{"id":30059,"date":"2020-11-24T08:15:04","date_gmt":"2020-11-24T12:15:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30059"},"modified":"2020-11-24T08:15:08","modified_gmt":"2020-11-24T12:15:08","slug":"por-que-mais-mortes-entre-homens-por-covid-19-ainda-e-misterio-para-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/24\/por-que-mais-mortes-entre-homens-por-covid-19-ainda-e-misterio-para-a-ciencia\/","title":{"rendered":"Por que mais mortes entre homens por covid-19 ainda \u00e9 mist\u00e9rio para a Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"338\" data-attachment-id=\"30060\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/24\/por-que-mais-mortes-entre-homens-por-covid-19-ainda-e-misterio-para-a-ciencia\/image-14-13\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?fit=800%2C450\" data-orig-size=\"800,450\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-14\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?fit=600%2C338\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?resize=600%2C338\" alt=\"\" class=\"wp-image-30060\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?resize=768%2C432 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/image-14.jpeg?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Em 20 de janeiro de 2020, pouco se sabia sobre o Sars-Cov-2. As informa\u00e7\u00f5es oficiais indicavam que apenas duas pessoas haviam morrido de uma doen\u00e7a respirat\u00f3ria ainda misteriosa, causada por um novo coronav\u00edrus surgido em um mercado de animais em Wuhan, na China. Apesar disso, o geneticista Sharon Moalem parecia saber o que estava por vir. Naquele dia, em sua conta no Twitter, ele publicou: &#8220;Por que mais homens v\u00e3o sucumbir \u00e0 rec\u00e9m-descoberta S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda de Wuhan?&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Por Leonardo Pujol &#8211; De Porto Alegre para a BBC News Brasil<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Moalem \u00e9 um canadense de 43 anos radicado em Nova York. Dono de uma fala confiante e uma carreira de duas d\u00e9cadas dedicada ao estudo de condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas raras, ele presumia com relativa certeza que a doen\u00e7a decorrente do v\u00edrus causaria uma letalidade desproporcional entre homens e mulheres. Ele estava certo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a falta de testes, de informa\u00e7\u00f5es padronizadas e a preocupa\u00e7\u00e3o com a subnotifica\u00e7\u00e3o de mortes impe\u00e7am uma dimens\u00e3o real sobre como o sexo est\u00e1 se saindo como um fator de risco para a covid-19, informa\u00e7\u00f5es coletadas at\u00e9 2 de novembro pela plataforma Global Health 50\/50, um banco de dados internacional voltado \u00e0 igualdade de g\u00eanero na sa\u00fade, mostram que 57,2% dos 36.805 que morreram pela covid-19 na It\u00e1lia eram do sexo masculino. No Equador, eles eram 66,4% dos 12.181 \u00f3bitos. No M\u00e9xico, 64% dos 89.171 mortos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 pa\u00edses onde mais que o dobro de homens morreu em consequ\u00eancia da doen\u00e7a. \u00c9 o caso do Peru, onde 69,4% dos 34.187 que morreram eram homens.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo onde os dados de g\u00eanero e sexo s\u00e3o parciais, como no Brasil, a incid\u00eancia de morte em raz\u00e3o do v\u00edrus era maior em homens &#8211; 57,8%. Os dados da Global Health 50\/50, no entanto, sugerem taxas de infec\u00e7\u00e3o semelhantes em pessoas de ambos os sexos. Ent\u00e3o por que uma propor\u00e7\u00e3o significativamente maior de homens n\u00e3o resiste \u00e0 doen\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu diria que esse \u00e9 o velho normal&#8221;, opinou o dem\u00f3grafo e pesquisador Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Alves. &#8220;As mulheres sempre demonstraram uma maior taxa de sobreviv\u00eancia a longo prazo. A covid-19 s\u00f3 refor\u00e7a isso&#8221;, acrescentou ele, que desde abril mant\u00e9m um di\u00e1rio na internet sobre tend\u00eancias e n\u00fameros da pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe lembrar: em m\u00e9dia, no mundo, nascem