{"id":28530,"date":"2020-06-03T10:12:23","date_gmt":"2020-06-03T14:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=28530"},"modified":"2020-06-03T10:12:27","modified_gmt":"2020-06-03T14:12:27","slug":"o-momento-da-conjuntura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/06\/03\/o-momento-da-conjuntura\/","title":{"rendered":"O momento da conjuntura"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/20200603100628_13749a68d84606b270679fcfe55842d46c31b1a3aa2abf5d975c18890e2ef822.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>247, Publicado originalmente no site\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/para-onde-vamos\/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=para-onde-vamos&amp;utm_term=2020-06-03\">A Terra Redonda<\/a> &#8211; A an\u00e1lise do momento da conjuntura merece considerar quatro fatores chaves que se combinam, mas devem ser avaliados pelo peso espec\u00edfico de cada um deles. Uma an\u00e1lise marxista n\u00e3o pode perder o sentido das propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>(1) O primeiro e decisivo, neste momento, \u00e9 que a pandemia continua em expans\u00e3o. A extens\u00e3o do cont\u00e1gio se mant\u00e9m muito elevada, provavelmente, dez vezes maior do que os n\u00fameros oficiais, e o n\u00famero de trinta mil mortes esconde uma gigantesca subnotifica\u00e7\u00e3o, que deve ser, na verdade, mais do dobro. O Brasil est\u00e1 entre os tr\u00eas principais centros da doen\u00e7a no mundo, em fun\u00e7\u00e3o, antes de tudo, do desastre da pol\u00edtica do governo Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 do governo federal, embora ele seja o maior respons\u00e1vel. Quando era poss\u00edvel salvar vidas em grande escala, e ganhar tempo, atrav\u00e9s de uma quarentena total, os governos estaduais escolheram pol\u00edticas de distanciamento social muito parciais, com raras exce\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 testagem em massa nas grandes cidades. Portanto, os dados dispon\u00edveis sobre a dissemina\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais do que insuficientes. No entanto, mesmo com a capacidade do sistema de sa\u00fade tendo chegado ao limite m\u00e1ximo em capitais do norte e nordeste, e agora em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, as duas megaregi\u00f5es metropolitanas, a maioria dos governos estaduais e das prefeituras decidiu flexibilizar as quarentenas, sob press\u00e3o burguesa, pela retomada da vida econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>A calamidade sanit\u00e1ria amea\u00e7a se transformar em uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria, com a proje\u00e7\u00e3o de centenas de milhares de mortos em poucos meses. O centro da luta pol\u00edtica ser\u00e1 a responsabiliza\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro pela trag\u00e9dia, e tem os seus tempos. Essa aposta t\u00e1tica \u00e9 a chave da preparara\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de derrubada do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>(2) A destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica foi confirmada pela divulga\u00e7\u00e3o dos dados do primeiro trimestre, que sugerem uma recess\u00e3o entre 5% e 10% do PIB para 2020, a maior da hist\u00f3ria. Segundo dados do IBGE, at\u00e9 o m\u00eas de abril, cerca de 5 milh\u00f5es de postos de trabalho foram eliminados em dois meses, a destrui\u00e7\u00e3o continuou em maio e deve prosseguir em junho e julho, sendo imposs\u00edvel prever qual ser\u00e1 a din\u00e2mica at\u00e9 o fim do ano. Al\u00e9m dos trabalhadores, a pequena burguesia est\u00e1 estrangulada pela suspens\u00e3o parcial da vida econ\u00f4mica que amea\u00e7a a fal\u00eancia de milh\u00f5es de empresas que n\u00e3o conseguem acesso ao cr\u00e9dito. A situa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 ainda terminal em fun\u00e7\u00e3o do impacto da distribui\u00e7\u00e3o para 58 milh\u00f5es de pessoas do aux\u00edlio emergencial.