{"id":30576,"date":"2021-01-12T20:54:38","date_gmt":"2021-01-13T00:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=30576"},"modified":"2021-01-12T20:55:50","modified_gmt":"2021-01-13T00:55:50","slug":"nada-e-mais-antigo-que-o-passado-recente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/01\/12\/nada-e-mais-antigo-que-o-passado-recente\/","title":{"rendered":"NADA \u00c9 MAIS ANTIGO QUE O PASSADO RECENTE"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"766\" data-attachment-id=\"30577\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/01\/12\/nada-e-mais-antigo-que-o-passado-recente\/2bb7c2d6-a32b-4bc5-ba8d-3aaecda5ee51\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?fit=1200%2C766\" data-orig-size=\"1200,766\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?fit=300%2C192\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?fit=600%2C383\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?fit=600%2C383\" alt=\"\" class=\"wp-image-30577\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?resize=300%2C192 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?resize=1024%2C654 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?resize=768%2C490 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/2BB7C2D6-A32B-4BC5-BA8D-3AAECDA5EE51.jpeg?resize=470%2C300 470w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption>J.P. Cuenca em seu apartamento em S\u00e3o Paulo: \u201cOs processos contra mim s\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o orquestrada pelos cafet\u00f5es da f\u00e9 alheia para enlouquecer (ou levar \u00e0 fal\u00eancia) o inimigo ap\u00f3stata\u201d\u00a0CREDITO: EGBERTO NOGUEIRA_2020_\u00cdM\u00c3 FOTOGALERIA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um escritor conta sobre os 143 processos movidos contra ele por pastores da Igreja Universal&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>J.P. CUENCA<\/strong>, na Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p>Em junho do ano passado, ap\u00f3s publicar um tu\u00edte sat\u00edrico criticando a fam\u00edlia Bolsonaro e a Igreja Universal, o escritor&nbsp;<strong>J. P. CUENCA<\/strong>, 42 anos, viu-se r\u00e9u em uma s\u00e9rie de processos de inj\u00faria, movidos contra ele por pastores em v\u00e1rias regi\u00f5es remotas do pa\u00eds, como as cidades de Tomar do Geru (Sergipe) e Ouro Preto do Oeste (Rond\u00f4nia). A mesma t\u00e1tica j\u00e1 havia sido utilizada, sem sucesso, por pastores dessa igreja contra pessoas que a criticam. Seu objetivo \u00e9 lan\u00e7ar a defesa num p\u00e9riplo absurdo pelo pa\u00eds, de Norte a Sul, enquanto transforma a vida do escritor numa via-cr\u00facis judicial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>16 DE JUNHO DE 2020, TER\u00c7A-FEIRA_&nbsp;<\/strong>\u00c0s 16h55 de mais uma tarde dedicada \u00e0 procrastina\u00e7\u00e3o durante a quarentena, escrevo em minha p\u00e1gina no Twitter: \u201cO brasileiro s\u00f3 ser\u00e1 livre quando o \u00faltimo Bolsonaro for enforcado nas tripas do \u00faltimo pastor da Igreja Universal.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma par\u00e1frase de um ditado atribu\u00eddo aos iluministas Voltaire e Diderot, mas que tem sua origem nas confiss\u00f5es do abade franc\u00eas Jean Meslier (1664-1729). Ao longo dos s\u00e9culos, o dito foi recriado sem cessar por gente dos mais variados espectros ideol\u00f3gicos, a partir da seguinte formula\u00e7\u00e3o: \u201cO homem s\u00f3 ser\u00e1 livre quando o \u00faltimo rei for enforcado nas tripas do \u00faltimo padre.\u201d Meslier, entretanto, se expressou em tom mais pessoal em seu di\u00e1rio editado por Voltaire: \u201cEu gostaria, e este ser\u00e1 o \u00faltimo e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o \u00faltimo rei fosse estrangulado com as tripas do \u00faltimo padre.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O prov\u00e9rbio iluminista me veio de supet\u00e3o, quando eu terminava de ler uma not\u00edcia sobre verbas de comunica\u00e7\u00e3o do governo federal canalizadas para os canais de r\u00e1dio e tev\u00ea de grandes igrejas evang\u00e9licas, essas fortalezas eleitorais da ultradireita que est\u00e3o conduzindo o Brasil ao precip\u00edcio. Indignado com a not\u00edcia, reescrevi a frase em modo sat\u00edrico, como j\u00e1 fizeram tantos ao longo da hist\u00f3ria, de maneira distra\u00edda, como se acrescentasse mais uma&nbsp;<em>boutade<\/em>&nbsp;\u00e0s tantas que correm nas redes sociais, como algu\u00e9m que rabiscasse a toalha de papel de um restaurante ou cuspisse ao passar perto do busto de um general na pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sabia que n\u00e3o estava sozinho: boa parte dos conte\u00fados do Twitter consiste em rea\u00e7\u00f5es, xingamentos e goza\u00e7\u00f5es a pol\u00edticos e autoridades em geral. A rede social parece particularmente prop\u00edcia a dar vaz\u00e3o \u00e0 profanidade com fins de catarse \u2013 e tamb\u00e9m a algo mais elementar. Lembro do estudo feito por um psic\u00f3logo brit\u00e2nico que comprovou que as impreca\u00e7\u00f5es aumentam a nossa capacidade de suportar a dor. Ele mandou suas cobaias elencarem duas listas de palavras: a primeira apenas com xingamentos, como os que soltamos ao martelar o pr\u00f3prio dedo; a segunda, com palavras neutras. Depois, mandou os participantes enfiarem a m\u00e3o num balde cheio de gelo. Os que leram a lista com palavras de baixo cal\u00e3o foram capazes de resistir quase 50% a mais de tempo com a m\u00e3o no gelo, e n\u00e3o apenas: sentiam a dor provocada pela baixa temperatura de forma menos intensa. Estudos semelhantes foram feitos durante exerc\u00edcios f\u00edsicos, com resultados parecidos. Richard Stephens, da Universidade Keele, na Inglaterra, o acad\u00eamico respons\u00e1vel pelos experimentos, divulgados em 2009 na revista&nbsp;<em>NeuroReport<\/em>, afirmou que o esconjuro produz uma resposta ao estresse natural, assim como o aumento de adrenalina e de batimentos card\u00edacos. Tudo isso leva a um tipo de \u201canestesia induzida pelo estresse\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal recompensa, no entanto, \u00e0s vezes n\u00e3o vale a pena. Saio do computador para fazer outras coisas e, quando volto ao Twitter, vejo que centenas de eleitores do presidente est\u00e3o enfurecidos, manifestando-se em minha p\u00e1gina com seus modos ruminantes e injuriosos. Nas horas seguintes, eles invadiram meus outros inboxes com amea\u00e7as de morte e mais insultos, ataques empreendidos por rob\u00f4s, seres humanos ou algum elo perdido entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Explico a cita\u00e7\u00e3o numa&nbsp;<em>thread<\/em>&nbsp;e apago o tu\u00edte original, por orienta\u00e7\u00e3o de um amigo escritor que \u00e9 tamb\u00e9m advogado. Sinto como se tivesse aberto sob os p\u00e9s um ralo conectado diretamente ao Vale do Flegetonte, um dos rios do Hades, ou \u00e0 caixa de esgoto de um pa\u00eds inteiro. Tranco minhas contas para evitar submergir no chorume do gado zumbi. No Facebook, como n\u00e3o podem mais fazer coment\u00e1rios, deixam emojis com sorrisos de esc\u00e1rnio nas \u00faltimas publica\u00e7\u00f5es. Os fascistas encontraram nas redes sociais o recurso ideal para expressar com alarde todo seu \u00f3dio e estupidez. Seguem estimulados pela sensa\u00e7\u00e3o de que, finalmente, algu\u00e9m ouve seus grunhidos de hiena, mesmo que seja por meio das caretas de um bonequinho amarelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de dormir, fa\u00e7o prints das amea\u00e7as de morte que recebi durante o dia. N\u00e3o s\u00e3o as primeiras na minha vida e talvez eu j\u00e1 esteja me acostumando com elas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>18 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>\u201cVoc\u00ea tuitou mesmo isso?