cerca de 105 homens para cada 100 mulheres. O sexo feminino, no entanto, \u00e9 mais propenso a completar o primeiro anivers\u00e1rio e os anos seguintes. Ou seja, morrem mais meninos do que meninas nos primeiros anos de vida. N\u00e3o h\u00e1 uma raz\u00e3o clara para o fen\u00f4meno, segundo a OMS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do in\u00edcio da idade adulta, as mulheres come\u00e7am a ser maioria na sociedade e passam a viver mais do que os homens em praticamente qualquer lugar do mundo. A expectativa de vida para elas \u00e9, em m\u00e9dia, de seis a oito anos maior. Al\u00e9m disso, para cada homem com um s\u00e9culo de vida, h\u00e1 quatro mulheres. E das pessoas que chegam aos 110 anos de idade, mais de 95% s\u00e3o do sexo feminino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas tamb\u00e9m constataram que as mulheres t\u00eam um sistema imunol\u00f3gico mais forte do que os homens, veem o mundo com maior variedade de cores e correm menos risco de desenvolver determinados tipos de c\u00e2ncer. E, caso tenham a doen\u00e7a, suas chances de responder positivamente ao tratamento s\u00e3o maiores. Um levantamento do Instituto Nacional de Sa\u00fade dos EUA (NIH, na sigla em ingl\u00eas) mostrou que homens brancos, negros, hisp\u00e2nicos, asi\u00e1ticos, ind\u00edgenas \u2014 todo grupo masculino tende a ser mais vulner\u00e1vel ao c\u00e2ncer quando comparado aos pares femininos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outras evid\u00eancias sugerem, ainda, que mulheres s\u00e3o mais resistentes a desenvolver doen\u00e7as cardiovasculares, defici\u00eancias e certas infec\u00e7\u00f5es virais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: estudos mostram que os homens foram desproporcionalmente afetados tanto na Gripe Espanhola de 1918 quanto no surto da S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (Sars), em 2003. Uma an\u00e1lise realizada na regi\u00e3o de Hong Kong apontou que a maioria (57%) das 299 pessoas que sucumbiram \u00e0 Sars eram homens, n\u00e3o mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a da atual pandemia, a Sars tamb\u00e9m era causada por um coronav\u00edrus (Sars-Cov) surgido em um mercado de animais na China. A epidemia, no entanto, durou aproximadamente seis meses, alcan\u00e7ou 29 pa\u00edses e, ao todo, matou quase 800 das cerca de oito mil pessoas que contra\u00edram a doen\u00e7a. J\u00e1 a pandemia do Sars-Cov-2, que tem produzido uma nova onda de infectados, atingiu praticamente todos os pa\u00edses. Pelo menos 55 milh\u00f5es de pessoas foram infectadas ao redor do mundo. Destas, 1,3 milh\u00e3o morreram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Os-alvos-preferidos-do-SarsCov2\">Os alvos preferidos do Sars-Cov-2<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que os n\u00fameros cresciam, desde o in\u00edcio da pandemia, evid\u00eancias mostravam que alguns grupos eram mais vulner\u00e1veis \u00e0 covid-19. Idosos, por exemplo, correm em m\u00e9dia um risco cinco vezes maior de desenvolverem quadros graves e morrerem devido \u00e0 covid-19. Um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), divulgado em maio, mostrou que pessoas acima de 60 anos representaram 80% das mortes na China e 95% das que morreram na Europa. No Brasil, pessoas com mais de 60 anos representavam 69% dos \u00f3bitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fatores biol\u00f3gicos provavelmente colaboram para isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Altera\u00e7\u00f5es no sistema imunol\u00f3gico, naturais da idade, fazem com que idosos tenham pulm\u00f5es e mucosas mais fracas. Al\u00e9m disso, as vacinas tomadas na juventude j\u00e1 n\u00e3o surtem os efeitos de outrora. Portanto, h\u00e1 menos anticorpos no organismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acrescente esse contexto aos fatores sociais: como se engasgam e aspiram mais, eles levam a m\u00e3o \u00e0 boca com mais frequ\u00eancia, correndo mais risco de cont\u00e1gio. E ainda v\u00e3o a hospitais e unidades de sa\u00fade com mais regularidade \u2014 especialistas afirmam que consultas m\u00e9dicas n\u00e3o urgentes, mas necess\u00e1rias, colocam os idosos