{"id":29661,"date":"2020-08-31T08:41:29","date_gmt":"2020-08-31T12:41:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=29661"},"modified":"2020-08-31T08:41:32","modified_gmt":"2020-08-31T12:41:32","slug":"milao-miro-ubusonaro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/31\/milao-miro-ubusonaro\/","title":{"rendered":"Mil\u00e3o, Mir\u00f3, Ubusonaro"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"470\" height=\"551\" data-attachment-id=\"29662\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/31\/milao-miro-ubusonaro\/d5df292b-bf8c-464e-87f8-744704f55ecf\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?fit=470%2C551\" data-orig-size=\"470,551\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?fit=256%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?fit=470%2C551\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?resize=470%2C551\" alt=\"\" class=\"wp-image-29662\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?w=470 470w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/D5DF292B-BF8C-464E-87F8-744704F55ECF.jpeg?resize=256%2C300 256w\" sizes=\"auto, (max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Gislaine Marins, de Roma <\/strong>&#8211; No \u00faltimo Natal, a Mil\u00e3o fria, chuvosa e \u00e0s vezes coberta por uma leve camada de neve deu lugar a uma primavera espantosa, solar: vinte e um graus nos momentos mais quentes do dia e o convite para estar na rua, curtindo a pista de gelo artificial e as \u00e1rvores natal\u00edcias tecnol\u00f3gicas, que tanto destoam da tradi\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo fascinam a velha It\u00e1lia das ru\u00ednas monumentais.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Ir para Mil\u00e3o \u00e9 como sair&nbsp;do pa\u00eds, permanecendo profundamente italiano. O novo conserva algo arcaico, que explode na boca dos seus artistas mais genu\u00ednos e, por&nbsp;isso mesmo, universais: de Manzoni a Dario Fo, h\u00e1 uma galeria humana&nbsp;narrada e encenada,&nbsp;que nos amedronta e \u00e0s vezes nos faz rir diante da nossa impot\u00eancia&nbsp;para&nbsp;evitar que o mal se instale nos melhores lugares da sociedade, exercendo o poder de forma brutal, incontrol\u00e1vel como as nossas entranhas.&nbsp;Estava caminhando sem rumo&nbsp;pelo centro de Mil\u00e3o,&nbsp;buscando me&nbsp;perder naquela geografia plana t\u00e3o diferente de Roma, quando me deparei com Mir\u00f3 e a sua&nbsp;amea\u00e7adoraescultura da&nbsp;M\u00e3e Ubu, para que nunca esque\u00e7amos o horror das tiranias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como opositor do regime de Franco, a figura de Ubu \u00e9 recorrente na obra do artista. Mir\u00f3 chegou a fazer uma trilogia dedicada \u00e0 personagem criada por Alfred Jarry, percursor do teatro do absurdo. Contudo,&nbsp;o momento mais dram\u00e1tico dessa rela\u00e7\u00e3o&nbsp;de Mir\u00f3&nbsp;com Ubu&nbsp;se d\u00e1 com a&nbsp;realiza\u00e7\u00e3o&nbsp;de um espet\u00e1culo completo, no \u00e2mbito de uma encena\u00e7\u00e3o experimental,&nbsp;denominado&nbsp;Mor\u00ed el Merma,&nbsp;no qual o artista recria&nbsp;Ubu rei \u00e0 luz da morte de&nbsp;Francisco&nbsp;Franco. Durante cerca de quarenta anos a monstruosidade da&nbsp;ditadura&nbsp;acompanhara a obra e as obsess\u00f5es de Mir\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mir\u00f3 n\u00e3o foi o \u00fanico a ser capturado pela figura grotesca do ditador ignorante, grosseiro, covarde, inescrupuloso&nbsp;e arrogante. Sempre atual \u2013 porque o horror nunca passa \u2013, Ubu pode apenas ser esquecido por alguns momentos, quando somos iludidos por uma primavera inesperada, por um instante de felicidade, por uma alegria inexplic\u00e1vel de viver, e deixamos armazenados no subconsciente os nossos temores e a certeza de&nbsp;que o mal voltar\u00e1 a&nbsp;emergir. Se para Mir\u00f3 Ubu foi Franco, na vers\u00e3o original era&nbsp;o antigo rei de Arag\u00e3o, capit\u00e3o de Drag\u00f5es e oficial da confian\u00e7a de Venceslau,&nbsp;o&nbsp;soberano da Pol\u00f4nia que ser\u00e1 assassinado por ele, em sua escalada frustrada para&nbsp;deter o poder. No entanto, Ubu recebeu encena\u00e7\u00f5es como Ubush, e foi objeto de um mon\u00f3logo no qual Dario Fo aproxima-o da figura de Belusconi.