{"id":30488,"date":"2020-12-21T22:29:27","date_gmt":"2020-12-22T02:29:27","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30488"},"modified":"2020-12-21T22:29:34","modified_gmt":"2020-12-22T02:29:34","slug":"historia-indigena-academico-resgata-contato-e-saque-contra-os-suruis-em-rondonia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/21\/historia-indigena-academico-resgata-contato-e-saque-contra-os-suruis-em-rondonia\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria ind\u00edgena: acad\u00eamico resgata contato e saque contra os Suru\u00eds em Rond\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"480\" data-attachment-id=\"30490\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/21\/historia-indigena-academico-resgata-contato-e-saque-contra-os-suruis-em-rondonia\/65a26280-bce4-45d6-bc6c-a5cb0cd8317a\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?fit=567%2C480\" data-orig-size=\"567,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?fit=300%2C254\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?fit=567%2C480\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?resize=567%2C480\" alt=\"\" class=\"wp-image-30490\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?w=567 567w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?resize=300%2C254 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/65A26280-BCE4-45D6-BC6C-A5CB0CD8317A.png?resize=354%2C300 354w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Por MONTEZUMA CRUZ<\/strong> &#8211; Conflitos pol\u00edticos e econ\u00f4micos envolvendo o Povo Pa\u00edter Suru\u00ed nos anos 1970 comp\u00f5em a pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do acad\u00eamico\u00a0do Curso de Licenciatura Intercultural da Universidade Federal de Rond\u00f4nia (Unir), Hgaibiten Suru\u00ed, 30 anos.\u00a0Tradicionalmente, esses ind\u00edgenas viveram na regi\u00e3o noroeste de Mato Grosso e no sudeste de Rond\u00f4nia. Na medida em que avan\u00e7avam as frentes de expans\u00e3o ocorreram os contatos com os n\u00e3o \u00edndios*.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Orientado pelo professor doutor&nbsp;Carlos Alexandre Barros Trubiliano, 38,&nbsp;Hgaibiten atribui \u00e0 explora\u00e7\u00e3o madeireira um dos maiores golpes sofridos por esse e outros povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o do Aripuan\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O territ\u00f3rio Suru\u00ed mede 249,4 mil hectares.&nbsp;<em>O avan\u00e7o da fronteira econ\u00f4mica e o povo Pa\u00edter Suru\u00ed: o caso da cria\u00e7\u00e3o da TI Sete de Setembro<\/em>&nbsp;\u00e9 o nome do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outros, a pesquisa menciona estudos da falecida ge\u00f3grafa Bertha Koiffmann Becker, para quem o avan\u00e7o capitalista ocorreu por meio de duas pol\u00edticas de Estado que se interligam: a constru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-364 e, mais recentemente, de usinas e pequenas centrais hidrel\u00e9tricas; a segunda refere-se aos programas do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra): de Assentamento Dirigido (PADs) e Integrados de Coloniza\u00e7\u00e3o (PICs).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas pol\u00edticas governamentais foram respons\u00e1veis pela migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores, investidores e aventureiros para Rond\u00f4nia em busca de oportunidades.&nbsp;A burocracia e a disciplina estatais para assistir os migrantes permitiram aos fluxos migrat\u00f3rios ultrapassarem a sua capacidade de controle estatal, provocando situa\u00e7\u00f5es de conflito pela posse da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O avan\u00e7o populacional sobre a floresta gerou uma das principais atividades econ\u00f4micas da Amaz\u00f4nia Legal, a ind\u00fastria da madeira&#8221;, assinala o acad\u00eamico. Segundo ele, a extra\u00e7\u00e3o em escala industrial se iniciou em 1960, quando chegaram a funcionar 89 serrarias, n\u00famero que saltou para tr\u00eas mil empreendimentos, em 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Especificamente no Estado de Rond\u00f4nia, elas evolu\u00edram de quatro empresas em 1953, para 781 em 1987&#8221;, constata Hgaibiten.