em risco desnecess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Doen\u00e7as pr\u00e9-existentes tamb\u00e9m s\u00e3o um fator de risco \u00e0 covid-19. Obesidade, press\u00e3o alta, diabetes e doen\u00e7as cardiovasculares s\u00e3o comuns em idosos, mas tamb\u00e9m atingem uma parcela significativa de adultos de meia-idade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas condi\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o afetam todos igualmente. Entre pobres e ricos com comorbidades, a balan\u00e7a da morte tende a pender para os desvalidos \u2014 pois os ricos, em tese, desfrutam de uma s\u00e9rie de vantagens como melhores dietas, condi\u00e7\u00f5es de moradia, de trabalho e de acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade. Presume-se que a disparidade se repita nas comunidades negras \u2014 no Brasil, tr\u00eas em cada quatro pessoas que constituem os 10% mais pobres s\u00e3o negros, segundo a pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Ra\u00e7a no Brasil, divulgada pelo IBGE em 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar dados confi\u00e1veis sobre a demografia racial do v\u00edrus. Mas uma nota t\u00e9cnica assinada por 14 pesquisadores da PUC-RJ, no come\u00e7o de junho, indicou que mais da metade dos negros (54,8%) que se internaram em hospitais no Brasil para tratar casos de S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRAG), com confirma\u00e7\u00e3o de covid-19, morreran. Entre brancos, a taxa de letalidade foi de 37,9%. O estudo foi feito com base em 29.933 casos encerrados de covid-19 (com \u00f3bito ou recupera\u00e7\u00e3o), a partir dos dados divulgados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, algumas estat\u00edsticas apontam que at\u00e9 23% das mortes relatadas por covid-19 s\u00e3o de pessoas negras, embora elas representem aproximadamente 13% da popula\u00e7\u00e3o. Outro levantamento afirma que a taxa de morte de negros \u00e9 2,4 vezes superior \u00e0 dos brancos, embora haja comunidades americanas onde at\u00e9 sete negros morrem para cada pessoa de pele branca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"E-quanto-\u00e0-taxa-de-letalidade-maior-entre-homens-\">E quanto \u00e0 taxa de letalidade maior entre homens?&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Isso provavelmente reflete uma combina\u00e7\u00e3o de diversos fatores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ganha for\u00e7a, contudo, a ideia de uma suposta fragilidade biol\u00f3gica do sexo masculino. Um dos principais defensores dessa teoria \u00e9 Sharon Maolem, o geneticista que previu o fen\u00f4meno em janeiro. A afirma\u00e7\u00e3o vem na esteira do lan\u00e7amento de&nbsp;<em>The Better Half: On the Genetic Superiority of Women<\/em>&nbsp;(A melhor metade: sobre a superioridade gen\u00e9tica das mulheres). Trata-se do quinto livro do autor, lan\u00e7ado em abril, cuja vers\u00e3o em portugu\u00eas ser\u00e1 publicada no Brasil em 2021 pela editora Cultrix.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A obra \u00e9 resultado de uma extensa pesquisa encerrada no ano passado. Nela, Moalem apresenta evid\u00eancias de que as caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas s\u00e3o determinantes \u00e0 not\u00e1vel resili\u00eancia feminina &#8211; adicionando um importante ingrediente \u00e0 teoria cl\u00e1ssica, que costuma atribuir o prod\u00edgio a fatores sociais, como comportamento, costumes e h\u00e1bitos de vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/23D3\/production\/_115617190_tv064120372.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Pessoas passeando no Parque Ibirapuera, em S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Legenda da foto,&nbsp;Em geral, mulheres v\u00e3o com mais regularidade ao m\u00e9dico, fumam menos e lavam as m\u00e3os com mais frequ\u00eancia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em geral, mulheres v\u00e3o com mais regularidade ao m\u00e9dico, fumam menos e lavam as m\u00e3os com mais frequ\u00eancia. Em contrataste, os homens tratam menos das comorbidades cr\u00f4nicas, t\u00eam um comportamento mais arriscado e s\u00e3o menos caprichosos. Observando assim, a conduta, de fato, torna o homem mais propenso a desenvolver uma s\u00edndrome respirat\u00f3ria. E a morrer mais cedo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Sharon Moalem vai al\u00e9m. Para ele, a depend\u00eancia excessiva de explica\u00e7\u00f5es comportamentais cegou a medicina para outra importante realidade: a diferen\u00e7a gen\u00e9tica entre os sexos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um artigo de opini\u00e3o no&nbsp;<em>The New York Times<\/em><em>,&nbsp;<\/em>intitulado&nbsp;<em>&#8220;Por que tantos homens morrem de coronav\u00edrus?