{"id":28935,"date":"2020-06-24T11:10:36","date_gmt":"2020-06-24T15:10:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=28935"},"modified":"2020-06-24T11:10:41","modified_gmt":"2020-06-24T15:10:41","slug":"maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/06\/24\/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes\/","title":{"rendered":"M\u00e3es Yanomami imploram pelos corpos de seus beb\u00eas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"450\" data-attachment-id=\"28936\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/06\/24\/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes\/image-70-6\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?fit=640%2C480\" data-orig-size=\"640,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-70\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?fit=600%2C450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?resize=600%2C450\" alt=\"\" class=\"wp-image-28936\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/image-70.jpeg?resize=400%2C300 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A indignidade com que os ind\u00edgenas s\u00e3o tratados na pandemia de covid-19 abriu um novo e pavoroso cap\u00edtulo de viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos origin\u00e1rios pelo Estado brasileiro.<\/h4>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>El Pa\u00eds, por Eliane Brum<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas mulheres vivem um horror para o qual ser\u00e1 preciso inventar um nome. Elas s\u00e3o San\u00f6ma, um grupo da&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/14\/album\/1544820031_646949.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">etnia Yanomami<\/a>, e sua aldeia, Auaris, fica no que os brancos chamam de Roraima, na&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/02\/26\/internacional\/1551205096_458524.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fronteira do Brasil com a Venezuela<\/a>. Elas n\u00e3o compreendem a ideia de fronteira, para elas a terra \u00e9 uma s\u00f3 \u2014e n\u00e3o tem cercas. Elas n\u00e3o falam portugu\u00eas, elas falam a sua l\u00edngua. Em maio, essas mulheres e seus beb\u00eas foram levados para Boa Vista, capital de Roraima, com suspeitas de pneumonia. Nos hospitais, as crian\u00e7as teriam sido&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-17\/covid-19-se-espalha-entre-indigenas-brasileiros-e-ja-ameaca-povos-isolados.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">contaminadas por&nbsp;<strong>covid-19<\/strong><\/a>. E l\u00e1 morreram. E ent\u00e3o seus pequenos corpos desapareceram, possivelmente enterrados no cemit\u00e9rio da cidade. Duas das m\u00e3es est\u00e3o com covid-19, amontoadas na Casa de Sa\u00fade Ind\u00edgena (CASAI), abarrotada de doentes. L\u00e1, corro\u00eddas pelo v\u00edrus, elas imploram pelos seus beb\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ajuda de v\u00e1rias pessoas, uma delas conseguiu me enviar uma mensagem, gravada, em San\u00f6ma. Ela conta o que vive. E diz: \u201cSofri para ter essa crian\u00e7a. E estou sofrendo. Meu povo est\u00e1 sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. N\u00e3o posso voltar sem o corpo do meu filho\u201d. Eu escuto a mensagem antes da tradu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entendo as palavras. Mas compreendo o horror. A linguagem universal daquela que est\u00e1 sendo arrancada do mundo dos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser arrancada de uma aldeia no interior da floresta amaz\u00f4nica porque seu filho tem sintomas de uma doen\u00e7a, a pneumonia, transmitida pelos primeiros brancos que dizimaram parte da popula\u00e7\u00e3o Yanomami, no s\u00e9culo passado, \u00e9 uma viol\u00eancia. Passar deste mundo para o espa\u00e7o de um hospital, e de um&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-03-12\/coronavirus-acende-alerta-sobre-preparo-de-hospitais-no-brasil-para-tratar-infectados-graves.