{"id":30429,"date":"2020-12-16T13:25:38","date_gmt":"2020-12-16T17:25:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30429"},"modified":"2020-12-16T13:25:43","modified_gmt":"2020-12-16T17:25:43","slug":"a-policia-toma-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/16\/a-policia-toma-o-poder\/","title":{"rendered":"A POL\u00cdCIA TOMA O PODER"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1201\" height=\"751\" data-attachment-id=\"30430\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/16\/a-policia-toma-o-poder\/506f4e06-89e0-4c68-8a3a-2aae55dac368\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?fit=1201%2C751\" data-orig-size=\"1201,751\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?fit=600%2C375\" alt=\"\" class=\"wp-image-30430\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?w=1201 1201w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?resize=1024%2C640 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?resize=768%2C480 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/506F4E06-89E0-4C68-8A3A-2AAE55DAC368.jpeg?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Motins dentro das corpora\u00e7\u00f5es, discurso justiceiro, benef\u00edcios legais e apoio de Bolsonaro fazem explodir o n\u00famero de policiais civis e militares em cargos eletivos no Brasil&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>ALLAN DE ABREU<\/strong>, na Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>s tempos de farda e quepe ficaram para tr\u00e1s. Mesmo assim,\u00a0Wagner Sousa Gomes parece se esfor\u00e7ar a cada momento, especialmente nos per\u00edodos eleitorais,\u00a0para lembrar a todos o seu passado de capit\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Cear\u00e1. Na manh\u00e3 do \u00faltimo dia 17 de outubro, em plena disputa pela prefeitura de Fortaleza, Capit\u00e3o Wagner, como \u00e9 conhecido, equilibrava-se na ca\u00e7amba de uma caminhonete, durante carreata pela periferia pobre da cidade. Usando trajes civis \u2013 cal\u00e7a jeans, camiseta polo e t\u00eanis branco \u2013, o prefeitur\u00e1vel do Pros\u00a0alternava, com a m\u00e3o direita, acenos e contin\u00eancias. Ao lado dele, uma candidata a vereadora exibia um dos uniformes prediletos dos bolsonaristas: camiseta preta com o rosto estilizado do presidente Jair Bolsonaro em branco, uma clara alus\u00e3o \u00e0 c\u00e9lebre imagem do mafioso fict\u00edcio Vito Corleone nos cartazes do filme\u00a0<em>O Poderoso Chef\u00e3o<\/em>. Jingleschicletes com cacofonias do tipo \u201cCapit\u00e3o captou\u201d e \u201cA capital vai de capit\u00e3o\u201d se alternavam com sons de sirene. De moto, um rapaz usava balaclava no rosto. Outro, de carro, ostentava um quepe, enquanto mo\u00e7as muito jovens caminhavam a p\u00e9 pela cal\u00e7ada,\u00a0 distribuindo santinhos, todas com o escudo do Capit\u00e3o Am\u00e9rica estampado em suas camisetas azuis.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisa Datafolha divulgada naquele mesmo dia mostrava Capit\u00e3o Wagner na lideran\u00e7a da corrida eleitoral, com 33% das inten\u00e7\u00f5es de voto. A petista Luizianne Lins tinha 24% e Jos\u00e9 Sarto, do PDT, 15%. Uma semana antes,&nbsp;Bolsonaro havia declarado apoio ao candidato do Pros. Mas, na reta final do primeiro turno, o ex-PM de 41 anos seria ultrapassado por Sarto, o preferido dos irm\u00e3os Ciro e Cid Gomes, caciques pol\u00edticos no Cear\u00e1. Na curta campanha do segundo turno, o pedetista obteve o apoio do governador Camilo Santana, do PT, e de um leque heterog\u00eaneo de partidos, que ia do DEM e do PSDB ao Psol. Acabou eleito numa disputa apertada, com 51,69% dos votos. Capit\u00e3o Wagner abocanhou 48,31%.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a segunda vez consecutiva que o PM da reserva via a prefeitura de Fortaleza lhe escapar pelos dedos. Ele j\u00e1 havia perdido a disputa de 2016 para outro rival do PDT, Roberto Cl\u00e1udio. A polariza\u00e7\u00e3o com os irm\u00e3os Gomes vem se mostrando uma constante na carreira pol\u00edtica do ex-policial. No fim de 2011, quando Cid era governador, Capit\u00e3o Wagner liderou uma greve da corpora\u00e7\u00e3o por melhores sal\u00e1rios. Na \u00e9poca, ele acabara de trocar o oficialato da PM, que ocupou durante quase treze anos, por uma vaga na Assembleia Legislativa, como suplente. Ao longo de sete dias, entre 29 de dezembro de 2011 e 4 de janeiro de 2012, policiais militares e bombeiros se recusaram a sair dos quart\u00e9is. No dia 3, ter\u00e7a-feira, arrast\u00f5es na periferia de Fortaleza, vitaminados por uma onda de boatos nas redes sociais, fizeram o com\u00e9rcio da capital decretar um feriado informal, situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita na hist\u00f3ria da cidade. Pressionado pela opini\u00e3o p\u00fablica, Cid capitulou. Cedeu \u00e0s exig\u00eancias&nbsp;por reajuste salarial da tropa, e os amotinados voltaram ao trabalho. Capit\u00e3o Wagner vencia a primeira batalha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Greves de PMs e bombeiros s\u00e3o proibidas tanto pela Constitui\u00e7\u00e3o quanto pelo C\u00f3digo Penal Militar e podem acarretar at\u00e9 vinte anos de pris\u00e3o. