{"id":30016,"date":"2020-11-20T07:42:43","date_gmt":"2020-11-20T11:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30016"},"modified":"2020-11-20T07:42:50","modified_gmt":"2020-11-20T11:42:50","slug":"o-brasil-e-mais-racista-que-os-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/20\/o-brasil-e-mais-racista-que-os-estados-unidos\/","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 mais racista que os Estados Unidos?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" data-attachment-id=\"30017\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/20\/o-brasil-e-mais-racista-que-os-estados-unidos\/image-12-13\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?fit=640%2C427\" data-orig-size=\"640,427\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-12\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?resize=600%2C400\" alt=\"\" class=\"wp-image-30017\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-12.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>El Pa\u00eds &#8211; As pol\u00edcias brasileiras mataram seis vezes mais que a norte-americana em 2019, sendo que 75% das v\u00edtimas eram negras. Dados piores refletem encaminhamentos diferentes para a quest\u00e3o racial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 mais racista que os\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/estados-unidos\/\" target=\"_blank\">Estados Unidos<\/a>. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos. <br><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Na verdade, experi\u00eancias de\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/racismo\/\" target=\"_blank\">racismo<\/a>\u00a0n\u00e3o devem ser comparadas de forma quantific\u00e1vel. O essencial \u00e9 que os dois pa\u00edses possuem um passado de escravid\u00e3o e s\u00e3o, ainda hoje,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-23\/silvio-almeida-quem-quer-civilizar-o-brasil-nao-pode-temer-o-poder-temos-de-nos-livrar-dessa-alma-de-senhor-de-escravo.html\" target=\"_blank\">estruturalmente racistas<\/a>. Mas cada sociedade se formou de uma maneira, com valores diferentes. E cada uma tomou caminhos distintos para lidar com a quest\u00e3o racial, produzindo desdobramentos tamb\u00e9m muito particulares, como apontam a historiadora Luciana Brito, a soci\u00f3loga Flavia Rios e o advogado e fil\u00f3sofo Silvio Almeida. Hoje, 13% da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 negra. No Brasil, 55%, segundo o IBGE.<\/p>\n\n\n\n<p>Compara\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses s\u00e3o normais desde pelo menos o s\u00e9culo XIX, segundo Rios, mas ganharam for\u00e7a em 2020&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-09-07\/black-lives-matter-o-rumo-incerto-do-grande-movimento-antirracista.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">por causa do movimento Black Lives Matter<\/a>. Uma nova onda de protestos come\u00e7ou nos Estados Unidos&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-05-30\/revolta-pela-morte-de-george-floyd-se-apodera-de-minneapolis-coringa-anda-solto-pelas-ruas.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ap\u00f3s o assassinato<\/a>&nbsp;por estrangulamento de&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/george-floyd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">George Floyd<\/a>&nbsp;por um policial branco, em 25 de maio. O epis\u00f3dio teve impacto nos resultados na corrida eleitoral para a presid\u00eancia dos Estados Unidos. Enquanto o caso ganhou aten\u00e7\u00e3o da imprensa internacional como consequ\u00eancia do racismo, a cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 assassinado no Brasil sem que a quest\u00e3o racial seja analisada cotidianamente.&nbsp;<a href=\"http:\/\/observatorioseguranca.com.br\/rede-divulga-dados-ineditos-reunidos-em-um-ano-de-monitoramento\/\">A Rede de Observat\u00f3rios de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a>&nbsp;analisou mais de 7.000 a\u00e7\u00f5es policiais ocorridas em cinco Estados brasileiros entre junho de 2019 e maio de 2020. Em apenas uma not\u00edcia sobre essas a\u00e7\u00f5es foi encontrada a palavra \u201cnegro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma amostra dessa viol\u00eancia ocorreu poucos dias depois do assassinato de Floyd. Quando as imagens de seu estrangulamento rodavam o mundo, um policial militar de S\u00e3o Paulo chegou a repetir a cena e&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-07-14\/o-pm-me-deu-um-chute-que-quebrou-minha-tibia-pisou-no-meu-pescoco-e-esfregou-meu-rosto-no-asfalto.