{"id":29627,"date":"2020-08-27T10:47:07","date_gmt":"2020-08-27T14:47:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=29627"},"modified":"2020-08-27T10:47:15","modified_gmt":"2020-08-27T14:47:15","slug":"dialogos-urgentes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/27\/dialogos-urgentes\/","title":{"rendered":"DI\u00c1LOGOS URGENTES"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" data-attachment-id=\"29628\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/27\/dialogos-urgentes\/image-37-9\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?fit=1200%2C800\" data-orig-size=\"1200,800\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-37\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?fit=600%2C400\" alt=\"\" class=\"wp-image-29628\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?resize=1024%2C683 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?resize=768%2C512 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/image-37.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Para livrar o Brasil da barb\u00e1rie, direita e esquerda precisam conversar e, juntas, ir ao encontro dos eleitores n\u00e3o fan\u00e1ticos de Bolsonaro&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Revista Piau\u00ed, <strong>RENATO JANINE RIBEIRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca tivemos um governo t\u00e3o inepto no Brasil. Pastas essenciais, como Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Meio Ambiente e Direitos Humanos foram confiadas a pessoas incompetentes. Mesmo o ministro da Economia n\u00e3o sabia como era votado o or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Mais: \u00e9 um governo\u00a0<em>contra a vida<\/em>. Deixa morrer um brasileiro de Covid-19 por minuto porque n\u00e3o combate direito a pandemia. Em vez disso, sabotou o pr\u00f3prio ministro da Sa\u00fade e tem hostilizado os que lutam para conter o avan\u00e7o do v\u00edrus.\u00a0<em>Que um fraco rei faz fraca a forte gente<\/em>, dizia Cam\u00f5es. Tolerar um governo assim avilta os brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixo para outra oportunidade a discuss\u00e3o sobre o que levou uma maioria de eleitores a escolher tal caminho. Hoje, a quest\u00e3o priorit\u00e1ria \u00e9 saber que possibilidades h\u00e1 de escapar dessa rota que colocou o Brasil na vanguarda da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Jair Bolsonaro, pesquisas indicaram que, descontados os eleitores de ocasi\u00e3o, os apoiadores do presidente seriam de fato cerca de 30% dos brasileiros. Por\u00e9m, o cientista social Reginaldo Prandi, ao analisar, em artigo publicado na&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>, uma pesquisa do Datafolha feita em 23 e 24 de junho deste ano, calculou que o \u201cgrupo de adeptos fi\u00e9is, entusiastas fan\u00e1ticos, adoradores em qualquer situa\u00e7\u00e3o\u201d do presidente n\u00e3o representaria mais que metade desses eleitores. \u00c9 o \u201cn\u00facleo duro\u201d de Bolsonaro, formado por seguidores radicais, os mesmos que v\u00e3o \u00e0s ruas para defend\u00ea-lo sempre que necess\u00e1rio e que o presidente costuma confundir com o conjunto do povo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a outra metade dos 30% \u00e9 formada por apoiadores n\u00e3o t\u00e3o aguerridos, resta na verdade apenas uma pequena propor\u00e7\u00e3o de extremistas, imperme\u00e1veis a quaisquer argumentos, pois avessos aos princ\u00edpios da democracia e, tamb\u00e9m, ao conhecimento cient\u00edfico. A estes \u00faltimos, n\u00f3s que almejamos um futuro melhor para o pa\u00eds n\u00e3o temos talvez o que dizer \u2013 n\u00e3o agora. Mas aos que formam a outra metade, temos, sim. Talvez valha a pena reconquist\u00e1-los para a democracia. O que me leva a duas quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira \u00e9 saber como estabelecer um di\u00e1logo do campo democr\u00e1tico com a metade dos bolsonaristas n\u00e3o radicais, reunindo-os a uma frente ampla de oposi\u00e7\u00e3o ao governo. A outra quest\u00e3o \u00e9 saber se existe, realmente, alguma disposi\u00e7\u00e3o da parte dos que rejeitam Bolsonaro a formar uma frente oposicionista, o que implicaria, necessariamente, estabelecer um di\u00e1logo entre a esquerda e a direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C<\/strong>ome\u00e7o com a segunda quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia se consolidou na Fran\u00e7a justamente entre os anos 1870 e 1880, quando se alternaram no poder a centro-direita