{"id":32884,"date":"2021-10-04T12:01:31","date_gmt":"2021-10-04T16:01:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=32884"},"modified":"2021-10-04T12:01:35","modified_gmt":"2021-10-04T16:01:35","slug":"bolsonarismo-tem-raizes-em-um-brasil-construido-a-margem-do-estado-afirmam-pesquisadores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/10\/04\/bolsonarismo-tem-raizes-em-um-brasil-construido-a-margem-do-estado-afirmam-pesquisadores\/","title":{"rendered":"Bolsonarismo tem ra\u00edzes em um Brasil constru\u00eddo \u00e0 margem do Estado, afirmam pesquisadores"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" data-attachment-id=\"32885\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/10\/04\/bolsonarismo-tem-raizes-em-um-brasil-construido-a-margem-do-estado-afirmam-pesquisadores\/brazil-election-campaign-bolsonaro-supporters\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/40C092D0-6D5E-446E-9215-BE9B71964EDC.jpeg?fit=800%2C533\" data-orig-size=\"800,533\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;AFP&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Supporters of Brazil\\u0092s far-right presidential candidate Jair Bolsonaro take part in a campaign rally in Brasilia, on October 6, 2018, on the eve of general election. 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Os<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/12\/19\/voce-nao-vai-se-transformar-em-jacare-10-mentiras-sobre-vacinas-que-circulam-por-ai\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;alertas de Jair Bolsonaro (sem partido)&nbsp;<\/a>tiveram pouca resson\u00e2ncia na base e n\u00e3o deram origem a um movimento consistente de recusa \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O descompasso com correntes ultraconservadoras do Hemisf\u00e9rio Norte, na pauta antivacina, ilustra que o bolsonarismo n\u00e3o \u00e9 mera express\u00e3o local do trumpismo ou do neofascismo, mas um fen\u00f4meno essencialmente brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o \u00e9 de Fabio Peixoto Bastos Baldaia, doutor em Ci\u00eancias Sociais, professor de Sociologia do&nbsp;<a href=\"https:\/\/portal.ifba.edu.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Federal da Bahia (IFBA)<\/a>&nbsp;e um dos respons\u00e1veis pela pesquisa&nbsp;<em>O Bolsonarismo e o Brasil Profundo: uma an\u00e1lise sobre a ascens\u00e3o e a perman\u00eancia de um fen\u00f4meno sociocultural e pol\u00edtico<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA narrativa antivacina se descola do \u2018Brasil Profundo\u2019 porque \u00e9 ex\u00f3tica para os brasileiros, que tomam vacina h\u00e1 d\u00e9cadas, vacinam os filhos etc. Ent\u00e3o, j\u00e1 era, porque o discurso do bolsonarismo s\u00f3 funciona quando est\u00e1 colado com a moral popular de longa dura\u00e7\u00e3o\u201d, analisa Baldaia.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" allowfullscreen=\"\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YfVCeU9CP7M\" width=\"560\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>O estudo sobre o bolsonarismo come\u00e7ou em novembro de 2020 \u00e9 uma das frentes do Grupo de Pesquisa Laborat\u00f3rio de Estudos Brasil Profundo do IFBA. Em julho deste ano, Baldaia publicou um&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.enecult.ufba.br\/modulos\/submissao\/Upload-568\/132106.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo com os resultados parciais da pesquisa<\/a>&nbsp;em conjunto com os professores Tiago Medeiros e Sinval Silva de Ara\u00fajo.<\/p>\n\n\n\n<p>Medeiros \u00e9 professor de Filosofia do IFBA e realizou parte de seus estudos de doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, sobre as ra\u00edzes da institucionalidade. A tese foi&nbsp;<a href=\"https:\/\/sigaa.ufba.br\/sigaa\/public\/programa\/noticias_desc.jsf?lc=pt_BR&amp;id=1566&amp;noticia=458917\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">defendida em 2020<\/a>&nbsp;na Universidade Federal da Bahia (UFBA).&nbsp;Ara\u00fajo \u00e9 professor de Sociologia do IFBA, mestre em Ci\u00eancias Sociais e doutor em Servi\u00e7o Social.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas est\u00e3o na fase final de produ\u00e7\u00e3o de um novo artigo sobre o bolsonarismo, para publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas na revista&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brazilianjournals.com\/index.php\/BRJD\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Brazilian Journal of Development<\/em><\/a>&nbsp;em novembro. Em conversa com o&nbsp;<strong>Brasil de Fato<\/strong>, eles ressaltam a import\u00e2ncia desse objeto de pesquisa para compreender a conjuntura do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o do grupo, o bolsonarismo capitaneou um sentimento de anti-institucionalidade&nbsp;que vem sendo alimentado durante s\u00e9culos no chamado Brasil Profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u201cregi\u00e3o invis\u00edvel\u201d, os valores, as cren\u00e7as,&nbsp;a moral e mesmo o humor popular se constroem \u00e0 margem das institui\u00e7\u00f5es ou da estrutura formal do Estado. Para milh\u00f5es de brasileiros, resta a fam\u00edlia como&nbsp;estrutura de amparo e afeto \u2013 e Bolsonaro ganha&nbsp;<em>status&nbsp;<\/em>de mito ao defend\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira os melhores momentos da entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Brasil de Fato: Por que voc\u00eas decidiram aprofundar as pesquisas sobre as origens do bolsonarismo? Qual a relev\u00e2ncia desse objeto de estudo, mais de mil dias ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 2018?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:<\/strong>&nbsp;Somos colegas no Instituto h\u00e1 muitos anos e sempre conversamos informalmente sobre o Brasil. Em 2017, tivemos a ideia de formalizar um grupo de estudos para debater e sistematizar a literatura sobre o tema \u2013 Gilberto Freyre, Carlos Nelson Coutinho, Caio Prado J\u00fanior.