{"id":30139,"date":"2020-11-30T19:45:17","date_gmt":"2020-11-30T23:45:17","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30139"},"modified":"2020-11-30T19:45:22","modified_gmt":"2020-11-30T23:45:22","slug":"a-traicao-das-elegantes-por-rubem-braga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/30\/a-traicao-das-elegantes-por-rubem-braga\/","title":{"rendered":"A trai\u00e7\u00e3o das elegantes, por Rubem Braga"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" data-attachment-id=\"30140\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/11\/30\/a-traicao-das-elegantes-por-rubem-braga\/577c1dbc-fa86-4a57-822d-c48f7cdb0b1a\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?fit=1080%2C1080\" data-orig-size=\"1080,1080\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?fit=300%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?fit=600%2C600\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?fit=600%2C600\" alt=\"\" class=\"wp-image-30140\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?w=1080 1080w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?resize=300%2C300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?resize=1024%2C1024 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/577C1DBC-FA86-4A57-822D-C48F7CDB0B1A.png?resize=768%2C768 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Meu ideal seria escrever uma hist\u00f3ria t\u00e3o engra\u00e7ada que aquela mo\u00e7a que est\u00e1 doente naquela casa cinzenta quando lesse minha hist\u00f3ria no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse &#8212; &#8220;ai meu Deus, que hist\u00f3ria mais engra\u00e7ada!&#8221;. E ent\u00e3o a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou tr\u00eas amigas para contar a hist\u00f3ria; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de v\u00ea-la t\u00e3o alegre. Ah, que minha hist\u00f3ria fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de mo\u00e7a reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o pr\u00f3prio riso, e depois repetisse para si pr\u00f3pria &#8212; &#8220;mas essa hist\u00f3ria \u00e9 mesmo muito engra\u00e7ada!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal tamb\u00e9m fosse atingido pela minha hist\u00f3ria. O marido a leria e come\u00e7aria a rir, o que aumentaria a irrita\u00e7\u00e3o da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua m\u00e1 vontade, tomasse conhecimento da hist\u00f3ria, ela tamb\u00e9m risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha hist\u00f3ria chegasse &#8212; e t\u00e3o fascinante de gra\u00e7a, t\u00e3o irresist\u00edvel, t\u00e3o colorida e t\u00e3o pura que todos limpassem seu cora\u00e7\u00e3o com l\u00e1grimas de alegria; que o comiss\u00e1rio do distrito, depois de ler minha hist\u00f3ria, mandasse soltar aqueles b\u00eabados e tamb\u00e9m aqueles pobres mulheres colhidas na cal\u00e7ada e lhes dissesse &#8212; &#8220;por favor, se comportem, que diabo! Eu n\u00e3o gosto de prender ningu\u00e9m!&#8221; . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espont\u00e2nea homenagem \u00e0 minha hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribu\u00edda a um persa, na Nig\u00e9ria, a um australiano, em Dublin, a um japon\u00eas, em Chicago &#8212; mas que em todas as l\u00ednguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chin\u00eas muito pobre, muito s\u00e1bio e muito velho dissesse: &#8220;Nunca ouvi uma hist\u00f3ria assim t\u00e3o engra\u00e7ada e t\u00e3o boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido at\u00e9 hoje para ouvi-la; essa hist\u00f3ria n\u00e3o pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que j\u00e1 estivesse morto; sim, deve ser uma hist\u00f3ria do c\u00e9u que se filtrou por acaso at\u00e9 nosso conhecimento; \u00e9 divina&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando todos me perguntassem &#8212; &#8220;mas de onde \u00e9 que voc\u00ea tirou essa hist\u00f3ria?&#8221; &#8212; eu responderia que ela n\u00e3o \u00e9 minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal come\u00e7ara a contar assim: &#8220;Ontem ouvi um sujeito contar uma hist\u00f3ria\u2026&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha hist\u00f3ria em um s\u00f3 segundo, quando pensei na tristeza daquela mo\u00e7a que est\u00e1 doente, que sempre est\u00e1 doente e sempre est\u00e1 de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Rubem Braga <br>\nA cr\u00f4nica acima foi extra\u00edda do livro &#8220;A trai\u00e7\u00e3o das elegantes&#8221;, Editora Sabi\u00e1 &#8211; Rio de Janeiro, 1967, p\u00e1g. 91.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu ideal seria escrever uma hist\u00f3ria t\u00e3o engra\u00e7ada que aquela mo\u00e7a que est\u00e1 doente naquela casa cinzenta quando lesse minha hist\u00f3ria no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse &#8212; &#8220;ai meu Deus, que hist\u00f3ria mais engra\u00e7ada!&#8221;. 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