{"id":31264,"date":"2021-03-23T08:07:21","date_gmt":"2021-03-23T12:07:21","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=31264"},"modified":"2021-03-23T08:07:25","modified_gmt":"2021-03-23T12:07:25","slug":"teletrabalho-zoom-e-depressao-o-filosofo-byung-chul-han-diz-que-exploramos-a-nos-mesmos-mais-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/03\/23\/teletrabalho-zoom-e-depressao-o-filosofo-byung-chul-han-diz-que-exploramos-a-nos-mesmos-mais-do-que-nunca\/","title":{"rendered":"Teletrabalho, Zoom e depress\u00e3o: o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han diz que exploramos a n\u00f3s mesmos mais do que nunca"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"399\" data-attachment-id=\"31265\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/03\/23\/teletrabalho-zoom-e-depressao-o-filosofo-byung-chul-han-diz-que-exploramos-a-nos-mesmos-mais-do-que-nunca\/edc86e65-b2da-468c-bda1-e65d77715e3e\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?fit=640%2C426\" data-orig-size=\"640,426\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?fit=600%2C399\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?resize=600%2C399\" alt=\"\" class=\"wp-image-31265\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/EDC86E65-B2DA-468C-BDA1-E65D77715E3E.jpeg?resize=451%2C300 451w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O coronav\u00edrus acelera alguns males de nosso tempo. As videoconfer\u00eancias n\u00e3o trazem a felicidade do contato direto, desaparecem os rituais e os espa\u00e7os comuns. O pensador sul-coreano escreve para o EL PA\u00cdS um ensaio em que nos convida a aproveitar a crise para uma revis\u00e3o radical do nosso modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>El Pa\u00eds, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/byung-chul-han\/\">BYUNG-CHUL HAN<\/a><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/acervo\/2021-03-23\/\">22<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/05\/26\/eps\/1590517499_245256.html\" target=\"_blank\">v\u00edrus SARS-CoV-2<\/a>\u00a0\u00e9 um espelho que reflete\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-03-17\/a-crise-que-definira-nossa-geracao.html\" target=\"_blank\">as crises de nossa sociedade<\/a>. Faz com que os sintomas das doen\u00e7as que nossa sociedade sofria antes da pandemia se destaquem com ainda mais for\u00e7a. Um desses sintomas\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021\/01\/08\/eps\/1610126355_684003.html\" target=\"_blank\">\u00e9 o cansa\u00e7o<\/a>. De uma forma ou de outra, todos\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/estilo\/2021-02-12\/para-mim-a-vida-parou-viver-nao-e-so-trabalhar-a-fadiga-pelo-confinamento-esta-prestes-a-transbordar.html\" target=\"_blank\">nos sentimos hoje muito cansados e extenuados<\/a>. \u00c9 um cansa\u00e7o fundamental, que acompanha de forma permanente e em toda a parte a nossa vida como se fosse a nossa pr\u00f3pria sombra. Durante a pandemia, nos sentimos at\u00e9 mais esgotados ainda do que de costume. At\u00e9 a inatividade a que o confinamento nos obriga nos causa fadiga. N\u00e3o \u00e9 a ociosidade, mas o cansa\u00e7o, que impera em tempos de pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meu ensaio\u00a0<em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em>, publicado pela primeira vez h\u00e1 10 anos, descrevi a fadiga como uma doen\u00e7a da sociedade neoliberal do rendimento.\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/07\/cultura\/1517989873_086219.html\" target=\"_blank\">N\u00f3s nos exploramos volunt\u00e1ria e apaixonadamente<\/a>, acreditando que estamos nos realizando. O que nos esgota n\u00e3o \u00e9 uma coer\u00e7\u00e3o externa, mas o imperativo interno de ter que render cada vez mais. N\u00f3s nos matamos para nos realizarmos e nos otimizarmos, nos esmagamos \u00e0 base de ter um bom desempenho e fazer uma boa imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade neoliberal do rendimento ocorre uma explora\u00e7\u00e3o sem autoridade. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2021-03-19\/o-escandalo-de-funcionarios-do-goldman-sachs-que-trabalham-95-horas-por-semana-nao-consigo-dormir.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sujeito for\u00e7ado a render, a explorar a si mesmo<\/a>, \u00e9 ao mesmo tempo senhor e escravo. Por assim dizer, cada um carrega consigo seu pr\u00f3prio campo de trabalhos for\u00e7ados. O que \u00e9 peculiar neste campo de trabalhos for\u00e7ados \u00e9 que a pessoa \u00e9 ao mesmo tempo prisioneira e vigia, v\u00edtima e criminosa. Nisso difere do sujeito obediente da sociedade disciplinar, que&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/01\/14\/cultura\/1452771353_195413.