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos com uma din\u00e2mica de estudos quinzenal, e em seguida transformamos o grupo em um projeto de extens\u00e3o, para reler Jess\u00e9 Souza, Jos\u00e9 Murilo de Carvalho&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso interesse era retomar uma discuss\u00e3o sobre o Brasil e entender as singularidades da nossa forma\u00e7\u00e3o social, a partir de aspectos econ\u00f4micos, institucionais, culturais. Os estudantes gostaram muito, e o grupo atraiu muitos interessados.<\/p>\n\n\n\n<p>Passamos, ent\u00e3o, a trabalhar com a no\u00e7\u00e3o de Brasil Profundo, que seriam os elementos de longa dura\u00e7\u00e3o que formam o Brasil e que se expressam nas pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e morais, em certo tipo espec\u00edfico de humor etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso processo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 marcado por uma profunda desigualdade, pela viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m pela anti-institucionalidade \u2013 uma forma de escorregar por entre as regras.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso faz com que haja certa desconfian\u00e7a e avers\u00e3o do brasileiro comum \u2013 n\u00e3o s\u00f3 dos mais pobres \u2013 \u00e0s institui\u00e7\u00f5es vinculadas diretamente ao Estado, e uma reinven\u00e7\u00e3o dos processos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa proposta \u00e9 identificar elementos duradouros nessa forma\u00e7\u00e3o, e que se materializam no bolsonarismo. Ent\u00e3o, assumimos o desafio de pens\u00e1-lo a partir da no\u00e7\u00e3o de Brasil Profundo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&nbsp;<\/p><p>O bolsonarismo j\u00e1 foi vitorioso. Porque o debate p\u00fablico e as condi\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foram constrangidas, e esse movimento gerou frutos nos estados e munic\u00edpios.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de n\u00f3s tr\u00eas, o grupo \u00e9 composto por uma estudante de Ci\u00eancias Sociais da UFBA, um servidor t\u00e9cnico-administrativo e uma estudante de Geografia do IFBA.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images01.brasildefato.com.br\/3610921be1d4d361529ca74ce1d3b770.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Popularidade de Bolsonaro est\u00e1 em queda, mas as pol\u00edcias s\u00e3o uma base de apoio consistente&nbsp;\/ Sergio Lima \/ AFP<\/p>\n\n\n\n<p>O que nos incomodou, desde o in\u00edcio, era ver o bolsonarismo apenas como descontinuidade. Bolsonaro n\u00e3o surgiu do nada, nem foi resultado simplesmente do uso das m\u00eddias [sociais], sem v\u00ednculo com o processo hist\u00f3rico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um per\u00edodo de leitura, de embasamento te\u00f3rico, estamos finalizando a etapa de coleta de dados quantitativos \u2013 not\u00edcias publicadas na&nbsp;<em>Folha de S. Paulo<\/em>&nbsp;e no&nbsp;<em>G1<\/em>&nbsp;nos \u00faltimos tr\u00eas anos, tu\u00edtes de influenciadores do bolsonarismo e pesquisas de opini\u00e3o no per\u00edodo \u2013, que deve contribuir com nossas an\u00e1lises.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das nossas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 entender como esse fen\u00f4meno pode permanecer depois [do mandato do presidente]. Ele j\u00e1 existia antes, de alguma maneira, sem o nome de Bolsonaro. E esse personagem deve refluir em algum momento, mas aquilo que o bolsonarismo mobiliza, n\u00e3o sabemos se vai desaparecer t\u00e3o rapidamente. \u00c9 algo que est\u00e1 no rio do Brasil Profundo, digamos assim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:<\/strong>&nbsp;Boa parte da pesquisa acad\u00eamica e da opini\u00e3o de imprensa tentou&nbsp;associar Bolsonaro instantaneamente \u00e0 Trump ou \u00e0s figuras do populismo de direita do Leste Europeu. Essa associa\u00e7\u00e3o colocava Bolsonaro como \u201cesp\u00edrito do tempo\u201d, deslocando-o de suas ra\u00edzes profundas, que s\u00e3o tipicamente nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 uma coincid\u00eancia moment\u00e2nea entre o populismo de direita e o Bolsonaro, essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Porque Bolsonaro possui elementos que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente conservadores, e nem liberais \u2013 como ele prometia, ao nomear Paulo Guedes para o Minist\u00e9rio da Economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma esp\u00e9cie de mistura, uma composi\u00e7\u00e3o elaborada de espont\u00e2nea, n\u00e3o intencional, por uma massa de representa\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que n\u00f3s identificamos no Brasil Profundo \u2013 que \u00e9 uma esp\u00e9cie de regi\u00e3o, invis\u00edvel ao primeiro olhar, mas percept\u00edvel e respir\u00e1vel por todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s sentimos o Brasil Profundo, mas temos dificuldade ao identific\u00e1-lo como objeto de an\u00e1lise. Essa \u00e9 uma das nossas tarefas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em que aspectos o bolsonarismo se assemelha ou difere de outros per\u00edodos de ascens\u00e3o conservadora no Brasil, como em 1964?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sinval Ara\u00fajo:&nbsp;<\/strong>A n\u00e3o institucionalidade \u00e9 um elemento central para entender o Brasil, e est\u00e1 ligada \u00e0 nossa forma\u00e7\u00e3o como capitalismo perif\u00e9rico. A gente nunca conseguiu ter um ex\u00e9rcito de trabalho formalizado, ent\u00e3o parte da popula\u00e7\u00e3o sempre teve que dar um jeitinho, sobreviver \u00e0 margem do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso autorit\u00e1rio do bolsonarismo cont\u00e9m elementos percept\u00edveis na hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada de Get\u00falio [Vargas] ao poder 1930; a tentativa de um golpe constitucionalista em 1932; o Estado Novo, em 1937; o suic\u00eddio de Vargas, em 1954; o golpe militar, em 1964; o \u201cgolpe dentro do golpe\u201d, pela linha mais dura do Ex\u00e9rcito, em 1967. Em todos esses eventos, h\u00e1 um feixe de autoritarismo, que se revela na forma de se tratar o pobre, o negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa pol\u00edcia sempre foi extremamente autorit\u00e1ria contra a \u201cral\u00e9\u201d social e os grupos desprivilegiados, como parte de uma agenda pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolsonarismo, tamb\u00e9m h\u00e1 um elemento de recria\u00e7\u00e3o da realidade. Ele aglutina em torno de si uma s\u00e9rie de conservadorismos que estavam \u201cespalhados\u201d na sociedade brasileira: o militarismo, o neopentecostalismo, as rea\u00e7\u00f5es \u00e0s pautas identit\u00e1rias \u2013 sobretudo, LGBT. N\u00e3o \u00e0 toa, ganhou for\u00e7a no discurso anti-PT&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/16\/tse-confirma-que-kit-gay-nunca-existiu-e-proibe-fake-news-de-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o chamado \u201ckit gay\u201d<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o deve entendido como exce\u00e7\u00e3o \u2013 como se houvesse um fio condutor da hist\u00f3ria que nos levaria \u00e0 felicidade, e Bolsonaro estaria nos atrapalhando nesse percurso. Eu me permito recuperar o pensamento de Paulo Arantes e afirmar que essa \u201cexce\u00e7\u00e3o\u201d talvez seja a nossa forma de ser e existir como Brasil. N\u00e3o se trata, portanto, de um empecilho que vamos resolver com um processo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o entendemos isso, corremos o risco de achar que, em 2022, o Brasil voltar\u00e1 a ser um para\u00edso \u2013 e n\u00e3o refletimos devidamente sobre os erros que permitiram a vit\u00f3ria de Bolsonaro em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as&nbsp;<em>fake news<\/em>&nbsp;que manipularam a popula\u00e7\u00e3o. Ele tem substrato na realidade concreta, na vida das pessoas. A gente n\u00e3o pode negar o alcance dessas ideias e que muitas vezes elas t\u00eam resson\u00e2ncia entre as camadas mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro capitaneou certos debates que setores progressistas nunca conseguiram. Por exemplo, o da viol\u00eancia urbana, que todos os dias mata uma quantidade enorme de pessoas negras, de policiais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:&nbsp;<\/strong>A institucionalidade brasileira sempre foi extremamente excludente, e os processos hist\u00f3ricos, conduzidos pelas elites, \u201cpor cima\u201d. Desde a Rep\u00fablica, que foi um golpe militar, passando pela Rep\u00fablica Velha, com poder concentrado entre as oligarquias.<\/p>\n\n\n\n<p>Autoritarismo e desigualdade atravessam nossa hist\u00f3ria. Nos \u00faltimos 15 anos, ela diminuiu um pouco, mas a mudan\u00e7a foi muito sutil.<\/p>\n\n\n\n<p>Milh\u00f5es de pessoas continuaram tendo que se virar economicamente, recriando suas representa\u00e7\u00f5es, sua maneira de ver a realidade, \u00e0 margem do que \u00e9 considerado certo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a pessoa pensa, quando ganha R$ 1.100 por m\u00eas, compra um celular de R$ 1 mil, e \u00e9 roubado? Qual a sensa\u00e7\u00e3o? A gente sabe que isso gera revolta, e Bolsonaro foi h\u00e1bil ao capturar essas sensa\u00e7\u00f5es que estavam dispersas. Ele deu uma cara a tudo isso e ofereceu um discurso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images03.brasildefato.com.br\/d3f704118d3177dbdcd122f3ef64a271.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Professor do IFBA se refere ao bolsonarismo como \u201cmaior movimento identit\u00e1rio brasileiro\u201d \/ Sergio Lima \/ AFP<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa narrativa, uma conclus\u00e3o justifica a outra. \u201c\u00c9 isso mesmo. Tem que bater, tem que matar. \u00c9 errado ser gay. O lugar da mulher \u00e9 em casa. Quem manda \u00e9 o homem. Tem que respeitar e enaltecer a a\u00e7\u00e3o policial. Militar \u00e9 melhor do que civil. Movimento social, ou \u00e9 crime ou \u00e9 vitimismo. Tem que trabalhar e parar de ficar reclamando. \u00c9 melhor trabalhar sem formaliza\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o trabalhar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse combo foi aglutinado de maneira impressionante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim que Bolsonaro foi eleito, parte da imprensa e dos analistas dividiam seu governo: de um lado, a pauta de \u201ccostumes\u201d, a ala ideol\u00f3gica; do outro, os ministros t\u00e9cnicos, mais pragm\u00e1ticos e racionais. Essa separa\u00e7\u00e3o realmente existia? O bolsonarismo seria o produto das duas alas ou estaria representado apenas pela primeira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:<\/strong>&nbsp;No fundo, o bolsonarismo sempre foi a pauta dos costumes. A onda dele nunca foi a do pensamento liberal, pragm\u00e1tico ou racional para os assuntos de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, todos que ficaram no governo acabaram se \u201cbolsonarizando\u201d \u2013 quando o que se acreditava, no in\u00edcio, era que o presidente seria disciplinado pela ala \u201cmais racional\u201d do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Gustavo Bebianno, Santos Cruz, Sergio Moro, Henrique Mandetta&#8230; todos ca\u00edram, e os que ficaram foram absorvidos sob o manto de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso demonstra a for\u00e7a pol\u00edtica dele. Bolsonaro \u00e9 um fen\u00f4meno muito brasileiro e um sujeito de enorme brilho pol\u00edtico. O que o suporta \u00e9 a pauta dos costumes, que \u00e9 disseminada por seus apoiadores, e que ele renova frequentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na campanha de 2018, essa pauta foi desenhada \u00e0 luz de contribui\u00e7\u00f5es importantes, como a de Olavo de Carvalho. Ele ajudou a \u201csofisticar\u201d o discurso de Bolsonaro para as massas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 boas raz\u00f5es para, nas bases, termos um senso conservador. O receio de perder um filho para o traficante faz com que uma m\u00e3e solteira queira coloc\u00e1-lo sob as asas do pastor. Associado a Olavo de Carvalho, Bolsonaro deu car\u00e1ter universal a esse conservadorismo difuso, associando a necessidade de prote\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia a uma s\u00e9rie de movimentos \u201camea\u00e7adores\u201d que acontecem mundo afora: o comunismo, a China, o tr\u00e1fico de drogas, os movimentos LGBT&#8230;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&nbsp;<\/p><p>Bolsonaro consegue capitanear toda essa ira que o Brasil Profundo desenvolveu contra a institucionalidade.