&nbsp;Rond\u00f4nia n\u00e3o passava de 37 mil habitantes&nbsp; na d\u00e9cada de 1950.&nbsp;&#8220;Isso foi acontecendo a partir da abertura de picadas e estradas; at\u00e9 meados de 1960, a extens\u00e3o das rodovias rondonienses era praticamente inexistente, contudo, em 1988, o estado possu\u00eda mais de 44 mil quil\u00f4metros&#8221;.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Coincidentemente, o quarto presidente da Funai no governo Ernesto Geisel, engenheiro Ademar Ribeiro da Silva, era oriundo do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), hoje DNIT. Com discurso amistoso, Ribeiro visitou os Suru\u00eds em 1977.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980, a Superintend\u00eancia do Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia (Sudam) financiou a instala\u00e7\u00e3o ou reformula\u00e7\u00e3o de 131 projetos madeireiros industriais ao custo de meio bilh\u00e3o de d\u00f3lares (US$ 500 milh\u00f5es) em subs\u00eddios diretos. &#8220;O avan\u00e7o do desmatamento est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 hist\u00f3ria do povo Paiter Suru\u00ed, e o nosso contato com os n\u00e3o \u00edndios foi mais intenso com a cria\u00e7\u00e3o do PIC Gy-Paran\u00e1&#8221;, relata Hgaibiten.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FAC\u00d5ES, YARA, E &#8220;CERCOS DE PAZ&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&#8220;Ainda hoje, \u00e9 poss\u00edvel escutar, nas vozes dos anci\u00e3os ind\u00edgenas, relatos de experi\u00eancias do contato com o homem branco, ele relata. &#8220;Uma dessas mem\u00f3rias foi narrada para a pesquisadora Edineia Isidoro, na qual os \u00edndios Arara contam acontecimentos relacionados ao per\u00edodo da instala\u00e7\u00e3o da rede telegr\u00e1fica, entre os quais, a curiosa lembran\u00e7a de que usavam os fios dessa rede para fazer instrumentos de pesca e ca\u00e7a\u201d [Leia no final do texto].&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o final da d\u00e9cada de 1960&nbsp;a Companhia Colonizadora Itaporanga, pertencente aos irm\u00e3os&nbsp; Jos\u00e9 C\u00e2ndido, Nilo Tranquilo e Romeu Melhoran\u00e7a, passou a vender lotes ilegalmente, introduzindo v\u00e1rias fam\u00edlias na \u00e1rea ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>O assentamento irregular dos colonos causou diversos conflitos, lembra em livro a antrop\u00f3loga Betty Mindlin. No antigo&nbsp;<em>Jornal do Brasil<\/em>, o jornalista Edilson Martins escreveu diversas reportagens mostrando essa realidade.&nbsp; &#8220;O contato entre os colonos e os Paiter Suru\u00ed foi decisivo para cria\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Sete de Setembro&#8221;, diz Hgaibiten.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"434\" data-attachment-id=\"30489\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2020\/12\/21\/historia-indigena-academico-resgata-contato-e-saque-contra-os-suruis-em-rondonia\/da1663ca-ea1b-4755-b33c-0e69b88214a1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?fit=1004%2C726\" data-orig-size=\"1004,726\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;KIM-IR-SEN PIRES LEAL&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;\\u00a9 1978 KIM-IR-SEN PIRES LEAL \\nkimirsenphoto@gmail.com&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?fit=300%2C217\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?fit=600%2C434\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?resize=600%2C434\" alt=\"\" class=\"wp-image-30489\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?w=1004 1004w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?resize=300%2C217 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?resize=768%2C555 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DA1663CA-EA1B-4755-B33C-0E69B88214A1.jpeg?resize=415%2C300 415w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No final daquela d\u00e9cada, nos limites entre os munic\u00edpios de Cacoal e Espig\u00e3o do Oeste, a colonizadora aliciou terras ind\u00edgenas, vendendo-as para&nbsp;migrantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estimava-se que cerca de mil fam\u00edlias de colonos haviam comprado terras ainda n\u00e3o demarcadas, e por isso mesmo, sujeitas \u00e0 usurpa\u00e7\u00e3o.