{"id":29303,"date":"2020-07-27T12:15:43","date_gmt":"2020-07-27T16:15:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=29303"},"modified":"2020-07-27T12:15:47","modified_gmt":"2020-07-27T16:15:47","slug":"isso-nao-e-gente-os-audios-com-ataques-a-indigenas-na-pandemia-que-se-tornaram-alvos-do-mpf","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/07\/27\/isso-nao-e-gente-os-audios-com-ataques-a-indigenas-na-pandemia-que-se-tornaram-alvos-do-mpf\/","title":{"rendered":"&#8216;Isso n\u00e3o \u00e9 gente&#8217;: os \u00e1udios com ataques a ind\u00edgenas na pandemia que se tornaram alvos do MPF"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/FBC6\/production\/_113645446_indigenas11.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Dois ind\u00edgenas usam m\u00e1scara em barreira da terra Xavante Sangradouro\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c1udios e mensagens de texto com ataques a ind\u00edgenas do munic\u00edpio de General Carneiro, no interior de Mato Grosso, se tornaram alvos do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF). Os coment\u00e1rios ofensivos foram compartilhados nas \u00faltimas semanas em um grupo de WhatsApp destinado aos moradores da cidade.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p> Vinicius Lemos, Da BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00e1udios e nas mensagens de texto, os ind\u00edgenas s\u00e3o apontados por alguns moradores como os principais respons\u00e1veis por propagar a covid-19 no munic\u00edpio mato-grossense.<\/p>\n\n\n\n<p>Os coment\u00e1rios ofensivos come\u00e7aram, principalmente, ap\u00f3s os moradores notarem que a maioria dos casos de covid-19 na cidade, at\u00e9 o momento, tinham sido registrados nas aldeias da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00d4, companheiro, isso da\u00ed s\u00f3 \u00e9 \u00edndio, rapaz&#8230; n\u00e3o \u00e9 gente, n\u00e3o (&#8230;). Dentro de General mesmo, o n\u00famero de infectados \u00e9 muito pouquinho, gra\u00e7as a Deus. Agora os \u00edndios&#8230; esse povo a\u00ed \u00e9 sem cultura, sem religi\u00e3o, quem d\u00e1 conta desse povo a\u00ed?&#8221;, disse um homem em um dos \u00e1udios compartilhados no grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade mato-grossense tem 5,5 mil habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por ind\u00edgenas pertencentes aos povos bororo e xavante.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Dados atuais da covid-19 no munic\u00edpio apontam que General Carneiro registrou 160 casos de covid-19, sendo 117 deles em ind\u00edgenas. Na cidade, sete pessoas morreram em decorr\u00eancia do novo coronav\u00edrus, seis delas eram ind\u00edgenas \u2014 tr\u00eas da etnia xavante e tr\u00eas da bororo.<\/p>\n\n\n\n<p>As mensagens no grupo da cidade no WhatsApp causaram apreens\u00e3o em ind\u00edgenas, que passaram a temer que as acusa\u00e7\u00f5es contra eles motivassem ataques \u00e0s aldeias. Em raz\u00e3o disso, encaminharam o caso ao MPF e ir\u00e3o lev\u00e1-lo para a Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos \u00cdndios (Funai).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/122D6\/production\/_113645447_indigenas2.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Bandeira do Brasil em grupo de WhatsApp de General Carneiro\"\/><figcaption>Image captionEm grupo de WhatsApp, \u00e1udios e mensagens de texto causaram indigna\u00e7\u00e3o em ind\u00edgenas e foram parar no MPF<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os \u00e1udios<\/h2>\n\n\n\n<p>No grupo, intitulado &#8220;General Not\u00edcias Regi\u00f5es&#8221;, alguns moradores utilizaram termos ofensivos ao se referir aos ind\u00edgenas. &#8220;Palha\u00e7ada esse tanto de casos positivos (de covid-19) em General. Estou vendo que essa &#8216;porra&#8217; desse lugar vai fechar por causa desses \u00edndios (&#8230;). N\u00e3o estou aguentando esses capetas desses \u00edndios na porta de casa pedindo comida 24 horas&#8221;, disse uma moradora