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) refor\u00e7ou a ilegalidade desse tipo de movimento e estendeu a proibi\u00e7\u00e3o para a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria. A raz\u00e3o \u00e9 simples: trata-se de contingentes armados que, ao se rebelarem, t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de tomar o Estado. H\u00e1 nove anos, durante\u00a0a paralisa\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1, Cid amea\u00e7ou processar todos os revoltosos, mas desistiu. Dez meses depois do motim, Capit\u00e3o Wagner seria o vereador mais votado para a C\u00e2mara de Fortaleza, com 43 mil votos. Em 2015, ele retornou \u00e0 Assembleia, n\u00e3o mais como suplente e de novo com um n\u00famero expressivo de votos: 194 mil. Em 2018, j\u00e1 surfando a onda do bolsonarismo, conseguiu uma vaga na C\u00e2mara dos Deputados, com 303 mil votos. A greve de 2011 tamb\u00e9m al\u00e7ou para a pol\u00edtica dois outros PMs do Cear\u00e1: o deputado estadual Noelio da Rocha Oliveira, ex-soldado, e o deputado federal Flavio Alves Sabino, ex-cabo.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>A Pol\u00edcia Militar cearense deflagaria mais um motim em 18 de fevereiro deste ano, por discordar do reajuste escalonado no sal\u00e1rio dos policiais, que atingiria o teto de 32% apenas em 2022. No dia 19, enquanto grevistas encapuzados ordenavam que o com\u00e9rcio fechasse as portas e outros amotinados&nbsp;trajavam com orgulho camisetas pr\u00f3-Bolsonaro em Fortaleza, o agora senador Cid Gomes se metia em confus\u00e3o no interior do estado. Ele tomou dois tiros, na clav\u00edcula e no pulm\u00e3o, depois de subir numa retroescavadeira para tentar romper o piquete de um grupo de policiais diante do 3\u00ba Batalh\u00e3o da PM, em Sobral. Por causa da rebeli\u00e3o, 230 militares foram afastados do cargo e outros 47 acabaram presos. Dessa vez, o ex-cabo Sabino liderou a revolta, mas quem anunciou o acordo para encerrar a greve, em 1\u00ba de mar\u00e7o, ap\u00f3s treze dias de motim, foi novamente o Capit\u00e3o Wagner. Num palanque improvisado no 18\u00ba Batalh\u00e3o, em Fortaleza, ele se colocou ao lado da tamb\u00e9m deputada federal Fabiana Silva de Souza, a Major Fabiana, do PSL fluminense.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem rela\u00e7\u00e3o direta com o movimento do Cear\u00e1, a parlamentar pediu a&nbsp;palavra&nbsp;ao ex-capit\u00e3o, que definiu como \u201cirm\u00e3o de farda\u201d. \u201cAgora, quem \u00e9 contra a Pol\u00edcia Militar n\u00e3o tem mais a hegemonia do discurso\u201d, declarou. \u201cAgora a tropa elegeu representantes que sabem que, na ponta da linha, ningu\u00e9m aguenta mais esperar, sabem o que \u00e9 vitimiza\u00e7\u00e3o policial. [\u2026] Pela primeira vez, a gente tem um presidente, o Bolsonaro, que sabe o que \u00e9 ser um policial militar.\u201d Nesse instante, a major reformada foi interrompida por aplausos e gritos de \u201cmito, mito\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o motim ser ilegal, Bolsonaro n\u00e3o o condenou. Afinal, ele&nbsp;pr\u00f3prio se insubordinou nos tempos de capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Em 1986, publicou na revista&nbsp;<em>Veja<\/em>o artigo&nbsp;<em>O Sal\u00e1rio Est\u00e1 Baixo<\/em>, em que defendia reajuste no soldo das tropas. Como suas palavras n\u00e3o surtiram efeito, o oficial decidiu recorrer \u00e0 viol\u00eancia. Em 1987, uma reportagem da mesma&nbsp;<em>Veja<\/em>&nbsp;revelaria um plano de Bolsonaro para explodir bombas em unidades do Ex\u00e9rcito, o que o levou \u00e0 reserva e, logo depois, \u00e0 pol\u00edtica, como vereador do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda durante a recente greve no Cear\u00e1, Sergio Moro, ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, fez malabarismos verbais ao comentar o caso. Em visita a Fortaleza, evitou criticar o levante e disse que a situa\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o era de absoluta desordem\u201d. Os fatos, por\u00e9m, o desmentiram: somente nos treze dias de motim, 312 pessoas foram assassinadas no Cear\u00e1, quase o dobro dos 164 homic\u00eddios ocorridos em fevereiro do ano anterior. Desde mar\u00e7o, tramita na C\u00e2mara um projeto de lei para anistiar todos os policiais grevistas. O autor \u00e9 justamente o Capit\u00e3o Wagner.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/materiaallan_161220_interna.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/materiaallan_161220_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Capit\u00e3o Wagner\" class=\"wp-image-392627\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Wagner em ato de campanha pol\u00edtica, em Fortaleza \u2013 Foto: Tatiana Fortes\/O POVO<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>m 2011, o Brasil tinha 504 policiais militares ou civis em cargos eletivos: um senador, doze deputados federais, 46 deputados estaduais, dezenove prefeitos e 426 vereadores. Nove anos depois, tem 880: dois governadores (Rond\u00f4nia e Santa Catarina), quatro senadores, dezesseis deputados federais, noventa deputados estaduais, cinquenta prefeitos (incluindo o de uma capital, Vit\u00f3ria) e 718 vereadores. No pleito de novembro,&nbsp;<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/policiais-e-militares-elegeram-50-prefeitos-e-807-vereadores\/\">dos 8 mil profissionais ligados \u00e0s for\u00e7as de seguran\u00e7a que se lan\u00e7aram candidatos, 859<\/a>, ou 10,7%, se elegeram.