&nbsp;Em novembro de 1976, um m\u00e9dico de Cacoal se queixava ao jornal&nbsp;<em>O Globo:&nbsp;<\/em>&#8220;Desde que cheguei \u00e0 regi\u00e3o, venho observando o caso de colonos flechados por \u00edndios&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Betty Mindlin lembra que at\u00e9 os anos 1980 os Suru\u00eds enfrentaram &#8220;conflitos graves e mort\u00edferos&#8221;.&nbsp; &#8220;A companhia dos irm\u00e3os Melhoran\u00e7a demarcava lotes de 2 mil hectares&nbsp;vend\u00ea-los a fazendeiros de S\u00e3o Paulo e do Mato Grosso (&#8230;) A colonizadora j\u00e1 havia vendido um grande latif\u00fandio de 2 milh\u00f5es de alqueires, incluindo terras da \u00e1rea ind\u00edgena Sete de Setembro, que pertenciam ao povo Suru\u00ed por direito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Colonos se revoltaram tentando impedir a passagem de funcion\u00e1rios da Secretaria de Agricultura e do Incra, no momento em que eles iriam parcelar as terras em m\u00f3dulos de 42 alqueires, conta Hgaibiten.&nbsp;Apontando algo ruim entre os acontecimentos daquele per\u00edodo: sem consulta e sem di\u00e1logo, fam\u00edlias escorra\u00e7adas de seus lotes foram substitu\u00eddas por outras selecionadas pelo coordenador regional do Incra, o Capit\u00e3o da Aeron\u00e1utica S\u00edlvio Gon\u00e7alves de Faria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse confronto resultou na perda da metade do territ\u00f3rio Suru\u00ed para projetos de coloniza\u00e7\u00e3o e para empresas que ignoravam ou preferiam desconhecer a demarca\u00e7\u00e3o. &#8220;Suas terras foram invadidas por pequenos agricultores, comprimidos pelas empresas extratoras e&nbsp;empurrados para l\u00e1, provocando problemas de sa\u00fade, principalmente nas crian\u00e7as&#8221;, relatava Betty Mindlin em 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>Hgaibiten cita importante trabalho de \u00c2ngela Pappiani e Inim\u00e1 Lacerda (em 2016) a respeito de transcri\u00e7\u00f5es de mem\u00f3rias dos anci\u00e3os Suru\u00eds na \u00e9poca do contato com os n\u00e3o \u00edndios. Nas narrativas, \u00e9 poss\u00edvel identificar que o procedimento \u201ccerco de paz\u201d foi adotado para aproxima\u00e7\u00e3o com o povo Paiter Suru\u00ed, em 1969.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gasalab Suru\u00ed, cacique da aldeia Gabgir, narrou como os yara (homens brancos) estabeleceram o contato: &#8220;Cada vez que pendurava os fac\u00f5es, ele fazia isso em lugar diferente e cada vez mais pr\u00f3ximo, mais adiante, mais adiante e mais adiante, at\u00e9 chegar \u00e0 beira do rio, e ali ele pendurou fac\u00f5es em um tapiri, e do outro lado ficou observando as pessoas pegarem&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os fac\u00f5es eram pendurados num lugar denominado Nambek\u00f3-dabadaqui-ba.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Do outro lado do rio, os yara nos chamavam para pegar fac\u00f5es; as pessoas atravessaram o rio e chegaram mais perto. Eles, os que fizeram o contato, contavam que enquanto estavam pegando fac\u00e3o algu\u00e9m sempre ficava com o arco armado, pronto para flechar. Temiam ser agarrados \u00e0 for\u00e7a, mas o contato foi pac\u00edfico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.gentedeopiniao.com.br\/uploads\/noticias\/2020\/12\/21\/3irtj3cf75k4o.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Hgaibiten com a filha: compromisso com o resgate da hist\u00f3ria de seu povo [Foto \u00c1lbum de Fam\u00edlia no Facebook]. - Gente de Opini\u00e3o\"\/><figcaption>Hgaibiten com a filha: compromisso com o resgate da hist\u00f3ria de seu povo [Foto \u00c1lbum de Fam\u00edlia no Facebook].