do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher ainda defendeu, no \u00e1udio, que os ind\u00edgenas sejam &#8220;trancados&#8221; nas aldeias para que n\u00e3o tenham contato com os demais moradores da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro \u00e1udio, um homem chamou os ind\u00edgenas da regi\u00e3o de &#8220;bichos&#8221; e disse que eles precisam ser isolados, para proteger os outros moradores. &#8220;Tem que fechar as aldeias, n\u00e9? Chegar l\u00e1, colocar a pol\u00edcia l\u00e1 e travar tudo. Teriam que fechar as aldeias para esses &#8216;bichos'&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas foram algumas das ofensas propagadas no grupo. A reportagem apurou que foram, ao menos, cinco \u00e1udios ofensivos nas \u00faltimas semanas, al\u00e9m de diversas mensagens de texto.<\/p>\n\n\n\n<p>As ofensas preocuparam os ind\u00edgenas da cidade. Os bororo, que vivem na Terra Meruri, consideraram as declara\u00e7\u00f5es como &#8220;viol\u00eancia moral, ps\u00edquica, \u00e9tica e cultural&#8221; e afirmaram que a situa\u00e7\u00e3o representa um caso de &#8220;preconceito, inj\u00faria racial e racismo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles classificaram os \u00e1udios como &#8220;extremamente preocupantes e com teor criminoso, inadmiss\u00edvel em nossa sociedade e no regime jur\u00eddico brasileiro&#8221;. Em documento assinado por lideran\u00e7as da regi\u00e3o, relatam que os ataques ocorrem desde junho, &#8220;por conta do perambulo e perman\u00eancia na cidade, onde os moradores est\u00e3o atribuindo a dissemina\u00e7\u00e3o da pandemia ao tr\u00e2nsito de ind\u00edgenas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/170F6\/production\/_113645449_indigenas33.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Terra Ind\u00edgena Sangradouro\"\/><figcaption>Image captionNa Terra Sangradouro, do povo xavante, ind\u00edgenas afirmam que h\u00e1 mais de 100 casos de covid-19 apenas na \u00e1rea de General Carneiro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No documento, os ind\u00edgenas afirmam que temem que os \u00e1udios culminem em agress\u00f5es f\u00edsicas contra o povo, &#8220;tendo em vista a quantidade de casos de viol\u00eancias graves a ind\u00edgenas registrados no pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no documento, eles argumentam que a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos dos Povos Ind\u00edgenas destaca que deve haver respeito \u00e0 liberdade e igualdade a todos.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento, que ser\u00e1 encaminhado \u00e0 Funai e ao MPF, pede que as mensagens compartilhadas no grupo de WhatsApp sejam investigadas e que os respons\u00e1veis pelas declara\u00e7\u00f5es sejam responsabilizados na Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bororo pedem tamb\u00e9m que sejam feitas a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o na cidade sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena, para combater o preconceito e o racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Com o avan\u00e7o da tecnologia e dos meios de transporte, n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, temos participado mais da rotina das cidades e no munic\u00edpio de General Carneiro. Temos fortalecido o com\u00e9rcio local, somos ativos na economia e tamb\u00e9m devemos ser valorizados (&#8230;). N\u00e3o buscamos atrito com os moradores, mas sim que os indiv\u00edduos envolvidos sejam julgados de acordo com a lei e que daqui pra frente possamos construir uma nova hist\u00f3ria&#8221;, conclui o documento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Medo de invas\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos representantes dos bororo, o ind\u00edgena Liberio Uiagumeareu, afirma que as declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ficar impunes. &#8220;A princ\u00edpio, quando escutamos um \u00e1udio, ignoramos. Mas depois vimos que essa situa\u00e7\u00e3o aumentou muito e outras pessoas falavam coisas parecidas. S\u00e3o falas preocupantes. H\u00e1 muitas acusa\u00e7\u00f5es falsas&#8221;, diz ele, que \u00e9 formado em Direito e atualmente vive com a fam\u00edlia em Cuiab\u00e1 (MT).