{"id":29403,"date":"2020-08-05T16:37:16","date_gmt":"2020-08-05T20:37:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=29403"},"modified":"2020-08-05T16:37:20","modified_gmt":"2020-08-05T20:37:20","slug":"vou-intervir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/05\/vou-intervir\/","title":{"rendered":"VOU INTERVIR!"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" data-attachment-id=\"29404\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/05\/vou-intervir\/image-4-14\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?fit=1200%2C800\" data-orig-size=\"1200,800\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-4\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?fit=600%2C400\" alt=\"\" class=\"wp-image-29404\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?resize=1024%2C683 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?resize=768%2C512 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-4.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O dia em que Bolsonaro decidiu mandar tropas para o Supremo&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>MONICA GUGLIANO<\/strong>, Revista Piau\u00ed<\/p>\n\n\n\n<p>A temperatura em Bras\u00edlia n\u00e3o passou de 27\u00baC naquela sexta-feira, mas o ambiente estava t\u00f3rrido no gabinete presidencial, no Pal\u00e1cio do Planalto. Ainda pela manh\u00e3, Jair Bolsonaro fora informado que o ministro Celso de Mello, o decano do Supremo Tribunal Federal, consultara a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica para saber se deveria ou n\u00e3o mandar apreender o celular do presidente e do seu filho Carlos Bolsonaro. Era uma formalidade de rotina, decorrente de uma not\u00edcia-crime apresentada por tr\u00eas partidos, mas a mera possibilidade de que seu celular viesse a ser apreendido deixou Bolsonaro transtornado. No seu gabinete, a reuni\u00e3o das 9 horas come\u00e7ou com um pequeno atraso. Estavam presentes dois generais: o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, e o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. O terceiro general a participar do encontro, Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, achando que aquele 22 de maio de 2020 seria um dia tranquilo, marcara uma consulta m\u00e9dica na parte da manh\u00e3. Foi o \u00faltimo a chegar \u00e0 reuni\u00e3o. Agitado, entre xingamentos e palavr\u00f5es, o presidente saiu logo anunciando sua decis\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Vou intervir! \u2013 disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro queria mandar tropas para o Supremo porque os magistrados, na sua opini\u00e3o, estavam passando dos limites em suas decis\u00f5es e achincalhando sua autoridade. Na sua cabe\u00e7a, ao chegar no STF, os militares destituiriam os atuais onze ministros. Os substitutos, militares ou civis, seriam ent\u00e3o nomeados por ele e ficariam no cargo \u201cat\u00e9 que aquilo esteja em ordem\u201d, segundo as palavras do presidente. No tumulto da reuni\u00e3o, n\u00e3o ficou claro como as tropas seriam empregadas, nem se, nos planos de Bolsonaro, os ministros destitu\u00eddos do STF voltariam a seus cargos quando \u201caquilo\u201d estivesse \u201cem ordem\u201d. A essa altura, ele j\u00e1 tinha decidido tamb\u00e9m que n\u00e3o entregaria seu celular sob hip\u00f3tese alguma, mesmo que tivesse que descumprir uma ordem judicial. \u201cS\u00f3 se eu fosse um rato para entregar meu celular para ele\u201d, disse, fazendo uma compara\u00e7\u00e3o que voltaria a usar, em p\u00fablico, no transcorrer do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Vou intervir! \u2013 repetiu.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da extrema gravidade do an\u00fancio, o general Luiz Eduardo Ramos, amigo de Bolsonaro h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas, recebeu bem a inten\u00e7\u00e3o do presidente de partir para um confronto de desfecho catastr\u00f3fico. Achava que intervir no Supremo era, de fato, a \u00fanica forma de restabelecer a autoridade do presidente, que vinha sendo abertamente vilipendiada pelo tribunal. No seu racioc\u00ednio, a decis\u00e3o do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que proibira a posse de Alexandre Ramagem como diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, j\u00e1 tinha sido um abuso