesa: transformou-se em asi\u00e1tica. Em 30 de janeiro, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/oms-organizacion-mundial-salud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a>&nbsp;decretou \u201cemerg\u00eancia sanit\u00e1ria global\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Casos confirmados em todo o mundo (em espanhol)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" height=\"600\" src=\"https:\/\/datawrapper.dwcdn.net\/vWPRv\/11\/\" width=\"320\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Muitos dos dilemas que surgiriam nas semanas seguintes, quando as contagens di\u00e1rias de pacientes deixaram de ser um assunto long\u00ednquo fora da&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/asia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c1sia<\/a>, j\u00e1 estavam ali. \u00c9 poss\u00edvel isolar o mal e derrot\u00e1-lo? Ou \u00e9 preciso se conformar em administr\u00e1-lo da melhor forma poss\u00edvel para atenuar seu impacto?&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-03-09\/italia-amplia-as-medidas-de-isolamento-a-todo-o-pais-para-frear-o-coronavirus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As quarentenas s\u00e3o \u00fateis?<\/a>&nbsp;E outra pergunta fundamental: para administrar uma epidemia como esta e impor medidas dr\u00e1sticas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o mais bem equipados os Estados autorit\u00e1rios ou os democr\u00e1ticos?<\/p>\n\n\n\n<p>O Governo chin\u00eas foi criticado no princ\u00edpio por sua opacidade, e o descontentamento se refletiu nas cr\u00edticas depois da morte, em 7 de fevereiro, do m\u00e9dico Li Wenliang, repreendido por dar o alarme em dezembro e primeiro m\u00e1rtir da pandemia. Desde ent\u00e3o, suas medidas de choque para frear a doen\u00e7a motivaram o aplauso das autoridades sanit\u00e1rias internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pergunta \u00e9: quem est\u00e1 mais bem protegido? As ditaduras ou as democracias?\u201d, diz a professora Anne-Marie Moulin, m\u00e9dica e fil\u00f3sofa do Centro Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas da Fran\u00e7a. \u201cEst\u00e1 claro que um pa\u00eds autorit\u00e1rio, com popula\u00e7\u00f5es acostumadas a medidas absolutas, pode parecer mais favor\u00e1vel \u00e0 defesa contra as&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/epidemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epidemias<\/a>. Mas uma democracia em que a informa\u00e7\u00e3o circula, e onde os cidad\u00e3os se sentem solid\u00e1rios, tamb\u00e9m pode ser um pa\u00eds mais vigilante e mais bem organizado, no qual ligar para avisar sobre um caso n\u00e3o pare\u00e7a uma den\u00fancia. Sabe o que teria de ser feito? Considerar dois pa\u00edses com a mesma epidemia: um autorit\u00e1rio, que n\u00e3o respeite as liberdades, e outro que as respeite. E ver o que acontece. \u00c9 uma experi\u00eancia que nunca ocorreu, de modo que temos que nos conformar com as especula\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/bo6nkKf2GPhwrib8Jlw7X3sVzZE%3D\/768x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/JX6MBAPH7S4LUHXANBP2JJORAM.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Funcion\u00e1rios chineses viajam atrav\u00e9s da neve para visitar aldeias remotas e informar sobre o coronav\u00edrus. \"\/><figcaption>Funcion\u00e1rios chineses viajam atrav\u00e9s da neve para visitar aldeias remotas e informar sobre o coronav\u00edrus.