{"id":30261,"date":"2020-12-06T21:22:31","date_gmt":"2020-12-07T01:22:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30261"},"modified":"2020-12-06T21:22:39","modified_gmt":"2020-12-07T01:22:39","slug":"arrabalde-sete-bois-em-linha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/06\/arrabalde-sete-bois-em-linha\/","title":{"rendered":"ARRABALDE &#8211; SETE BOIS EM LINHA"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"315\" data-attachment-id=\"30262\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/06\/arrabalde-sete-bois-em-linha\/d4ec8134-b703-4871-8902-4e396aa2f6ae\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?fit=764%2C401\" data-orig-size=\"764,401\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?fit=300%2C157\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?fit=600%2C315\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?resize=600%2C315\" alt=\"\" class=\"wp-image-30262\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?w=764 764w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?resize=300%2C157 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/D4EC8134-B703-4871-8902-4E396AA2F6AE.jpeg?resize=572%2C300 572w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>A segunda reportagem da s\u00e9rie percorre uma rodovia amaz\u00f4nica para compreender o que estamos ganhando ao trocar a complexidade da floresta por paisagens sem mist\u00e9rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Revista Piau\u00ed, por <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/colaborador\/joao-moreira-salles\/\">JO\u00c3O MOREIRA SALLES<\/a>*<\/p>\n\n\n\n<p><strong><br>E<\/strong>m outubro de 2019, uma confer\u00eancia internacional na Universidade de Princeton, em Nova Jersey, reuniu cientistas, pol\u00edticos, l\u00edderes empresariais, promotores do Minist\u00e9rio P\u00fablico brasileiro e membros do terceiro setor para discutir o futuro da Amaz\u00f4nia. Numa sala lotada da Escola de Pol\u00edticas P\u00fablicas e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, os cientistas Stephen Pacala e Elena Shevliakova ocuparam o palco. Ele, professor de ecologia e um dos grandes especialistas mundiais em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; ela, modeladora s\u00eanior do Laborat\u00f3rio de Din\u00e2mica de Fluidos Geof\u00edsicos, GFDL na sigla em ingl\u00eas, um centro avan\u00e7ado de modelagem clim\u00e1tica que Princeton divide com o \u00f3rg\u00e3o do governo norte-americano respons\u00e1vel pela previs\u00e3o de intemp\u00e9ries.<\/p>\n\n\n\n<p>Pacala e Shevliakova estavam ali para anunciar em primeira m\u00e3o os&nbsp;<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/seis-conclusoes-sobre-o-modelo-do-mundo-sem-a-amazonia\/\">resultados preliminares<\/a>&nbsp;de um exerc\u00edcio de simula\u00e7\u00e3o rodado num dos poucos supercomputadores do planeta que processam a quantidade necess\u00e1ria de dados para responder \u00e0 seguinte pergunta: O que aconteceria com o mundo se a Amaz\u00f4nia desaparecesse? Mais precisamente: Como se comportaria o clima em 2050 supondo-se dois cen\u00e1rios distintos, o primeiro com 50% da Amaz\u00f4nia convertida em \u00e1rea agricultur\u00e1vel, o outro ainda mais radical, com toda a floresta tendo cedido lugar \u00e0 pecu\u00e1ria e \u00e0 agricultura?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Simula\u00e7\u00f5es dos efeitos da redu\u00e7\u00e3o do bioma come\u00e7aram a ser feitas no Brasil na d\u00e9cada de 1990, mas concentradas no clima do pa\u00eds. J\u00e1 o modelo de Pacala e Shevliakova foi concebido para trabalhar em escala global. Naquela tarde, os pesquisadores mostrariam o que os dist\u00farbios na Amaz\u00f4nia poderiam provocar em cada recanto do planeta \u2013 terra firme ou oceanos, plan\u00edcies ou montanhas, florestas ou desertos \u2013 ao longo das tr\u00eas d\u00e9cadas seguintes, hora a hora, desde o pr\u00f3prio dia da confer\u00eancia at\u00e9 o ano 2050.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mapas come\u00e7aram a ser projetados na tela, todos eles portadores de m\u00e1s not\u00edcias para o Brasil e para o mundo. Se a Amaz\u00f4nia se for inteira, a temperatura m\u00e9dia global subir\u00e1 0,25\u00baC para\u00a0<em>al\u00e9m<\/em>\u00a0do aumento de 1,5 a 2,5\u00baC j\u00e1 previstos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU (IPCC na sigla em ingl\u00eas), no caso otimista em que o planeta faz a sua parte e reduz de maneira dr\u00e1stica a emiss\u00e3o global de carbono. Apenas trinta anos nos separam de 2050. Se o modelo fosse rodado at\u00e9 2100, ver\u00edamos provavelmente um aumento de meio grau acima dos valores estabelecidos pelo IPCC, e\u00a0<em>este<\/em>\u00a0meio grau, nessas circunst\u00e2ncias, pode ser a diferen\u00e7a entre um mundo com e sem corais \u2013 todos eles morreriam, levando embora mais de um ter\u00e7o da vida marinha, cerca de 10% de toda a pesca em pa\u00edses tropicais e o sustento de meio bilh\u00e3o de pessoas (estima-se, por exemplo, que 25% do trabalho de pesca do mundo esteja relacionado com os recifes).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso considerar tamb\u00e9m que se trata de uma temperatura&nbsp;<em>m\u00e9dia<\/em>, ou seja, ponderada pelas varia\u00e7\u00f5es em todos os quadrantes do planeta. Ocorre que as pessoas n\u00e3o moram em localidades m\u00e9dias, mas em lugares espec\u00edficos, e o que importa para elas \u00e9 a temperatura local. Na Amaz\u00f4nia, por exemplo, a elimina\u00e7\u00e3o completa da floresta praticamente inviabilizar\u00e1 a vida, j\u00e1 que os term\u00f4metros poder\u00e3o subir at\u00e9 4,5\u00baC, soma dos aumentos projetados pelo IPCC e pelo modelo Pacala e Shevliakova. Quase toda a Am\u00e9rica do Sul ser\u00e1 afetada. S\u00f3 parte da Patag\u00f4nia e dos Andes se safam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na hip\u00f3tese de que o mundo siga na toada atual e n\u00e3o consiga reduzir a emiss\u00e3o de carbono, o cen\u00e1rio com 50% da Amaz\u00f4nia produz um quadro clim\u00e1tico no Brasil ainda mais desastroso do que o descrito no par\u00e1grafo anterior. Partes da regi\u00e3o Norte experimentar\u00e3o um aumento de temperatura semelhante, de 2 a 2,5\u00baC, que se somar\u00e3o aos 4 a 5\u00baC previstos pelo painel da ONU na hip\u00f3tese de o planeta seguir emitindo nos padr\u00f5es atuais. O centro-oeste acrescentar\u00e1 1\u00baC \u00e0s estimativas do IPCC \u2013 ou seja, Cuiab\u00e1, Campo Grande ou Sinop poder\u00e3o ficar at\u00e9 6\u00baC mais quentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Igualmente desastrosa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das chuvas. Mesmo no cen\u00e1rio luminoso de um mundo que tenha conseguido obedecer \u00e0s metas da ONU, se a Amaz\u00f4nia se vai, o estado de Goi\u00e1s, o Norte de Mato Grosso, o Norte da Bahia e boa parte do Sudeste brasileiro perdem de 0,6 a 1,8 mm de chuva&nbsp;<em>por dia<\/em>. No cora\u00e7\u00e3o da floresta, a queda pode chegar a 2 mm, o que corresponde a quase 30% da precipita\u00e7\u00e3o anual. Na m\u00e9dia brasileira, chover\u00e1 menos 25% no pa\u00eds. O agroneg\u00f3cio ficar\u00e1 de joelhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rios escassear\u00e3o e os fluxos h\u00eddricos se tornar\u00e3o d\u00e9beis, o que acarretar\u00e1 o colapso sazonal da gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica, da qual depende boa parte da nossa matriz energ\u00e9tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em escala global, mesmo que o mundo fa\u00e7a um grande esfor\u00e7o para reduzir sua pegada de carbono, o desmate completo da Amaz\u00f4nia p\u00f5e em risco a viabilidade do planeta. Ocorrer\u00e1 um aumento acentuado de temperatura no Meio-Oeste norte-americano, um aumento significativo ainda que mais brando na Europa e na Austr\u00e1lia, e um aumento agudo, de quase 2\u00baC, no \u00c1rtico. Isso significar\u00e1 degelo acelerado da calota polar e, muito provavelmente, uma mudan\u00e7a radical no regime dos ventos. A convers\u00e3o de toda a floresta para o agroneg\u00f3cio lan\u00e7ar\u00e1 na atmosfera o equivalente a quinze anos de emiss\u00e3o mundial de gases de efeito estufa, conforme o padr\u00e3o atual de uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Shevliakova resumiu as li\u00e7\u00f5es do modelo: sem a Amaz\u00f4nia, o mundo ter\u00e1 muita dificuldade em se manter dentro das metas do IPCC. O sofrimento maior, contudo, ser\u00e1 do Brasil e de seus vizinhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eram resultados que not\u00edcias rec\u00e9m-chegadas da Amaz\u00f4nia tornavam ainda mais perturbadores. A regi\u00e3o atravessava meses dif\u00edceis, marcados por grandes queimadas e uma acelera\u00e7\u00e3o do desmatamento. A imprensa internacional vinha dando destaque \u00e0 cat\u00e1strofe ambiental em curso, quase sempre salientando o papel da pecu\u00e1ria na din\u00e2mica de ocupa\u00e7\u00e3o da floresta. Imagens de sat\u00e9lite atestavam a r\u00e1pida convers\u00e3o da mata em pasto \u2013 as pastagens representam hoje 70% de toda a \u00e1rea desmatada do bioma Amaz\u00f4nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Participantes brasileiros, entretanto, alertaram os colegas estrangeiros sobre as sutilezas desse processo. O gado muitas vezes n\u00e3o passava de artimanha para fazer crer que essa ou aquela propriedade j\u00e1 tinha dono e que ali se produzia. Desde o in\u00edcio do novo s\u00e9culo, disseram, e particularmente nos \u00faltimos anos, um dos principais vetores do desmatamento pouco tinha a ver com atividades produtivas. Sua natureza seria especulativa. Ocupava-se a floresta p\u00fablica com o intuito de incorpor\u00e1-la ao patrim\u00f4nio pessoal \u2013 n\u00e3o necessariamente para produzir, mas para vend\u00ea-la mais \u00e0 frente, quando as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se tornassem favor\u00e1veis \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o do delito fundi\u00e1rio. Enquanto isso n\u00e3o acontecia, sempre era poss\u00edvel \u2013 e prudente \u2013 marcar posi\u00e7\u00e3o salpicando uns bois na terra roubada ou mesmo arrendando a propriedade para quem quisesse criar l\u00e1 o seu gado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00eas antes do encontro, um dos palestrantes do evento, o procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal Daniel Azeredo, explicara em Bras\u00edlia a din\u00e2mica singular do desmatamento no Brasil: \u201cO bandido rouba o banco, a pol\u00edcia vai l\u00e1, prende o bandido e confisca o produto do crime. Idem com os carros: quando o ladr\u00e3o \u00e9 preso, o ve\u00edculo \u00e9 devolvido ao dono. Roubo de terra \u00e9 diferente: o cara recebe uma multa e fica com o produto do crime, que \u00e9 a terra.