\u201d, pergunta-me por e-mail a editora da sucursal brasileira da Deutsche Welle, rede de m\u00eddia alem\u00e3 para a qual escrevo uma coluna quinzenal. Devido \u00e0 repercuss\u00e3o, eu logo proponho explicar numa nota no site ou na pr\u00f3xima coluna a s\u00e1tira que fiz de uma met\u00e1fora de quase 300 anos. Mas ela recusa e me demite, com as seguintes palavras: \u201cEsse incidente torna a sua colabora\u00e7\u00e3o conosco insustent\u00e1vel. Postar nas redes sociais que pessoas devem ser enforcadas \u00e9 abomin\u00e1vel. N\u00e3o importa se \u00e9 uma cita\u00e7\u00e3o, uma par\u00e1frase ou feito com sarcasmo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento desonesto, vindo de uma pessoa adulta e com as fun\u00e7\u00f5es cognitivas supostamente em dia, me revolve o est\u00f4mago. Em nenhum momento eu disse que pessoas \u201cdevem ser enforcadas\u201d \u2013 e acreditar no contr\u00e1rio \u00e9 simplesmente desconsiderar a exist\u00eancia de linguagem figurada ou de qualquer capacidade de abstra\u00e7\u00e3o. A mensagem tacanha me soa ainda pior do que toda a ladainha fascista dos \u00faltimos dois dias, digo \u00e0 minha psicanalista pelo telefone \u2013 o alerta da editora chega pelo celular no meio da sess\u00e3o de an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Meia hora depois, \u00e9 publicado no site um comunicado em que a Deutsche Welle justifica minha demiss\u00e3o, dizendo que a rede se op\u00f5e a qualquer \u201cdiscurso de \u00f3dio\u201d. \u00c9 uma difama\u00e7\u00e3o que ecoa as manifesta\u00e7\u00f5es promovidas contra mim desde ter\u00e7a-feira, em meio a uma campanha de desinforma\u00e7\u00e3o promovida por atores pol\u00edticos neofascistas que hoje governam o pa\u00eds abusando, eles sim, de ret\u00f3rica odiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>De resto, tenho certeza de que os editores alem\u00e3es e os be\u00f3cios que ocupam o Planalto compreendem a met\u00e1fora presente na formula\u00e7\u00e3o iluminista original: que a igreja e a nobreza (ou outras&nbsp;<em>famiglias<\/em>) devem se manter afastadas do poder republicano, em prol do povo. A quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 cognitiva, mas pol\u00edtica: o ataque que \u00e9 feito contra mim \u00e9 do tipo que tem como objetivo intimidar e inviabilizar vozes cr\u00edticas a poderosos. No meu caso, usando uma acovardada empresa p\u00fablica alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>A opera\u00e7\u00e3o da Deutsche Welle \u00e9 um sucesso. Um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, reproduz a decis\u00e3o da empresa em suas redes sociais, acrescentado que \u201cainda h\u00e1 esperan\u00e7a em alguns segmentos da m\u00eddia\u201d e me amea\u00e7ando de processo. Os deputados neofascistas e seus asseclas celebram publicamente. O tumulto nos meus perfis, que j\u00e1 havia diminu\u00eddo passados dois dias do tu\u00edte, explode. Escritores, jornalistas e editores demonstram solidariedade, estupefatos, e s\u00e3o tamb\u00e9m achincalhados pela turba abomin\u00e1vel. Passo a tarde sentado no sof\u00e1, im\u00f3vel, com o computador no colo, rolando a tela enquanto proliferam comemora\u00e7\u00f5es contra mim, v\u00eddeos e montagens ofensivas com o meu rosto, amea\u00e7as de morte e de processos. N\u00e3o me lembro de outra vez que tenha sentido vontade de vomitar ao ler alguma coisa \u2013 bem, talvez em certos trechos de&nbsp;<em>Notas do Subsolo<\/em>, de Dostoi\u00e9vski, quando era adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p>Cedo ou tarde, esse governo vai acabar. Como sempre ocorre. Mas esses indiv\u00edduos continuar\u00e3o habitando o mundo, exatamente como antes. No fim do dia, minha analista me manda uma mensagem: \u201cEstou saindo de f\u00e9rias do consult\u00f3rio nessa pr\u00f3xima semana. Retorno em agosto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>19 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>Amanhe\u00e7o discutindo com meus dois maiores amigos de esquerda, ambos bravos e empedernidos ativistas pelos direitos humanos. Quando eu informo L. sobre o que est\u00e1 acontecendo, ela me responde de primeira: \u201cVoc\u00ea ainda acha que n\u00e3o errou, Jo\u00e3o Paulo?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>De onde menos se espera, vem a puxada de tapete. Tento um contrapeso, falando do monop\u00f3lio da ofensa por parte da direita, hoje aparentemente naturalizado, e que vivemos uma disputa n\u00e3o s\u00f3 ideol\u00f3gica, mas ret\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>L. me responde num \u00e1udio nervoso de dois minutos: \u201cEu n\u00e3o gostei do seu tu\u00edte. Achei pesado, inadequado para o contexto em que estamos vivendo. Eu n\u00e3o entendo como voc\u00ea fez esse tu\u00edte sem pensar no contexto e sem pensar que voc\u00ea \u00e9 um cara p\u00fablico, que \u00e9 um influenciador. \u00c9 \u00f3bvio que isso ia ter repercuss\u00e3o para voc\u00ea. N\u00e3o \u00e9 sobre voc\u00ea o que est\u00e1 rolando, entendeu? Estou falando isso porque preciso ser sincera com voc\u00ea. N\u00e3o pode ser uma chantagem onde eu s\u00f3 te apoio se for integralmente. Acho que voc\u00ea vacilou e deu brecha. Voc\u00ea n\u00e3o consegue reconhecer que deu uma brecha no Brasil de 2020? Eu acho isso preocupante. Voc\u00ea j\u00e1 tinha tido problema com outros ve\u00edculos. Se voc\u00ea quer trabalhar nesses lugares n\u00e3o pode falar tudo o que voc\u00ea quer. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o posso falar tudo o que eu quero nas redes. E esse limite hoje \u00e9 muito dado pelo contexto do que estamos vivendo. Voc\u00ea est\u00e1 decepcionado com a Deutsche Welle? Eu n\u00e3o esperava nada diferente deles ou de nenhum outro ve\u00edculo. Isso n\u00e3o quer dizer que eu estou te abandonando. E n\u00e3o vem dizer que eu estou afinando, porque voc\u00ea sabe que eu estou trabalhando pra caralho aqui, comprando altas brigas que voc\u00ea nem sabe.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o permitem adversativas. N\u00e3o tem \u201cmas\u201d numa hora dessas. L. n\u00e3o precisa concordar com o que eu escrevi: o que est\u00e1 em jogo \u00e9 muito mais s\u00e9rio. \u00c9 sempre triste perder uma amizade por causa de pol\u00edtica \u2013 ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 motivo melhor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>21 DE JUNHO, DOMINGO_<\/strong>&nbsp;Na sexta, G. e eu pegamos o carro e fomos para o Sul de Minas. Ela est\u00e1 \u00e0 procura de um terreno no interior. Para certa elite, as grandes cidades t\u00eam perdido o status de conforto material (e espiritual, via equipamentos de cultura), cristalizado em fins do s\u00e9culo XIX e que agora parece finalmente caducar. Talvez a pandemia tenha acelerado esse processo de desurbaniza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: minha amiga \u00e9 s\u00f3 mais uma pessoa buscando o id\u00edlio pastoril em tempos de quarentena.