inaceit\u00e1vel. Braga Netto e Augusto Heleno concordavam que Moraes fora longe demais. Tamb\u00e9m achavam que a decis\u00e3o do ministro fora uma interfer\u00eancia inadmiss\u00edvel em ato soberano do presidente, mas tinham d\u00favidas sobre a forma e as consequ\u00eancias de uma interven\u00e7\u00e3o. A certa altura, o general Heleno tentou contemporizar e disse ao presidente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 o momento para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>&nbsp;reconstituiu os detalhes da reuni\u00e3o com quatro fontes que pediram anonimato para n\u00e3o contrariar o presidente. Duas delas testemunharam a reuni\u00e3o. O clima era tenso, as pessoas entravam e sa\u00edam do gabinete presidencial, enquanto os gar\u00e7ons, aparentemente alheios ao ambiente carregado, serviam \u00e1gua e caf\u00e9 preto, com as op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar, ado\u00e7ante ou leite em p\u00f3. Entre a decis\u00e3o de Bolsonaro de intervir no STF e o conselho apaziguador de Heleno, deu-se um debate sobre como a interven\u00e7\u00e3o poderia acontecer legalmente. Apesar da brutalidade autorit\u00e1ria de uma interven\u00e7\u00e3o, havia a preocupa\u00e7\u00e3o de manter as apar\u00eancias de uma medida dentro da lei.<\/p>\n\n\n\n<p>A reuni\u00e3o prolongou-se e acabou se fundindo com a reuni\u00e3o seguinte, prevista para as 10 horas na agenda presidencial. Os participantes do compromisso das 10 horas \u2013 os ministros Andr\u00e9 Mendon\u00e7a (Justi\u00e7a) e Fernando Azevedo (Defesa), al\u00e9m de Jos\u00e9 Levi, titular da Advocacia-Geral da Uni\u00e3o \u2013 se incorporaram \u00e0 discuss\u00e3o de como dar legalidade a uma eventual interven\u00e7\u00e3o. A conversa girou em torno do artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>o dia 28 de maio, o jurista Ives Gandra da Silva Martins, de 85 anos, publicou um artigo no&nbsp;<em>Consultor Jur\u00eddico<\/em>, um site de not\u00edcias jur\u00eddicas. O t\u00edtulo do artigo j\u00e1 mostrava a tese central:&nbsp;<em>Cabe \u00e0s For\u00e7as Armadas Moderar os Conflitos entre os Poderes<\/em>. O jurista dizia que o artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o permite que qualquer dos tr\u00eas poderes, caso se sinta \u201catropelado por outro\u201d, pe\u00e7a que as For\u00e7as Armadas \u201cajam como poder moderador\u201d com o objetivo de restabelecer \u201ca lei e a ordem\u201d. A ideia do jurista n\u00e3o era propriamente uma novidade, mas a publica\u00e7\u00e3o do artigo ajudou a dar visibilidade a uma tese que j\u00e1 circulava no meio militar e, nos \u00faltimos tempos, vinha aparecendo nas manifesta\u00e7\u00f5es que a milit\u00e2ncia bolsonarista promove habitualmente contra o Congresso e o Supremo.<\/p>\n\n\n\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o de que as For\u00e7as Armadas t\u00eam o papel equivalente ao de um \u201cpoder moderador\u201d encontra terreno nos clubes militares e entre oficiais da reserva, mas costuma ser recha\u00e7ada pelo alto-comando das armas. Em 2016, o professor Dehon Padilha Figueiredo, do Quadro Complementar de Oficiais do Ex\u00e9rcito, e o oficial do Ex\u00e9rcito Renato Rezende Neto publicaram um estudo jur\u00eddico cujo t\u00edtulo \u00e9 o seguinte:&nbsp;<em>Direito&nbsp;<\/em><em>Operacional Militar: An\u00e1lise dos Fundamentos Jur\u00eddicos do Emprego das For\u00e7as Armadas na Garantia da Lei e da Ordem<\/em>. O estudo se encarrega de mostrar que o papel moderador da For\u00e7as Armadas est\u00e1 na combina\u00e7\u00e3o de quatro artigos da Constitui\u00e7\u00e3o: 34, 136, 137 e 142. \u201cFica claro que a fun\u00e7\u00e3o primordial das For\u00e7as Armadas \u00e9 garantir os poderes constitucionais, inclusive a independ\u00eancia entre eles\u201d, disse Figueiredo, um dos autores do estudo, em conversa com a&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>. \u201cSe houver algum risco de quebra dessa ordem, o chefe do poder que se viu atingido pode requerer uma interven\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo, embora realizado em 2016, s\u00f3 foi publicado em janeiro passado e, desde ent\u00e3o, come\u00e7ou a circular no Pal\u00e1cio do Planalto e nos grupos de WhatsApp de reservistas que defendem uma sa\u00edda autorit\u00e1ria. A combina\u00e7\u00e3o