&#8221;<\/em>, o geneticista admite que algumas explica\u00e7\u00f5es comportamentais &#8220;s\u00e3o quase certamente v\u00e1lidas&#8221;. No entanto, tamb\u00e9m afirma que a maior taxa de mortes entre homens por Covid-19 &#8220;pode ser uma demonstra\u00e7\u00e3o oportuna e de alto perfil&#8221; da gen\u00e9tica feminina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-poderio-do-cromossomo-X\">O poderio do cromossomo X<\/h2>\n\n\n\n<p>Para compreender a diferen\u00e7a biol\u00f3gica entre homens e mulheres \u00e9 preciso considerar que o DNA humano \u00e9 um conjunto de instru\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, situado no n\u00facleo celular e cercado por 46 cromossomos. Esses cromossomos s\u00e3o organizados em 22 pares que recombinam tanto o DNA do pai quanto o da m\u00e3e. Eles compartilham 99% da disposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica heredit\u00e1ria, mas com milhares de pequenas diferen\u00e7as que explicam a varia\u00e7\u00e3o entre as caracter\u00edsticas das pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda o par 23, dos cromossomos sexuais. Na maioria das circunst\u00e2ncias, a f\u00eamea humana tem dois cromossomos X \u2014 um do pai e outro, da m\u00e3e. J\u00e1 o homem tem apenas um cromossomo X, herdado da m\u00e3e, emparelhado com um cromossomo Y, de seu pai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O cromossomo X \u00e9 estruturalmente maior e mais complexo do que o cromossomo Y. O primeiro \u00e9 dotado de aproximadamente 1.150 genes, longas sequ\u00eancias do DNA que produzem prote\u00ednas essenciais ao funcionamento das c\u00e9lulas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O cromossomo Y, por sua vez, tem entre 60 e 70 genes. Significa que os cromossomos sexuais masculinos t\u00eam praticamente a metade da diversidade gen\u00e9tica das mulheres, com seus dois X.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa popula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em dobro poderia permitir que as mulheres produzissem duas vezes mais prote\u00ednas relacionadas a esses genes do que os homens. Mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece. Para o ciclo da vida, as c\u00e9lulas femininas selecionam apenas um cromossomo X. O segundo \u00e9 aleatoriamente desligado ou desativado, um processo conhecido como inativa\u00e7\u00e3o do X.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros ind\u00edcios sobre a inativa\u00e7\u00e3o do cromossomo X remontam \u00e0 d\u00e9cada de 1950.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Umaa importante descoberta foi que a inativa\u00e7\u00e3o se dava no est\u00e1gio de blastocisto, quando o embri\u00e3o alcan\u00e7a a parede do \u00fatero \u2014 e as c\u00e9lulas come\u00e7am a ganhar fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas na forma\u00e7\u00e3o do organismo do feto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que essas evid\u00eancias provinham unicamente de experimentos com camundongos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Conhecemos bastante sobre a inativa\u00e7\u00e3o do cromossomo X em roedores por causa da relativa facilidade de se estudar os embri\u00f5es e da capacidade de modificar o genoma deles&#8221;, explicou a geneticista Lygia da Veiga Pereira, professora titular do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP). &#8220;Mas em seres humanos o conhecimento \u00e9 mais limitado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, a descoberta de c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias e o surgimento de uma t\u00e9cnica de mapeamento de DNA capaz de sequenciar com precis\u00e3o e integralmente o genoma de uma \u00fanica c\u00e9lula permitiu identificar o momento em que determinados genes se tornam ativos. Foi o que Pereira e mais duas colegas analisaram a partir de 2013.