{"id":33104,"date":"2021-11-18T11:09:18","date_gmt":"2021-11-18T15:09:18","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33104"},"modified":"2021-11-18T11:09:23","modified_gmt":"2021-11-18T15:09:23","slug":"agronegocio-banca-palestras-que-espalham-mito-de-que-aquecimento-global-pelo-homem-e-fraude","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/11\/18\/agronegocio-banca-palestras-que-espalham-mito-de-que-aquecimento-global-pelo-homem-e-fraude\/","title":{"rendered":"Agroneg\u00f3cio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem \u00e9 fraude"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"393\" data-attachment-id=\"33105\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/11\/18\/agronegocio-banca-palestras-que-espalham-mito-de-que-aquecimento-global-pelo-homem-e-fraude\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?fit=800%2C524\" data-orig-size=\"800,524\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?fit=300%2C197\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?fit=600%2C393\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?resize=600%2C393&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-33105\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?resize=300%2C197 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?resize=768%2C503 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/121603568_55ca4961-99d5-41d8-ab70-57f5b5661b05.jpg?resize=458%2C300 458w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no Brasil. Est\u00e3o em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do pa\u00eds, ouvindo falar um professor da Universidade de S\u00e3o Paulo. Mas o que escutam \u00e9 o contr\u00e1rio do que acredita a esmagadora maioria da comunidade cient\u00edfica do mundo. Ali, a mensagem transmitida \u00e9 de que n\u00e3o existe aquecimento global causado pelo homem.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Juliana Gragnani <\/p>\n\n\n\n<p>Da BBC News Brasil em Londres<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os objetivos [de quem fala em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas] s\u00e3o congelar os pa\u00edses em desenvolvimento. O Brasil \u00e9 o principal foco dessas opera\u00e7\u00f5es que envolvem meio ambiente e clima. A ideia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e dessas quest\u00f5es ambientais s\u00e3o para segurar o nosso desenvolvimento&#8221;, afirmou o palestrante, o meteorologista Ricardo Felicio, sem respaldo cient\u00edfico, em uma entrevista concedida ap\u00f3s o evento que aconteceu em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influ\u00eancia humana no aquecimento do planeta \u00e9 &#8220;inequ\u00edvoco&#8221;. \u00c9 para limitar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas por meio da redu\u00e7\u00e3o na emiss\u00e3o de gases de efeito estufa que l\u00edderes se reuniram nas \u00faltimas duas semanas na COP26 em Glasgow, no Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a maior causa de emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono \u00e9 o desmatamento feito para expans\u00e3o da agricultura e da pecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na contram\u00e3o do que diz a ci\u00eancia, associa\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio \u2014 de fazendeiros de soja, passando por cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas a agronomia e at\u00e9 uma empresa de fertilizantes \u2014 est\u00e3o bancando palestras dos chamados &#8220;negacionistas clim\u00e1ticos&#8221;, pessoas que n\u00e3o acreditam que existam mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo homem e que apresentam esse fato como uma fraude. As apresenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o direcionadas a outros fazendeiros, produtores rurais ou estudantes de agronomia.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem contou ao menos 20 palestras do tipo nesses ambientes nos \u00faltimos tr\u00eas anos feitas por Felicio e por outro professor. A citada no in\u00edcio desta reportagem aconteceu em 2019, e fez parte de um circuito universit\u00e1rio de um total de 11 palestras com o nome &#8220;Aquecimento global, mito ou realidade?