{"id":30481,"date":"2020-12-21T09:06:04","date_gmt":"2020-12-21T13:06:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30481"},"modified":"2020-12-21T09:06:11","modified_gmt":"2020-12-21T13:06:11","slug":"ensaio-inedito-da-pensadora-audre-lorde-a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-em-acao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/21\/ensaio-inedito-da-pensadora-audre-lorde-a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-em-acao\/","title":{"rendered":"Ensaio in\u00e9dito da pensadora Audre Lorde: \u2018A transforma\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio em linguagem e em a\u00e7\u00e3o\u2019"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"386\" data-attachment-id=\"30482\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/21\/ensaio-inedito-da-pensadora-audre-lorde-a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-em-acao\/1b213dcd-20ff-4232-ad19-e98e039847ba\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?fit=875%2C563\" data-orig-size=\"875,563\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?fit=300%2C193\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?fit=600%2C386\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?resize=600%2C386\" alt=\"\" class=\"wp-image-30482\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?w=875 875w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?resize=300%2C193 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?resize=768%2C494 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1B213DCD-20FF-4232-AD19-E98E039847BA.jpeg?resize=466%2C300 466w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Leia ensaio do livro \u201cIrm\u00e3 Outsider\u201d, da poeta e feminista negra Audre Lorde, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela editora Aut\u00eantica.<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/equipe\/brunadelara\/\">Bruna de Lara<\/a><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>The Intercept <br><\/p>\n\n\n\n<p>MULHER NEGRA, L\u00c9SBICA,\u00a0feminista, m\u00e3e e poeta guerreira. Era assim que Audre Lorde fazia quest\u00e3o de se apresentar. A pensadora americana, filha de imigrantes afro-caribenhos nascida em 1934, passou seus 58 anos de vida sentindo-se uma forasteira. Em muitos ciclos feministas e LGBT, a realidade do racismo era negada; em parte da comunidade negra, a lesbiandade era uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 ra\u00e7a e, o feminismo, uma distra\u00e7\u00e3o da luta antirracista. Negar-se a silenciar aspectos de sua identidade era, para Lorde, um ato pol\u00edtico. E \u00e9 a recusa ao sil\u00eancio que ela explora com maestria neste texto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE essa visibilidade que nos torna mais vulner\u00e1veis \u00e9 tamb\u00e9m a fonte de nossa maior for\u00e7a\u201d, afirma Lorde neste ensaio publicado com exclusividade no\u00a0<strong>Intercept<\/strong>. Ele integra o livro \u2018Irm\u00e3 Outsider\u2019 \u2013 forasteira, estrangeira \u2013 a ser lan\u00e7ado nesta quarta-feira, 27 de novembro, pela editora Aut\u00eantica. A colet\u00e2nea de confer\u00eancias e ensaios mais aclamada da escritora, publicada em 1984 nos Estados Unidos, \u00e9 tamb\u00e9m seu primeiro t\u00edtulo a chegar ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a obra de Lorde, que morreu v\u00edtima de um c\u00e2ncer no f\u00edgado em 1992, \u00e9 perpassada pela discuss\u00e3o do sil\u00eancio e suas quebras. \u201cQuais s\u00e3o as tiranias que voc\u00ea engole dia ap\u00f3s dia e tenta tomar para si, at\u00e9 adoecer e morrer por causa delas, ainda em sil\u00eancio?\u201d, questiona. Em sua vida, afinal, eram muitos os sil\u00eancios a serem quebrados. Mas, como afirma poeta guerreira, seus sil\u00eancios nunca a protegeram. E os seus tampouco os proteger\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Boa leitura.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/11\/Audre_Lorde-1574717688.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/11\/Audre_Lorde-1574717688.