\u201d N\u00e3o s\u00f3 toma para si o que antes era propriedade do conjunto dos brasileiros, mas aposta na possibilidade de um dia legalizar aquilo de que se apropriou criminosamente. As sucessivas anistias promulgadas pelo Estado para perdoar os delitos fundi\u00e1rios do passado s\u00e3o um forte incentivo para que o criminoso do presente acredite que tamb\u00e9m ele ser\u00e1 beneficiado mais \u00e0 frente. Mesmo que a titula\u00e7\u00e3o leve anos, ele logo ter\u00e1 se inserido no mercado, misturando sem muita dificuldade o legal com o ilegal, a madeira boa com a madeira ruim, o gado que pasta em fazendas leg\u00edtimas com o gado que ocupa \u00e1reas griladas. Quando finalmente conseguir o t\u00edtulo de propriedade, ter\u00e1 um bem valioso para negociar. \u201cO arcabou\u00e7o legal e as pr\u00e1ticas administrativas o favorecem\u201d, resume o procurador. De fato: \u201cA propriedade privada \u00e9 sagrada\u201d, declarou o presidente Jair Bolsonaro em novembro deste ano, mandando o seu vice retirar de um documento de trabalho a proposta de expropriar im\u00f3veis rurais localizados em terras p\u00fablicas ocupadas criminalmente. Tampouco permitiu o confisco de propriedades nas quais se praticam crimes ambientais.&nbsp; Da janela do gabinete de Azeredo, cortinas de fuma\u00e7a subiam do Cerrado, que, \u00e0quela altura, tamb\u00e9m queimava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa Amaz\u00f4nia, crime \u00e9 investimento\u201d, anotou a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho em seu livro&nbsp;<em>Vai, Brasil<\/em>. Ouvira a frase de um advogado da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra: \u201cO cara n\u00e3o paga as multas ambientais e \u00e9 anistiado. O cara manda matar e n\u00e3o \u00e9 punido.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Princeton, Azeredo deu exemplos: \u201cQuem botou fogo na floresta para ocupar consegue documento oficial. Pede nota fiscal e o governo emite. Consegue guia de tr\u00e2nsito animal, um documento fitossanit\u00e1rio. Consegue cadastro ambiental rural. O Estado \u00e9 carinhoso com os criminosos.\u201d Segundo o procurador, s\u00e3o cometidos anualmente 23 mil crimes de desmatamento na Amaz\u00f4nia; somando-se a tr\u00e1fico ilegal de animais, biopirataria e extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira, chega-se a mais de 100 mil crimes ambientais. \u201cN\u00e3o existe for\u00e7a policial ou MP no mundo capaz de resolver isso\u201d, diz. O problema exige a\u00e7\u00f5es \u201cestruturais\u201d, afirmara na conversa em Bras\u00edlia: \u201cA solu\u00e7\u00e3o \u00e9 rastrear o boi, a madeira, a soja. J\u00e1 existe tecnologia para isso. Voc\u00ea precisa de 300 milh\u00f5es de reais para rastrear todo o rebanho brasileiro na Amaz\u00f4nia com brincos e GPS. Avan\u00e7ou para dentro da floresta, o sistema apita. Mas o setor pecu\u00e1rio \u00e9 contra e n\u00e3o existe vontade pol\u00edtica.\u201d Uruguai e Austr\u00e1lia, concorrentes diretos do Brasil, al\u00e9m de Uni\u00e3o Europeia, Canad\u00e1, Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Botsuana e Nam\u00edbia, adotam essa tecnologia e monitoram eletronicamente 100% dos seus rebanhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de geoci\u00eancias Michael Oppenheimer, diretor do Centro de Pesquisa de Pol\u00edticas sobre Energia e Meio Ambiente de Princeton, foi sint\u00e9tico ao ser chamado pelo mediador a comentar o que vinha escutando: \u201cFinalmente compreendi a l\u00f3gica da ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia: n\u00e3o \u00e9 o boi, \u00e9 a terra.\u201d Sempre fora a terra. Era ela que explicava Tucum\u00e3 e Ouril\u00e2ndia, no Par\u00e1, exemplos de experi\u00eancias que vinham se repetindo na Amaz\u00f4nia desde a d\u00e9cada de 1960, quando se iniciou a grande onda migrat\u00f3ria do sul para o norte do pa\u00eds. (O surgimento dessas cidades \u00e9 tema do primeiro artigo da s\u00e9rie&nbsp;<em>Arrabalde<\/em>.)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o em Princeton ressaltaria esse ponto. Ao cabo de dois dias de conversas, o f\u00edsico te\u00f3rico Robert Socolow, professor em\u00e9rito do Centro de Estudos Ambientais da universidade, ocupou o p\u00f3dio e projetou uma pintura a \u00f3leo de 1872,&nbsp;<a href=\"https:\/\/picturinghistory.gc.cuny.edu\/john-gast-american-progress-1872\/\"><em>Progresso Americano<\/em><\/a>, de autoria de John Gast.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/171_dossiepiaui2.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-391913\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Na tela, uma jovem descal\u00e7a caminha no ar, flutuando, coberta por uma di\u00e1fana t\u00fanica branca. Inclinada para a frente, avan\u00e7a resolutamente da direita para a esquerda do quadro, do Leste luminoso, onde j\u00e1 amanhece, para o Oeste escuro, onde ainda \u00e9 noite. Ao redor dela, seguindo-a como quem segue a luz de um farol, v\u00eam os homens brancos, aqueles que civilizar\u00e3o as extens\u00f5es de terras brutas at\u00e9 o Pac\u00edfico. Trazem consigo as ferramentas do dom\u00ednio e do progresso: a p\u00e1, o arado, o correio, a dilig\u00eancia, a locomotiva a vapor. A jovem, a quem Gast chamou&nbsp;<em>Progresso<\/em>, segura entre os dedos um fio de tel\u00e9grafo e, como uma tecel\u00e3, leva-o de poste em poste, cerzindo assim o progresso. O livro escolar que traz na m\u00e3o esquerda assinala a chegada da educa\u00e7\u00e3o. \u00c0 frente dela, apavorados com o fulgor de sua luz, bestas selvagens e grupos de habitantes nativos fogem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 noite.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Progresso Americano<\/em>&nbsp;\u00e9 a mais conhecida representa\u00e7\u00e3o visual do conceito de destino manifesto, pilar da doutrina expansionista que forneceu o combust\u00edvel ideol\u00f3gico para o avan\u00e7o dos colonos em dire\u00e7\u00e3o ao Oeste. Alcan\u00e7ar o Pac\u00edfico, ocupando todas as terras \u201cdo mar ao radioso mar\u201d, seria n\u00e3o s\u00f3 um direito divino, mas tamb\u00e9m uma obriga\u00e7\u00e3o moral dos novos habitantes da Am\u00e9rica. A coloniza\u00e7\u00e3o de terras virgens por imigrantes europeus que haviam deixado para tr\u00e1s o peso morto da hist\u00f3ria, das tradi\u00e7\u00f5es claustrof\u00f3bicas, dos sistemas pol\u00edticos envelhecidos, significava a possibilidade de \u201ccome\u00e7ar o mundo novamente\u201d, na frase do revolucion\u00e1rio Thomas Paine.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando a imagem de&nbsp;<em>Progresso Americano<\/em>, Robert Socolow disse: \u201cO Oeste americano \u00e9 o Norte brasileiro.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sim e n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flor3.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-392152\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Cem anos separam as pol\u00edticas de ocupa\u00e7\u00e3o do Oeste norte-americano das a\u00e7\u00f5es brasileiras para povoar a Amaz\u00f4nia. Certo, o deslocamento demogr\u00e1fico ocorreu em escala muito diferente \u2013 l\u00e1, cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o acabaria por se fixar no Oeste; aqui, migraram para o Norte algo como 1 milh\u00e3o de pessoas, nem 1% da popula\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1980 \u2013, mas, em ambos os casos, contingentes humanos deixaram para tr\u00e1s o pouco que tinham e, estimulados pelos governos, reiniciaram a vida em outro lugar. Nesse sentido, a despeito das singularidades de cada experi\u00eancia hist\u00f3rica, a analogia de Socolow funciona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, \u00e9 menos que perfeita. Uma de suas falhas diz respeito n\u00e3o tanto a quest\u00f5es pol\u00edticas, sociol\u00f3gicas ou econ\u00f4micas, mas \u00e0 mat\u00e9ria simb\u00f3lica. Pode-se resumi-la assim: n\u00e3o temos um correlato nacional da tela&nbsp;<em>Progresso Americano<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o do territ\u00f3rio norte-americano produziu uma \u00e9pica que se espalhou mundo afora. N\u00f3s a conhecemos muito bem. Dilig\u00eancias, ferrovias, fortes militares, cavalos, apaches, desertos, pradarias, bisontes, bandidos, John Wayne, carabinas, flechas, xerifes,&nbsp;<em>saloons<\/em>. \u00c9 uma epopeia que principalmente o cinema ajudou a fixar na imagina\u00e7\u00e3o moderna, mas n\u00e3o s\u00f3 ele; a m\u00fasica, as artes visuais e a literatura, tanto a popular como a erudita, tamb\u00e9m contribu\u00edram para essa constru\u00e7\u00e3o. A paisagem do Oeste se tornou parte do patrim\u00f4nio comum da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma geografia que confere pertencimento. A beleza e a escala da topografia se converteram em atributos espirituais que imantaram a identidade nacional. Ser um cidad\u00e3o dos Estados Unidos da Am\u00e9rica \u00e9 saber que aquela paisagem corre dentro de voc\u00ea \u2013 ela \u00e9 sua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste com o Brasil n\u00e3o poderia ser maior. Onde est\u00e3o nossas constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da Amaz\u00f4nia? Que papel a floresta ocupa na economia mental da na\u00e7\u00e3o? As respostas n\u00e3o s\u00e3o boas. Temos muito mais lacunas do que ideias potentes sobre o nosso maior patrim\u00f4nio natural. N\u00e3o desenvolvemos uma \u00e9pica amaz\u00f4nica para compartilhar entre n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata, \u00e9 claro, de nenhuma car\u00eancia de material. Seja das cosmogonias ind\u00edgenas, seja da vasta biblioteca formada pelo testemunho de naturalistas, viajantes e escritores sobre a floresta, seja da rica tradi\u00e7\u00e3o dos pesquisadores das ci\u00eancias humanas que reinventaram seus campos de saber a partir de estudos na regi\u00e3o, de todas essas fontes e de outras mais \u2013 da Guerra dos Cabanos, do ciclo da borracha, da constru\u00e7\u00e3o da Madeira-Mamor\u00e9 e, mais tarde, da Transamaz\u00f4nica, da coloniza\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas de 1960, 70 e 80 \u2013, teria sido poss\u00edvel extrair os elementos para construir uma Amaz\u00f4nia simb\u00f3lica que fizesse parte do nosso sentimento comum de povo. Se isso n\u00e3o aconteceu, n\u00e3o parece ter sido por acidente. \u00c9 mais prov\u00e1vel que o modo como escolhemos ocupar a floresta tenha determinado essa aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o. Exercemos uma esp\u00e9cie de colonialismo indiferente, ocupamos sem querer conhecer. \u00c9 mais f\u00e1cil destruir o que n\u00e3o est\u00e1 investido de curiosidade ou afei\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNuma terra, primeiro vem o bandido, para amansar, depois vem o mocinho\u201d, diz o jornalista paraense L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto a Alexandra Lucas Coelho. \u201cS\u00f3 que na Amaz\u00f4nia o mocinho nunca chegou. Quinze por cento da Floresta Amaz\u00f4nica j\u00e1 foi destru\u00edda\u201d \u2013 os n\u00fameros hoje se aproximam de 20%. \u201cNunca o homem derrubou tantas \u00e1rvores. A Amaz\u00f4nia era a \u00faltima esperan\u00e7a de uma civiliza\u00e7\u00e3o florestal, e isso est\u00e1 acabando.