<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u00cdNDIO COM MEDO DE \u00cdNDIO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O anci\u00e3o Gathag Suru\u00ed relembra os tempos Padxe sowesore ikn&nbsp;(\u201cn\u00f3s encontramos o conflito\u201d): &#8220;Havia muito conflito, t\u00ednhamos medo dos Zor\u00f3, dos Cinta Larga,&nbsp;Gavi\u00e3o, e dos yara ey. Fic\u00e1vamos encurralados, cercados por todos os inimigos, por isso fic\u00e1vamos andando, rodando como um disco, sem sa\u00edda&#8221;, ele narra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse vaiv\u00e9m, conforme descreve Hgaibiten,&nbsp;os Suru\u00eds voltaram e desceram o rio, do lado do territ\u00f3rio dos inimigos. O pai de Gatah&nbsp;conhecia o lugar e achava mais seguro ficar ali, por\u00e9m, quando confiava que estava num lugar seguro, os reencontrava.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vimos muita ca\u00e7a, penas de arara, de jacamim, vimos a casa; n\u00e3o sei onde eles estavam, era uma aldeia Zor\u00f3. Naquele tempo viv\u00edamos muito perto, todos os inimigos estavam num mesmo lugar, distante um dia, dois dias, uma semana de caminhada&#8221; contou um dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o panorama da divisa entre Rond\u00f4nia e Mato Grosso nas d\u00e9cadas de 1960-1980 implicava conflitos multi\u00e9tnicos entre ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas, acirramento das guerras tribais e avan\u00e7o da fronteira mercantil. Nesse contexto, em 1967, o sertanista Francisco Meirelles foi designado para contatar e &#8216;pacificar&#8217; os Suru\u00eds e Cintas Largas, dando continuidade aos trabalhos do inspetor H\u00e9lio Bucker, chefe da sexta Inspetoria Regional da Funai, observa Jo\u00e3o dal Poz, soci\u00f3logo e membro do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio, em 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1970, ano da proibi\u00e7\u00e3o da lavra manual da cassiterita (min\u00e9rio de estanho), Chico Meirelles assumira a dire\u00e7\u00e3o da delegacia da Funai (8\u00aa) na Capital de Rond\u00f4nia. Esse cargo tamb\u00e9m fora exercido pelo filho Apoena, em 1985. Mesmo que pesasse sobre Chico a condena\u00e7\u00e3o por problemas na gest\u00e3o da Inspetoria do Par\u00e1, ele havia acumulado prest\u00edgio e respeito em seus anos de SPI.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o na pacifica\u00e7\u00e3o dos Xavante, durante a d\u00e9cada de 1950, conferiu-lhe destaque nacional e simpatia com a opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 a ponto de, em 14 de janeiro de 1954, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Get\u00falio Vargas, receb\u00ea-lo em audi\u00eancia para debater sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1950 e 1970, Chico e suas ideias foram os principais representantes do modelo integracionista dos povos ind\u00edgenas no Brasil, rivalizando politicamente com os irm\u00e3os Villas-B\u00f4as, defensores do modelo protecionista. &#8220;Ele era visto com bons olhos pelos governos militares, porque acreditava que a integra\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas \u00e0 na\u00e7\u00e3o fosse um &#8216;tributo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o&#8217;; o \u00edndio entraria como fator \u00e9tnico na forma\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a brasileira, por miscigena\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por exterm\u00ednio&#8221;, constata Hgaibiten na fala do sertanista.