{"id":28353,"date":"2020-05-25T09:22:28","date_gmt":"2020-05-25T13:22:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=28353"},"modified":"2020-05-25T09:22:32","modified_gmt":"2020-05-25T13:22:32","slug":"rebobinando-a-fita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/05\/25\/rebobinando-a-fita\/","title":{"rendered":"Rebobinando a fita"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conexaoplaneta.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cisnes-e-peixes-voltam-a-veneza-foto-6557056-pixabay.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Gislaine Marins, de Roma\/It\u00e1lia &#8211; \u00c9 preciso ter uma certa idade para usar express\u00f5es como \u201ct\u00e1 na fita\u201d, \u201crebobina a fita\u201d, \u201cver a fita\u201d, mas tamb\u00e9m express\u00f5es como \u201cfazer fita\u201d. Nesse tempo suspenso, em que tudo parece parado enquanto acontece o surdo movimento das ondas, detect\u00e1vel nos c\u00edrculos exc\u00eantricos dos espelhos d\u2019\u00e1gua, eu acordo sobressaltada pensado naquele longo per\u00edodo conhecido como Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Era um per\u00edodo em que\ntudo parecia pronto para explodir, em que conflitos pipocavam em v\u00e1rias partes\ndo mundo, em que os esc\u00e2ndalos exerciam um papel fundamental no equil\u00edbrio de\nfor\u00e7as, em que medidas infralegais passavam de baciada em nome da seguran\u00e7a, em\nque o controle era considerado um mal menor, a corrida nuclear era tratada como\ncondi\u00e7\u00e3o para a paz. Era o tempo em que o muro de Berlim estava de p\u00e9 e, apesar\ndos protestos, continuava l\u00e1, como s\u00edmbolo de uma guerra sempre pronta para ser\ndeflagrada novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o per\u00edodo em que\nos palavr\u00f5es e principalmente os roteiros med\u00edocres enchiam os cinemas\nnacionais, a fim de garantir uma fachada de liberdade. A liberdade de ser\nvulgar. Era o tempo em que a passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia passava\npor ouvidos colados \u00e0s portas, a espreitar os coment\u00e1rios dos adultos. Nunca\nhouve educa\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es. Nunca houve preocupa\u00e7\u00e3o com a nossa vida\npsicol\u00f3gica, com as nossas d\u00favidas e fragilidades. A igualdade de g\u00eanero\npermanece uma miragem no horizonte, uma utopia feminista. Crescemos na cultura\nda fraquejada, acostumamo-nos a galgar pequenos espa\u00e7os sociais ouvindo\ncobran\u00e7as de excel\u00eancia. A gentileza era um souvenir reservado aos submissos.\nDe que nos surpreendemos agora que os nossos coet\u00e2neos explicitam\ndespudoradamente a sua viol\u00eancia e as ideias mais autorit\u00e1rias em nome da\nliberdade e da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica?<\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o era pautada pelo estilo dominante na \u00e9poca: falso moralismo e educa\u00e7\u00e3o para o dedodurismo. Por um lado, a curiosidade diante das proibi\u00e7\u00f5es era irresist\u00edvel. Por outro lado, a descoberta dos delitos caseiros, era a ocasi\u00e3o para fazer aflorar os pequenos ditadores encarnados nas figuras de pais, tios e av\u00f3s, buscando culpados e incentivando a dela\u00e7\u00e3o premiada. N\u00e3o, nada do que hoje recebeu nome e foi devidamente delimitado pelo jarg\u00e3o t\u00e9cnico surgiu sem a base cultivada durante a nossa inf\u00e2ncia sob o regime ditatorial.<\/p>\n\n\n\n<p>Rebobinando a fita,\nparo naquele momento em que uma vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados d\u00e1 espa\u00e7o para\nque um deputado fa\u00e7a uma homenagem a um torturador. E n\u00e3o aconteceu nada.\nPoucos se escandalizaram. A maioria invocou o direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o.\nA maioria endossou o seu apoio por meio do voto.