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">hospital superlotado por conta da covid-19<\/a>, \u00e9 outra viol\u00eancia. Ter seu beb\u00ea contaminado por uma segunda doen\u00e7a, quando estava ali para ser curado da primeira, que ainda era uma hip\u00f3tese, \u00e9 mais uma viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o ela perde o filho. Cada uma delas perde o filho.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3es San\u00f6ma n\u00e3o entendem o portugu\u00eas. Apesar de Roraima ser o Estado mais ind\u00edgena do Brasil e quase duas centenas de Yanomami j\u00e1 terem sido contaminadas pelo\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/coronavirus\/\" target=\"_blank\"><strong>novo coronav\u00edrus<\/strong><\/a>, n\u00e3o h\u00e1 tradutor para essa popula\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m explica nada a elas. As mulheres n\u00e3o entendem o que os brancos falam. E os corpos de seus filhos desaparecem. Uma das lideran\u00e7as da comunidade, que entende portugu\u00eas, explica que os tr\u00eas beb\u00eas podem ter sido enterrados no cemit\u00e9rio. Mas n\u00e3o h\u00e1 certeza. Ningu\u00e9m d\u00e1 certeza nem a elas nem \u00e0s lideran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O procurador da Rep\u00fablica em Boa Vista Alisson Marugal enviou um of\u00edcio ao Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena\u00a0Yanomami (DSEI-Y) para obter informa\u00e7\u00f5es sobre o paradeiro dos corpos dos beb\u00eas. \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito complicada, especialmente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o Yanomami. Tivemos quatro \u00f3bitos oficiais e, em todos eles, tivemos problemas. O primeiro foi o caso do\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-04-10\/yanomami-de-15-anos-morre-vitima-do-coronavirus-em-roraima.html\" target=\"_blank\">adolescente de 15 anos<\/a>. Tivemos problemas de atendimento, tivemos falta e desencontro de informa\u00e7\u00f5es e estamos tamb\u00e9m apurando se houve falta de assist\u00eancia m\u00e9dica\u201d, afirma. \u201cO caso dos beb\u00eas San\u00f6ma s\u00f3 come\u00e7amos a apurar agora. N\u00e3o sabemos se houve o diagn\u00f3stico de covid-19 e, se houve, qual protocolo foi aplicado e qual foi o local de enterro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Marugal assumiu o posto&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-03-11\/oms-declara-que-coronavirus-e-uma-pandemia-global.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">em plena pandemia<\/a>, conta estar trabalhando de segunda a segunda para enfrentar um cen\u00e1rio com grandes desafios. \u201cN\u00e3o descarto a possibilidade de, futuramente, ingressar com uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica pedindo danos morais n\u00e3o s\u00f3 para os pais, mas para toda a etnia yanomami\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Enterrar o corpo de um Yanomami \u00e9 arranc\u00e1-lo do mundo dos humanos<\/h3>\n\n\n\n<p>A quantidade de viol\u00eancia contida nessa s\u00e9rie de atos infligidos \u00e0s mulheres San\u00f6ma \u00e9 enorme at\u00e9 mesmo para os padr\u00f5es do Estado brasileiro, um&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-03-03\/davi-kopenawa-os-garimpeiros-sem-duvida-vao-matar-os-indios-isolados-na-area-yanomani.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">hist\u00f3rico agente de agress\u00f5es contra os povos ind\u00edgenas<\/a>. Mas a viol\u00eancia avan\u00e7a para muito mais, porque se, para um branco, a dor \u00e9 a que tantas fam\u00edlias est\u00e3o vivendo, nesta pandemia,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-25\/a-sala-de-casa-virou-uma-igreja-velorios-online-em-tempos-de-coronavirus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sem poderem se despedir daqueles que amam<\/a>, sem poderem&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-04-03\/cemiterio-em-sao-paulo-a-foto-que-jamais-gostariamos-de-publicar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sepult\u00e1-los devidamente<\/a>, devido ao protocolo de biosseguran\u00e7a, para uma mulher Yanomami, para um homem Yanomami, enterrar um dos seus \u00e9 incompreens\u00edvel \u2014e inaceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Yanomami n\u00e3o s\u00e3o enterrados. Nunca, sob nenhuma hip\u00f3tese se enterra um corpo. Os corpos s\u00e3o cremados e h\u00e1 um longo ritual para que o morto possa morrer para si e para a comunidade. Os Yanomami n\u00e3o s\u00e3o indiv\u00edduos, como um branco que vive no Brasil ou na Espanha ou nos Estados Unidos \u00e9. Um Yanomami se compreende como parte de uma comunidade e se entrela\u00e7a com v\u00e1rias dimens\u00f5es de mundos vis\u00edveis e invis\u00edveis em&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/23\/cultura\/1545582257_502122.