<\/p>\n\n\n\n<p>Na estrada, para nos distrair, entramos nos perfis das pessoas que pedem para me seguir no Instagram. S\u00e3o centenas. Vemos suas fotografias tiradas em templos, shoppings, autom\u00f3veis, anivers\u00e1rios, jogos de futebol, casamentos e batizados. Est\u00e3o de \u00f3culos escuros, farda, terno, quimono, vestido branco longo de renda com babados na barra. Como se G. e eu f\u00f4ssemos porteiros de boate, barramos a maioria com o seguinte crit\u00e9rio: se a pessoa pode querer me matar. Depois mostrei a ela um pouco do horror nas minhas caixas postais, para onde partid\u00e1rios do presidente remetem fotografias de suas facas e fuzis, me chamando de verme, comunista, vagabundo, drogado, dem\u00f4nio, desgra\u00e7ado do inferno. \u201cQuem voc\u00ea pensa que \u00e9 pra falar do presidente? Tu vai \u00e9 pra cadeia dar esse rabo podre sujo e fedorento.\u201d Dizem ter contatos (eles sempre t\u00eam muitos contatos) e que v\u00e3o me enforcar, retalhar, estripar e arrancar a minha l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas horas de viagem nos levaram at\u00e9 um terreno num vale em Extrema, mas n\u00e3o para longe do mundo dos brasileiros que t\u00eam frequentado minhas redes. A constru\u00e7\u00e3o principal, da qual s\u00f3 restou o esqueleto, era um retiro evang\u00e9lico, explicou o corretor. Caminhamos no templo abandonado at\u00e9 o altar. Atr\u00e1s do p\u00falpito, numa parede de tijolos aparentes, vimos o nome \u201cJESUS\u201d num arranjo de letras douradas infl\u00e1veis, daquelas de festa de anivers\u00e1rio infantil.<\/p>\n\n\n\n<p>Dali, fomos almo\u00e7ar em Monte Verde. Foi a primeira vez desde mar\u00e7o que me sentei num restaurante. G. \u00e9 artista visual, rec\u00e9m-chegada de uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Canad\u00e1, e, como sempre, a conversa terminou em planos de conting\u00eancia e migra\u00e7\u00e3o. Mas, pela primeira vez na minha vida, eu n\u00e3o quero ir embora do Brasil \u2013 disse a ela, enquanto observava, da varanda do restaurante, um cartaz ao lado de uma loja de lembran\u00e7as: \u201cAqui n\u00e3o temos crise, temos Cristo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>29 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_<\/strong>&nbsp;Um jornalista perguntou hoje ao porta-voz da primeira-ministra Angela Merkel se a minha demiss\u00e3o teve motivos pol\u00edticos, durante a coletiva de imprensa semanal do governo alem\u00e3o. Bastante constrangido, o porta-voz respondeu que naquele momento n\u00e3o podia dar detalhes sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Funcion\u00e1rios e ex-empregados da Deutsche Welle t\u00eam me escrito da Alemanha, prestando solidariedade e informando reservadamente que minha demiss\u00e3o ocorreu por ordem direta do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores alem\u00e3o, pressionado pelo governo brasileiro via embaixada em Bras\u00edlia. Perco o dia em comunica\u00e7\u00f5es com conhecidos na diplomacia brasileira. Dizem que essa administra\u00e7\u00e3o do Itamaraty \u00e9 pr\u00f3diga em comunicar-se internamente usando expedientes paralelos e fora do radar \u2013 ou seja, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esperan\u00e7a de que exista algum telegrama ou comunica\u00e7\u00e3o oficial arquivada sobre meu caso. Mais de um deles comenta que, para manter seus postos no governo, os diplomatas devem oferecer provas de fidelidade. Talvez minha cabe\u00e7a tenha sido uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1frase de um prov\u00e9rbio iluminista feita por um escritor comuna e obscuro vira um pequeno&nbsp;<em>affaire d\u2019\u00c9tat<\/em>&nbsp;numa coletiva de imprensa em Berlim, sendo que, desde a campanha eleitoral, membros de um governo miliciano de extrema direita no Brasil amea\u00e7am seus opositores de execu\u00e7\u00e3o (\u201cfuzilar a petralhada\u201d, \u201cmandar a oposi\u00e7\u00e3o para a ponta da praia\u201d). Al\u00e9m disso, usam slogans nazifascistas em redes oficiais, como \u201cBrasil acima de tudo\u201d, adapta\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Deutschland \u00fcber alles<\/em>&nbsp;(Alemanha acima de tudo), frase adotada por Hitler, e \u201cO trabalho, a uni\u00e3o e a verdade vos libertar\u00e1\u201d, que ecoa o slogan&nbsp;<em>Arbeit macht frei<\/em>&nbsp;(O trabalho liberta), afixado na entrada dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas. Sem falar em&nbsp;<em>Ya hemos&nbsp;<\/em><em>pasao!&nbsp;<\/em>(J\u00e1 passamos), frase dos franquistas usada pelo assessor especial da Presid\u00eancia para Assuntos Internacionais, um tal Filipe Martins, ao cumprimentar um dos filhotes do presidente no Twitter. E houve ainda o ex-secret\u00e1rio da Cultura Roberto Alvim fazendo&nbsp;<em>cosplay<\/em>&nbsp;de Goebbels em rede nacional e a desfa\u00e7atez do ministro Paulo Guedes, citando nominalmente o ministro da Economia nazista, Hjalmar Schacht, como um exemplo a ser seguido, ao se referir ao plano de reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Hitler, que incluiu m\u00e3o de obra servil e militarizada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tudo muito rid\u00edculo, embora n\u00e3o tenha gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>26 DE JULHO, DOMINGO_<\/strong>&nbsp;No fim do dia, respondo ao e-mail de um advogado alem\u00e3o indicado por um jornalista da pr\u00f3pria Deutsche Welle. Estamos entrando com um pedido de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para que a empresa revele as mensagens trocadas sobre o meu desligamento \u2013 de acordo com a lei europeia, tenho o direito de acessar documentos de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que tenham o meu nome. Depois disso, pretendemos pedir a publica\u00e7\u00e3o de uma desculpa p\u00fablica, corrigindo o comunicado cretino deles, e uma indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>24 DE AGOSTO, SEGUNDA-FEIRA_<\/strong>Depois de um par de semanas tentando esquecer o caso das tripas, fico sabendo pela&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>&nbsp;que o procurador da Rep\u00fablica Frederico de Carvalho Paiva decidiu a meu favor em Bras\u00edlia, arquivando uma representa\u00e7\u00e3o criminal contra mim que eu desconhecia. Trecho:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A mensagem originalmente publicada na rede social Twitter \u00e9 fruto da express\u00e3o art\u00edstica de um conhecido escritor brasileiro. O escritor utilizou-se do sentido figurado para fazer uma cr\u00edtica leg\u00edtima ao atual presidente da Rep\u00fablica. Por mais que se possa considerar a cr\u00edtica grosseira ou ofensiva, \u00e9 preciso considerar que o cargo exercido \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e est\u00e1 sujeito \u00e0 cr\u00edtica p\u00fablica. Trata-se do exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o, que n\u00e3o pode ser tolhido por pessoas ignorantes que n\u00e3o t\u00eam capacidade de compreender uma hip\u00e9rbole. No caso concreto, a mensagem publicada no Twitter foi realizada no sentido figurado, utilizando-se o escritor do texto do renomado fil\u00f3sofo e escritor franc\u00eas Diderot. O direito \u00e0 express\u00e3o intelectual e art\u00edstica possui matriz constitucional e n\u00e3o pode ser amea\u00e7ada pelo Direito Penal. O pa\u00eds viveu mais de vinte anos sob o regime da censura e a atual ordem constitucional assegura plena liberdade de cr\u00edtica aos poderosos de plant\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lendo a decis\u00e3o, lembro a \u00faltima vez que vi meu nome em p\u00e1ginas criminais. Foi quando me declararam morto (por engano, at\u00e9 segunda ordem), ap\u00f3s um cad\u00e1ver ter sido encontrado pela pol\u00edcia na Lapa, no Rio de Janeiro, com a minha certid\u00e3o de nascimento no bolso. E da mesma forma que o inqu\u00e9rito sobre a minha morte nos arquivos da 5\u00aa DP hoje pode ser lido como um paratexto do meu romance&nbsp;<em>Descobri que Estava Morto<\/em>, essas novas p\u00e1ginas criminais devem se transformar em elementos paratextuais de um novo livro, baseado nos meus di\u00e1rios recentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os franceses chamam de&nbsp;<em>l\u2019esprit de l\u2019escalier&nbsp;<\/em>o momento logo ap\u00f3s uma conversa em que voc\u00ea encontra a resposta que deveria ter dado, mas ela j\u00e1 n\u00e3o serve. Porque voc\u00ea, cabisbaixo e algo humilhado, j\u00e1 desceu a escada, do alto da qual seu interlocutor provavelmente agora te observa, apoiado ao corrim\u00e3o com ar de triunfo. Pois, se h\u00e1 algo que a literatura (esse tro\u00e7o que Paul Val\u00e9ry chamou de vingan\u00e7a de&nbsp;<em>l\u2019esprit de l\u2019escalier<\/em>) pode nos devolver, \u00e9 esse tempo entre os degraus. Para tentar chegar a alguma r\u00e9plica extraindo algo da experi\u00eancia pr\u00e9via. N\u00e3o com o objetivo de alcan\u00e7ar qualquer tipo de verdade \u2013 e sim algo ligeiramente acima disso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1\u00ba DE SETEMBRO, TER\u00c7A-FEIRA_<\/strong>&nbsp;O advogado alem\u00e3o me escreve, dizendo que a Deutsche Welle se nega a fornecer a comunica\u00e7\u00e3o interna com o meu nome. Mas deve haver uma not\u00edcia boa dentro dessa: se negam \u00e9 porque t\u00eam algo a esconder. Como estamos ainda na fase de comunica\u00e7\u00f5es extrajudiciais, o advogado diz que a melhor forma de pression\u00e1-los \u00e9 recorrendo \u00e0 Justi\u00e7a alem\u00e3, o que implica custos. N\u00e3o cogito desistir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>22 DE SETEMBRO, TER\u00c7A-FEIRA_<\/strong>&nbsp;De quando em vez, lembro das amea\u00e7as e do alerta de informantes da Igreja Universal que me foram enviados via inbox, dando como certo o fato de que eu seria processado por eles. E fa\u00e7o uma busca no Google com o meu nome completo. Descubro em poucos minutos que oito pastores evang\u00e9licos, de estados diferentes, est\u00e3o me processando por inj\u00faria. As indeniza\u00e7\u00f5es pedidas variam entre 10 mil e 20,9 mil reais. Todas foram ajuizadas por causa do tu\u00edte baseado em Meslier e duas delas s\u00e3o referentes a inqu\u00e9ritos policiais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>24 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_<\/strong>&nbsp;Vou ao shopping buscar um passaporte novo \u2013 e in\u00fatil, pelo menos at\u00e9 que o Brasil deixe de ser um dos centros da pandemia mundial. A nova validade \u00e9 de dez anos, mas imagino que eu n\u00e3o v\u00e1 us\u00e1-lo tanto quanto o anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Almo\u00e7o num restaurante australiano no shopping. Os funcion\u00e1rios usam escudos faciais e m\u00e1scaras, tev\u00eas est\u00e3o ligadas em canais de surfe, uma m\u00fasica euf\u00f3rica de FM se espalha pelo ambiente. Cena t\u00e9trica em que at\u00e9 os figurantes esqueceram de comparecer: o lugar est\u00e1 deserto. Para ler o menu, agora tenho que apontar o celular para um gr\u00e1fico rudimentar. Eu me atrapalho, mas o gar\u00e7om pega meu aparelho e me conduz com os dedos pela lista at\u00e9 os pratos do dia. Quando ele devolve o telefone, me apresso a limpar a tela com \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes e depois do almo\u00e7o, fa\u00e7o anota\u00e7\u00f5es e repasso o que estava fazendo em Madri em junho de 2019 \u2013 \u00e9 o in\u00edcio do livro que come\u00e7o a montar a partir destes di\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo o resto do dia falando com advogados indicados por amigos. Tento que eles me defendam&nbsp;<em>pro bono<\/em>, isto \u00e9, sem receber honor\u00e1rios. Segundo o \u00faltimo levantamento feito por um deles, al\u00e9m dos processos criminais, h\u00e1 dezessete processos civis contra mim em seis estados diferentes, em munic\u00edpios no meio do nada como Tomar do Geru (Sergipe) e Ouro Preto do Oeste (Rond\u00f4nia). Todos movidos por pastores da Igreja Universal. Como os juizados especiais c\u00edveis requerem a presen\u00e7a do r\u00e9u ou do seu advogado, trata-se de a\u00e7\u00e3o orquestrada pelos cafet\u00f5es da f\u00e9 alheia para enlouquecer (ou levar \u00e0 fal\u00eancia) o inimigo ap\u00f3stata.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea tem que jogar o jogo para entender por que est\u00e1 jogando o jogo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>26 DE SETEMBRO, S\u00c1BADO_<\/strong>&nbsp;Acordo com a seguinte mensagem de um dos advogados: \u201cFiz uma varredura em todos os tribunais do pa\u00eds (menos no TJRR, o Tribunal de Justi\u00e7a de Roraima, que no momento est\u00e1 fora do ar) e localizei 77 processos contra voc\u00ea, todos em juizados especiais e todos com a mesma causa de pedido, variando o valor dentro daquele par\u00e2metro que voc\u00ea j\u00e1 sabe. Embora a pesquisa tenha focado em mapear a exist\u00eancia dos processos, foi poss\u00edvel notar a exist\u00eancia de ao menos duas liminares: uma no Rio de Janeiro, determinando a retirada do conte\u00fado supostamente ilegal, e outra no Acre, indeferindo pedido liminar id\u00eantico. Os processos est\u00e3o distribu\u00eddos em ao menos dezenove unidades da Federa\u00e7\u00e3o, em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, do Acre ao Rio Grande do Sul. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente coordenada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o bilion\u00e1ria e com capilaridade em praticamente todos os munic\u00edpios do pa\u00eds usando a Justi\u00e7a brasileira para me atacar. Al\u00e9m de ser imposs\u00edvel eu me defender, acho que n\u00e3o ser\u00e1 suficiente, at\u00e9 porque eles podem entrar com outras cem a\u00e7\u00f5es no dia seguinte. Para que isso n\u00e3o se repita com outras pessoas, o ideal seria transformar esse caso numa den\u00fancia contra ass\u00e9dio judicial e&nbsp;<em>lawfare<\/em>, o uso abusivo ou ileg\u00edtimo da lei ou dos procedimentos legais para perseguir e destruir algu\u00e9m. Esse tipo de litig\u00e2ncia de m\u00e1-f\u00e9 em massa tem sido usado n\u00e3o s\u00f3 para inviabilizar a vida de cr\u00edticos no Brasil, mas para criar um estado de medo e amea\u00e7a permanente \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 noite, des\u00e7o a Rua Augusta at\u00e9 a Pra\u00e7a Roosevelt. Cidad\u00e3os sem m\u00e1scara, bares lotados. Sento no \u00fanico bar vazio, tomo uma cerveja que desce mal. Depois vou com P. a uma festa numa mans\u00e3o no Jardim Europa, onde uma jovem mora sozinha com uma cole\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea. Pela minha conta, somos uns seis ou sete irrespons\u00e1veis soltos pela casa. H\u00e1 um DJ na sala de tev\u00ea. Bebo cervejas, gim, fumo dois charutos cubanos de uma pequena estufa. Quando chego em casa, n\u00e3o consigo dormir, corro ao banheiro. N\u00e3o me lembro da \u00faltima vez que tinha vomitado tanto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>30 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_<\/strong>Vou a uma casa de santo buscar for\u00e7as na Terra. L\u00e1, tenho uma sensa\u00e7\u00e3o de febre, sinto as m\u00e3os dormentes, bocejo muito. Com os olhos fechados, vejo cascatas de luz p\u00farpura.&nbsp;<em>Certezas: de que estou aqui, estando longe, de que agora \u00e9 amanh\u00e3, e o dentro \u00e9 tamb\u00e9m fora<\/em>. Tudo isso ultrapassa a mimese, de longe, ainda que haja uma complexa teia de s\u00edmbolos no altar e em transfigura\u00e7\u00e3o. Cesare Pavese: \u201cO \u00fanico modo de escapar do abismo \u00e9 olhar para ele e medi-lo e sond\u00e1-lo e descer nele.\u201d O abismo como ant\u00eddoto e ascese \u2013 descer voando.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo a tarde conversando com um defensor p\u00fablico, uma advogada de direitos humanos, um advogado criminalista e um advogado civil. Descubro que, no \u00e2mbito do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, h\u00e1 mais tr\u00eas inqu\u00e9ritos, um deles na Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica. Sinto que meu caso \u00e9 uma batata quente: nem a Defensoria P\u00fablica tem capilaridade para encarar esse ataque. As organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos ainda o estudam. As indeniza\u00e7\u00f5es somadas devem bater 1 milh\u00e3o de reais. Sinto um raro al\u00edvio por n\u00e3o ter qualquer patrim\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sonho que sou uma crian\u00e7a que de s\u00fabito percebe que est\u00e1 num filme italiano (um filme de Rossellini?): Tudo fica preto e branco. A pr\u00f3pria textura do mundo se altera, fica mais granular, com os movimentos mais detidos. Vejo o voo de uma mosca nos pelos do meu bra\u00e7o, a poeira dan\u00e7ando ondulada pela atmosfera. Estou na ca\u00e7amba de uma carro\u00e7a e percebo que meu tio \u00e9 um ator, meu amigo \u00e9 um ator, e agora entendo que cada um tem dois nomes, um por tr\u00e1s do outro, o nome do personagem, o nome creditado. Sinto um volume estranho na gengiva, como cacos de vidro ou feij\u00f5es crus, abaixo a cabe\u00e7a: sobre minha m\u00e3o em concha, cuspo todos os meus dentes velhos, compridos e afiados como garras muito antigas. Guardo esses ossos delgados no bolso de uma cal\u00e7a de pano antes de acordar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda Pavese, em seu di\u00e1rio,&nbsp;<em>O Of\u00edcio de Viver<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 uma desola\u00e7\u00e3o tonificante \u2013 como uma manh\u00e3 de inverno \u2013 sofrer uma injusti\u00e7a. Isso reaviva&nbsp;<\/em>[\u2026]<em>&nbsp;nosso gosto pela vida; devolve o sentido do nosso valor frente \u00e0s coisas, d\u00e1 orgulho. Ao passo que sofrer por pura casualidade \u00e9 uma desgra\u00e7a, \u00e9 humilhante. Eu sofri assim, e queria que a injusti\u00e7a, a ingratid\u00e3o, tivessem sido ainda maiores. Isso se chama viver<\/em>&nbsp;[\u2026]<em>&nbsp;\u00c9 t\u00e3o raro sofrer uma boa injusti\u00e7a total. No geral, acontece quando estamos um pouco culpados, e adeus manh\u00e3 de inverno.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1\u00ba DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_<\/strong>&nbsp;Por motivos \u00f3bvios, penso em Cristo. Leio um texto de David Bentley Hart, um crist\u00e3o ortodoxo norte-americano, fil\u00f3sofo e te\u00f3logo, sobre a incompatibilidade do cristianismo com a cultura capitalista, secularista por ess\u00eancia. O Novo Testamento (que ele h\u00e1 pouco retraduziu) n\u00e3o apenas condena a riqueza pessoal como perigo moral, mas como mal intr\u00ednseco. Os primeiros crist\u00e3os (pr\u00e9-Constantino, pr\u00e9-Reforma, pr\u00e9-lavagem do Evangelho para a calibragem espiritual das classes m\u00e9dias planet\u00e1rias) faziam parte de uma gangue radical que levava muito a s\u00e9rio a busca da santidade pelos seus atos, \u00e0 dura luz do Julgamento Final. E bastante disso tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o deles com os bens materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Transcrevo, com alguma edi\u00e7\u00e3o, uma breve exegese de Hart:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cristo claramente quer dizer o que diz ao&nbsp;<\/em><em>citar o profeta: ele foi ungido pelo Esp\u00edrito de Deus para pregar boas-novas aos pobres (Lucas 4, 18). Para os pr\u00f3speros, as not\u00edcias que traz s\u00e3o decididamente sombrias: \u201cAi de v\u00f3s que sois ricos, porque estais recebendo vosso conforto em plenitude; ai de v\u00f3s que estais cheios de alimento, porque tereis fome; ai de v\u00f3s que agora estais rindo, porque tereis luto e chorareis\u201d (Lucas 6, 24-25).&nbsp;<\/em>[\u2026]<em>&nbsp;Cristo n\u00e3o s\u00f3 exige que doemos voluntariamente a todos que nos pedem (Mateus 5, 42) e que o fa\u00e7amos com tal prodigalidade que uma m\u00e3o ignore a generosidade da outra (Mateus 6, 3); ele pro\u00edbe explicitamente o ac\u00famulo da riqueza terrena \u2013 n\u00e3o apenas o ac\u00famulo demasiado obsessivo \u2013 e permite, ao inv\u00e9s disso, apenas o ac\u00famulo dos tesouros do c\u00e9u (Mateus 6, 19-20).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Surpreende como raramente os crist\u00e3os parecem notar que esses conselhos s\u00e3o declarados, de forma bastante decidida, como ordens.&nbsp;<\/em>[\u2026]&nbsp;<em>Em sua ep\u00edstola, Tiago&nbsp;<\/em>[\u2026]<em>&nbsp;lembra seus leitores que \u201cDeus escolheu os pobres para serem ricos na f\u00e9 e herdarem o Reino\u201d, e que os ricos, ao contr\u00e1rio, devem ser reconhecidos como opressores e perseguidores e blasfemos do santo nome de Cristo (Tiago 2, 5-7). Tiago adverte at\u00e9 mesmo seus leitores contra a presun\u00e7\u00e3o de planejar para obter lucros de empreendimentos comerciais na cidade (4, 13-14).<\/em>&nbsp;[\u2026]&nbsp;<em>Propriedade \u00e9 roubo, ao que parece. Justo ou n\u00e3o, o texto n\u00e3o distingue a boa riqueza da m\u00e1.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como vemos, na aurora da f\u00e9, o pre\u00e7o para se tornar crist\u00e3o e ser um seguidor do Caminho era simples: renunciar a toda reivindica\u00e7\u00e3o de propriedade privada e consentir a propriedade comum de tudo (Atos 4, 32).