{"id":29422,"date":"2020-08-06T16:22:55","date_gmt":"2020-08-06T20:22:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=29422"},"modified":"2020-08-06T16:25:24","modified_gmt":"2020-08-06T20:25:24","slug":"espectros-de-hiroshima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/06\/espectros-de-hiroshima\/","title":{"rendered":"ESPECTROS DE HIROSHIMA"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/167_anaisdabomba.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Tanque de \u00e1gua em Hiroshima, por Akira Onogi: ap\u00f3s a explos\u00e3o, as pessoas se moviam em sil\u00eancio, como se tudo se passasse num filme mudo\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O respeito pelos mortos e o valor da responsabilidade em dois livros sobre o apocalipse ocorrido no Jap\u00e3o h\u00e1 75 anos<\/h4>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FL\u00c1VIO RICARDO VASSOLER<\/strong>, Revista Piau\u00ed<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na manh\u00e3 do dia 6 de agosto de 1945, o bombardeiro B-29, pilotado pelo oficial Paul Tibbets Jr., da For\u00e7a A\u00e9rea dos Estados Unidos, aproximou-se de Hiroshima, cidade com cerca de 350 mil habitantes ao Sul do Jap\u00e3o. \u00c0s 8h15 (hor\u00e1rio local), o piloto aprumou a mira do avi\u00e3o e lan\u00e7ou sobre a cidade a bomba at\u00f4mica chamada Little Boy (Menininho), a primeira da hist\u00f3ria a ser utilizada numa guerra. Pesando 4,4 toneladas, com 63 kg de ur\u00e2nio enriquecido acoplado em seu focinho e um potencial explosivo equivalente a 15 mil toneladas de TNT, o tubar\u00e3o nuclear vaporizou, num piscar de olhos, 80 mil pessoas (calcula-se que o total de mortos chegaria a cerca de 120 mil).<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A despeito do sofrimento excruciante dos habitantes de Hiroshima, o imperador Hirohito recha\u00e7ou os termos da capitula\u00e7\u00e3o incondicional impostos pelos Estados Unidos. Com isso, em 9 de agosto, \u00e0s 11h02, o avi\u00e3o B-29, pilotado por Charles Sweeney, lan\u00e7ou sobre Nagasaki, cidade com cerca de 260 mil habitantes, uma bomba at\u00f4mica de 4,8 toneladas, batizada de Fat Man (Gordo). A arma de plut\u00f4nio-239 tinha potencial explosivo \u2013 equivalente a 21 mil toneladas de TNT \u2013 superior \u00e0 bomba anterior, mas sua efic\u00e1cia foi menor: os morros de Nagasaki formaram providenciais barricadas contra a avalanche de calor e a torrente de ventos causadas pela explos\u00e3o. Ainda assim, 40 mil pessoas viraram p\u00f3 cinza e p\u00farpura (o saldo total de mortes \u00e9 de aproximadamente 80 mil).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intensidade da hecatombe e o sofrimento das v\u00edtimas na primeira cidade foram descritos numa das mais extraordin\u00e1rias reportagens j\u00e1 feitas,&nbsp;<em>Hiroshima<\/em>, do jornalista norte-americano John Hersey, que ocupou de maneira in\u00e9dita todas as p\u00e1ginas editoriais da revista&nbsp;<em>The New Yorker<\/em>&nbsp;em 31 de agosto de 1946. Dois meses depois, a reportagem foi lan\u00e7ada em livro. Os Estados Unidos ainda comemoravam a vit\u00f3ria na Segunda Guerra, mas Hersey n\u00e3o poupou palavras para conduzir os leitores norte-americanos ao epicentro da agonia, por meio das hist\u00f3rias de seis sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Menos citadas, duas outras obras n\u00e3o ficcionais destacam-se na volumosa bibliografia sobre Hiroshima. Nos 75 anos da trag\u00e9dia japonesa, elas chamam a aten\u00e7\u00e3o por suas reflex\u00f5es sobre o respeito aos mortos e a responsabilidade moral que irradiam at\u00e9 a atualidade:&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Hiroshima<\/em>, escrito entre o dia da explos\u00e3o da bomba e 30 de setembro pelo m\u00e9dico e sobrevivente Michihiko Hachiya (que s\u00f3 viria a morrer em 1980, aos 77 anos), e&nbsp;<em>Off Limits