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, muitas pessoas n\u00e3o conhecem nada disso, nem sabem o que significa, mas come\u00e7aram a achar que, de repente, sair\u00e1 um comunista do seu guarda-roupa \u2013 e esse comunista ser\u00e1, ao mesmo tempo, gay, \u00edndio. Enfim, uma grande mistura, que sintetiza metaforicamente a forma como Bolsonaro conseguiu popularizar o discurso tradicionalista de Olavo de Carvalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7o essa retomada para ressaltar que a base dos costumes \u00e9 a mais importante, desde a elei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 compreens\u00edvel que a imprensa e os analistas tenham feito essa divis\u00e3o, em duas alas. Porque mesmo os atores, os ministros, estavam se concebendo dessa forma.<\/p>\n\n\n\n<p>Sergio Moro e Paulo Guedes, por exemplo, nunca se viram como parte do mesmo time de Ernesto Ara\u00fajo e Damares Alves.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sinval Ara\u00fajo:<\/strong>&nbsp;Quase todo mundo subestimou Bolsonaro, julgando que ele fosse menor do que \u00e9. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, ele \u00e9 inteligente, e parte dos setores progressistas n\u00e3o consegue entender isso \u2013 como se ele fosse meramente tosco, um burro completo.<\/p>\n\n\n\n<p>No governo, tudo que pudesse ter um ar civilizat\u00f3rio, de certo contrato social, de certa institucionalidade, foi morrendo com o decorrer do tempo. E ele passou o trator.<\/p>\n\n\n\n<p>Em torno da figura dele tem o elemento do mito, com uma suposta capacidade de salva\u00e7\u00e3o. E ele precisa necessariamente parecer maior do que aqueles que o rodeiam. Se n\u00e3o for nessas condi\u00e7\u00f5es, ele esmaga \u2013 como ocorreu com Mandetta no in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a sa\u00edda de Moro, de Mandetta, muitos achavam que era o fim do governo, mas ele manteve seu p\u00fablico fiel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, existe um setor com raiz no Brasil Profundo que o legitima e continuar\u00e1 fazendo essa disputa. Porque Bolsonaro foi capaz de resgatar, na agenda conservadora, a ideia de ir para a rua. Depois de 1964, isso n\u00e3o tinha mais acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fui \u00e0 \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o [7 de setembro] em Salvador, por curiosidade sociol\u00f3gica e antropol\u00f3gica. E as demandas acenavam, todas, para a anti-institucionalidade: acabar com o STF, dar golpe, mandar prender ministro. As pr\u00f3prias pol\u00edcias, que apoiam Bolsonaro, t\u00eam uma pauta anti-institucional, anti-C\u00f3digo Penal \u2013&nbsp;\u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o projeto desse grupo se realizar, \u00e9 preciso quebrar qualquer contrato social que passe pela legalidade: todo mundo deve comprar sua arma para se defender. E essa pauta tem substrato no mundo real, porque a viol\u00eancia urbana \u00e9 um problema s\u00e9rio. A seguran\u00e7a \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da maioria das fam\u00edlias brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante observar esse fen\u00f4meno e entender, inclusive, como a mentalidade do policial \u00e9 formada. At\u00e9 para podermos pensar pol\u00edticas p\u00fablicas, discutir agendas que contemplem esses sujeitos \u2013 a despeito de toda a cr\u00edtica necess\u00e1ria sobre a viol\u00eancia policial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros<\/strong>: O bolsonarismo trabalha o tempo todo com a ideia de que \u201ca lei n\u00e3o deixa a gente trabalhar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro n\u00e3o ter\u00e1 nenhuma vergonha de chegar em 2022 e dizer: eu n\u00e3o fiz nada porque n\u00e3o me deixaram fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao debate sobre as duas alas no atual governo, eu diria que hoje n\u00e3o h\u00e1 mais essa divis\u00e3o. Quem permanece com Bolsonaro j\u00e1 foi \u201cideologizado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A elite econ\u00f4mica teve que negociar e, ao mesmo tempo, ceder a uma figura que n\u00e3o est\u00e1 esteticamente a seu gosto. Seria melhor um [Geraldo] Alckmin, um [Henrique] Meirelles. Mas, se for algu\u00e9m grosseiro que avance na pauta econ\u00f4mica, que fa\u00e7a as reformas, \u00e9 toler\u00e1vel para essas elites \u2013 mesmo a contragosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 parte dessa elite que acha que pode \u201ccontrolar\u201d Bolsonaro, e mesmo n\u00f3s tendemos a considerar que a dimens\u00e3o econ\u00f4mica prevalece e tem controle sobre esse movimento. Mas o governo pode abandonar a pauta liberal a qualquer momento. Ele pode dar um cavalo-de-pau argumentativo, como j\u00e1 fez com outros temas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O conservadorismo \u00e9 muitas vezes entendido como um movimento que quer manter as coisas como est\u00e3o, evitando grandes transforma\u00e7\u00f5es e prezando pelo respeito \u00e0s normas. O bolsonarismo parece ser o contr\u00e1rio, porque se alimenta justamente da amea\u00e7a de ruptura. Onde esse fen\u00f4meno se localiza, dentro das tend\u00eancias conservadoras?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:&nbsp;<\/strong>O conservadorismo pode ser visto sob duas \u00f3ticas: a dos costumes e das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o ex-presidente Lula era conservador no plano institucional, mas n\u00e3o no plano dos costumes. Bolsonaro \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio \u2013 embora, nos costumes, seja mais precisamente definido como reacion\u00e1rio do que como conservador.