dos quatro artigos chegou a ser mencionada na reuni\u00e3o com Bolsonaro, para mostrar que haveria um respaldo constitucional na interven\u00e7\u00e3o. Nessas franjas militares, \u00e9 antiga a tese de que a Constitui\u00e7\u00e3o submete o poder civil ao poder militar. Quando ainda era candidato, o vice-presidente, general Hamilton Mour\u00e3o, ao responder uma pergunta hipot\u00e9tica, falou sobre o assunto. Disse entender que, em caso de \u201canarquia\u201d, a Constitui\u00e7\u00e3o prev\u00ea que o presidente d\u00ea um golpe militar em seu pr\u00f3prio favor. \u201c\u00c9 um autogolpe, voc\u00ea pode dizer isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No meio jur\u00eddico, o estudo dos quatro artigos n\u00e3o \u00e9 conhecido, mas o texto de Gandra Martins disseminou-se rapidamente e causou espanto. Em uma decis\u00e3o judicial sobre uma a\u00e7\u00e3o movida pelo PDT, que pedia um esclarecimento sobre o papel dos militares, o ministro Luiz Fux, do STF, disse textualmente que a miss\u00e3o institucional das For\u00e7as Armadas \u201cn\u00e3o acomoda o exerc\u00edcio de poder moderador\u201d. O ministro Gilmar Mendes disse que, para confundir a miss\u00e3o dos militares com a de poder moderador, \u00e9 preciso percorrer \u201cuma dist\u00e2ncia abissal\u201d. O ministro Luiz Roberto Barroso, em outra decis\u00e3o, classificou a interpreta\u00e7\u00e3o dos defensores da interven\u00e7\u00e3o militar como \u201cterraplanismo constitucional\u201d. \u201cEsse poder moderador que o presidente confere \u00e0s For\u00e7as Armadas n\u00e3o existe\u201d, disse um graduado general, que pediu para ficar an\u00f4nimo porque os militares da ativa n\u00e3o podem emitir opini\u00f5es pol\u00edticas. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai encontrar essa fun\u00e7\u00e3o em nenhum livro ou manual das escolas militares.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os militares da reserva, est\u00e3o os saudosos da ditadura militar. Eles defendem a radicaliza\u00e7\u00e3o do governo, inclusive com a ado\u00e7\u00e3o de medidas de exce\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra entre os atuais comandantes, que t\u00eam tropa e poder. Esses querem dist\u00e2ncia da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e rejeitam qualquer hip\u00f3tese de interven\u00e7\u00e3o militar. Nos tr\u00eas \u00faltimos meses, enquanto Bolsonaro minimizava a pandemia e apoiava manifesta\u00e7\u00f5es radicais na frente de quart\u00e9is, as tr\u00eas for\u00e7as \u2013 Marinha, Ex\u00e9rcito e Aeron\u00e1utica \u2013 se encarregaram de adotar um comportamento oposto, participando das a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 Covid-19. No mesmo dia em que Bolsonaro fez pronunciamento na tev\u00ea dizendo que a pandemia era um problema s\u00e9rio na It\u00e1lia, mas n\u00e3o no Brasil, o comandante do Ex\u00e9rcito, general Edson Leal Pujol, publicou um v\u00eddeo dizendo que a crise sanit\u00e1ria \u201ctalvez seja a miss\u00e3o mais importante de nossa gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>D<\/strong>ois argumentos ajudaram a acalmar Bolsonaro na reuni\u00e3o. O primeiro: n\u00e3o havia ordem para apreender seu celular, apenas uma consulta do ministro do STF, de modo que ainda havia a possibilidade de que a apreens\u00e3o n\u00e3o ocorresse. (De fato, dez dias depois, Celso de Mello arquivou o pedido de apreens\u00e3o, mas, em sua decis\u00e3o, fez quest\u00e3o de mandar um recado ao presidente, dizendo que o descumprimento de uma ordem judicial \u201cconfiguraria grav\u00edssimo comportamento transgressor\u201d.) O outro argumento: o governo daria uma resposta contundente ao STF na forma de uma nota p\u00fablica. Combinou-se na reuni\u00e3o que o general Heleno assinaria a nota. Al\u00e9m de concordar com a queixa de Bolsonaro segundo a qual a Corte Suprema estaria ferindo a independ\u00eancia entre os poderes, Heleno \u00e9 respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica e pela defesa do presidente. Ficou acertado que a apreens\u00e3o do celular do chefe do Executivo poderia ser considerada uma forma de atentado, n\u00e3o f\u00edsico, mas contra a sua autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Nota \u00e0 Na\u00e7\u00e3o Brasileira, escrita pelo pr\u00f3prio general Heleno e divulgada no in\u00edcio da tarde daquela sexta-feira, veio em tom pesado. O general disse que o pedido de apreens\u00e3o era \u201cinconceb\u00edvel e, at\u00e9 certo ponto, inacredit\u00e1vel\u201d e consistia em \u201cuma afronta \u00e0 autoridade m\u00e1xima\u201d do presidente. Encerrava o texto curto com um aviso amea\u00e7ador: \u201cO Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica alerta as autoridades constitu\u00eddas que tal atitude \u00e9 uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poder\u00e1 ter consequ\u00eancias imprevis\u00edveis para a estabilidade nacional.