&#8221; em nove faculdades e dois sindicatos no Mato Grosso. Todas elas foram bancadas pela Aprosoja Mato Grosso, a associa\u00e7\u00e3o de produtores de soja e milho do Estado, maior produtor de soja do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que negam o aquecimento global antropog\u00eanico, as palestras pagas e vistas por ruralistas os absolvem de reconhecer seu papel nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Elas seriam, de acordo com o conte\u00fado contr\u00e1rio ao consenso cient\u00edfico apresentado pelos professores, somente fruto de varia\u00e7\u00f5es naturais, sem interfer\u00eancia alguma do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio desse setor &#8220;negacionista&#8221; do agroneg\u00f3cio, o presidente do conselho diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio, Marcello Brito, diz que a associa\u00e7\u00e3o se pauta &#8220;pela melhor ci\u00eancia&#8221; e que &#8220;jogar fora a ci\u00eancia porque ela n\u00e3o nos traz s\u00f3 vantagens, mas tamb\u00e9m deveres, \u00e9 no m\u00ednimo contraproducente, jogando contra a melhoria cont\u00ednua&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Palestras\">Palestras<\/h2>\n\n\n\n<p>Felicio, o professor do departamento de Geografia da USP contratado pela Aprosoja Mato Grosso em 2019, \u00e9 conhecido por suas posi\u00e7\u00f5es controversas \u2014 ultimamente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia de covid-19. Em um v\u00eddeo publicado em agosto deste ano em seu canal do YouTube, chamou a pandemia de &#8220;fraudemia&#8221; e disse, sem base cient\u00edfica, que vacinas causam danos maiores que a covid-19. Em outro, afirmou que m\u00e1scaras n\u00e3o s\u00e3o efetivas contra a covid-19. \u00c9 tamb\u00e9m um not\u00f3rio negacionista das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo homem. Ficou conhecido em 2012, quando foi convidado ao Programa do J\u00f4, da Globo, e, sem provas, negou o efeito estufa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/1D6A\/production\/_121603570_6bccf238-4e77-41a1-8758-9013438ed220.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Professor da USP Ricardo Felicio, ent\u00e3o presidente da Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, ministro Leonardo Cleaver de Athayde e professor aposentado da Ufal Luiz Carlos Molion\"\/><figcaption>Legenda da foto,Ricardo Felicio (no canto esquerdo) e Luiz Carlos Molion (no canto direito) d\u00e3o palestras pelo Brasil; na foto, eles participam de audi\u00eancia p\u00fablica no Senado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante tr\u00eas semanas, a reportagem tentou falar com Felicio por telefonemas, mensagens de texto e e-mails, mas n\u00e3o obteve resposta. O vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Beber, justificou o convite em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente trouxe o Ricardo Felicio para fazer um contraponto com aquilo que \u00e9 replicado na m\u00eddia hoje, que parece uma verdade absoluta. A gente n\u00e3o queria impor aquilo como uma verdade, mas sim trazer a um debate&#8221;, afirma. Para ele, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo homem ainda s\u00e3o uma &#8220;incerteza&#8221; \u2014 embora j\u00e1 haja consenso cient\u00edfico em torno delas. Beber tamb\u00e9m disse n\u00e3o se lembrar quanto custou o ciclo de 11 palestras feitas por Felicio naquele ano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/9C62\/production\/_121243004_gettyimages.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Silos de soja e planta\u00e7\u00e3o\"\/><figcaption>Legenda da foto,Vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso diz que convite a professor considerado negacionista se deu para promover &#8216;contraponto com o que \u00e9 replicado na m\u00eddia&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No ano passado, o meteorologista tamb\u00e9m foi convidado para falar no Tecno Safra Nort\u00e3o 2020, uma feira para produtores rurais, lideran\u00e7as, t\u00e9cnicos, pesquisadores e estudantes organizada pelo sindicato rural de Matup\u00e1, munic\u00edpio no norte de Mato Grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o vice-presidente do sindicato, Fernando Bertolin, ao menos cem pessoas, entre pequenos e grandes agricultores, pecuaristas e outras pessoas da cidade assistiram \u00e0 palestra. Ele defende o convite, dizendo que, \u00e0 \u00e9poca, Felicio estava &#8220;bem forte na m\u00eddia&#8221; e que sua palestra &#8220;foi um pedido dos produtores&#8221;. &#8220;A gente ouve todo mundo. Ele tem o embasamento te\u00f3rico dele e a gente queria saber por que ele dizia aquilo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Bertolin diz n\u00e3o se recordar do valor da palestra de Felicio de cabe\u00e7a, mas afirma que nenhuma das contratadas pela feira custou mais de R$ 15 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, Felicio concorreu, sem sucesso, ao cargo de deputado federal pelo PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano antes, o presidente tuitou um v\u00eddeo de uma entrevista em que Felicio nega a exist\u00eancia de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo homem. Bolsonaro escreveu: &#8220;Vale a pena conferir&#8221;. Consultada pela BBC News Brasil sobre esta recomenda\u00e7\u00e3o feita por Bolsonaro, a assessoria da Presid\u00eancia n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor n\u00e3o foi aclamado apenas pelo presidente. Em 2019, Felicio foi convidado para dar uma palestra no Senado ao lado de outro acad\u00eamico que n\u00e3o acredita no aquecimento global causado pelo homem, o professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), meteorologista Luiz Carlos Molion.