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, a rela\u00e7\u00e3o dele com as institui\u00e7\u00f5es \u00e9 muito at\u00edpica. Como dissemos, o humor, os valores, as pr\u00e1ticas, representa\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as nacionais se constitu\u00edram historicamente em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 uma institucionalidade formal, cristalizada, congelada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o contemplados pelas institui\u00e7\u00f5es, muitos dos brasileiros passam a olh\u00e1-las como um problema: a tend\u00eancia \u00e9 ser anti-institucional. Ent\u00e3o, o Brasil \u00e9 constru\u00eddo por meio do para-institucional, que s\u00e3o arranjos que cont\u00eam, ao mesmo tempo, elementos legais e ilegais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dessas para-institui\u00e7\u00f5es que a nossa hist\u00f3ria se moveu. E Bolsonaro consegue capitanear toda essa ira que o Brasil Profundo desenvolveu contra a institucionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcabar com isso a\u00ed\u201d. \u201cAcabar com tudo que est\u00e1 a\u00ed\u201d. Bolsonaro deu voz, autorizou e abriu caminho para o reconhecimento das massas do Brasil Profundo contra o \u201csistema\u201d, atrav\u00e9s de um discurso de atalho.<\/p>\n\n\n\n<p>A originalidade de Bolsonaro \u00e9 que, ap\u00f3s anunciar na campanha uma postura contr\u00e1ria aos costumes institucionais, ele chega ao governo e mant\u00e9m essa performance durante a gest\u00e3o. \u00c9 o primeiro presidente anti-institucional da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bolsonaro n\u00e3o chega ao governo apenas devido ao uso fraudulento das redes sociais. Por\u00e9m, o uso de aplicativos Whatsapp e Telegram parece ser um dos pilares para cria\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da sua narrativa. Qual o peso dessas ferramentas na constru\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia do bolsonarismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:<\/strong>&nbsp;O bolsonarismo \u00e9 o movimento mais bem sucedido na comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Al\u00e9m de pautar a base mais fiel, eles conseguem pautar a imprensa, e t\u00eam financiamento para conduzir o debate p\u00fablico para os temas absurdos, como o voto impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas redes, esse movimento impressiona e parece ser duas vezes maior do que realmente \u00e9. \u00c9 com essa forma de comunica\u00e7\u00e3o que Bolsonaro coloca em pauta sua anti-institucionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao usar as redes sociais, ele est\u00e1 dizendo: a imprensa \u00e9 parte do sistema, por isso temos que criar nossos pr\u00f3prios canais de comunica\u00e7\u00e3o. Isso se aplica mesmo dentro do governo: n\u00e3o se confia na informa\u00e7\u00e3o oficial da Abin [Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia], ent\u00e3o cria-se uma \u201cAbin paralela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pandemia, esse movimento se refletiu em mensagens de m\u00e9dicos bolsonaristas, que indicavam rem\u00e9dios que supostamente contrariavam os interesses das grandes farmac\u00eauticas. Em todos esses elementos de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, est\u00e1 presente a recusa \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum outro grupo pol\u00edtico encontrou formas de quebrar essa corrente de circula\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o das mensagens bolsonaristas. As pesquisas eleitorais mostram o decl\u00ednio de Bolsonaro, mas suas ideias t\u00eam sido trabalhadas em p\u00fablicos estrat\u00e9gicos, como os motoboys.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferramentas como o Whatsapp ainda s\u00e3o o vetor de cria\u00e7\u00e3o e de manuten\u00e7\u00e3o de aspectos identit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu defendo que o bolsonarismo \u00e9 o maior movimento identit\u00e1rio brasileiro, no sentido de demarcar fronteiras em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Todo mundo que \u00e9 diferente, ou pensa diferente, n\u00e3o \u00e9 patriota, n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o, e deve ser combatido porque \u00e9 \u201cgayzista\u201d, comunista, abortista, e por a\u00ed vai.<\/p>\n\n\n\n<p>E eles se desviam das cr\u00edticas tamb\u00e9m pelo atalho. Por exemplo, dizem que n\u00e3o s\u00e3o racistas, porque inclusive convivem com negros, que s\u00e3o negros \u201cde bem\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nas redes sociais que essa identidade se constr\u00f3i e se delimita. E o bombardeio de desinforma\u00e7\u00e3o h\u00e1 anos vem minando a capacidade dos indiv\u00edduos de distinguirem not\u00edcias falsas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo esse processo est\u00e1 na l\u00f3gica da anti-institucionalidade, mas n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanuo ou espont\u00e2neo. Trata-se de uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>As&nbsp;<em>fake news&nbsp;<\/em>quase sempre trazem um tom de revela\u00e7\u00e3o. \u201cDescoberto por que Fernanda Montenegro \u00e9 contra Bolsonaro: por causa da Lei Rouanet\u201d. \u00c9 a mesma l\u00f3gica de: \u201cN\u00e3o tome as vacinas que a ind\u00fastria farmac\u00eautica est\u00e1 querendo obrig\u00e1-lo. Tome esse comprimidinho que vai ficar tudo bem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem \u00e9 muito bem constru\u00edda. Mas o bolsonarismo n\u00e3o acerta sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Na disputa sobre as vacinas, por exemplo, ele perdeu. Na Fran\u00e7a, nos EUA, as pessoas continuam indo \u00e0s ruas para n\u00e3o tomar vacina. Aqui, j\u00e1 foi: at\u00e9 quem \u00e9 bolsonarista est\u00e1 tomando vacina.