&nbsp;Um percentual&nbsp;alto, na avalia\u00e7\u00e3o de Renato S\u00e9rgio de Lima, diretor presidente do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Para ele, o crescimento est\u00e1 diretamente ligado a 2013, ano em que mobiliza\u00e7\u00f5es populares explodiram no pa\u00eds e evidenciaram a f\u00faria da sociedade contra os pol\u00edticos tradicionais. \u201cDesde ent\u00e3o, parece haver um cansa\u00e7o de parte dos eleitores em rela\u00e7\u00e3o ao discurso mais voltado para os direitos humanos. Paralelamente, ocorre uma valoriza\u00e7\u00e3o das iniciativas de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o avan\u00e7o da ret\u00f3rica de direita, conservadora, que legitima o policial nas urnas, como uma alternativa vi\u00e1vel de poder.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os policiais eleitos em novembro, 91 s\u00e3o do MDB, 82 do PSD e 78 do PP, de acordo com levantamento&nbsp;da&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>&nbsp;a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De cada dez policiais que se candidataram nas elei\u00e7\u00f5es de 2010 a 2020, oito eram filiados a partidos de direita ou centro-direita, segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Rea\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda dentro da pol\u00edcia, como o movimento dos policiais antifascismo, que ganhou corpo na metade de 2020, sempre foram residuais. \u201cNossa forma\u00e7\u00e3o valoriza a luta do bem contra o mal, o discurso da ordem, a defesa da fam\u00edlia e o endurecimento das leis&nbsp;no combate ao crime. Por isso, somos conservadores\u201d, define o senador paulista S\u00e9rgio Olimpio Gomes, o Major Olimpio, que atua na pol\u00edtica desde 2007. Ele acredita que a popula\u00e7\u00e3o encontrou no policial \u201cum&nbsp;representante com credibilidade, um her\u00f3i\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares,&nbsp;o \u201cempobrecido debate\u201d em torno da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil tende a rejeitar o conceito de que a\u00e7\u00f5es policiais bem-sucedidas devem minimizar o uso da for\u00e7a e n\u00e3o podem se deixar contaminar pela desigualdade social e pelo racismo. Ainda impera no pa\u00eds a no\u00e7\u00e3o equivocada de que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pol\u00edcia tem a miss\u00e3o de proteger os ricos brancos dos pretos pobres. Isso acaba por alimentar ideias reacion\u00e1rias, \u201ctrogloditas\u201d, a favor de mais viol\u00eancia policial e mais encarceramento. \u201cEssa pequena dramaturgia, repleta de personagens grotescos, discursos simpl\u00f3rios e emo\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas, dialoga com sentimentos prim\u00e1rios do eleitor, como o medo, a inseguran\u00e7a e a necessidade de prote\u00e7\u00e3o, num sentido mais patriarcal. Surge a\u00ed a figura do her\u00f3i fardado,&nbsp;uma caricatura fascista\u201d, explica Soares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, em outubro de 2018, a cabo K\u00e1tia Sastre, da PM paulista, virou deputada federal com mais de 264 mil votos, gra\u00e7as \u00e0&nbsp;repercuss\u00e3o de um epis\u00f3dio ocorrido meses antes em Suzano, na Grande S\u00e3o Paulo. A policial, \u00e0 paisana, matou um assaltante na frente do col\u00e9gio onde a filha dela estudava. A imagem de&nbsp;\u201cxerife\u201d combina perfeitamente com a predisposi\u00e7\u00e3o da maioria dos eleitores para identificar, entre as causas da criminalidade, aspectos simplistas, como a maldade, a falta de policiamento ou a benevol\u00eancia das leis.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse contexto que Bolsonaro conseguiu, como nenhum outro pol\u00edtico brasileiro, ganhar a simpatia dos policiais. \u201cValendo-se de discursos radicais e fortemente conservadores, ele fez com a PM o que o PT havia feito com os sem-terra: conquistou o apoio de um grupo coeso e muito ideol\u00f3gico\u201d, compara o cientista pol\u00edtico Glauco Carvalho, coronel da reserva da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo. Em janeiro de 2017, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro foi ovacionado com gritos de \u201cmito\u201d pelos mais de mil novos soldados da PM de Minas Gerais durante cerim\u00f4nia de formatura no gin\u00e1sio Mineirinho, em Belo Horizonte. \u201cO homem da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 um dos profissionais mais importantes que existem. Afinal de contas, eles arriscam suas vidas por n\u00f3s. Sei da necessidade jur\u00eddica de voc\u00eas para bem trabalhar. Eu falo pelos meus amigos da PM do Rio de Janeiro: eles t\u00eam muito mais medo do capa preta [<em>juiz<\/em>] que do vagabundo com a ponto 50 em cima do morro. Eu sonho em obter o excludente de ilicitude para o policial militar&nbsp;em opera\u00e7\u00e3o\u201d, disse Bolsonaro no evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de os regulamentos disciplinares das PMs proibirem manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, o apoio da categoria ao capit\u00e3o reformado ficou&nbsp;expl\u00edcito durante a campanha presidencial de 2018. Enquanto policiais tietavam Bolsonaro em carreatas no interior paulista, tropas que marchavam pelas ruas de Luzi\u00e2nia, em Goi\u00e1s, entoavam um grito de guerra nada sutil: \u201cEi, cidad\u00e3o, por favor, n\u00e3o se esque\u00e7a \/ Dia 28, \u00e9 Bolsonaro na cabe\u00e7a.