{"id":33187,"date":"2021-12-14T13:41:37","date_gmt":"2021-12-14T17:41:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33187"},"modified":"2021-12-14T13:42:18","modified_gmt":"2021-12-14T17:42:18","slug":"mia-couto-estamos-a-espera-de-que-o-brasil-regresse-a-essa-plenitude-que-foi-roubada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/12\/14\/mia-couto-estamos-a-espera-de-que-o-brasil-regresse-a-essa-plenitude-que-foi-roubada\/","title":{"rendered":"Mia Couto: &#8220;Estamos \u00e0 espera de que o Brasil regresse a essa plenitude que foi roubada&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" data-attachment-id=\"33188\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2021\/12\/14\/mia-couto-estamos-a-espera-de-que-o-brasil-regresse-a-essa-plenitude-que-foi-roubada\/attachment\/33188\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/27AEB2FA-C6BB-446C-9E08-42A62550B7C7.jpeg?fit=800%2C533\" data-orig-size=\"800,533\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;AFP&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mozambican author Mia Couto poses at the bookstore Millepages in Vincennes, east of Paris, on June 19, 2015. 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Tem sido esta a sua tarefa h\u00e1 quase 30 anos, quando lan\u00e7ou&nbsp;<em>Terra Son\u00e2mbula<\/em>, seu primeiro romance e um dos mais importantes da literatura africana.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, o vencedor do Pr\u00eamio Cam\u00f5es de 2013 lan\u00e7a no Brasil&nbsp;<em>O<\/em>&nbsp;<em>Mapeador de Aus\u00eancias<\/em>, um livro de car\u00e1ter biogr\u00e1fico, que representa uma volta do escritor \u00e0 sua cidade natal, Beira, na regi\u00e3o central do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A volta que deveria ser um resgate de suas mem\u00f3rias, se tornou uma homenagem aos seus pais, Fernando Couto e Maria de Jesus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA certa altura, eu comecei a perceber, enquanto constru\u00eda o livro, que n\u00e3o era a cidade, era o meu pai e a minha m\u00e3e, que em um ambiente colonial e muito agressivo, de uma viol\u00eancia enorme, do ponto de vista social, racial, formaram o meu ser, a minha capacidade de estar atento aos outros, meu sentimento de pertencimento&nbsp;\u00e0 Mo\u00e7ambique, \u00e0 uma luta para derrubar esse sistema colonial. Tudo isso eu devo aos meus pais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do novo romance&nbsp;&#8211; e um outro livro de contos, que dever\u00e1 ser lan\u00e7ado em breve &#8211; outras quest\u00f5es t\u00eam afligido o escritor. Bi\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, Couto participou ativamente dos esfor\u00e7os de Mo\u00e7ambique para frear a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/minuto-a-minuto\/coronavirus-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pandemia de covid-19<\/a>&nbsp;no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do avan\u00e7o da doen\u00e7a, foram 154 mil casos diagnosticados e 1.944 mortes no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/12\/09\/omicron-que-se-sabe-ate-agora-sobre-a-variante-do-coronavirus\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">descoberta da nova variante, \u201csupostamente sul-africana\u201d, \u00f4micron<\/a>, a primeira medida de pa\u00edses europeus e do norte global foi vetar voos e fechar fronteiras com as na\u00e7\u00f5es da \u00c1frica Austral, os pa\u00edses ao sul do continente africano.