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A nota ajudou a serenar os \u00e2nimos de Bolsonaro, mas ati\u00e7ou os \u00e2nimos do pa\u00eds. Seu tom foi duramente criticado por pol\u00edticos e juristas. Nos dias seguintes, general Heleno recebeu aplausos de organiza\u00e7\u00f5es militares e dos seus colegas de turma da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que lan\u00e7aram uma nota alarmista, alertando para o risco de \u201cguerra civil\u201d e acusando os ministros do STF de falta de \u201cdec\u00eancia\u201d e de \u201cpatriotismo\u201d. Heleno agradeceu a nota dizendo-se \u201cemocionado\u201d. Dias depois, com a crise do celular j\u00e1 superada pela decis\u00e3o de Celso de Mello, o general voltou a falar da nota publicamente. Afirmou que, naquele dia, n\u00e3o quis amea\u00e7ar ningu\u00e9m e lembrou que n\u00e3o citara o nome de nenhuma autoridade. No Planalto, assessores disseram que a express\u00e3o \u201cconsequ\u00eancias imprevis\u00edveis\u201d devia ser interpretada nos seguintes termos: \u201cTudo pode acontecer, inclusive nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde daquela mesma sexta-feira, o ministro Celso de Mello autorizou a divulga\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo da reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril, na qual Bolsonaro claramente reclama que suas tentativas de interferir na Pol\u00edcia Federal para proteger familiares e amigos n\u00e3o vinham obtendo sucesso. A repercuss\u00e3o do v\u00eddeo \u2013 com seu linguajar rasteiro, os palavr\u00f5es, as amea\u00e7as vulgares \u2013 ajudou a elevar a temperatura. A divulga\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo, no entanto, n\u00e3o transtornou Bolsonaro, que j\u00e1 esperava que o sigilo fosse levantado e apostava que, no fim das contas, seu eleitorado at\u00e9 ficaria satisfeito com o conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>interven\u00e7\u00e3o foi descartada naquele dia, mas n\u00e3o morreu. Seis dias depois da reuni\u00e3o do golpe, quando Gandra Martins publicou seu artigo, o presidente divulgou uma entrevista do jurista em uma de suas redes sociais. No mesmo dia, inconformado com a opera\u00e7\u00e3o policial contra seus aliados realizada na v\u00e9spera, disse: \u201cAcabou, porra! Me desculpem o desabafo. Acabou! N\u00e3o d\u00e1 para admitir mais atitudes de certas pessoas individuais.\u201d E prometeu: \u201cN\u00e3o teremos outro dia igual a ontem. Chega. Chegamos ao limite.\u201d Um dia antes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro tamb\u00e9m abordara o assunto em um v\u00eddeo que se encontra no YouTube. Disse que era \u201cinadmiss\u00edvel\u201d o que os ministros Alexandre de Moraes e Celso de Mello estavam fazendo \u201ccom a democracia brasileira\u201d e afirmou que j\u00e1 n\u00e3o havia mais d\u00favida de que haver\u00e1 uma \u201cruptura\u201d. Disse ele: \u201cN\u00e3o \u00e9 mais uma opini\u00e3o de \u2018se\u2019 mas \u2018quando\u2019 isso vai ocorrer.\u201d Eduardo Bolsonaro \u00e9 aquele que, antes da elei\u00e7\u00e3o do pai, disse que bastavam um cabo e um soldado para fechar o STF.