e a centro-esquerda. Foi o in\u00edcio do per\u00edodo chamado de Terceira Rep\u00fablica, durante o qual a competi\u00e7\u00e3o entre os dois campos pol\u00edticos propiciou a implanta\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o universal, consolidou a laicidade do Estado e promoveu a inclus\u00e3o das classes trabalhadoras \u00e0 sociedade. O Brasil teve algo parecido no per\u00edodo entre 1992 e 2016, ou seja, de Itamar Franco a Dilma Rousseff. Foi um tempo \u00e1ureo para o pa\u00eds, em termos de consolida\u00e7\u00e3o da democracia, de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e desenvolvimento social. At\u00e9 que tudo degringolasse, a confronta\u00e7\u00e3o de dois partidos, o PSDB (de centro-direita) e o PT (de centro-esquerda) n\u00e3o impediu a altern\u00e2ncia no poder nem a (aparente) consolida\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. Pois PT e PSDB eram \u2013 e s\u00e3o \u2013 mais que dois partidos: representam duas sensibilidades pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio entre essas duas sensibilidades come\u00e7ou a aparecer j\u00e1 no primeiro governo Lula. At\u00e9 hoje, um partido culpa o outro por esse \u00f3dio, sem que entendamos ao certo o que causou a animosidade mutuamente compartilhada. Sabemos que a intensidade da repulsa aumentou a cada elei\u00e7\u00e3o, a tal ponto que o pleito de 2014, quando Dilma foi reeleita, transformou-se num dos mais agressivos da nossa hist\u00f3ria democr\u00e1tica, com atitudes reprov\u00e1veis da parte dos principais candidatos, exceto de Marina Silva. O \u00f3dio entre os dois partidos acabou levando \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o de Dilma \u2013 para alguns, um impeachment; para outros, um golpe. \u00c9 a ferida que n\u00e3o cicatriza.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio extravasou o Parlamento e foi al\u00e9m do confronto PT-PSDB, espalhando-se entre uma parcela significativa dos eleitores, que passaram a ofender pol\u00edticos, partidos e, por fim, todo o sistema representativo, acossado tamb\u00e9m por sucessivas acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o. Foi o combust\u00edvel ideal para o aparecimento de um&nbsp;<em>outsider<\/em>, um pol\u00edtico que se dizia antissistema, mas que nele (e dele) sobrevivia h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas, como obscuro deputado.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro nunca alcan\u00e7ou grande express\u00e3o pol\u00edtica e, tendo sido eleito presidente por for\u00e7a do \u00f3dio, \u00e9 do \u00f3dio que ele se nutre. Sua for\u00e7a vem da\u00ed \u2013 e n\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o parlamentar (cujo apoio ele tenta agora, pela primeira vez, congregar). O presidente depende da neutraliza\u00e7\u00e3o rec\u00edproca promovida por esses dois grandes protagonistas da pol\u00edtica (o PT e o PSDB), por essas duas sensibilidades (a de centro-esquerda e a de direita, pois a centro-direita particularmente sumiu), para que possa se colocar no meio da arena. Bolsonaro e sua turma s\u00e3o fracos, mas tiram sua for\u00e7a do esvaziamento da pol\u00edtica produzido pelo \u00f3dio que se disseminou e, por sinal, levou a antiga centro-direita a se tornar, apenas e simplesmente, uma direita, flertando sem pudor, na elei\u00e7\u00e3o de 2018, com a extrema direita (como esquecer o slogan \u201cBolsodoria\u201d, por exemplo?).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o lembra a que Karl Marx descreve em&nbsp;<em>O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em>, sobre o impasse na Fran\u00e7a nos anos finais da brev\u00edssima Segunda Rep\u00fablica: era tal o \u00f3dio entre as duas alas monarquistas, e tamb\u00e9m entre elas e os poucos republicanos de ent\u00e3o, que um presidente de escasso apoio parlamentar e pol\u00edtico, Charles-Louis Napole\u00f3n Bonaparte, conseguiu dar um golpe de Estado que o transformou no imperador Napole\u00e3o III. N\u00e3o que ele fosse forte: sua for\u00e7a vinha do empate pol\u00edtico a que estavam reduzidos os seus poss\u00edveis opositores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso notar que, depois do furac\u00e3o que passou pelo pa\u00eds entre 2015 e 2018, sobrou de fato apenas uma legenda pol\u00edtica de maior express\u00e3o \u2013 o PT. O partido elegeu 56 deputados, a maior bancada na C\u00e2mara em 2018, embora n\u00e3o chegasse a 11% do total de membros da Casa (o PSL elegeu n\u00famero ligeiramente inferior, mas n\u00e3o