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pisou no pesco\u00e7o de uma mulher negra em Parelheiros<\/a>, na zona sul da cidade. \u201cOs policiais que fazem isso e depois ainda voltam para amea\u00e7ar a v\u00edtima querem dizer para a sociedade brasileira, sobretudo para a comunidade negra,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-05\/enquanto-as-redes-falavam-blacklivesmatter-perdemos-outra-crianca-negra-para-o-racismo-enraizado.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">que aqui n\u00e3o vai dar em nada<\/a>\u201d, explica Brito, professora da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo Baiano. \u201cEle est\u00e1 contando com a falta de empatia de boa parte da popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com a impunidade do Estado. \u00c9 a\u00ed que entra o racismo estrutural\u201d, acrescenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nesta quinta-feira, 19 de novembro, v\u00e9spera do Dia da Consci\u00eancia Negra, um homem negro \u2015Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas, 40 anos\u2015 foi espancado at\u00e9 a morte por dois homens brancos em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS). A rede informou por meio de nota que os homens atuavam seguran\u00e7as do local, disse lamentar o \u201cinexplic\u00e1vel epis\u00f3dio\u201d e comunicou que rescindiu o contrato com a empresa respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia ap\u00f3s o \u201cato criminoso\u201d. A brutal morte de Silveira Freitas causou como\u00e7\u00e3o nas redes sociais nesta sexta.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sociedades com valores distintos<\/h3>\n\n\n\n<p>Para Almeida, se os Estados Unidos pudessem ser retratados com um rosto humano, ele teria uma grande cicatriz, resultado de um \u201ccorte civilizat\u00f3rio\u201d importante para a constru\u00e7\u00e3o do nacionalismo estadounidense. Ele se refere \u00e0s leis de segrega\u00e7\u00e3o racial feitas ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o e da Guerra Civil e reconhecidas pela Suprema Corte em 1896. \u201cNa luta pelos direitos civis, eles trataram o corte, mas nunca fizeram uma opera\u00e7\u00e3o para dizer que esse corte n\u00e3o pode continuar. Desinfeccionaram o corte,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-07\/reino-unido-protagoniza-os-protestos-mais-intensos-da-onda-global-contra-o-racismo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mas \u00e0s vezes ele sangra<\/a>. N\u00e3o tiraram a faca de dentro\u201d, explica Almeida, professor do Mackenzie<\/p>\n\n\n\n<p>Brito ressalta, por\u00e9m, que a sociedade norte-americana foi constru\u00edda a partir de valores que logo serviram de base para a luta dos movimentos de contesta\u00e7\u00e3o. \u201cExiste uma forte ideia de direitos civis desde a formula\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, no final do s\u00e9culo XVIII. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/22\/internacional\/1563788910_778391.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">movimento dos anos 1960 contra as leis segregacionistas<\/a>&nbsp;n\u00e3o era apenas antirracista, os afro-americanos estavam reivindicando a participa\u00e7\u00e3o na vida do pa\u00eds como homens e mulheres dotados de direitos\u201d, explica a historiadora, especialista nos estudos sobre escravid\u00e3o, aboli\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil e nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Brasil? Al\u00e9m de ter sido o \u00faltimo pa\u00eds das Am\u00e9ricas a abolir a escravid\u00e3o, em 1888, Brito destaca seu passado mon\u00e1rquico. \u201cO pa\u00eds funda&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-09-21\/como-criar-filhos-antirracistas-uma-jornada-em-primeira-pessoa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as bases de sua sociedade a partir do privil\u00e9gio<\/a>. Nem branco nem o preto foram educados como cidad\u00e3os dotados de direitos civis. O policial no bairro de elite escuta \u2018voc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nos Estados Unidos \u201cbranco \u00e9 branco, preto \u00e9 preto, e a mulata n\u00e3o \u00e9 a tal\u201d,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/caetano-veloso\/44777\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como diria Caetano Veloso<\/a>, tanto no Brasil como em outros pa\u00edses latino-americanos a quest\u00e3o racial \u201cenvolve a nega\u00e7\u00e3o frontal do racismo a partir de ideologias que convencionamos chamar de democracia racial ou de embranquecimento\u201d, explica