{"id":27578,"date":"2020-04-18T07:52:30","date_gmt":"2020-04-18T11:52:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=27578"},"modified":"2020-04-18T07:52:34","modified_gmt":"2020-04-18T11:52:34","slug":"sebastiao-salgado-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/04\/18\/sebastiao-salgado-na-amazonia\/","title":{"rendered":"SEBASTI\u00c3O SALGADO NA AMAZ\u00d4NIA"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/opening-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Xingu\u00a0<\/strong>Popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no norte do Mato Grosso j\u00e1 foi dizimada por epidemias, a primeira delas no s\u00e9culo 16; sanitarista que trabalha na regi\u00e3o prev\u00ea \u2018situa\u00e7\u00e3o explosiva\u2019 e diz que cidades vizinhas j\u00e1 t\u00eam infectados por coronav\u00edrus.<br><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Na Folha de S\u00e3o Paulo<\/p>\n\n\n\n<p>Terra ind\u00edgena \u00e9 hoje ilha de floresta cercada por soja.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;tem muitas entradas. As mais usadas passam por cidades que nasceram e cresceram vertiginosamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como Canarana, Feliz Natal, Ga\u00facha do Norte, Lucas do Rio Verde, Marcel\u00e2ndia, Quer\u00eancia, S\u00e3o Jos\u00e9 do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;e Sinop. Todas s\u00e3o refer\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de soja e delas saem estradas para diferentes aldeias do territ\u00f3rio. Por ar ou terra, a viagem \u00e9 reveladora do desmatamento radical das \u00e1reas do entorno pelas fazendas da monocultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantamento da Rede&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;+ publicado pelo ISA (Instituto Socioambiental) no in\u00edcio de abril mostra que, nos dois primeiros meses de 2020, 10 milh\u00f5es de \u00e1rvores foram derrubadas ilegalmente na por\u00e7\u00e3o mato-grossense da bacia do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>, o equivalente a 84% do desmatamento na regi\u00e3o entre janeiro e fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sul do parque, Canarana \u00e9 a cidade mais pr\u00f3xima de onde vivem os \u00edndios kalapalos,&nbsp;<strong>kamaiur\u00e1<\/strong>s,&nbsp;<strong>kuikuro<\/strong>s,&nbsp;<strong>waur\u00e1s<\/strong>&nbsp;e yawalapitis, moradores da \u00e1rea chamada de Alto&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>(o rio corre do sul para o norte). O caminho usual leva por terra at\u00e9 a aldeia dos&nbsp;<strong>kalapalos<\/strong>, \u00e0s margens do&nbsp;<strong>Culuene<\/strong>, e de l\u00e1 a viagem segue de barco a outras comunidades.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/pg0202-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption>\u00cdndias&nbsp;<strong>kamaiur\u00e1s<\/strong>&nbsp;levam rede para pescar antes da festa&nbsp;<strong>Yamurikum\u00e3<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00e3o cerca de cinco horas de estrada de terra atravessando o deserto de soja, cortado por fazendas com placas que destacam nomes de propriet\u00e1rios como os ex-governadores \u00cdris Rezende (GO) e Blairo Maggi (MT).<\/p>\n\n\n\n<p>Como a elimina\u00e7\u00e3o das florestas torna os ventos mais fortes, as sedes precisam de prote\u00e7\u00e3o. Por isso, s\u00e3o cercadas de uma pequena mata, algumas de reflorestamento com eucaliptos, formando uma pali\u00e7ada em volta dos silos e casas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de notar o paradoxo da elimina\u00e7\u00e3o radical da floresta original e a necessidade de plantar \u00e1rvores ex\u00f3ticas para prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo volta o horizonte que parece infinito de soja absoluta. Com as melhores terras do mundo, o Mato Grosso em volta do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;\u00e9 hoje todo dedicado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da commodity.