<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas (\u00eanfase no \u201capenas\u201d) pelo aspecto material, podemos afirmar que boa parte dessas igrejas neopentecostais, erguidas sobre a chamada teologia da prosperidade e um misticismo sem alma, usando o cristianismo como um parasita usa seu hospedeiro, \u00e9 constitu\u00edda n\u00e3o s\u00f3 por vendilh\u00f5es do templo, ap\u00f3statas, maus leitores da B\u00edblia ou maus crist\u00e3os, mas tamb\u00e9m, e efetivamente, por anticrist\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cristof\u00f3bicos<\/em>, portanto, para empregar uma palavra usada pelo presidente do Brasil, s\u00e3o, entre os pastores evang\u00e9licos, aqueles que usam o termo para defender uma religi\u00e3o que acomoda valores que Cristo e os primeiros crist\u00e3os n\u00e3o reconheceriam: gan\u00e2ncia, viol\u00eancia, nacionalismo. Usam o nome de Cristo e uma decora\u00e7\u00e3o vagamente crist\u00e3 para defender o mal em todas as suas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o capitalismo tardio esteja nos conduzindo, com certa tranquilidade e sem retorno aparente, ao apocalipse \u2013 h\u00e1 quem chame o desastre clim\u00e1tico provocado pelo sistema de \u201cCapitaloceno\u201d. Os \u00daltimos Dias parecem ter chegado, e as \u00fanicas sa\u00eddas que temos est\u00e3o previstas no Evangelho: o socialismo, a distribui\u00e7\u00e3o de bens, a luta contra a acumula\u00e7\u00e3o de capital. Para isso, qualquer revolu\u00e7\u00e3o precisa necessariamente tomar Cristo de volta. Mas, hoje, seu nome est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da Besta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3 DE OUTUBRO, S\u00c1BADO_<\/strong>&nbsp;Um advogado me atualiza: s\u00e3o pelo menos 83 processos \u2013 o n\u00famero \u00e9 ainda maior porque alguns sites de tribunais est\u00e3o fora do ar. Leio, com as orelhas fervendo de constrangimento, algumas das p\u00e1ginas iniciais dos processos, todas muito parecidas. Sujeitos adultos, cujo principal objeto de trabalho \u00e9 um livro, a B\u00edblia \u2013 repleto de met\u00e1foras muito mais pesadas que a de Meslier \u2013, aqui, nesses processos, fingem n\u00e3o compreender linguagem figurada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sigo tentando conseguir a ajuda de organiza\u00e7\u00f5es internacionais ou escrit\u00f3rios que aceitem trabalhar&nbsp;<em>pro bono<\/em>&nbsp;para me defender dessa litig\u00e2ncia de m\u00e1-f\u00e9, em todos os sentidos da palavra, ali\u00e1s. Se eu tivesse tempo e recursos, iria a alguns desses lugares nos cafund\u00f3s do Brasil me defender e tentar conversar de cora\u00e7\u00e3o aberto com essas pessoas. \u00c9 o \u00fanico turismo poss\u00edvel para um brasileiro no meio da pandemia \u2013 e daria um bom&nbsp;<em>road movie<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>L. me escreve de Nova York. Quer fazer barulho com a imprensa internacional, diz que esses processos s\u00e3o meu diploma de&nbsp;<em>radical chic<\/em>. Respondo que preferia receber esse tipo de condecora\u00e7\u00e3o em vinho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_<\/strong>Suspense imobili\u00e1rio, aguardando a assinatura de um contrato de aluguel, depois de meses olhando im\u00f3veis. Um investimento para ficar no Brasil, que momento! A&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>&nbsp;me entrevista sobre os processos. Talvez o caso precise de visibilidade para comover algum escrit\u00f3rio ou advogado idealista. Todos com os quais conversei at\u00e9 agora me aconselham ou ajudam a manter a contagem dos processos, mas d\u00e3o para tr\u00e1s na hora de efetivamente oferecer a defesa. O consenso entre os advogados parece apontar que o caso \u00e9 indefens\u00e1vel (no sentido de que n\u00e3o tenho capacidade econ\u00f4mica ou log\u00edstica para me defender em todas essas comarcas) e que a \u00fanica sa\u00edda seria contra-atacar de alguma forma. Ainda n\u00e3o sabemos como.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>13 DE OUTUBRO, TER\u00c7A-FEIRA_&nbsp;<\/strong>A&nbsp;<em>Folha<\/em>&nbsp;publicou na sexta a mat\u00e9ria sobre os processos das tripas, como come\u00e7o a cham\u00e1-los. Colegas escritores assinam uma nota de apoio, entidades de classe a subscrevem, como a ABI (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa) e a UBE (Uni\u00e3o Brasileira de Escritores). Amigos da Europa me escrevem: \u201cVem pra c\u00e1 agora.\u201d E ainda: \u201cVai escrever fic\u00e7\u00e3o e ser feliz em um lugar que respeite sua intelig\u00eancia.\u201d N\u00e3o vou nem venho: agora \u00e9 que n\u00e3o posso ir a lugar nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas entidades e advogados me procuram. Falam em litig\u00e2ncia de m\u00e1-f\u00e9, atentado \u00e0 dignidade da Justi\u00e7a, viola\u00e7\u00e3o da boa-f\u00e9 objetiva processual, demandas repetitivas etc. Em comunicado publicado na&nbsp;<em>Folha<\/em>, a Igreja Universal enrola ao dizer que n\u00e3o tem nada a ver com as a\u00e7\u00f5es coordenadas. Al\u00e9m de os textos serem parecidos (ou id\u00eanticos, embora de estados distantes, como Rond\u00f4nia e Minas Gerais), eles s\u00e3o escritos com a linguagem de um jurista, ainda que assinados por pastores desta mesma igreja instalados nos cafund\u00f3s do Judas. Imagino que n\u00e3o seja dif\u00edcil provar o ass\u00e9dio processual e montar um caso a partir disso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>14 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_<\/strong>Reuni\u00e3o com um advogado num escrit\u00f3rio de luxo deserto na Avenida Paulista. As vidra\u00e7as do ch\u00e3o ao teto deixam ver o esqueleto do pr\u00e9dio em constru\u00e7\u00e3o ao lado, onde trabalham oper\u00e1rios com macac\u00f5es azuis. Na mesa, algumas das a\u00e7\u00f5es repetidas, ainda que em diferentes estados e assinadas por diferentes pastores. H\u00e1 cerca de meia d\u00fazia de padr\u00f5es que a organiza\u00e7\u00e3o foi polvilhando pelo pa\u00eds, em comarcas muito distantes. \u00c9 surreal: pastores de cidades como Caxias (MA), Pacajus (CE) e Montes Claros (MG) relatam ter ouvido a mesma provoca\u00e7\u00e3o na rua: \u201cEhhh pastor, t\u00e1 famoso, hein? Vai ser com suas tripas que ir\u00e3o enforcar os Bolsonaro?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estou quase chegando em casa, recebo pelo celular a foto de uma liminar concedida por um juiz de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro. O magistrado determina a \u201cremo\u00e7\u00e3o e\/ou bloqueio integral do perfil @jpcuenca do Twitter\u201d. A celeridade da decis\u00e3o justifica-se porque \u201caguardar o tr\u00e2mite normal do processo traria s\u00e9rios riscos \u00e0 sua [<em>do pastor que moveu a a\u00e7\u00e3o<\/em>] idoneidade moral e religiosa, o que n\u00e3o se pode admitir\u201d. Segundo o advogado, enquanto eu n\u00e3o for notificado, ainda temos tempo. Eles n\u00e3o t\u00eam meu endere\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Decido rir da decis\u00e3o sem sentido. Sou atualizado: s\u00e3o 111 processos.