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Mia Couto, a medida \u00e9 \u201ccompletamente injustificada, uma coisa que n\u00e3o tem fundamento cient\u00edfico nenhum\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEra uma decis\u00e3o mais pol\u00edtica do que outra coisa e que penalizava, principalmente a \u00c1frica do Sul, mas todos os outros pa\u00edses desta regi\u00e3o da \u00c1frica Austral. Quando n\u00f3s sabemos que esses muros que se erguiam, essas barreiras que preveniam a exist\u00eancia de viagens, n\u00e3o iriam ter quase nenhum efeito naquilo que seria o controle, a conten\u00e7\u00e3o de alguma coisa que nem sab\u00edamos onde havia sido originada, se na \u00c1frica do Sul ou em outro local, mas at\u00e9 agora ainda falta provar isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de novembro, amostras colhidas na Holanda, em 19 de novembro, j\u00e1 mostravam a presen\u00e7a da nova variante em solo europeu, muito antes do registro e descobrimento da nova cepa por cientistas sul-africanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do baixo \u00edndice de vacina\u00e7\u00e3o no continente (apenas 6,6% da popula\u00e7\u00e3o dos 50 pa\u00edses est\u00e1 imunizada), a regi\u00e3o nunca teve grandes surtos da doen\u00e7a, ao contr\u00e1rio dos continentes americano e europeu. Mesmo assim, explica Couto, a \u00c1frica nunca barrou o tr\u00e2nsito entre os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00c1frica podia ter feito o inverso, quando o centro da epidemia hoje est\u00e1 na Europa e nunca nos ocorreu, a n\u00f3s africanos, parar esse movimento de gente que vinha da Europa ou que vai para a Europa\u201d, diz. \u201cA medida agrava a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 muito carente desses pa\u00edses, que dependem muito do turismo e da circula\u00e7\u00e3o de bens e passageiros\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na conversa gravada em 2 de dezembro, para o&nbsp;<strong>BdF Entrevista<\/strong>, o escritor ainda fala sobre o Pr\u00eamio Cam\u00f5es entregue \u00e0 mo\u00e7ambicana Paulina Chiziane, como descobriu a literatura de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, revisita a mem\u00f3ria e fala de sua paix\u00e3o pelo Brasil, apesar da &#8220;atitude do pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica, que desvalorizou, negou a covid-19 e essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente criminosa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quero dar um abra\u00e7o no Brasil, o Brasil que eu aprendi a amar muito. Eu aprendi a conhecer melhor o meu pr\u00f3prio pa\u00eds visitando o Brasil, e o Brasil que deu tanto como contribui\u00e7\u00e3o&nbsp;cultural, musical.&nbsp;Voc\u00eas n\u00e3o podem imaginar o quanto Mo\u00e7ambique aprendeu a olhar para si pr\u00f3prio e a amar melhor o mundo e a vida por via do Brasil. Portanto estamos \u00e0 espera de que o Brasil regresse a essa plenitude que foi roubada agora&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" allowfullscreen=\"\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FiWYf68ozOU\" width=\"560\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p><br><br>Confira a entrevista na \u00edntegra:<br><br><strong>Brasil de Fato: Queria come\u00e7ar nossa conversa falando sobre um tema que tem dominado os notici\u00e1rios no mundo todo, que \u00e9 o isolamento do continente africano, principalmente a \u00c1frica Austral, os pa\u00edses do sul, ap\u00f3s o descobrimento da variante \u00f4micron. O senhor tem acompanhado de perto essa quest\u00e3o da pandemia, o efeito pr\u00e1tico desse isolamento \u00e9 devastador, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br>&nbsp;<br><strong>Mia Couto:<\/strong>&nbsp;Logo quando isso foi anunciado, eu e um amigo, Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, fizemos uma esp\u00e9cie de manifesto e publicamos isso nas redes sociais. Depois isso foi transformado numa coisa que correu, pelo menos nos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Manifestamos nesse texto nossa indigna\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o podemos ficar calados.