{"id":31748,"date":"2021-04-29T16:58:44","date_gmt":"2021-04-29T20:58:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=31748"},"modified":"2021-04-29T16:58:48","modified_gmt":"2021-04-29T20:58:48","slug":"a-genetica-da-covid-e-os-400-mil-mortos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/04\/29\/a-genetica-da-covid-e-os-400-mil-mortos\/","title":{"rendered":"A GEN\u00c9TICA DA COVID E OS 400 MIL MORTOS"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1201\" height=\"751\" data-attachment-id=\"31749\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/04\/29\/a-genetica-da-covid-e-os-400-mil-mortos\/904ae5e9-19c4-4df4-95db-a7c915bb5c14\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?fit=1201%2C751\" data-orig-size=\"1201,751\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?fit=600%2C375\" alt=\"\" class=\"wp-image-31749\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?w=1201 1201w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?resize=1024%2C640 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?resize=768%2C480 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/904AE5E9-19C4-4DF4-95DB-A7C915BB5C14.jpeg?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Pandemia transforma em trag\u00e9dia almo\u00e7o de irm\u00e3s reunidas durante isolamento; cientistas investigam fatores gen\u00e9ticos da doen\u00e7a&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>CAMILLE LICHOTTI<\/strong>, na Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p><br>Era uma quarta-feira nublada em Belo Horizonte quando seis irm\u00e3s se reuniram para um almo\u00e7o casual. De \u00faltima hora, marcaram de se encontrar na casa de Maria do Socorro Queiroga, 72, depois de quase um ano de confraterniza\u00e7\u00f5es presenciais suspensas por causa da epidemia de Covid-19. Em isolamento, todos os onze irm\u00e3os (cinco homens e seis mulheres) mantinham contato apenas por liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica ou chamada de v\u00eddeo. Mas n\u00e3o era a mesma coisa. A pandemia rompeu tradi\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia: os irm\u00e3os n\u00e3o podiam mais ir \u00e0 igreja juntos nas noites de s\u00e1bado nem se encontrar na casa de um deles para um caf\u00e9 depois da missa, como era de costume. No \u00faltimo dia de 3 de mar\u00e7o, para tentar preencher esse v\u00e1cuo, Maria do Socorro e seu marido, Ant\u00f4nio, 59, receberam em casa cinco irm\u00e3s dela: Madalena, 76, que morava sozinha, Maria Bernadete, 88, Nair, 80, Maria das Gra\u00e7as, 72 (g\u00eamea n\u00e3o id\u00eantica de Maria do Socorro), e Stela, 90. As quatro \u00faltimas, solteiras e sem filhos, dividiam um apartamento de tr\u00eas quartos na capital mineira e moraram juntas a vida inteira. O resto da fam\u00edlia sequer ficou sabendo do almo\u00e7o. As irm\u00e3s imaginavam que aquela n\u00e3o seria uma aglomera\u00e7\u00e3o perigosa \u2013 era apenas uma pequena reuni\u00e3o r\u00e1pida de parentes pr\u00f3ximos, para botar a prosa em dia. Mas no s\u00e1bado seguinte, dia 6, o marido de Maria do Socorro come\u00e7ou a sentir sintomas gripais.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio procurou um hospital no mesmo dia e foi internado. O resultado positivo do teste para Covid-19 veio em seguida. Preocupadas, todas as irm\u00e3s que estavam no almo\u00e7o daquela tarde de quarta-feira decidiram fazer o exame tamb\u00e9m. Das seis, apenas Maria Bernadete e Stela tiveram resultado negativo, mesmo morando com duas irm\u00e3s infectadas. A fam\u00edlia suspeitou que poderiam ser falsos negativos. N\u00e3o demorou muito para que a primeira das irm\u00e3s apresentasse sintomas ligados \u00e0 Covid-19. Nair procurou ajuda m\u00e9dica no dia 14 e foi direto para a UTI. Com a satura\u00e7\u00e3o muito baixa, precisou ser intubada com urg\u00eancia. No dia 16, pela manh\u00e3, Maria das Gra\u00e7as tamb\u00e9m passou mal e foi encaminhada a um hospital. Sentada em uma poltrona e ligada a uma m\u00e1quina de oxig\u00eanio, esperou quase um dia inteiro por um leito de interna\u00e7\u00e3o. Algumas horas depois, \u00e0 