tem personalidade pr\u00f3pria, tanto assim que seu puxador de votos, o presidente Bolsonaro, se desligou dele). Toda a centro-esquerda reunida, por\u00e9m, n\u00e3o chega a 140 cadeiras, menos que o necess\u00e1rio para pedir uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito. Na mesma elei\u00e7\u00e3o, dois partidos importantes do per\u00edodo democr\u00e1tico, o DEM e o PSDB, despencaram, fazendo 29 parlamentares cada um (5,6% dos deputados), empatados na nona posi\u00e7\u00e3o na ordem das bancadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O PT tem l\u00edder, programa e unidade, atributos que o DEM e o PSDB j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam. O DEM conta com dois ministros e a presid\u00eancia das duas Casas do Congresso, mas h\u00e1 uma boa dist\u00e2ncia entre Rodrigo Maia, o presidente da C\u00e2mara, e os outros tr\u00eas nomes de seu partido no minist\u00e9rio e no Senado. J\u00e1 o PSDB, embora governe tr\u00eas estados importantes \u2013 S\u00e3o Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul \u2013, deixou bem para tr\u00e1s a sua hist\u00f3ria, enquanto se calavam os seus l\u00edderes, como Jos\u00e9 Serra, Geraldo Alckmin, A\u00e9cio Neves \u2013 todos eles alvos de inqu\u00e9ritos \u2013 e Fernando Henrique Cardoso, que n\u00e3o quis aproveitar a oportunidade para ser o l\u00edder de uma oposi\u00e7\u00e3o moderada, mas firme, a Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma palavra sobre FHC: sua fa\u00e7anha hist\u00f3rica foi convencer a direita de que ela podia ganhar elei\u00e7\u00f5es dentro das regras democr\u00e1ticas e sem recorrer a demagogos (como aconteceu, no passado, com J\u00e2nio Quadros e Fernando Collor de Mello e, agora, repetiu-se com Bolsonaro). Talvez o ex-presidente tucano sinta que essa proeza n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. Seu partido hoje \u00e9 liderado pelo governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria, que rejeita qualquer proposta social-democrata num partido que (ainda) conserva a social-democracia no nome. O motivo por que FHC n\u00e3o se anima a virar a mesa \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto. Seria uma grande oportunidade hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora o PT, nenhuma das dez agremia\u00e7\u00f5es mais votadas para a C\u00e2mara se porta como um partido. Por isso, prefiro falar n\u00e3o em disputas entre partidos, mas em&nbsp;<em>sensibilidades&nbsp;<\/em>em conflito, sendo uma de centro-esquerda e outra que vai da centro-direita \u00e0 direita (mas que n\u00e3o se confunde, hoje, com a extrema direita de Bolsonaro). A sensibilidade de centro-esquerda n\u00e3o inclui apenas o PT, mas ainda o PDT de Ciro Gomes, o PSB (talvez com a exce\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo), a Rede e os verdes. E a sensibilidade de direita, exclu\u00eddo o bra\u00e7o extremista, n\u00e3o concerne somente o PSDB, mas tamb\u00e9m parte do PSB, do MDB e muitos pol\u00edticos do Centr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ferida entre as duas sensibilidades, herdeiras de dois grandes partidos, n\u00e3o cicatriza porque continuam os conflitos, continua o \u00f3dio. As acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas n\u00e3o cessam, desde a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma. Reaproximar os inimigos diletos \u00e9 tarefa bastante dif\u00edcil. Cada um teme ser manipulado. Os conservadores temem ajudar no reerguimento do PT porque detestam seu programa e acreditam que o partido tentar\u00e1 fazer do Brasil uma Venezuela. \u00c9 pura imagina\u00e7\u00e3o, mas a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma faculdade poderosa. Os progressistas, por sua vez, n\u00e3o querem ser usados para viabilizar um bolsonarismo sem Bolsonaro, como um governo Sergio Moro, ou coisa similar. Some-se ainda o fato de que, caso um movimento de agrega\u00e7\u00e3o das distintas sensibilidades contra Bolsonaro conquistasse parte dos eleitores do presidente, eles provavelmente n\u00e3o iriam para o PT, que odeiam, mas para partidos de direita: raz\u00e3o a mais para os progressistas n\u00e3o quererem fazer o jogo de quem dep\u00f4s Dilma e prendeu Lula, pois assim fortaleceriam seus opositores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre, por\u00e9m, que a aproxima\u00e7\u00e3o entre as duas sensibilidades \u00e9 agora um dever republicano, um ato de defesa da civiliza\u00e7\u00e3o e da vida. Bolsonaro se elegeu n\u00e3o tanto por causa do antipetismo, como alguns conservadores afirmam, mas de um sentimento de&nbsp;<em>avers\u00e3o a todo o sistema pol\u00edtico<\/em>, que contagiou grande parte dos eleitores nos \u00faltimos anos e lan\u00e7ou no mesmo saco PT e PSDB, ambos acusados dos v\u00edcios da \u201cvelha pol\u00edtica\u201d. O perigo, quando esses dois partidos tentaram se destruir, foi que muita gente acabou dizendo: \u201cOs dois t\u00eam raz\u00e3o.