{"id":33327,"date":"2022-02-24T11:34:24","date_gmt":"2022-02-24T15:34:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33327"},"modified":"2022-02-24T11:34:28","modified_gmt":"2022-02-24T15:34:28","slug":"luiz-simas-ataque-ao-carnaval-publico-gerou-o-fortalecimento-do-carnaval-privado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/02\/24\/luiz-simas-ataque-ao-carnaval-publico-gerou-o-fortalecimento-do-carnaval-privado\/","title":{"rendered":"Luiz Simas: \u201cAtaque ao carnaval p\u00fablico gerou o fortalecimento do carnaval privado\u201d"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"450\" data-attachment-id=\"33328\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/02\/24\/luiz-simas-ataque-ao-carnaval-publico-gerou-o-fortalecimento-do-carnaval-privado\/0db75596-946e-44bf-b1ef-f0a89da9b712\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?fit=1024%2C768\" data-orig-size=\"1024,768\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;Tomaz Silva\\\/Ag\\u00eancia Brasil&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;NIKON D4&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Bloco Cord\\u00e3o do Boitat\\u00e1 arrasta milhares de foli\\u00f5es em desfile de pr\\u00e9-carnaval pelas ruas do centro do Rio de Janeiro&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1551002494&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;EBC - Empresa Brasil de Comunica\\u00e7\\u00e3o\\\/Ag\\u00eancia Brasil&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;50&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;400&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.003125&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Bloco Cord\u00e3o do Boitat\u00e1 arrasta milhares de foli\u00f5es em desfile de pr\u00e9-carnaval pelas ruas do centro do Rio de Janeiro&lt;\/p&gt;\n\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?fit=600%2C450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?resize=600%2C450\" alt=\"\" class=\"wp-image-33328\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?w=1024 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?resize=768%2C576 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/0DB75596-946E-44BF-B1EF-F0A89DA9B712.jpeg?resize=400%2C300 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> &#8211; Luiz Antonio Simas \u00e9 refer\u00eancia quando o assunto \u00e9 carnaval e manifesta\u00e7\u00f5es da cultura popular brasileira. O historiador, professor e compositor carioca duas vezes ganhador do aclamado pr\u00eamio Jabuti, tem sido uma voz cr\u00edtica \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de grandes eventos privados de carnaval enquanto a festa p\u00fablica est\u00e1 impedida de tomar as ruas e as escolas de samba tiveram seus\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/carnaval\/2022\/noticia\/2022\/01\/21\/prefeitura-de-sp-adia-desfiles-de-escolas-de-samba-para-abril-devido-a-aumento-de-casos-de-covid.ghtml\" target=\"_blank\">desfiles adiados<\/a>\u00a0por conta pandemia no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>\u201cAcho que se justificaria um adiamento por conta da&nbsp;<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2022\/01\/2022-e-a-pandemia-omicron-vacinas-e-o-futuro-da-covid-19-no-brasil-segundo-pesquisadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sa\u00fade p\u00fablica<\/a>, a minha quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 essa\u201d, explica Simas. \u201cMas \u00e9 esquisito, porque definitivamente n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica que determinou [o adiamento]. Isso guarda uma percep\u00e7\u00e3o da sociedade que \u00e9 preconceituosa em rela\u00e7\u00e3o ao carnaval.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele afirma que a festa j\u00e1 sofria um processo de \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdomestica\u00e7\u00e3o\u201d por parte do mercado mesmo antes da Covid-19. Por isso, para al\u00e9m dos preju\u00edzos econ\u00f4micos aos trabalhadores do carnaval em mais um ano, destaca outras consequ\u00eancias do banimento dos festejos p\u00fablicos. \u201cQuando voc\u00ea tira o carnaval de rua de cena nesse contexto, h\u00e1 um esvaziamento simb\u00f3lico da pr\u00f3pria rua como inst\u00e2ncia de constru\u00e7\u00e3o da vida na cidade\u201d, aponta. \u201cUma grande disputa que envolve a cidade passa pela rua. O que a gente quer: encarar a cidade a partir da l\u00f3gica da circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, de corpos apressados que se deslocam para o trabalho, ou entender a cidade como ponto de encontro?