&nbsp;A RAN (EFE)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se os dois modelos fossem claros e cristalinos como na Guerra Fria, talvez seria mais simples. Hoje o v\u00edrus circula por um planeta governado por&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/xi-jinping\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Xi Jinping<\/a>&nbsp;e Donald Trump, \u201cdois grandes rivais que parecem debilitados pela epidemia\u201d, comenta Dominique Mo\u00efsi, conselheiro especial do laborat\u00f3rio de ideias Institut Montaigne, com sede em Paris, e autor de livros como&nbsp;<em>A Geopol\u00edtica das Emo\u00e7\u00f5es<\/em>&nbsp;(Elsevier). Nos Estados Unidos, \u201ca crise no in\u00edcio teve uma gest\u00e3o bastante ruim por parte de Trump, que a desprezou e fez declara\u00e7\u00f5es improvisadas\u201d, explica Mo\u00efsi. \u201cNa China, viu-se que os que lamentavam a centraliza\u00e7\u00e3o excessiva do poder, o retorno a um modo imperial de gest\u00e3o, usavam a crise para criticar o poder\u201d, explica. \u201cXi Jinping acabar\u00e1 enfraquecido? Ou poder\u00e1 dizer que foi surpreendido no in\u00edcio, que o gosto pelo secreto tornou lenta a capacidade de enfrentar a crise, mas que, no final das contas, a centraliza\u00e7\u00e3o de um regime autorit\u00e1rio permitiu cont\u00ea-la?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2 de fevereiro, registrou-se o primeiro morto fora da China, nas&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/filipinas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Filipinas<\/a>. Duas semanas depois, veio o primeiro fora da \u00c1sia, um turista chin\u00eas de 80 anos em&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Paris<\/a>. Hoje s\u00e3o mais de 400 mortos fora da China, com dois focos cr\u00edticos: Ir\u00e3 e It\u00e1lia, e uma onda expansiva que revoluciona o que h\u00e1 quatro dias parecia s\u00f3lido.<\/p>\n\n\n\n<p>Torneios esportivos e congressos internacionais s\u00e3o cancelados \u2013 hoje parece fora de lugar o ceticismo com o qual muitos reagiram ante a decis\u00e3o de suspender o Mobile World Congress em Barcelona \u2013,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-03-06\/quase-300-milhoes-de-alunos-ja-foram-afetados-pelo-fechamento-de-escolas-por-conta-do-coronavirus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">e escolas foram fechadas em v\u00e1rios pa\u00edses deixando 290 milh\u00f5es de alunos em casa<\/a>. Na Fran\u00e7a, o Governo recomenda que as pessoas deixem de se cumprimentar com apertos de m\u00e3o e, pior, deixem de lado a&nbsp;<em>bise<\/em>&nbsp;(os dois beijos que d\u00e3o cada vez que se veem), um tra\u00e7o cultural que, se desaparecer, significar\u00e1 uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel para a&nbsp;<em>art de vivre<\/em>francesa. Em Miami, um homem vai a um centro m\u00e9dico para fazer o exame de coronav\u00edrus e, como publicou o jornal&nbsp;<em>Miami Herald<\/em>, sai com uma conta de 3.270 d\u00f3lares: o SARS-Cov-2 revela as caracter\u00edsticas de um sistema de sa\u00fade predominantemente privado. A Ar\u00e1bia Saudita fecha a entrada de peregrinos a Meca, e o Santu\u00e1rio de Lourdes, na Fran\u00e7a, fecha os banheiros com \u00e1gua da gruta milagrosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcas norte-americanas como&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/mcdonalds\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">McDonald\u2019s<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/starbucks\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Starbucks<\/a>&nbsp;fecham lojas na China, companhias a\u00e9reas suspendem voos a este pa\u00eds, e o tr\u00e1fego de cont\u00eaineres no porto de Los Angeles \u2013 principal porta de entrada dos produtos chineses aos EUA e ponto nevr\u00e1lgico da globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 cai 25%. A queda da produ\u00e7\u00e3o de alguns setores industriais importantes desse pa\u00eds (entre 15% e 40%) reduziu em 25% as emiss\u00f5es de gases do efeito estufa, segundo dados do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, uma organiza\u00e7\u00e3o finlandesa.<\/p>\n\n\n\n<p>O dilema \u00e9: quanto mais dr\u00e1sticas forem as medidas e o medo, pior ser\u00e1 o impacto tanto na oferta (as f\u00e1bricas e os escrit\u00f3rios param, as lojas ficam vazias) como na demanda. Inicialmente, no cen\u00e1rio mais otimista, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-03-02\/coronavirus-pode-derrubar-pela-metade-crescimento-mundial-preve-ocde.