<\/p>\n\n\n\n<p>O convite para que os professores falassem em uma audi\u00eancia p\u00fablica conjunta das comiss\u00f5es de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e de Meio Ambiente do Senado sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas partiu do senador do Acre Marcio Bittar (hoje PSL, mas, na \u00e9poca, do MDB), um ex-pecuarista que faz parte da bancada ruralista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de Felicio, Molion \u00e9 considerado um dos principais representantes do negacionismo clim\u00e1tico no Brasil e autor das outras palestras contabilizadas pela reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, Molion fez diversas palestras promovidas por entidades como a Cooperativa Agr\u00edcola de Una\u00ed, em Minas Gerais, a Associa\u00e7\u00e3o Av\u00edcola de Pernambuco, a Associa\u00e7\u00e3o de Engenheiros e Arquitetos de Itanha\u00e9m, com o patroc\u00ednio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de S\u00e3o Paulo, a Central Campo, uma empresa especializada na venda de insumos agr\u00edcolas, a Feira Agrotecnol\u00f3gica do Tocantins, do governo do Tocantins, a feira de Agroneg\u00f3cios da Cooabriel, uma cooperativa de caf\u00e9 com atua\u00e7\u00e3o no Esp\u00edrito Santo e na Bahia, e o sindicato rural de Canarana, no Mato Grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Molion tamb\u00e9m foi convidado para falar em universidades: o Instituto de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). A BBC News Brasil procurou todas essas institui\u00e7\u00f5es para comentar sobre os convites que fizeram a Molion \u2014 leia as respostas abaixo e no fim desta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte dessas palestras tem como tema as perspectivas clim\u00e1ticas para o ano seguinte e as &#8220;tend\u00eancias para os pr\u00f3ximos 10 anos&#8221;. Nas palestras \u2014 a maioria dispon\u00edvel no YouTube e vistas pela BBC News Brasil \u2014, Molion de fato faz previs\u00f5es para o ano seguinte, \u00fatil para que os produtores rurais se planejem para as pr\u00f3ximas safras, mas reserva a \u00faltima parte da palestra para falar sobre como o &#8220;aquecimento global \u00e9 uma fraude&#8221; \u2014 novamente, uma afirma\u00e7\u00e3o sem embasamento cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mostra um slide na parte final em sua apresenta\u00e7\u00e3o de Powerpoint, com suas palavras finais. O texto da apresenta\u00e7\u00e3o diz que o clima &#8220;varia por causas naturais&#8221;, e que &#8220;eventos extremos sempre ocorreram&#8221;. Afirma, tamb\u00e9m: &#8220;Aquecimento global \u00e9 mito. CO2 n\u00e3o controla o clima, n\u00e3o \u00e9 vil\u00e3o (\u2026) Redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es: in\u00fatil!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/B34B\/production\/_104099854_gettyimages-861414508.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"A patch of deforested land in the Amazon rainforest\"\/><figcaption>Legenda da foto,Segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influ\u00eancia humana no aquecimento do planeta \u00e9 &#8220;inequ\u00edvoco&#8221;; no Brasil, a maior causa de emiss\u00f5es de gases do efeito estufa \u00e9 o desmatamento<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na palestra promovida pela Secretaria de Agricultura, Pecu\u00e1ria e Aquicultura do governo do Tocantins em maio de 2020, por exemplo, Molion afirmou, contrariando a ci\u00eancia, que o &#8220;aquecimento global \u00e9 uma farsa, \u00e9 um mito&#8221;. &#8220;Reduzir emiss\u00f5es como quer esse Acordo de Paris de 2015 \u00e9 in\u00fatil, o Brasil tinha que pular fora porque reduzir emiss\u00f5es n\u00e3o vai causar nenhum benef\u00edcio para o planeta, para o clima, porque o CO2 n\u00e3o controla o clima&#8221;, disse, indo contra a esmagadora maioria da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos \u00faltimos anos e aos esfor\u00e7o global de selar acordos para diminuir as emiss\u00f5es dos gases de efeito estufa.