<\/p>\n\n\n\n<p>O erro, a meu ver, \u00e9 que ele se descolou do Brasil Profundo com a narrativa antivacina \u2013 que \u00e9 ex\u00f3tica para os brasileiros, que tomam vacina h\u00e1 d\u00e9cadas, vacinas os filhos etc. E, depois que se descolou, j\u00e1 era, porque \u00e9 uma pr\u00e1tica de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo s\u00f3 funciona quando est\u00e1 colado com a moral popular de longa dura\u00e7\u00e3o. E isso mostra como \u00e9 importante calibrar sempre o discurso, na comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, para manter esse cord\u00e3o identit\u00e1rio com seu grupo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cristianismo tem um papel importante na hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. O PT, que governou o pa\u00eds por 14 anos, tinha em suas origens uma liga\u00e7\u00e3o estreita com movimentos cat\u00f3licos progressistas, baseados na Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Hoje, quem est\u00e1 em alta, em plena expans\u00e3o, s\u00e3o as comunidades evang\u00e9licas. Em que medida pode-se atribuir a essas igrejas a ascens\u00e3o de Bolsonaro e sua sobreviv\u00eancia pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:&nbsp;<\/strong>Quem n\u00e3o \u00e9 evang\u00e9lico na periferia brasileira \u00e9, de alguma forma, influenciado pelo discurso dessas religi\u00f5es, especialmente neopentecostais.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea escuta m\u00fasica gospel sem querer, voc\u00ea ouve a mensagem. \u00c9 como o catolicismo difuso que existia no Brasil h\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u2013 n\u00e3o precisava ser praticante para ser cat\u00f3lico, e hoje isso ocorre com os evang\u00e9licos. O traficante \u00e9 evang\u00e9lico, o policial tamb\u00e9m \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 claro que a religi\u00e3o foi uma base importante para o bolsonarismo \u2013 n\u00e3o s\u00f3 os evang\u00e9licos pentecostais, mas os protestantes hist\u00f3ricos, da classe m\u00e9dia, os presbiterianos, batistas tradicionais, e vertentes mais tradicionalistas do catolicismo, especialmente em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio das igrejas, o bolsonarismo ocupou o espa\u00e7o das lideran\u00e7as locais, de bairro. Os pastores de pequenas igrejas s\u00e3o muito influentes, fazem campanhas de caridade, arrumam emprego, alimentam uma l\u00f3gica comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro \u00e9 o candidato desses grupos, e seu derretimento \u00e9 mais lento nesses segmentos justamente porque est\u00e3o envolvidas quest\u00f5es morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Consolidou-se a ideia de que Bolsonaro representa suas pautas, seus valores. E ele dialoga com duas preocupa\u00e7\u00f5es que ainda s\u00e3o grandes: que os filhos n\u00e3o usem drogas e n\u00e3o sejam gays. Essas amea\u00e7as, claro, se estendem a valores ditos \u201ccomunistas\u201d: que minha filha n\u00e3o aborte etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro pode falar e fazer o que quiser, mas tem apoio e lugar cativo de muitos trabalhadores porque supostamente protege a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images01.brasildefato.com.br\/523abf37fa8ea329452012c079714ed6.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Sergio Moro condenou&nbsp;Lula e tornou-se ministro de Bolsonaro&nbsp;\/ Evaristo S\u00e1 \/ AFP<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 um elemento central do Brasil Profundo. Se boa parte de n\u00f3s vive \u00e0 margem da institucionalidade, sem amparo do Estado, o que resta \u00e9 a fam\u00edlia. Quando h\u00e1 uma gravidez precoce, quando algu\u00e9m fica doente, quando algu\u00e9m precisa de dinheiro emprestado, \u00e9 da fam\u00edlia que vem o amparo, a rede de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro oferece significado a esses elementos pr\u00e1ticos. Ele diz para as pessoas: eu sei o quanto a fam\u00edlia \u00e9 importante para voc\u00ea, e vou proteg\u00ea-la. Ele n\u00e3o tem concorrente nesse campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem vive essa vida do familismo pode desistir de votar nele, mas n\u00e3o encontra em outro candidato essa identifica\u00e7\u00e3o. As outras propostas parecem muito perigosas para essa institui\u00e7\u00e3o nacional, que \u00e9 a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 contra dificilmente entende isso, e bate na tecla de criticar a ideia de \u201cfam\u00edlia tradicional\u201d. Mas, n\u00e3o se trata disso. Estamos falando de uma estrutura afetiva que oferece significado \u00e0 vida de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quem vai ajudar, se reunir para um churrasco, tomar uma cerveja junto. De vez em quando vai ter briga, e vai ser feia, porque o Brasil Profundo tamb\u00e9m \u00e9 violento. E \u00e9 algo t\u00e3o complexo que a mesma fam\u00edlia que ama e apoia \u00e9 muitas vezes conivente com pr\u00e1ticas de viol\u00eancia entre seus membros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os evang\u00e9licos e o bolsonarismo passam por cima dessa complexidade e resolvem tudo muito simplesmente: a fam\u00edlia \u00e9 a base de tudo, e tem autonomia para educar seus filhos e resolver seus problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio da esquerda, nesse sentido, \u00e9 imenso. Porque ela j\u00e1 est\u00e1 associada a algo nocivo e amea\u00e7ador \u2013 enquanto a fam\u00edlia representa a avers\u00e3o ao mundo da rua, ao que est\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>E parte da esquerda brasileira ainda tem dificuldade ao estabelecer di\u00e1logo com os evang\u00e9licos. H\u00e1 uma desconfian\u00e7a de antem\u00e3o. Com isso, voc\u00ea j\u00e1 perde 40% do p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sinval Ara\u00fajo:<\/strong>&nbsp;\u00c9 preciso lembrar que, nos \u00faltimos 15 ou 20 anos, tivemos uma mudan\u00e7a de valores culturais significativa no Brasil. O avan\u00e7o da pauta LGBTQIA+, do direito dos casais homoafetivos, tudo isso gera choque e provoca uma esp\u00e9cie de guerra cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivo em um bairro perif\u00e9rico, e frequentemente ou\u00e7o: \u201cImagine Jesus Cristo representado como um gay, que absurdo!\u201d. M\u00e3es querem proteger seus filhos da amea\u00e7a do narcotr\u00e1fico, querem proteg\u00ea-los da pol\u00edcia, muitas n\u00e3o querem que seus filhos sejam gays.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&nbsp;<\/p><p>Quase todo mundo subestimou Bolsonaro, julgando que ele fosse menor do que \u00e9.