<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m do povo bororo, Kleiton Rodrigues ressalta que as cr\u00edticas e o preconceito contra ind\u00edgenas na regi\u00e3o s\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. &#8220;Mas, ainda bem, n\u00e3o s\u00e3o todos que t\u00eam essa vis\u00e3o de \u00f3dio contra a gente&#8221;, diz o ind\u00edgena, que vive na terra Meruri, em General Carneiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5A18\/production\/_113646032_indigenas44.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Terra Meruri, dos Bororo, em General Carneiro\"\/><figcaption>Image captionTerra Meruri, em General Carneiro, onde foram registrados diversos casos de covid-19 nas \u00faltimas semanas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Somente na Meruri j\u00e1 foram confirmados mais de 100 casos de covid-19. &#8220;A transmiss\u00e3o foi muito r\u00e1pida&#8221;, diz Kleiton. Ele n\u00e3o testou positivo para a covid-19 em um exame, mas acredita ter sido infectado pelo coronav\u00edrus, pois a esposa e os filhos, que moram com ele, foram diagnosticados com a doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil todo estava despreparado para essa doen\u00e7a. O nosso povo est\u00e1 desassistido pelo governo&#8221;, acrescenta Kleiton, que \u00e9 presidente do Conselho de Sa\u00fade Ind\u00edgena da aldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cerca de 1,7 mil habitantes no territ\u00f3rio bororo, divididos em cinco munic\u00edpios mato-grossenses. Em General Carneiro, vivem, aproximadamente, 600 deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Os coment\u00e1rios no grupo de WhatsApp tamb\u00e9m incomodaram os xavante. A etnia tem visto a covid-19 se espalhar na terra Sangradouro, que abriga cerca de 1,2 mil habitantes somente na \u00e1rea pertencente a General Carneiro. Ali, os ind\u00edgenas contabilizam mais de 100 casos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essas ofensas aos ind\u00edgenas existem h\u00e1 muito tempo. Atualmente, as pessoas t\u00eam se sentido mais protegidas pelo governo do Jair Bolsonaro, que n\u00e3o respeita os povos ind\u00edgenas&#8221;, declara Hiparidi Toptiro, xavante de Sangradouro e coordenador-geral do movimento Mobiliza\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Cerrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os xavante s\u00e3o a etnia mais populosa de Mato Grosso e a quarta do pa\u00eds, com cerca de 23 mil indiv\u00edduos espalhados por nove terras ind\u00edgenas, em mais de 320 aldeias \u2014 h\u00e1 centenas de casos do novo coronav\u00edrus em diferentes aldeias xavante.<\/p>\n\n\n\n<p>Hiparidi afirma que discursos como os dos moradores de General Carneiro fortalecem a\u00e7\u00f5es contra ind\u00edgenas e gera temor. &#8220;Isso favorece, por exemplo, a\u00e7\u00f5es daqueles que querem invadir e explorar as nossas terras, que se sentem mais fortes&#8221;, declara.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Apura\u00e7\u00f5es do MPF<\/h2>\n\n\n\n<p>Os \u00e1udios e mensagens de texto do grupo de WhatsApp foram encaminhados ao MPF por representantes ind\u00edgenas da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O MPF de Mato Grosso instaurou uma not\u00edcia de fato \u2014 medida inicial para colher informa\u00e7\u00f5es sobre um caso \u2014 para apurar as mensagens. Posteriormente, se o procurador considerar necess\u00e1rio, pode converter o procedimento em inqu\u00e9rito. Depois, o caso pode se tornar um processo judicial.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A838\/production\/_113646034_indigenas55.