Rios. \u201cEssas duas ideologias conformam uma ideia mais ampla chamada de mesti\u00e7agem. Todas as sociedades latino-americanas, cada uma com sua particularidade, t\u00eam um padr\u00e3o de elogio \u00e0 mesti\u00e7agem\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos legais, significa que os \u201cbrasileiros nunca tiveram uma legisla\u00e7\u00e3o segregacionista\u201d. Em termos pr\u00e1ticos, contudo, a segrega\u00e7\u00e3o racial sempre existiu, seja na proibi\u00e7\u00e3o de atletas negros em clubes de futebol no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, seja na persegui\u00e7\u00e3o \u2014<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/depois-de-130-anos-apreendidas-pecas-de-religioes-afro-brasileiras-chegam-ao-museu-da-republica-1-24652424\" target=\"_blank\">esta sim institucionalizada durante d\u00e9cadas<\/a>\u2014 da cultura negra e das religi\u00f5es de matriz africana, seja na falta de pol\u00edticas p\u00fablicas que deixaram a popula\u00e7\u00e3o negra abandonada a pr\u00f3pria sorte, explica Rios. Nas palavras de Almeida, autor do best seller\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Racismo-Estrutural-Silvio-Almeida\/dp\/8598349747\"><em>Racismo estrutural<\/em>\u00a0(Editora Pol\u00e9n)<\/a>, \u201cenquanto a civiliza\u00e7\u00e3o como tal se entende nos Estados Unidos a partir de uma faca enfiada e que n\u00e3o pode ser retirada\u201d, no Brasil \u201calgu\u00e9m est\u00e1 enfiando a faca em voc\u00ea a toda hora, est\u00e1 fazendo voc\u00ea sangrar, enquanto dizem \u2018isso \u00e9 coisa da sua cabe\u00e7a, n\u00e3o tem faca nenhuma\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-05\/as-vozes-indignadas-dos-protestos-antirracistas-nos-estados-unidos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">os protestos pelo assassinato de Floyd explodiram<\/a>&nbsp;nos Estados Unidos, n\u00e3o foi raro ver nas redes sociais questionamentos \u2014principalmente vindos de pessoas brancas\u2014 sobre por que os negros brasileiros&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-06\/vidas-negras-importam-chacoalha-parcela-de-brasileiros-entorpecida-pela-rotina-de-violencia-racista.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00e3o demonstravam revolta similar<\/a>. Brito cita mais uma vez o hist\u00f3rico de nega\u00e7\u00e3o do racismo e o mito da democracia racial, que s\u00f3 come\u00e7ou a ser desmontado nos anos de 1970. \u201cAs estrat\u00e9gias ficam mais efetivas quando o inimigo \u00e9 mais claro. Nos Estados Unidos, o trabalhador negro pode ser conservador, pode n\u00e3o ser ativista ou militante, mas quando sofre a discrimina\u00e7\u00e3o racial, sabe o que aconteceu. Ele teve um letramento da fam\u00edlia desde crian\u00e7a\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Massacre da popula\u00e7\u00e3o negra em n\u00fameros<\/h3>\n\n\n\n<p>Os v\u00e1rios indicadores sociais e econ\u00f4micos \u2014renda, m\u00e9dia salarial, m\u00e9dia de idade ao morrer, entre outros\u2014 mostram que&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-07-07\/o-papel-da-extrema-direita-e-fazer-a-populacao-oprimida-se-reestruturar-nos-temos-que-derrota-la.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">os negros brasileiros est\u00e3o em desvantagem<\/a>&nbsp;tanto em rela\u00e7\u00e3o aos brancos brasileiros quanto em rela\u00e7\u00e3o aos afro-americanos \u2014os Estados Unidos s\u00e3o a principal pot\u00eancia econ\u00f4mica do planeta, o que por si s\u00f3 tamb\u00e9m explica uma maior qualidade de vida de sua popula\u00e7\u00e3o. \u201cE, ainda assim, os n\u00e3o brancos norte-americanos s\u00e3o os mais prejudicados economicamente. A pobreza est\u00e1 com eles. A morte na pandemia est\u00e1 com eles, os efeitos da crise de 2008 com eles, eles que perderam as casas, eles foram despejados, est\u00e3o morando nas ruas, est\u00e3o nas cadeias\u201d, ressalta Almeida.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os dados, cabe destacar os de seguran\u00e7a p\u00fablica. Os n\u00fameros indicam que\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-30\/entre-a-vida-e-a-morte-sob-tortura-violencia-policial-se-estende-por-todo-o-brasil-blindada-pela-impunidade.