<\/p>\n\n\n\n<p>(3) A din\u00e2mica da evolu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de for\u00e7as \u00e9 de crescente debilitamento do governo Bolsonaro, mas evolui mais rapidamente que a mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o social de for\u00e7as. Este descompasso nos ritmos do desgaste \u00e9 importante. O governo vem enfraquecendo porque rachou diante da pol\u00edtica de Bolsonaro frente \u00e0 pandemia, com a sa\u00edda de Mandetta, e depois de Moro; perdeu apoio na maioria dos governadores, e come\u00e7ou a ser acossado por dois inqu\u00e9ritos no STF \u2013 a den\u00fancia de interven\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal e o sobre a ind\u00fastria de&nbsp;<em>fake news<\/em>&nbsp;\u2013 e um no TSE, ainda que tenha recomposto uma base parlamentar no Congresso atrav\u00e9s de acordo com parte do Centr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as pesquisas de opini\u00e3o, continua aumentando, tamb\u00e9m, a rejei\u00e7\u00e3o ao governo, algo entre 43 e 50%, mesmo se Bolsonaro mant\u00e9m apoio entre 25 e 33%. Por\u00e9m, se consideramos, em um grau de abstra\u00e7\u00e3o mais elevado, a rela\u00e7\u00e3o social de for\u00e7as continua desfavor\u00e1vel. Ainda que dividida diante do governo, nenhuma fra\u00e7\u00e3o da classe dominante se posiciona pela derrubada de Bolsonaro. Prevalece a linha de tentar conter Bolsonaro, diante da fase aguda da pandemia, rejeitando solu\u00e7\u00f5es extrema, se posicionando contra um autogolpe, mas tamb\u00e9m o deslocamento.<\/p>\n\n\n\n<p>As camadas m\u00e9dias est\u00e3o divididas, por\u00e9m, a fra\u00e7\u00e3o da pequena burgueisa propriet\u00e1ria tem uma alinhamento forte com o governo. E embora haja sinais de que uma f\u00faria est\u00e1 se acumulando na juventude trabalhadora e estudantil, e uma maioria na classe trabalhadora organizada se consolidou na oposi\u00e7\u00e3o, ainda pesa muito a inseguran\u00e7a. O mais importante, todavia, \u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es de quarentena deixam amputada a possibilidade de Atos de massas, sem riscos inaceit\u00e1veis de cont\u00e1gio. A imensa simpatia de massas pelos Atos de vanguarda, como os antifascistas das torcidas, sinaliza uma tend\u00eancia muito positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>(4) A escalada golpista dos neofascistas, entretanto, n\u00e3o foi interrompida. Amparados em uma interpreta\u00e7\u00e3o do artigo da Constitui\u00e7\u00e3o, que admite a convoca\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas pelo governo, em fun\u00e7\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o da ordem social e pol\u00edtica, j\u00e1 deixaram claro que procurar\u00e3o uma legitima\u00e7\u00e3o legal do assalto ao poder. E contam com a poss\u00edvel cumplicidade do governo Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>A esquerda n\u00e3o pode desdenhar, subestimar ou desconsiderar a gravidade dessas amea\u00e7as. Devem ser levadas a s\u00e9rio e denunciadas, diariamente. Os neofascistas amea\u00e7am para assustar, atemorizam para conter, intimidam para se defender. Mas a luta pol\u00edtica n\u00e3o se explica, somente, racionalmente, porque opera o papel dos indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro \u00e9 um messi\u00e2nico, destemperado, impulsivo, aventureiro. Encurralado, pode partir para o tudo ou nada. Maia \u00e9 solene, mas medroso, um fraco. Doria \u00e9 pomposo, mas pusil\u00e2nime, um inerme. N\u00e3o \u00e9, tampouco, animadora, qualquer expectativa do STF. Toffoli \u00e9 faustoso, mas frouxo, um covarde. E aqueles que poderiam se contrapor seriam minoria e anulados diante da chantagem de guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m sabe se Bolsonaro teria ou n\u00e3o apoio militar para uma aventura provocativa para impor uma manobra bonapartista, neste momento. O significado do alinhamento das For\u00e7as Armadas com Bolsonaro para preservar o mandato n\u00e3o pode ser diminu\u00eddo. As amea\u00e7as de uma provoca\u00e7\u00e3o s\u00e3o, pelo menos, uma tentativa de blindagem. O fato de o governo estar na defensiva diante das press\u00f5es do STF e TSE n\u00e3o anula a possibilidade de tentarem um golpe.