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Kleiton, ind\u00edgena da Terra Meruri, em General Carneiro\"\/><figcaption>Image captionRepresentante do povo bororo, Kleiton Rodrigues acredita ter contra\u00eddo a covid-19, ap\u00f3s a esposa e os filhos testarem positivo para a doen\u00e7a<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As mensagens no grupo foram classificadas pelo MPF de Mato Grosso como &#8220;manifesta\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o, de \u00f3dio e de amea\u00e7a&#8221;. Em nota, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal ressalta que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o &#8220;grupos culturalmente diferenciados&#8221;, que &#8220;n\u00e3o devem sofrer restri\u00e7\u00f5es de direitos&#8221;. A entidade frisa que a Constitui\u00e7\u00e3o Federal busca a &#8220;igualdade material e a efetiva prote\u00e7\u00e3o dos direitos&#8221; desses povos.<\/p>\n\n\n\n<p>O comunicado do MPF-MT ressalta que crimes de preconceito de ra\u00e7a e cor podem culminar em reclus\u00e3o de dois a cinco anos &#8220;para quem praticar, induzir ou incitar a discrimina\u00e7\u00e3o ou preconceito de ra\u00e7a, cor, etnia, religi\u00e3o ou proced\u00eancia nacional, por interm\u00e9dio de publica\u00e7\u00e3o de qualquer natureza&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato ser\u00e1 apurado pelo procurador Everton Pereira Aguiar Ara\u00fajo, de Barra do Gar\u00e7as (MT). Segundo o MPF-MT, os envolvidos poder\u00e3o sofrer &#8220;responsabiliza\u00e7\u00e3o civil e criminal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Me arrependo muito&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos respons\u00e1veis pelos \u00e1udios contra os ind\u00edgenas, um comerciante de 60 anos, que pediu para n\u00e3o ter a identidade divulgada, afirma estar muito arrependido dos coment\u00e1rios que fez. &#8220;Levaram minha declara\u00e7\u00e3o para outro lado. N\u00e3o falei com mal\u00edcia nenhuma. Fiquei muito chateado&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e1udio, o comerciante se referiu aos ind\u00edgenas como &#8220;bichos&#8221;, mas nega que tenha sido uma express\u00e3o preconceituosa. &#8220;Tenho uma mania besta de falar assim: &#8216;fala, bicho&#8217; ou &#8216;e a\u00ed, bicho&#8217;. Naquela hora falei bicho, mas eles s\u00e3o iguais a n\u00f3s. Foi uma palavra errada&#8221;, justifica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Me arrependo. Se soubesse que iria virar isso&#8230; Pedi desculpas (a l\u00edderes ind\u00edgenas). Foi um erro meu. Foi um momento de burrice. Se fosse para ajoelhar para pedir perd\u00e3o, eu faria. Mas agora n\u00e3o adianta, j\u00e1 est\u00e1 no Minist\u00e9rio P\u00fablico e vou ter que arcar com as consequ\u00eancias&#8221;, acrescenta o comerciante de General Carneiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de negar que tivesse a inten\u00e7\u00e3o de ofender, o homem justifica a cr\u00edtica aos ind\u00edgenas por um conflito familiar do passado. &#8220;O meu pai perdeu uma \u00e1rea de terra (em General Carneiro) para os ind\u00edgenas em 1976. Era uma \u00e1rea 1,2 mil hectares, que hoje pertence a uma aldeia&#8221;, diz. Ele afirma que n\u00e3o sabe, por\u00e9m, detalhes sobre a decis\u00e3o judicial que obrigou seu pai a deixar a propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m entre os respons\u00e1veis pelos coment\u00e1rios contra os ind\u00edgenas est\u00e1 o advogado Fabio Dias, que h\u00e1 mais de 16 anos se mudou de General Carneiro para a capital mato-grossense. No grupo, ele disse que &#8220;n\u00e3o \u00e9 chegado a \u00edndio&#8221;. Em nota \u00e0 BBC News Brasil, ele afirma que se expressou mal. &#8220;O que queria dizer, na verdade, \u00e9 que n\u00e3o sou chegado \u00e0s causas ind\u00edgenas, visto que no grupo havia uma campanha para arrecada\u00e7\u00e3o de itens de higiene em favor dos povos ind\u00edgenas, da qual n\u00e3o participei&#8221;, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CF48\/production\/_113646035_indigenas66.