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A ideia \u00e9 promover a confraterniza\u00e7\u00e3o de \u00edndios com civilizados, pois n\u00e3o se pode contrariar uma pol\u00edtica do governo de abertura de estradas que ele julga necess\u00e1rias para nosso desenvolvimento\u201d. &#8220;\u00c9 um \u201ctributo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o deixar que os \u00edndios tenham acesso a nossos bens; a pol\u00edtica indigenista \u00e9 assunto t\u00e3o dif\u00edcil que Rondon passou toda sua vida buscando uma solu\u00e7\u00e3o e deixou tudo na estaca zero, apesar do prest\u00edgio e da for\u00e7a que ele teve\u201d, afirmava Chico \u00e0 revista&nbsp;<em>Veja<\/em>&nbsp;em maio de 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro governo ditatorial p\u00f3s-1964, o marechal Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), a quest\u00e3o amaz\u00f4nica era central. &#8220;Integrar para n\u00e3o entregar\u201d a floresta, com vistas a garantir a soberania nacional, esse era o discurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Meirelles e a perspectiva integracionista defendiam o \u00edndio encarado como cidad\u00e3o emancipado. &#8220;Somente quando fosse identificado como trabalhador ele desenvolveria seu potencial rapidamente\u201d. Pode ser que tenha acertado, em parte, se for considerado o aspecto produtivo: Suru\u00eds hoje produzem o melhor caf\u00e9 de Cacoal; jovens tiveram acesso \u00e0 Universidade; e aquelas terras por anos invadidas s\u00e3o agora vigiadas por sat\u00e9lite do Google.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;MUITA TERRA PARA POUCO \u00cdNDIO&#8221;<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Para o executivo federal, Meirelles se tornava&nbsp;pe\u00e7a chave na tentativa de solucionar os conflitos na Amaz\u00f4nia. Em 7 de setembro de 1969, Francisco Meirelles chefiou a expedi\u00e7\u00e3o que fez o primeiro contato oficial com os Paiter Suru\u00ed; a equipe foi composta, dentre outros sertanistas, por seu filho Apoena. A data serviu para batizar a futura Terra Ind\u00edgena homologada somente em 1983**.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o estudo de Hgaibiten,&nbsp;a morosidade estatal se assentou na conflu\u00eancia entre a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, o colapso dos modelos de assentamento colonial em Rond\u00f4nia e a perspectiva pol\u00edtica, especialmente da elite regional: &#8220;muita terra para pouco \u00edndio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em 21 de agosto de 1976, o jornal<em>&nbsp;O Globo<\/em>&nbsp;noticiava:&nbsp;<em>Funai quer que o Ex\u00e9rcito leve paz para \u00e1rea ind\u00edgena<\/em>. A mat\u00e9ria contava que, pela primeira vez no Pa\u00eds o Ex\u00e9rcito poderia&nbsp;atuar para p\u00f4r fim a uma disputa de terras entre \u00edndios e brancos. O ent\u00e3o presidente da Funai, general Ismarth Ara\u00fajo Oliveira, alegava que a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal fora insuficiente para conter os \u00e2nimos dos posseiros instalados na \u00e1rea ind\u00edgena. Ele calcula que houvesse l\u00e1 um contingente de cem mil posseiros, todos armados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos frequentes atritos com ind\u00edgenas, posseiros ainda sem t\u00edtulo definitivo dos lotes obtidos com a colonizadora Melhoran\u00e7a se queixavam: &#8220;Os \u00edndios foram armados pela Funai: com flechas eles eram at\u00e9 humildes, e inspiravam confian\u00e7a; muitos de n\u00f3s fomos ca\u00e7ar com&nbsp;tempos atr\u00e1s, e era comum em Espig\u00e3o do Oeste um colono acompanhar um&nbsp; Suru\u00ed no meio da mata.&nbsp;A gente partilhava a ca\u00e7a e eles ficavam&nbsp;satisfeit\u00edssimos, agora s\u00f3 se v\u00ea \u00edndio armado de carabina por a\u00ed afora&#8221; \u2013 contava ao jornal um dos colonos da linha 11.<\/p>\n\n\n\n<p>A antrop\u00f3loga Mindlin tamb\u00e9m relatava: \u201cOs l\u00edderes C\u00e1dio e Itabira Suru\u00ed se armaram de arcos, flechas e espingardas e iniciaram a resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da reserva. Houve mortes de \u00edndios e colonos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o territorial teve in\u00edcio em 1976, e ficou a cargo da empresa Plantel, com sede em Goi\u00e2nia (GO), a mesma que se responsabilizou pela demarca\u00e7\u00e3o da TI Igarap\u00e9 Lourdes, dos povos Arara e Gavi\u00e3o, e da TI Roosevelt, dos Cinta Larga.