{"id":30543,"date":"2021-01-04T11:22:20","date_gmt":"2021-01-04T15:22:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30543"},"modified":"2021-01-04T11:22:24","modified_gmt":"2021-01-04T15:22:24","slug":"a-pandemia-e-o-agronegocio-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/01\/04\/a-pandemia-e-o-agronegocio-no-brasil\/","title":{"rendered":"A pandemia e o agroneg\u00f3cio no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"494\" data-attachment-id=\"30544\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/01\/04\/a-pandemia-e-o-agronegocio-no-brasil\/d5515293-ffcd-4e8c-8c82-aa3f45b231a6\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?fit=360%2C494\" data-orig-size=\"360,494\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?fit=219%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?fit=360%2C494\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?resize=360%2C494\" alt=\"\" class=\"wp-image-30544\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?w=360 360w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/D5515293-FFCD-4E8C-8C82-AA3F45B231A6.jpeg?resize=219%2C300 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A entropia interna ao sistema agropecu\u00e1rio global deve ser entendida como uma amea\u00e7a existencial para toda a humanidade.\u00a0O\u00a0admir\u00e1vel mundo novo das pandemias rebaixou os limites para a exist\u00eancia humana: agora estamos presos debaixo do teto de zinco das granjas de abate de animais em massa, cada uma delas uma f\u00e1brica em potencial da pr\u00f3xima bomba microbiol\u00f3gica\u00a0<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Le Monde Diplomatique, por <strong>Allan Rodrigo de Campos Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia diversionista praticada pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/circulo-moral-bolsonarista-antipolitica-individualismo-e-negacionismo\/\">governo Bolsonaro<\/a>&nbsp;de tola n\u00e3o tem nada. Suas pe\u00e7as se orientam por t\u00e1ticas de contraintelig\u00eancia. A confus\u00e3o dirige e antecipa a imagem do inimigo da vez, enquanto qualquer responsabilidade \u00e9 dirimida em um malabarismo macabro, nascido do obscurantismo e do desejo de morte. Foi assim nos epis\u00f3dios do derramamento de petr\u00f3leo no litoral brasileiro e nas queimadas da Amaz\u00f4nia, no j\u00e1 distante ano de 2019. Diante da pandemia de&nbsp;Covid-19 no Brasil, esse governo n\u00e3o agiu diferente: comandou um esfor\u00e7o coordenado para blindar o agroneg\u00f3cio diante&nbsp;de&nbsp;sua responsabilidade na emerg\u00eancia e no cont\u00e1gio por doen\u00e7as infecciosas emergentes. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade chegou a desviar parte&nbsp;de&nbsp;sua verba para pe\u00e7as publicit\u00e1rias para o&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/necropolitica-e-agronegocio\/\">agroneg\u00f3cio<\/a>, num ato de&nbsp;derradeira capitula\u00e7\u00e3o. Em 2020, a sa\u00fade n\u00e3o&nbsp;foi&nbsp;pop.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A fuma\u00e7a da pandemia<\/h5>\n\n\n\n<p>Ao longo do ano, a pandemia se alastrou pelo territ\u00f3rio brasileiro como uma linha de p\u00f3lvora estendida no ch\u00e3o. Fez seu curso atrav\u00e9s das grandes cidades, depois encontrou seu caminho de interioriza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds nas instala\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio. Em junho, no Rio Grande do Sul, 25% dos infectados trabalhavam em frigor\u00edficos de aves de porcos. Logo a doen\u00e7a tamb\u00e9m alcan\u00e7ou os territ\u00f3rios ind\u00edgenas. As primeiras