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\">a popula\u00e7\u00e3o negra brasileira sofre um massacre<\/a>\u00a0\u2014ou um genoc\u00eddio, no entendimento do movimento negro\u2014 e est\u00e1 em pior situa\u00e7\u00e3o que os afro-americanos. Ainda assim, em ambos os pa\u00edses os negros t\u00eam cerca de tr\u00eas vezes mais chance de morrer nas m\u00e3os da pol\u00edcia que os brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, os afro-americanos representam 13% de uma popula\u00e7\u00e3o de 333,9 milh\u00f5es de pessoas, mas s\u00e3o 25% dos mortos pelos agentes policiais. No Brasil, os negros \u2014a soma de pretos e pardos\u2014 representam 55% do total de 211 milh\u00f5es de brasileiros, mas s\u00e3o 75% das v\u00edtimas do Estado. Ainda que a popula\u00e7\u00e3o norte-americana seja maior,&nbsp;<a href=\"https:\/\/mappingpoliceviolence.org\/nationaltrends\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as pol\u00edcias estadunidenses mataram 1.099 pessoas<\/a>&nbsp;em 2019, enquanto que as pol\u00edcias brasileiras&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/monitor-da-violencia\/noticia\/2020\/04\/16\/numero-de-pessoas-mortas-pela-policia-cresce-no-brasil-em-2019-assassinatos-de-policiais-caem-pela-metade.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">acabaram com a vida de 5.804 pessoas<\/a>, quase seis vezes mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para as cifras de homic\u00eddios, o Estados Unidos registraram 14.123 ocorr\u00eancias em 2018,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ucr.fbi.gov\/crime-in-the-u.s\/2018\/crime-in-the-u.s.-2018\/tables\/expanded-homicide-data-table-2.xls\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">de acordo com dados do FBI<\/a>. J\u00e1 o Brasil registrou 57.956 \u00f3bitos naquele ano,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/download\/24\/atlas-da-violencia-2020\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segundo o Atlas da Viol\u00eancia do IPEA<\/a>. Apesar da brutal diferen\u00e7a num\u00e9rica, a vulnerabilidade dos negros em ambos os pa\u00edses se faz evidente uma vez. L\u00e1, eles foram 52,4% do total de mortos naquele ano, uma propor\u00e7\u00e3o alarmante ao considerar que representam apenas 13% da popula\u00e7\u00e3o norte-americana. Aqui, 75,7% dos assassinados eram negros. Al\u00e9m disso, o n\u00famero de homic\u00eddios de negros brasileiros&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-27\/numero-de-homicidios-de-pessoas-negras-cresce-115-em-onze-anos-o-dos-demais-cai-13.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cresceu 11,5% em onze anos<\/a>, enquanto o dos demais caiu 13%.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender essas diferen\u00e7as num\u00e9ricas, \u00e9 preciso olhar n\u00e3o apenas para a quest\u00e3o racial em cada pa\u00eds, mas tamb\u00e9m\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-23\/silvio-almeida-quem-quer-civilizar-o-brasil-nao-pode-temer-o-poder-temos-de-nos-livrar-dessa-alma-de-senhor-de-escravo.html\" target=\"_blank\">como se desenvolveram suas respectivas institui\u00e7\u00f5es policiais<\/a>\u00a0e de Justi\u00e7a, segundo Rios. \u201cNo Brasil, a pr\u00f3pria pol\u00edcia investiga sua a\u00e7\u00e3o. Temos uma per\u00edcia que n\u00e3o \u00e9 independente. Todo o processo de organiza\u00e7\u00e3o policial impede que haja uma Justi\u00e7a efetiva dos agentes de repress\u00e3o\u201d, exemplifica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Almeida, o Brasil desenvolveu \u201cum aparato de viol\u00eancia altamente repressivo, altamente sofisticado\u201d. O problema, portanto, n\u00e3o \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es funcionem mal, mas sim que funcionem da forma que foram pensadas inicialmente. \u201cO Estado brasileiro \u00e9 sensacional: consegue ao mesmo tempo criar&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-08-30\/a-farsa-sobre-a-policia-nao-poder-entrar-nas-favelas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um aparato de repress\u00e3o racializado<\/a>&nbsp;que serve de modelo para outros lugares do mundo em termos de viol\u00eancia, mas que aparece como se racializado n\u00e3o fosse. Isso \u00e9 genial. T\u00e1 pensando que a gente \u00e9 amador?\u201d, ironiza.