\u201d&nbsp;Quart\u00e9is em todo o Brasil se tornaram comit\u00eas&nbsp;informais do candidato do PSL. Hoje, depois de alcan\u00e7ar o cargo pol\u00edtico m\u00e1ximo do pa\u00eds, com 57 milh\u00f5es de votos, Bolsonaro continua recebendo&nbsp;o apoio de evang\u00e9licos, ruralistas e policiais. A diferen\u00e7a entre eles \u00e9 que apenas esses \u00faltimos carregam regularmente uma arma no coldre ou nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>a noite de 22 de maio de 2020, horas ap\u00f3s o STF divulgar a grava\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o ministerial do m\u00eas anterior em que Bolsonaro atacara o servi\u00e7o de intelig\u00eancia do governo, jornalistas o abordaram em frente ao Pal\u00e1cio da Alvorada, em Bras\u00edlia. Queriam saber o que seria o sistema particular de informa\u00e7\u00f5es que o presidente havia citado na reuni\u00e3o. Ele deu, ent\u00e3o, alguns exemplos: \u201c\u00c9 um colega de voc\u00eas da imprensa, que com certeza eu tenho, \u00e9 um sargento no Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais no Rio, \u00e9 um capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito em Nioaque [<em>munic\u00edpio de Mato Grosso do Sul<\/em>], \u00e9 um capit\u00e3o da Pol\u00edcia Civil em Manaus.\u201d No fim de 2019, Bolsonaro j\u00e1 tinha dito ao apresentador Jos\u00e9 Luiz Datena, da Band, que recebera a informa\u00e7\u00e3o de que a Pol\u00edcia Civil fluminense cumpriria mandado de busca e apreens\u00e3o na casa de seu filho Carlos, o Zero Dois, em raz\u00e3o do inqu\u00e9rito que investiga a morte da vereadora Marielle Franco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A busca nunca ocorreu, mas Bolsonaro conta, de fato, com uma ampla rede de informantes nas pol\u00edcias do Rio, em especial a PM. Esses policiais fazem chegar ao presidente todo tipo de informa\u00e7\u00f5es, do planejamento de opera\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia ou do Minist\u00e9rio P\u00fablico at\u00e9 informa\u00e7\u00f5es sobre ve\u00edculos de imprensa. \u201cEle quer saber tudo o que acontece no Rio. Faz parte da heran\u00e7a militar dele\u201d, diz um policial que integra esse servi\u00e7o paralelo de informa\u00e7\u00f5es \u2014 ele pediu anonimato para evitar retalia\u00e7\u00f5es. O sistema \u00e9 centralizado em um militar lotado no Gabinete da Presid\u00eancia. Procurada pela&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>, a assessoria do Pal\u00e1cio do Planalto n\u00e3o se pronunciou a respeito do assunto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P<\/strong>ermissivas, as leis brasileiras facilitam o caminho de quem deseja trocar a farda por um cargo eletivo. Policiais militares com mais de dez anos de carreira podem, inclusive, voltar a seus postos caso saiam derrotados nas urnas. Apenas aqueles com menos de uma d\u00e9cada de servi\u00e7o precisam ir para a reserva antes de concorrerem. Na Am\u00e9rica do Sul, Chile, Uruguai, Argentina, Bol\u00edvia e Peru pro\u00edbem a candidatura de PMs. Na Col\u00f4mbia, militares n\u00e3o t\u00eam nem mesmo direito ao voto. J\u00e1 na Europa, a proibi\u00e7\u00e3o ocorre na Espanha, Fran\u00e7a e Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que eu vejo [\u2026] \u00e9 a partidariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Cear\u00e1, \u00e9 em todos os estados brasileiros. Acho que o equ\u00edvoco do Brasil \u00e9 autorizar que policiais militares fa\u00e7am parte da vida partid\u00e1ria e possam retornar \u00e0s pr\u00f3prias pol\u00edcias se perderem as elei\u00e7\u00f5es\u201d, disse em junho o governador do Cear\u00e1, Camilo Santana, durante entrevista ao programa&nbsp;<em>Roda Viva<\/em>, da TV Cultura. Cl\u00e1udio Ferraz, ex-chefe da Pol\u00edcia Civil no Rio de Janeiro, concorda: \u201cA seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 ineficiente, em boa medida, pela sua politiza\u00e7\u00e3o. O agente deixa de agir em prol do interesse p\u00fablico e se pauta por conveni\u00eancias pol\u00edticas. Isso desvaloriza a carreira policial.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um n\u00edtido privil\u00e9gio aos policiais no que diz respeito aos prazos previstos na lei eleitoral. Em regra, servidores p\u00fablicos precisam deixar seus cargos seis meses antes das elei\u00e7\u00f5es \u2014 em abril, portanto. Mas os policiais podem aguardar a confirma\u00e7\u00e3o de seus nomes pelas conven\u00e7\u00f5es dos partidos, entre julho e agosto, antes de se afastarem dos seus postos e se filiarem \u00e0s legendas. S\u00e3o de tr\u00eas a quatro meses de vantagem sobre os demais servidores, per\u00edodo em que os policiais n\u00e3o raro utilizam suas fun\u00e7\u00f5es para se capitalizarem perante o eleitor.