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">rela\u00e7\u00f5es mediadas pelos xam\u00e3s<\/a>. Os rituais de morte devem ser seguidos em todos os detalhes e levam meses e at\u00e9 anos para se conclu\u00edrem. V\u00e1rias aldeias v\u00e3o at\u00e9 a comunidade do morto para participar da crema\u00e7\u00e3o, num primeiro momento. As cinzas ent\u00e3o s\u00e3o guardadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois haver\u00e1 a segunda parte, quando os visitantes mais uma vez retornam para as celebra\u00e7\u00f5es. O morto ent\u00e3o ser\u00e1 lembrado em seus feitos, em suas desaven\u00e7as, em todas as marcas importantes de sua trajet\u00f3ria. Ser\u00e1 lembrado para ent\u00e3o poder ser esquecido, suas marcas serem apagadas e a comunidade seguir adiante. No \u00faltimo ato, as cinzas dos mortos s\u00e3o dilu\u00eddas em mingau de banana para que aquele que morreu se dissipe no corpo de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ritual faz o morto morrer tamb\u00e9m como mem\u00f3ria, para que os vivos possam viver. Se o ritual n\u00e3o for realizado, o morto n\u00e3o poder\u00e1 ser esquecido nem se deixar\u00e1 esquecer, o que provoca muito mal a seus parentes e a toda a comunidade. O ritual de morte dos Yanomami \u00e9 de uma extrema complexidade e sabedoria em sua simbologia. O rito \u00e9 coletivo e \u00e9 tamb\u00e9m momento de estabelecer rela\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas e at\u00e9 amorosas. Ao final, h\u00e1 apenas um morto, o que morreu \u2014e n\u00e3o vivos que seguem mortos por n\u00e3o terem sido capazes de fazer o luto, como acontece tantas vezes no mundo dos brancos, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam tempo nem espa\u00e7o para fazer a transmuta\u00e7\u00e3o da falta em aus\u00eancia de que falava&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/carlos-drummond-de-andrade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Carlos Drummond de Andrade<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enterrar o corpo de um morto \u00e9 um horror absoluto para o povo Yanomami. \u00c9 arranc\u00e1-lo do mundo dos humanos. \u201cPara essas m\u00e3es, saber que seus filhos est\u00e3o enterrados no cemit\u00e9rio da cidade \u00e9 equivalente a uma mulher branca ter que conviver com a ideia de que o corpo de seu filho est\u00e1 jogado e exposto em pra\u00e7a p\u00fablica\u201d, diz S\u00edlvia Guimar\u00e3es, professora de Antropologia da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), que faz pesquisa junto ao povo San\u00f6ma h\u00e1 muitos anos. Ela \u00e9 uma das 40 pesquisadoras e apoiadores da Rede Pr\u00f3-Yanomami e Ye\u2019kwana, formada para enfrentar a invisibilidade dada ao sofrimento dos Yanomami, durante a pandemia, a partir da divulga\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises qualificadas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sem um plano emergencial, 40 % do povo Yanomami pode ser contaminado<\/h3>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<a href=\"https:\/\/terrasindigenas.org.br\/pt-br\/terras-indigenas\/4016\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Terra Ind\u00edgena Yanomami<\/a>&nbsp;abarca uma \u00e1rea de cerca de 9,6 milh\u00f5es de hectares na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, nos Estados do Amazonas e de Roraima. Mais de 26.000 ind\u00edgenas se distribuem em mais de 300 aldeias. O subgrupo San\u00f6ma \u00e9 composto por 3.164 pessoas, segundo dados de 2018 do Instituto Socioambiental. Alguns grupos vivem em isolamento volunt\u00e1rio, o