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Audre_Lorde-1574717688\" class=\"wp-image-279996\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u2018Irm\u00e3 Outsider\u2019 \u00e9 o primeiro livro da pensadora americana a ser publicado no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Foto: K. Kendall<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P<\/strong>assei a acreditar, com uma convic\u00e7\u00e3o cada vez maior, que o que me \u00e9 mais importante deve ser dito, verbalizado e compartilhado, mesmo que eu corra o risco de ser magoada ou incompreendida. A fala me recompensa, para al\u00e9m de quaisquer outras consequ\u00eancias. Estou aqui de p\u00e9 como uma poeta l\u00e9sbica negra, e o significado de tudo isso se reflete no fato de que ainda estou viva, e poderia n\u00e3o estar. H\u00e1 menos de dois meses ouvi de dois m\u00e9dicos, uma mulher e um homem, que eu deveria fazer uma cirurgia nos seios, e havia 60% a 80% de chance de o tumor ser maligno. Entre receber a not\u00edcia e a cirurgia em si, vivi tr\u00eas semanas na agonia de reorganizar involuntariamente a minha vida inteira. A cirurgia foi um sucesso, e o tumor era benigno.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, durante essas tr\u00eas semanas, fui obrigada a olhar para mim e a refletir sobre minha vida com uma lucidez, penosa e urgente, que me deixou ainda abalada, mas muito mais forte. Muitas mulheres encaram essa mesma situa\u00e7\u00e3o, inclusive algumas de voc\u00eas que hoje est\u00e3o aqui. Parte da minha experi\u00eancia durante esse per\u00edodo me ajudou a compreender melhor o que sinto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio em linguagem e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tomar uma obrigat\u00f3ria e fundamental consci\u00eancia da minha mortalidade, e do que eu desejava e queria para a minha vida, por mais curta que ela pudesse ser, prioridades e omiss\u00f5es ganharam relev\u00e2ncia sob uma luz impiedosa, e o que mais me trouxe arrependimento foram os meus sil\u00eancios. Do que \u00e9 que eu tinha medo? Eu temia que questionar ou me manifestar de acordo com as minhas cren\u00e7as resultasse em dor ou morte. Mas todas somos feridas de tantas maneiras, o tempo todo, e a dor ou se modifica ou passa. A morte, por outro lado, \u00e9 o sil\u00eancio definitivo. E ela pode estar se aproximando rapidamente, agora, sem considerar se eu falei tudo o que precisava, ou se me tra\u00ed em pequenos sil\u00eancios enquanto planejava falar um dia, ou enquanto esperava pelas palavras de outra pessoa. E comecei a reconhecer dentro de mim um poder cuja fonte \u00e9 a compreens\u00e3o de que, por mais desej\u00e1vel que seja n\u00e3o ter medo, aprender a v\u00ea-lo de maneira objetiva me deu uma for\u00e7a enorme.Do que \u00e9 que eu tinha medo? Eu temia que questionar ou me manifestar de acordo com as minhas cren\u00e7as resultasse em dor ou morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu ia morrer, mais cedo ou mais tarde, tendo ou n\u00e3o me manifestado. Meus sil\u00eancios n\u00e3o me protegeram. Seu sil\u00eancio n\u00e3o vai proteger voc\u00ea. Mas a cada palavra verdadeira dita, a cada tentativa que fiz de falar as verdades das quais ainda estou em busca, tive contato com outras mulheres enquanto analis\u00e1vamos as palavras adequadas a um mundo no qual todas n\u00f3s acredit\u00e1vamos, superando nossas diferen\u00e7as. E foi a preocupa\u00e7\u00e3o e o cuidado dessas mulheres que me deram for\u00e7a e me permitiram esmiu\u00e7ar aspectos essenciais da minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres que me apoiaram durante esse per\u00edodo eram brancas e negras, velhas e jovens, l\u00e9sbicas, bissexuais e heterossexuais, e todas n\u00f3s travamos, juntas, uma guerra contra as tiranias do sil\u00eancio. Todas me deram a for\u00e7a e o acolhimento sem os quais eu n\u00e3o sobreviveria intacta. Durante essas semanas de medo intenso veio a compreens\u00e3o \u2013 dentro da guerra, todas lutamos com as for\u00e7as da morte, de maneira sutil ou n\u00e3o, conscientemente ou n\u00e3o \u2013 de que n\u00e3o sou apenas uma baixa, sou tamb\u00e9m uma guerreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais s\u00e3o as palavras que voc\u00ea ainda n\u00e3o tem? O que voc\u00ea precisa dizer? Quais s\u00e3o as tiranias