<\/p>\n\n\n\n<p>Rebobino a fita para o\nano de 2013. A mente \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que nos conduz por caminhos estranhos. N\u00e3o\npenso no Brasil. Penso na S\u00edria. Lembro de uma freira na S\u00edria, que naqueles\ndias relatava como o pa\u00eds tinha sido alvo de uma onda de \u00f3dio crescente. Os\ncrist\u00e3os na S\u00edria s\u00e3o uma minoria, praticamente invis\u00edveis numa sociedade\nmulticultural. Contudo, at\u00e9 o in\u00edcio da nossa d\u00e9cada, a diversidade religiosa\nn\u00e3o era um entrave para um pa\u00eds que eu s\u00f3 conhecia pelos livros e pelos filmes,\nmas n\u00e3o por isso deixava de exercer sobre mim uma atra\u00e7\u00e3o misteriosa. Uma\natra\u00e7\u00e3o que sinto tamb\u00e9m pelo Ir\u00e3, desde a minha inf\u00e2ncia proibido aos sonhos\nocidentais, acess\u00edvel apenas por livros da tradi\u00e7\u00e3o como As mil e uma noites e\npor poucos filmes e livros contempor\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, na S\u00edria,\ndiferentes correntes mu\u00e7ulmanas entraram em conflito. Primeiro, eram divis\u00f5es,\nprotestos; depois come\u00e7aram as persegui\u00e7\u00f5es; por fim, o conflito aberto e a\nguerra. Para al\u00e9m do n\u00edvel pol\u00edtico e militar que costumamos ler pelos jornais,\no germe do \u00f3dio e da divis\u00e3o foi infundido na alma das pessoas. Sunitas contra\nalauitas, ent\u00e3o sunitas contra xiitas, ent\u00e3o mu\u00e7ulmanos contra crist\u00e3os. O\nhorror, como todos sabem, atingiu outras minorias religiosas, como a dos curdos\ne dos yazidis, com os terr\u00edveis estupros de guerra, que levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de\numa brigada militar feminina que n\u00e3o lutava apenas por motivos pol\u00edticos, mas\npela pr\u00f3pria vida da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que sou ing\u00eanua: n\u00e3o penso que os per\u00edodos de pac\u00edfica conviv\u00eancia sejam uma exce\u00e7\u00e3o ao eterno jogo do poder. A conviv\u00eancia \u00e9 a nossa ess\u00eancia, tra\u00edda constantemente pela pornopol\u00edtica, por uma educa\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio, ao conflito, \u00e0 divis\u00e3o, \u00e0 falsa moral. Dividem e imperam, destruindo a vida das pessoas. Odeia teu irm\u00e3o: \u00e9 isso que as pol\u00edticas autorit\u00e1rias nos \u00a0imp\u00f5em. <\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, teimo em\nacreditar que os seres humanos s\u00e3o guardi\u00e3es da vida e n\u00e3o fomentadores da\nmorte, a servi\u00e7o de instrumentaliza\u00e7\u00f5es de interesses internos e\ninternacionais. Teimo em ver a trag\u00e9dia humana como resultado de manipula\u00e7\u00f5es\nque sufocam as nossas melhores inten\u00e7\u00f5es. Diante das dificuldades, cedemos ao\n\u00f3dio, somos fr\u00e1geis demais para investir na persist\u00eancia e na esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Rebobino a fita e penso no Egito, um pa\u00eds v\u00edtima de um golpe e um contragolpe no arco de poucos anos. Papiros, bibliotecas, far\u00f3is, engenharia, agricultura, diversidade ambiental, l\u00edngua: de tudo o que esta grande na\u00e7\u00e3o ofereceu ao mundo, hoje nos resta a inc\u00f3gnita sobre o futuro. E o Brasil? Bem, o nosso pa\u00eds nunca foi uma na\u00e7\u00e3o do passado. Para n\u00f3s, escolhemos o mito do futuro. Se est\u00e3o apresentando os instrumentos mais funestos, que rebobinam a nossa fita para os per\u00edodos mais tenebrosos dos \u00faltimos cinco s\u00e9culos, a nossa ousadia deveria colocar em campo as nossas melhores qualidades e energias. Sim, tudo parece insuper\u00e1vel, mas mesmo nos abismos mais profundos as ondas se propagam. E os sonares existem para alertar que \u00e9 poss\u00edvel navegar ainda que n\u00e3o se veja o horizonte e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p> S\u00f3 nos falta a coragem de fazer isso com a coura\u00e7a do amor e da justi\u00e7a, porque sabemos que o \u00f3dio destr\u00f3i e impede qualquer perspectiva de reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>  <em>Foto: Pixabay  <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gislaine Marins, de Roma\/It\u00e1lia &#8211; \u00c9 preciso ter uma certa idade para usar express\u00f5es como \u201ct\u00e1 na fita\u201d, \u201crebobina a fita\u201d, \u201cver a fita\u201d, mas tamb\u00e9m express\u00f5es como \u201cfazer fita\u201d. 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