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deslocando o terreno de compara\u00e7\u00e3o do Oeste norte-americano para o Sul escravocrata, outro tipo de contraste vem \u00e0 tona. Num&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2019\/08\/14\/magazine\/slavery-capitalism.html\">ensaio<\/a>&nbsp;sobre as ra\u00edzes econ\u00f4micas do racismo nos Estados Unidos, o soci\u00f3logo Matthew Desmond escreveu: \u201cO que fez a economia do algod\u00e3o prosperar mais no sul dos Estados Unidos do que em outras partes do mundo com clima e solo igualmente adequados \u00e0 lavoura foi a disposi\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel da nossa na\u00e7\u00e3o para usar de viol\u00eancia em pessoas n\u00e3o brancas e para fazer valer sua vontade sobre estoques aparentemente infinitos de terra e m\u00e3o de obra. Dada a possibilidade de escolher entre modernidade e barb\u00e1rie, prosperidade e pobreza, legalidade e crueldade, democracia e totalitarismo, a Am\u00e9rica escolheu todas as alternativas acima.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O caso brasileiro \u00e9 outro. Na corrida rumo ao norte, optamos quase sempre pelo segundo termo dessas dualidades. Destru\u00edmos muito em troca de pouco e a um custo imenso. Em rela\u00e7\u00e3o aos indicadores do restante do pa\u00eds, os \u00edndices sociais s\u00e3o decisivamente piores na Amaz\u00f4nia Legal, divis\u00e3o administrativa que engloba nove estados \u2013 Amazonas, Par\u00e1, Tocantins, Acre, Amap\u00e1, Rond\u00f4nia, Roraima, Mato Grosso e parte do Maranh\u00e3o \u2013, correspondendo a 58,9% do territ\u00f3rio nacional.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/sete-bois-em-linha\/#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;\u201cDos munic\u00edpios com os vinte maiores IDHs do Brasil, nenhum est\u00e1 na Amaz\u00f4nia. J\u00e1 dentre os vinte com os piores IDHs, quinze est\u00e3o na regi\u00e3o\u201d, disse Marcello Brito, presidente do Conselho Diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio (Abag). Falava a executivos de empresas que investem na Amaz\u00f4nia, l\u00edderes do terceiro setor, ambientalistas e funcion\u00e1rios de governo, uma plateia heterodoxa que, reunida num hotel de Bel\u00e9m em novembro de 2019, discutia propostas de desenvolvimento da regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Convidado a fazer a palestra de abertura do evento, Brito usou a ocasi\u00e3o para apresentar um quadro sombrio: \u201cDas cem melhores cidades para se investir no Brasil, nenhuma est\u00e1 na Amaz\u00f4nia [<em>um ranking de 2019 inclui cinco cidades da regi\u00e3o Norte: Palmas&nbsp;<\/em>(<em>22\u00aa posi\u00e7\u00e3o<\/em>)<em>, Aragua\u00edna&nbsp;<\/em>(<em>61\u00aa<\/em>)<em>, Manaus&nbsp;<\/em>(<em>70<sup>a<\/sup>posi\u00e7\u00e3o<\/em>)<em>, Porto Velho&nbsp;<\/em>(<em>86<sup>a<\/sup><\/em>)<em>&nbsp;e Paragominas&nbsp;<\/em>(<em>99<sup>a<\/sup><\/em>)]. Das cem cidades com melhor desenvolvimento social, nenhuma est\u00e1 na Amaz\u00f4nia. Dos estados que mais investem em ci\u00eancia e tecnologia, o Amazonas aparece em quinto lugar, e isso por causa da Zona Franca de Manaus, que \u00e9 inteiramente desconectada da economia florestal \u2013 os outros estados da regi\u00e3o Norte est\u00e3o no fim da lista. Oitenta e dois por cento dos que vivem na Amaz\u00f4nia n\u00e3o t\u00eam acesso a saneamento b\u00e1sico.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu assim por mais algum tempo, empilhando estat\u00edstica em cima de estat\u00edstica, desenhando o retrato de um fracasso nacional: \u201cO terceiro setor falhou ao n\u00e3o apresentar um projeto de desenvolvimento vi\u00e1vel, o setor empresarial foi nocivo e o poder p\u00fablico n\u00e3o conseguiu deter a destrui\u00e7\u00e3o\u201d, disse. Lamentou que a regi\u00e3o estivesse sendo roubada debaixo dos nossos olhos: \u201cTemos duas Alemanhas de terras devolutas na Amaz\u00f4nia, terras p\u00fablicas, que pertencem a todos n\u00f3s, e \u00e9 nelas que acontece a grilagem, o roubo. Impressionante como a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mobiliza. Est\u00e3o roubando o que \u00e9 nosso.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Brito encerrou com dados que tornam no m\u00ednimo problem\u00e1tica a imagem que o agroneg\u00f3cio construiu de si \u2013 o de setor mais din\u00e2mico e moderno da economia, um pacote bem embalado que grande parte dos brasileiros comprou pelo valor de face. \u201cO Peru e o Chile exportam mais frutas do que o Brasil. A Guatemala exporta mais banana. Na Finl\u00e2ndia, a bioeconomia se organiza em setores bem consolidados, como madeira, papel e celulose. Eles t\u00eam florestas boreais com apenas quatro ou cinco esp\u00e9cies que demoram de 70 a 110 anos para chegar ao ponto de corte. Quando estive l\u00e1, ganhei de presente uma meia de fibra de celulose. Isso \u00e9 tecnologia. No Brasil, o tempo de corte \u00e9 de oito anos. Apesar dessa vantagem comparativa descomunal, plantamos pouqu\u00edssimas florestas. \u00c9 rid\u00edculo. Temos que ser mais competentes!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional (DSN), que at\u00e9 hoje informa o pensamento militar, embasou pol\u00edticas p\u00fablicas que, tal como na experi\u00eancia norte-americana, carrearam milh\u00f5es de pessoas de \u00e1reas j\u00e1 consolidadas do pa\u00eds para territ\u00f3rios de fronteira tidos como vazios e incultos. Foi o caso do Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, lan\u00e7ado pelo regime militar em 1970 com o slogan&nbsp;<em>Uma terra sem homens para homens sem terra<\/em>, d\u00edstico eloquente na sua desconsidera\u00e7\u00e3o das dezenas de milhares de habitantes aut\u00f3ctones da floresta. Como mostra um&nbsp;<a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/PDFimazon\/Portugues\/estado_da_amazonia\/o-avanco-da-fronteira-na-amazonia-do-boom-ao.pdf\">estudo<\/a>&nbsp;de 2007 dos pesquisadores Danielle Celentano e Adalberto Ver\u00edssimo, \u201ca Amaz\u00f4nia evoluiu de um relativo vazio demogr\u00e1fico em 1960 (apenas 5,4 milh\u00f5es de habitantes) para 11,2 milh\u00f5es em 1980, at\u00e9 atingir 22,5 milh\u00f5es em 2004\u201d. (Segundo estimativas do IBGE, hoje eles s\u00e3o 27,7 milh\u00f5es.)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gestada durante a Guerra Fria, a DSN ocupa-se da integridade e prote\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o nacional, percebido como objeto de incessante cobi\u00e7a por parte de estrangeiros. Reza a doutrina que os ermos do pa\u00eds s\u00e3o o nosso flanco vulner\u00e1vel, o calcanhar de aquiles da nossa soberania. Quanto mais vazias de gente forem as nossas terras, mais fr\u00e1gil ser\u00e1 a nossa seguran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dissociar a DSN de certo pendor paranoico que, \u00e0 falta de evid\u00eancias robustas, fabrica inimigos imagin\u00e1rios que mudam com o tempo, apenas para que suas m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es possam permanecer iguais. O pensamento conspirat\u00f3rio \u00e9 pr\u00f3digo em atualiz\u00e1-los a cada reacomoda\u00e7\u00e3o da ordem mundial. Dos comunistas da Guerra Fria aos globalistas de hoje; do fantasma das na\u00e7\u00f5es ricas do Norte, sedentas por recursos naturais, \u00e0 atual amea\u00e7a chinesa, passando sempre pelas ONGs a soldo de corpora\u00e7\u00f5es multinacionais, parece n\u00e3o haver limite para o n\u00famero de abutres que, movidos por interesses neocoloniais, almejam roubar a Amaz\u00f4nia dos brasileiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria ingenuidade imaginar que uma regi\u00e3o de tamanha riqueza estaria imune \u00e0 disputa econ\u00f4mica. A ironia evidente, contudo, \u00e9 que o imenso patrim\u00f4nio natural da Amaz\u00f4nia vem sendo, sim, subtra\u00eddo aos brasileiros, mas n\u00e3o por agentes do capital internacional. H\u00e1 uma correspond\u00eancia quase perfeita entre a destrui\u00e7\u00e3o da floresta e os fluxos populacionais que se direcionaram para a \u00e1rea. At\u00e9 1975, apenas 0,5% do bioma Amaz\u00f4nia havia sido desmatado. Dez anos depois, j\u00e1 eram 5%, \u00edndice que salta para 17% em 2007 e chega \u00e0 estimativa atual de um quinto da floresta. A Amaz\u00f4nia est\u00e1 sumindo no tempo de vida de uma gera\u00e7\u00e3o, por obra de brasileiros. \u00c9 uma hist\u00f3ria de poucas d\u00e9cadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional, que \u00e9 a matriz da nossa geopol\u00edtica para a regi\u00e3o, \u00e9 a madrasta intelectual da Amaz\u00f4nia\u201d, diz o jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto, que dedicou a vida a cobrir a regi\u00e3o. O mal, segundo ele, \u00e9 que a doutrina barra o di\u00e1logo com o exterior: \u201cA Amaz\u00f4nia s\u00f3 ter\u00e1 sa\u00edda em conversa com o mundo. O medo dos estrangeiros \u00e9 uma fal\u00e1cia.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda a sua carreira, Pinto, de 71 anos, desagradou aos poderes que tentaram impor seus interesses \u00e0 Amaz\u00f4nia, fossem mineradoras, empreiteiras, empresas de energia, produtores rurais ou oligarquias pol\u00edticas. \u00c9 um homem de aspecto mais fr\u00e1gil do que se suporia, dada a bravura com que sempre exerceu a profiss\u00e3o, ainda mais numa regi\u00e3o perigosa como essa. Com seus \u00f3culos redondos de intelectual, sua voz baixa e suas belas concord\u00e2ncias da segunda pessoa do singular, t\u00e3o t\u00edpicas do falar paraense \u2013 \u201cSe tu prestares aten\u00e7\u00e3o\u2026\u201d \u2013, ele lembra um professor em\u00e9rito a quem se recorre para elucidar pontos que seus sucessores mais jovens ainda n\u00e3o dominam inteiramente. A Amaz\u00f4nia \u00e9 a sua mat\u00e9ria. Do breve encontro num restaurante de comida regional em Bel\u00e9m, sobressaiu nele a dor diante de um Par\u00e1 continuamente espoliado n\u00e3o por estrangeiros, mas por conterr\u00e2neos, numa reprodu\u00e7\u00e3o, com sinal invertido, do modelo de domina\u00e7\u00e3o colonial a que a hist\u00f3ria nos acostumou \u2013 aqui, fugindo \u00e0 regra, \u00e9 o Sul que subjuga o Norte e n\u00e3o o contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Par\u00e1 \u00e9 o estado que mais sofreu interven\u00e7\u00e3o do governo federal durante a ditadura\u201d, diz o ex-governador Sim\u00e3o Jatene, de 71 anos, sentado no ch\u00e3o da sala de seu apartamento em Bel\u00e9m. O ambiente amplo \u00e9 tomado por livros, artefatos da cultura regional e, num canto, instrumentos musicais \u00e0 volta de um microfone \u2013 Jatene, cujo rosto tem uma vivacidade de crian\u00e7a, gosta de cantar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das consequ\u00eancias da m\u00e3o forte da Uni\u00e3o sobre o estado foi a progressiva anemia das for\u00e7as locais. \u201cN\u00e3o gosto dessa palavrinha, mas paci\u00eancia, vamos com ela mesmo:&nbsp;<em>elites<\/em>\u201d, ele diz, cada vez mais agitado. \u201cPois bem, essa presen\u00e7a federal esmagou todas elas.\u201d Jatene havia come\u00e7ado a conversa numa poltrona, mas, \u00e0 medida que foi se animando e seus olhos passaram a brilhar como os de um bom narrador enfeiti\u00e7ado pela pr\u00f3pria hist\u00f3ria, saltou para o ch\u00e3o e ali ficou pelas duas horas seguintes. A submiss\u00e3o dos poderes locais, explicou, podia ser aferida pelos exemplos t\u00e3o diferentes da sudene e da Sudam, ag\u00eancias federais de desenvolvimento regional criadas para promover, respectivamente, o Nordeste e a regi\u00e3o amaz\u00f4nica: \u201cToda vez que queriam mexer na sudene, a elite nordestina pulava. Jamais tiveste isso com a Sudam. E por que n\u00e3o? Os movimentos eram opostos. \u00c9 como eu sempre disse: a sudene era a presen\u00e7a do Nordeste no Planalto e a Sudam era a pata do governo federal na Amaz\u00f4nia. Durante d\u00e9cadas o superintendente da Sudam foi muito mais importante do que qualquer governador da regi\u00e3o, quer dizer: quem dava as cartas era um cara ligado ao governo federal.