<\/p>\n\n\n\n<p>A secretaria disse que o convidou, ao lado de outros palestrantes, para &#8220;alinhar o setor agropecu\u00e1rio quanto \u00e0s diversas correntes existentes e auxili\u00e1-los no seu planejamento e tomadas de decis\u00e3o mais assertivas para seu empreendimento rural&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, em outubro de 2020, em um semin\u00e1rio virtual promovido pela Central Campo, uma empresa mineira especializada na venda de insumos agr\u00edcolas, Molion fez as mesmas afirma\u00e7\u00f5es sobre o CO2 e o Acordo de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor da empresa, Artur Barros, disse por e-mail \u00e0 BBC News Brasil que a empresa &#8220;sempre soube do posicionamento do professor Molion, que \u00e9 muito pragm\u00e1tico quanto \u00e0s quest\u00f5es clim\u00e1ticas&#8221; e &#8220;o profissional que tem maior assertividade nas previs\u00f5es&#8221;. &#8220;A Central Campo, assim como grande parte dos produtores atendidos pela empresa, est\u00e1 muito alinhada ao posicionamento do professor Molion&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 BBC News Brasil, Molion afirmou: &#8220;Procuro usar minhas palestras para o agroneg\u00f3cio, que n\u00e3o s\u00e3o poucas, para no terceiro bloco falar sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a farsa do CO2 como controlador do clima global. Fa\u00e7o um diagn\u00f3stico local, previs\u00e3o para safra e depois falo sobre a tend\u00eancia do clima dos pr\u00f3ximos dez, 15 anos, que \u00e9 de resfriamento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Molion, ele d\u00e1 50 palestras por ano, &#8220;a grande maioria, 80%, 85% para o agroneg\u00f3cio&#8221;, cobrando R$ 4 mil por cada uma. Barros, da Central Campo, afirmou que foi este o valor que pagou pela palestra do professor.<\/p>\n\n\n\n<p>O meteorologista diz que n\u00e3o se incomoda de ser chamado de &#8220;negacionista&#8221;, embora, ressalte, nunca tenha negado que houve aquecimento no planeta em um per\u00edodo espec\u00edfico no passado. &#8220;Eu levo o que acho que est\u00e1 correto, pode ser que daqui a alguns anos me provem que estou errado e vou reconhecer isto. N\u00e3o sou paraquedista. Eu tenho vis\u00e3o muito cr\u00edtica do clima local e global gra\u00e7as ao meu treinamento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos semin\u00e1rios mais recentes de que participou teve tamb\u00e9m a presen\u00e7a de membros do governo Bolsonaro: o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o e o ministro de Infraestrutura, Tarcisio Freitas. Foi um semin\u00e1rio virtual sobre a Amaz\u00f4nia em agosto deste ano organizado pelo Instituto General Villas B\u00f4as, ONG do ex-comandante do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>Contrariando o consenso da comunidade cient\u00edfica sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, Molion defendeu que o clima global varia naturalmente, sem influ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o humana, e apresentou um slide em que dizia que o efeito-estufa, &#8220;como descrito pelo IPCC, \u00e9 question\u00e1vel&#8221;. Antes de passar a palavra para o ministro Freitas, afirmou: &#8220;CO2 n\u00e3o \u00e9 vil\u00e3o, quanto mais CO2 tiver na atmosfera, melhor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/D35C\/production\/_113980145_47847614412_f9775eac2f_k.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Mour\u00e3o fala, com bandeira do Brasil ao fundo\"\/><figcaption>Legenda da foto,Vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o participou de semin\u00e1rio sobre a Amaz\u00f4nia que teve a participa\u00e7\u00e3o do professor Luiz Carlos Molion; sua assessoria disse que ele se baseia em &#8216;dados cient\u00edficos para emiss\u00e3o de suas ideias e opini\u00f5es&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil procurou a vice-presid\u00eancia questionando por que Mour\u00e3o aceitou participar de um semin\u00e1rio ao lado de um professor que nega que a a\u00e7\u00e3o do homem esteja contribuindo para o aquecimento global. Sua assessoria disse apenas que Mour\u00e3o participou do evento a convite do Instituto General Villas B\u00f4as e que &#8220;baseia-se em dados cient\u00edficos para emiss\u00e3o de suas ideias e opini\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A assessoria do ministro da Infraestrutura, Tarc\u00edsio Freitas, afirmou que ele participou do semin\u00e1rio ap\u00f3s convite feito pelo pr\u00f3prio general Villas Boas. A ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, Tereza Cristina, foi inicialmente anunciada como um dos nomes de ministros que participariam do semin\u00e1rio, mas sua assessoria informou que ela n\u00e3o participaria do evento, sem responder por que desistiu.