<br>&nbsp;<br>\u00c9 uma coisa que nos parecia completamente injusta, completamente injustificada, uma coisa que n\u00e3o tinha fundamento cient\u00edfico nenhum, que era uma decis\u00e3o mais pol\u00edtica do que outra coisa e que penalizava, principalmente a \u00c1frica do Sul, mas tamb\u00e9m todos os outros pa\u00edses desta regi\u00e3o da \u00c1frica Austral.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Quando n\u00f3s sabemos que esses muros que se erguiam, essas barreiras que preveniam a exist\u00eancia de viagens, n\u00e3o iriam ter quase nenhum efeito naquilo que seria o controle, a conten\u00e7\u00e3o de alguma coisa que nem sab\u00edamos onde havia sido originada, se na \u00c1frica do Sul, mas at\u00e9 agora ainda falta provar isso.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Mesmo que tenha sido, que tenha acontecido primeiro na \u00c1frica do Sul, estamos vendo o que est\u00e1 acontecendo e n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. \u00c9 preciso um controle mais rigoroso dos aeroportos, mas nunca fazer esta medida que agrava a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 muito carente desses pa\u00edses, que dependem muito do turismo e da circula\u00e7\u00e3o de bens e passageiros.<br>&nbsp;<br>A \u00c1frica podia ter feito o inverso, quando o centro da epidemia hoje est\u00e1 na Europa e nunca nos ocorreu, a n\u00f3s africanos, em parar esse movimento de gente que vinha da Europa ou que vai para a Europa. Portanto, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de alguma coisa que se somou a uma grande injusti\u00e7a, que j\u00e1 estava presente, que \u00e9 injusti\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o das vacinas.<br>&nbsp;<br>N\u00e3o h\u00e1 que se esperar solidariedade de um mundo que produz esse tipo de ego\u00edsmo e que produz esse tipo de atitude, sempre centrada no mundo dos ricos, mas ainda assim, \u00e9 surpreendente que tenha acontecido uma coisa destas.&nbsp;<br>&nbsp;<br><strong>H\u00e1 algumas semanas, inclusive, descobriu-se que o v\u00edrus j\u00e1 estava em territ\u00f3rio europeu antes da descoberta da variante na \u00c1frica do Sul, que \u00e9 uma descoberta important\u00edssima para a ci\u00eancia, uma contribui\u00e7\u00e3o gigantesca que a \u00c1frica do Sul e os cientistas por l\u00e1 deram.<\/strong><br>&nbsp;<br>Sem d\u00favida. N\u00f3s ainda vamos ter a hist\u00f3ria, clara, de como \u00e9 que essa variante [\u00f4micron] ocorreu, mas a primeira tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 esta, que \u00e9 muito forte, de culpar ao outro e sobretudo se esse outro vem de um pa\u00eds africano.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu imagino que, para a constru\u00e7\u00e3o de pensamento que \u00e9 dominante, ainda hoje nos pa\u00edses ricos, na Europa, seja dif\u00edcil assimilar que, desta vez, aqueles que v\u00eam contaminar os outros, a origem daquela coisa que \u00e9 impura, dos contagiantes, n\u00e3o seja a \u00c1frica. A \u00c1frica tem muito pouco desta pandemia. A \u00c1frica n\u00e3o constitui um perigo. Sem nenhuma d\u00favida, a \u00c1frica est\u00e1 fora desse ponto suspeito.<br>&nbsp;<br>Agora, \u00e9 preciso dizer uma coisa para ser justo, a linha de clivagem, essa linha de fronteira, n\u00e3o \u00e9 exatamente s\u00f3 entre \u00c1frica e Europa, porque muitos pa\u00edses africanos assumiram a mesma atitude da Europa, como Angola, que foi uma grande surpresa.