{"id":27407,"date":"2020-04-09T12:20:45","date_gmt":"2020-04-09T16:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=27407"},"modified":"2020-04-09T12:20:54","modified_gmt":"2020-04-09T16:20:54","slug":"em-meio-a-covid-19-garimpo-avanca-e-se-aproxima-de-indios-isolados-em-roraima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/04\/09\/em-meio-a-covid-19-garimpo-avanca-e-se-aproxima-de-indios-isolados-em-roraima\/","title":{"rendered":"Em meio \u00e0 covid-19, garimpo avan\u00e7a e se aproxima de \u00edndios isolados em Roraima"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/13C5\/production\/_111716050_yanomami_isolados.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Maloca da comunidade Moxihat\u00ebt\u00ebma, formada por diveros telhados de palha voltados uns para os outros, com o centro aberto, em maio a clareira na floresta\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Imagens de sat\u00e9lite mostram que garimpeiros est\u00e3o ampliando suas opera\u00e7\u00f5es dentro da Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, mesmo durante a pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p> Jo\u00e3o Fellet, BBC News Brasil en S\u00e3o Paulo<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um boletim produzido pelo Instituto Socioambiental (ISA), que monitora a atividade na regi\u00e3o, houve um aumento de 3% na \u00e1rea degradada por garimpeiros no territ\u00f3rio yanomami em mar\u00e7o em compara\u00e7\u00e3o com fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma das frentes, as escava\u00e7\u00f5es passaram a ocorrer a cerca de 5 quil\u00f4metros de uma ro\u00e7a rec\u00e9m-aberta por um subgrupo yanomami que vive em isolamento volunt\u00e1rio e jamais recebeu qualquer vacina.<\/p>\n\n\n\n<p>Ind\u00edgenas s\u00e3o considerados especialmente vulner\u00e1veis \u00e0 pandemia por conta de costumes que tendem a facilitar a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as respirat\u00f3rias e da aus\u00eancia de hospitais em seus territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de ind\u00edgenas isolados, os riscos s\u00e3o ainda maiores, pois v\u00e1rios desses grupos n\u00e3o t\u00eam qualquer mem\u00f3ria imunol\u00f3gica contra outros v\u00edrus que podem ser levados por forasteiros e que poderiam agravar um eventual surto de covid-19 nas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima ter\u00e7a-feira, a Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai) divulgou que um jovem yanomami contraiu covid-19 &#8211; \u00e9 o primeiro caso registrado entre a etnia.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz, que foi levado para a UTI de um hospital em Boa Vista, vive em uma comunidade na regi\u00e3o do rio Uraricoera, onde h\u00e1 circula\u00e7\u00e3o intensa de garimpeiros.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Maior terra ind\u00edgena do Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>Na fronteira do Brasil com a Venezuela, o territ\u00f3rio Yanomami \u00e9 a maior terra ind\u00edgena do pa\u00eds, com \u00e1rea equivalente \u00e0 de Portugal. Nele vivem cerca de 26 mil membros dos povos yanomami e ye&#8217;kwana, distribu\u00eddos em 321 aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Rico em dep\u00f3sitos de ouro, o territ\u00f3rio \u00e9 cobi\u00e7ado por garimpeiros desde a d\u00e9cada de 1970. Desde ent\u00e3o, v\u00e1rias doen\u00e7as levadas por n\u00e3o ind\u00edgenas assolaram o grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o boletim do ISA, os novos focos de garimpo degradaram 114 hectares (o equivalente a 114 campos de futebol) de floresta na Terra Ind\u00edgena Yanomami em mar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>As regi\u00f5es que tiveram maior incremento nas escava\u00e7\u00f5es foram as de Hakoma e Parima, &#8220;que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o pareciam ter uma atividade t\u00e3o intensa&#8221;, segundo o boletim.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/61E5\/production\/_111716052_garimpo_funai.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Garimpo na Terra Ind\u00edgena Yanomami\"\/><figcaption>Image captionNovos focos de garimpo degradaram 114 hectares (o equivalente a 114 campos de futebol) de floresta na Terra Ind\u00edgena Yanomami em mar\u00e7o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Este aumento \u00e9 especialmente preocupante nesse momento de amea\u00e7a de cont\u00e1gio de covid-19, pois nessas regi\u00f5es est\u00e3o localizadas comunidades com menos contato com a sociedade nacional, onde as pessoas, possivelmente, possuem sistemas imunol\u00f3gicos mais sens\u00edveis a este tipo de enfermidade&#8221;, diz o documento.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto tamb\u00e9m faz um alerta sobre o avan\u00e7o de garimpeiros na regi\u00e3o da Serra da Estrutura, onde um subgrupo yanomami vive em isolamento volunt\u00e1rio, sem contato com outras comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, imagens de sat\u00e9lite detectaram uma nova ro\u00e7a atribu\u00edda ao grupo isolado em um local que fica a cerca de 5 km de uma frente de garimpo ativa na regi\u00e3o do rio Novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores do boletim dizem acreditar que a ro\u00e7a esteja associada justamente \u00e0 tentativa de funda\u00e7\u00e3o de uma nova aldeia perto da zona de garimpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel que essa aproxima\u00e7\u00e3o seja, inclusive, intencional, visando manter uma rela\u00e7\u00e3o de troca com os garimpeiros, o que na hist\u00f3ria de contato dessa sociedade sempre resultou em trag\u00e9dia para ambos os lados&#8221;, diz o boletim.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores do texto estimam que haja 10 mil garimpeiros no territ\u00f3rio. Eles afirmam que at\u00e9 agora n\u00e3o houve qualquer sinal de diminui\u00e7\u00e3o nas atividades de garimpo na regi\u00e3o por conta da pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil questionou a Funai, a Pol\u00edcia Federal e o Ex\u00e9rcito sobre o avan\u00e7o de garimpeiros no territ\u00f3rio yanomami, mas n\u00e3o obteve respostas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B005\/production\/_111716054_mucajai_planet.