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"P\u00e9s de mulher e duas crian\u00e7as ind\u00edgenas caminhando por uma rua de Diamantino\"\/><figcaption>Image captionImagem compartilhada por academia de Dourados (MS) na qual ind\u00edgenas foram alvos de cr\u00edticas e caso foi parar no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. (Imagem cortada para preservar as identidades da mulher e das crian\u00e7as)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Em rela\u00e7\u00e3o ao meu ponto de vista, tenho que todos n\u00f3s, independente de ra\u00e7a, cor, na\u00e7\u00e3o, cultura, religi\u00e3o e outras peculiaridades individuais e coletivas, somos todos iguais, e temos direitos a diferen\u00e7as, e o dever \u00e9tico\/social de respeit\u00e1-las&#8221;, completa o advogado, de 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem tentou contato com outras pessoas que tamb\u00e9m fizeram coment\u00e1rios contra os ind\u00edgenas no grupo de WhatsApp, por\u00e9m n\u00e3o obteve respostas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O \u00f3dio no contexto da pandemia<\/h2>\n\n\n\n<p>Antrop\u00f3logo e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Di\u00f3genes Cariaga pontua que o preconceito contra os ind\u00edgenas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que perdura h\u00e1 s\u00e9culos. &#8220;H\u00e1 quest\u00f5es que refor\u00e7am a discrimina\u00e7\u00e3o e o discurso de \u00f3dio contra os ind\u00edgenas, como os problemas fundi\u00e1rios e a disputa pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o das terras.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a pandemia refor\u00e7ou esse preconceito. &#8220;Uma situa\u00e7\u00e3o como a que vivemos atualmente reacende esse discurso. Ao longo do s\u00e9culo, criaram a imagem do ind\u00edgena como algu\u00e9m que n\u00e3o trabalha, que \u00e9 pregui\u00e7oso e b\u00eabado. Essa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 recorrente em discursos regionais e \u00e9 alimentada por uma estrutura tensa de problemas fundi\u00e1rios, como se todos os ind\u00edgenas fossem assim&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No Brasil, a pandemia veio pelas pessoas de classe m\u00e9dia alta, que viajaram para fora, at\u00e9 chegar aos ind\u00edgenas. Em Dourados (MS), por exemplo, um dos primeiros casos em aldeias foi o de uma ind\u00edgena que trabalhava em um frigor\u00edfico&#8221;, relata o especialista. Ele avalia que h\u00e1 uma &#8220;constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de preconceito contra os ind\u00edgenas&#8221; que faz com que muitas pessoas associem a dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus a esses povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele cita uma situa\u00e7\u00e3o que ocorreu semanas atr\u00e1s em Dourados, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, como exemplo do preconceito sofrido por ind\u00edgenas no contexto da pandemia do novo coronav\u00edrus. Uma academia do munic\u00edpio publicou, em seu perfil no Instagram, uma imagem de uma ind\u00edgena, que estava com duas crian\u00e7as, andando sem m\u00e1scara em uma rua da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As academias s\u00e3o lugares de prolifera\u00e7\u00e3o de covid e precisam estar fechadas para que as pessoas fiquem com suas imunidades bem baixas. Por\u00e9m, essas pessoas (ind\u00edgenas) podem andar sem m\u00e1scara e, se n\u00e3o me engano, a aldeia estava cheia de covid. Acordaaa, Dourados!&#8221;, escreveu um dos respons\u00e1veis pela academia \u2014 que est\u00e1 fechada em raz\u00e3o da quarentena, para evitar a propaga\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Dourados, que tem cerca de 210 mil habitantes, j\u00e1 registrou mais de 4 mil casos de covid-19. Desses, 200 ocorreram em terras ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>A publica\u00e7\u00e3o da academia, apagada minutos depois, causou indigna\u00e7\u00e3o. Muitos internautas apontaram que se tratou de caso de racismo ao expor os ind\u00edgenas e apont\u00e1-los como respons\u00e1veis pela propaga\u00e7\u00e3o da covid-19 na cidade. &#8220;Esse tipo de discrimina\u00e7\u00e3o tem sido recorrente&#8221;, diz Di\u00f3genes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11D68\/production\/_113646037_indigenas77.