&nbsp;<em>And counting<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>18 DE OUTUBRO, DOMINGO_<\/strong>&nbsp;O jornal&nbsp;<em>El Pa\u00eds<\/em>&nbsp;publica mat\u00e9ria em sua edi\u00e7\u00e3o de domingo:&nbsp;<em>La Cruzada Judicial de 111 Pastores Evang\u00e9licos Contra un Escritor Brasile\u00f1o por un Tuit<\/em>. Quase n\u00e3o me reconhe\u00e7o na foto publicada pelo jornal: pare\u00e7o envelhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas hist\u00f3rias s\u00e3o \u00f3timas para lembrar, ainda que p\u00e9ssimas enquanto dura a experi\u00eancia. Outras s\u00e3o ruins de todo jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma colega me oferece contato numa rede gringa de assist\u00eancia para escritores em perigo. Um amigo de um amigo, correspondente de guerra no Oriente M\u00e9dio, me escreve com conselhos \u201cporque, no pior cen\u00e1rio, algum idiota odioso pode querer colocar uma bala em voc\u00ea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele prossegue: \u201cEspero que voc\u00ea fa\u00e7a discretamente sua sa\u00edda para Buenos Aires, ou melhor, Montevid\u00e9u, mais tranquila, e de l\u00e1 para um ref\u00fagio inc\u00f3gnito no campo, onde voc\u00ea possa continuar respirando fora de um estado de s\u00edtio. Da minha perspectiva paramilitar, considero que seria importante ter ao seu lado um profissional de seguran\u00e7a discreto para ajudar na sua fuga. Com isso n\u00e3o me refiro a um capanga local ou um brutamontes, mas a um ex-operador de elite de um Ex\u00e9rcito de primeira. Se voc\u00ea quiser que eu fa\u00e7a alguns telefonemas, entre em contato pelo Signal. Aguente firme e continue com sorte.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agrade\u00e7o \u00e0 escritora e ao companheiro zapatista, mas acho que n\u00e3o \u00e9 para tanto. Consigo que um dos advogados com quem estava conversando aceite me defender&nbsp;<em>pro bono<\/em>, mas ainda esperamos apoio de uma organiza\u00e7\u00e3o gringa. Conversas sobre estrat\u00e9gias de defesa, grupos de WhatsApp, amigos preocupados. Quando esque\u00e7o um pouco do caso, recebo uma mensagem oferecendo for\u00e7a. Perco prazos de entrega de projetos, n\u00e3o consigo mais ler e, principalmente, escrever o livro no qual deveria estar trabalhando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>26 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_<\/strong>Estou obcecado pelas mem\u00f3rias de Ricardo Piglia, talvez por estar tentando levantar um romance de fic\u00e7\u00e3o sobre os meus pr\u00f3prios di\u00e1rios. Ele escreve:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A experi\u00eancia pessoal, escrita num di\u00e1rio, \u00e0s vezes \u00e9 interposta pela hist\u00f3ria, ou pela pol\u00edtica, ou pela economia, quer dizer, o privado muda e \u00e9 muitas vezes ordenado por fatores externos.&nbsp;<\/em>[\u2026]<em>Basta uma troca de ministro, uma queda no pre\u00e7o da soja, uma informa\u00e7\u00e3o falsa trabalhada como verdadeira pelos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o ou de intelig\u00eancia do Estado, e centenas e centenas de indiv\u00edduos pacatos e distra\u00eddos se veem obrigados a mudar drasticamente de vida e deixar de ser, por exemplo, elegantes engenheiros eletromec\u00e2nicos, numa f\u00e1brica obrigada a fechar por uma decis\u00e3o que o ministro da Economia tomou numa manh\u00e3 de mau humor, para virarem taxistas rancorosos e ressentidos que s\u00f3 falam com seus pobres passageiros desse acontecimento macroecon\u00f4mico que lhes transtornou a vida de um modo que poder\u00edamos associar \u00e0 forma como os her\u00f3is da trag\u00e9dia grega eram manipulados pelo destino<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 poucas coisas mais argentinas que comparar um taxista a um her\u00f3i grego \u2013 e talvez por isso eu seja \u00e0s vezes t\u00e3o argentino, n\u00e3o s\u00f3 por meu pai ter nascido em San Pedro, na prov\u00edncia de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje o PEN Internacional, o PEN America e o PEN Brasil publicaram em conjunto uma nota de apoio. O tom \u00e9 muito firme, o peso dessas institui\u00e7\u00f5es ainda \u00e9 grande, mesmo em long\u00ednquas democracias disfuncionais como a nossa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ontem, uma entrevista gravada comigo no Rio em agosto foi ao ar pela SVT, a tev\u00ea estatal sueca. No v\u00eddeo, apare\u00e7o caminhando pelas ruas de Copacabana de m\u00e1scara, camisa social e sapato, como um alien\u00edgena. Ao fundo do plano, brasileiros jogam futev\u00f4lei na areia. Vejo-me falando sobre os recentes acontecimentos diante de um c\u00e9u nublado e s\u00f3 consigo pensar no tamanho da derrota que seria ir embora do pa\u00eds neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p>O advogado me atualiza: at\u00e9 agora h\u00e1 130 processos, com as demandas somando mais de 2 milh\u00f5es de reais. J\u00e1 passou do ponto: os n\u00fameros n\u00e3o fazem mais qualquer diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>Estourei minha lombar no fim de semana ao destrinchar o conte\u00fado de 35 grandes caixas de livros, retiradas de uma cela de zinco num triste guarda-m\u00f3veis na Marginal Pinheiros. Depois de um ano e meio longe deles, agora tenho organizados na parede os brasileiros, os argentinos, os franceses, os russos, os japoneses, os anglo-sax\u00f5es, os germ\u00e2nicos, os cl\u00e1ssicos, os ensaios, os te\u00f3ricos, os outros etc. Uma vida inteira diante dos olhos: para cada volume, uma livraria numa cidade num ponto do mundo, um palco e uma cena, uma \u00e9poca e um destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses livros, na parede e nessa ordem, talvez se confundam com alguma ordem concreta de que preciso para existir no mundo. N\u00e3o como reflexo e balan\u00e7o de uma experi\u00eancia pr\u00e9via de leitura ou plano para o futuro, mas como a minha pr\u00f3pria casa. H\u00e1 um lindo texto de Walter Benjamin sobre desencaixotar uma biblioteca que termina exatamente com essa imagem: \u201cLivros como tijolos\u201d, e o leitor desaparecendo dentro dela, como deve ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, pensando melhor, j\u00e1 n\u00e3o estou mais falando de um lugar para viver, e sim de um c\u00edrculo m\u00e1gico, um labirinto, uma sacristia \u2013 um altar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7 DE NOVEMBRO, S\u00c1BADO_&nbsp;<\/strong>Descubro que Trump finalmente perdeu a elei\u00e7\u00e3o enquanto estou comendo ostras com A. no Mercado Municipal de S\u00e3o Paulo, lotado como no Natal. Eu atualizava o site do&nbsp;<em>New York Times<\/em>&nbsp;no celular de cinco em cinco minutos, desde cedo. At\u00e9 que mudou tudo. Nos abra\u00e7amos e beijamos, eu pe\u00e7o uma garrafa de champanhe, depois vou ao Box62, no Sacol\u00e3o da Bela Vista, comemorar com amigos. Um dia feliz: essa elei\u00e7\u00e3o altera o equil\u00edbrio de for\u00e7as, mais por aqui do que nos Estados Unidos. Talvez o p\u00eandulo esteja come\u00e7ando a voltar, se afastando da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>16 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>Estamos t\u00e3o acostumados com not\u00edcias ruins, que recebemos as boas com desconfian\u00e7a. Boulos no segundo turno em S\u00e3o Paulo, com o candidato bolsonarista em quarto lugar. Crivella aparentemente aniquilado no Rio de Janeiro. O cons\u00f3rcio pol\u00edtico de milicianos com a Igreja Universal \u00e9 humilhado, e bem no seu ber\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o votei \u2013 n\u00e3o transferi meu t\u00edtulo, n\u00e3o quis viajar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>19 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>Ainda me adaptando ao apartamento novo. Como o apartamento ocupa um andar inteiro, a luz entra por dois lados e posso empreender longas caminhadas dentro dele. Pelas janelas altas, o paliteiro pl\u00fambeo e desconexo da cidade de S\u00e3o Paulo. Ainda que eu esteja dezesseis andares acima do solo, acordo todos os dias com os autom\u00f3veis riscando a pista da Radial.