contamina\u00e7\u00f5es entre&nbsp;guaranis&nbsp;de&nbsp;Mato Grosso do Sul aconteceram nos frigor\u00edficos da JBS. O ambiente de ventila\u00e7\u00e3o controlada, o trabalho ombro a ombro e a neglig\u00eancia das empresas diante de funcion\u00e1rios com sintomas da Covid-19 fez dos frigor\u00edficos focos para o&nbsp;superespalhamento&nbsp;da doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Logo a pandemia aterrissou tamb\u00e9m nas pistas de pouso do garimpo ilegal invasor das terras&nbsp;Yanomami&nbsp;e&nbsp;Ye\u2019kwana. De acordo com um estudo conduzido pela Rede Pr\u00f3\u2013Yanomami e&nbsp;Ye\u2019kwana, em novembro de 2020,&nbsp;um&nbsp;em cada&nbsp;tr\u00eas&nbsp;desses ind\u00edgenas j\u00e1 havia sido exposto ao novo&nbsp;coronav\u00edrus. Mas da&nbsp;floresta tamb\u00e9m se erguem vozes que guardam uma longa mem\u00f3ria sobre as doen\u00e7as trazidas pela coloniza\u00e7\u00e3o. O xam\u00e3 Davi&nbsp;Kopenawa&nbsp;nos lembra que entre os&nbsp;Yanomami&nbsp;sempre se falou da&nbsp;<em>xawara<\/em>, a fuma\u00e7a que emana do metal arrancado pelo homem branco das entranhas da terra. A&nbsp;<em>xawara<\/em>, a fuma\u00e7a da epidemia, \u00e9 uma fecunda alegoria da produ\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as pela moderniza\u00e7\u00e3o capitalista e a destrui\u00e7\u00e3o da natureza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Admir\u00e1vel mundo novo da pecu\u00e1ria industrial<\/h5>\n\n\n\n<p>O papel da pecu\u00e1ria industrial na produ\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas n\u00e3o comp\u00f5e exatamente uma novidade para os pesquisadores especializados. No entanto, desde a epidemia de gripe avi\u00e1ria que matou&nbsp;cem&nbsp;pessoas na China em apenas uma semana, diversas pesquisas apontam a causa da emerg\u00eancia de novas doen\u00e7as infecciosas na microbiologia viral bastante particular da pecu\u00e1ria industrial globalizada. O modelo de cria\u00e7\u00e3o animal intensiva remonta aos Estados Unidos dos anos 1940 e surgiu sob os ausp\u00edcios das sociedades de eugenia humana que popularizaram a no\u00e7\u00e3o de melhoramento gen\u00e9tico como forma de incremento da domina\u00e7\u00e3o humana sobre a natureza. No entanto, ainda que compartilhe esse assoalho comum com a eugenia humana, o melhoramento gen\u00e9tico de plantas e animais decantou na ideologia da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista como se tratasse de uma conquista civilizat\u00f3ria&nbsp;biossegura&nbsp;que nos afastaria da inseguran\u00e7a alimentar cr\u00f4nica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um olhar mais atento \u00e0s din\u00e2micas epidemiol\u00f3gicas do setor pode revelar o contr\u00e1rio. De acordo com o bi\u00f3logo evolucionista Rob Wallace (<em>Pandemia e&nbsp;<\/em><em>a<\/em><em>groneg\u00f3cio:&nbsp;<\/em><em>d<\/em><em>oen\u00e7as infecciosas, capitalismo e ci\u00eancia<\/em>,&nbsp;Editora Elefante&nbsp;e&nbsp;Igr\u00e1&nbsp;Kniga, 2020),&nbsp;as instala\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o e engorda da pecu\u00e1ria industrial ofereceriam condi\u00e7\u00f5es ideais para pat\u00f3genos&nbsp;\u2013&nbsp;v\u00edrus e bact\u00e9rias&nbsp;\u2013&nbsp;testarem caminhos evolutivos que permitiriam o aumento&nbsp;de&nbsp;sua virul\u00eancia e patogenicidade. At\u00e9 a chamada revolu\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria do s\u00e9culo XX, a cria\u00e7\u00e3o humana de animais para consumo sempre esteve ligada \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o dos animais&nbsp;<em>in loco<\/em>. Essa pr\u00e1tica milenar est\u00e1 na base