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Terra ind\u00edgena Meruri, em General Carneiro\"\/><figcaption>Image captionEnquanto casos avan\u00e7am entre ind\u00edgenas, cresce tamb\u00e9m o preconceito e o discurso de \u00f3dio contra eles, alerta antrop\u00f3logo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;O que me parece \u00e9 que setores que sempre foram contr\u00e1rios \u00e0s quest\u00f5es ind\u00edgenas passaram a manipular o discurso para tornar os ind\u00edgenas respons\u00e1veis pela pandemia. Eles (os ind\u00edgenas) s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis a tudo isso e est\u00e3o sendo duramente impactados. Mas existe uma constru\u00e7\u00e3o de narrativa para manipular o discurso e coloc\u00e1-los como culpados&#8221;, afirma o antrop\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal de Mato Grosso do Sul instaurou, em 16 de julho, um Procedimento Investigat\u00f3rio Criminal (PIC) \u2014 que tem in\u00edcio ap\u00f3s as primeiras apura\u00e7\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o. Os respons\u00e1veis pela academia negam que a publica\u00e7\u00e3o tenha sido racista e alegam que o texto teve interpreta\u00e7\u00e3o diferente da que queriam passar.<\/p>\n\n\n\n<p>O MPF informa que analisa o caso para avaliar se ser\u00e1 encerrado ou se poder\u00e1 culminar em um processo judicial. Respons\u00e1vel pelo procedimento, o procurador do MPF de Dourados, Marco Ant\u00f4nio Delfino de Almeida, afirma \u00e0 BBC News Brasil que consultar\u00e1 a comunidade ind\u00edgena sobre o caso. &#8220;Obviamente, o sentimento da comunidade ter\u00e1 repercuss\u00e3o para avaliarmos as medidas a serem empreendidas&#8221;, declara<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A covid-19 entre os ind\u00edgenas<\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto aumenta o discurso de \u00f3dio, cresce tamb\u00e9m a precariedade da condi\u00e7\u00e3o de vida nas aldeias. Os ind\u00edgenas s\u00e3o considerados especialmente vulner\u00e1veis \u00e0 covid-19 por alguns fatores como o compartilhamento de objetos, a fr\u00e1gil assist\u00eancia m\u00e9dica em seus territ\u00f3rios e a grande quantidade de pessoas morando em \u00e1reas muito pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00f5es como a de General Carneiro ilustram a vulnerabilidade dos ind\u00edgenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 covid-19. &#8220;O meu povo est\u00e1 doente e assustado com tudo isso. A nossa terra \u00e9 tamb\u00e9m um territ\u00f3rio vulner\u00e1vel porque a BR-070 passa por aqui e muitos autom\u00f3veis transitam diariamente em nosso entorno. Al\u00e9m disso, os produtores de gr\u00e3os est\u00e3o nos pressionando para arrendar nossas terras&#8221;, diz Hiparidi.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos representantes dos xavante de General Carneiro, Hiparidi contraiu a covid-19 recentemente e passou dias internado. &#8220;A situa\u00e7\u00e3o por aqui n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil. Os n\u00fameros s\u00e3o muito maiores do que pensamos. E, al\u00e9m disso, ainda h\u00e1 o \u00f3dio das pessoas contra a gente&#8221;, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os representantes dos xavante e dos bororo relatam que foram colocadas barreiras sanit\u00e1rias nas entradas das aldeias para controlar o fluxo dos moradores. Eles pontuam que o fluxo de ind\u00edgenas na cidade caiu, por\u00e9m, muitos deles precisam ir a regi\u00f5es centrais do munic\u00edpio por quest\u00f5es b\u00e1sicas, como comprar mantimentos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Influ\u00eancia de Bolsonaro<\/h2>\n\n\n\n<p>Hiparidi afirma que o discurso de \u00f3dio contra os ind\u00edgenas tem se tornado cada vez mais comum e forte, em raz\u00e3o da conduta do presidente Jair Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o ao tema.