&nbsp;<br>&nbsp;<br><strong>O senhor \u00e9 bi\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, para al\u00e9m da brilhante carreira como escritor, e participou dos esfor\u00e7os do governo de Mo\u00e7ambique no combate \u00e0 pandemia. Como foi esse caso de sucesso de Mo\u00e7ambique no combate \u00e0 pandemia?&nbsp;<\/strong><br>&nbsp;<br>Neste caso tamb\u00e9m h\u00e1 uma coisa t\u00edpica, digamos. Porque quando corre bem a \u00c1frica, nunca se p\u00f5e&nbsp;em hip\u00f3tese que tamb\u00e9m seja&nbsp;por causa de pol\u00edticas boas que os africanos podem p\u00f4r em curso, podem assumir. Sempre se pensa que as raz\u00f5es que levam ao sucesso, por exemplo neste caso, tenham a ver com fatores naturais, isto \u00e9, o sol, \u00e9 a vitamina D, \u00e9 o clima.<br>&nbsp;<br>S\u00e3o fatores de ordem social&nbsp;que, na verdade, t\u00eam alguma influ\u00eancia. Por exemplo, a \u00c1frica \u00e9 um continente muito jovem. Em Mo\u00e7ambique, a pir\u00e2mide et\u00e1ria tem uma base enorme, cerca de 60% dos mo\u00e7ambicanos t\u00eam menos de 20 anos, ent\u00e3o isso marca uma diferen\u00e7a com pa\u00edses que s\u00e3o muito envelhecidos e, portanto, mais vulner\u00e1veis \u00e0 transmiss\u00e3o e, digamos assim, ao agravamento da doen\u00e7a.<br>&nbsp;<br>Mas, na verdade, eu viajei pela Europa quando esta pandemia come\u00e7ou, h\u00e1 dois anos atr\u00e1s e passei pelos pa\u00edses que j\u00e1 estavam em uma situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima, como a It\u00e1lia, nem sequer consegui ir ao lugar de destino, que era a Bolonha e tive que ir mais para o sul da It\u00e1lia, depois fui para Fran\u00e7a, e a Fran\u00e7a tamb\u00e9m j\u00e1 tinha uma situa\u00e7\u00e3o grave, Portugal depois tamb\u00e9m.<br>&nbsp;<br>Por esses pa\u00edses, eu passei sem ter que fazer nenhum controle, sem ter que fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o de documento, sem nenhuma informa\u00e7\u00e3o. Eu cheguei a Mo\u00e7ambique, que ainda n\u00e3o tinha nenhum caso da doen\u00e7a e nesta altura, Mo\u00e7ambique j\u00e1 tinha mecanismos muito claros de controle na entrada do aeroporto, de informa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Portanto eu acho que n\u00f3s tivemos uma pol\u00edtica que n\u00e3o teve que recorrer a medidas draconianas, mas que foi uma pol\u00edtica de absoluto controle da situa\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica, est\u00e1 longe de ser o Brasil, que a gente sabe que come\u00e7a pela atitude do pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica, que desvalorizou, negou, etc, e essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente criminosa.<br>&nbsp;<br><strong>O senhor chegou a comentar tamb\u00e9m sobre a quest\u00e3o das vacinas. Destoando de boa parte do mundo, onde, fora exce\u00e7\u00f5es de movimentos antivacina, as campanhas correm bem, no continente africano, alguns pa\u00edses n\u00e3o chegam a 3% de vacinados. Isso tem um peso enorme no surgimento de novas variantes, n\u00e3o?&nbsp;<\/strong><br>&nbsp;<br>Sem d\u00favida, quando eu assisto a alguns notici\u00e1rios televisivos da Europa, eu fico espantado com a naturalidade com que se discute a 4\u00aa dosagem e se discute se deve vacinar crian\u00e7as e adolescentes de 7 a 12 anos, vamos dizer. Enquanto que, no continente africano, a porcentagem de gente que est\u00e1 por vacinar \u00e9 enorme. E aqui, nem era preciso ser muito solid\u00e1rio, bastava ter bom senso, para perceber que esta pandemia, ou termina em todo lado, ou n\u00e3o pode terminar em um s\u00f3 continente.