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o somente as for\u00e7as pol\u00edticas sofreram com esse arranjo. O fato de as decis\u00f5es mais relevantes sobre o desenvolvimento da regi\u00e3o serem tomadas em centros de poder longe dali esmagava tamb\u00e9m a elite empresarial. \u201cTe dou um exemplo concreto dessa desconex\u00e3o: durante anos, a sede da Associa\u00e7\u00e3o dos Empres\u00e1rios da Amaz\u00f4nia ficava em S\u00e3o Paulo!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O jugo federal chegou ao paroxismo com o decreto-lei n\u00ba 1164, de 1971, explica Jatene. \u201cDe uma s\u00f3 tacada, a Uni\u00e3o federalizava 100 km \u00e0 direita e \u00e0 esquerda de toda rodovia federal j\u00e1 existente ou s\u00f3 planejada. Veja que coisa maluca: valia tamb\u00e9m para estradas&nbsp;<em>pla-ne-ja-das<\/em>\u201d \u2013 ele levanta os bra\u00e7os como quem perdeu e se rende. A medida se aplicava a toda a Amaz\u00f4nia Legal. \u201cBastava algu\u00e9m riscar um tra\u00e7o no mapa e dizer: \u2018Aqui vai passar uma rodovia.\u2019 Pronto, duas faixas de 100 km correndo ao lado desse risco imagin\u00e1rio sa\u00edam da jurisdi\u00e7\u00e3o estadual!\u201d Deixavam de pertencer aos paraenses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado foi a federaliza\u00e7\u00e3o de mais de 70% do patrim\u00f4nio do Par\u00e1. \u201cNingu\u00e9m mais sabia o que era de quem. Por onde \u00e9 que passavam aqueles 200 km em volta de uma estrada que podia nem vir a existir?\u201d Estava contratado o caos fundi\u00e1rio que at\u00e9 hoje amaldi\u00e7oa o estado. Exasperado, Jatene lembra que, al\u00e9m do Incra, outros quatro \u00f3rg\u00e3os outorgavam t\u00edtulos de propriedade: Getat (Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins, criado como resposta \u00e0 guerrilha do Araguaia), Gebam (Grupo Executivo para a Regi\u00e3o do Baixo Amazonas), Iterpa (Instituto de Terras do Par\u00e1) e SPU (Secretaria do Patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o). N\u00e3o havia coordena\u00e7\u00e3o entre eles. \u201cQuando o decreto 1164 foi revogado, era imposs\u00edvel saber o que tinha voltado para o estado, o que tinha sido distribu\u00eddo pela Uni\u00e3o, o que tinha sido privatizado ou o que ainda era p\u00fablico.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas foram sendo implantadas por quem n\u00e3o via a Amaz\u00f4nia sen\u00e3o como um territ\u00f3rio vazio e uniforme, por estrangeiros ao lugar. \u201cAt\u00e9 hoje, quando se fala em Amaz\u00f4nia, quase sempre se desconsideram as Amaz\u00f4nias da Amaz\u00f4nia\u201d, lamenta Jatene. \u201cTu tens a Amaz\u00f4nia das estradas e a Amaz\u00f4nia dos rios. Aqui no Par\u00e1, se tu quiseres floresta, tu tens. Se tu quiseres campo, tu tens. Se tu quiseres mar, tu tens o mar. Se tu quiseres montanha, tu tens a montanha. E a\u00ed veio a migra\u00e7\u00e3o e tentou apagar toda essa diversidade. Os que chegavam tinham outra rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio. Eles queriam homogeneizar a Amaz\u00f4nia. Eu sempre digo: diferen\u00e7a tempera, desigualdade d\u00f3i, porra! Diferen\u00e7a \u00e9 \u00f3timo, e foi a diferen\u00e7a que sumiu.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com raras exce\u00e7\u00f5es, os colonos obedeceram ao impulso de transformar em poucas coisas \u2013 pasto, boi, soja \u2013 o que originalmente eram muitas. Com trabalho, empenho e ajuda do Estado brasileiro, come\u00e7aram a desbastar a imensa variedade da floresta tropical, simplificando-a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/gafanhotobaixa.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-392152\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>BR-163 corta o Brasil de Sul a Norte. Partindo do Rio Grande do Sul, chega at\u00e9 Cuiab\u00e1 e de l\u00e1 segue at\u00e9 Santar\u00e9m, cidade portu\u00e1ria do Par\u00e1. Esse \u00faltimo trecho une o Cerrado \u00e0 Amaz\u00f4nia, ligando as \u00e1reas j\u00e1 consolidadas do agroneg\u00f3cio brasileiro no Centro-Oeste \u00e0s novas fronteiras de expans\u00e3o do gado bovino e da soja no bioma amaz\u00f4nico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tomando a estrada em Santar\u00e9m, as janelas de um lado e do outro do carro d\u00e3o para cen\u00e1rios muito diferentes entre si. \u00c0 direita, quase ao alcance da m\u00e3o, o viajante ver\u00e1 correr a Floresta Nacional do Tapaj\u00f3s, unidade de conserva\u00e7\u00e3o criada em 1974 com uma \u00e1rea de 582 mil hectares, equivalente a duas vezes os munic\u00edpios do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo somados. \u00c0 esquerda, seus olhos n\u00e3o encontrar\u00e3o nenhuma barreira. Campos de soja se alongar\u00e3o at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A paisagem mudar\u00e1 pouco durante uma hora, e ent\u00e3o mudar\u00e1 muito. N\u00e3o \u00e0 direita, onde a floresta seguir\u00e1 margeando a estrada por duas ou tr\u00eas horas ainda. A grande transforma\u00e7\u00e3o acontecer\u00e1 nas janelas da esquerda. A topografia mais acidentada e as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas menos favor\u00e1veis \u00e0 soja far\u00e3o com que a lavoura se torne mais rara \u00e0 medida que o carro avan\u00e7a, at\u00e9 desaparecer completamente. O que ocupar\u00e1 o lugar dela \u00e9 nada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso descrever a qualidade desse nada. A primeira impress\u00e3o \u00e9 de uma vasta extens\u00e3o de terra abandonada. Aqui e ali, surgem algumas benfeitorias caracter\u00edsticas do ambiente rural \u2013 um curral, um cocho, um casebre \u2013, mas nenhuma criatura viva que delas se sirva. Algumas dessas constru\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o foram terminadas ou j\u00e1 est\u00e3o se desfazendo. O ar \u00e9 de desist\u00eancia e falta de vitalidade, como se o lugar n\u00e3o justificasse nem o empenho em criar, nem a tenacidade em manter o que eventualmente se criou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas seria errado dizer que nada existe ali. De quando em quando, alguns pontos brancos se destacam contra o solo marrom no qual o sol bate como um punho. S\u00e3o os bois. Parecem poucos para o tamanho da paisagem. Re\u00fanem-se sempre em forma\u00e7\u00f5es determinadas menos por instinto greg\u00e1rio ou hierarquias sociais do que pela exist\u00eancia de sombras. Se uma castanheira solit\u00e1ria sobreviveu no meio do descampado \u2013 a castanheira \u00e9 uma esp\u00e9cie protegida, requer autoriza\u00e7\u00e3o do Ibama para ser cortada \u2013, ent\u00e3o a manada estar\u00e1 debaixo de sua copa. Se um renque de arbustos cresce \u00e0 beira de um corpo d\u2019\u00e1gua, os animais se perfilar\u00e3o ao longo da vegeta\u00e7\u00e3o. Em certo ponto da estrada, o tronco de uma \u00e1rvore morta era a \u00fanica estrutura vertical \u00e0 vista. A risca escura que projetava no ch\u00e3o lembrava um rel\u00f3gio de sol. Sete bois faziam fila indiana em cima dessa sombra, o focinho de um no rabo do outro. Olharam com indiferen\u00e7a quando o carro diminuiu a velocidade para observ\u00e1-los. O essencial era n\u00e3o se mexer. Pareciam uma trupe de equilibristas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lideran\u00e7as do agroneg\u00f3cio e autoridades pol\u00edticas costumam dizer que o Brasil alimenta o mundo e que para alimentar o mundo o Brasil precisa da Amaz\u00f4nia. Mas&nbsp;<em>disso<\/em>&nbsp;certamente n\u00e3o precisa, n\u00e3o dessas terras mortas \u2013 o que \u00e9 um problema, pois onde os pioneiros chegaram esses baldios n\u00e3o s\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o. S\u00e3o a regra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dados recentes mostram que o pa\u00eds tem mais de 40 milh\u00f5es de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o natural em regenera\u00e7\u00e3o, o equivalente aos estados de S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1 somados. \u201cO que parece ser uma excelente not\u00edcia \u00e9, na verdade, uma constata\u00e7\u00e3o desoladora\u201d, escreveu o engenheiro florestal Tasso Azevedo no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, em setembro do ano passado. \u201cMais de 95% desta \u00e1rea n\u00e3o s\u00e3o resultado de um processo virtuoso de restaura\u00e7\u00e3o. De fato, s\u00e3o \u00e1reas degradadas que foram abandonadas.\u201d Azevedo lembra que, nos \u00faltimos trinta anos, de cada 10 hectares de florestas prim\u00e1rias desmatadas na Amaz\u00f4nia Legal, seis viraram pastagens de baixa produtividade, tr\u00eas foram abandonados e apenas 1 hectare se tornou terra agr\u00edcola produtiva ou infraestrutura urbana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se, de dez palavras, s\u00f3 uma fizesse sentido. Como se a frase anterior, de dez palavras, fosse reduzida a uma. Assim: \u00c9 como se, de dez palavras, s\u00f3 uma fizesse sentido. Todo esse espa\u00e7o agora em branco \u2013 toda essa floresta, todas as criaturas que nela habitavam, todas as riquezas que escondia \u2013, foi tudo destru\u00eddo por nada. \u00c9 um exemplo eloquente de fiasco. \u201cN\u00e3o faz nenhum sentido\u201d, conclui Azevedo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A margem esquerda da BR-163 n\u00e3o deixa d\u00favida de que n\u00e3o estamos derrubando a Amaz\u00f4nia para construir a Calif\u00f3rnia. A pecu\u00e1ria extensiva praticada na regi\u00e3o \u00e9 constrangedoramente pouco produtiva. No Par\u00e1, cada hectare de pasto \u00e9 ocupado por apenas um animal, \u00edndice que piora ainda mais quando se leva em conta que muitas terras abandonadas serviam \u00e0 pecu\u00e1ria no passado e hoje, degradadas e in\u00fateis para a produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o entram nas estat\u00edsticas de pastagem do censo agropecu\u00e1rio nacional. Se entrassem, a lota\u00e7\u00e3o se aproximaria de meio animal por hectare \u2013 um boi solit\u00e1rio a cada dois campos de futebol, \u00edndice de uma mediocridade que n\u00e3o encontra paralelo em muitas partes do mundo. O valor bruto por hectare da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria no Paran\u00e1 \u00e9 nove vezes superior ao que se registra no Par\u00e1. Em 2018, o estado sulino produziu 77 bilh\u00f5es de reais em 12,7 milh\u00f5es de hectares, enquanto no Norte foi preciso quase o dobro da \u00e1rea \u2013 21 milh\u00f5es de hectares \u2013 para gerar um quinto do valor, 14,4 bilh\u00f5es de reais. Muito pouco se faz da floresta derrubada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Euclides da Cunha j\u00e1 descrevia certo modo de colonizar a Amaz\u00f4nia em que o pioneiro d\u00e1 \u201ca tudo quanto pratica, na terra que devasta e desama, um car\u00e1ter provis\u00f3rio\u201d. De fato, n\u00e3o se imagina que a terra triste e empobrecida \u00e0 beira da rodovia tenha sido amada por quem se apossou dela. Cobi\u00e7ada, sim; querida, n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/bicho.