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Negacionismo-clim\u00e1tico-no-Brasil\">Negacionismo clim\u00e1tico no Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>A genealogia do negacionismo clim\u00e1tico no Brasil come\u00e7a nos anos 2000, quando a imprensa &#8220;dava pesos iguais para argumentos com pesos totalmente diferentes&#8221;, avalia o soci\u00f3logo Jean Miguel, pesquisador associado da Unifesp que estuda o tema. O debate sobre o assunto no Brasil se deu principalmente a partir do document\u00e1rio americano&nbsp;<em>Uma Verdade Inconveniente&nbsp;<\/em>(2006), sobre a campanha do ex-vice-presidente americano Al Gore a respeito do aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, um grupo pequeno de negacionistas na academia brasileira, incluindo Felicio e Molion, se pronunciavam publicamente sobre o tema. Para Miguel, eles s\u00e3o &#8220;verdadeiros mercadores da d\u00favida, trabalhando para destacar lacunas que toda ci\u00eancia possui e amplificar incertezas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;[E quem os ouviu no Brasil] foi parte do agroneg\u00f3cio interessado na desregulamenta\u00e7\u00e3o florestal&#8221;, responde Miguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, &#8220;as palestras fazem massagem no ego do produtor rural e criam a mentalidade de que esses grupos de agroneg\u00f3cio est\u00e3o sendo injusti\u00e7ados enquanto est\u00e3o contribuindo para o PIB nacional&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o significa que todos os produtores rurais sejam negacionistas. &#8220;A briga hoje \u00e9 entre dois lados: o setor de agroexporta\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 mais em contato com compradores internacionais, portanto mais pressionado pela quest\u00e3o reputacional, e que faz investimentos a longo prazo, pensando na quest\u00e3o produtiva na pr\u00f3xima d\u00e9cada, n\u00e3o na pr\u00f3xima safra&#8221;, diz Raoni Raj\u00e3o, professor de gest\u00e3o ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Outro lado do setor s\u00e3o os produtores, mais politizados e fortes apoiadores de Bolsonaro e toda sua agenda. Eles de certa forma compram esse discurso que toda a narrativa de mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 algo para poder impedir o desenvolvimento do Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o come\u00e7ar no governo Bolsonaro, o negacionismo &#8220;encontra terreno f\u00e9rtil para proliferar&#8221; em sua gest\u00e3o, avalia Miguel, citando algumas a\u00e7\u00f5es do governo atual, como o fechamento da secretaria respons\u00e1vel por elaborar pol\u00edticas p\u00fablicas sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, no in\u00edcio da gest\u00e3o Bolsonaro (ela foi reaberta em meio a cr\u00edticas no ano seguinte) e a desist\u00eancia em sediara COP-25 que ocorreria no Brasil em novembro de 2019. Em sua campanha, em 2018, Bolsonaro tamb\u00e9m prometeu acabar com o que chamava de &#8220;ind\u00fastria das multas&#8221; ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Ernesto Ara\u00fajo, que ficou no cargo do come\u00e7o do governo Bolsonaro at\u00e9 mar\u00e7o de 2021, chegou a colocar em d\u00favida que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas seriam causadas pela a\u00e7\u00e3o humana, na contram\u00e3o do consenso cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/B1C3\/production\/_121270554_bolsonaro01.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Jair Bolsonaro\"\/><figcaption>Legenda da foto,Para soci\u00f3logo, negacionismo clim\u00e1tico no Brasil n\u00e3o come\u00e7ou no governo Bolsonaro, mas encontrou &#8216;terreno f\u00e9rtil para proliferar&#8217; em sua gest\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles est\u00e3o altamente informados pelo negacionismo clim\u00e1tico. Mesmo que n\u00e3o digam que \u00e9 uma fraude, de uma maneira interna v\u00e3o criando as possibilidade de sabotar a ci\u00eancia e as pol\u00edticas clim\u00e1ticas nacionais, com formas pr\u00e1ticas de negacionismo clim\u00e1tico&#8221;, afirma Miguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Reportagem recente da BBC News Brasil mostrou que o governo Bolsonaro&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-59096013\">cortou em 93% os gastos para estudos e projetos de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>&nbsp;nos tr\u00eas primeiros anos da sua gest\u00e3o quando comparado com os tr\u00eas anos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Desmatamento\">Desmatamento<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas ter\u00e3o de ser adotadas para que o Brasil cumpra as metas anunciadas pelo governo durante a COP-26: zerar o desmatamento ilegal no pa\u00eds at\u00e9 2028, reduzir as emiss\u00f5es de gases do efeito estufa em 50% at\u00e9 2030 e atingir a neutralidade de carbono at\u00e9 2050.