que significa que preferem n\u00e3o conviver com os brancos. Desde que os Yanomami tiveram os primeiros contatos, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Yanomami\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">partir de 1910<\/a>, eles v\u00eam sendo dizimados por doen\u00e7as, que chamam de&nbsp;<em>xawara<\/em>, e tamb\u00e9m a tiros, pelos&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/planeta_futuro\/2020-04-23\/a-dupla-ameaca-para-os-povos-da-amazonia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">garimpeiros que invadem suas \u00e1reas<\/a>&nbsp;em busca de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-03-03\/davi-kopenawa-os-garimpeiros-sem-duvida-vao-matar-os-indios-isolados-na-area-yanomani.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Davi Kopenawa<\/a>, o grande intelectual e l\u00edder Yanomami, tem denunciado ao mundo que seu povo corre o risco de genoc\u00eddio. Ele chama os brancos de &#8221; povo da mercadoria\u201d. Seu filho, Dario Kopenawa, da Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami, lidera a campanha&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.foragarimpoforacovid.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cFora Garimpo! Fora Covid!\u201d<\/a>. Em plena pandemia, h\u00e1 mais de 20.000 garimpeiros na terra Yanomami, considerada a mais&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-21\/a-dificil-tarefa-de-combater-o-coronavirus-em-manaus-onde-metade-da-populacao-vive-em-favelas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">vulner\u00e1vel ao novo coronav\u00edrus na Amaz\u00f4nia<\/a>. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais, pelo Instituto Socioambiental e pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz mostrou que, caso n\u00e3o exista um plano de conting\u00eancia emergencial para a transmiss\u00e3o entre os Yanomami, 40% da popula\u00e7\u00e3o que vive em aldeias pr\u00f3ximas ao garimpo poder\u00e3o ser contaminados.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o boletim mais recente da Rede Pr\u00f3-Yanomami e Ye\u2019kwana, de 21 de junho, h\u00e1 168 contaminados e cinco mortos. A Casa de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Casai), onde ficam os Yanomami levados \u00e0 cidade, tornou-se um dos principais focos de contamina\u00e7\u00e3o. Segundo a rede de pesquisadores, mais de 80 ind\u00edgenas j\u00e1 foram infectados ali, 48% dos casos de covid-19 entre os Yanomami e Ye\u2019kwana. H\u00e1 casos de pacientes Yanomami que tiveram alta de outras doen\u00e7as e aguardavam h\u00e1 mais de dois meses seu retorno \u00e0 Terra Ind\u00edgena. Acabaram sendo infectados por covid-19 na Casai.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que o primeiro adolescente Yanomami, de 15 anos, morreu de covid-19, em 9 de abril,<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-05-06\/os-indigenas-da-amazonia-lancam-um-sos-para-pedir-protecao-ante-a-pandemia.html\" target=\"_blank\">\u00a0o desespero se multiplicou<\/a>. V\u00edtimas de massacres de todos os tipos perpetrados pelos brancos, parecia imposs\u00edvel que houvesse alguma forma de viol\u00eancia ainda desconhecida. Mas sempre h\u00e1. E ent\u00e3o os\u00a0Yanomami come\u00e7aram a ver os corpos desaparecerem, seguidos de explica\u00e7\u00f5es vagas de enterros por parte de autoridades que mal conseguem entender. \u201c\u00c9 um enorme desrespeito com a nossa cultura. Os corpos s\u00e3o enterrados sem que ningu\u00e9m explique nada, sem que as fam\u00edlias sejam consultadas, sem que pe\u00e7am autoriza\u00e7\u00f5es para as m\u00e3es. Elas n\u00e3o sabem onde seus filhos est\u00e3o enterrados, eu, que sou representante, n\u00e3o tenho nenhuma ideia de onde est\u00e3o enterrados\u201d, diz Dario Kopenawa. \u201cQueremos saber onde est\u00e3o e quando poderemos desenterrar os corpos para lev\u00e1-los para a aldeia, onde nasceram e cresceram, onde seus pais, seus tios, seus primos est\u00e3o morando, onde a alma das crian\u00e7as pode ser feliz. Entendemos a necessidade dos protocolos [de biosseguran\u00e7a], mas precisamos ter informa\u00e7\u00e3o