<\/p>\n\n\n\n<p>O Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica ajuda a compreender o poder dos policiais nas urnas. A partir de dados extra\u00eddos da Receita Federal, do TSE e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), a publica\u00e7\u00e3o informa que policiais militares ou civis e membros das For\u00e7as Armadas, ativos e inativos, totalizam 5,6 milh\u00f5es de pessoas, ou 3,8% do eleitorado nacional. Considerando que a maioria desses profissionais \u00e9 casada e que uma fam\u00edlia no Brasil tem, em m\u00e9dia, 3,3 integrantes, a \u201cfam\u00edlia&nbsp;da seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d re\u00fane 18,5 milh\u00f5es de pessoas, o equivalente \u00e0 soma das popula\u00e7\u00f5es das duas maiores cidades brasileiras, S\u00e3o Paulo e Rio. Essa base costuma ser aliada incondicional dos policiais, mesmo diante de a\u00e7\u00f5es ilegais, como o motim das tropas. N\u00e3o \u00e0 toa, nos \u00faltimos anos, tornou-se comum mulheres de PMs ocuparem os quart\u00e9is para protestar por melhores sal\u00e1rios no lugar dos maridos, impedidos de protagonizarem atos desse tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) constatou que, entre 1997 e 2017, houve 715 greves de policiais no Brasil, das quais 52 foram de PMs. No caso da Pol\u00edcia Militar, reivindica\u00e7\u00f5es salariais estiveram presentes em dois ter\u00e7os das revoltas, enquanto quest\u00f5es pol\u00edticas (como reforma administrativa ou previdenci\u00e1ria), em 5% dos epis\u00f3dios. O ano mais tenso no per\u00edodo analisado foi 1997, quando levantes policiais sacudiram doze estados, com v\u00e1rios atos de viol\u00eancia. Em Minas, um um policial assassinou um cabo durante um protesto. No Cear\u00e1, o comandante da PM foi ferido com um tiro no ombro. Em Sergipe, o ent\u00e3o governador Divaldo Suruagy renunciou depois de um confronto entre PMs e soldados do Ex\u00e9rcito em frente \u00e0 Assembleia Legislativa \u2014 a Pol\u00edcia Militar pressionava os deputados a aprovarem o impeachment do governador.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o soci\u00f3logo Jos\u00e9 Vicente da Silva Tavares, autor do estudo, houve instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em muitas das greves dos policiais militares. Ele cita o exemplo do motim no Esp\u00edrito Santo, em fevereiro de 2017. Ent\u00e3o comandante da corpora\u00e7\u00e3o capixaba, o coronel Alexandre Quintino Moreira disse que o movimento era \u201cleg\u00edtimo\u201d devido \u00e0 defasagem salarial na categoria. \u201cA minha panela est\u00e1 vazia, assim como a panela do cabo\u201d, afirmou o oficial, cujo soldo era de 16 mil reais. Se a greve trouxe caos para as ruas do Esp\u00edrito Santo (durante os 21 dias de paralisa\u00e7\u00e3o, registraram-se 215 assassinatos no estado, o dobro do mesmo m\u00eas do ano anterior), tamb\u00e9m impulsionou a trajet\u00f3ria pol\u00edtica do Coronel Quintino: em 2018, ele foi eleito deputado estadual pelo PSL de Jair Bolsonaro, que, ali\u00e1s, apoiou a greve. \u201cVoc\u00eas [<em>governadores<\/em>] n\u00e3o podem se prevalecer da disciplina dos policiais militares para subjug\u00e1-los. Voc\u00eas t\u00eam que deixar de ser covardes. Quem quebra os estados s\u00e3o voc\u00eas, pol\u00edticos, n\u00e3o s\u00e3o os militares\u201d, disse o ent\u00e3o presidenci\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Por causa da greve no Esp\u00edrito Santo, o capit\u00e3o da PM Lucinio Castelo de Assum\u00e7\u00e3o chegou a ficar dez meses preso, acusado de incitar o motim. Ele foi condenado a cinco anos de pris\u00e3o, mas agora est\u00e1 recorrendo em liberdade. Na onda do bolsonarismo, acabou eleito a uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2018. No ano seguinte, na tribuna do parlamento, ofereceu 10 mil reais a quem matasse o suspeito de um assassinato em Cariacica.<\/p>\n\n\n\n<p>A condena\u00e7\u00e3o em primeira inst\u00e2ncia do deputado do PSL capixaba foi uma absoluta exce\u00e7\u00e3o no Brasil. Quatro leis federais, sancionadas pelos presidentes Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, anistiaram todos os PMs que participaram de motins entre 1997 e 2016. Outros dois projetos de lei que tramitam no Congresso buscam estender a anistia para 2020. Entre os agentes das for\u00e7as p\u00fablicas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Jair Bolsonaro ir\u00e1 sancionar ambas as propostas, refor\u00e7ando o ciclo de greves ilegais\/novos policiais na pol\u00edtica\/ aumento do lobby para livrar os grevistas de puni\u00e7\u00e3o. \u201cOs policiais t\u00eam o poder de fazer qualquer governo ref\u00e9m\u201d, diz Samira Bueno, diretora-executiva do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. A leni\u00eancia das corregedorias das PMs completa o ciclo de impunidade: dados fornecidos \u00e0&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>&nbsp;por catorze estados mostram que, entre 2017 e 2019, apenas 57 militares foram punidos administrativamente por atividades pol\u00edtico-partid\u00e1rias dentro dos quart\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>presen\u00e7a de policiais na pol\u00edtica brasileira remonta, pelo menos, ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Ap\u00f3s contribuir para a forma\u00e7\u00e3o da coluna Prestes, em 1924, Miguel Costa, oficial de cavalaria da For\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo (atual Pol\u00edcia Militar), fundou a Legi\u00e3o Revolucion\u00e1ria, constitu\u00edda por oper\u00e1rios