<br>&nbsp;<br>Portanto, se a situa\u00e7\u00e3o na \u00c1frica for esta, \u00e9 muito natural que possam surgir outras variantes, porque o grau de vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 muito baixo. E temos situa\u00e7\u00f5es como Botsuana, que \u00e9 um pa\u00eds que tem algum recurso, n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds t\u00e3o pobre na \u00c1frica, que comprou as vacinas, n\u00e3o estava \u00e0 espera de alguma doa\u00e7\u00e3o, ou do mecanismo Covaxin e viu a sua carga ser desviada para os pa\u00edses ricos.&nbsp;<br>&nbsp;<br>H\u00e1 aqui coisas que precisam ser colocadas em cima da mesa, faz falta uma Uni\u00e3o Africana, a entidade correspondente \u00e0 Uni\u00e3o Europeia no nosso caso africano, n\u00e3o ter se pronunciado. \u00c9 um espanto para mim, o fato de que a \u00fanica voz que se indignou foi do presidente sul-africano, tudo isso \u00e9 muito estranho.<br>&nbsp;<br>Agora n\u00f3s somos penalizados, quando eu digo n\u00f3s, n\u00e3o falo s\u00f3 da \u00c1frica, mas do mundo. Em uma situa\u00e7\u00e3o pand\u00eamica como esta, era imprescind\u00edvel ter uma organiza\u00e7\u00e3o internacional centralizada, com cr\u00e9dito, com for\u00e7a pol\u00edtica, que pudesse conduzir uma a\u00e7\u00e3o coordenada entre os pa\u00edses, mas a OMS foi vazada, foi destru\u00edda, a partir de fora, principalmente.<br>&nbsp;<br><strong>No teu novo livro,&nbsp;<em>O Mapeador de Aus\u00eancias<\/em>, voc\u00ea faz uma rela\u00e7\u00e3o direta com a tua hist\u00f3ria, de uma maneira quase biogr\u00e1fica, como foi retomar essa hist\u00f3ria e voltar \u00e0 Beira?<\/strong><br>&nbsp;<br>Beira \u00e9 minha cidade Natal, \u00e9 uma cidade pequena que existe aqui no centro do pa\u00eds. Do ponto de vista cultural e lingu\u00edstico \u00e9 praticamente um outro mundo. Eu vim para a capital estudar quando eu tinha 17 anos, porque n\u00e3o havia universidade na Beira. E vim estudar medicina e n\u00e3o voltei mais, a n\u00e3o ser em visitas de fam\u00edlia e amigos, mas \u00e9 a minha terra, minha cidade.<br>&nbsp;<br>Eu sabia que ia fazer esta viagem de regresso por via da literatura e voltei pensando que eu ia fazer uma celebra\u00e7\u00e3o em livro, uma celebra\u00e7\u00e3o a essa cidade onde mora a minha inf\u00e2ncia at\u00e9 hoje. Essa inf\u00e2ncia \u00e9 o territ\u00f3rio onde eu regresso, se \u00e9 que a palavra regressar pode ser dita com propriedade, mas eu estou l\u00e1 ainda, nem sequer \u00e9 um regresso.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Enquanto eu escrevia o livro,&nbsp;fui verificando como \u00e9 que a mem\u00f3ria falsifica e cria uma outra verdade sobre aquilo que \u00e9 o tempo passado. Em um certo momento eu at\u00e9 fui com os meus dois irm\u00e3os &#8211; eu sou irm\u00e3o do meio &#8211; para confirmar se aquela casa que eu pensava que era a casa onde n\u00f3s t\u00ednhamos, por exemplo, nascido, onde a minha tia tinha adoecido,&nbsp;e eles negavam tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou o menos dotado de mem\u00f3ria dos tr\u00eas irm\u00e3os e eles diziam: \u201cN\u00e3o, n\u00f3s nunca vivemos nesta casa\u201d. E, para mim, era absolutamente verdade que aquela casa tinha uma liga\u00e7\u00e3o com a minha vida.&nbsp;<br>&nbsp;<br>A certa altura, eu comecei a perceber, enquanto constru\u00eda o livro, que n\u00e3o era a cidade, era o meu pai e a minha m\u00e3e&nbsp;que, em um ambiente colonial e muito agressivo, de uma viol\u00eancia enorme, do ponto de vista social, racial, etc, essas duas criaturas que tinham vindo de Portugal, exilados por uma raz\u00e3o de ordem pol\u00edtica, porque prevalecia em Portugal uma ditadura colonial e fascista.