e compreender o que vai acontecer. Precisamos saber quando os corpos ser\u00e3o devolvidos. Queremos saber quanto tempo o v\u00edrus sobrevive no corpo. Se os infectologistas nos explicam, a gente entende e pode respeitar. E podemos transmitir essa informa\u00e7\u00e3o para a comunidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O protocolo de biosseguran\u00e7a, segundo a Rede Pr\u00f3-Yanomami e Ye\u2019kwana, determinaria tr\u00eas anos para a exuma\u00e7\u00e3o do corpo, mas at\u00e9 agora n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo comprova\u00e7\u00e3o de que as crian\u00e7as tinham a doen\u00e7a. \u201cPor que tr\u00eas anos? Por que n\u00e3o mais? Por que n\u00e3o menos? Quem explica \u00e0s mulheres Yanomami?\u201d, questiona S\u00edlvia Guimar\u00e3es, em entrevista ao EL PA\u00cdS.<\/p>\n\n\n\n<p>Braulina Baniwa \u00e9 uma das mulheres ind\u00edgenas que, apesar de pertencer \u00e0 outra etnia, se solidarizou com as m\u00e3es San\u00f6ma: \u201cEssas mulheres est\u00e3o sofrendo uma viol\u00eancia sem tamanho. \u00c9 uma parte de cada uma delas que vai ficar fora do territ\u00f3rio\u201d, diz. \u201cAl\u00e9m de tudo o que est\u00e3o vivendo, elas n\u00e3o falam portugu\u00eas e n\u00e3o h\u00e1 sensibilidade para entend\u00ea-las.\u201d Antrop\u00f3loga, ela faz parte do Laborat\u00f3rio Matula, criado a partir do grupo de pesquisa do CNPq \u201cSociabilidades, diferen\u00e7as e desigualdades\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em carta p\u00fablica, o Matula afirmou: \u201cNo caso das mulheres San\u00f6ma, sobressai aqui a dor da ind\u00edgena mulher nesta pandemia, que deixa os corpos de seus filhos sem a possibilidade de negociar os termos das cerim\u00f4nias de encerramento desta vida, o que viola seus direitos enquanto povo. Essa cena se repete em v\u00e1rios locais do Brasil, mas, qual \u00e9 o peso desta dor para uma ind\u00edgena mulher, que n\u00e3o domina o portugu\u00eas, encontra-se distante de sua rede de apoio e aguarda para saber se est\u00e1 contaminada? Qual \u00e9 a possibilidade de ter sua fala ouvida, de ter sua experi\u00eancia sobre a morte compartilhada e decidida? Concordamos que as formas de cont\u00e1gio s\u00e3o m\u00faltiplas e de grandes riscos, mas h\u00e1 ainda algumas perguntas a serem feitas: \u00e9 poss\u00edvel ser transparente, se abrir para o di\u00e1logo, compartilhar conhecimento e decis\u00f5es? Que crit\u00e9rios \u00e9ticos iremos viver nesta pandemia? Essa pandemia&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-06-01\/coronavirus-joga-sal-sobre-a-ferida-da-desigualdade-e-aumenta-a-diferenca-economica.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">escancara a desigualdade social<\/a>&nbsp;e o que era normalizado. A infraestrutura dos servi\u00e7os p\u00fablicos se omitiu para essa parcela da popula\u00e7\u00e3o, os riscos das mortes dos filhos e suas m\u00e3es ind\u00edgenas se agudizam. E vigora a paralisia para a a\u00e7\u00e3o. As mulheres San\u00f6ma s\u00e3o a for\u00e7a dessa mulher ind\u00edgena, do territ\u00f3rio, da floresta, da ro\u00e7a, do alimento, dos rios, que manejam para cuidar da vida e merecem respeito, cuidado e admira\u00e7\u00e3o por parte do Estado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/bOi1LDOG13fjEDLKnQ04PioQzJU%3D\/768x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/YXYIWQOU6NBPDEISNTBUE6T6XQ.JPG?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Mulher San\u00f6ma, na regi\u00e3o do rio Auaris, se preparando para ir para a ro\u00e7a.\"\/><figcaption>Mulher San\u00f6ma, na regi\u00e3o do rio Auaris, se preparando para ir para a ro\u00e7a.S\u00cdLVIA GUIMAR\u00c3ES \/ ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As lideran\u00e7as Yanomami reivindicam um protocolo ind\u00edgena para os mortos por covid-19. \u201cQueremos que possa haver uma higieniza\u00e7\u00e3o dos corpos ou, se isso n\u00e3o for poss\u00edvel, que eles sejam cremados. Ent\u00e3o poderemos levar as cinzas para as aldeias\u201d, diz Dario Kopenawa. N\u00e3o h\u00e1 cremat\u00f3rio em Boa Vista. E parece tamb\u00e9m n\u00e3o haver vontade de compreender o drama dos ind\u00edgenas numa sociedade em que impera o racismo contra os povos origin\u00e1rios \u2014896.917 pessoas, o equivalente a 0,47% da popula\u00e7\u00e3o total do Brasil, segundo o Censo do IBGE de 2010. A riqueza cultural que representam \u00e9 expressada por 256 povos que falam mais de 150 l\u00ednguas diferentes. Dizimados por v\u00edrus e por balas h\u00e1 cinco s\u00e9culos, eles resistiram at\u00e9 hoje. E ent\u00e3o chegou a covid-19. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/jair-messias-bolsonaro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Governo Bolsonaro<\/a>, que tem como um dos principais projetos abrir as terras ind\u00edgenas para explora\u00e7\u00e3o privada, nada faz de efetivo para barrar a doen\u00e7a que j\u00e1 atravessa a floresta amaz\u00f4nica produzindo um novo massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Dario Kopenawa, os Yanomami foram contaminados de covid-19 pelos garimpeiros. Em Boa Vista, os&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-04-26\/o-brasil-nao-pode-abandonar-povos-indigenas-durante-a-pandemia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">garimpeiros n\u00e3o s\u00f3 circulam<\/a>&nbsp;e entranham-se no setor p\u00fablico, por v\u00e1rios portas, como tamb\u00e9m viram monumento em pra\u00e7a p\u00fablica. Essa realidade cotidiana expressa a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/08\/12\/sociedad\/1407879285_289082.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tens\u00e3o entre os povos origin\u00e1rios e os branco<\/a>s que l\u00e1 chegaram levados por projetos de Estado, no in\u00edcio, depois pelos pr\u00f3prios p\u00e9s. \u201cAntes da pandemia n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos a doen\u00e7a do garimpo, nossos rios estavam sendo&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/04\/20\/politica\/1492722067_410462.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">contaminados por merc\u00fario<\/a>, nosso povo morria de tuberculose e de pneumonia. Agora eles nos trouxeram tamb\u00e9m a covid-19\u201d, diz ele. Com os garimpeiros, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/malaria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mal\u00e1ria<\/a>&nbsp;tamb\u00e9m est\u00e1 se alastrando e fazendo v\u00edtimas entre os ind\u00edgenas por todo o territ\u00f3rio. \u201cE depois de tudo isso, eles nos enterram\u201d, diz Dario Kopenawa. \u201cNunca houve um Yanomami enterrado antes. Nunca. Penso que \u00e9, sim uma viol\u00eancia. Mas penso que n\u00e3o nos consultarem nem pedirem nossa autoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um crime.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao saber qual era o tema da reportagem, o coordenador interino do Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena Yanomami, Antonio Pereira, alegou ao EL PA\u00cdS, por telefone, que n\u00e3o poderia responder \u00e0s perguntas porque estava em reuni\u00e3o. Comprometeu-se a procurar a reportagem ao final de seus compromissos. Diante da insist\u00eancia para marcar um hor\u00e1rio, passou o telefone a um assessor, que afirmou que ligariam. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o foi poss\u00edvel restabelecer contato com o respons\u00e1vel pelo DSEI Yanomami.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O beb\u00ea que nasceu, morreu e desapareceu<\/h3>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda uma quarta mulher Yanomami, doente de coronav\u00edrus, que foi levada para ter o parto no hospital e nunca mais viu o corpo do beb\u00ea. O rec\u00e9m-nascido, segundo o procurador Alisson Marugal, teria morrido de complica\u00e7\u00f5es n\u00e3o conectadas com a covid-19, mas um servidor do hospital teria colocado no documento, indevidamente, uma suspeita por coronav\u00edrus. Segundo informa\u00e7\u00f5es obtidas pelo EL PA\u00cdS, a fam\u00edlia pertence a um outro grupo Yanomami, que vive na regi\u00e3o chamada Miss\u00e3o Catrimani, na aldeia Nara Uhi. Nascido prematuro de sete meses, o menino nasceu e morreu em 28 de abril. E tamb\u00e9m desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato do pai deste beb\u00ea \u00e0 Rede Pr\u00f3-Yanomami e Ye\u2019kwana mostra como o v\u00edrus come\u00e7ou a dizimar os Yanomami \u2014e tamb\u00e9m como o Estado se tornou um perpetuador de viol\u00eancia ao produzir novos sofrimentos. Este Yanomami \u00e9 conhecido entre os brancos como Remo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cFoi assim que aconteceu. Primeiro, o xam\u00e3 Andr\u00e9 apresentou os sintomas de covid. Ele \u00e9 mais velho, foi o primeiro a adoecer. Ent\u00e3o, Miguel fez xamanismo para curar o pai e tamb\u00e9m adoeceu. Um dia depois que Miguel come\u00e7ou a se sentir mal, ele foi caminhando at\u00e9 o posto de sa\u00fade na Miss\u00e3o Catrimani. A terceira pessoa a adoecer na nossa comunidade foi minha mulher, Zita Rosinete, que estava gr\u00e1vida. Teve tosse, diarreia, febre, dor de cabe\u00e7a, dor no peito e muita dor na barriga. Os xam\u00e3s n\u00e3o fizeram trabalho pra ela, porque ficaram com medo de adoecer, j\u00e1 que essa doen\u00e7a \u00e9 muito forte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No dia seguinte, depois que a Zita Rosinete teve febre, caminhamos at\u00e9 o posto da Miss\u00e3o. Eu fiquei muito triste l\u00e1. A Rosinete desmaiou tr\u00eas vezes. Estava muito fraca e com muita febre. No dia 27 de abril, fomos removidos de avi\u00e3o da Miss\u00e3o Catrimani para a maternidade em Boa Vista. Quando chegamos no hospital, ela desmaiou de novo e eu fiquei segurando ela&#8230; Ent\u00e3o, talvez eu tenha Covid dentro de mim. Mas eu fiz o exame pelo nariz e pela boca, deu negativo. [Mais tarde Remo infectou-se na Casa de Sa\u00fade Ind\u00edgena e teve um teste positivo para covid-19].<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Minha mulher estava com muita dificuldade de respirar, estava muito fraca e quase morreu! E eu perguntei para o m\u00e9dico: \u2018Ser\u00e1 que ela vai morrer?\u2019. \u2018N\u00e3o. Ela est\u00e1 um pouco forte por dentro ainda\u2019, disse. Na maternidade, nos colocaram para dormir separados de outras pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meu filho morreu. No dia 28 [de abril] mesmo, no dia em que nasceu, ele morreu. Nasceu de manh\u00e3 e \u00e0 tarde morreu. Zita Rosinete estava muito fraca, mas estava um pouquinho forte ainda, porque ela n\u00e3o queria morrer. Se tivesse pensado em morrer, ela morreria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu n\u00e3o vi meu filho. A Zita Rosinete fez nascer o beb\u00ea, os m\u00e9dicos pegaram e disseram: \u2018Levem para o hospital, para a UTI\u2019. Ent\u00e3o, ele morreu. Eu fiquei muito triste. Eu estou triste ainda. O m\u00e9dico n\u00e3o disse por que ele morreu. S\u00f3 me perguntou: \u2018Ei, voc\u00ea \u00e9 papai?\u2019. \u2018Sim, eu sou papai\u2019. \u2018Desculpa a\u00ed, seu filho morreu. Ele estava com muita dificuldade de respirar e por isso morreu\u2019.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele morreu acho que \u00e0s 14h, mas n\u00e3o sei\u2026 S\u00f3 tem no documento. Eu disse para o enfermeiro: \u2018Eu quero visitar meu filho!\u2019. Mas ele disse: \u2018Espera, s\u00f3 depois. Os m\u00e9dicos est\u00e3o examinando ainda\u2019. A\u00ed eu esperei, esperei, esperei e depois chegou informa\u00e7\u00e3o: \u2018Seu filho morreu de dia\u2019. O corpo, acho que est\u00e1 l\u00e1 ainda na UTI, eu n\u00e3o sei onde est\u00e1. Na Casai [Casa de Sa\u00fade Ind\u00edgena], eles tamb\u00e9m n\u00e3o disseram onde est\u00e1 o corpo do meu filho. Eles n\u00e3o d\u00e3o informa\u00e7\u00e3o sobre onde est\u00e1 o corpo. Eu tenho um papel que fala sobre o meu filho [declara\u00e7\u00e3o de nascido vivo] e aqui na Casai a enfermeira perguntou: \u2018Onde \u00e9 que est\u00e1 o seu filho?\u2019. Eu disse: \u2018Morreu!\u2019. \u2018Onde est\u00e1 o documento falando que ele morreu no hospital maternidade no dia 28?\u2019. \u2018N\u00e3o sei! Os m\u00e9dicos n\u00e3o me deram!\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Remo e Rosinete s\u00f3 conseguiram voltar em 19 de junho para a sua aldeia. Sem o corpo do filho. E assim se abriu mais um rasgo de viol\u00eancia no povo Yanomami. O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal est\u00e1 investigando o caso e tamb\u00e9m o de outras mortes de adultos cujo corpo \u00e9 reclamado pelos Yanomami.