f\u00fcr das Gewissen<\/em>&nbsp;(Fora dos limites da consci\u00eancia, 1961),<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/espectros-de-hiroshima\/#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;livro que compila a correspond\u00eancia do fil\u00f3sofo alem\u00e3o (nascido na Pol\u00f4nia) G\u00fcnther Anders com o oficial norte-americano Claude Robert Eatherly, piloto do avi\u00e3o de reconhecimento clim\u00e1tico para o ataque a Hiroshima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O<\/strong> doutor Michihiko Hachiya tinha 42 anos quando a bomba at\u00f4mica foi lan\u00e7ada sobre Hiroshima. Era diretor e m\u00e9dico de um hospital que atendia, principalmente, os funcion\u00e1rios dos correios, r\u00e1dio e tel\u00e9grafo. Ele conta que, no momento da explos\u00e3o, estava \u00e0 janela de sua casa, contemplando o \u201cagrad\u00e1vel contraste\u201d entre as sombras do seu jardim e o brilho das folhagens. De repente, \u201cum brilho intenso\u201d o trouxe \u201cde volta \u00e0 realidade\u201d. O teto de sua casa come\u00e7ou a oscilar, e ele tentou fugir, mas uma chuva de vigas e escombros travou o seu caminho. Finalmente, o m\u00e9dico alcan\u00e7ou o jardim. Foi quando percebeu que estava completamente nu. \u201cOra, mas o que aconteceu com meu pijama?\u201d, perguntou-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A roupa do m\u00e9dico havia sido arrancada pelo vendaval de 1,2 mil km\/h provocado pela explos\u00e3o. O lado direito de seu corpo estava coberto de pequenos cortes e feridas que expeliam sangue. Tomado pela adrenalina da sobreviv\u00eancia, Hachiya retirou, com temer\u00e1ria naturalidade, uma grande lasca de vidro incrustada em seu pesco\u00e7o, como se se tratasse de um pelo encravado. Foi ent\u00e3o que ele se p\u00f4s a gritar por sua mulher: \u201cYaeko-san! Yaeko-san!\u201d Ela apareceu entre as ru\u00ednas da casa, ensanguentada e com as roupas em farrapos. Juntos, os dois seguiram para o Hospital das Comunica\u00e7\u00f5es de Hiroshima, onde Hachiya trabalhava. \u201cEu estava nu, mas n\u00e3o sentia vergonha, e sim constrangimento, ao notar minha falta de pudor\u201d, ele ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O casal transitou por ruas repletas de cad\u00e1veres e escombros \u2013 mais de 67% dos edif\u00edcios de Hiroshima foram destru\u00eddos ou severamente danificados num \u00e1timo. Rostos simplesmente se desfaziam; n\u00e3o poucas vezes, apenas alguns dentes brancos e sobressalentes logravam denunciar que ali houvera uma face. As pessoas moviam-se sem fazer qualquer ru\u00eddo, como se tudo se passasse num filme mudo. S\u00fabito, Hachiya rompeu o sil\u00eancio para pedir a algu\u00e9m algumas pe\u00e7as de roupa. \u201cPor que estavam todos t\u00e3o calados?\u201d, se pergunta Hachiya. Como testemunhas do absurdo, os sobreviventes talvez pressentissem que suas palavras j\u00e1 n\u00e3o pertenciam \u00e0quele mundo p\u00f3s-apocalipt\u00edco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chegar ao hospital, Hachiya logo foi posto em uma maca. Quartos e corredores estavam abarrotados e convulsionados. Assim que p\u00f4de se recuperar, o m\u00e9dico juntou-se \u00e0 sua equipe para cuidar das centenas de feridos. Em 15 de agosto de 1945, Hirohito anunciou a capitula\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o pelo r\u00e1dio. Era a primeira vez que os s\u00faditos ouviam a voz do imperador, e Hachiya revela que uma mescla de espanto, descren\u00e7a e revolta tomou conta de m\u00e9dicos e pacientes. Ao estupor com o ataque, seguiu-se o sentimento de humilha\u00e7\u00e3o com a derrota. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o de Hachiya permaneceu voltada para a tentativa de aplacar a dor, como se a medicina fosse a \u00faltima vereda a lhe oferecer uma tr\u00e9gua (e uma esperan\u00e7a) entre as ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Di\u00e1rio de Hiroshima<\/em>&nbsp;\u00e9 talvez o testemunho mais impressionante de um sobrevivente da explos\u00e3o at\u00f4mica. \u00c9 tamb\u00e9m um not\u00e1vel documento sobre os esfor\u00e7os de um grupo de m\u00e9dicos para salvar pessoas e tentar entender, metodicamente, os efeitos do que ocorrera. As consequ\u00eancias devastadoras da bomba sobre o ser humano eram at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas \u2013 mesmo pelos cientistas norte-americanos que a criaram \u2013, com sua gama de dores e doen\u00e7as totalmente novas. \u201cAp\u00f3s a bomba, pensamos que, com o tratamento correto, o queimado e ferido logo se recuperaria\u201d, escreve o m\u00e9dico, em 19 de agosto. \u201cMas agora n\u00e3o havia d\u00favida de que n\u00e3o seria assim. Aqueles que se recuperavam sem intercorr\u00eancias acabavam apresentando outros sintomas que levavam ao resultado fatal. O fato de tantos pacientes morrerem sem que pud\u00e9ssemos explicar a causa dessas mortes era desesperador.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A contum\u00e1cia da morte, entretanto, n\u00e3o fez com que Hachiya colocasse de lado o respeito pelos mortos: era como se o luto reverencial fosse seu \u00faltimo liame entre a tradi\u00e7\u00e3o vaporizada e o presente em muta\u00e7\u00e3o. O escritor b\u00falgaro Elias Canetti, Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 1981, chama a aten\u00e7\u00e3o para isso no pr\u00f3logo da edi\u00e7\u00e3o espanhola de&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Hiroshima<\/em>: \u201cN\u00e3o temos a impress\u00e3o de que, para ele, os mortos se amalgamam em uma massa na qual j\u00e1 nenhum indiv\u00edduo conta. [\u2026] Cada pessoa tem import\u00e2ncia ante seus olhos, cada pessoa tal como realmente era e como ele a conserva em sua mem\u00f3ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em que pese a excepcionalidade da trag\u00e9dia de Hiroshima e Nagasaki, trata-se de uma li\u00e7\u00e3o perene, e tanto mais relevante quando o desd\u00e9m pelos mortos e sua mem\u00f3ria se faz pol\u00edtica de governo, como aqui e agora.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro teste nuclear dos Estados Unidos foi realizado num deserto do estado do Novo M\u00e9xico apenas tr\u00eas semanas antes do apocalipse no Jap\u00e3o. Dias depois do experimento, o f\u00edsico norte-americano Julius Robert Oppenheimer, diretor do programa de armas at\u00f4micas, o Projeto Manhattan, declarou sobre o momento em que ele e sua equipe depararam com a colossal explos\u00e3o: \u201cN\u00f3s sab\u00edamos que o mundo jamais seria o mesmo. [\u2026] Eu me recordei de um verso da escritura hindu, o\u00a0<em>Bhagavad-G\u012bt\u0101<\/em>, em que Vishnu est\u00e1 tentando persuadir o pr\u00edncipe a cumprir o seu dever e, para impression\u00e1-lo, assume sua forma com m\u00faltiplos bra\u00e7os e diz: \u2018Agora eu sou a Morte, a destruidora de mundos.\u2019 Acho que todos pensamos nisso, de uma maneira ou de outra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida ao ataque de Hiroshima e Nagasaki, Oppenheimer encontrou-se com o presidente Harry Truman, que ordenara as explos\u00f5es. Na reuni\u00e3o, disse, sem meias palavras: \u201cEu tenho sangue nas m\u00e3os.\u201d Mas o presidente n\u00e3o se deixou abalar pelo remorso do f\u00edsico e, com a frieza de quem pisa no pesco\u00e7o da pr\u00f3pria consci\u00eancia com coturnos, ordenou \u00e0 secret\u00e1ria que jamais voltasse a agendar um encontro com Oppenheimer. Em uma entrevista dada em 2018, o neto do presidente, Clifton Truman Daniel, justificou assim a atitude de Truman: \u201cProvavelmente, do ponto de vista de meu av\u00f4, eles estavam travando uma guerra e, em uma guerra, voc\u00ea usa o que precisa para venc\u00ea-la.