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Foucault<\/a>&nbsp;descreve em seu livro&nbsp;<em>Vigiar e punir<\/em>. Mas Foucault n\u00e3o se deu conta do surgimento da sociedade neoliberal do rendimento, na qual nos exploramos voluntariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O que caracteriza o sujeito desta sociedade, que quando for\u00e7ado a render explora a si mesmo, \u00e9 o&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/03\/17\/eps\/1458213301_511715.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sentimento de liberdade<\/a>. Explorar a si mesmo \u00e9 mais eficaz do que ser explorado por outros, porque envolve a sensa\u00e7\u00e3o de liberdade.&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/franz-kafka\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kafka<\/a>&nbsp;j\u00e1 expressara com muita exatid\u00e3o essa liberdade paradoxal do servo que se acredita amo. Um de seus aforismos diz: \u201cO animal arranca o chicote do dono e chicoteia a si mesmo para ser amo, sem saber que isso nada mais \u00e9 do que uma fantasia gerada quando na correia do chicote do amo se formou um novo n\u00f3\u201d. Esse animal que a\u00e7oita a si mesmo encarna o sujeito for\u00e7ado a render e que, explorando a si mesmo, se imagina livre.<\/p>\n\n\n\n<p>O sinistro sobre o SARS-CoV-2 \u00e9 que os contagiados padecem de extremo esgotamento e abatimento. Al\u00e9m disso, cada vez mais se ouvem casos de pacientes que,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-07-05\/vida-pos-covid-19-inclui-meses-de-fisioterapia-ausencia-de-cheiros-e-sabores-e-remedios-diarios.html\" target=\"_blank\">mesmo depois de curados, continuam sofrendo graves sequelas<\/a>. Uma delas \u00e9 a\u00a0<em>s\u00edndrome da fadiga<\/em>, que pode muito bem ser descrita com a frase\u00a0<em>quando a bateria n\u00e3o recarrega mais<\/em>. As pessoas afetadas n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de render nem de trabalhar. \u00c9 dif\u00edcil para elas at\u00e9 mesmo encher um copo de \u00e1gua. Quando caminham t\u00eam que parar constantemente, porque se sentem sufocadas. Sentem-se cad\u00e1veres vivos. Um paciente explica: \u201c\u00c9 como quando o celular s\u00f3 tem 4% de bateria sobrando e com esses 4% voc\u00ea tem que aguentar o dia todo, sem poder recarreg\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o v\u00edrus n\u00e3o esgota apenas os infectados, mas tamb\u00e9m os saud\u00e1veis. Em seu ensaio\u00a0<em>Pandemia: a covid-19 e a reinven\u00e7\u00e3o do comunismo<\/em>, Slavoj \u017di\u017eek\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2021-01-23\/slavoj-zizek-com-a-pandemia-comecei-a-acreditar-na-etica-das-pessoas-comuns.html\" target=\"_blank\">dedica um cap\u00edtulo inteiro \u00e0 quest\u00e3o<\/a>\u00a0\u201cPor que estamos sempre cansados?\u201d. Nesse cap\u00edtulo, \u017di\u017eek analisa em detalhes meu ensaio\u00a0<em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em>, que ele descreve de forma muito lisonjeira como uma \u201cobra-prima\u201d, e ao qual faz uma obje\u00e7\u00e3o ao dizer que n\u00e3o \u00e9 que a explora\u00e7\u00e3o por outros tenha dado lugar \u00e0 autoexplora\u00e7\u00e3o, mas que se terceirizou para os pa\u00edses do Terceiro Mundo. Concordo com \u017di\u017eek. Isto \u00e9 o que acontece.\u00a0<em>Sociedade do cansa\u00e7o\u00a0<\/em>descreve a sociedade neoliberal do Ocidente e n\u00e3o os trabalhadores das f\u00e1bricas chinesas. Estes eu n\u00e3o diagnosticaria como autoexplora\u00e7\u00e3o. Mas, por outro lado, o que eu chamaria de mentalidade neoliberal tamb\u00e9m se propaga no Terceiro Mundo\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tecnologia\/2020-01-19\/o-lado-escuro-do-tiktok-a-rede-social-chinesa-dos-videos-curtos.html\" target=\"_blank\">por meio das redes sociais<\/a>. Tamb\u00e9m a\u00ed os homens se isolam e se tornam narcisistas. Como todos os demais, assimilam o mantra neoliberal: quem fracassa, o faz por sua culpa. Acusam a si mesmos e n\u00e3o \u00e0 sociedade. Em maior ou menor grau, as redes sociais fazem de cada um de n\u00f3s um produtor, um empres\u00e1rio de si mesmo. Globalizam o estilo de vida neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u017di\u017eek n\u00e3o analisa esse cansa\u00e7o fundamental, que n\u00e3o afeta mais apenas a sociedade