<br>&nbsp;<br>E eles ensinaram, sem nunca proclamar, sem que isso surgisse como uma doutrina, ou qualquer coisa, nos ensinaram &#8211; a n\u00f3s tr\u00eas &#8211; pelo exemplo, que aquelas pessoas que eram desvalorizadas, que eram afastadas da cidade, inclusive do ponto de vista f\u00edsico, porque os negros n\u00e3o podiam viver na cidade dos brancos e n\u00e3o podiam circular depois das 9h da noite, tudo isso era uma marca, era uma ferida que eu precisava revisitar e os meus pais mostravam que essa gente existia, que era importante e era gente vis\u00edvel.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Portanto, a essa aprendizagem eu tenho que prestar homenagem, foi a\u00ed que tudo come\u00e7ou, o meu ser, a minha capacidade de estar atento aos outros, meu sentimento de pertencimento \u00e0 Mo\u00e7ambique, \u00e0 uma luta para derrubar esse sistema colonial, tudo isso eu devo aos meus pais.<br>&nbsp;<br>E por isso, eu percebi que aquilo que, para n\u00f3s, era uma certa aus\u00eancia, sobretudo da parte do meu pai, porque meu pai era uma pessoa t\u00e3o delicada, t\u00e3o gentil, que parecia que n\u00e3o estava presente, n\u00f3s pens\u00e1vamos que t\u00ednhamos do meu pai essa mem\u00f3ria, que tamb\u00e9m era uma mem\u00f3ria falsa, de que ele n\u00e3o tinha estado t\u00e3o presente quanto era preciso, mas, na verdade, aquilo era uma marca, digamos assim, aquilo era a sua maneira de nos ensinar a ver o mundo e ele n\u00e3o precisava impor a sua presen\u00e7a. Portanto, no fundo, o mapa que ele nos deu para a vida foi feito com essa aparente aus\u00eancia.<br>&nbsp;<br><strong>Eu vi em algum lugar uma compara\u00e7\u00e3o entre o senhor, Mia, e o escritor brasileiro Guimar\u00e3es Rosa. Dois homens altamente letrados e que falam de lugares populares, sem o abuso da linguagem refinada, com obras permeadas pela cultura popular. Como \u00e9 trazer na sua obra a cultura popular, as vozes dos povos?<\/strong><br>&nbsp;<br>Eu, na verdade, tenho uma d\u00edvida enorme com o Guimar\u00e3es Rosa. Ele foi um mestre e surgiu de uma maneira muito curiosa, porque foi uma triangula\u00e7\u00e3o. Eu cheguei ao Guimar\u00e3es Rosa depois de encontrar um angolano, que foi muito marcado pelo Guimar\u00e3es Rosa, que \u00e9 o Luandino Vieira e ele pr\u00f3prio me disse: \u201cN\u00e3o, vai buscar a fonte\u201d.&nbsp;<br>&nbsp;<br>E a fonte, ele mandou uma fotoc\u00f3pia de um conto &#8211; porque n\u00f3s n\u00e3o receb\u00edamos aqui os livros vindos do Brasil &#8211; e eu recebi&nbsp;<em>A Terceira Margem do Rio<\/em>&nbsp;em fotoc\u00f3pia e aquilo foi realmente muito importante para mim, foi uma esp\u00e9cie de licen\u00e7a, uma autoriza\u00e7\u00e3o para fazer esse trabalho.<br>&nbsp;<br>Esse n\u00e3o \u00e9 um trabalho de linguagem, \u00e9 um trabalho de pensamento, sobretudo para deixar que essas vozes, que essa for\u00e7a da oralidade, que n\u00e3o tem nada de ex\u00f3tico ou de folcl\u00f3rico, mas tem a marca de uma produ\u00e7\u00e3o de um outro saber &#8211; h\u00e1 ali um outro saber &#8211; e esse saber pede uma outra linguagem e por isso \u00e9 preciso desconstruir a narrativa, que s\u00e3o os padr\u00f5es da l\u00edngua portuguesa e os padr\u00f5es daquilo que \u00e9 narrativa. E, sobretudo, desfazer um pouco aquela fronteira equivocada entre prosa e poesia.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Em Mo\u00e7ambique isto \u00e9 importante, como \u00e9 importante no mundo do sert\u00e3o do Guimar\u00e3es Rosa. \u00c9 que essas pessoas que eu quero contar hist\u00f3rias, que est\u00e3o dentro de mim, n\u00e3o est\u00e3o fora de mim, essas pessoas acreditam que o rio \u00e9 uma entidade viva, que o rio tem voz, que a montanha fala, que \u00e9 poss\u00edvel conversar com uma \u00e1rvore.