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-392152\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Dias antes da viagem pela BR-163, num evento na Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1, em Santar\u00e9m, o padre Edilberto Sena, um franciscano de 78 anos que dedicou a vida \u00e0 defesa dos pequenos agricultores da Amaz\u00f4nia, pintara um quadro sombrio da situa\u00e7\u00e3o do campo: \u201cVoc\u00eas me perguntam sobre o futuro do meio rural. Pois eu vou lhes falar do triste futuro do meio rural. Setenta e cinco por cento da popula\u00e7\u00e3o que trabalha no campo n\u00e3o mora mais no meio rural. As periferias incham em Monte Alegre, em Belterra\u201d (munic\u00edpios vizinhos a Santar\u00e9m). Na fala do padre Edilberto, as perspectivas do futuro se estreitaram ainda mais: \u201cEnt\u00e3o, eis a pergunta: Quando as commodities ca\u00edrem de pre\u00e7o, com as nossas terras saqueadas, contaminadas, o que sobrar\u00e1? Os forasteiros v\u00e3o voltar para o lugar de onde vieram, n\u00f3s ficaremos aqui. E o que ser\u00e1 de n\u00f3s?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Monte Alegre e Belterra. Se os nomes guardassem alguma correspond\u00eancia com a realidade, a paisagem seria outra, mas a topon\u00edmia amaz\u00f4nica, claro, n\u00e3o difere da de tantas partes do Brasil. A admira\u00e7\u00e3o pela natureza, o projeto civilizat\u00f3rio, a domestica\u00e7\u00e3o gentil e cuidadosa da terra se encerram e se esgotam no ato de batismo, liberando a obra para o descaso. Primavera, Aurora do Par\u00e1, Floresta do Araguaia, Eldorado de Caraj\u00e1s, Conc\u00f3rdia do Par\u00e1, \u00c1gua Azul do Norte, Nova Esperan\u00e7a do Piri\u00e1: todos esses munic\u00edpios contam com&nbsp;<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Tabela-INPE.pdf\">extensas \u00e1reas degradadas<\/a>&nbsp;nas quais se produz pouco e mal. A incongru\u00eancia entre a palavra e a coisa \u00e9 uma medida da nossa derrota, quando n\u00e3o da nossa hipocrisia. Um pouco como os animais em risco de extin\u00e7\u00e3o que exaltamos nas c\u00e9dulas do real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil algu\u00e9m se enternecer diante de um pasto arruinado. Se, como quer o poeta paraense Jo\u00e3o de Jesus Paes Loureiro, a natureza pode revelar emo\u00e7\u00e3o e conhecimento no observador, se \u00e9 capaz de provocar em quem a contempla \u201cum sentimento destitu\u00eddo de interesse\u201d, \u201co sentimento gratuito de estar diante de uma coisa que emociona e confere prazer em sua frui\u00e7\u00e3o\u201d, ent\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o da margem direita da BR-163 em margem esquerda \u00e9 uma esp\u00e9cie de alquimia que transmuda um \u201cbem humano\u201d em \u201cbem material\u201d. A natureza agora vale apenas por sua utilidade econ\u00f4mica. Nas palavras de Loureiro: \u201cA beleza \u00e9 substitu\u00edda pelo pre\u00e7o.\u201d A floresta vira pasto barato.<\/p>\n\n\n\n<p>ete horas depois de deixar Santar\u00e9m, chega-se a Itaituba. Sinais de abandono acompanharam o viajante por todo o trajeto de 370 km que separa as duas cidades. Bastou tomar qualquer estrada vicinal para v\u00ea-los de perto: pontes inacabadas sobre pequenos igarap\u00e9s, tubula\u00e7\u00f5es interrompidas no meio do nada, barracos em ru\u00ednas, cercas derrubadas, mour\u00f5es apodrecidos, currais tombados, porteiras quebradas. N\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios de perman\u00eancia, de coisa feita para durar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entra-se em Itaituba ladeando um grande conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida. S\u00e3o centenas de casas dispostas em fila, umas coladas nas outras e todas viradas para o mesmo lado. Lembram uma tropa de soldados em ordem-unida. Afora a monotonia, o que chama a aten\u00e7\u00e3o imediatamente \u00e9 a inexist\u00eancia de sombra. N\u00e3o h\u00e1 \u00e1rvores, apenas concreto, telha, asfalto e poeira. Vistos a dist\u00e2ncia, os telhados de duas \u00e1guas vibram no calor da tarde \u2013 parecem bater asas, um modo de sair dali. A Amaz\u00f4nia sem a Amaz\u00f4nia \u00e9 um lugar irreal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com cerca de 100 mil habitantes, Itaituba \u00e9 uma cidade de garimpeiros. No passado, seu modesto aeroporto foi um dos mais movimentados do pa\u00eds. Alguns registros falam em cem pousos e decolagens por dia, um fluxo cont\u00ednuo de avi\u00f5es de pequeno porte carregados de combust\u00edvel e mantimentos para os garimpos espalhados ao longo do Rio Tapaj\u00f3s. Em 2019 a cidade inaugurou um monumento ao garimpeiro \u2013 a est\u00e1tua de um homem de chap\u00e9u de palha segurando uma bateia. \u00c9 a representa\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de um personagem que j\u00e1 n\u00e3o existe. O garimpeiro de hoje \u00e9 um assalariado sem direitos, trabalhando em condi\u00e7\u00f5es insalubres a bordo de m\u00e1quinas pesadas que exigem capital. De acordo com a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Rep\u00f3rter Brasil, \u201cestima-se que garimpos ilegais faturem de 3 a 4 bilh\u00f5es de reais anuais no pa\u00eds. Em Itaituba, garimpeiros compram cerca de cem escavadeiras por ano de uma \u00fanica empresa \u2013 cada m\u00e1quina chega a custar 1 milh\u00e3o de reais\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.itaituba.pa.gov.br\/noticia\/298\/itaituba-homenageia-garimpeiros-com-monumento\/\">site da prefeitura<\/a>&nbsp;informa que Itaituba deve muito \u00e0 \u201cclasse garimpeira que h\u00e1 d\u00e9cadas s\u00e3o [<em>sic<\/em>] respons\u00e1veis pela maior parte da economia do munic\u00edpio\u201d. Grande parte dessa atividade \u00e9 ilegal. Eis alguns resultados dessa op\u00e7\u00e3o de desenvolvimento: comparando com a m\u00e9dia dos munic\u00edpios da regi\u00e3o Norte, Itaituba tem \u00edndices piores de desmatamento recente, de viol\u00eancia contra ind\u00edgenas e de mortalidade por doen\u00e7as infecciosas. Menos de 2% da popula\u00e7\u00e3o urbana tem acesso \u00e0 rede de esgoto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas mazelas est\u00e3o ligadas n\u00e3o \u00e0 pobreza, mas ao tipo de prosperidade que se buscou ali. Itaituba \u00e9 um dos principais centros econ\u00f4micos do Oeste paraense. A riqueza n\u00e3o se traduz em melhoria do entorno, em conquistas c\u00edvicas. O descuido com a arboriza\u00e7\u00e3o de ruas e pra\u00e7as, as cal\u00e7adas intransit\u00e1veis, o desrespeito \u00e0s regras de tr\u00e2nsito, a inexist\u00eancia de ordenamento urbano e, principalmente, a incompreens\u00e3o da cidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 geografia em que est\u00e1 inserida, nada disso destoa do padr\u00e3o encontrado nos ajuntamentos urbanos mais pobres do Norte. A est\u00e1tua do garimpeiro foi erguida na \u00fanica atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica da cidade, o cal\u00e7ad\u00e3o que margeia o Tapaj\u00f3s, rio que a atividade celebrada pelo monumento vem destruindo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1415-790X2003000200010\">estudo<\/a>&nbsp;de 2003 publicado na&nbsp;<em>Revista Brasileira de Epidemiologia<\/em>&nbsp;por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas\/Funasa constatou teores elevados de merc\u00fario nas popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas do Tapaj\u00f3s. Despejado nos rios pelo garimpo, o metal \u00e9 um potente neurot\u00f3xico que j\u00e1 provocou calamidades de sa\u00fade p\u00fablica em v\u00e1rias partes do mundo. Uma das formas de intoxica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por via alimentar. O merc\u00fario ser\u00e1 absorvido pelas algas, alimento de peixes n\u00e3o pisc\u00edvoros, os quais, por sua vez, ser\u00e3o devorados por peixes maiores e assim por diante, numa sucess\u00e3o alimentar que, a cada nova etapa, concentra mais metal no organismo do mais recente consumidor. Para muitas comunidades ribeirinhas e ind\u00edgenas, o pescado costuma ser a principal fonte de prote\u00edna animal, quando n\u00e3o a \u00fanica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003, o resultado das an\u00e1lises feitas pelos pesquisadores do IEC\/Funasa em peixes de oito localidades \u00e0s margens do Tapaj\u00f3s verificou que, salvo por um pequeno distrito mais ao norte, as amostras de Itaituba continham as maiores concentra\u00e7\u00f5es de merc\u00fario, mas ainda abaixo do limite m\u00e1ximo estabelecido pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. Apenas oito anos depois, em 2011, j\u00e1 n\u00e3o era assim. Uma&nbsp;<a href=\"http:\/\/repositorio.ufpa.br\/jspui\/handle\/2011\/2597\">disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<\/a>&nbsp;apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neuroci\u00eancias e Biologia Celular da Universidade Federal do Par\u00e1 verificaria que os peixes comercializados no mercado municipal de Itaituba \u201c[<em>apresentavam<\/em>] n\u00edveis de metilmerc\u00fario acima do limite preconizado pela OMS\u201d. Uma das esp\u00e9cies chegou a ultrapassar \u201cat\u00e9 cinco vezes o limite de toler\u00e2ncia da OMS\u201d. A alt\u00edssima neurotoxicidade do metilmerc\u00fario \u2013 a forma mais patog\u00eanica do metal \u2013 foi identificada em 1956, no Jap\u00e3o, onde provocou o envenenamento maci\u00e7o de pessoas e animais numa pequena cidade portu\u00e1ria. Os sintomas do chamado mal de Minamata surgiram vinte anos depois do in\u00edcio da contamina\u00e7\u00e3o ambiental. Primeiro, foram os gatos que come\u00e7aram a perder o equil\u00edbrio. Logo apareceram as pessoas, tr\u00f4pegas, com danos \u00e0 vis\u00e3o e \u00e0 audi\u00e7\u00e3o, acometidas por surtos psic\u00f3ticos, v\u00edtimas de s\u00e9rios dist\u00farbios cerebrais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 29 de outubro e 9 de novembro de 2019, cientistas da Fiocruz e de outras sete institui\u00e7\u00f5es de pesquisa visitaram o M\u00e9dio Tapaj\u00f3s para avaliar o impacto da contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario em habitantes da Terra Ind\u00edgena Sawr\u00e9 Muybu, situada nos limites administrativos dos munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o. Foram entrevistados e avaliados duzentos mundurukus. Era um grupo bastante jovem, com idade m\u00e9dia de 14 anos. Os resultados sa\u00edram no m\u00eas passado, publicados em&nbsp;<a href=\"https:\/\/wwfbr.awsassets.panda.org\/downloads\/wwfbr_2020_nt_impacto_mercurio_saude_povo_indigena_munduruku_v2__2___1_.pdf\">nota t\u00e9cnica<\/a>. A partir da an\u00e1lise dos peixes pisc\u00edvoros consumidos por essas comunidades, os pesquisadores estimaram que as doses de ingest\u00e3o di\u00e1ria de merc\u00fario pelos participantes \u201cforam de 4 a 18 vezes superiores aos limites seguros preconizados pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos [EPA] e de 2 a 9 vezes maiores do que os limites tolerados pela FAO\/OMS\u201d. Seis em cada dez participantes apresentaram \u201cn\u00edveis de merc\u00fario acima dos valores de refer\u00eancia\u201d, ultrapassando os limites m\u00e1ximos estabelecidos pelas organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Numa \u00fanica aldeia, a preval\u00eancia de contamina\u00e7\u00e3o se estendeu a 87,5% da popula\u00e7\u00e3o. O maior n\u00edvel de merc\u00fario em todo o grupo foi registrado numa crian\u00e7a de 10 anos. Vest\u00edgios de merc\u00fario foram detectados em&nbsp;<em>todos<\/em>&nbsp;os participantes, sem exce\u00e7\u00e3o. Muitos ind\u00edgenas j\u00e1 mostram algum grau de comprometimento neurol\u00f3gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O garimpo dos s\u00e9culos XVII e XVIII ao menos nos deixou Aleijadinho e as cidades barrocas de Minas. O garimpo dos s\u00e9culos XX e XXI nos deixa Itaituba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cQ<\/strong>uando eu cheguei, aqui n\u00e3o tinha nada.