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OCDE previa uma queda do crescimento mundial de 2,9% para 2,4% em 2020<\/a>. Seria o n\u00edvel mais baixo desde a crise financeira de 2008. No pior cen\u00e1rio, a economia global cresceria 1,5%. Logo ap\u00f3s, decidiu n\u00e3o publicar os principais indicadores de confian\u00e7a para mar\u00e7o e adiou seu pr\u00f3ximo relat\u00f3rio para abril. O motivo: a organiza\u00e7\u00e3o acredita que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel coletar os efeitos econ\u00f4micos do surto de coronav\u00edrus. J\u00e1 as&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/onu_organizacion_naciones_unidas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Na\u00e7\u00f5es Unidas&nbsp;<\/a>alertaram que a crise do coronav\u00edrus est\u00e1 levando a uma amea\u00e7a econ\u00f4mica, cujo \u201cterremoto\u201d causar\u00e1 uma recess\u00e3o em alguns pa\u00edses, bem como a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento anual global abaixo de 2,5%.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/5nfG_rH2iS7X7KbjHb4UyIVoftI%3D\/768x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/A56LIPZ4GZXXGHRNGU2REXRUZM.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Dois turistas com m\u00e1scara para evitar o coronav\u00edrus, em frente \u00e0 Torre Eiffel de Paris. \"\/><figcaption>Dois turistas com m\u00e1scara para evitar o coronav\u00edrus, em frente \u00e0 Torre Eiffel de Paris.&nbsp;MEHDI TAAMALLAH (GETTY)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Impulsionado pela globaliza\u00e7\u00e3o, que abre fronteiras \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, pessoas e tamb\u00e9m v\u00edrus, o SARS-Cov-2 amea\u00e7a mat\u00e1-la, como se 2020 fosse fechar definitivamente o ciclo aberto em 1989 com a queda do&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/muro-berlin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Muro de Berlim<\/a>. \u201cA epidemia interv\u00e9m num momento em que j\u00e1 question\u00e1vamos a mundializa\u00e7\u00e3o\u201d, resume o veterano cientista pol\u00edtico Mo\u00efsi. \u201cE acelera e confirma potencialmente a ideia segundo a qual a mundializa\u00e7\u00e3o feliz era uma ilus\u00e3o tempor\u00e1ria que duraria poucos anos, enquanto enfrentamos a mundializa\u00e7\u00e3o infeliz.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00e9pocas de nacionalismo e&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/populismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">populismo<\/a>, as mensagens de desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao estrangeiro e as teorias da conspira\u00e7\u00e3o ganham novas c\u00e2maras de resson\u00e2ncia. \u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o da retirada, que vai da perman\u00eancia em casa fazendo teletrabalho at\u00e9 o fechamento das fronteiras aos refugiados da S\u00edria. E tudo isso imerso na sensa\u00e7\u00e3o de irrealidade sobre a gravidade real de algo que n\u00e3o vemos e que assusta mais pelo que poderia ser do que pelo que ainda \u00e9. \u201cA crise do coronav\u00edrus acelera e aprofunda uma cultura do medo que j\u00e1 estava presente\u201d, diz Mo\u00efsi. E, com um toque de humor, ele compara com uma comida: \u201c\u00c9 como se reserv\u00e1ssemos o pior para o final.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como em menos de tr\u00eas meses o agente patog\u00eanico SARS-Cov-2 colocou o mercado financeiro em alerta, desacelerou a economia global, modificou os h\u00e1bitos cotidianos, reavivou medos ancestrais e p\u00f4s em xeque os l\u00edderes do planeta.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-26829","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6YJ","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26829"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26829\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26831,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26829\/revisions\/26831"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26829"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}