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">\u201cRoubar os mortos alheios \u00e9 o est\u00e1gio supremo da barb\u00e1rie\u201d&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<p>O antrop\u00f3logo franc\u00eas&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/08\/02\/cultura\/1406991309_925068.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruce Albert<\/a>&nbsp;compara \u201co enterro secreto e compuls\u00f3rio (\u2018biosseguro\u2019!)\u201d das v\u00edtimas Yanomami da covid-19\u2033 com o \u201c\u2018desaparecimento\u201d dos corpos das v\u00edtimas dos torturadores na&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/dictadura-brasilena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ditadura militar<\/a>&nbsp;(1964-1985). \u201cRoubar os mortos alheios e negar o seu luto sempre foi o est\u00e1gio supremo da barb\u00e1rie, no desprezo e na nega\u00e7\u00e3o do Outro (\u00e9tnico e\/ou pol\u00edtico\u201d, afirma em entrevista ao EL PA\u00cdS. Albert escreveu, junto com Davi Kopenawa, um livro que \u00e9 um marco na hist\u00f3ria da Antropologia:&nbsp;<em>A queda do c\u00e9u<\/em>&nbsp;(em portugu\u00eas, publicado pela Companhia das Letras).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1993, o epis\u00f3dio conhecido como \u201cMassacre de Haximu\u201d, em que 16 ind\u00edgenas foram assassinados por garimpeiros, mostra a import\u00e2ncia inegoci\u00e1vel que o povo Yanomami d\u00e1 aos seus rituais funer\u00e1rios. \u201cMesmo com o terror de estarem sendo ca\u00e7ados pelos garimpeiros, eles n\u00e3o hesitaram em colocar sua vida em risco para recuperar seus mortos, chor\u00e1-los e queim\u00e1-los devidamente em seu caminho de fuga\u201d, lembra Albert. \u201cPara os Yanomami, mais vale a pena morrer do que deixar seus mortos sem sepultura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nas guerras antigas, os Yanomami sempre davam uma tr\u00e9gua para que as mulheres dos seus inimigos pudessem recuperar seus mortos na floresta e chor\u00e1-los devidamente. Fazer \u201cdesaparecer\u201d os inimigos mortos, segundo o antrop\u00f3logo, era considerado \u201cuma desonra e uma manifesta\u00e7\u00e3o de hostilidade literalmente inumana: digna dos animais ferozes ou dos esp\u00edritos mal\u00e9ficos da floresta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da entrevista, Bruce Albert ainda diz: \u201cEspero que seja \u00fatil para que seus leitores entendam: n\u00e3o h\u00e1 pior afronta e sofrimento para os Yanomami do que fazer \u2018desaparecer\u2019 seus mortos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso dos beb\u00eas San\u00f6ma expressa a abertura de um novo cap\u00edtulo de viol\u00eancia de Estado contra os povos origin\u00e1rios. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-06-21\/coracao-de-pedra.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">desrespeito e a indignidade com que a morte \u00e9 tratada<\/a>&nbsp;pelas autoridades p\u00fablicas s\u00e3o os mesmos da vida. N\u00e3o basta matar pela contamina\u00e7\u00e3o por v\u00edrus, h\u00e1 ainda que torturar mulheres e tamb\u00e9m homens. Este cap\u00edtulo est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando, mas as v\u00edtimas j\u00e1 deram a ele um t\u00edtulo: genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A indignidade com que os ind\u00edgenas s\u00e3o tratados na pandemia de covid-19 abriu um novo e pavoroso cap\u00edtulo de viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos origin\u00e1rios pelo Estado brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-28935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7wH","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28935"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28935\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28937,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28935\/revisions\/28937"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}