noite, Maria Bernadete \u2013 cujo teste para Covid-19 havia dado negativo \u2013 tamb\u00e9m foi hospitalizada depois de sentir tosse e cansa\u00e7o. Nesse mesmo dia 16, Ant\u00f4nio, o primeiro do grupo a desenvolver sintomas, morreu. No dia seguinte, Madalena, a irm\u00e3 que morava sozinha, tamb\u00e9m precisou ser internada, mas se recuperou uma semana depois. Todas elas eram saud\u00e1veis, ativas e n\u00e3o tinham comorbidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As irm\u00e3s ficaram em hospitais diferentes em Belo Horizonte, vinculados aos conv\u00eanios m\u00e9dicos de cada uma. \u201cQuando eu falava com elas, por liga\u00e7\u00e3o, dizia que todas as outras estavam bem, que estavam esperando por ela. N\u00e3o fal\u00e1vamos sobre o estado de sa\u00fade das outras para que elas pudessem ter for\u00e7a para se recuperar\u201d, lembra Ana Carolina Queiroga, sobrinha das seis irm\u00e3s. Mas, nos hospitais, o cen\u00e1rio era de guerra. \u201cFoi uma ang\u00fastia porque n\u00e3o tinha vaga de UTI para a Maria Bernadete. O pulm\u00e3o dela estava 90% comprometido\u201d, conta Queiroga. \u201cO m\u00e9dico perguntou se a gente ainda queria tentar. Eles a sedaram at\u00e9 que tivesse um leito vago. Ficamos um dia e meio esperando a vaga. Mas ela n\u00e3o resistiu.\u201d Maria Bernadete morreu no dia 25 de mar\u00e7o. Nair, no dia 27. Maria das Gra\u00e7as, no dia 29. Entre as quatro que moravam juntas, apenas Stela sobreviveu. No intervalo de cinco dias, a Covid-19 levou tr\u00eas das seis irm\u00e3s. Contando Ant\u00f4nio, das sete pessoas \u00e0 mesa do almo\u00e7o, quatro morreram.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/familia_290421_interna.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-399065\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>As irm\u00e3s Queiroga em uma festa de anivers\u00e1rio antes da pandemia; da esquerda para a direita: Nair, Maria do Socorro, Stela, Maria das Gra\u00e7as, Madalena (segurando o bolo) e Maria Bernadete \/ Foto: Acervo pessoal<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>A<\/strong>pandemia que nesta quinta-feira, dia 29 de abril, passou da marca de 400 mil brasileiros mortos tem sido cada vez mais pr\u00f3diga em hist\u00f3rias como a das irm\u00e3s Queiroga. Desde o come\u00e7o deste ano, a enfermeira Th\u00e1bata Leite, 26 anos, tem testemunhado com maior frequ\u00eancia casos de pessoas da mesma fam\u00edlia levadas pela Covid num intervalo curto de tempo. Ela trabalha h\u00e1 seis no Servi\u00e7o de Verifica\u00e7\u00e3o de \u00d3bitos da Capital da Universidade de S\u00e3o Paulo (SVOC-USP). Leite \u00e9 respons\u00e1vel por realizar um question\u00e1rio com fam\u00edlias das v\u00edtimas que morreram de Covid-19 no Hospital das Cl\u00ednicas da universidade. A aut\u00f3psia verbal, como \u00e9 conhecida, \u00e9 fundamental para trazer detalhes do hist\u00f3rico de sa\u00fade de cada v\u00edtima. No fim, os relatos se tornam pequenas cr\u00f4nicas de vida e morte, com partes contadas pelo corpo do paciente e outras narradas pela fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, ao coletar informa\u00e7\u00f5es sobre uma idosa, Leite descobriu que aquela era a quarta pessoa da fam\u00edlia a morrer pela doen\u00e7a. \u201cO mais prov\u00e1vel \u00e9 que ela tenha se contaminado atrav\u00e9s do neto, que fora a uma festa antes de encontr\u00e1-la\u201d, lembra Leite. \u201cEsse rapaz teve sintomas, mas sobreviveu. Ainda assim, a culpa ficou. Ele dizia que se sentia culpado por ter \u2018matado\u2019 os parentes.