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem de sat\u00e9lite em mar\u00e7o de 2020 mostra focos de garimpos no rio Mucaja\u00ed\"\/><figcaption>Image captionImagem de sat\u00e9lite em mar\u00e7o de 2020 mostra focos de garimpos no rio Mucaja\u00ed<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os fizeram v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es contra o garimpo na regi\u00e3o nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma das iniciativas mais recentes, em janeiro de 2019, um sargento do Ex\u00e9rcito teve parte da m\u00e3o decepada ao tentar interceptar um barco que transportava garimpeiros pelo rio Uraricoera.<\/p>\n\n\n\n<p>O piloto jogou a embarca\u00e7\u00e3o contra o sargento, que se feriu com a batida. O piloto conseguiu fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das repetidas opera\u00e7\u00f5es, os autores do boletim do ISA afirmam que os garimpeiros jamais deixaram o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios focos de garimpo operam em \u00e1reas com pistas de pouso clandestinas. Essas pistas conseguem garantir a chegada de alimentos e combust\u00edvel para os garimpeiros mesmo quando for\u00e7as de seguran\u00e7a realizam bloqueios nos rios da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cercados pelo garimpo<\/h2>\n\n\n\n<p>Conhecidos como moxihat\u00ebt\u00ebma th\u00ebp\u00eb, os ind\u00edgenas isolados amea\u00e7ados pelos garimpeiros pertencem a um subgrupo yanomami monitorado pela Funai h\u00e1 quase uma d\u00e9cada. Estima-se que o grupo tenha hoje cerca de 120 integrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, houve relatos de confrontos que opuseram os moxihat\u00ebt\u00ebma a garimpeiros e a outras comunidades yanomami nas regi\u00f5es dos rios Catrimani, Mucaja\u00ed e Apiau.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou a se especular que o grupo tivesse sido extinto por conta dos conflitos e de doen\u00e7as, at\u00e9 que sobrevoos identificaram as malocas e ro\u00e7as da comunidade em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o grupo vinha se afastando de uma frente de garimpo na regi\u00e3o do rio Mucaja\u00ed. Os ind\u00edgenas seguem se deslocando na mesma dire\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que agora se aproximam de outra frente no rio Novo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3rico de epidemias<\/h2>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<em>O papel pol\u00edtico das epidemias: o caso yamomam<\/em>i, de 1993, a antrop\u00f3loga Alcida Rita Ramos diz que cerca de mil ind\u00edgenas &#8211; ou 14% da popula\u00e7\u00e3o da etnia em Roraima na \u00e9poca &#8211; morreram por conta de doen\u00e7as no auge da invas\u00e3o garimpeira, entre 1987 e 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma d\u00e9cada antes, a constru\u00e7\u00e3o da rodovia Perimetral Norte na regi\u00e3o tamb\u00e9m exp\u00f4s as comunidades a epidemias. Entre 1974 e 1975, segundo Ramos, doen\u00e7as infecciosas mataram 22% da popula\u00e7\u00e3o de quatro aldeias yanomami atingidas pelas obras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FE25\/production\/_111716056_uraricoera_planet.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem de sat\u00e9lite em mar\u00e7o de 2020 mostra focos de garimpo no rio Uraricoera\"\/><figcaption>Image captionImagem de sat\u00e9lite em mar\u00e7o de 2020 mostra focos de garimpo no rio Uraricoera<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Dois anos depois, mais 50% dos habitantes de outras quatro comunidades sucumbiram a uma epidemia de sarampo&#8221;, diz a antrop\u00f3loga. Entre os cerca de 130 ind\u00edgenas que viviam no rio Apia\u00fa, s\u00f3 sobreviveram 30.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desgarrados, acabaram abandonando a \u00e1rea e juntaram-se a outras comunidades. Em fevereiro de 1992, o que fora suas terras era agora uma gigantesca \u00e1rea de queimadas de mais de 30 mil hectares transformados em projeto de coloniza\u00e7\u00e3o regional.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em outra regi\u00e3o, os 60 remanescentes de um grupo de 102 ind\u00edgenas &#8220;se dispersaram, abrindo caminho para uma intensa ocupa\u00e7\u00e3o por colonos brasileiros do que fora terras suas&#8221;. &#8220;Alguns desses yanomami vivem hoje como agregados nos s\u00edtios desses colonos&#8221;, escreveu a antrop\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Apelo \u00e0s autoridades<\/h2>\n\n\n\n<p>Em post publicado em 27 de mar\u00e7o no Facebook, a Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami, principal organiza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena da regi\u00e3o, divulgou fotos recentes de garimpeiros na regi\u00e3o do rio Mucaja\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu quero chamar a aten\u00e7\u00e3o das autoridades n\u00e3o ind\u00edgenas. Na nossa Terra Ind\u00edgena Yanomami (est\u00e1) cada vez mais aumentando os garimpeiros ilegais, esses garimpeiros ilegais est\u00e3o entrando nas comunidades e n\u00e3o s\u00e3o examinados por m\u00e9dicos&#8221;, diz o post.<\/p>\n\n\n\n<p>A Hutukara cobrou as autoridades a bloquear as seis principais rotas de acesso \u00e0s comunidades: os rios Uraricuera, Mucaja\u00ed, Ajarani, Catrimani, Demini e Maraui\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagens de sat\u00e9lite mostram que garimpeiros est\u00e3o ampliando suas opera\u00e7\u00f5es dentro da Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, mesmo durante a pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-27407","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-783","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27407"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27408,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27407\/revisions\/27408"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}