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As li\u00e7\u00f5es das Diretas J\u00e1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o muitas as li\u00e7\u00f5es da fase final da luta contra a ditadura militar atrav\u00e9s da campanha das Diretas J\u00e1. Mas \u00e9 importante recordar todas as li\u00e7\u00f5es. A campanha n\u00e3o foi vitoriosa, embora pudesse ter sido. Afinal, foi a maior mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massas da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, com mais de seis milh\u00f5es nas ruas, quando a popula\u00e7\u00e3o, economicamente, ativa em 1984 n\u00e3o era superior a quarenta milh\u00f5es. Depois da derrota da emenda Dante de Oliveira em 25 de abril de 1984, o PT ficou sozinho defendendo manter a campanha.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 segredo que a chave da manipula\u00e7\u00e3o que resultou na elei\u00e7\u00e3o da chapa que abriu o caminho para a posse de Sarney foi a divis\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do PMDB. Ulysses Guimar\u00e3es foi tra\u00eddo por Tancredo Neves, que se rendeu. A unidade de a\u00e7\u00e3o da esquerda com os partidos liberais contra o governo Figueiredo pode inspirar a unidade de a\u00e7\u00e3o da esquerda com as for\u00e7as que representam o descontentamento na burguesia, e nas camadas m\u00e9dias contra Bolsonaro, evidentemente. Ela \u00e9 necess\u00e1ria, para vencer. Golpeamos juntos, mas marchamos separados. Um belo exemplo, no meio jur\u00eddico, \u00e9 o Manifesto \u201cBasta\u201d, que sublinha que Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade. Mas, a unidade na a\u00e7\u00e3o contra Bolsonaro n\u00e3o diminui, ao contr\u00e1rio, exige uma Frente \u00danica de Esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresce uma perigosa press\u00e3o pela rendi\u00e7\u00e3o da esquerda. O Manifesto \u201cJuntos\u201d \u00e9 uma express\u00e3o disso. Sem nem ao menos pedir o impeachment de Bolsonaro, ou outra forma de interrup\u00e7\u00e3o do governo, a iniciativa juntou amplos setores (do PSOL a Luciano Huck, passando pelo PT e o PSDB) na defesa de um programa abstrato em defesa da \u201cnormalidade democr\u00e1tica\u201d e da \u201cresponsabilidade econ\u00f4mica\u201d. N\u00e3o se posiciona, claramente, contra Bolsonaro, nem defende a\u00e7\u00e3o alguma contra o governo. Se fosse um manifesto que pedisse o impeachment seria correto a esquerda apoi\u00e1-lo, mesmo que n\u00e3o tivesse sequer uma linha contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Paulo Guedes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se trata, infelizmente, sequer de uma unidade de a\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica contra o perigo de um autogolpe. O manifesto Juntos \u00e9 o desenho, o embri\u00e3o de uma Frente Ampla em que a esquerda aceitaria ser for\u00e7a auxiliar do projeto de press\u00e3o para tutelar, conter, restringir Bolsonaro. Ou seja, uma tentativa de \u201cnormalizar\u201d o governo de extrema direita diante da crise sanit\u00e1ria, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, para ver se ele pode cumprir o mandato, suspendendo as provoca\u00e7\u00f5es. N\u00e3o denuncia o perigo de golpe, nem defende a queda de Bolsonaro, porque seu objetivo \u00e9 outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A Frente \u00danica de Esquerda que surgiu em torno da plataforma das Frentes&nbsp;<em>Brasil Popular<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Povo Sem Medo<\/em>, da campanha&nbsp;<em>Salvar vidas, Fora Bolsonaro<\/em>, e a iniciativa do pedido comum de impeachmente, \u00e9 o ponto de apoio para iniciar mobiliza\u00e7\u00f5es contra Bolsonaro, apoiando a\u00e7\u00f5es nas ruas, com o m\u00e1ximo cuidado de preserva\u00e7\u00e3o do distanciamento social.<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>247, Publicado originalmente no site\u00a0A Terra Redonda &#8211; A an\u00e1lise do momento da conjuntura merece considerar quatro fatores chaves que se combinam, mas devem ser avaliados pelo peso espec\u00edfico de cada um deles. 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