de uma pecu\u00e1ria que amplifica a diversidade gen\u00e9tica e imunol\u00f3gica dos bandos de aves, porcos, cordeiros, caprinos e bovinos em todo o planeta. A consolida\u00e7\u00e3o dos complexos agroindustriais trouxe \u00e0 baila a pr\u00e1tica execr\u00e1vel do&nbsp;monocultivo&nbsp;gen\u00e9tico, uma bomba\u2013rel\u00f3gio microbiol\u00f3gica em crescente tens\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O enfileiramento de milhares de animais geneticamente similares nos galp\u00f5es do agroneg\u00f3cio tamb\u00e9m funciona como uma plataforma de testes para o transbordamento de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas para as popula\u00e7\u00f5es humanas. A qualquer momento uma&nbsp;cepa rec\u00e9m\u2013emergente de um&nbsp;coronav\u00edrus&nbsp;ou&nbsp;<em>influenza<\/em>&nbsp;pode assumir um rearranjo gen\u00e9tico capaz de infectar humanos&nbsp;\u2013&nbsp;geralmente&nbsp;um trabalhador do agroneg\u00f3cio&nbsp;\u2013,&nbsp;e pronto: est\u00e1 aberta a longa rampa de mais uma epidemia mortal. O paradigma da biosseguran\u00e7a oferece n\u00edveis adicionais de press\u00e3o para a evolu\u00e7\u00e3o viral no interior da pecu\u00e1ria industrial. Animais reproduzidos&nbsp;<em>in loco<\/em>&nbsp;e criados ao ar livre recebem uma esp\u00e9cie de vacina natural, por conviverem com cepas de baixa patogenicidade prevalentes nos animais selvagens. A diversidade gen\u00e9tica e imunol\u00f3gica do bando atua como uma barreira epidemiol\u00f3gica para o surgimento de um surto. J\u00e1 na pecu\u00e1ria industrial,&nbsp;a vacina pode amplificar o problema: o pesquisador Kenneth&nbsp;Shortridge&nbsp;identificou uma linhagem do v\u00edrus da&nbsp;<em>influenza<\/em>&nbsp;altamente patog\u00eanica que evoluiu ao longo de anos debaixo das coberturas vacinais oferecidas pelo governo em um frigor\u00edfico de Hong Kong.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00edrus Sars-CoV-2, que causa a doen\u00e7a&nbsp;Covid-19, ainda n\u00e3o teve sua origem completamente desvelada pelos pesquisadores. No entanto, fortalecem-se&nbsp;as evid\u00eancias de que se trataria de um v\u00edrus zoon\u00f3tico que percorreu uma s\u00e9rie de transbordamentos entre esp\u00e9cies de animais at\u00e9 encontrar seu caminho de infec\u00e7\u00e3o em humanos. Ao menos um hospedeiro intermedi\u00e1rio, o pangolim,&nbsp;tem&nbsp;presen\u00e7a&nbsp;nessa&nbsp;cadeia de cont\u00e1gios subsequentes por causa da ind\u00fastria de&nbsp;carnes ex\u00f3ticas em franco processo de moderniza\u00e7\u00e3o na China.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Rob Wallace, estar\u00edamos j\u00e1 diante de uma enxurrada de novos&nbsp;coronav\u00edrus. Em apenas&nbsp;dezessete&nbsp;anos j\u00e1 passamos por tr\u00eas fen\u00f4menos de transbordamento de&nbsp;coronav\u00edrus&nbsp;que causam doen\u00e7as em humanos: Sars-1,&nbsp;Mers&nbsp;e Sars-2. Em outubro de 2020, uma pesquisa despertou a aten\u00e7\u00e3o de epidemiologistas ao constatar que outro&nbsp;coronav\u00edrus, o&nbsp;Sads-CoV, se revelou capaz de infectar c\u00e9lulas humanas. O&nbsp;Sads-CoV&nbsp;\u00e9 conhecido por&nbsp;provocar uma&nbsp;s\u00edndrome digestiva grave em porcos de cria\u00e7\u00e3o nos&nbsp;Estados Unidos. As mensagens de alerta n\u00e3o param de chegar: 17 milh\u00f5es de visons foram sacrificados para interromper um surto na Dinamarca. Caso as fazendas de visons houvessem produzido um novo rearranjo gen\u00e9tico do v\u00edrus Sars-Cov-2, o esfor\u00e7o global de produ\u00e7\u00e3o de vacinas poderia ter sido seriamente comprometido. Uma futura pandemia que fosse capaz, logo de sa\u00edda, de