<br>&nbsp;<br>Tudo isso n\u00e3o tem nada a ver com realismo m\u00e1gico, tem a ver com um outro modo de olhar o mundo, que aqui ainda \u00e9 muito dominante, n\u00e3o \u00e9 uma coisa dos povos ind\u00edgenas que est\u00e3o numa reserva, est\u00e3o afastados numa floresta qualquer, eles est\u00e3o vivendo todos os dias conosco, essas pessoas somos n\u00f3s, est\u00e3o nas cidades, que falam suas l\u00ednguas ind\u00edgenas e, portanto, \u00e9 uma cultura que est\u00e1 muito viva e infelizmente ainda est\u00e1 subordinada a essa outra cultura, que \u00e9 mais europeizada.<br>&nbsp;<br><strong>Recentemente, a Paulina Chiziane recebeu o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, imagino que um orgulho e tanto para todos os mo\u00e7ambicanos &#8211; o senhor tamb\u00e9m j\u00e1 ganhou essa honraria. Qual \u00e9 o peso dessa vit\u00f3ria para a literatura africana e literatura mo\u00e7ambicana?<\/strong><br>&nbsp;<br>Para n\u00f3s, para Mo\u00e7ambique, sim. Mas para a literatura africana, n\u00e3o sei. Porque, infelizmente, a \u00c1frica vive muito separada entre os universos das tr\u00eas grandes l\u00ednguas europeias que s\u00e3o faladas na \u00c1frica. Voc\u00ea tem a \u00c1frica franc\u00f3fona, angl\u00f3fona e lus\u00f3fona, e elas n\u00e3o falam umas com as outras. Ent\u00e3o, o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, eu n\u00e3o sei se ele \u00e9 muito conhecido junto aos pa\u00edses angl\u00f3fonos e franc\u00f3fonos da \u00c1frica.<br>&nbsp;<br>Agora, para n\u00f3s, e eu acho que para a l\u00edngua portuguesa em geral, a Paulina ter ganho este pr\u00eamio \u00e9 de uma import\u00e2ncia absoluta, porque n\u00e3o s\u00f3 se d\u00e1 um pr\u00eamio a uma escritora, em primeiro lugar \u00e9 preciso que seja dito isso, \u00e9 a uma obra, a um percurso de algu\u00e9m que foi a primeira mo\u00e7ambicana a escrever um romance, e para fazer isso ela teve que se impor, teve que lutar contra preconceitos dentro do nosso pr\u00f3prio pa\u00eds. Existe uma mentalidade patriarcal muito forte.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Portanto, \u00e9 uma vit\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 da Paulina, mas das mulheres mo\u00e7ambicanas, desta outra vis\u00e3o mais feminina de ver o mundo e \u00e9 tamb\u00e9m a primeira pessoa que eu conhe\u00e7o&nbsp;que ganhou o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, cuja l\u00edngua materna n\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua portuguesa. \u00c9 a primeira pessoa negra, \u00e9 uma das poucas mulheres que ganhou esse pr\u00eamio.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Por todas essas a\u00e7\u00f5es, pelo fato tamb\u00e9m de eu ser amigo dela, de ser um companheiro de luta desses anos todos &#8211; n\u00f3s somos da mesma idade, n\u00f3s somos da mesma gera\u00e7\u00e3o de 55 e dividimos tamb\u00e9m um outro pr\u00eamio, que \u00e9 o Pr\u00eamio Nacional de Literatura de Mo\u00e7ambique &#8211; \u00e9 uma coisa que me deixou muito feliz.<br>&nbsp;<br><strong>H\u00e1 um conflito, neste momento, no norte de Mo\u00e7ambique, que j\u00e1 deixou quase 1 milh\u00e3o de refugiados e muitos outros mortos, calcado no extremismo religioso, principalmente no extremismo Isl\u00e2mico e alguns atentados inclusive foram reivindicados pelo Estado Isl\u00e2mico. Esse \u00e9 o tema do teu pr\u00f3ximo livro de contos, certo?&nbsp;<\/strong><br>&nbsp;<br>Esse livro de contos, no fundo, eu acho que continua, \u00e9 simplesmente mais um passo no caminho que eu tenho estado a trilhar, que \u00e9 o caminho que compete a mim, que \u00e9 o caminho de colocar em di\u00e1logo, em conversa, esses mundos diversos que existem em Mo\u00e7ambique.