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o caso das tripas, ontem um editor do&nbsp;<em>New York Times<\/em>&nbsp;entrou em contato, ficamos uma hora no telefone e h\u00e1 uma fotografia marcada para o s\u00e1bado de manh\u00e3. Querem dar na edi\u00e7\u00e3o de domingo. Mas o&nbsp;<em>Times<\/em>&nbsp;\u00e9 como certos amores: s\u00f3 acredito vendo. Hoje descobri na&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>&nbsp;que a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa entrou com uma representa\u00e7\u00e3o no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal sobre meu caso. Pediram a abertura de um inqu\u00e9rito civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz a not\u00edcia: \u201cA ABI pede que no inqu\u00e9rito sejam ouvidos Cuenca e o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. A associa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m quer que sejam escutados representantes legais da&nbsp;<em>Folha<\/em>, do jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>&nbsp;e do&nbsp;<em>The Intercept Brasil<\/em>&nbsp;para esclarecer os impactos da pr\u00e1tica de ass\u00e9dio processual contra jornalistas. A associa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m requer que todas as a\u00e7\u00f5es judiciais movidas por membros da igreja sejam requisitadas aos tribunais, para que os autores esclare\u00e7am suas motiva\u00e7\u00f5es. A ABI pede ainda que a Procuradoria realize uma audi\u00eancia p\u00fablica para debater o uso do ass\u00e9dio processual contra a liberdade de express\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Penso em qual gravata eu poderia usar. Vermelha, com um pequeno Exu, talvez?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>22 DE NOVEMBRO, DOMINGO_&nbsp;<\/strong>\u201cMr. Cuenca disse esperar que esse calv\u00e1rio leve a mudan\u00e7as no sistema judici\u00e1rio que evitem barreiras legais semelhantes. E talvez tudo isso se torne assunto de seu pr\u00f3ximo projeto liter\u00e1rio\u201d, escreveu o&nbsp;<em>New York Times<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu a not\u00edcia triste no jornal norte-americano, vinda do zoo melanc\u00f3lico do Terceiro Mundo. Deram quase uma p\u00e1gina inteira, foto aberta no topo, o personagem ex\u00f3tico segurando uma x\u00edcara de caf\u00e9 \u00e0 janela, ressaca estampada no rosto. J\u00e1 na sexta-feira, nervoso como uma debutante, dei in\u00edcio a uma agita\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica \u2013 aditivada, irrespons\u00e1vel, ruidosa \u2013 que s\u00f3 terminou no almo\u00e7o de hoje, abrindo o texto do&nbsp;<em>Times<\/em>&nbsp;no celular, enquanto almo\u00e7ava e bebia uma cerveja. Amigos comemoram, me chamam de Mr. Cuenca. Eu brindo, rio, fa\u00e7o piadas. Mas, em sil\u00eancio, desconfio que esse tipo de coisa precisa parar de acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>11 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_&nbsp;<\/strong>Acordo com a not\u00edcia e tomo, correndo, um voo para o Rio de Janeiro: minha av\u00f3 de 98 anos morreu enquanto dormia. Cuido de todos os tr\u00e2mites do sepultamento, de modo a proteger minha m\u00e3e, que est\u00e1 isolada em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>As lembran\u00e7as que tenho de dona Carmen Beatriz da Cunha Bastos, minha av\u00f3, est\u00e3o entre as primeiras da minha vida: tardes inteiras ouvindo \u00f3peras como&nbsp;<em>Madame Butterfly<\/em>,&nbsp;<em>A\u00edda<\/em>,&nbsp;<em>Tos<\/em><em>ca<\/em>&nbsp;e, claro,&nbsp;<em>Carmen,<\/em>&nbsp;em alto volume e com ela traduzindo para mim trechos dos libretos, explicando detalhes das tramas, hist\u00f3rias de amor entre o sublime, o s\u00f3rdido e o extraordin\u00e1rio. Eu tinha 5 anos e talvez tenha vindo da\u00ed certo pendor \u00e0 trag\u00e9dia e aos amores imposs\u00edveis \u2013 aquela crian\u00e7a mel\u00f4mana e apaixonada ainda vive em mim. J\u00e1 adolescente, eu ouvia colet\u00e2neas de Bach e Mozart em fitas cassetes e ia com ela ao Theatro Municipal do Rio. Aos 12 anos, eu a acompanhava vestido de mocassins e cashmere, como se fosse um senhor de 70 anos de idade. Depois, tom\u00e1vamos ch\u00e1 entre as colunas persas do Sal\u00e3o Assyrio, o cinematogr\u00e1fico restaurante nos subsolos do teatro. Minha av\u00f3 me ensinou a comer com talheres de prata, a falar palavras em franc\u00eas, a beijar a m\u00e3o das senhoras e, acima de tudo, a reconhecer a eleg\u00e2ncia de quem n\u00e3o precisa de qualquer gesto para impor-se em sil\u00eancio \u2013 atitude felina que eu passaria a vida tentando emular, sem sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>No vel\u00f3rio, eu desabo. O sal\u00e3o 3 do Memorial do Carmo est\u00e1 completamente vazio. Apenas eu velo o pequeno caix\u00e3o repleto de cris\u00e2ntemos brancos. Minha av\u00f3 parece radiante como sempre. Enquanto espero a hora da crema\u00e7\u00e3o sentado ao lado dela, recebo pelo celular a not\u00edcia de que uma ONG que presta assist\u00eancia jur\u00eddica a jornalistas e meios de comunica\u00e7\u00e3o independentes, a Media Legal Defense Initiative, aceitou ajudar a minha defesa. Fa\u00e7o uma r\u00e1pida convers\u00e3o do valor oferecido em libras para as custas dos processos e n\u00e3o consigo evitar o pensamento de que jamais recebi nada parecido no adiantamento de um livro. O advogado me atualiza outra vez: agora s\u00e3o 143 a\u00e7\u00f5es, totalizando 2,5 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando saio para acompanhar minha av\u00f3 at\u00e9 a porta do cremat\u00f3rio, o hall est\u00e1 lotado de militares usando trajes camuflados e boinas vermelhas. Eles s\u00e3o muito jovens e todos carregam fuzis \u2013 com exce\u00e7\u00e3o de um pequeno grupo levando instrumentos musicais nos ombros. Pergunto a um funcion\u00e1rio de quem \u00e9 o enterro. Ele responde que n\u00e3o est\u00e1 autorizado a dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um escritor conta sobre os 143 processos movidos contra ele por pastores da Igreja Universal&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30576","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-7Xa","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30576"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30579,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30576\/revisions\/30579"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}