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O piloto Paul Tibbets Jr., ent\u00e3o general de brigada, recorreu a um argumento correlato e mais expl\u00edcito, em uma entrevista concedida em 1989: \u201cDevo dizer que n\u00f3s n\u00e3o podemos olhar para os aspectos sombrios do que fizemos, porque n\u00e3o h\u00e1 moralidade na guerra, ent\u00e3o eu n\u00e3o fico remoendo as quest\u00f5es morais.\u201d Tibbets batizou com o nome de sua m\u00e3e, Enola Gay, o avi\u00e3o B-29 que assassinou numerosas m\u00e3es e seus filhos, al\u00e9m de condenar incont\u00e1veis mulheres \u00e0 esterilidade. Questionado se tinha arrependimentos, o piloto afirmou: \u201cGaranto-lhe que nunca perdi uma noite de sono com isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m Truman declarou n\u00e3o ter remorsos sobre o que ocorreu. O fil\u00f3sofo G\u00fcnther Anders conta, em&nbsp;<em>Off Limits f\u00fcr das Gewissen<\/em>, que o presidente, durante a festa de seu 75\u00ba anivers\u00e1rio, em 1959, citou um \u00fanico arrependimento: n\u00e3o ter se casado antes dos 30 anos. A anedota aparece na primeira carta que Anders escreveu, em 3 de junho de 1959, a Claude Robert Eatherly, o piloto do avi\u00e3o de reconhecimento clim\u00e1tico. E reaparece na que o fil\u00f3sofo enviou ao presidente John Kennedy, em 13 de janeiro de 1961, acrescida do seguinte coment\u00e1rio: \u201cN\u00e3o passou pela cabe\u00e7a dele [<em>Truman<\/em>] falar de Hiroshima; possivelmente esse evento era grande demais para entrar numa mente t\u00e3o pequena.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com Eatherly foi diferente. Hiroshima nunca mais saiu da mente do piloto. Aclamado como her\u00f3i quando de seu retorno aos Estados Unidos, o major de 26 anos at\u00e9 tentou voltar \u00e0 vida cotidiana. Fez faculdade, saiu das For\u00e7as Armadas e passou a trabalhar como representante comercial. Depois, come\u00e7ou a cometer delitos, como pequenos roubos e estelionatos, para que a Justi\u00e7a, enfim, o livrasse de sua inoc\u00eancia dolosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinco anos depois dos ataques, Truman anunciou o desenvolvimento de uma arma at\u00f4mica ainda mais apocal\u00edptica, a bomba de hidrog\u00eanio. Eatherly, ent\u00e3o, tentou se matar, tomando um sem-n\u00famero de p\u00edlulas para dormir. Quando o her\u00f3i culpado resolveu levar a p\u00fablico a dor que nem de longe era apenas sua, uma junta psiqui\u00e1trica o internou num hospital militar para veteranos traumatizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ali que recebeu a primeira mensagem de Anders, que vivia na \u00c1ustria. A troca de cartas duraria pouco mais de dois anos, at\u00e9 o ponto de se tornarem amigos, apesar da diferen\u00e7a de dezesseis anos de idade entre eles e das suas hist\u00f3rias de vida t\u00e3o d\u00edspares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G<\/strong>\u00fcnther Anders era primo distante de Walter Benjamin e havia sido aluno de Edmund Husserl, seu orientador de doutorado, e Martin Heidegger. Tentou a carreira universit\u00e1ria, sem sucesso, e passou a se dedicar ao jornalismo. Em 1929, casou-se com Hannah Arendt. O casamento durou at\u00e9 1937, quando se divorciaram por procura\u00e7\u00e3o. No ano anterior, Anders havia imigrado para os Estados Unidos; Arendt faria o mesmo em 1941.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo s\u00f3 retornou \u00e0 Europa em 1950, onde deu continuidade \u00e0s suas reflex\u00f5es sobre o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e suas implica\u00e7\u00f5es para a humanidade, como no livro&nbsp;<em>Die Antiquiertheit&nbsp;<\/em><em>des Menschen<\/em>&nbsp;(A obsolesc\u00eancia do ser humano, em dois volumes, publicados em 1956 e 1980). Como corol\u00e1rio de suas ideias, Anders se voltou nas \u00faltimas d\u00e9cadas de sua vida (ele morreu em 1992, com 90 anos) para os impasses da responsabilidade \u00e9tica dos indiv\u00edduos na era