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase cinco horas de estrada depois, tem in\u00edcio uma floresta, que parece ter sido desenhada com r\u00e9gua, de t\u00e3o exata em seus limites. Logo as placas da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) avisam que ali come\u00e7a a Terra Ind\u00edgena do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>. Mais uns tantos quil\u00f4metros e chegamos \u00e0 aldeia Aiha, dos&nbsp;<strong>kalapalos<\/strong>, com acesso ao rio&nbsp;<strong>Culuene<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar pela primeira vez a uma aldeia xinguana provoca uma esp\u00e9cie de deslumbramento: as casas s\u00e3o imponentes, com altura de tr\u00eas andares, e sua disposi\u00e7\u00e3o segue um r\u00edgido plano urban\u00edstico. Elas s\u00e3o constru\u00eddas formando um c\u00edrculo em torno de um p\u00e1tio central.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o grandes ocas com cobertura de sap\u00ea at\u00e9 o ch\u00e3o. Cada constru\u00e7\u00e3o abriga uma fam\u00edlia, em torno do dono da casa e seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao centro, h\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o menor, a casa dos homens, onde eles se re\u00fanem para rituais, trocar ideias e tratar de assuntos de interesse coletivo. Nessas casas s\u00e3o guardadas as flautas que s\u00f3 os homens podem ver e manipular.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/pg1202-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption>\u00cdndios&nbsp;<strong>waur\u00e1s<\/strong>&nbsp;em canoas sob a luz da lua&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Uma vista a\u00e9rea permite notar que as aldeias xinguanas t\u00eam o tra\u00e7ado sempre id\u00eantico, como se fossem c\u00edrculos cortados por uma cruz. Elas se localizam pr\u00f3ximas de lagoas ou rios, onde os \u00edndios buscam \u00e1gua. E ao seu redor h\u00e1 ro\u00e7as plantadas e pomares, ricos em esp\u00e9cies frut\u00edferas. As aldeias atuais parecem miniaturas das cidades que os arque\u00f3logos t\u00eam identificado em escava\u00e7\u00f5es recentes.<\/p>\n\n\n\n<p>As lagoas s\u00e3o t\u00e3o importantes para sua localiza\u00e7\u00e3o que frequentemente as aldeias s\u00e3o batizadas com seus nomes, como&nbsp;<strong>Piyulaga<\/strong>, dos&nbsp;<strong>waur\u00e1s<\/strong>, e Ipavu, dos&nbsp;<strong>kamaiur\u00e1s<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da estrutura dessas aldeias, quando as crian\u00e7as chegam \u00e0 adolesc\u00eancia, elas vivem longos per\u00edodos de recolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O das meninas come\u00e7a na primeira menstrua\u00e7\u00e3o e dura um ano ou um pouco mais. Elas s\u00e3o alimentadas pela m\u00e3e e aprendem as t\u00e9cnicas das atividades femininas (como tecer redes, tran\u00e7ar esteiras, processar os alimentos). Elas s\u00f3 saem de casa \u00e0 noite, para se banhar, e n\u00e3o cortam o cabelo. Quando chega a festa do&nbsp;<strong>Kuarup<\/strong>, as jovens mulheres ganham um novo nome e s\u00e3o apresentadas \u00e0 sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os rapazes aprendem t\u00e9cnicas das atividades masculinas, entre elas confeccionar objetos reservados para os homens, como flechas e cocares, tran\u00e7ar cestos de palha e fazer pentes, e sobretudo treinam intensamente para se tornarem bons lutadores. Podem ficar recolhidos por at\u00e9 mais de um ano, como o l\u00edder Afukak\u00e1&nbsp;<strong>kuikuro<\/strong>, 64, que ficou quatro anos afastado em prepara\u00e7\u00e3o para se tornar cacique.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/sebastiao-salgado-alto-xingu\/?initialWidth=414&amp;childId=info-2-1&amp;parentTitle=Terra%20ind%C3%ADgena%20%C3%A9%20hoje%20ilha%20de%20floresta%20cercada%20por%20soja%20-%20Sebasti%C3%A3o%20Salgado%20na%20Amaz%C3%B4nia%20-%20Alto%20do%20Xingu%20-%20Especiais%20-%20Especiais%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2017%2Fsebastiao-salgado%2Falto-do-xingu%2Fterra-indigena-e-hoje-ilha-de-floresta-cercada-por-soja%2F\" width=\"100%\" height=\"2131px\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos per\u00edodos intermedi\u00e1rios, os pais vigiam os filhos para que eles n\u00e3o tenham rela\u00e7\u00f5es sexuais: o protocolo xinguano prev\u00ea que um jovem s\u00f3 deve fazer sexo depois que se tornar um h\u00e1bil lutador.