\u201d E os pr\u00f3prios partidos se viram, por fim, amea\u00e7ados e condenados \u2013 junto com o que restava de civilidade no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Se conseguirmos iniciar um di\u00e1logo entre essas duas sensibilidades \u2013 n\u00e3o necessariamente passando por l\u00edderes partid\u00e1rios, porque, como eu disse, de partido mesmo s\u00f3 restou o PT \u2013, isso criar\u00e1 um fato pol\u00edtico de enorme impacto. Ser\u00e1 o primeiro sinal de que o rancor, esse mau conselheiro, deixou a cena pol\u00edtica, dando lugar ao di\u00e1logo democr\u00e1tico. Para os brasileiros desalentados com a pol\u00edtica e com os destinos do pa\u00eds, ser\u00e1 uma demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da volta da democracia, da disposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas a se renovar e superar as disputas do passado em prol de um tempo novo e melhor para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de estabelecer esse di\u00e1logo, precisar\u00edamos baixar as armas. N\u00e3o temos de abrir m\u00e3o das cr\u00edticas, mas devemos distinguir o advers\u00e1rio pol\u00edtico e o inimigo da pr\u00f3pria pol\u00edtica. Ser\u00e1 necess\u00e1rio criar um espa\u00e7o comum, cujo primeiro terreno a lavrar, agora, \u00e9 justamente o da vida. A ideologia tem pouca utilidade quando h\u00e1 centenas de pessoas morrendo diariamente no pa\u00eds. \u00c9 isso o que conta, acima das disputas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um passo incipiente, mas importante \u2013 apesar de seus efeitos mais simb\u00f3licos que pr\u00e1ticos \u2013 foram as recentes reuni\u00f5es de ex-ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, da Educa\u00e7\u00e3o (de que participei), da Cultura, da Sa\u00fade, do Meio Ambiente, pessoas que atuaram em governos e partidos que se digladiaram no passado recente, mas se uniram agora para protestar contra a destrui\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas. Pontos em comum devem ser retomados: a melhoria do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, priorit\u00e1ria ante a pandemia; a defesa da natureza, essencial tanto do ponto de vista \u00e9tico quanto econ\u00f4mico, porque perdemos mercados com a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia; a luta contra a pobreza e a mis\u00e9ria \u2013 temas que foram destaque em todos os governos, de Itamar Franco a Dilma Rousseff.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica p\u00fablica pode unificar os discursos e, neste campo, j\u00e1 tivemos resultados pr\u00e1ticos, como demonstrou a aprova\u00e7\u00e3o quase un\u00e2nime do Fundeb (Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e de Valoriza\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o) na C\u00e2mara. Tucanos e petistas convergiram a esse respeito durante os governos do PT, apesar das diverg\u00eancias, que eram pequenas \u2013 a diferen\u00e7a maior ocorria em rela\u00e7\u00e3o ao ensino superior, que o PT preferia p\u00fablico e o PSDB, privado. Entretanto, argumentos que soam \u00e9ticos aos ouvidos da esquerda nem sempre persuadem os conservadores. Talvez fosse preciso um segundo argumento, mais pragm\u00e1tico, para convenc\u00ea-los a respeito da necessidade da educa\u00e7\u00e3o: o pa\u00eds joga fora talentos. Uma boa educa\u00e7\u00e3o multiplicaria por tr\u00eas o nosso modesto PIB.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil sobreviver\u00e1 a mais dois anos dessa loucura que \u00e9 o governo Bolsonaro? Podemos discutir se h\u00e1 m\u00e9todo ou n\u00e3o nela, mas que \u00e9 loucura, isso \u00e9. O pa\u00eds est\u00e1 se liquefazendo. Um meio de conter essa devasta\u00e7\u00e3o passa pela conversa entre as duas sensibilidades e a formula\u00e7\u00e3o, em conjunto, de um programa para enfrentar todos os desafios colocados pela pandemia, com novas medidas para o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza e, antes de mais nada, para a defesa da vida. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o conjunta permitiria, inclusive, que parte da direita reconstru\u00edsse o campo hoje inexistente da centro-direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S<\/strong>er\u00e1 poss\u00edvel produzir um di\u00e1logo dos que chamarei de democratas com os bolsonaristas n\u00e3o radicais, aqueles 15% que n\u00e3o veem o presidente como um guru infal\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua coluna no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, o jornalista Asc\u00e2nio Seleme publicou um texto de t\u00edtulo provocativo: \u201c\u00c9 hora de perdoar o PT.\u201d Os petistas em geral odiaram o texto \u2013 e o t\u00edtulo. Por que teriam eles que ser perdoados, se seu governo sofreu o que chamam de um golpe jur\u00eddico-parlamentar? Ora, um artigo com esse t\u00edtulo n\u00e3o se dirige a petistas, mas a antipetistas. A quest\u00e3o colocada por Seleme poderia ser formulada assim: \u201cVoc\u00eas, que ajudaram a eleger Bolsonaro por terem \u00f3dio ao PT, querem continuar alimentando esse governo e a destrui\u00e7\u00e3o do Brasil ou est\u00e3o dispostos a rever sua posi\u00e7\u00e3o e buscar algum tipo de aproxima\u00e7\u00e3o para enfrentar o mal maior?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma fra\u00e7\u00e3o importante da direita n\u00e3o fascista, que por\u00e9m nutriu o bolsonarismo e\/ou votou em Bolsonaro, cobra sem cessar uma autocr\u00edtica do PT \u2013 que poderia ser feita, mas certamente n\u00e3o da maneira como deseja a direita. Mas n\u00e3o estaria tamb\u00e9m na hora de a pr\u00f3pria direita fazer sua autocr\u00edtica? Afinal, ao apoiar a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma por raz\u00f5es dif\u00edceis de entender, ela abriu uma caixa de Pandora que acabou devorando os pr\u00f3prios estimuladores n\u00e3o extremistas do impeachment e, al\u00e9m disso, tornou dif\u00edcil usar o mesmo instrumento de destitui\u00e7\u00e3o contra um presidente que, esse sim, cometeu, segundo juristas, v\u00e1rios atos que o fazem merecer o afastamento do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa, agora, n\u00e3o \u00e9 propriamente eleitoral, mas entre vida e morte. Quantas vidas se foram s\u00f3 porque o governo federal detonou os esfor\u00e7os racionais de pol\u00edticos, inclusive conservadores, como Doria e o ex-ministro da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta, ambos apoiadores do presidente nas elei\u00e7\u00f5es de 2018? Quantas pessoas ainda morrer\u00e3o, seja porque Bolsonaro ataca precau\u00e7\u00f5es elementares contra a Covid-19, como o uso da m\u00e1scara e a quarentena, seja porque popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, como os ind\u00edgenas, n\u00e3o receberam a prote\u00e7\u00e3o devida?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave n\u00e3o deveria levar as for\u00e7as democr\u00e1ticas a iniciar um di\u00e1logo com as pessoas que, n\u00e3o sendo extremistas, ainda apoiam Bolsonaro?<\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga Esther Solano e a cientista pol\u00edtica Camila Rocha ouviram 27 bolsonaristas das classes C e D, e deduziram que eles se dividem hoje em tr\u00eas grupos: os apoiadores fi\u00e9is, os apoiadores cr\u00edticos e os arrependidos. As pesquisadoras indicaram as principais cr\u00edticas dos entrevistados bolsonaristas a Bolsonaro, como a postura negacionista do presidente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Covid-19, a sua falta de empatia com os infectados e os mortos, a falta de foco nas quest\u00f5es essenciais de governo, a viol\u00eancia ret\u00f3rica e a atua\u00e7\u00e3o de seus filhos. Por outro lado, esses seguidores endossam as medidas econ\u00f4micas adotadas pelo governo durante a pandemia, acham que a gest\u00e3o de Doria faz politicagem com a doen\u00e7a e permanecem decepcionados com o sistema pol\u00edtico como um todo. \u201cAcreditamos que um dos maiores desafios para o campo democr\u00e1tico ser\u00e1 se apresentar como uma alternativa vi\u00e1vel para contemplar aqueles que se sentem politicamente \u00f3rf\u00e3os\u201d, afirmam as pesquisadoras, em artigo publicado na&nbsp;<em>Folha de S. Paulo<\/em>. \u201cDialogar com esse setor da popula\u00e7\u00e3o pode ser dif\u00edcil, mas, certamente, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi justamente essa quest\u00e3o \u2013 saber se \u00e9 poss\u00edvel dialogar com uma faixa de bolsonaristas \u2013 que formulei em minha p\u00e1gina no Facebook no dia 8 de julho. Recebi algumas sugest\u00f5es de meus interlocutores.