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>, o historiador fala ainda sobre conceitos centrais em sua obra, como a luta pelo encantamento do mundo e as ideias de Brasil e brasilidade, segundo as quais as culturas populares v\u00e3o se constituindo em frestas no muro entendido como o projeto oficial de pa\u00eds, marcado pelo colonialismo. Nesse sentido, Simas defende que o espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o cultural brasileiro \u00e9 uma \u201cencruzilhada\u201d. \u201cEncruzilhada \u00e9 estar dispon\u00edvel para a alteridade, para conviver com o outro, com outras refer\u00eancias, porque ela te apresenta caminhos diversos\u201d, aponta\u201d. \u201cSomos um pa\u00eds encruzilhado por saberes amer\u00edndios, m\u00faltiplos saberes africanos, in\u00fameras refer\u00eancias de imigrantes pobres europeus que chegaram aqui.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Luiz Antonio Simas durante participa\u00e7\u00e3o na Flip de 2017<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea tem sido uma voz cr\u00edtica ao cancelamento do carnaval de rua diante da manuten\u00e7\u00e3o de outros grandes eventos privados em todo o pa\u00eds. Por que essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser lida apenas pelo \u00e2ngulo da sa\u00fade p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, n\u00e3o sou contra o adiamento. O que me surpreende \u00e9 que ele n\u00e3o se justifica pela quest\u00e3o sanit\u00e1ria, por tudo que a gente tem visto. Houve o adiamento dos desfiles e o cancelamento de carnaval de rua ao mesmo tempo em que diversos outros eventos muito grandes foram mantidos. Tive contato com a programa\u00e7\u00e3o de carnaval que vai acontecer no Rio de Janeiro e tem muita coisa: festa privada, baile, show, megaevento com artistas de v\u00e1rias tend\u00eancias musicais. Fica uma coisa estranha, n\u00e9? Acho que se justificaria um adiamento por conta da sa\u00fade p\u00fablica, a minha quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 essa, n\u00e3o sou daqueles que chegam e dizem \u201c\u00f3, tem que ter de qualquer maneira\u201d. Mas \u00e9 esquisito porque definitivamente n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica que o determinou [o adiamento]. Isso guarda uma percep\u00e7\u00e3o da sociedade que \u00e9 preconceituosa em rela\u00e7\u00e3o ao carnaval, n\u00e3o tenho d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E tamb\u00e9m refor\u00e7a a desigualdade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A rigor, h\u00e1 um processo de privatiza\u00e7\u00e3o do carnaval. Na pr\u00e1tica, tivemos um ataque contra o carnaval p\u00fablico que gerou o fortalecimento do carnaval privado. Se voc\u00ea tiver dinheiro para pagar, vai entrar em algum megaevento, um grande show ou alguma coisa nesse sentido com artistas e blocos. \u00d3timo, \u00e9 leg\u00edtimo, at\u00e9 porque existe uma economia criativa importante [ligada \u00e0s festas]. Os m\u00fasicos, t\u00e9cnicos de som e trabalhadores da cultura precisam sobreviver. N\u00e3o estou dizendo que a gente tem que cancelar tudo, s\u00f3 estou dizendo, da minha posi\u00e7\u00e3o \u2013 eu, que n\u00e3o sou cientista, obviamente \u2013, que o discurso de que a justificativa do adiamento se fundamenta numa quest\u00e3o sanit\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 procedente por tudo que a gente tem visto. N\u00f3s vamos ter carnaval em certo sentido, s\u00f3 n\u00e3o vai ter a festa p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Para o historiador, o cancelamento das festas de rua e dos desfiles das escolas de samba carregam preconceito da sociedade em rela\u00e7\u00e3o ao carnaval<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quais as consequ\u00eancias do cancelamento do carnaval de rua e dos desfiles de escolas de samba para os trabalhadores da festa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 aprofunda uma