<\/p>\n\n\n\n<p>Os casamentos nas etnias do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;t\u00eam por tradi\u00e7\u00e3o acontecerem entre primos cruzados: os jovens devem se casar preferencialmente com filhos de irm\u00e3s do pai ou de um irm\u00e3o da m\u00e3e; os irm\u00e3os do pai s\u00e3o como pais, e as irm\u00e3s da m\u00e3e, m\u00e3es (seus filhos, portanto, s\u00e3o como irm\u00e3os).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma filha se casa, o marido se muda para a casa dos sogros. Ao terem filhos, o casal vai para a oca de origem do marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 prestigioso para um l\u00edder ter v\u00e1rias fam\u00edlias sob seu teto, o que aumenta os bra\u00e7os para suas ro\u00e7as, por exemplo. Por isso, muitos casais, com filhos, seguem vivendo na oca dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gisele B\u00fcndchen fez campanha contra contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos, a polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas da bacia do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;chama aten\u00e7\u00e3o dos \u00edndios e seus parceiros e de personalidades da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, a top model Gisele B\u00fcndchen foi garota-propaganda da campanha \u201d<strong>Y Ikatu Xingu<\/strong>\u201d (salve a \u00e1gua boa do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das d\u00e9cadas, desde a campanha original para a cria\u00e7\u00e3o da reserva ind\u00edgena, em meados dos anos 1950, o territ\u00f3rio foi reduzido, deixando para fora de seus limites as nascentes dos rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da devasta\u00e7\u00e3o das matas em volta do parque, as \u00e1guas cruzam munic\u00edpios que n\u00e3o tratam esgoto, e os governos estadual e federal permitiram a constru\u00e7\u00e3o de dezenas de hidrel\u00e9tricas de diferentes tamanhos. O resultado \u00e9 o assoreamento dos rios e a redu\u00e7\u00e3o dos estoques de peixe.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do desmatamento e da polui\u00e7\u00e3o que afetam a \u00e1rea, diversos projetos de infraestrutura, como novas rodovias e duas ferrovias para escoamento de gr\u00e3os, est\u00e3o em estudo avan\u00e7ado. Localizados fora da terra ind\u00edgena, dois s\u00edtios arqueol\u00f3gicos com pinturas rupestres, considerados sagrados pelos \u00edndios e tombados pelo Iphan (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional), est\u00e3o no tra\u00e7ado inicial da rota prevista dessas vias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/pg0301-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption>As irm\u00e3s Rosana e Renata,&nbsp;<strong>kamaiur\u00e1s<\/strong>, com um peixe pirarara rec\u00e9m-pescado&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diabetes, obesidade e press\u00e3o alta preocupam m\u00e9dicos<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2017%2Fsebastiao-salgado%2Falto-do-xingu%2Fdiabetes-obesidade-e-pressao-alta-preocupam-medicos%2F\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/home?status=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2017%2Fsebastiao-salgado%2Falto-do-xingu%2Fdiabetes-obesidade-e-pressao-alta-preocupam-medicos%2F%20via%20%40folha\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a href=\"\/\/send?text=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2017%2Fsebastiao-salgado%2Falto-do-xingu%2Fdiabetes-obesidade-e-pressao-alta-preocupam-medicos%2F\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a href=\"https:\/\/plus.google.com\/share?url=https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-do-xingu\/diabetes-obesidade-e-pressao-alta-preocupam-medicos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>18.abr.2020 &#8211; 1h<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada da epidemia de coronav\u00edrus e a contamina\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio por agrot\u00f3xicos n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas amea\u00e7as \u00e0 sa\u00fade dos \u00edndios da Terra Ind\u00edgena do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>. Hoje, h\u00e1 tamb\u00e9m grande preocupa\u00e7\u00e3o com o crescimento dos casos de diabetes (doen\u00e7a caracterizada por excesso de a\u00e7\u00facar no sangue ou hiperglicemia), provocado pela mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos alimentares tradicionais ao longo principalmente das tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de um problema exclusivo dos xinguanos. \u00c9 um fen\u00f4meno estudado entre \u00edndios das tr\u00eas Am\u00e9ricas e, no Brasil, se revela particularmente grave entre os&nbsp;<strong>xavantes<\/strong>, habitantes do mesmo Mato Grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 meados dos anos 1980, n\u00e3o existiam na Terra Ind\u00edgena do&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;casos de diabetes, obesidade e hipertens\u00e3o. Isso ficou comprovado por um estudo realizado em diversos pa\u00edses para medir a rela\u00e7\u00e3o entre o uso do sal industrial e a incid\u00eancia de press\u00e3o alta, denominado Intersalt. No Brasil, foram estudados os xinguanos e os ianom\u00e2mis. A Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) participou da pesquisa, com o levantamento sobre os xinguanos. Na \u00e9poca, os dois grupos brasileiros n\u00e3o tinham registros de press\u00e3o alta, obesidade e diabetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de 15 anos depois, um novo estudo foi realizado no&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>&nbsp;e apareceram v\u00e1rios casos de excesso de peso, mas apenas dois de diabetes. Agora est\u00e1 sendo feito um novo levantamento, e a pesquisa j\u00e1 aponta 70 ocorr\u00eancias de diabetes e muitas outras de excesso de peso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/pg0401-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Mapualu Kamaiur\u00e1<\/strong>&nbsp;com sua beb\u00ea&nbsp;<strong>Mapulu Neta<\/strong>&nbsp;no colo e a sobrinha Telma ao lado; ela \u00e9 filha da paj\u00e9&nbsp;<strong>Mapulu Kamaiur\u00e1<\/strong>&nbsp;e deu \u00e0 menina o mesmo nome da m\u00e3e, como reza a tradi\u00e7\u00e3o&nbsp;<strong>kamaiur\u00e1<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 um problema crescente\u201d, diz o m\u00e9dico sanitarista Douglas Rodrigues. \u201cH\u00e1 grande preocupa\u00e7\u00e3o, porque a diabetes \u00e9 diferente de outras doen\u00e7as para as quais temos rem\u00e9dios, como mal\u00e1ria. A hiperglicemia \u00e9 cr\u00f4nica e causa m\u00faltiplas les\u00f5es: no olho, nos rins, nas extremidades. E hoje j\u00e1 \u00e9 o principal problema de sa\u00fade p\u00fablica no&nbsp;<strong>Xingu<\/strong>\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocorr\u00eancia dessa doen\u00e7a entre ind\u00edgenas de todo o planeta, quando adotam dietas industrializadas e ricas em a\u00e7\u00facar, vem sendo estudada h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas. O que os cientistas notam \u00e9 que, ao adotar comidas t\u00edpicas dos brancos, os \u00edndios desenvolvem mais diabetes do que os pr\u00f3prios habitantes das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se deve a uma caracter\u00edstica adquirida pelos ind\u00edgenas ao longo dos muitos mil\u00eanios seguindo o mesmo estilo de vida. Eles passam a ter um metabolismo chamado de gen\u00f3tipo econ\u00f4mico, incorporado ao seu padr\u00e3o gen\u00e9tico pelo mecanismo que os cientistas chamam de epigen\u00e9tica (os fatores externos, como o modo de vida, ativam certos genes mais que outros e essa caracter\u00edstica passa para as gera\u00e7\u00f5es futuras, junto com o material propriamente gen\u00e9tico, o DNA).