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve consenso de que n\u00e3o \u00e9 \u00fatil culpar e atacar os eleitores de Bolsonaro. Seria melhor dialogar de verdade e \u201cn\u00e3o bater de frente\u201d, como disse algu\u00e9m, pois do contr\u00e1rio eles tendem a ficar na defensiva. \u201cTemos que gerar empatia\u201d, afirmou um amigo, que faz quest\u00e3o de manter eleitores de Bolsonaro entre seus interlocutores no Facebook e de curtir seus coment\u00e1rios de bom senso, para favorecer a rec\u00edproca. \u201cN\u00e3o partir do pressuposto de que o outro [<em>o eleitor de Bolsonaro<\/em>] \u00e9 hipodotado\u201d, defendeu outro amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas bandeiras caras aos bolsonaristas emergiram no debate na rede social: a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o e o patriotismo. Alguns de meus interlocutores pensam, como eu, que as esquerdas deveriam assumir \u2013 tal como j\u00e1 fizeram no passado recente \u2013 como leg\u00edtimo o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00fatil ao aprimoramento da atividade pol\u00edtica. Valeria indicar aos seguidores do presidente que essa luta ainda est\u00e1 longe de ter resultados efetivos no pa\u00eds, haja vista as suspeitas que pairam no c\u00edrculo do pr\u00f3prio governo e de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos meus interlocutores tamb\u00e9m n\u00e3o veem como nefasto o patriotismo, se n\u00e3o estiver acompanhado da xenofobia e de outros preconceitos, como o que ocorre a alguns em Bras\u00edlia, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China. Tanto mais que o patriotismo parece ser um sentimento apenas de fachada para Bolsonaro, que prometeu entregar o Centro de Lan\u00e7amento de Alc\u00e2ntara, no Maranh\u00e3o, aos Estados Unidos \u2013 o que valeria recordar aos patriotas bolsonaristas. (Os patriotas de fachada se denunciam quando carregam com orgulho e empenho as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel em suas manifesta\u00e7\u00f5es.)<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa da vida, por si s\u00f3, deveria ser um argumento suficiente \u00e0s pessoas civilizadas. Mas h\u00e1 outros, relacionados \u00e0s quest\u00f5es de compet\u00eancia e m\u00e9rito, temas t\u00e3o caros \u00e0 direita (penso, ali\u00e1s, que parte da esquerda erra ao n\u00e3o dar o devido peso \u00e0 quest\u00e3o do m\u00e9rito). Pois a gest\u00e3o do governo para controlar a pandemia \u00e9 um exemplo de incompet\u00eancia administrativa. Uma quarentena mais dura e organizada, logo no in\u00edcio dos cont\u00e1gios, certamente teria permitido que a economia ressurgisse mais cedo \u2013 sem precisar sacrificar os pequenos empres\u00e1rios, como prop\u00f4s o ministro Paulo Guedes na fat\u00eddica reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril. O descaso com o meio ambiente tamb\u00e9m \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de incompet\u00eancia, com efeitos devastadores sobre a economia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se desfaz uma laboriosa constru\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e da desraz\u00e3o num dia s\u00f3. O campo democr\u00e1tico tende a achar que todos os seguidores de Bolsonaro s\u00e3o fascistas ou idiotas. Mas n\u00e3o \u00e9 bem o que ocorre. O arrependimento \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de dignidade. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ignorar que, provavelmente, grande parte das pessoas se importa pouco com a pol\u00edtica, que n\u00e3o \u00e9 prioridade para elas. A despolitiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um s\u00e9rio problema, pois fragiliza uma sociedade \u2013 mas pode ter, nas circunst\u00e2ncias atuais, um aspecto positivo: talvez muitos indiv\u00edduos, mais do que se imagina, estejam dispostos a escutar os argumentos da democracia, sem tantos preconceitos. Talvez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para livrar o Brasil da barb\u00e1rie, direita e esquerda precisam conversar e, juntas, ir ao encontro dos eleitores n\u00e3o fan\u00e1ticos de Bolsonaro&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-29627","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7HR","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29627"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29627\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29629,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29627\/revisions\/29629"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}