crise que come\u00e7ou a se desenhar na pandemia. H\u00e1 uma parte da sociedade brasileira que parece ter horror do Brasil, que tem uma percep\u00e7\u00e3o da festa como vagabundagem, elemento de aliena\u00e7\u00e3o. Isso mistura preconceito, uma certa \u00e9tica do trabalho muito problem\u00e1tica e uma absoluta falta de percep\u00e7\u00e3o de que a festa \u00e9 um processo de constru\u00e7\u00e3o coletiva de pertencimento da vida. A gente vive em um mundo p\u00f3s-industrial em que as esferas coletivas s\u00e3o cada vez mais atacadas em nome de um individualismo total, de uma mercantiliza\u00e7\u00e3o brutal da vida em todos os seus setores. Essas celebra\u00e7\u00f5es de rua s\u00e3o momentos de reconstru\u00e7\u00e3o da ideia coletiva da vida, mas h\u00e1 um preconceito brutal. As pessoas esquecem que a economia criativa da festa sustenta muita gente n\u00e3o s\u00f3 durante a festa: numa escola de samba, tem a costureira, o ferreiro, o escultor, o figurinista, o funcion\u00e1rio da quadra da escola, o camarada que trabalha com a metalurgia dos carros aleg\u00f3ricos. No carnaval de rua, voc\u00ea tem l\u00e1 o t\u00e9cnico de som, o vendedor ambulante. Esses trabalhadores foram absolutamente deixados \u00e0 m\u00edngua, \u00e9 um absurdo o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m das consequ\u00eancias econ\u00f4micas, que outros vazios \u2013 culturais, simb\u00f3licos \u2013 a falta de festa de carnaval deixa para n\u00f3s, brasileiros?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um problema grav\u00edssimo. Acho importante ressaltar uma coisa: o carnaval de rua de certa maneira j\u00e1 vinha sob ataque. Primeiro, ele \u00e9 atacado por uma l\u00f3gica de mercantiliza\u00e7\u00e3o do mundo, da cidade. Vem sofrendo, por exemplo, com uma tentativa de domestica\u00e7\u00e3o do mercado sobre ele. Voc\u00ea tem mega blocos no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte \u2013 a gente pode pensar em outros estados \u2013 que foram domesticados pelo prop\u00f3sito de patroc\u00ednio. Tem grandes marcas de cerveja que patrocinam os blocos de rua, h\u00e1 essa depend\u00eancia e isso \u00e9 um neg\u00f3cio problem\u00e1tico. O carnaval de rua tamb\u00e9m vem sendo atacado do ponto de vista de um discurso de ordem moral muito ligado a algumas designa\u00e7\u00f5es neopentecostais. Existem obviamente designa\u00e7\u00f5es que respeitam a festa e dialogam, mas h\u00e1 outras que operam na l\u00f3gica da demoniza\u00e7\u00e3o. Tem um discurso de ordem p\u00fablica que j\u00e1 \u00e9 um pouco complicado tamb\u00e9m e que o tempo todo tenta domesticar a rua. Quando voc\u00ea tira o carnaval de rua de cena nesse contexto, h\u00e1 um esvaziamento simb\u00f3lico da pr\u00f3pria rua como inst\u00e2ncia de constru\u00e7\u00e3o da vida na cidade. Uma grande disputa que envolve a cidade passa pela rua. O que a gente quer: encarar a cidade a partir da l\u00f3gica da circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, de corpos apressados que se deslocam para o trabalho, ou entender a cidade como ponto de encontro? Essa \u00e9 uma dimens\u00e3o muito s\u00e9ria. A rua sempre despertou paix\u00f5es, receios, medos, representou desafios, por tudo que ela tem de beleza e, ao mesmo tempo, de tens\u00e3o e inesperado. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 um esvaziamento da rua como ponto de constru\u00e7\u00e3o de sociabilidade em nome de uma rua domesticada a partir da l\u00f3gica da cidade como espa\u00e7o visto prioritariamente sob a l\u00f3gica do capital.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cQuando voc\u00ea tira o carnaval de rua de cena nesse contexto, h\u00e1 um esvaziamento simb\u00f3lico da pr\u00f3pria rua como inst\u00e2ncia de constru\u00e7\u00e3o da vida na cidade\u201d, analisa Simas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como explicar a diferen\u00e7a entre a festa de carnaval p\u00fablica e privada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Passa por uma diferen\u00e7a entre dois conceitos que tenho elaborado para pensar a cidade: cultura do evento e evento da cultura. Parece s\u00f3 um jogo de palavras, mas n\u00e3o \u00e9. A cultura do evento \u00e9 desprovida de viv\u00eancia, de um sentido mais org\u00e2nico. Quando voc\u00ea