ocidental, como tamb\u00e9m parece representar um fen\u00f4meno global. Claro, a fadiga n\u00e3o vem s\u00f3 da press\u00e3o interna, mas tamb\u00e9m da press\u00e3o externa; n\u00e3o s\u00f3 a autoexplora\u00e7\u00e3o esgota, tamb\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o por outros. As condi\u00e7\u00f5es mundiais de produ\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria press\u00e3o para crescer e produzir extenua a todos n\u00f3s. H\u00e1, no entanto, uma passagem em que \u017di\u017eek parece se entusiasmar com a minha tese de autoexplora\u00e7\u00e3o, quando escreve: \u201c[<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-08-09\/o-teletrabalho-nao-era-isto.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pessoas que trabalham \u00e0 dist\u00e2ncia<\/a>] parecem arranjar ainda mais tempo para \u2018explorar a si mesmas\u2019\u201d. Assim, em tempos de pandemia, o campo neoliberal de trabalhos for\u00e7ados&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-01-07\/o-home-office-pode-acabar-com-a-inteligencia-coletiva.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00e9 chamado de teletrabalho<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>home office<\/em>&nbsp;tamb\u00e9m cansa,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/smoda\/2020-05-28\/trabalho-de-madrugada-porque-nao-dou-conta-de-tudo-em-casa-a-nova-normalidade-massacra-as-mulheres.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ainda mais do que trabalhar no escrit\u00f3rio<\/a>. Causa tanto cansa\u00e7o principalmente porque carece de rituais e estruturas tempor\u00e1rias fixas. \u00c9 esgotante trabalhar sozinho, passar o dia todo sentado de pijama na frente da tela do computador. Tamb\u00e9m ficamos exaustos com a falta de contatos sociais,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/smoda\/2020-05-16\/neurociencia-explica-por-que-temos-fome-de-pele-e-precisamos-de-abracos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a falta de abra\u00e7os e de contato corporal com os outros<\/a>. Meu livro&nbsp;<em>Do desaparecimento dos rituais<\/em>foi publicado na Alemanha antes da pandemia. Nele descrevo nosso presente a partir da tese do desaparecimento dos rituais. Hoje estamos&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-12-23\/quando-o-virus-nos-trancou-em-casa-as-telas-nos-deixaram-sem-casa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">perdendo as estruturas tempor\u00e1rias fixas<\/a>, inclusive as arquiteturas tempor\u00e1rias, que d\u00e3o estabilidade \u00e0 vida. Al\u00e9m disso, os rituais geram uma comunidade sem comunica\u00e7\u00e3o, enquanto o que predomina hoje \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o sem comunidade. A m\u00eddia social e a permanente encena\u00e7\u00e3o do ego nos esgotam porque destroem o tecido social e a comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m aqui se confirma de novo a tese de que o v\u00edrus \u00e9 o espelho da sociedade e agrava suas crises. O v\u00edrus acelera o desaparecimento dos rituais e a eros\u00e3o da comunidade. Mesmo aqueles rituais que ainda restavam s\u00e3o eliminados, como ir ao futebol ou a um show,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-03-05\/nao-e-o-lugar-e-o-que-acontece-dentro-por-que-bares-e-restaurantes-apresentam-risco-de-contagio-por-covid-19.html\" target=\"_blank\">sair para comer em um restaurante<\/a>, ir ao teatro ou ao cinema. A dist\u00e2ncia social destr\u00f3i o social. O outro se tornou um potencial portador do v\u00edrus, do qual devo manter dist\u00e2ncia. O v\u00edrus radicaliza essa expuls\u00e3o do diferente que antes mesmo da pandemia diagnostiquei muitas vezes. Na verdade, o v\u00edrus atua como um amplificador das crises de nossa sociedade. Todas as crises sociais que eu j\u00e1 havia detectado agora se agravaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-06\/por-que-as-videoconferencias-nos-esgotam-psicologicamente.html\" target=\"_blank\">nos esgotamos com as\u00a0<em>lives<\/em>permanentes<\/a>, que nos transformam em videozumbis. Acima de tudo, elas nos obrigam a nos olharmos o tempo todo no espelho. \u00c9 cansativo contemplar a pr\u00f3pria cara na tela, estamos o tempo todo diante de nossa pr\u00f3pria cara. N\u00e3o deixa de ser uma ironia que o v\u00edrus tenha surgido justamente\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/01\/cultura\/1572614028_845648.html\" target=\"_blank\">na \u00e9poca das\u00a0<em>selfies<\/em><\/a>, que se explicam sobretudo por esse narcisismo que se espalha pela nossa sociedade. O v\u00edrus potencializa o narcisismo. Durante a pandemia todo mundo se confronta, sobretudo, com a pr\u00f3pria cara. Diante da tela fazemos uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>O videonarcisismo tem efeitos colaterais absurdos: desencadeou um boom nas cirurgias est\u00e9ticas. Ver uma imagem distorcida ou borrada na tela faz com que as pessoas duvidem da pr\u00f3pria apar\u00eancia.