\u201d Al\u00e9m da culpa, conta Leite, muitos parentes ainda se perguntam por que alguns membros da fam\u00edlia morrem e outros sobrevivem. \u201cHoje n\u00e3o existe mais essa divis\u00e3o de grupo de risco. Recebemos no SVOC jovens, crian\u00e7as, adultos saud\u00e1veis que morrem por Covid-19. Todas as mortes s\u00e3o inesperadas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as mortes e os riscos de agravamento da Covid-19 n\u00e3o s\u00e3o completamente aleat\u00f3rios. \u201cCertamente h\u00e1 um componente gen\u00e9tico que interfere nas chances de infec\u00e7\u00e3o e \u00f3bitos pela doen\u00e7a\u201d, diz Paulo Saldiva, patologista que coordena as aut\u00f3psias minimamente invasivas realizadas no SVOC. Saldiva participa de um estudo com o Centro de Estudos do Genoma Humano e C\u00e9lulas-Tronco da USP para entender que componentes do material gen\u00e9tico fazem com que uma pessoa seja mais vulner\u00e1vel \u00e0 Covid-19 que outra. Saldiva n\u00e3o descarta que o fator socioecon\u00f4mico tamb\u00e9m deixe alguns grupos mais suscet\u00edveis a desfechos tr\u00e1gicos. Mas a gen\u00e9tica pode elucidar quest\u00f5es para as quais a ci\u00eancia ainda n\u00e3o tem respostas \u2013 como a morte de pessoas jovens e saud\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 2020, por exemplo, seu grupo de pesquisa realizou a aut\u00f3psia em uma menina de 11 anos, v\u00edtima de Covid-19. A an\u00e1lise do genoma da crian\u00e7a e de seu exoma (componente n\u00e3o transcrito do DNA que ajusta a express\u00e3o dos genes ao longo da vida) n\u00e3o mostrou um tra\u00e7o sequer de imunodepress\u00e3o ou de comorbidades futuras. \u201cEsse \u00e9 um dos casos que v\u00e3o entrar nessa s\u00e9rie de estudos. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que a pesquisa gen\u00e9tica poder\u00e1 dizer por que essa menina saud\u00e1vel de 11 anos morreu\u201d, explica Saldiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro bra\u00e7o da pesquisa busca respostas para centen\u00e1rios superprotegidos que, surpreendentemente, n\u00e3o se infectaram ou desenvolveram formas graves da doen\u00e7a \u2013 ainda que tenham sido expostos ao novo coronav\u00edrus. \u00c9 o que poderia desvendar, por exemplo, o caso de Stela Queiroga, a mais velha entre as irm\u00e3s mineiras. Inexplicavelmente, ela foi a \u00fanica que n\u00e3o se infectou. No ano passado, Stela teve um acidente vascular cerebral (AVC), que, aliado \u00e0 idade avan\u00e7ada, a colocaria no grupo de alto risco. Mas, mesmo morando com tr\u00eas irm\u00e3s que se contaminaram e morreram, ela n\u00e3o apresentou um sintoma sequer, e seu teste deu negativo para a Covid-19.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E<\/strong>m mar\u00e7o, Saldiva e outros treze pesquisadores publicaram um artigo conceitual que explica a metodologia usada na pesquisa que eles desenvolvem. O objetivo \u00e9&nbsp;analisar variantes gen\u00e9ticas em diversos locais do DNA e combinar suas contribui\u00e7\u00f5es para os diferentes desfechos da Covid-19. Com isso, os pesquisadores podem calcular o risco gen\u00e9tico de os indiv\u00edduos desenvolverem quadros graves da doen\u00e7a. Em junho do ano passado, cientistas europeus encontraram&nbsp;a primeira liga\u00e7\u00e3o estat\u00edstica entre<a href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2020.05.31.20114991v1\">&nbsp;varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e a Covid-19<\/a>. Depois de vasculhar o genoma de milhares de pacientes com Covid-19, os pesquisadores descobriram que dois pontos do DNA humano estavam ligados a um maior risco de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria entre os doentes. Um deles \u00e9 o gene que determina o tipo sangu\u00edneo: ter sangue do Tipo A foi associado a um aumento de 45% na probabilidade de precisar de respirador, de acordo com o estudo publicado no&nbsp;<em>The New England Journal of Medicine<\/em>. O segundo cromossomo que apresentou liga\u00e7\u00f5es com o curso da Covid-19 abriga seis genes, e ainda foi poss\u00edvel concluir qual deles tinha rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a. Outro<a href=\"https:\/\/www.acpjournals.org\/doi\/10.7326\/M20-4511\">&nbsp;estudo<\/a>, publicado no m\u00eas passado, mostrou que o grupo sangu\u00edneo O e o Rh negativo do sangue estavam associados com menor risco de infec\u00e7\u00e3o por Sars-CoV-2 e com casos graves da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo de Saldiva prop\u00f5e uma t\u00e9cnica mais complexa que a utilizada pelos pesquisadores europeus, capaz de revelar associa\u00e7\u00f5es ainda mais fortes.