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Existem 25 l\u00ednguas vivas em Mo\u00e7ambique que s\u00e3o faladas, 25 modos culturais diferentes, &nbsp;h\u00e1 diferen\u00e7as \u00e9tnicas, h\u00e1 diferen\u00e7as raciais, h\u00e1 diferen\u00e7as religiosas profund\u00edssimas, mas elas t\u00eam formas de conviver e criar harmonias. Ent\u00e3o eu funciono um pouco como um tradutor dessas diferen\u00e7as.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Eu acho que posso ter um p\u00e9 em diversos mundos e isso \u00e9 um privil\u00e9gio que eu tenho, colocar a servi\u00e7o dos outros, a servi\u00e7o do meu pr\u00f3prio pa\u00eds. Ent\u00e3o, esse livrinho fala um pouco disso.<br>&nbsp;<br>O que est\u00e1 acontecendo no norte \u00e9 uma coisa muito difusa, porque tem essa dimens\u00e3o de um conflito ligado a um fundamentalismo Isl\u00e2mico extremo sim, \u00e9 isso, mas infelizmente n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, \u00e9 uma coisa que mistura muitas raz\u00f5es e o que eu posso dizer \u00e9 que, infelizmente para n\u00f3s pr\u00f3prios mo\u00e7ambicanos, parece que esse norte \u00e9 um pouco long\u00ednquo, parece que isso \u00e9 alguma coisa que acontece dentro de n\u00f3s mas n\u00e3o\u2026&nbsp;<br>&nbsp;<br>H\u00e1 um milh\u00e3o de pessoas que foi deslocada e n\u00f3s estamos a reviver uma coisa que j\u00e1 aconteceu antes. Durante a Guerra Civil (1977 &#8211; 1992), cerca de 20 anos atr\u00e1s, n\u00f3s tivemos cinco milh\u00f5es de pessoas deslocadas e essas pessoas foram encontrar ref\u00fagio nos pa\u00edses vizinhos nossos, que s\u00e3o, em geral, pa\u00edses pobres e voc\u00ea n\u00e3o teve not\u00edcia disso no mundo.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Hoje, qualquer movimento de migra\u00e7\u00e3o na Europa que temos, quando africanos que cruzam o Mediterr\u00e2neo s\u00e3o not\u00edcia, s\u00e3o motivo de espanto, de cria\u00e7\u00e3o de medos e de apelos ao fechamento [das fronteiras] e da fortaleza que \u00e9 a Europa. Mas voc\u00ea nunca ouviu falar desse grande drama, desses cinco milh\u00f5es de mo\u00e7ambicanos que viveram durante anos fora do pa\u00eds e s\u00f3 puderam regressar depois de 1994. Desde 1980, at\u00e9 1994 estiveram numa condi\u00e7\u00e3o de pobreza extrema e absoluta vulnerabilidade.<br>&nbsp;<br>Um pouco dessas hist\u00f3rias minhas querem resgatar esta enorme injusti\u00e7a e desfazer essa ilus\u00e3o que vivemos num \u00fanico \u00fanico mundo, em uma aldeia global e isso n\u00e3o \u00e9 verdade, infelizmente vivemos em mundos que s\u00e3o apartados, que se ignoram mutuamente.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Mas quero dar um abra\u00e7o no Brasil, o Brasil que eu aprendi a amar muito, que eu aprendi a conhecer melhor o meu pr\u00f3prio pa\u00eds visitando o Brasil, e o Brasil que deu tanto como contribui\u00e7\u00e3o cultural, musical.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Voc\u00eas n\u00e3o podem imaginar o quanto Mo\u00e7ambique, atrav\u00e9s dos vossos escritores, dos vossos poetas, dos vossos m\u00fasicos, dos vossos cineastas, o quanto Mo\u00e7ambique aprendeu a olhar para si pr\u00f3prio e a amar melhor o mundo e a vida por via do Brasil. Portanto estamos \u00e0 espera que o Brasil regresse a essa plenitude que foi roubada agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Leandro Melito<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em conversa no BDF Entrevista, o escritor fala sobre o fechamento das fronteiras na \u00c1frica, seu novo livro e o Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-33187","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Dh","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33187"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33190,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33187\/revisions\/33190"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}