infectar humanos e animais de cria\u00e7\u00e3o seria exponencialmente mais dif\u00edcil de controlar. O Global&nbsp;Virome&nbsp;Project estima que existam mais de 1 milh\u00e3o de v\u00edrus desconhecidos circulando em animais selvagens, dos quais metade tem potencial para causar zoonoses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A entropia interna ao sistema agropecu\u00e1rio global deve ser entendida como uma amea\u00e7a existencial para toda a humanidade. Se nos anos da&nbsp;Guerra Fria&nbsp;a humanidade viveu debaixo do teto de a\u00e7o da amea\u00e7a nuclear, o admir\u00e1vel mundo novo das pandemias rebaixou os limites para a exist\u00eancia humana: agora estamos presos debaixo do teto de zinco das granjas de abate de animais em massa, cada uma delas uma f\u00e1brica em potencial da pr\u00f3xima bomba microbiol\u00f3gica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ato_de_homenagem_do_agronegocio_ao_presidente_da_republica1809201263-scaled-e1608841531697.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-181112\"\/><figcaption>Jair Bolsonaro \u00e9 homenageado em Sinop (MT) em ato do agroneg\u00f3cio, em outubro de 2020. (Alan Santos\/PR)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Ecologias&nbsp;protopand\u00eamicas<\/h5>\n\n\n\n<p>A cadeia de cont\u00e1gio de todas as doen\u00e7as infecciosas emergentes come\u00e7a com a&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/meio-ambiente-coronavirus-e-a-politica-bolsonarista\/\">destrui\u00e7\u00e3o da natureza<\/a>. Um caso exemplar para a nova geografia global das doen\u00e7as emergentes est\u00e1 no&nbsp;Delta&nbsp;do Rio das P\u00e9rolas, na ba\u00eda onde est\u00e3o Hong Kong, Macau e as prov\u00edncias de Guangzhou e Shenzhen, moradia de 22 milh\u00f5es de pessoas. Com a abertura da Zonas Econ\u00f4micas Especiais ao capital internacional nos anos 1980, a ecologia do delta foi radicalmente transformada: terraplanagem, drenagem de \u00e1reas \u00famidas, urbaniza\u00e7\u00e3o extensiva, industrializa\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de complexos agroindustriais.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o planeta, as \u00e1reas \u00famidas como p\u00e2ntanos, turfas e charcos atuam como&nbsp;zonas&nbsp;de pousio e invernada&nbsp;para&nbsp;bandos de aves migrat\u00f3rias que s\u00e3o reservat\u00f3rios para diversas cepas&nbsp;de v\u00edrus da&nbsp;<em>influenza<\/em>. Contudo, diante de sua alta variabilidade gen\u00e9tica,&nbsp;nesses&nbsp;bandos de aves selvagens prevalecem v\u00edrus de baixa patogenicidade, j\u00e1 que os de alta patogenicidade em geral infectam alguns indiv\u00edduos sem conseguir estabelecer uma cadeia de cont\u00e1gio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria avan\u00e7a sobre as \u00e1reas \u00famidas, drenadas para a forma\u00e7\u00e3o de campos de cultivo, esses bandos de aves perdem suas \u00e1reas de pousio e passam a forragear em meio aos restos das produ\u00e7\u00f5es de gr\u00e3os das fazendas. Essa press\u00e3o aumenta a interface entre aves migrat\u00f3rias selvagens e aves de cria\u00e7\u00e3o. Quando os v\u00edrus das aves selvagens infectam, por exemplo, um celeiro de frangos de corte, encontram uma via livre para testar caminhos de evolu\u00e7\u00e3o para sua patogenicidade e virul\u00eancia, sem,&nbsp;contudo,&nbsp;contar com os mecanismos de interrup\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as com que as florestas e&nbsp;os&nbsp;bandos de animais selvagens possuem em raz\u00e3o&nbsp;de&nbsp;sua biodiversidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria da China, que