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A frase acima, ou alguma varia\u00e7\u00e3o dela, ocorre com frequ\u00eancia nas conversas com pioneiros que vieram colonizar a Amaz\u00f4nia a partir da d\u00e9cada de 1970. As sociedades ind\u00edgenas espalhadas por todo o bioma, as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, as comunidades quilombolas, a infinidade de criaturas da selva, os processos de retroalimenta\u00e7\u00e3o entre floresta, \u00e1gua e clima \u2013 a complexidade de tudo isso se reduz a pouca coisa aos olhos de quem chegou para ocupar e n\u00e3o se preparou para ver. Sendo razo\u00e1vel supor que \u00e9 mais f\u00e1cil destruir o que n\u00e3o se enxerga, a cegueira pode ser uma op\u00e7\u00e3o desej\u00e1vel. Ver possui uma dimens\u00e3o \u00e9tica e intelectual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O processo hist\u00f3rico de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia se caracteriza pela convic\u00e7\u00e3o de seus protagonistas de que conquistar \u00e9 destruir. \u00c9 o que o colono aprendeu do passado e \u00e9 o que tentar\u00e1 repetir no presente, a despeito das leis em vigor. Seu constrangimento em transformar radicalmente o bioma ser\u00e1 temperado pelo ambiente pol\u00edtico do momento; sua cautela em desfazer ser\u00e1 calibrada pela maior ou menor disposi\u00e7\u00e3o das autoridades para coibir suas a\u00e7\u00f5es. Destruir muito ou destruir pouco, essa tem sido a escolha, pois o que a hist\u00f3ria mostra \u00e9 isto: a floresta n\u00e3o cresce, s\u00f3 diminui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O h\u00e1bito do triunfo ameniza a d\u00favida, dizia Balzac, acrescentando em seguida que o pudor talvez seja uma forma de d\u00favida. Aplicada \u00e0 Amaz\u00f4nia, a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 precisa. A ocupa\u00e7\u00e3o da floresta vem se marcando pela convic\u00e7\u00e3o e pelo orgulho, nunca pela hesita\u00e7\u00e3o e muito menos pelo pudor. Alacid Nunes, governador do Par\u00e1 durante o regime militar, chegava numa frente de desmatamento, subia no tronco de uma \u00e1rvore ca\u00edda e anunciava: \u201cAqui o documento \u00e9 o machado!\u201d \u201cEra assim que funcionava\u201d, lembra um fazendeiro de Paragominas, pioneiro da ocupa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio localizado no sudeste do estado: \u201cVoc\u00ea vinha, abria a terra e a terra era sua.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens a quem a prega\u00e7\u00e3o de Nunes se dirigia n\u00e3o tinham como se interessar pela floresta. A hist\u00f3ria e o governo lhes ensinaram que n\u00e3o havia o que conhecer ali. A ambi\u00e7\u00e3o que os movia tornava a li\u00e7\u00e3o conveniente. Podiam modificar profundamente o novo mundo de que agora se apropriavam sem lidar com o fardo da consci\u00eancia. Acreditar que a floresta era in\u00fatil, improdutiva, desinteressante e sem mist\u00e9rios facilitava a obra. Parafraseando uma formula\u00e7\u00e3o de Michel Foucault citada pelo pensador camaron\u00eas Achille Mbembe, a transforma\u00e7\u00e3o da floresta em terreno baldio \u00e9 uma forma espec\u00edfica de poder: o de decidir soberanamente o que deve viver e o que morrer\u00e1. Esse \u00e9 o sentido de \u201caqui n\u00e3o tinha nada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, n\u00f3s, estranhos \u00e0 floresta, destru\u00edmos aquilo que ainda n\u00e3o conseguimos ver, nenhum de n\u00f3s, nem mesmo os que se dedicam a enxergar: a ci\u00eancia vem descobrindo uma nova esp\u00e9cie animal ou vegetal na Amaz\u00f4nia a cada dois dias. Botar a floresta abaixo antes mesmo de conhec\u00ea-la \u00e9 um pouco como se, numa p\u00e1gina que inclu\u00edsse linhas escritas em idiomas ou alfabetos ex\u00f3ticos, o leitor tomasse a decis\u00e3o de apagar todas as que n\u00e3o compreendesse. Digamos:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u03bf\u1f36\u03bd\u03bf\u03c8 \u03c0\u03cc\u03bd\u03c4\u03bf\u03c2<\/p>\n\n\n\n<p>\u05d1\u05b0\u05bc\u05e8\u05b5\u05d0\u05e9\u05b4\u05c1\u05d9\u05ea, \u05d1\u05b8\u05bc\u05e8\u05b8\u05d0 \u05d0\u05b1\u05dc\u05b9\u05d4\u05b4\u05d9\u05dd, \u05d0\u05b5\u05ea \u05d4\u05b7\u05e9\u05b8\u05bc\u05c1\u05de\u05b7\u05d9\u05b4\u05dd, \u05d5\u05b0\u05d0\u05b5\u05ea \u05d4\u05b8\u05d0\u05b8\u05e8\u05b6\u05e5&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/arrabalde_texto.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-392079\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se essas linhas existissem s\u00f3 aqui \u2013 isto \u00e9, se fossem esp\u00e9cies end\u00eamicas \u2013, a destrui\u00e7\u00e3o teria eliminado para sempre um verso de Homero (<em>mar cor de vinho<\/em>), a cria\u00e7\u00e3o do universo tal como descrita no Velho Testamento (<em>No princ\u00edpio, Deus criou os c\u00e9us e a terra<\/em>), os caracteres do documento indiano que pela primeira vez na hist\u00f3ria registrou o algarismo zero (o ponto no fim da linha) e a primeira lei da mec\u00e2nica de Newton, a da in\u00e9rcia (<em>Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme\u2026<\/em>). Ao menos no quadro das nossas refer\u00eancias epistemol\u00f3gicas, tudo sumiria sem deixar qualquer registro sobre a Terra. Os povos origin\u00e1rios ainda teriam as suas mem\u00f3rias, o que n\u00e3o resolve a viol\u00eancia, mas \u00e9 um consolo. N\u00f3s, n\u00e3o. Jamais saber\u00edamos o que perdemos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Contraste-se esse modo de proceder com o dos pesquisadores e naturalistas. Embrenhado na Floresta Amaz\u00f4nica, \u00e0 noite, o entomologista Edward O. Wilson se espanta com a vida que o cerca: \u201cO desconhecido e o prodigioso s\u00e3o drogas para a imagina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, despertando uma fome insaci\u00e1vel depois de um \u00fanico bocado. Esperamos de cora\u00e7\u00e3o que nunca venhamos a descobrir tudo. Rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escurid\u00e3o. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, \u00e9 um dos \u00faltimos reposit\u00f3rios na Terra desse sonho imemorial.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreendido por uma pancada de chuva que levou todas as criaturas da mata a irromper \u201cnuma simula\u00e7\u00e3o de vida violenta\u201d, Wilson dimensiona o tamanho de sua ignor\u00e2ncia: \u201cA respeito das orqu\u00eddeas desse lugar sab\u00edamos muito pouco. Sobre as moscas e besouros, praticamente nada. Acerca dos fungos, nada. Nada a respeito da maior parte dos organismos. Cinco mil tipos de bact\u00e9rias podiam ser encontrados numa pitada de solo, e a respeito delas n\u00e3o sab\u00edamos absolutamente nada.\u201d Escrevendo essas linhas na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, ele se v\u00ea na mesma situa\u00e7\u00e3o dos exploradores portugueses, cujas mentes se deixaram inflamar por aquele \u201cmundo bravio e agreste\u201d, \u201ccheio de plantas e animais estranhos e inspiradores de mitos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, Wilson publicou suas observa\u00e7\u00f5es sobre o mundo amaz\u00f4nico num livro intitulado&nbsp;<em>Diversidade da Vida<\/em>. A espantosa variedade de tudo que vive \u00e9 a primeira caracter\u00edstica de uma floresta tropical; \u00e9 uma abund\u00e2ncia que n\u00e3o cessa de assombrar nem mesmo o pesquisador calejado: \u201cAli nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura voavam em meio \u00e0 coroa das \u00e1rvores em busca de frutos, v\u00edboras arbor\u00edcolas enrolavam-se nas ra\u00edzes de orqu\u00eddeas, prontas para dar o bote, on\u00e7as caminhavam pelas margens do rio. Em torno deles, oitocentas esp\u00e9cies de \u00e1rvores, mais que todas as nativas da Am\u00e9rica do Norte, e mil esp\u00e9cies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para homens que chegam de fora e n\u00e3o pertencem \u00e0 floresta, a curiosidade \u00e9 um divisor \u2013 a falta ou a abund\u00e2ncia dela, no caso de quem destr\u00f3i ou de quem quer compreender. \u201cEm todas as culturas, classifica\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica significa sobreviv\u00eancia. O princ\u00edpio da sabedoria, como dizem os chineses, \u00e9 chamar as coisas pelo seu nome correto\u201d, escreve Wilson. A observa\u00e7\u00e3o serve como mais um par\u00e2metro do nosso fiasco. Em ritmo cada vez mais acelerado, optamos por extinguir incont\u00e1veis formas de vida antes mesmo que possamos nome\u00e1-las.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O processo pelo qual as coisas desaparecem antes de serem conhecidas desafia at\u00e9 mesmo a l\u00f3gica utilit\u00e1ria. Em seu livro&nbsp;<em>Revolu\u00e7\u00e3o das Plantas<\/em>, o bi\u00f3logo italiano Stefano Mancuso lembra que os princ\u00edpios ativos dos rem\u00e9dios s\u00e3o, em grande parte, de origem vegetal. Apenas em 2015 foram descobertas 2 034 novas esp\u00e9cies de plantas, muitas delas na Amaz\u00f4nia. Quantas podem nos oferecer benef\u00edcios? \u201cMais de 31 mil esp\u00e9cies diferentes [<em>de plantas<\/em>] t\u00eam uso documentado; entre elas, quase 18 mil s\u00e3o utilizadas para fins medicinais, 6 mil para alimenta\u00e7\u00e3o, 11 mil como fibras t\u00eaxteis e materiais de constru\u00e7\u00e3o, 1,3 mil para usos sociais (como em rituais religiosos e como drogas), 1,6 mil como fonte de energia, 4 mil como alimento para animais, 8 mil para prop\u00f3sitos ambientais, 2,5 mil como veneno etc. A conta pode ser feita rapidamente: cerca de um d\u00e9cimo das esp\u00e9cies tem uso imediato para a humanidade\u201d, escreveu Mancuso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Amaz\u00f4nia produz 20% da \u00e1gua doce do planeta. O bi\u00f3logo Antonio Nobre informa que todos os dias o bioma lan\u00e7a na atmosfera, via transpira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores, uma quantidade maior de \u00e1gua do que a do Rio Amazonas. A usina de Itaipu precisaria operar na pot\u00eancia m\u00e1xima durante 145 anos para conseguir evaporar o mesmo volume de \u00e1gua que a floresta exala em 24 horas. \u201cUma s\u00f3 \u00e1rvore na Amaz\u00f4nia com uma copa de 10 a 20 metros de altura bombeia cerca de 600 a mil litros de \u00e1gua por dia para a atmosfera\u201d, explica o f\u00edsico Ricardo Galv\u00e3o, ex-diretor do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em&nbsp;<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/ciencia\/meio-ambiente\/fala-de-salles-pode-ser-sinal-verde-para-desmatadores-diz-ex-diretor-do-inpe-24088939\">entrevista<\/a>&nbsp;ao&nbsp;<em>Globo.