\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-08-20\/para-onde-olhar-que-fundo-escolher-e-outros-conselhos-para-se-sair-bem-numa-entrevista-de-trabalho-online.html\" target=\"_blank\">Quando a tela tem boa defini\u00e7\u00e3o<\/a>, de repente percebemos rugas, queda progressiva de cabelo, manchas na pele, bolsas lacrimais ou outras altera\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas pouco est\u00e9ticas. Durante a pandemia, as pesquisas relacionadas a opera\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas se multiplicaram no Google. Em tempos de confinamento, os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos ficam sobrecarregados com a demanda por interven\u00e7\u00f5es para eliminar os sinais de fadiga. Enquanto isso, j\u00e1 se fala em videodismorfobia. O espelho digital faz com que as pessoas caiam em dismorfofobias, ou seja, prestem aten\u00e7\u00e3o\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>exagerada a poss\u00edveis defeitos na apar\u00eancia corporal.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00edrus radicaliza o del\u00edrio da otimiza\u00e7\u00e3o, que antes mesmo da pandemia nos deixava fren\u00e9ticos. Tamb\u00e9m nisso o v\u00edrus \u00e9 o espelho da nossa sociedade e, no caso da videodismorfobia, n\u00e3o s\u00f3 no sentido metaf\u00f3rico, como tamb\u00e9m no sentido mais literal: um espelho que faz com que&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/20\/tecnologia\/1534765145_147411.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nos desesperemos ainda mais com a pr\u00f3pria apar\u00eancia<\/a>. Tamb\u00e9m a videodismorfobia nos cansa muito. \u00c9 um fen\u00f4meno derivado da distopia digital.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo alem\u00e3o tem enfatizado repetidamente que a pandemia finalmente deu \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o o impulso necess\u00e1rio, que libertou o pa\u00eds de seu vergonhoso atraso digital. Quando se trata de digitaliza\u00e7\u00e3o,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-05-26\/rastreamento-manual-de-infeccoes-em-restaurantes-da-alemanha.html\" target=\"_blank\">a Alemanha \u00e9 de fato um pa\u00eds l\u00edder do Terceiro Mundo<\/a>, o que, pessoalmente, n\u00e3o me incomoda. Adoraria morar em uma \u00e1rea sem cobertura de internet e me dedicar \u00e0 jardinagem. Para mim seria uma maravilha. Em meu livro\u00a0<em>Louvor da terra<\/em>\u00a0conto como me sinto feliz por passar um tempo no jardim, alheio ao paroxismo da comunica\u00e7\u00e3o digital. Agora, gra\u00e7as \u00e0 pandemia, a Alemanha finalmente est\u00e1 entrando no primeiro mundo. Algu\u00e9m poderia dizer que a digitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje um fim em si mesma. Afinal, j\u00e1 sabemos que os pol\u00edticos n\u00e3o gostam de pensar. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o interessados em saber o que \u00e9 uma vida boa. Aparentemente, sua m\u00e1xima suprema \u00e9 o crescimento. Na realidade, deveriam estar muito preocupados com o fato de que a digitaliza\u00e7\u00e3o mina as bases da democracia com as not\u00edcias falsas, os\u00a0<em>bots n<\/em>as redes sociais\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2021-01-09\/a-vitoria-dos-trolls-como-a-internet-se-transformou-na-vida-real.html\" target=\"_blank\">ou os ex\u00e9rcitos de\u00a0<em>trolls<\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coronav\u00edrus acelera alguns males de nosso tempo. As videoconfer\u00eancias n\u00e3o trazem a felicidade do contato direto, desaparecem os rituais e os espa\u00e7os comuns. O pensador sul-coreano escreve para o EL PA\u00cdS um ensaio em que nos convida a aproveitar a crise para uma revis\u00e3o radical do nosso modo de vida.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-31264","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-88g","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31264"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31266,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31264\/revisions\/31266"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}