<\/p>\n\n\n\n<p>O desmatamento, causado pela expans\u00e3o da agricultura e da pecu\u00e1ria, \u00e9 respons\u00e1vel pela maior emiss\u00e3o de CO2 no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma \u00e1rea de 10.851 km2 \u2014 mais ou menos metade da \u00e1rea do Estado de Sergipe \u2014 foi desmatada na Amaz\u00f4nia Legal, segundo dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O valor representou um aumento de 7,13% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse crescimento teve um claro reflexo nas emiss\u00f5es de gases poluentes pelo Brasil em 2020. Houve um aumento de 9,5%, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observat\u00f3rio do Clima, principalmente por mudan\u00e7as no uso da terra e floresta, que inclui o desmatamento, e a agropecu\u00e1ria. O aumento aconteceu na contram\u00e3o do mundo que, parado por conta da pandemia de covid-19, diminuiu as emiss\u00f5es em 7%.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/442E\/production\/_121545471_4cc2453c-e5e5-4b04-92f6-82ccd8ef9ddb.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Madeiras\"\/><figcaption>Legenda da foto,S\u00f3 entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma \u00e1rea de 10.851 km2 &#8211; mais ou menos metade da \u00e1rea do Estado de Sergipe &#8211; foi desmatada na Amaz\u00f4nia Legal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, a boa not\u00edcia \u00e9 que, se o Brasil conseguir controlar o desmatamento, &#8220;as emiss\u00f5es cair\u00e3o muito rapidamente&#8221;. &#8220;Se controlarmos o desmatamento, n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds no mundo que vai ter emiss\u00f5es menores proporcionalmente do que temos no Brasil, ent\u00e3o acho que \u00e9 uma oportunidade. Teremos um resultado incr\u00edvel para o Brasil e para o planeta.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de pertencer ao setor respons\u00e1vel pela maior parte de emiss\u00f5es de gases do efeito estufa no Brasil, parte dos ruralistas diz acreditar ser injustamente acusada por ambientalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>As palestras do meteorologista Felicio no Mato Grosso, em 2019, &#8220;foram bem numa \u00e9poca em que era moda dizer que o agricultor era quem estava acabando com o mundo&#8221;, diz o produtor rural Artemio Antonini, presidente do sindicato rural de Nova Xavantina, no Mato Grosso. Tamb\u00e9m c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, Antonini ajudou a organizar a palestra de Felicio na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na opini\u00e3o de Raj\u00e3o, da UFMG, &#8220;o agro como um todo toma as dores e se sente ofendido quando se fala de desmatamento&#8221;. &#8220;A rea\u00e7\u00e3o \u00e9 negar o desmatamento e a exist\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tomar as dores&#8221; porque, de fato, quem desmata primariamente n\u00e3o \u00e9 produtor rural. Uma \u00e1rea desmatada come\u00e7a com uma onda de especuladores &#8211; quem demarca a terra e serra dali a vegeta\u00e7\u00e3o depois quem tenta regularizar a \u00e1rea -, em seguida vem o pecuarista e depois vem o agricultor, explica Raj\u00e3o. &#8220;Por isso que quando dizem que n\u00e3o est\u00e3o envolvidos com o desmatamento, \u00e9 verdade, boa parte deles n\u00e3o est\u00e1. Mas se beneficiam de um fornecimento de terra barata, que vem de todo o processo de desmatamento ilegal que \u00e0s vezes aconteceu 10 anos antes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A ilegalidade \u00e9 bastante concentrada. O estudo &#8220;As ma\u00e7\u00e3s podres do agroneg\u00f3cio brasileiro&#8221;, de Raj\u00e3o e outros pesquisadores, mostrou que mais de 90% dos produtores na Amaz\u00f4nia e no Cerrado n\u00e3o praticaram desmatamento ilegal ap\u00f3s 2008. Al\u00e9m disso, apenas 2% das propriedades nessas regi\u00f5es eram respons\u00e1veis por 62% de todo desmatamento potencialmente ilegal. O trabalho foi publicado na revista Science no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Agrosuic\u00eddio\">&#8216;Agrosuic\u00eddio&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O agricultor de soja Ilson Redivo tamb\u00e9m esteve na plateia em uma das palestras que o professor Ricardo Felicio deu em 2019, no munic\u00edpio de Sinop, norte do Mato Grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Redivo migrou do Paran\u00e1 para Sinop em 1988, inicialmente trabalhando, como a maioria dos migrantes, no setor madeireiro. &#8220;Era um grande polo madeireiro, e era o que dava retorno na \u00e9poca&#8221;, diz. Hoje, ele possui uma fazenda de 4200 hectares de milho e soja na regi\u00e3o, e \u00e9 presidente do Sindicato Rural da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele diz ter gostado da palestra de Felicio. Como ele, o produtor rural tamb\u00e9m rejeita a ci\u00eancia estabelecida sobre o aquecimento global. Ele diz que \u00e9 uma &#8220;narrativa econ\u00f4mica&#8221;, n\u00e3o ambiental, criada para conter o desenvolvimento do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu estou h\u00e1 trinta anos aqui, foi desmatado um monte e o clima continua da mesma forma, t\u00e1 certo? N\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica&#8221;, diz Redivo \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ecoando argumentos j\u00e1 usados por Bolsonaro, o agricultor diz que o Brasil \u00e9 &#8220;um exemplo para o mundo em preserva\u00e7\u00e3o ambiental&#8221;. &#8220;O produtor brasileiro \u00e9 o cara que mais preserva.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento \u00e9 repetido por outros produtores rurais. &#8220;Ningu\u00e9m fala que o agricultor est\u00e1 deixando 80% e s\u00f3 usando 20% da \u00e1rea para produzir&#8221;, reclama o produtor rural Antonini.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/59D5\/production\/_121579922_0aa55444-6545-41dc-80c9-baadd9314b01.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Gado em area desmatada\"\/><figcaption>Legenda da foto,Durante a COP-26, em Glasgow, Brasil prometeu zerar o desmatamento ilegal no pa\u00eds at\u00e9 2028<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Eles se referem \u00e0 Reserva Legal, um dispositivo criado no C\u00f3digo Florestal Brasileiro que obriga os propriet\u00e1rios de terras na Amaz\u00f4nia a preservar 80% da floresta nativa (no Cerrado, o valor \u00e9 de 35%; em outros biomas, 20%), algo que beneficia o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio, por meio dos servi\u00e7os ambientais prestados pela floresta. Muitos agricultores acham isso injusto. Mas, na pr\u00e1tica, nem todos respeitam essa exig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia (Imazon) Ritaumaria Pereira conduziu entrevistas com 131 criadores de gado no Par\u00e1 em 2013 e 2014 e descobriu que mais de 95% deles declararam preservar menos do que a quantidade exigida. Segundo ela, argumentam que, quando chegaram, a terra j\u00e1 estava nua, ou que no passado tinham o est\u00edmulo para desmatar, ou que n\u00e3o tinham recursos para regenerar 80%.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Pereira, da Imazon, para que o Brasil consiga cumprir as metas anunciadas durante a COP-26, ser\u00e1 preciso investir em fiscaliza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia, fortalecendo \u00f3rg\u00e3os como o Ibama e o ICMBio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m ser\u00e1 preciso combater o discurso do negacionismo clim\u00e1tico. A mensagem transmitida a produtores rurais, diz ela, legitima o desmatamento, e &#8220;traz mais pessoas para esse pensamento, para que, num futuro pr\u00f3ximo, validem assim tudo o que j\u00e1 desmataram&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Raj\u00e3o, da UFMG, \u00e9 uma narrativa &#8220;que no curto prazo \u00e9 confortante, mas no longo prazo contribui para o chamado &#8216;agrosuic\u00eddio'&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/1683C\/production\/_104602229_line976.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"L\u00ednea\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Posicionamentos-de-empresas-que-convidaram-professores-para-palestras\">Posicionamentos de empresas que convidaram professores para palestras<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Cooperativa Agr\u00edcola de Una\u00ed (Coagril)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Cooperativa Agr\u00edcola de Una\u00ed Ltda (Coagril) diz &#8220;ter contratado o professor Molion no intuito de obter informa\u00e7\u00f5es acerca do regime de chuvas para a regi\u00e3o de sua atua\u00e7\u00e3o, visando ao planejamento estrat\u00e9gico dos seus neg\u00f3cios e de seus cooperado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Associa\u00e7\u00e3o Av\u00edcola de Pernambuco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A AVIPE refor\u00e7a seu car\u00e1ter plural onde preza pela diversidade de ideias onde o debate de todos os pontos de vista precisa ser exaurido constantemente com o intuito da busca eterna de uma conclus\u00e3o contingente sobre quaisquer assuntos. (\u2026) Como associa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos cabe acreditar ou n\u00e3o se os fatos humanos causam mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pois nosso papel n\u00e3o \u00e9 de credo, mas sim de apoiar o debate cient\u00edfico por aqueles que se dedicam toda uma vida em pesquisa. N\u00e3o condiz com nossos princ\u00edpios, condutas