&nbsp;Em 2017,&nbsp;foi associado a&nbsp;Trump, numa encena\u00e7\u00e3o&nbsp;portuguesa. Em Portugal, Ubu j\u00e1 tinha sido tamb\u00e9m uma alus\u00e3o a Salazar. O original, por sua vez, faz eco \u00e0 trag\u00e9dia de Shakespeare, Macbeth, na qual a ambiciosa esposa, como M\u00e3e Ubu, sugere que o marido assassine o rei e usurpe a&nbsp;sua&nbsp;coroa.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas evoca\u00e7\u00f5es mostram que&nbsp;a&nbsp;arte \u00e9 capaz de interromper o nosso isolamento e de sugerir viagens imposs\u00edveis. Posso voltar ao tempo que n\u00e3o vivi, aos lugares que visitei e que agora n\u00e3o posso rever, \u00e0s lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, quando pela primeira vez&nbsp;fiquei hipnotizada por uma imagem ligada ao futebol: era o logo da Copa de Mundo de 1982,&nbsp;criado&nbsp;por Mir\u00f3, que eu n\u00e3o sabia quem era. Sabia e acompanhei, minuto a minuto,&nbsp;a nossa derrota triunfal, com o&nbsp;melhor&nbsp;time&nbsp;de todos os tempos, para a It\u00e1lia, que at\u00e9 hoje recorda&nbsp;a fa\u00e7anha sobre a nossa sele\u00e7\u00e3o e o t\u00edtulo mundial alcan\u00e7ado em terra espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 mais tarde descobri o artista catal\u00e3o e a sua arte surrealista que, diante de uma realidade cada vez mais absurda, adquire contornos de engajamento insuspeit\u00e1veis&nbsp;\u00e0 primeira vista. Mir\u00f3, como todo grande artista, \u00e9 insepar\u00e1vel das suas obras. Fazia emergir as cores do subconsciente e&nbsp;das entranhas,&nbsp;refutava a representa\u00e7\u00e3o expl\u00edcita&nbsp;da realidade, que n\u00e3o podia ser apenas exterior. Para entender os la\u00e7os entre as obras de Mir\u00f3 e o per\u00edodo de opress\u00e3o que o seu pa\u00eds e o mundo atravessaram ao longo do&nbsp;s\u00e9culo vinte, \u00e9 necess\u00e1rio deixar-se envolver pelas sugest\u00f5es on\u00edricas do seu trabalho, que&nbsp;apresentam um&nbsp;lado fragmentado, em estado bruto e primordial, da experi\u00eancia vivida. Contemplar a sua obra \u00e9 uma oportunidade para ver as cores e as formas esperneando contra&nbsp;um mundo de domina\u00e7\u00e3o, censura,&nbsp;controle. A arte \u00e9 o espa\u00e7o da liberdade e um campo de batalha onde podemos&nbsp;desafiaros nossos ubus, independentemente&nbsp;do nome que tenham, independentemente do ubusonaro que sejam.&nbsp;A arte \u00e9 tamb\u00e9m um aviso: morto um rei, um novo ubu \u00e9 coroado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A arte \u00e9 infinita, porque o mal nunca acaba. A arte \u00e9 humana porque n\u00e3o cansamos de transformar o viver em pataf\u00edsica, que o autor de Ubu rei definia como a ci\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. Para todo mal que se abate sobre o mundo, a arte \u00e9 a capacidade humana de resistir com criatividade, com a for\u00e7a inaugural das coisas que ainda n\u00e3o foram pensadas,&nbsp;com a coragem dos sistemas desarticulados e imperme\u00e1veis \u00e0s l\u00f3gicas&nbsp;que organizam e aprisionam.&nbsp;Em breve enfrentaremos&nbsp;uma nova&nbsp;onda&nbsp;de&nbsp;doen\u00e7a, crise&nbsp;econ\u00f4mica e&nbsp;mudan\u00e7as&nbsp;pol\u00edticas.&nbsp;Ubus de todas as latitudes promovem cenas grotescas. O clima tornou-se incontrol\u00e1vel e&nbsp;o poder&nbsp;parece insaci\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;arte&nbsp;\u00e9&nbsp;cada vez&nbsp;mais necess\u00e1ria para sobreviver, para enfrentar os dias frios e para alegrar as nossas primaveras&nbsp;t\u00e3o ef\u00eameras quanto&nbsp;inesperadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gislaine Marins, de Roma &#8211; No \u00faltimo Natal, a Mil\u00e3o fria, chuvosa e \u00e0s vezes coberta por uma leve camada de neve deu lugar a uma primavera espantosa, solar: vinte e um graus nos momentos mais quentes do dia e o convite para estar na rua, curtindo a pista de gelo artificial e as \u00e1rvores&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/08\/31\/milao-miro-ubusonaro\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-29661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7Ip","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29661"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29663,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29661\/revisions\/29663"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}