que apoiavam o governo de Get\u00falio Vargas. Em 1932, meses antes de ser exonerado da For\u00e7a P\u00fablica, Costa transformou a legi\u00e3o no Partido Popular Paulista, que teve vida curta. Ap\u00f3s romper com Vargas, o policial foi preso. Ele n\u00e3o chegou a participar de disputas eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1950, outro oficial da For\u00e7a P\u00fablica, Cant\u00eddio Nogueira Sampaio, teria proje\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com mandatos de vereador em S\u00e3o Paulo e de deputado estadual. Ligado ao governador Ademar de Barros, apoiou o golpe militar de 1964 e se elegeu deputado federal pela Arena. Na C\u00e2mara, apresentou o projeto que permitia a r\u00e9us prim\u00e1rios, sem antecedentes, apelar de suas condena\u00e7\u00f5es em liberdade, at\u00e9 o fim dos recursos. A lei, aprovada, foi feita sob medida para o amigo S\u00e9rgio Paranhos Fleury, delegado do extinto Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), levado a j\u00fari popular sob a acusa\u00e7\u00e3o de liderar o Esquadr\u00e3o da Morte, grupo de exterm\u00ednio da pol\u00edcia paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>Assassinatos de civis sempre renderam votos para os policiais. No livro&nbsp;<em>Rota 66<\/em>, o jornalista Caco Barcellos classifica Conte Lopes, integrante da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) nos anos 1970 e 80, como um dos tr\u00eas PMs paulistas com mais mortes no curr\u00edculo at\u00e9 ent\u00e3o. Tinha entre 100 e 150 homic\u00eddios. \u201cFui salvador, n\u00e3o matador. Tanto que me inocentaram em todos os casos\u201d, defende-se. A visibilidade dada a Lopes por programas de assuntos policiais no r\u00e1dio e na tev\u00ea da \u00e9poca fez do oficial uma personalidade. Em 1986, ele se elegeu deputado estadual e nunca mais deixou a pol\u00edtica. Atualmente, ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa paulista. Outro que surfou na popularidade de policial linha-dura foi o coronel Ubiratan Guimar\u00e3es. Dez anos ap\u00f3s comandar a invas\u00e3o do Carandiru, em S\u00e3o Paulo, em 1992, Guimar\u00e3es tornou-se deputado estadual com o n\u00famero de urna 14111 \u2013 os tr\u00eas \u00faltimos d\u00edgitos remetem ao total de presos mortos no massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio das d\u00e9cadas de 1980 e 90, a fama dos grupos de exterm\u00ednio alavancou a carreira pol\u00edtica de ao menos dois de seus pr\u00f3ceres. L\u00edder dos Cavalos Corredores, fac\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela chacina de onze jovens da favela de Acari em 1990, o coronel da PM Emir Campos Larangeira seria eleito deputado estadual naquele ano. Dentro de seu gabinete na Assembleia Legislativa (Alerj), segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico, ele planejou o assassinato da l\u00edder das \u201cM\u00e3es do Acari\u201d, que lutavam pela responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal dos assassinos. O caso ainda segue sem julgamento. Os Cavalos Corredores tamb\u00e9m foram apontados como autores de outras duas chacinas em 1993: a da Candel\u00e1ria (oito mortes) e a de Vig\u00e1rio Geral (21 v\u00edtimas). Em 1994, Larangeira n\u00e3o foi reeleito.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Sivuca, apelido do delegado Jos\u00e9 Guilherme Godinho, teria melhor sorte. Conseguiu tr\u00eas mandatos consecutivos na Alerj com o bord\u00e3o \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Posteriormente, ele acrescentaria o complemento \u201ce enterrado de p\u00e9, para n\u00e3o ocupar muito espa\u00e7o\u201d. Em 1964, a morte do detetive Milton Le Cocq levaria \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Scuderie Detetive Le Cocq, primeiro grupo de exterm\u00ednio fluminense. Fundador da Le Cocq, Sivuca era um dos doze \u201chomens de ouro\u201d da Pol\u00edcia Civil, escalados pela c\u00fapula da seguran\u00e7a p\u00fablica estadual para eliminar criminosos, travestis e moradores de rua. \u201cSequestrador tem que morrer, assim como latrocina, traficante e estuprador, porque s\u00e3o bandidos\u201d, disse certa vez. A primeira v\u00edtima do grupo foi Manoel Moreira, o Cara de Cavalo, suspeito da morte do detetive, assassinado com 62 tiros. A Scuderie Le Cocq, que chegou a ter 7 mil integrantes e s\u00f3 foi extinta no in\u00edcio dos anos 2000, est\u00e1 na origem dos grupos paramilitares que atualmente controlam boa parte da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>D<\/strong>esde cedo, as lideran\u00e7as das mil\u00edcias fluminenses enxergaram vantagens em assumir cargos eletivos. A imunidade parlamentar serviria de escudo para impedir a investiga\u00e7\u00e3o de seus crimes e possibilitaria acesso f\u00e1cil ao dinheiro p\u00fablico para capitalizar seus neg\u00f3cios il\u00edcitos, como a venda de botij\u00e3o de g\u00e1s ou de sinal clandestino de tev\u00ea a cabo. O primeiro passo seria transformar os territ\u00f3rios sob seu controle em curral eleitoral, por meio de estrat\u00e9gias que mesclavam o assistencialismo a amea\u00e7as de surra ou morte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros milicianos a se aventurar na pol\u00edtica foram os chefes da Liga da Justi\u00e7a, que dominava os bairros