e valores, selecionar uma parcela de opini\u00f5es do mundo cient\u00edfico para apoiar determinada conclus\u00e3o com fins casu\u00edsticos ou individuais. Aspectos financeiros s\u00e3o reservados apenas aos nossos associados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Associa\u00e7\u00e3o de Engenheiros e Arquitetos de Itanha\u00e9m, com o patroc\u00ednio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o de Engenheiros e Arquitetos de Itanha\u00e9m recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail e WhatsApp, mas n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O Crea-SP respondeu que &#8220;tem como miss\u00e3o legal o aperfei\u00e7oamento t\u00e9cnico e cultural dos profissionais da \u00e1rea tecnol\u00f3gica, conforme a Lei 5.194&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os eventos com essa finalidade, realizados pelas associa\u00e7\u00f5es, s\u00e3o de responsabilidade de seus idealizadores e n\u00e3o necessariamente representam a posi\u00e7\u00e3o do Crea-SP.<\/p>\n\n\n\n<p>O Conselho refor\u00e7a ainda que acredita em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelas a\u00e7\u00f5es humanas e, como forma de apoiar medidas para combat\u00ea-las, \u00e9 signat\u00e1rio dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cooperativa de caf\u00e9 Cooabriel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail, mas n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sindicato rural de Canarana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O presidente do sindicato, Alex Wisch, respondeu, por mensagem via WhatsApp: &#8220;Propomos que voc\u00eas indiquem um cientista de mesmo n\u00edvel acad\u00eamico do Prof. Molion para que todos possam ter conhecimento da verdade cient\u00edfica sobre esse tema. Podemos colaborar financeiramente com esse evento e inclusive sediar o evento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Instituto de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por telefone, o vice-diretor do Instituto de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias da UFMG, Helder Augusto, afirmou: &#8220;Na universidade, h\u00e1 diversidade de ideias e contrapontos. N\u00e3o \u00e9 um posicionamento da UFMG. \u00c9 um ponto de vista dele, \u00e9 uma fala relativa. A pessoa veio, fez palestra e pode falar o que bem entender porque \u00e9 um ambiente p\u00fablico. A universidade n\u00e3o paga palestra para ningu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Universidade Federal da Para\u00edba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O evento foi realizado no audit\u00f3rio do Centro de Tecnologia da UFPB, organizado no \u00e2mbito do Departamento de Engenharia Mec\u00e2nica, que aproveitou que o palestrante j\u00e1 estava em Jo\u00e3o Pessoa (PB) e o convidou para ministrar palestra na UFPB, portanto, neste caso em particular, sem \u00f4nus para a UFPB.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa de convidar o pesquisador para ministrar palestra sobre seus estudos n\u00e3o se confunde com a vis\u00e3o, miss\u00e3o e valores da UFPB, entre os quais destaca-se o car\u00e1ter p\u00fablico e aut\u00f4nomo da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A UFPB defende o papel da academia e apoia a ci\u00eancia e a pesquisa, o conhecimento gerado a partir de m\u00e9todos cient\u00edficos, no intuito de encontrar solu\u00e7\u00f5es para desafios em todas as \u00e1reas e gera\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios para a sociedade. Por meio da ci\u00eancia, as teorias s\u00e3o constantemente testadas, visando sua comprova\u00e7\u00e3o ou substitui\u00e7\u00e3o por outra teoria que resista \u00e0 checagem. N\u00e3o compete \u00e0 Universidade aplicar censura pr\u00e9via \u00e0 ci\u00eancia.&#8221;<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no Brasil. Est\u00e3o em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do pa\u00eds, ouvindo falar um professor da Universidade de S\u00e3o Paulo. Mas o que escutam \u00e9 o contr\u00e1rio do que acredita a esmagadora maioria da comunidade&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/11\/18\/agronegocio-banca-palestras-que-espalham-mito-de-que-aquecimento-global-pelo-homem-e-fraude\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-33104","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8BW","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33104","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33104"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33104\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33106,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33104\/revisions\/33106"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}