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Elas examinaram o material de pesquisadores da China e da Su\u00e9cia \u2014 sequ\u00eancias de RNA, material gen\u00e9tico mais flex\u00edvel do que o DNA, de c\u00e9lulas isoladas de embri\u00f5es humanos. E descobriram algo inesperado. &#8220;Verificamos que a inativa\u00e7\u00e3o do cromossomo X se dava no in\u00edcio da embriog\u00eanese humana, antes de o embri\u00e3o se fixar \u00e0 parede do \u00fatero, em um est\u00e1gio anterior ao dos embri\u00f5es de camundongos&#8221;, afirmou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso revela que o processo de desativa\u00e7\u00e3o do X come\u00e7a cinco ou seis dias ap\u00f3s o espermatozoide (feminino, por assim dizer) fecundar o \u00f3vulo. O resultado do estudo foi publicado em 2017 no peri\u00f3dico&nbsp;<em>Scientific Reports<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de oferecer uma nova tese ao in\u00edcio da inativa\u00e7\u00e3o do X, a pesquisa brasileira refor\u00e7ou um entendimento de longa data \u2014 que o mecanismo de sele\u00e7\u00e3o do cromossomo sexual ocorre de forma aleat\u00f3ria em cada c\u00e9lula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 vantajoso \u00e0s mulheres. Afinal, o organismo feminino pode escolher entre dois cromossomos X, de maneira a compensar uma c\u00e9lula defeituosa. Nos homens, n\u00e3o h\u00e1 esse tipo compensa\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o h\u00e1 alternativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A-fuga-de-inativa\u00e7\u00e3o-do-X-\">A fuga de inativa\u00e7\u00e3o do X&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>No mesmo ano em que as cientistas da USP identificaram o momento de inativa\u00e7\u00e3o do X, pesquisadores do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Helsinque, na Finl\u00e2ndia, publicaram na revista&nbsp;<em>Nature<\/em>&nbsp;um estudo que refor\u00e7a outra teoria crescente: a de que o cromossomo silenciado nas mulheres, na verdade, n\u00e3o est\u00e1 totalmente adormecido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia come\u00e7ou a suspeitar disso entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, quando algumas pesquisas indicaram a express\u00e3o de alguns genes supostamente inativos. Presumia-se, por\u00e9m, que essa express\u00e3o causava um efeito m\u00ednimo na biologia da mulher. Foi s\u00f3 nos \u00faltimos 15 anos que esse entendimento mudou, \u00e0 medida que os pesquisadores identificavam e catalogavam os genes &#8220;fugitivos&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que o estudo finland\u00eas concluiu \u00e9 que cerca de 23% da variedade de genes do cromossomo sexual silenciado n\u00e3o s\u00f3 estavam ativas como acess\u00edveis \u00e0s c\u00e9lulas femininas. S\u00e3o genes que raramente atingem 100% dos n\u00edveis de express\u00e3o, como no cromossomo ativo; a m\u00e9dia fica em torno de 10%. Mas o processo de express\u00e3o, chamado pelos pesquisadores de &#8220;fuga de inativa\u00e7\u00e3o do X&#8221;, \u00e9 suficiente para fazer uma diferen\u00e7a biol\u00f3gica \u2014 inclusive porque parte desses genes est\u00e1 relacionado \u00e0 resposta imunol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, \u00e9 como se o cromossomo inativo atuasse como uma esp\u00e9cie backup: uma c\u00f3pia de seguran\u00e7a, com centenas de genes \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do organismo para enfrentar situa\u00e7\u00f5es estressantes como o c\u00e2ncer, a fome ou a infec\u00e7\u00e3o por um v\u00edrus mortal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A bi\u00f3loga computacional Taru Tukiainen, que liderou o estudo, acredita que h\u00e1 ainda mais genes fugitivos para encontrar \u2014 em diferentes tipos de c\u00e9lulas, tecidos, indiv\u00edduos e pessoas de diferentes idades. &#8220;Estamos apenas dando o primeiro passo para realmente entender toda a complexidade desse fen\u00f4meno&#8221;, disse Tukiainen \u00e0 revista&nbsp;<em>The Scientist<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o geneticista Sharon Maolem, entretanto, a descoberta \u00e9 suficiente para dar um novo sentido \u00e0 maneira como entendemos a rea\u00e7\u00e3o do organismo humano. Falando sobre os genes que escapavam da inativa\u00e7\u00e3o, ele comentou em um e-mail \u00e0 BBC News Brasil: &#8220;Isso significa uma boa pot\u00eancia gen\u00e9tica dentro de cada uma das c\u00e9lulas da mulher&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Moalem afirma que o estudo d\u00e1 significado \u00e0s evid\u00eancias hist\u00f3ricas, que demonstram que as mulheres sempre viveram mais, mas tamb\u00e9m \u00e0s pr\u00f3prias experi\u00eancias \u2014 especialmente as de quando ele dava expediente em uma UTI neonatal, dez anos atr\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/71F3\/production\/_115617192_tv063718233.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Mulheres caminhando em \u00e1rea de compras no Rio\"\/><figcaption>Legenda da foto,&nbsp;Narrativa do cromossomo X, sozinha, n\u00e3o explica por completo a resist\u00eancia feminina<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Cabe dizer: existem muitas raz\u00f5es para rec\u00e9m-nascidos passarem dias dentro de uma incubadora transl\u00facida, cheios de fios conectados ao corpo e sob o escrut\u00ednio de m\u00e9dicos e enfermeiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A prematuridade \u00e9 a principal delas. Um beb\u00ea que nasce com menos de 37 semanas de gesta\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tem o c\u00e9rebro e os pulm\u00f5es totalmente desenvolvidos. Min\u00fascula e indefesa, a crian\u00e7a permanece na UTI at\u00e9 atingir a completa estatura do organismo \u2014 uma enorme luta estando longe da prote\u00e7\u00e3o do \u00fatero materno, exposto ao frio e a trilh\u00f5es de micr\u00f3bios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que Moalem identificou de forma emp\u00edrica, \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que meninos eram mais suscet\u00edveis a infec\u00e7\u00f5es \u2014 e \u00e0 morte, em virtude de doen\u00e7as correlatas. &#8220;Observar a vantagem de sobreviv\u00eancia feminina ocorrendo em uma idade t\u00e3o jovem foi muito impactante&#8221;, diz Sharon Moalem. Ele s\u00f3 n\u00e3o sabia exatamente por que aquilo acontecia. A partir da conclus\u00e3o dos pesquisadores da Universidade de Helsinque, Moalem passou a considerar que o fen\u00f4meno estivesse ligado ao fato de as meninas terem dois cromossomos X. O que permitiria, desde muito cedo, acessarem mais vers\u00f5es dos mesmos genes para resolver quaisquer desafios e traumas biol\u00f3gicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos mais objetivos, contudo, sugerem que o amadurecimento do pulm\u00e3o fetal ocorre mais precocemente no sexo feminino. Isso reduz as chances das rec\u00e9m-nascidas desenvolverem problemas respirat\u00f3rios \u2014 que est\u00e3o entre as principais causas de morte no per\u00edodo neonatal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que, entre os beb\u00eas prematuros que nascem antes das 32 semanas de gesta\u00e7\u00e3o, o risco de morrer \u00e9 de 9% para meninos e de 6% para as meninas. Outras pesquisas mostram que a tend\u00eancia se repete em crian\u00e7as de praticamente todas as faixas de peso ao nascer, e independentemente da idade gestacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil n\u00e3o disp\u00f5e de dados oficiais sobre o tema, segundo a vice-diretora da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Beb\u00eas Prematuros (Prematuridade). Aline Hennemann, por\u00e9m, disse \u00e0 BBC News Brasil que &#8220;como enfermeira neonatal e com a minha experi\u00eancia beira-leito, esses estudos recentes se confirmam: as meninas t\u00eam uma incid\u00eancia menor de mortalidade ao nascer do que os meninos&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Horm\u00f4nios-e-enzimas-\">Horm\u00f4nios e enzimas&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de sedutora, a narrativa do cromossomo X, sozinha, n\u00e3o explica por completo a resist\u00eancia feminina. &#8220;A gen\u00e9tica desempenha