cariocas de Campo Grande e Santa Cruz no in\u00edcio deste s\u00e9culo. Jer\u00f4nimo Guimar\u00e3es Filho, o Jerominho, se elegeu vereador do Rio em 2000, enquanto seu irm\u00e3o, Natalino Jos\u00e9 Guimar\u00e3es, conquistou uma cadeira na Alerj em 2006. L\u00edder do outro grande grupo miliciano da \u00e9poca, o de Rio das Pedras, Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, foi eleito vereador em 2004 com 44% dos votos na comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas estavam entre os principais alvos da CPI das Mil\u00edcias, instalada na Assembleia Legislativa em 2008. Dos 266 indiciados pela Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito, sete eram pol\u00edticos. Em fun\u00e7\u00e3o dessas investiga\u00e7\u00f5es, os irm\u00e3os Guimar\u00e3es acabaram presos e condenados por homic\u00eddio e forma\u00e7\u00e3o de quadrilha. Nadinho, por sua vez, foi assassinado em 2009, depois de virar&nbsp; colaborador da CPI.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de ent\u00e3o, uma parte dos milicianos alterou seus m\u00e9todos de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Deixaram eles pr\u00f3prios de ser candidatos, preferindo se associar a pol\u00edticos sem liga\u00e7\u00e3o direta com a mil\u00edcia, embora ajam no Executivo ou Legislativo conforme os interesses dela. \u201c\u00c9 uma atua\u00e7\u00e3o mais discreta, mas nem por isso menos incisiva\u201d, diz o soci\u00f3logo Ignacio Cano. Os currais eleitorais passam a ser negociados pelos paramilitares com grupos pol\u00edticos j\u00e1 consolidados, como a fam\u00edlia Braz\u00e3o, que historicamente concentra muitos votos em Rio das Pedras.<\/p>\n\n\n\n<p>Jair Bolsonaro sempre foi pr\u00f3ximo dos milicianos fluminenses. Fabr\u00edcio Queiroz \u2013 ex-PM e piv\u00f4 do esquema das \u201crachadinhas\u201d de Fl\u00e1vio Bolsonaro, o Zero Um, na Alerj \u2013 \u00e9 o principal elo entre o cl\u00e3 e as mil\u00edcias. Nas elei\u00e7\u00f5es de novembro passado, o presidente pediu votos para Nelson Ruas de Souza, o Capit\u00e3o Nelson, que disputava a prefeitura de S\u00e3o Gon\u00e7alo, segunda maior cidade do Rio, com 1 milh\u00e3o de habitantes. Em 1988, sete pessoas foram mortas por dez policiais militares comandados pelo ent\u00e3o sargento Nelson Ruas, incluindo o filho de uma ju\u00edza, assassinado com dois tiros na nuca. Denunciados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, todos acabariam absolvidos pela Justi\u00e7a Militar do Rio, anos depois. Em 2004, o Capit\u00e3o Nelson se elegeu vereador em S\u00e3o Gon\u00e7alo e foi para a reserva da PM. Ele seria reeleito outras tr\u00eas vezes. Nesse per\u00edodo, a CPI das Mil\u00edcias o citou como l\u00edder de uma fac\u00e7\u00e3o que agia no Jardim Catarina, na periferia da cidade, em associa\u00e7\u00e3o com bicheiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, Nelson atuou no setor de intelig\u00eancia da PM. Eram os tempos da \u201cgratifica\u00e7\u00e3o faroeste\u201d. Institu\u00eddo pelo governo estadual para premiar financeiramente policiais militares por \u201catos de bravura\u201d, o benef\u00edcio estimulou in\u00fameras matan\u00e7as. Em autom\u00f3veis descaracterizados, agentes com capuz ca\u00e7avam sem-teto e criminosos \u00e0 bala em S\u00e3o Gon\u00e7alo e Niter\u00f3i. Nas ruas de S\u00e3o Gon\u00e7alo, um grupo de exterm\u00ednio apelidado de \u201ccarro da lingui\u00e7a\u201d assombrava os moradores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Capit\u00e3o Nelson venceu a disputa para a prefeitura de S\u00e3o Gon\u00e7alo, em novembro, uma moradora da cidade escreveu no Facebook: \u201cCapit\u00e3o ganhou. Vai que agora [<em>o carro da lingui\u00e7a<\/em>] volta.\u201d Sua vit\u00f3ria foi comemorada com muitos tiros para o alto. O pr\u00f3prio prefeito eleito segurava um rev\u00f3lver em meio aos festejos com seus apoiadores. Procurada pela&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>,a assessoria do pol\u00edtico negou envolvimento dele com paramilitares.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo miliciano do Rio seria replicado com sucesso em Bel\u00e9m a partir dos anos 2010. Policiais civis ou militares e bombeiros passaram a extorquir moradores e pequenos comerciantes no bairro do Guam\u00e1, o mais populoso da capital paraense, com quase 100 mil habitantes. O grupo era chefiado pelo cabo da PM Antonio Marco da Silva Figueiredo, conhecido como Cabo Pet. Violento, ele respondeu a v\u00e1rios inqu\u00e9ritos militares por homic\u00eddio e extors\u00e3o. Tamb\u00e9m instalou um sistema de c\u00e2meras pelas ruas do Guam\u00e1 e mandou fixar placas nas fachadas dos com\u00e9rcios locais com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cprotegido pelo Pet\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo era bem pr\u00f3ximo do delegado \u00c9der Mauro Cardoso Barra, da Pol\u00edcia Civil de Bel\u00e9m. Como o miliciano, Barra tinha fama de policial linha-dura. Respondeu a tr\u00eas a\u00e7\u00f5es penais por tortura, das quais acabou absolvido, e \u00e9 r\u00e9u num caso de homic\u00eddio. Em 2014, Barra e Pet participaram de uma opera\u00e7\u00e3o contra traficantes do Comando Vermelho que controlavam o bairro Terra Firme, vizinho ao Guam\u00e1 \u2014 na \u00e9poca, a mil\u00edcia buscava expandir seu dom\u00ednio territorial. Em outubro daquele ano, o delegado Barra virou deputado federal com 266 mil votos, a maior vota\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. J\u00e1 o Cabo Pet foi assassinado dias depois das elei\u00e7\u00f5es, com vinte tiros, no Guam\u00e1. A morte desencadeou homic\u00eddios em s\u00e9rie na capital paraense. PMs pediam nas redes sociais vingan\u00e7a para o \u201cirm\u00e3ozinho Pet\u201d. Nove pessoas foram assassinadas, seis delas com claros sinais de execu\u00e7\u00e3o. Os crimes motivaram a instala\u00e7\u00e3o de uma CPI na Assembleia Legislativa do Par\u00e1 para investigar as mil\u00edcias no estado. Embora citado no relat\u00f3rio final da comiss\u00e3o, o delegado n\u00e3o foi indiciado. Reeleito em 2018, Barra se transformou num aliado fervoroso de Jair Bolsonaro na C\u00e2mara. Procurado pelo site, ele n\u00e3o quis se manifestar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>lias Miler da Silva \u00e9 um homem agitado, de baixa estatura e ralos cabelos grisalhos. Coronel aposentado da PM paulista, ele divide-se entre a assessoria do senador Major Olimpio e a presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o dos Oficiais Militares do Estado de S\u00e3o Paulo em Defesa da Pol\u00edcia Militar, a Defenda PM. Assumidamente bolsonarista, a entidade com 2 mil filiados foi criada em setembro de 2016, momento em que o tucano Jo\u00e3o Doria estava em plena campanha para a prefeitura de S\u00e3o Paulo. O objetivo formal da Defenda PM \u00e9 cuidar dos interesses da categoria, mas Doria \u00e9 a verdadeira n\u00eamesis da associa\u00e7\u00e3o: sempre que podem, Silva e os demais filiados fustigam o atual governador paulista, inimigo n\u00famero um de Bolsonaro. Entre um ataque e outro, a Defenda PM promove \u201ccursos de capacita\u00e7\u00e3o\u201d para policiais que querem ingressar na pol\u00edtica. \u201cExplicamos como funciona a lei eleitoral, como se filia a um partido, o que pode ou n\u00e3o nas campanhas\u201d, diz Silva. Embora atue na pr\u00e1tica como um sindicato, a Defenda PM se diz uma associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos \u2013 a Constitui\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a sindicaliza\u00e7\u00e3o de militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Silva vangloria-se de ser pr\u00f3ximo a Bolsonaro. \u201cFui eu quem sugeri ao presidente compor com o \u2018Centr\u00e3o\u2019 no Congresso, jogar o jogo\u201d, diz. Para o coronel reformado, o presidente foi diretamente respons\u00e1vel pela queda de 19% nos homic\u00eddios registrados no Brasil em 2019. (Especialistas afirmam que a queda est\u00e1 relacionada a v\u00e1rios fatores, e n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 a\u00e7\u00e3o do governo federal.) \u201cEm qualquer lugar do mundo isso seria comemorado. E por que isso n\u00e3o acontece no Brasil? Porque as pessoas est\u00e3o compradas, cegas pela ideologia\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos filiados \u00e0 Defenda PM, Capit\u00e3o Augusto, deputado federal pelo PL de S\u00e3o Paulo, \u00e9 dos mais estridentes. Ex-bombeiro, policial rodovi\u00e1rio e policial militar, Jos\u00e9 Augusto Rosa conserva o forte sotaque caipira de Ourinhos, S\u00e3o Paulo, sua terra natal. Desde que assumiu pela primeira vez uma cadeira na C\u00e2mara dos Deputados, Capit\u00e3o Augusto costuma ir \u00e0s sess\u00f5es com sua farda de gala da PM, devidamente recheada com condecora\u00e7\u00f5es e ins\u00edgnias, para defender o governo Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro anos o parlamentar tenta criar o Partido Militar Brasileiro, PMB, para, nas palavras da p\u00e1gina oficial da sigla no Facebook, \u201cresgatar a \u00e9tica, a moral e a honestidade na pol\u00edtica nacional, valores t\u00e3o cultuados pela classe militar\u201d. Chegou a apresentar uma lista com 800 mil assinaturas, passo exigido pelo Tribunal Superior Eleitoral para a cria\u00e7\u00e3o de um partido, mas as rubricas foram invalidadas pela corte eleitoral. Capit\u00e3o Augusto, que j\u00e1 se coloca como presidente do partido, requisitou ao TSE dois poss\u00edveis n\u00fameros de urna para a nova sigla: 38, calibre do rev\u00f3lver mais famoso no Brasil, ou 64, o ano do golpe militar \u2013 ou \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, nas palavras do deputado. No fim de 2019, Capit\u00e3o Augusto cedeu o primeiro n\u00famero para o Alian\u00e7a pelo Brasil, o partido que Jair Bolsonaro tenta criar e at\u00e9 agora tamb\u00e9m n\u00e3o saiu do papel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Motins dentro das corpora\u00e7\u00f5es, discurso justiceiro, benef\u00edcios legais e apoio de Bolsonaro fazem explodir o n\u00famero de policiais civis e militares em cargos eletivos no Brasil&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30429","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7UN","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30429"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30429\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30431,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30429\/revisions\/30431"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}