encarna&nbsp;esse&nbsp;roteiro, eclodiu na epidemia de gripe avi\u00e1ria de 2003. O&nbsp;Pantanal brasileiro, uma das maiores plan\u00edcies alag\u00e1veis do planeta, \u00e1rea de pousio para mais de&nbsp;seiscentas&nbsp;esp\u00e9cies de aves, encaixa-se de maneira perfeita e terr\u00edvel&nbsp;nesse&nbsp;mesmo arranjo ecol\u00f3gico-econ\u00f4mico. No&nbsp;Pantanal, a cria\u00e7\u00e3o de aves, a pecu\u00e1ria bovina e a produ\u00e7\u00e3o intensiva de soja, milho e cana-de-a\u00e7\u00facar avan\u00e7am&nbsp;<em>pari passu<\/em><em>&nbsp;<\/em>com a drenagem das \u00e1reas \u00famidas. A regi\u00e3o&nbsp;pan\u2013amaz\u00f4nica&nbsp;\u00e9 o outro bioma sob profunda amea\u00e7a sanit\u00e1ria, j\u00e1 que se trata, com toda a probabilidade, do maior reposit\u00f3rio de&nbsp;coronav\u00edrus&nbsp;do planeta. A ecologia da Amaz\u00f4nia, profundamente complexa, cont\u00e9m cascatas de controle epidemiol\u00f3gico que os cientistas com muito esfor\u00e7o come\u00e7aram a desvendar. Vale lembrar que a destrui\u00e7\u00e3o das florestas tropicais africanas e a press\u00e3o do agroneg\u00f3cio do \u00f3leo de palma produziu a maior epidemia de&nbsp;ebola da hist\u00f3ria, que levou 11&nbsp;mil&nbsp;pessoas \u00e0 morte entre 2013 e 2015.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Definitivamente, as mensagens de alerta n\u00e3o param de chegar. Aos poucos a comunidade cient\u00edfica e a sociedade civil tomam conhecimento da polui\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica inerente ao sistema industrial de cria\u00e7\u00e3o de animais e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos do agroneg\u00f3cio capitalista. Um mundo onde a cria\u00e7\u00e3o de animais n\u00e3o&nbsp;esteja&nbsp;sujeita aos ditames autodestrutivos tanto para a biodiversidade&nbsp;como&nbsp;para a pr\u00f3pria humanidade pode ser um ponto de partida para o enfrentamento mais amplo do sistema capitalista como um todo. Todavia, o imperativo por transforma\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o&nbsp;\u00e9 mais&nbsp;uma admoesta\u00e7\u00e3o proselitista, mas uma terr\u00edvel atualiza\u00e7\u00e3o dos limites para a exist\u00eancia humana sobre o planeta. Falta muito pouco para o&nbsp;\u201ctarde demais\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>*<strong>Allan Rodrigo de Campos Silva<\/strong>&nbsp;\u00e9 ge\u00f3grafo e doutor&nbsp;em&nbsp;Geografia Humana pela USP. Traduziu o livro&nbsp;<a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/pandemia-e-agronegocio\/\"><em>Pandemia e&nbsp;<\/em><em>a<\/em><em>groneg\u00f3cio<\/em><\/a>, de Rob Wallace (Elefante e&nbsp;Igr\u00e1&nbsp;Kniga,&nbsp;2020)&nbsp;e \u00e9&nbsp;membro do F\u00f3rum Popular da Natureza.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A entropia interna ao sistema agropecu\u00e1rio global deve ser entendida como uma amea\u00e7a existencial para toda a humanidade.\u00a0O\u00a0admir\u00e1vel mundo novo das pandemias rebaixou os limites para a exist\u00eancia humana: agora estamos presos debaixo do teto de zinco das granjas de abate de animais em massa, cada uma delas uma f\u00e1brica em potencial da pr\u00f3xima bomba&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/01\/04\/a-pandemia-e-o-agronegocio-no-brasil\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30543","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7WD","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30543"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30545,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30543\/revisions\/30545"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}