vai a uma festa privada dessas \u2013 e n\u00e3o vou ser moralista, dizer \u201cn\u00e3o v\u00e1\u201d \u2013, \u00e9 um exemplo do que chamo de cultura do evento, o neg\u00f3cio \u00e9 fazer o evento e dane-se tudo, mas \u00e9 vazio, n\u00e3o tem organicidade, \u00e9 fugidio, um simulacro. O carnaval de rua \u00e9 um evento da cultura, uma coisa completamente diferente. \u00c9 um evento fundamentado em tradi\u00e7\u00e3o, em hist\u00f3ria, em viv\u00eancia, em cultura e portanto numa experi\u00eancia realmente vital. \u00c9 mais ou menos como uma escola de samba: a gente n\u00e3o pode pens\u00e1-la exclusivamente a partir do desfile, que \u00e9 fundamental. A escola de samba n\u00e3o existe porque vai desfilar, ela s\u00f3 vai desfilar porque existe. Me parece que somos cada vez mais acuados pela cultura do evento, que \u00e9 rasa, vazia, circunstancial e mensurada pelo interesse do mercado. Quando falo em mercado, tamb\u00e9m n\u00e3o sou bobo, sei que existe uma economia criativa, e \u00e9 leg\u00edtimo que ocorra. Me refiro a quando o interesse do capital est\u00e1 sobreposto a qualquer outro. \u00c9 uma festa, uma brincadeira, mas \u00e9 muito s\u00e9rio, porque a gente est\u00e1 falando de constru\u00e7\u00e3o de pa\u00eds, de cidade, de rua, de sentido de mundo. E essa dimens\u00e3o parece que muita gente n\u00e3o tem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Banimento dos festejos p\u00fablicos traz preju\u00edzos econ\u00f4micos aos trabalhadores do carnaval e da cultura<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em sua obra, voc\u00ea tem desenvolvido a diferen\u00e7a entre os conceitos de Brasil e brasilidade. Poderia explicar, por favor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando falo em Brasil, me refiro a um projeto oficial, institucional. H\u00e1 alguns anos escrevi um texto \u2013 inclusive, muita gente ficou impressionada com ele, e quem n\u00e3o leu falou que eu estava ficando maluco \u2013 em que defendi uma ideia, que continuo defendendo, mas quando defendi l\u00e1 atr\u00e1s causou um certo estranhamento. Eu dizia que o Brasil deu certo. Digo isso porque institucionalmente, com exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra, o Brasil \u00e9 projetado como Estado-na\u00e7\u00e3o para excluir. A exclus\u00e3o, a desigualdade social e as estruturas do racismo s\u00e3o um projeto de Estado bem-sucedido. Isso \u00e9 projetado, est\u00e1 na col\u00f4nia, no Imp\u00e9rio, que aprova uma lei de terras para inviabilizar a distribui\u00e7\u00e3o da propriedade. O Brasil fica independente em 1822 e de forma aterrorizante preserva a escravid\u00e3o. A Rep\u00fablica brasileira n\u00e3o foi proclamada com o intento de propor um projeto de inclus\u00e3o, ela monta mecanismos de exclus\u00e3o social dos pobres e descendentes de escravizados. O Brasil institucional \u00e9 um projeto bem-sucedido de horror. Ao mesmo tempo, nas frestas desse projeto, foram sendo constru\u00eddos sentidos de vida transgressores. E a\u00ed penso muito mesmo na cultura brasileira, penso muito, evidentemente, em rela\u00e7\u00e3o ao samba \u2013 porque estudei muito a hist\u00f3ria do samba, gosto muito de samba. O que faz o Estado? Ou reprime, ou tenta de alguma maneira domesticar, tirar dessas manifesta\u00e7\u00f5es seu potencial mais transgressor. A brasilidade \u00e9 esse caldo de cultura expresso nas dan\u00e7as, na corporeidade brasileira, na sonoridade dos tambores, nas inst\u00e2ncias coletivas dos reinados, congadas, maracatus, bailes funk, rimas de rap, emboladas dos cantadores nordestinos, ginga dos capoeiristas, nas nossas maneiras de jogar futebol. Essa brasilidade vai sendo constru\u00edda, numa dimens\u00e3o transgressora, nas brechas, nas frestas e nas rachaduras do Brasil oficial, esse projeto de horror absoluto. E me parece que existe uma tens\u00e3o constante entre o Brasil e a brasilidade: \u00e0s vezes o Brasil Estado oficial contempla a brasilidade, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica como se fosse isso aquilo l\u00e1, tem nuances nesse processo. A\u00ed costumo dizer o seguinte: s\u00f3 o que pode nos salvar do Brasil \u00e9 a brasilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Simas defende que \u201ca brasilidade \u00e9 esse caldo