que voc\u00ea engole dia ap\u00f3s dia e tenta tomar para si, at\u00e9 adoecer e morrer por causa delas, ainda em sil\u00eancio? Para algumas de voc\u00eas que est\u00e3o aqui hoje, talvez eu seja a express\u00e3o de um dos seus medos. Porque sou mulher, sou negra, sou l\u00e9sbica, porque sou quem eu sou \u2013 uma poeta negra guerreira fazendo o meu trabalho \u2013, ent\u00e3o pergunto: voc\u00eas t\u00eam feito o trabalho de voc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 claro que tenho medo, porque a transforma\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio em linguagem e a\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de revela\u00e7\u00e3o individual, algo que parece estar sempre carregado de perigo. Mas minha filha, quando contei para ela qual era o nosso tema e falei da minha dificuldade com ele, me respondeu: \u201cFale para elas sobre como voc\u00ea jamais \u00e9 realmente inteira se mantiver o sil\u00eancio, porque sempre h\u00e1 aquele pedacinho dentro de voc\u00ea que quer ser posto para fora, e quanto mais voc\u00ea o ignora, mais ele se irrita e enlouquece, e se voc\u00ea n\u00e3o desembuchar, um dia ele se revolta e d\u00e1 um soco na sua cara, por dentro\u201d.Meus sil\u00eancios n\u00e3o me protegeram. Seu sil\u00eancio n\u00e3o vai proteger voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nome do sil\u00eancio, cada uma de n\u00f3s evoca a express\u00e3o de seu pr\u00f3prio medo \u2013 o medo do desprezo, da censura ou de algum julgamento, do reconhecimento, do desafio, da aniquila\u00e7\u00e3o. Mas, acima de tudo, penso que tememos a visibilidade sem a qual n\u00e3o vivemos verdadeiramente. Neste pa\u00eds, onde diferen\u00e7as raciais criam uma constante, ainda que velada, distor\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es, as mulheres negras, por um lado, sempre foram altamente vis\u00edveis, assim como, por outro lado, foram invisibilizadas pela despersonaliza\u00e7\u00e3o do racismo. Mesmo dentro do movimento social das mulheres, n\u00f3s tivemos que lutar, e ainda lutamos, por essa visibilidade, que \u00e9 tamb\u00e9m o que nos torna mais vulner\u00e1veis \u2013 a nossa negritude. Para sobrevivermos na boca desse drag\u00e3o que chamamos de am\u00e9rica, tivemos de aprender esta primeira li\u00e7\u00e3o, a mais vital: que a nossa sobreviv\u00eancia nunca fez parte dos planos. N\u00e3o como seres humanos. Incluindo a sobreviv\u00eancia da maioria de voc\u00eas aqui hoje, negras ou n\u00e3o. E essa visibilidade que nos torna mais vulner\u00e1veis \u00e9 tamb\u00e9m a fonte de nossa maior for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a m\u00e1quina vai tentar nos reduzir a p\u00f3 de qualquer maneira, quer falemos, quer n\u00e3o. Podemos ficar eternamente caladas pelos cantos enquanto nossas irm\u00e3s e n\u00f3s somos diminu\u00eddas, enquanto nossos filhos s\u00e3o corrompidos e destru\u00eddos, enquanto nossa terra \u00e9 envenenada; podemos ficar caladas a salvo nos nossos cantos, de bico fechado, e ainda assim nosso medo n\u00e3o ser\u00e1 menor.<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/brasil\/vozes\/\"><br><\/a><br><\/p>\n\n\n\n<p>Na minha casa este ano estamos celebrando o Kwanzaa, festival afro-americano da colheita, que come\u00e7a um dia depois do Natal e dura uma semana. O Kwanzaa tem sete princ\u00edpios, um para cada dia. O primeiro \u00e9 Umoja, que significa \u201cunidade\u201d, a decis\u00e3o de se esfor\u00e7ar para alcan\u00e7ar e preservar a integridade individual e a uni\u00e3o da comunidade. O princ\u00edpio de ontem, o segundo dia, foi Kujichagulia, \u201cautodetermina\u00e7\u00e3o\u201d, a decis\u00e3o de definirmos quem somos, nos darmos um nome, falarmos por n\u00f3s, em vez de nos deixarmos definir pelos outros ou deixar que os outros falem por n\u00f3s. Este \u00e9 o terceiro dia do Kwanzaa, e o princ\u00edpio de hoje \u00e9 Ujima, \u201ctrabalho coletivo e responsabilidade\u201d, a decis\u00e3o de nos erguermos e nos mantermos unidas, a n\u00f3s e \u00e0 nossa comunidade, e de reconhecer e resolver nossos problemas juntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada uma de n\u00f3s est\u00e1 aqui hoje porque, de uma