at\u00f4mica, quando o sonho de onipot\u00eancia do homem materializado pela t\u00e9cnica abria a possibilidade de extin\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O remorso do ex-piloto chamou a aten\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo, j\u00e1 que Eatherly n\u00e3o apenas se encontrava entre os primeiros a ver e a vivenciar o horror nuclear, mas tamb\u00e9m se reconhecia como parte de um grupo minorit\u00e1rio de pessoas que aceitavam sua responsabilidade na hecatombe. Para Anders, a dor moral provocada pela empatia \u00e0s v\u00edtimas humanizava Eatherly e se contrapunha \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o dos \u201cculpados\u201d na cadeia de destrui\u00e7\u00e3o, que, por ser constitu\u00edda do trabalho fragmentado de uns e outros, isentava cada indiv\u00edduo de responsabilidade final na destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a. \u201cS\u00f3 os anormais n\u00e3o se comportam de forma anormal em situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o normais\u201d, escreveu, em 18 de outubro de 1959, o fil\u00f3sofo, que fez o que p\u00f4de para tirar o piloto do hospital psiqui\u00e1trico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eatherly entende bem o seu papel. Em 12 de junho de 1959, ele escreve a Anders: \u201cNo passado, foi poss\u00edvel aos homens levar a vida sem que tivessem que postular tantas quest\u00f5es sobre a forma como eles estavam acostumados a pensar e a agir \u2013 mas agora est\u00e1 razoavelmente claro que em nossa \u00e9poca j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim. A meu ver, estamos nos aproximando rapidamente de uma situa\u00e7\u00e3o em que nos sentiremos compelidos a reexaminar nossa disposi\u00e7\u00e3o em delegar a responsabilidade por nossos pensamentos e a\u00e7\u00f5es a algumas institui\u00e7\u00f5es sociais, tais como partidos pol\u00edticos, sindicatos, igrejas e o Estado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A responsabilidade moral de Claude Eatherly e a dignidade de Michihiko Hachiya em face da mem\u00f3ria de vivos e mortos s\u00e3o, ainda hoje, poderosas barricadas contra a banaliza\u00e7\u00e3o da dor e do assass\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/espectros-de-hiroshima\/#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;A correspond\u00eancia entre Anders e Eatherly foi publicada no mesmo ano na Inglaterra e em 1962 nos Estados Unidos, com o t\u00edtulo&nbsp;<em>Burning Conscience&nbsp;<\/em>(Consci\u00eancia em chamas), edi\u00e7\u00e3o que serviu de refer\u00eancia a este texto. O di\u00e1rio de Hachiya foi lan\u00e7ado em livro em 1955 nos Estados Unidos, com o t\u00edtulo&nbsp;<em>Hiroshima Diary: The Journal of a Japanese Physician<\/em>. No Brasil, a EdiPUCRS publicou uma tradu\u00e7\u00e3o em 2009, que se encontra esgotada. Aqui, nos valemos da tradu\u00e7\u00e3o em espanhol lan\u00e7ada em 2006 pelo Circulo de Lectores, de Barcelona.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/colaborador\/flavio-ricardo-vassoler\/\">FL\u00c1VIO RICARDO VASSOLER<\/a><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 escritor, doutor em letras pela USP, com p\u00f3s-doutorado em literatura russa pela Northwestern University<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O respeito pelos mortos e o valor da responsabilidade em dois livros sobre o apocalipse ocorrido no Jap\u00e3o h\u00e1 75 anos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[392],"class_list":["post-29422","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-hiroshima"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7Ey","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29422"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29424,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29422\/revisions\/29424"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}