um papel importante, mas outros fatores externos certamente contribuem&#8221;, diz Zoe Xirocostas, uma jovem cientista de 24 anos que faz p\u00f3s-doutorado na Universidade de Nova Gales do Sul, na Austr\u00e1lia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, Xirocostas e os colegas publicaram na revista&nbsp;<em>Biology Letters&nbsp;<\/em>o resultado de uma an\u00e1lise sobre a vida \u00fatil no reino animal. O conjunto de dados incluiu toda sorte de informa\u00e7\u00f5es sobre a longevidade de humanos, outros mam\u00edferos e aves, como tamb\u00e9m de r\u00e9pteis, peixes, anf\u00edbios, aracn\u00eddeos, baratas, gafanhotos, besouros, borboletas e mariposas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao analisar essa ampla gama de esp\u00e9cies, descobrimos que o sexo heterogam\u00e9tico (os homens, no caso dos humanos) tende a morrer 17,6% mais cedo que o sexo homogam\u00e9tico (as mulheres, no caso dos humanos)&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as hormonais tamb\u00e9m podem fazer diferen\u00e7a, segundo Xirocostas. Pesquisas apontam que n\u00edveis mais altos de testosterona, o horm\u00f4nio sexual masculino, estimulam comportamentos de risco. Al\u00e9m disso, a testosterona pode ativar um grupo de genes presentes nas c\u00e9lulas de defesa que enfraquecem a resposta do sistema imunol\u00f3gico. Por isso um agente estranho, como o Sars-Cov-2, tem facilidade para abrir terreno no organismo masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o estrog\u00eanio, o horm\u00f4nio feminino, cont\u00e9m propriedades anti-inflamat\u00f3rias. Ele ajuda no reparo dos tel\u00f4meros, as tampas que protegem as extremidades dos cromossomos. Os tel\u00f4meros est\u00e3o diretamente ligados ao envelhecimento. Quando eles se desgastam, as c\u00e9lulas param de se reproduzir. Essa, portanto, pode ser outra justificativa para a longevidade feminina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O estrog\u00eanio ainda estimula uma resposta imunol\u00f3gica mais vigorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso ficou evidente na pandemia do novo coronav\u00edrus. Em grande parte, gestantes infectadas pelo Sars-Cov-2 tiveram sintomas leves da doen\u00e7a \u2014 embora fa\u00e7am parte do grupo de risco. Isso pode estar atrelado ao fato de as gr\u00e1vidas terem, naturalmente, n\u00edveis de estrog\u00eanio e de progesterona mais altos durantes a gravidez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/E723\/production\/_115617195_tv063718203.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Pessoas caminhando em \u00e1res de com\u00e9rcio no Rio\"\/><figcaption>Legenda da foto,&nbsp;Outra explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica para o coronav\u00edrus matar mais homens do que mulheres pode envolver uma prote\u00edna conhecida como enzima conversora de angiotensina 2<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se for assim, contudo, a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona para as mulheres idosas \u2014 que continuam tendo um desempenho melhor do que os homens idosos no combate \u00e0 covid-19, apesar dos n\u00edveis de horm\u00f4nio nas mulheres despencarem ap\u00f3s a menopausa. De toda a forma, a ci\u00eancia vem investigando o potencial do horm\u00f4nio feminino no combate \u00e0 doen\u00e7a \u2014 tratando, inclusive, pacientes masculinos com estrog\u00eanio e progesterona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica para o coronav\u00edrus matar mais homens do que mulheres pode envolver uma prote\u00edna conhecida como enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2, na sigla em ingl\u00eas).