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Mesti\u00e7agem, colorismo e identidade<\/h3>\n\n\n\n<p>Os diferentes encaminhamentos da quest\u00e3o racial tamb\u00e9m geraram entendimentos distintos sobre o que \u00e9 ser negro em cada pa\u00eds. De acordo com Brito, ser negro no Brasil tem a ver sobretudo com o fen\u00f3tipo da pessoa, isto \u00e9, a tonalidade de sua cor, a largura de seu nariz, a grossura dos l\u00e1bios e a textura do cabelo, entre outras caracter\u00edsticas f\u00edsicas \u2014o que impulsionou o debate sobre o colorismo, um conceito que aborda a hierarquiza\u00e7\u00e3o racial da sociedade brasileira a partir da promo\u00e7\u00e3o de seu embraquecimento. Essa subjetividade tamb\u00e9m faz com que&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/esportes\/2020-09-14\/neymar-acaba-expulso-na-derrota-do-psg-e-denuncia-insultos-racistas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as fronteiras identit\u00e1rias nem sempre estejam claras<\/a>&nbsp;\u2014ou,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/caetano-veloso\/44777\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como diria mais uma vez Caetano Veloso<\/a>, \u201caqui embaixo a indefini\u00e7\u00e3o \u00e9 o regime\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-07-05\/o-cabelo-afro-como-direito-civil-nos-estados-unidos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as caracter\u00edsticas f\u00edsicas tamb\u00e9m contam<\/a>, mas ser negro est\u00e1 relacionado principalmente com a origem da pessoa, segundo Brito. A ideia de na\u00e7\u00e3o foi criada a partir do cidad\u00e3o branco, enquanto que os demais foram deixados de lado do discurso nacional. Assim, a comunidade negra viu a necessidade de se autodenominar&nbsp;<em>afro-americana<\/em>. \u201cSendo esses homens e mulheres ap\u00e1tridas, buscam seu pertencimento com o continente africano. Ent\u00e3o eles s\u00e3o&nbsp;<em>afro<\/em>, no sentido de pertencimento nacional, e&nbsp;<em>americanos<\/em>, com direitos naquele pa\u00eds\u201d, explica a historiadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela usa como exemplo&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-08-20\/kamala-harris-aceita-indicacao-e-se-torna-a-primeira-mulher-negra-como-candidata-de-um-grande-partido-nos-eua.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a senadora Kamala Harris, eleita vice-presidenta pelo partido Democrata<\/a>. Filha de uma indiana e de um jamaicano, \u201cnum bairro de classe m\u00e9dia da Bahia ela at\u00e9 poderia ser vista como uma pessoa morena, mulata ou at\u00e9 mesmo branca\u201d, explica Brito. Nos Estados Unidos, prossegue a historiadora, \u201cse ela telefona para a pol\u00edcia para dizer que o carro foi roubado, o tratamento vai ser diferente apenas por dizer que seu nome \u00e9 Kamala, n\u00e3o precisam nem ver como ela \u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta ao Brasil, a era Vargas (1930-1945; 1950-1954) consolidou a ideia de que \u201co povo \u00e9 misturado e que todos somos brasileiros\u201d, ainda segundo Brito. Ao contr\u00e1rio dos afro-americanos, os negros brasileiros sempre estiveram inclu\u00eddos no discurso nacional, mesmo que de forma desigual. Nunca houve, portanto, a necessidade de se afirmar como cidad\u00e3o brasileiro, nem faz sentido a express\u00e3o&nbsp;<em>afro-brasileiro<\/em>. At\u00e9 porque, por causa da mesti\u00e7agem, que no passado chegou a ser promovida como&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-09-22\/existe-racismo-reverso-numeros-politica-economia-e-historia-atestam-que-nao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pol\u00edtica p\u00fablica para embranquecer a popula\u00e7\u00e3o<\/a>, cidad\u00e3os considerados brancos podem ser descendentes de africanos escravizados \u2014e \u00e9 por isso, por exemplo, que as cotas s\u00f3cio-raciais nas universidades p\u00fablicas s\u00e3o destinadas para pretos e pardos,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-09-04\/identitarismo-branco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">e n\u00e3o para afro-descendentes<\/a>. \u201cIndependentemente de se a pessoa \u00e9 afrodescendente ou n\u00e3o, o que importa no cotidiano s\u00e3o as caracter\u00edsticas f\u00edsicas. S\u00e3o essas caracter\u00edsticas que, socialmente constru\u00eddas, podem formar uma imagem de perigo, de amea\u00e7a, de desumanidade&#8230; S\u00e3o imagens estereotipadas\u201d, explica Rios.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>El Pa\u00eds &#8211; As pol\u00edcias brasileiras mataram seis vezes mais que a norte-americana em 2019, sendo que 75% das v\u00edtimas eram negras. Dados piores refletem encaminhamentos diferentes para a quest\u00e3o racial. N\u00e3o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 mais racista que os\u00a0Estados Unidos. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30016","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7O8","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30016"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30018,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30016\/revisions\/30018"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}