&nbsp;A hip\u00f3tese dos cientistas brasileiros \u00e9 de que a explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para suscetibilidade ou prote\u00e7\u00e3o do hospedeiro Covid-19 \u00e9 multifatorial \u2013 ou seja, n\u00e3o est\u00e1 ligada a apenas um gene.&nbsp;Para que eles analisem todas as combina\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso&nbsp;um grande n\u00famero de amostras diversas. J\u00e1 existem bases de dados colaborativas para isso. A Covid-19 Host Genetics Initiative, por exemplo, re\u00fane o sequenciamento gen\u00e9tico de milhares de pacientes com Covid-19 espalhados por 46 pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto as respostas gen\u00e9ticas n\u00e3o chegam, Saldiva continua buscando outras formas de entender o novo comportamento do Sars-CoV-2. \u201cO risco maior de adoecimento familiar que observamos agora tamb\u00e9m pode ter alguma rela\u00e7\u00e3o com as novas variantes\u201d, avalia o patologista. As novas cepas tamb\u00e9m agravam o estado de sa\u00fade dos doentes mais rapidamente, relatam os cl\u00ednicos no Hospital das Cl\u00ednicas da USP. Entre as v\u00edtimas mais recentes, Saldiva notou um perfil recorrente durante as aut\u00f3psias: obesos e pessoas com sobrepeso. Para ele, essa caracter\u00edstica pode ser um fator crucial para as mortes nessa segunda onda. Segundo o IBGE, em 2019, um em cada quatro brasileiros com mais de 18 anos tinha obesidade \u2013 e mais de 60% deles estavam com excesso de peso. \u201cEstamos empenhados em uma pesquisa para investigar a biologia do tecido gorduroso e entender melhor o que est\u00e1 acontecendo com o v\u00edrus ali\u201d, conta Saldiva. \u201cEu tenho mais d\u00favidas a respeito da biologia da doen\u00e7a hoje do que eu tinha quando fiz a primeira aut\u00f3psia de Covid-19, um ano atr\u00e1s\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Stela Queiroga, a \u00fanica das seis irm\u00e3s que n\u00e3o desenvolveu sintomas, continua morando no apartamento de tr\u00eas quartos em Belo Horizonte. O AVC que teve no ano passado deixou algumas sequelas neurol\u00f3gicas leves. A sobrinha conta que, apesar de ativa, Stela ainda tem lapsos de mem\u00f3ria. Por vezes ela esquece os nomes das irm\u00e3s falecidas, Maria das Gra\u00e7as, Maria Bernadete e Nair \u2013 mas n\u00e3o o que aconteceu. Stela se refere a elas como \u201cas meninas que foram embora\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Carolina lembra que uma de suas tias precisou esperar dois dias at\u00e9 ser sepultada porque n\u00e3o havia hor\u00e1rio dispon\u00edvel para fazer o enterro, de t\u00e3o cheio que estava o cemit\u00e9rio Parque da Colina, em Belo Horizonte. \u201cQuando eu estive na administra\u00e7\u00e3o do cemit\u00e9rio, me disseram que de dez dos onze sepultamentos marcados eram de v\u00edtimas de Covid-19\u201d, conta Ana Carolina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As irm\u00e3s n\u00e3o puderam ser sepultadas no mesmo cemit\u00e9rio porque o jazigo da fam\u00edlia j\u00e1 estava lotado. Maria do Socorro, agora vi\u00fava, se mudou para o antigo apartamento das irm\u00e3s, onde faz companhia e cuida de Stela. Madalena continua morando sozinha. \u201cPara minimizar um pouco a dor, eu tento pensar que elas j\u00e1 tinham cumprido sua miss\u00e3o\u201d, diz Ana Carolina, com a voz embargada. \u201cComo eram muito unidas, uma n\u00e3o ia deixar a outra. O amor era t\u00e3o grande que preferiram ir as tr\u00eas juntas.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pandemia transforma em trag\u00e9dia almo\u00e7o de irm\u00e3s reunidas durante isolamento; cientistas investigam fatores gen\u00e9ticos da doen\u00e7a&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-31748","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8g4","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31748"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31748\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31750,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31748\/revisions\/31750"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}