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essencial \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da press\u00e3o arterial, a ACE2 tamb\u00e9m age como uma das portas de entrada do novo coronav\u00edrus nas c\u00e9lulas humanas. \u00c9 como se ela fosse uma fechadura. O v\u00edrus \u00e9 uma chave que se encaixa nela e, a partir dali, ganha acesso ao n\u00facleo da c\u00e9lula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que essa enzima tem dois lados. Ao mesmo tempo que facilita a a\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, ela tamb\u00e9m possui um grande componente anti-inflamat\u00f3rio. E a ACE2 se expressa pelo cromossomo X. Assim, as mulheres tendem a apresentar uma quantidade duplicada dessa enzima. Elas seriam mais suscet\u00edveis aos ataques do coronav\u00edrus, mas as altas barreiras anti-inflamat\u00f3rias impediriam o desenvolvimento de manifesta\u00e7\u00f5es graves da doen\u00e7a. Ou seja, o v\u00edrus pode entrar, mas n\u00e3o consegue esculhambar tanto com o organismo delas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a teoria da ACE2 ainda carece de mais estudos. Uma pesquisa da Sociedade Europeia de Cardiologia encontrou um maior \u00edndice de ACE2 no plasma sangu\u00edneo dos homens. E os especialistas especulam que essa possa ser a raz\u00e3o da maior mortalidade causada pelo coronav\u00edrus entre o p\u00fablico masculino. A miss\u00e3o, ao que parece, \u00e9 entender qual das duas faces da enzima \u00e9 mais atuante no intrincado mecanismo de letalidade da covid-19.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Mas-afinal-sexo-\u00e9-fator-de-risco-\">Mas, afinal, sexo \u00e9 fator de risco?&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde que os primeiros casos surgiram, no fim do ano passado, a doen\u00e7a causada pelo novo coronav\u00edrus demonstrou ser bem mais do que respirat\u00f3ria. Descobriu-se que a covid-19 pode afetar n\u00e3o apenas os pulm\u00f5es como tamb\u00e9m o sistema circulat\u00f3rio, o cora\u00e7\u00e3o, os rins e at\u00e9 mesmo os sentidos, como o olfato e o paladar. A raz\u00e3o para boa parte desses efeitos \u00e9 um enigma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muito mais se descobrir\u00e1 a respeito da covid-19 \u2014 s\u00f3 neste ano, mais de 73 mil artigos cient\u00edficos citaram a doen\u00e7a, segundo o banco de dados Pubmed. Inclusive sobre como diferen\u00e7as biol\u00f3gicas acontecem ao longo da doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que h\u00e1, por ora, s\u00e3o correla\u00e7\u00f5es e possibilidades. Para determinar se o sexo \u00e9 um fator de risco seria necess\u00e1rio um estudo amplo, come\u00e7ando pelo sequenciamento do genoma de pessoas que desenvolveram quadro leve da doen\u00e7a e de indiv\u00edduos que tiveram quadro grave. Os cientistas, ent\u00e3o, tentariam encontrar variantes gen\u00e9ticas que pudessem influenciar a gravidade da doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, seria preciso considerar outros fatores n\u00e3o-gen\u00e9ticos \u2014 vari\u00e1veis como idade, condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade pr\u00e9-existentes, h\u00e1bitos de vida, condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica. Os dados precisariam vir de fontes confi\u00e1veis e leg\u00edtimas, como registros hospitalares ou do governo, e englobar um longo per\u00edodo de tempo e pa\u00edses diferentes. \u00c9 um esfor\u00e7o t\u00e3o \u00e1rduo, custoso e demorado, que beira a utopia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que a hip\u00f3tese gen\u00e9tica fosse confirmada, seria imposs\u00edvel ignorar a teoria cl\u00e1ssica \u2014 atrelada aos fatores comportamentais. O dem\u00f3grafo Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Alves ressalta que os homens, em geral, seguem mais expostos aos riscos de cont\u00e1gio e tratam menos das comorbidades cr\u00f4nicas. O que o leva a crer que as diferen\u00e7as de rea\u00e7\u00f5es ao v\u00edrus (e a outras mazelas) provavelmente refletem uma combina\u00e7\u00e3o de diversos fatores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Explicar a letalidade do v\u00edrus s\u00f3 pela biologia seria interessante, mas limitada&#8221;, comentou Alves. &#8220;Quando se trata de mortalidade, os fatores biol\u00f3gicos explicam menos do que os fatores sociais.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 20 de janeiro de 2020, pouco se sabia sobre o Sars-Cov-2. As informa\u00e7\u00f5es oficiais indicavam que apenas duas pessoas haviam morrido de uma doen\u00e7a respirat\u00f3ria ainda misteriosa, causada por um novo coronav\u00edrus surgido em um mercado de animais em Wuhan, na China. 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