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, conforme lembra Itabira Gapoi Suru\u00ed, a empresa ao mesmo&nbsp; demarcava terras administradas pelo Incra.&nbsp;&nbsp;&#8220;Era particular, ligada ao governo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No desvendar da trama que resultou a demarca\u00e7\u00e3o da TI Igarap\u00e9 Lourdes, a pesquisadora Lediane Fani Felzke revela documentos do grupo de trabalho institu\u00eddo pela Funai para acompanhar as demarca\u00e7\u00f5es: &#8220;Ap\u00f3s uma explica\u00e7\u00e3o detalhada na \u00e1rea, com apresenta\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios mapas em diversas escalas, incluindo os de navega\u00e7\u00e3o utilizados pela FAB, por mim adquiridos no Rio, chegamos a um comum acordo da \u00e1rea necess\u00e1ria \u00e0 sobreviv\u00eancia dos \u00edndios nos postos ind\u00edgenas: Igarap\u00e9 Lourdes, 7 de Setembro e Roosevelt, &#8220;sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o do que por ali pudesse existir Incra, Itaporanga, grileiros&#8230;)&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora sejam necess\u00e1rias mais investiga\u00e7\u00f5es, eles acreditam na possibilidade de que a equipe de demarca\u00e7\u00e3o da Plantel chegara&nbsp;\u00e0s aldeias &#8220;ciente dos limites a serem demarcados, com vistas a garantir a propriedade de posseiros e da Cia. Colonizadora Itaporanga&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>______<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Em ingl\u00eas:&nbsp;As the expansion fronts advanced, contacts between Paiter Suru\u00ed and non-Indians took place. The following report is the result of research that aimed, in general, to understand the creation process of the Sete de Setembro Indigenous Land; specifically, it sought to identify the political and economic projects, as well as the conflicts that involved the non-indigenous and the Paiter Suru\u00ed people Keyword: Frontier, Territory, Paiter Suru\u00ed.&nbsp;<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>** A demarca\u00e7\u00e3o dos limites da Terra Ind\u00edgena s\u00f3 ocorreu em 1976; a posse permanente veio pela Portaria n\u00ba 1561, de 29 de setembro de 1983, e somente em 17 de outubro de 1983 ela foi homologada, pelo Decreto Presidencial n\u00ba 88.867. Do contato oficial, em setembro de 1969, at\u00e9 a sua homologa\u00e7\u00e3o, em 1983, a TI foi palco de sangrentas disputas.&nbsp;&nbsp;<\/strong><strong><br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><br>E MAIS:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u25ba&nbsp;Em meados do s\u00e9culo XX, a regi\u00e3o que compreende o sudeste de Rond\u00f4nia e o noroeste de Mato Grosso era populosa e multi\u00e9tnica, formada por tr\u00eas grandes etnias: Paiter Suru\u00ed, Cinta Larga e Zor\u00f3. Estima-se que neste per\u00edodo coexistiam cerca de dois mil Cinta Larga, cinco mil Paiter Suru\u00ed e mil Zor\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u25ba&nbsp;Povos de h\u00e1bitos semin\u00f4mades, esses grupos tradicionalmente guerreavam entre si. Por meio das guerras tribais, as etnias interagiam&nbsp;umas com as outras, numa \u201cl\u00f3gica centr\u00edfuga\u201d, possibilitando a manuten\u00e7\u00e3o de seus dom\u00ednios territoriais e de suas especificidades identit\u00e1rias. Entretanto, com o avan\u00e7o da fronteira mercantil, as guerras tribais se acirraram e ganharam um elemento adicional: os yara ey (n\u00e3o&nbsp;\u00edndios).&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MONTEZUMA CRUZ &#8211; Conflitos pol\u00edticos e econ\u00f4micos envolvendo o Povo Pa\u00edter Suru\u00ed nos anos 1970 comp\u00f5em a pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do acad\u00eamico\u00a0do Curso de Licenciatura Intercultural da Universidade Federal de Rond\u00f4nia (Unir), Hgaibiten Suru\u00ed, 30 anos.\u00a0Tradicionalmente, esses ind\u00edgenas viveram na regi\u00e3o noroeste de Mato Grosso e no sudeste de Rond\u00f4nia. 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