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 12 de junho, duas semanas depois do \u201cAcabou, porra\u201d, o pr\u00f3prio presidente retomou, agora em p\u00fablico, a ideia de que as For\u00e7as Armadas s\u00e3o superiores ao poder civil. Em resposta \u00e0 decis\u00e3o de Fux que esclareceu que os militares n\u00e3o formam um \u201cpoder moderador\u201d, Bolsonaro divulgou uma nota dizendo que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o cumprem \u201cordens absurdas\u201d e n\u00e3o aceitam \u201ctentativas de tomada de poder por outro poder da Rep\u00fablica, ao arrepio das leis, ou por conta de julgamentos pol\u00edticos\u201d. O vice-presidente e o ministro da Defesa assinaram a nota com o presidente. Naquele mesmo dia, veio a p\u00fablico o conte\u00fado de uma entrevista \u00e0 revista&nbsp;<em>Veja<\/em>&nbsp;na qual o general Ramos, da Secretaria de Governo, disse que era \u201cultrajante\u201d a ideia de que militares est\u00e3o pensando em golpe e, em seguida, completou com o mais expl\u00edcito golpismo j\u00e1 externado por um militar no governo: \u201cO pr\u00f3prio presidente nunca pregou o golpe. Agora, o outro lado tem de entender tamb\u00e9m o seguinte: n\u00e3o estica a corda.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de junho, dia em que o Supremo quebrou o sigilo banc\u00e1rio de onze parlamentares bolsonaristas e a Pol\u00edcia Federal fez uma opera\u00e7\u00e3o de busca e apreens\u00e3o contra suspeitos de financiarem ilegalmente atos antidemocr\u00e1ticos, Bolsonaro publicou uma s\u00e9rie de dez mensagens numa rede social. Disse que n\u00e3o podia \u201cassistir calado enquanto direitos s\u00e3o violados e ideias s\u00e3o perseguidas\u201d, e argumentou que sua luta destinava-se a defender \u201ca Constitui\u00e7\u00e3o e a liberdade dos brasileiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com notas amb\u00edguas ou claras, declara\u00e7\u00f5es d\u00fabias ou amea\u00e7adoras, o fantasma de uma interven\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o se dissipa. Em maio, o pr\u00f3prio general Heleno teve que mandar um \u00e1udio no WhatsApp para desmentir uma vers\u00e3o atribu\u00edda a um capit\u00e3o da reserva, Durval Ferreira, segundo a qual o general vinha defendendo um golpe militar. \u201cBoa noite a todos os amigos do Rio Grande Sul. Quem est\u00e1 falando \u00e9 o general Heleno, daqui de Bras\u00edlia\u201d, come\u00e7a o \u00e1udio. Na mensagem, que dura 1 minuto e 50 segundos, o general admite que conhece Durval Ferreira \u2013 \u201cconhe\u00e7o, mas n\u00e3o \u00e9 meu amigo\u201d \u2013, mas diz que o capit\u00e3o n\u00e3o tem autoriza\u00e7\u00e3o para falar em seu nome. \u201cN\u00e3o penso como ele\u201d, diz o general. \u201cN\u00e3o acho que haja clima para uma interven\u00e7\u00e3o militar, muito menos para um golpe de Estado.\u201d Heleno afirma que \u201cmedidas graves foram tomadas em discord\u00e2ncia da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, mas que, nessa hora cr\u00edtica, \u201ctemos que ter muito ju\u00edzo\u201d, e encerra pedindo \u201cmuita, mas muita prud\u00eancia\u201d. Durval Ferreira afirma que nunca disse que Heleno pregava um golpe militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o do presidente de intervir no STF pode ser vista como intempestiva, tomada no calor da hora, mas \u00e9 relevante que os anais da hist\u00f3ria registrem que o presidente do Brasil, numa reuni\u00e3o no pal\u00e1cio na manh\u00e3 de 22 de maio de 2020, decidiu ocupar o Supremo com tropas \u2013 e foi persuadido a desistir da quartelada. Curiosamente, naquele mesmo v\u00eddeo no YouTube em que diz que a \u201cruptura\u201d \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo, Eduardo Bolsonaro afirma para sua audi\u00eancia que o Brasil est\u00e1 no caminho de uma ditadura, orquestrada pelo STF, e explica que um regime autorit\u00e1rio n\u00e3o se materializa de um dia para o outro. Constr\u00f3i-se aos poucos. Para elucidar seu ponto, Eduardo cita ent\u00e3o o exemplo da Venezuela e d\u00e1 a receita: \u201c[<em>Voc\u00ea<\/em>] dissolve a Suprema Corte, bota todos bolivarianos indicados pelo Hugo Ch\u00e1vez.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ditadura, est\u00e1 claro, \u00e9 s\u00f3 quando o outro dissolve a Suprema Corte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia em que Bolsonaro decidiu mandar tropas para o Supremo&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-29403","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7Ef","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29403","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29403"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29403\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29405,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29403\/revisions\/29405"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}