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder ind\u00edgena classifica a postura do presidente Jair Bolsonaro como genocida, pois aponta que n\u00e3o deu o suporte necess\u00e1rio para evitar que o novo coronav\u00edrus se espalhasse nas aldeias. No in\u00edcio de julho, o Supremo Tribunal Federal determinou que o Estado tomasse provid\u00eancias para auxiliar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no combate ao v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em todo o Brasil h\u00e1 ind\u00edgenas morrendo. Est\u00e1 claro o descaso do governo federal com a gente. Tenho certeza de que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o proposital do Bolsonaro contra os ind\u00edgenas&#8221;, declara Hiparidi.<\/p>\n\n\n\n<p>No pa\u00eds, segundo a Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai), j\u00e1 foram registrados mais de 14 mil casos de covid-19 entre ind\u00edgenas e mais de 260 mortes. Organiza\u00e7\u00f5es que defendem os povos, por\u00e9m, afirmam que o n\u00famero \u00e9 muito maior e que h\u00e1 milhares de casos que n\u00e3o foram contabilizados oficialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em General Carneiro, por exemplo, os representantes dos bororo e xavante acreditam que h\u00e1 mais de 200 casos de covid-19, mas apenas a metade desse n\u00famero consta em dados oficiais. A Prefeitura da cidade justifica que os casos s\u00e3o registrados conforme os testes d\u00e3o resultado positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nota, a prefeitura de General Carneiro classifica como &#8220;fato isolado&#8221; a situa\u00e7\u00e3o da cidade, na qual a maioria dos casos de covid-19 ocorre entre os ind\u00edgenas. No comunicado, a prefeitura afirma que repudia qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o, &#8220;em especial aos povos ind\u00edgenas&#8221;, e diz que tem executado diversas atividades junto com representantes das aldeias para conter o avan\u00e7o do coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>A Sesai diz, em nota encaminhada \u00e0 BBC News Brasil, que tem atuado no enfrentamento \u00e0 covid-19 em aldeias de todo o pa\u00eds, por meio de Equipes Multidisciplinares de Sa\u00fade Ind\u00edgena (EMSI).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) afirma, tamb\u00e9m em nota \u00e0 BBC News Brasil, que j\u00e1 investiu, aproximadamente, R$ 24 milh\u00f5es em a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 covid-19. A entidade argumenta que tem feito diferentes a\u00e7\u00f5es, como a cria\u00e7\u00e3o de barreiras sanit\u00e1rias para impedir a entrada de n\u00e3o ind\u00edgenas nos territ\u00f3rios e a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos para &#8220;garantir a seguran\u00e7a alimentar dos ind\u00edgenas, medida que colabora para que eles permane\u00e7am nas aldeias&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1udios e mensagens de texto com ataques a ind\u00edgenas do munic\u00edpio de General Carneiro, no interior de Mato Grosso, se tornaram alvos do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF). Os coment\u00e1rios ofensivos foram compartilhados nas \u00faltimas semanas em um grupo de WhatsApp destinado aos moradores da cidade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-29303","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7CD","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29303","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29303"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29303\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29304,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29303\/revisions\/29304"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29303"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29303"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29303"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}