<\/p>\n\n\n\n<p>O gen\u00f3tipo econ\u00f4mico, explica Rodrigues, faz com que os \u00edndios absorvam muita energia dos alimentos que consomem, mais do que uma outra pessoa que tenha um estilo de vida diverso. Isso explica por que normalmente os habitantes de sociedades tribais t\u00eam ao longo do ano \u00e9pocas com maior acesso a alimentos e outras em que falta comida. Quando uma ro\u00e7a est\u00e1 sendo desenvolvida, n\u00e3o produz; quando os rios est\u00e3o cheios, na \u00e9poca de chuvas, \u00e9 dif\u00edcil pescar e at\u00e9 mesmo ca\u00e7ar. Quando t\u00eam bons alimentos, os \u00edndios tentam absorv\u00ea-los intensamente, como se criassem uma reserva para atravessar os per\u00edodos de car\u00eancia. Como sua vida cotidiana exige muito esfor\u00e7o f\u00edsico, as calorias s\u00e3o consumidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fen\u00f4meno ocorreu com os \u00edndios&nbsp;<strong>xavantes<\/strong>, contatados pelos irm\u00e3os Villas B\u00f4as em 1945. Nos anos 1970, as terras dos&nbsp;<strong>xavantes<\/strong>&nbsp;tinham sido invadidas, e o governo brasileiro destinou a eles v\u00e1rias reservas separadas entre si, com \u00e1reas insuficientes para sua sobreviv\u00eancia, como as denominadas Sangradouro e S\u00e3o Marcos, perto da cidade de Barra do Gar\u00e7as (MT). Ao mesmo tempo, a Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) incentivou a troca da agricultura tradicional (mandioca) por arroz, cujo excedente supostamente poderiam vender. O resultado foi a mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos alimentares. Os&nbsp;<strong>xavantes<\/strong>&nbsp;t\u00eam \u00edndices de diabetes semelhantes aos \u00edndios pima norte-americanos (27% da popula\u00e7\u00e3o, quando a m\u00e9dia brasileira \u00e9 9%).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-xingu\/images\/pg1203-mob.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption>Depois de um ano em reclus\u00e3o, menina&nbsp;<strong>kuikuro<\/strong>tem a pele branca, por n\u00e3o ter tomado sol, e o cabelo comprido, sem corte; na foto, ela aguarda ser buscada por dois flautistas que a conduzir\u00e3o ao desfile diante dos convidados para o&nbsp;<strong>Kuarup<\/strong>, marcando o fim da reclus\u00e3o&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A incid\u00eancia da doen\u00e7a no\u00a0<strong>Xingu<\/strong>\u00a0\u00e9 baixa comparada \u00e0 dos\u00a0<strong>xavantes<\/strong>: cerca de 3%. Mas o crescimento \u00e9 progressivo, partindo de zero h\u00e1 pouco mais de 30 anos. E, em v\u00e1rias aldeias do territ\u00f3rio, o \u00edndice de pessoas com excesso de peso j\u00e1 chega a 50%. \u201cTemos feito campanhas para a redu\u00e7\u00e3o do consumo de a\u00e7\u00facar e preparamos os agentes de sa\u00fade para estimular constantemente o controle\u201d, afirma Rodrigues.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>CONFIRA ESPECIAL COMPLETO: <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-do-xingu\/terra-indigena-e-hoje-ilha-de-floresta-cercada-por-soja\/\">https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/alto-do-xingu\/terra-indigena-e-hoje-ilha-de-floresta-cercada-por-soja\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Xingu\u00a0Popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no norte do Mato Grosso j\u00e1 foi dizimada por epidemias, a primeira delas no s\u00e9culo 16; sanitarista que trabalha na regi\u00e3o prev\u00ea \u2018situa\u00e7\u00e3o explosiva\u2019 e diz que cidades vizinhas j\u00e1 t\u00eam infectados por coronav\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-27578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7aO","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27578"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27578\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27579,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27578\/revisions\/27579"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}