forma ou de outra, compartilhamos um compromisso com a linguagem, com o poder da linguagem e com o ato de ressignificar essa linguagem que foi criada para operar contra n\u00f3s. Na transforma\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio em linguagem e em a\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial que cada uma de n\u00f3s estabele\u00e7a ou analise seu papel nessa transforma\u00e7\u00e3o e reconhe\u00e7a que seu papel \u00e9 vital nesse processo.Porque a m\u00e1quina vai tentar nos reduzir a p\u00f3 de qualquer maneira, quer falemos, quer n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para aquelas entre n\u00f3s que escrevem, \u00e9 necess\u00e1rio esmiu\u00e7ar n\u00e3o apenas a verdade do que dizemos, mas a verdade da pr\u00f3pria linguagem que usamos. Para as demais, \u00e9 necess\u00e1rio compartilhar e espalhar tamb\u00e9m as palavras que nos s\u00e3o significativas. Mas o mais importante para todas n\u00f3s \u00e9 a necessidade de ensinarmos a partir da viv\u00eancia, de falarmos as verdades nas quais acreditamos e as quais conhecemos, para al\u00e9m daquilo que compreendemos. Porque somente assim podemos sobreviver, participando de um processo de vida criativo e cont\u00ednuo, que \u00e9 o crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>E nunca \u00e9 sem medo \u2013 da visibilidade, da crua luz do escrut\u00ednio e talvez do julgamento, da dor, da morte. Mas j\u00e1 passamos por tudo isso, em sil\u00eancio, exceto pela morte. E o tempo todo eu me lembro disto: se eu tivesse nascido muda, ou feito um voto de sil\u00eancio durante a vida toda em nome da minha seguran\u00e7a, eu ainda sofreria, ainda morreria. Isso \u00e9 muito bom para colocar as coisas em perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>E nos lugares em que as palavras das mulheres clamam para ser ouvidas, cada uma de n\u00f3s devemos reconhecer a nossa responsabilidade de buscar essas palavras, de l\u00ea-las, de compartilh\u00e1-las e de analisar a pertin\u00eancia delas na nossa vida. Que n\u00e3o nos escondamos por detr\u00e1s das farsas de separa\u00e7\u00e3o que nos foram impostas e que frequentemente aceitamos como se fossem inven\u00e7\u00e3o nossa. Por exemplo: \u201cProvavelmente eu n\u00e3o posso ensinar literatura feita por mulheres negras \u2013 a experi\u00eancia delas \u00e9 diferente demais da minha\u201d. E, no entanto, quantos anos voc\u00eas passaram ensinando Plat\u00e3o, Shakespeare e Proust? Outra: \u201cEla \u00e9 uma mulher branca, o que teria para me dizer?\u201d. Ou: \u201cEla \u00e9 l\u00e9sbica, o que meu marido, ou meu chefe, diria?\u201d. Ou ainda: \u201cEssa mulher escreve sobre os filhos e eu n\u00e3o tenho filhos\u201d. E todas as outras incont\u00e1veis maneiras de nos privarmos de n\u00f3s mesmas e umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos aprender a agir e falar quando temos medo da mesma maneira como aprendemos a agir e falar quando estamos cansadas. Fomos socializadas a respeitar mais o medo do que nossas necessidades de linguagem e significa\u00e7\u00e3o, e enquanto esperarmos em sil\u00eancio pelo luxo supremo do destemor, o peso desse sil\u00eancio nos sufocar\u00e1. O fato de estarmos aqui e de eu falar essas palavras \u00e9 uma tentativa de quebrar o sil\u00eancio e de atenuar algumas das diferen\u00e7as entre n\u00f3s, pois n\u00e3o s\u00e3o elas que nos imobilizam, mas sim o sil\u00eancio. E h\u00e1 muitos sil\u00eancios a serem quebrados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Stephanie Borges<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia ensaio do livro \u201cIrm\u00e3 Outsider\u201d, da poeta e feminista negra Audre Lorde, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela editora Aut\u00eantica.Bruna de Lara<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30481","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7VD","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30481"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30481\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30483,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30481\/revisions\/30483"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}