&nbsp;<\/em>\u00c9 chuva que cair\u00e1 Brasil afora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar para cima pode ser um aprendizado. Em Cachoeira Porteira, distrito do munic\u00edpio de Oriximin\u00e1, no Norte do Par\u00e1, comunidades quilombolas operam pequenas pousadas dentro do maior bloco cont\u00ednuo de \u00e1reas protegidas do mundo tropical, mais que o dobro do estado do Rio de Janeiro. Da varanda de uma delas, no alto de um dos morros que margeiam o Rio Trombetas, tem-se uma vista panor\u00e2mica da selva. A massa compacta da mata se estende at\u00e9 onde o olho alcan\u00e7a. Quando a tarde cai, um espectro come\u00e7a a se erguer do dossel verde-escuro, libertando-se dos galhos, das folhas, dos cip\u00f3s, das trepadeiras, lentamente subindo aos c\u00e9us. \u00c9 um espet\u00e1culo silencioso, uma respira\u00e7\u00e3o. E, de fato, trata-se de algo semelhante. As plantas est\u00e3o devolvendo para a atmosfera a \u00e1gua que absorveram e n\u00e3o usaram. A floresta produz o clima de que precisa para existir. Metade das chuvas na Amaz\u00f4nia \u00e9 gerada pela transpira\u00e7\u00e3o da mata. Como diz Antonio Nobre, \u201cn\u00e3o existe floresta porque chove, chove porque existe floresta\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Destruir a floresta \u00e9 destruir tamb\u00e9m a chuva que cai longe dela. \u201c[<em>Na<\/em>] principal \u00e1rea desmatada da Amaz\u00f4nia \u2013 que come\u00e7a no Maranh\u00e3o, desce pelo Par\u00e1 e vai at\u00e9 o Norte do Mato Grosso \u2013, o per\u00edodo de seca j\u00e1 dura de uma a duas semanas a mais do que no resto da Amaz\u00f4nia\u201d, diz Ricardo Galv\u00e3o. \u201cOutro efeito grande \u00e9 a interfer\u00eancia no regime pluviom\u00e9trico em todo o Brasil e na Am\u00e9rica do Sul, afetando fortemente a nossa agricultura. At\u00e9 o governo agora entende que os chamados \u2018rios voadores\u2019 de umidade que se formam na Amaz\u00f4nia e v\u00e3o para o Sul e o Sudeste s\u00e3o essenciais para os agricultores brasileiros.\u201d As observa\u00e7\u00f5es de Galv\u00e3o refor\u00e7am as conclus\u00f5es do modelo desenvolvido em Princeton.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade que tem a floresta de regular o clima \u00e9 outro aspecto a ser levado em conta por quem faz c\u00e1lculos utilit\u00e1rios. Como n\u00e3o parece haver d\u00favida de que a preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para evitar os efeitos mais agudos do aquecimento global, mant\u00ea-la de p\u00e9 significa preservar um ativo cujo valor n\u00e3o far\u00e1 sen\u00e3o aumentar diante das crescentes emerg\u00eancias clim\u00e1ticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De que maneira os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos prestados pela floresta ser\u00e3o recompensados, eis uma quest\u00e3o ainda em aberto. Certo, contudo, \u00e9 que as terras nuas e abandonadas que j\u00e1 dominam grandes extens\u00f5es do bioma n\u00e3o t\u00eam valor hoje e n\u00e3o ter\u00e3o amanh\u00e3. O Brasil vem trocando por desertos o que constitui potencialmente um de seus mais valiosos patrim\u00f4nios. Renuncia, assim, a ser uma pot\u00eancia ambiental num s\u00e9culo em que o meio ambiente se instalou definitivamente como tema central da agenda planet\u00e1ria. E isso para proveito de quem sequer pensou em compreender onde estava e o que via.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>diferen\u00e7a entre a floresta e o pasto \u2013 entre a margem direita e a margem esquerda da BR-163 \u2013 representa para o observador um contraste em termos de exig\u00eancia cognitiva. \u00c0 direita, a complexidade; \u00e0 esquerda, a simplicidade. Melhor: a descomplica\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais f\u00e1cil compreender os descampados do que as matas tropicais. A floresta n\u00e3o \u00e9 hostil apenas ao corpo e ao esp\u00edrito; ela tamb\u00e9m afronta o intelecto. \u201cDo ponto de vista da compreens\u00e3o, os ecossistemas tropicais representam um desafio compar\u00e1vel ao entendimento do universo\u201d, diz Simon Levin, diretor do Centro de Biocomplexidade do Instituto Ambiental de Princeton e um dos mais conceituados ec\u00f3logos contempor\u00e2neos. \u201cA complexidade da floresta \u00e9 infinita\u201d, afirma. E sorrindo: \u201cIr \u00e0 Lua \u00e9 uma brincadeira\u2026\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As esp\u00e9cies desconhecidas de uma floresta tropical n\u00e3o s\u00e3o o seu maior enigma. A rigor, bastaria for\u00e7a taxon\u00f4mica bruta para identificar todas elas. Estamos longe, muito longe disso, mas teoricamente seria poss\u00edvel. Ainda que, na pr\u00e1tica, sejam cada vez mais raros os taxonomistas, o desafio da classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de natureza intelectual. Sabemos como fazer, falta apenas quem fa\u00e7a. \u201cNa Embrapa que se ocupa da Amaz\u00f4nia Oriental, temos s\u00f3 cinco pessoas para classificar todas as plantas e quatro est\u00e3o se aposentando, o que significa que haver\u00e1 um colapso bot\u00e2nico\u201d, lamenta a ec\u00f3loga Joice Nunes Ferreira. Cinco bibliotec\u00e1rios conscienciosos levariam mais de uma vida para indexar todos os livros da Biblioteca de Alexandria, mas 1 milhar deles talvez desse conta da tarefa em poucas d\u00e9cadas \u2013 e assim tamb\u00e9m com taxonomistas e as formas de vida que ainda carecem de identifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flor2.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-392152\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O grande obst\u00e1culo \u00e0 compreens\u00e3o fina da floresta, a verdadeira complexidade a ser enfrentada, est\u00e1 na&nbsp;<em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>entre as esp\u00e9cies, no modo como elas interagem entre si. Uma floresta tropical \u00e9 essencialmente uma cadeia de interdepend\u00eancias. A come\u00e7ar pelo fato extraordin\u00e1rio de ela viver de si mesma. Passeando pela mata densa do Parque Estadual do Utinga, um remanescente florestal dentro de Bel\u00e9m, Joice Ferreira aponta para o ch\u00e3o. Uma camada espessa de mat\u00e9ria org\u00e2nica \u2013 folhas, ramos, flores \u2013 recobre o solo. \u00c9 a serrapilheira. \u201cTudo aqui se decomp\u00f5e muito r\u00e1pido\u201d, ela explica. \u201cUma folha vive cerca de dois anos; o que vem depois \u00e9 a&nbsp;<em>retransloca\u00e7\u00e3o<\/em>, a devolu\u00e7\u00e3o para a floresta. O solo \u00e9 muito pobre, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dali que as plantas extraem a maioria dos nutrientes de que precisam. \u00c9 da serrapilheira. A \u00e1rvore mais alta e a menor herb\u00e1cea vivem dela. Ou seja, a floresta se alimenta da floresta.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores do mundo natural d\u00e3o \u00e0 floresta tropical a alcunha de \u201cpara\u00edso falsificado\u201d, descrevendo assim um edif\u00edcio de extraordin\u00e1ria complexidade biol\u00f3gica erguido sobre funda\u00e7\u00f5es de areia. Joice Ferreira conta que, certa vez, foi interpelada por um migrante nordestino que mantinha uma ro\u00e7a magra \u00e0 beira da Transamaz\u00f4nica. \u201cMas como \u00e9 que essa floresta tem todas essas \u00e1rvores enormes e o meu feij\u00e3ozinho n\u00e3o cresce?\u201d, queria saber o homem. \u201cSimples\u201d, ela respondeu, \u201co feij\u00e3o precisa do solo; a floresta, n\u00e3o.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ferreira estuda a resili\u00eancia da Floresta Amaz\u00f4nica a dist\u00farbios como fogo e seca. O processo de dispers\u00e3o de sementes, por exemplo, diminuiu com a seca provocada pelo fen\u00f4meno do El Ni\u00f1o de 2015. O revolvimento da terra por besouros que misturam nutrientes e enriquecem o solo tamb\u00e9m foi prejudicado. Passada a estiagem, tais processos se restabeleceram. J\u00e1 as rupturas provocadas pelas queimadas se mostram bem mais profundas. Florestas tropicais s\u00e3o \u00famidas, o fogo n\u00e3o faz parte da vida natural delas. Trata-se sempre de um fen\u00f4meno resultante da a\u00e7\u00e3o humana, \u00e0 diferen\u00e7a do que sucede com florestas temperadas, para as quais o fogo \u00e9 parte do ciclo e pode ter efeitos regeneradores. A Amaz\u00f4nia n\u00e3o compreende a queimada e n\u00e3o tem defesas contra ela. O fogo produz uma quebra de ciclo: reduz a presen\u00e7a de mam\u00edferos, o que reduz as fezes, o que reduz os besouros, o que reduz a mistura de nutrientes do solo. Tudo depende de tudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, al\u00e9m do que j\u00e1 foi destru\u00eddo, outros 20% da floresta est\u00e3o em processo de degrada\u00e7\u00e3o. Degradar a mata significa torn\u00e1-la progressivamente invi\u00e1vel. A sa\u00fade do sistema depende do tumulto que o constitui. Uma lei em defesa das castanheiras \u00e9 letra morta na aus\u00eancia de uma lei em defesa do que&nbsp;<em>cerca<\/em>&nbsp;as castanheiras. Duzentas esp\u00e9cies de insetos visitam um \u00fanico p\u00e9 de a\u00e7a\u00ed; 25% da produ\u00e7\u00e3o de seus frutos est\u00e3o relacionados ao tr\u00e2nsito dessa multid\u00e3o de seres. Formigas-de-correi\u00e7\u00e3o avan\u00e7am pela floresta consumindo cada inseto, aranha ou pequeno r\u00e9ptil no caminho. Aves formigueiras aproveitam-se dessa balb\u00fardia; ao longo de milh\u00f5es de anos, especializaram-se em acompanhar do alto esse ex\u00e9rcito, alimentando-se dos animais que fogem do avan\u00e7o. Se as formigas desaparecem, desaparecem tamb\u00e9m as aves, um exemplo daquilo que os ecologistas chamam de&nbsp;<em>extin\u00e7\u00e3o em cascata<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dist\u00farbios naturais s\u00e3o facilmente superados, mas somente se o ecossistema n\u00e3o tiver sido privado das ferramentas necess\u00e1rias \u00e0 sua recupera\u00e7\u00e3o. O poder restaurativo ser\u00e1 uma consequ\u00eancia da variedade da fauna e da flora existentes em determinada \u00e1rea. O \u00fanico arsenal de que a natureza disp\u00f5e para se restabelecer \u00e9 a heterogeneidade de suas esp\u00e9cies. \u201cA diversidade biol\u00f3gica \u2013 \u2018biodiversidade\u2019, como se diz hoje em dia \u2013 \u00e9 a chave da preserva\u00e7\u00e3o do mundo como o conhecemos\u201d, explica Edward O. Wilson. \u201cA vida num local assolado por uma tempestade passageira se recupera logo porque ainda existe bastante diversidade. Esp\u00e9cies oportunistas que evolu\u00edram justamente para tais ocasi\u00f5es correm para preencher os espa\u00e7os vazios, dando in\u00edcio a uma sucess\u00e3o que acabar\u00e1 por retornar a algo semelhante ao estado original do meio ambiente.