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Bolsonaro ainda consegue capitanear esse elemento do tradicionalismo da cultura brasileira, a tal ponto que fica dif\u00edcil para qualquer outro candidato ocupar esse espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na guerra cultural, ele parece estar vencendo. E, desde 2018, o melhor exemplo \u00e9 o \u201ckit gay\u201d: ningu\u00e9m mais sabe se existiu, mas cumpriu seu papel enquanto dimens\u00e3o eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>As escolas e universidades passaram a ser vistas, por muitos, como um local de sexo livre, de drogas, onde s\u00f3 h\u00e1 comunistas, e onde um dos objetivos \u00e9 transformar os estudantes em gays \u2013 por mais absurdo que isso possa soar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual a import\u00e2ncia do discurso anticorrup\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o do bolsonarismo, e como esse fen\u00f4meno sobreviveu ao descolamento da Lava Jato do governo Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:<\/strong>&nbsp;A Lava Jato morreu para o pa\u00eds inteiro, n\u00e3o quando Moro saiu do governo, mas quando Bolsonaro apoiou Artur Lira (PP-AL) para a presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados. Porque quem queria assassinar a Lava Jato n\u00e3o era s\u00f3 o presidente, mas todos os pol\u00edticos afetados potencialmente por ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso anticorrup\u00e7\u00e3o aparece ativamente nas elei\u00e7\u00f5es. Depois que assume o governo, ele assume outro tom. A narrativa hoje \u00e9: \u201cNo governo atual, nenhum esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o foi descoberto at\u00e9 agora.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es contra os filhos dele, em um primeiro momento, remetem a outros tempos. Conforme novos ind\u00edcios aparecem, ele vai precisar modular o discurso novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que s\u00e3o dois est\u00e1gios de defesa da bandeira anticorrup\u00e7\u00e3o. Primeiro, quando Bolsonaro precisava do apoio da Lava Jato, e j\u00e1 se consolidava como catalisador de todas as for\u00e7as anti-esquerda. O segundo \u00e9 depois que ele toma posse, e ent\u00e3o se torna mais dif\u00edcil dizer que ele est\u00e1 limpo e que seu governo combate efetivamente a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:&nbsp;<\/strong>A Lava Jato achou que era maior que o bolsonarismo e que, logo, iria trag\u00e1-lo. Para isso, Moro contou com apoio de magistrados, de procuradores, e da imprensa \u2013 eles achavam que iriam dominar o Bolsonaro por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>O lavajatismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de bolsonarismo jur\u00eddico: uma maneira de subverter a institui\u00e7\u00e3o por dentro, tomando medidas que n\u00e3o t\u00eam nenhum respaldo na Constitui\u00e7\u00e3o. Na apar\u00eancia, por\u00e9m, a Lava Jato \u00e9 mais \u201climpinha\u201d, e por um momento seus agentes acharam que isso seria determinante.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu o contr\u00e1rio. O bolsonarismo engoliu Sergio Moro, e sua tentativa de corroer o governo por dentro n\u00e3o foi bem-sucedida. \u00c9 interessante perceber que Bolsonaro usou a Lava Jato como parte de sua estrat\u00e9gia e, depois, modulou o discurso com muita tranquilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, o discurso usado para minimizar a \u201crachadinha\u201d \u00e9 o do \u201ctodo mundo faz\u201d. Como se pegar o sal\u00e1rio do assessor n\u00e3o fosse, necessariamente, corrup\u00e7\u00e3o de verdade. A acusa\u00e7\u00e3o de peculato, mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro \u00e9 uma esp\u00e9cie de malandro, escorregadio, que adere a cada pauta a sabor de seus interesses pessoais. Ele tem base social e gera identifica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. O lavajatismo, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos olhos de muita gente, Bolsonaro incorpora a figura do macho: \u201cvai l\u00e1 e resolve\u201d. N\u00e3o tem discurso bonito, n\u00e3o tem conversa. Para essas pessoas, a Lava Jato \u00e9 o discurso do bacharel, o juridiqu\u00eas, que incomoda, parece elitista \u2013 e \u00e9 mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:&nbsp;<\/strong>Outro elemento \u00e9 que os membros da Lava Jato antagonizavam os servidores p\u00fablicos eleitos, os pol\u00edticos profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se o lavajatismo quisesse \u201climpar\u201d as escolhas pol\u00edticas nacionais, que ocorrem por meio do voto. \u00c9 um antagonismo preconceituoso, e n\u00e3o se sustentou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ex-presidente Lula lidera as pesquisas de opini\u00e3o para 2022,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/09\/22\/se-eleicao-fosse-nesta-quarta-22-lula-poderia-vencer-no-1-turno-mostra-pesquisa-ipec-globo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">com chance de vit\u00f3ria at\u00e9 em 1\u00ba turno<\/a>. Como voc\u00eas enxergam as perspectivas para Bolsonaro e o bolsonarismo no ano que vem? O governo tende a desidratar ainda mais at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es, ou ainda h\u00e1 chance de uma virada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tiago Medeiros:<\/strong>&nbsp;At\u00e9 aqui, nesta entrevista, h\u00e1 certa homogeneidade no nosso pensamento. Sobre 2022, a gente discute, mas ainda n\u00e3o sintetizou nossa an\u00e1lise sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho a impress\u00e3o de que Bolsonaro n\u00e3o vai perder certa fatia do eleitorado, em torno de 18% a 20%, que s\u00e3o o que podemos chamar de bolsonaristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Bolsonaro quanto Lula t\u00eam alto \u00edndice de rejei\u00e7\u00e3o. Bolsonaro pela experi\u00eancia atual, e Lula pela mem\u00f3ria antipetista relativamente recente. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que se abra espa\u00e7o para uma candidatura \u201cnem um, nem outro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, sob um ponto de vista estritamente pol\u00edtico. Mais para baixo, onde as intera\u00e7\u00f5es sociais acontecem, Bolsonaro est\u00e1 perdendo for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele foi eleito [em 2018] por quatro das cinco regi\u00f5es brasileiras, com for\u00e7a expressiva no eixo Sul-Sudeste. Hoje, seu apoio \u00e9 baseado no Centro-Oeste e no Norte. \u00c9 interessante esse deslocamento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images03.brasildefato.com.br\/6500e68ac3cef7d3bf312df73f6d3ada.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Lula segue com ampla vantagem em rela\u00e7\u00e3o ao atual presidente Jair Bolsonaro nas pesquisas para 2022&nbsp;\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Outra mudan\u00e7a \u00e9 o abandono, mesmo que lento, dos evang\u00e9licos a Bolsonaro. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil perceber isso, porque a gente s\u00f3 tem acesso ao discurso dos grandes pastores. N\u00e3o acessamos a mensagem dos pequenos e m\u00e9dios, aqueles que d\u00e3o conta da vida cotidiana ordin\u00e1ria, de fato \u2013 e que eventualmente se veem lesados pelos grandes pastores, de diversas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>O setor que vai continuar com Bolsonaro at\u00e9 o fim s\u00e3o as pol\u00edcias, as For\u00e7as Armadas. Em todos os demais, ainda h\u00e1 um decl\u00ednio, por isso n\u00e3o sei se ele ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de chegar a um 2\u00ba turno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sinval Ara\u00fajo:<\/strong>&nbsp;Minha opini\u00e3o \u00e9 diferente. De fato, Bolsonaro desidratou, mas me parece que esse processo chegou a um limite \u2013 22% ou 23%. Ele n\u00e3o obt\u00e9m pontua\u00e7\u00e3o inferior a essa em nenhuma pesquisa eleitoral, o que praticamente o garantiria em um 2\u00ba turno.<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o tende a ser polarizada entre Bolsonaro e Lula. O prov\u00e1vel apoio de PSOL a Lula, j\u00e1 no 1\u00ba turno, \u00e9 uma sinaliza\u00e7\u00e3o importante nesse sentido: pela primeira vez, o PSOL n\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 candidato pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro perdeu parte das igrejas evang\u00e9licas, mas n\u00e3o acredito que isso diminua mais. Chegou no limite, a meu ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto que n\u00e3o deve ser desconsiderado \u00e9 que Bolsonaro tem a m\u00e1quina federal, e pode investir em programas sociais na reta final de governo para beneficiar popula\u00e7\u00f5es onde o PT \u00e9 muito forte.<\/p>\n\n\n\n<p>A equa\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada, porque isso geraria endividamento, e teria rea\u00e7\u00f5es das elites. Mas, dependendo da situa\u00e7\u00e3o, para derrotar Lula, talvez uma medida como essa fosse aceita.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de militares no governo, e o ressentimento deles em rela\u00e7\u00e3o ao PT, \u00e9 outro fator relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, ser\u00e1 uma elei\u00e7\u00e3o repleta de not\u00edcias falsas, como em 2018, e o processo ser\u00e1 muito tensionado por amea\u00e7as golpistas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o acredito que tenhamos golpe. Bolsonaro n\u00e3o tem base suficiente para isso. N\u00e3o se d\u00e1 um golpe com 20% de apoiadores, a n\u00e3o ser que se derrame muito sangue \u2013 e as elites brasileiras e internacionais n\u00e3o parecem dispostas a isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Baldaia:&nbsp;<\/strong>Se Bolsonaro pudesse, seria um autocrata. Mas ele sabe que n\u00e3o pode.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe de Bolsonaro \u00e9 ret\u00f3rico, porque ele n\u00e3o teria capacidade de organizar e articular um processo como esse.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 para dar golpe voc\u00ea precisa de um programa, um projeto minimamente coerente para definir o que fazer depois de colocar tanques na rua \u2013 e eles n\u00e3o sabem.<\/p>\n\n\n\n<p>O que interessa a eles \u00e9 deixar essa possibilidade de ruptura no ar, para alimentar o mito. A entrevista que ele d\u00e1 \u00e0 revista Veja sobre o tema \u00e9 muito ilustrativa: n\u00e3o vai ter golpe, mas quem decide se vai ter ou n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso est\u00e1 no plano da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, da constru\u00e7\u00e3o da imagem do \u201cmacho que resolve\u201d, que vai dar soco na mesa se necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro dificilmente ficar\u00e1 fora de um 2\u00ba turno em 2022, mas eu avalio que ele n\u00e3o ser\u00e1 reeleito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, ressalto que uma coisa \u00e9 a figura de Bolsonaro, outra s\u00e3o os valores mobilizados pelo bolsonarismo. Ele, como indiv\u00edduo, pode ser descartado, mas as pautas bolsonaristas permanecem.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica brasileira est\u00e1 parcialmente bolsonarizada: a maneira de enxergar seguran\u00e7a p\u00fablica, pol\u00edtica de drogas, a educa\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo j\u00e1 foi vitorioso. Porque o debate p\u00fablico e as condi\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foram constrangidas, e esse movimento gerou frutos nos estados e munic\u00edpios. Para voltarmos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es culturais anteriores, \u00e9 trabalho para uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Anelize Moreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupo que estuda o tema na Bahia avalia que Bolsonaro capturou sentimento de anti-institucionalidade nutrido h\u00e1 s\u00e9culos Daniel Giovanaz, Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo (SP)\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8yo","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32884"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32886,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32884\/revisions\/32886"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}