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma tempestade abre uma clareira na floresta. A luz bate no solo, onde uma grande variedade de plantas est\u00e1 \u00e0 espera da sua vez. Estabelecida a competi\u00e7\u00e3o, crescer\u00e3o as esp\u00e9cies mais r\u00e1pidas. Ao fazer isso, elas criar\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para que as mais lentas prosperem. Outras formas de vida v\u00e3o se aproveitar da vida j\u00e1 existente. Numa \u00e1rvore de grande porte podem viver de seiscentas a setecentas esp\u00e9cies flor\u00edsticas. Tudo compete, se mistura, colabora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem sabe por influ\u00eancia de uma interpreta\u00e7\u00e3o pobre de Darwin, quem sabe pela tend\u00eancia a atribuir ao mundo natural tra\u00e7os do nosso contrato social, costumamos dar mais \u00eanfase \u00e0 competi\u00e7\u00e3o do que \u00e0 ajuda m\u00fatua, como se a natureza fosse um jogo de soma zero em que cada vit\u00f3ria produz simultaneamente uma derrota. A realidade \u00e9 bem mais sutil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA coopera\u00e7\u00e3o entre plantas e formigas pode atingir n\u00edveis de sofistica\u00e7\u00e3o dif\u00edceis de imaginar\u201d, escreve Stefano Mancuso. Tome-se a parceria entre insetos e certas \u00e1rvores do g\u00eanero&nbsp;<em>Acacia<\/em>, nativas da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina. A depender dos pendores pol\u00edticos do observador, ser\u00e1 poss\u00edvel interpretar a intera\u00e7\u00e3o como exemplo de altru\u00edsmo socialista (entre a planta e o inseto) ou de individualismo capitalista (entre a planta e quem pretenda roubar o seu sol): \u201cAlgumas ac\u00e1cias [\u2026] produzem corpos de frutifica\u00e7\u00e3o espec\u00edficos para alimentar as formigas e lhes fornecem espa\u00e7os, obtidos dentro de determinadas estruturas das \u00e1rvores, onde esses insetos vivem e criam suas larvas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Receber alimento e abrigo de uma planta j\u00e1 seria um bom neg\u00f3cio, mas os benef\u00edcios n\u00e3o acabam a\u00ed. Mancuso explica: \u201cComo em um programa de televendas em que o apresentador n\u00e3o para nunca de acrescentar produtos para incentivar a compra, assim as ac\u00e1cias oferecem, al\u00e9m de comida e de alojamento, tamb\u00e9m bebidas gratuitas, na forma de deliciosos n\u00e9ctares extraflorais.\u201d Essa \u00e9 a parte em que pacifistas de matizes v\u00e1rios poderiam enxergar o altru\u00edsmo. Contudo, tantas bondades n\u00e3o s\u00e3o estendidas de gra\u00e7a. A ac\u00e1cia espera uma compensa\u00e7\u00e3o e a recebe na forma de um ex\u00e9rcito aguerrido de seguran\u00e7as: \u201cEm troca, as formigas se encarregam da defesa contra qualquer animal ou planta agressora que possa danificar de qualquer forma a planta em que est\u00e3o alojadas. E elas fazem isso com grande efic\u00e1cia. N\u00e3o apenas mant\u00eam longe da \u00e1rvore todos os outros insetos que tenham a infeliz ideia de se aproximar, como tamb\u00e9m atacam animais bilh\u00f5es de vezes maiores do que elas. Portanto, n\u00e3o \u00e9 incomum ver formigas picando herb\u00edvoros do tamanho de um elefante ou de uma girafa para dissuadi-los.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que j\u00e1 seria not\u00e1vel se torna ainda mais espantoso quando Mancuso observa que \u201ca defesa ativa implementada pelas formigas [\u2026] n\u00e3o se limita a afastar os animais, qualquer que seja o tamanho deles\u201d. Inimigos da \u00e1rvore habitam tamb\u00e9m outro reino, o vegetal, fato que as formigas s\u00e3o capazes de compreender: \u201cToda planta que ousa emergir do solo em um raio de poucos metros de sua hospedeira \u00e9 picada sem miseric\u00f3rdia. Assim, n\u00e3o \u00e9 incomum, no meio da Floresta Amaz\u00f4nica, ver campos perfeitamente circulares sem nenhuma vegeta\u00e7\u00e3o em torno de uma ac\u00e1cia.\u201d Inexplic\u00e1veis para as popula\u00e7\u00f5es locais, essas \u00e1reas podem ser chamadas de \u201cjardins do diabo\u201d, diz o autor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>m&nbsp;<em>Os Subterr\u00e2neos<\/em>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/os-subterraneos\/\">ensaio<\/a>&nbsp;publicado na&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>&nbsp;de maio de 2020, o escritor ingl\u00eas Robert Macfarlane descreve o processo colaborativo entre plantas e fungos, ideia que come\u00e7ou a ser explorada em profundidade no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 por uma ecologista canadense, Suzanne Simard. Trabalhando em planta\u00e7\u00f5es de pinheiro, a jovem Simard quis compreender um fen\u00f4meno que, embora observado com frequ\u00eancia, ainda era um mist\u00e9rio para a ci\u00eancia: quando certas plantas sem valor eram arrancadas do solo para evitar que competissem por recursos com as \u00e1rvores comercializ\u00e1veis, sua remo\u00e7\u00e3o coincidia com a deteriora\u00e7\u00e3o e posterior morte prematura dos brotos de pinheiro. Como quem levanta um tapete, Simard e seus colaboradores ergueram \u201ca pele do solo\u201d para descobrir o que se passava l\u00e1 embaixo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que eles viram ali\u201d, relatou Macfarlane, \u201cforam os claros e fin\u00edssimos filamentos que os fungos espalham pelo solo. Conhecidos como \u2018hifas\u2019, esses filamentos se interligavam e criavam uma rede de complexidade e extens\u00e3o atordoantes. Uma colher de ch\u00e1 de terra podia conter at\u00e9 10 km de hifas.\u201d Essa rede se conectava a cada rad\u00edcula de cada planta, levando e trazendo informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 entre esp\u00e9cies iguais, mas entre toda a popula\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica presente naquele solo. Mol\u00e9culas de carbono viajavam por esse sistema, e, ao longo do trajeto, \u201cos fungos extra\u00edam e metabolizavam parte dos recursos gerados pela fotoss\u00edntese que eram transportados pelas hifas\u201d. Era o pr\u00eamio pela colabora\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Simard provou que as \u00e1rvores eram capazes de transferir nutrientes entre si. Em muitos casos, dependiam dessa troca. Estava resolvido o mist\u00e9rio que a levara a olhar para dentro do ch\u00e3o. Se pinheiros morriam quando se arrancavam certas esp\u00e9cies de junto deles, era porque estas lhes transferiam mol\u00e9culas de carbono, isto \u00e9, cediam-lhes os produtos fotossint\u00e9ticos de que n\u00e3o precisavam. Sem esse excedente compartilhado, os pinheiros enfraqueciam at\u00e9 sucumbir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Macfarlane reproduz a linda s\u00edntese com que Simard apresentou sua descoberta: os fungos e as \u00e1rvores haviam \u201cforjado uma unidade a partir de sua dualidade, gerando assim uma floresta\u201d. Aqui, pacifistas e socialistas teriam todo o direito de se atribuir uma vit\u00f3ria epistemol\u00f3gica. A met\u00e1fora da rivalidade, do livre mercado capitalista, fracassa como modelo interpretativo, dando lugar ao que Macfarlane descreve como uma comunidade organizada num sistema socialista de redistribui\u00e7\u00e3o dos meios necess\u00e1rios \u00e0 vida: \u201cEm vez de ver as \u00e1rvores como agentes individuais que competiam por recursos entre si, Simard considerou a floresta um \u2018sistema cooperativo\u2019 no qual as \u00e1rvores \u2018conversam\u2019 entre si, produzindo uma intelig\u00eancia colaborativa que ela chamou de \u2018sabedoria florestal\u2019.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mutualismo fungo-\u00e1rvore explorado por Simard originou um dos atos de batismo mais felizes da ci\u00eancia moderna: a&nbsp;<em>wood wide web<\/em>. Como observa Macfarlane, as potencialidades desse sistema natural rec\u00e9m-descoberto extrapolam o \u201cinterc\u00e2mbio b\u00e1sico de bens entre plantas e fungos\u201d. Gra\u00e7as \u00e0 teia de conex\u00f5es que corre por baixo da floresta, as plantas tamb\u00e9m podem trocar bens&nbsp;<em>entre si<\/em>: \u201cPor exemplo, uma \u00e1rvore moribunda pode despejar seus recursos na rede em benef\u00edcio da comunidade, ou uma \u00e1rvore em dificuldades pode ser sustentada por recursos adicionais das vizinhas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a descoberta mais fascinante dessa nova ci\u00eancia das florestas seja esta constata\u00e7\u00e3o: as \u00e1rvores s\u00e3o capazes de alertar umas \u00e0s outras sobre riscos iminentes. Fazem isso enviando pela rede subterr\u00e2nea \u201ccompostos de sinaliza\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica entre si. Uma planta atacada por pulg\u00f5es pode avisar uma planta pr\u00f3xima de que deve fortalecer sua resposta defensiva antes que os pulg\u00f5es cheguem\u201d. Sabe-se \u201ch\u00e1 algum tempo que as plantas se comunicam acima da terra de maneira semelhante, atrav\u00e9s de horm\u00f4nios difusores\u201d, escreve Macfarlane; contudo, \u201cesses alertas a\u00e9reos, acima da terra, t\u00eam destinos imprecisos. Nas redes f\u00fangicas, pode-se identificar tanto o emiss\u00e1rio quanto o destinat\u00e1rio dos compostos\u201d \u2013 sistema mais para WhatsApp do que para sinal de fuma\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O subsolo de uma floresta \u00e9 um circuito integrado biol\u00f3gico. Bilh\u00f5es de conex\u00f5es interesp\u00e9cies acontecem a poucos palmos das nossas botas. Tabular e compreender essas conex\u00f5es exauriria a capacidade computacional de que dispomos. Macfarlane cita a antrop\u00f3loga Anna Tsing, que no ensaio&nbsp;<em>Arte da Inclus\u00e3o, ou Como Amar um Cogumelo<\/em>, escreve: \u201cQuando voc\u00ea passar de novo por uma floresta, olhe para baixo. Existe uma cidade debaixo dos seus p\u00e9s.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mal come\u00e7amos a compreender a riqueza prodigiosa desse mundo subterr\u00e2neo \u2013 a complexidade de seus sinais, a urg\u00eancia de seus alertas, a eleg\u00e2ncia de sua arquitetura, a dimens\u00e3o de suas possibilidades. A floresta continua a nos escapar e seguir\u00e1 assim: parcialmente inapreens\u00edvel, corol\u00e1rio e virtude de sua prodigalidade. Que essa exuber\u00e2ncia silenciosa no subsolo, rumorosa acima do ch\u00e3o, seja transformada em coisa muda \u2013 em margem esquerda da BR-163 \u2013 \u00e9 sinal de viol\u00eancia, desperd\u00edcio e falta de ambi\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/sete-bois-em-linha\/#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0O conceito de Amaz\u00f4nia Legal existe desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950. Integram o territ\u00f3rio regi\u00f5es com problemas socioecon\u00f4micos semelhantes. Decorrente de um conceito pol\u00edtico e n\u00e3o de um imperativo geogr\u00e1fico, seus limites foram alterados v\u00e1rias vezes. A Amaz\u00f4nia Legal n\u00e3o se confunde com o bioma Amaz\u00f4nia, o qual se estende por 49% do territ\u00f3rio brasileiro. Al\u00e9m de abrigar toda a floresta tropical, a AL tamb\u00e9m abarca 20% do bioma Cerrado e parte do Pantanal mato-grossense.<\/p>\n\n\n\n<p>* Documentarista, \u00e9 editor fundador da\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>. Dirigiu\u00a0<em>Santiago<\/em>,\u00a0<em>Entreatos<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Nelson Freire<\/em>, entre outros<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A segunda reportagem da s\u00e9rie percorre uma rodovia amaz\u00f4nica para compreender o que estamos ganhando ao trocar a complexidade da floresta por paisagens sem mist\u00e9rio.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30261","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7S5","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30261"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30263,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30261\/revisions\/30263"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}