de cultura expresso nas dan\u00e7as, na corporeidade brasileira, na sonoridade dos tambores\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em que momentos da nossa hist\u00f3ria essa aproxima\u00e7\u00e3o ocorreu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Era Vargas teve um projeto de Estado que dialogava com essa brasilidade e a reconhecia como um elemento talvez definidor do que somos, mas numa dimens\u00e3o controladora, domesticadora e que em alguma medida foi muito folclorizante. Penso essa brasilidade tamb\u00e9m muito a partir da ideia do jogo, porque n\u00e3o sou eu que vou dizer como a brasilidade vai lidar com o Brasil: os agentes da brasilidade constroem organicamente seus modos de intera\u00e7\u00e3o. Eu, como historiador, vejo e sinto isso. Vivo numa cidade profundamente desigual, extremamente violenta, que tentou construir um mito de cordialidade que n\u00e3o se sustenta diante da an\u00e1lise hist\u00f3rica. N\u00e3o sou um adepto do carioquismo como uma alternativa fabulosa de vida, estou longe disso, mas o que me impressiona \u00e9 como, diante de um muro de horror, voc\u00ea foi construindo sentidos de vida muito poderosos nas brechas, nas rachaduras. Por exemplo, gostei muito da gest\u00e3o do Gil quando foi ministro da Cultura, criando pontos de cultura.&nbsp; Ali se tentou pensar uma din\u00e2mica p\u00fablica para a cultura e reconhecer o protagonismo dos agentes dessa mesma cultura. Hoje, vivemos um momento terr\u00edvel do ponto de vista das pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura, porque n\u00e3o \u00e9 nem uma tentativa de domesticar, \u00e9 realmente um Brasil que tem horror da brasilidade, que quer que ela morra, suma. Mas acho que a solu\u00e7\u00e3o passa pelo protagonismo dos pr\u00f3prios agentes de cultura, dos agentes de territ\u00f3rio. A ideia de que algu\u00e9m possa chegar levando cultura a algum lugar me apavora, porque os lugares s\u00e3o incessantes produtores de cultura. Acredito muito tamb\u00e9m em pr\u00e1ticas cotidianas, n\u00e3o sou o sujeito que acredita em lances espetaculares, em megainiciativas, o que me impressiona mesmo \u00e9 como cotidianamente voc\u00ea vai construindo sentido de vida muito fortes que v\u00eam de periferias, sub\u00farbios, favelas, florestas. N\u00e3o acredito minimamente em nenhuma solu\u00e7\u00e3o que venha do Brasil confort\u00e1vel em seus sal\u00f5es, no ar condicionado. Acho que a reinven\u00e7\u00e3o do Brasil, sua refunda\u00e7\u00e3o, a transgress\u00e3o necess\u00e1ria vir\u00e1 das margens do Brasil oficial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa ideia de fissurar o grande muro do colonialismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Essa ideia, que gosto muito de trabalhar, das culturas de fresta. Na minha obra, penso o Brasil institucional como um muro, um concreto de profunda dureza. Mas esse muro sempre vai ter suas rachaduras, e nelas voc\u00ea vai entrando, vai construindo a vida, \u00e0s vezes resistindo, \u00e0s vezes dando porrada, \u00e0s vezes negociando, com nuances o tempo todo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acredita que esse muro pode ser derrubado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei. Acho que a gente vive uma l\u00f3gica parecida com a do jogo da capoeira. O mestre Pastinha dizia isso: o capoeirista n\u00e3o vai aniquilar o outro. At\u00e9 porque, se ele aniquila o outro, o jogo acaba. Acho que o jogo vai continuar, a quest\u00e3o \u00e9 jogar. O historiador \u00e9 p\u00e9ssimo para prever o que vai acontecer, n\u00e3o fa\u00e7o ideia, mas o que verifico \u00e9 que a nossa hist\u00f3ria \u00e9 muito marcada por constru\u00e7\u00e3o de sentido, por constru\u00e7\u00e3o transgressora de beleza nessas brechas a partir de uma certa sabedoria gerada at\u00e9 pela pr\u00f3pria ideia da escassez. O Milton Santos, grande ge\u00f3grafo, falava muito disso, como diante da escassez voc\u00ea tem que inventar o mundo. Isso n\u00e3o significa romantizar o prec\u00e1rio. A romantiza\u00e7\u00e3o do prec\u00e1rio \u00e9 uma das coisas que mais me atormentam em certos setores, inclusive, progressistas. N\u00e3o \u00e9 para romantizar o prec\u00e1rio, mas para entender que voc\u00ea est\u00e1 construindo sentido de vida ali, que essas constru\u00e7\u00f5es t\u00eam uma possibilidade, que cotidianamente vai se estruturando, de transgredir. \u00d3bvio que n\u00e3o desejo que a gente fique o tempo todo construindo coisas das frestas, o objetivo tem que ser botar o muro abaixo. Mas acho que o muro come\u00e7a a ruir exatamente pelas rachaduras. N\u00e3o acredito que a gente v\u00e1 chegar com uma picareta, com uma escavadeira e derrubar o muro de uma hora para outra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea defende que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds de \u201cencruzilhadas\u201d. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Encruzilhada n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o de quem est\u00e1 perdido \u2013 as pessoas confundem muito encruzilhada com labirinto. Encruzilhada \u00e9 estar dispon\u00edvel para a alteridade, para conviver com o outro, com outras refer\u00eancias, porque ela te apresenta caminhos diversos. Voc\u00ea, na encruzilhada, n\u00e3o est\u00e1 numa linha reta, est\u00e1 num espa\u00e7o em que tem uma sa\u00edda para c\u00e1, uma sa\u00edda para l\u00e1, uma para frente. O espa\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o da cultura \u00e9 um espa\u00e7o da encruzilhada, que te coloca em desconforto porque necessariamente voc\u00ea tem que conviver com a alteridade. Somos um pa\u00eds encruzilhado por saberes amer\u00edndios, m\u00faltiplos saberes africanos, in\u00fameras refer\u00eancias de imigrantes pobres europeus que chegaram aqui. Somos um pa\u00eds encruzilhado por diversas sonoridades e sabores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>De acordo com o historiador, \u201csomos um pa\u00eds encruzilhado por saberes amer\u00edndios, m\u00faltiplos saberes africanos, in\u00fameras refer\u00eancias de imigrantes pobres europeus\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es entre a sua obra e as discuss\u00f5es sobre decolonialidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho medo tamb\u00e9m de virar um colonizado pela decolonialidade. Gosto muito de alguns autores que trabalham com a decolonialidade, ou a descoloniza\u00e7\u00e3o, acho uma quest\u00e3o importante. A maneira como vejo o combate \u00e0s estruturas da coloniza\u00e7\u00e3o, que voc\u00ea pode chamar de decolonialidade, n\u00e3o \u00e9 um conceito que uso, por exemplo, no meu trabalho. A luta contra a colonialidade, a meu ver, n\u00e3o \u00e9 para extirp\u00e1-la, destru\u00ed-la, porque isso n\u00e3o vai acontecer. Mas de certa maneira \u00e9 uma luta para trazer essa heran\u00e7a colonial para o jogo. N\u00e3o sou o sujeito que vai chegar e dizer \u201co Descartes \u00e9 um pensador da racionalidade europeia e n\u00e3o quero saber dele\u201d. Gosto do Descartes, n\u00e3o estou afim de desprez\u00e1-lo, n\u00e3o desprezo cultura. O que quero \u00e9 trazer o Descartes para o jogo, para a ginga, para a dimens\u00e3o do encanto, e tentar entender o que a gente pode estabelecer a partir de um hipot\u00e9tico encontro entre Descartes e o Caboclo Arranca Toco. N\u00e3o estou afim, por exemplo, de dizer que a m\u00fasica do Sebastian Bach passa pelas codifica\u00e7\u00f5es da m\u00fasica tonal europ\u00e9ia, do modelo cl\u00e1ssico, e por isso n\u00e3o quero saber, quero saber, evidentemente, porque sei que Bach se relaciona com Pixinguinha. Sei que Pixinguinha \u00e9 o tambor da macumba, \u00e9 o jazz norte-americano, mas sei tamb\u00e9m que \u00e9 o Johann Sebastian Bach \u2013 o Pixinguinha acaba sendo ele mesmo e todo o resto. \u00c0s vezes, h\u00e1 uma \u00e2nsia de marco zero que me preocupa um pouco. \u00c9 como se nada prestasse ou funcionasse, e a gente precisa construir do zero \u2013 n\u00e3o \u00e9 assim. Acho que a gente est\u00e1 metido numa circunst\u00e2ncia em que necessariamente somos tamb\u00e9m feitos da colonialidade. Mas como podemos encantar isso, botar pimenta nesse processo colonial? Como o trazemos para o campo da rasura, da disputa, da ginga? Costumo dizer que n\u00e3o sou um pensador da decolonialidade, se tiver que me definir, sou fundamentalmente um pensador da macumba. Se voc\u00ea acha que a macumba pode estar inserida numa postura decolonial ou descolonial, n\u00e3o sou eu que estou dizendo, mas penso a partir da perspectiva macumbeira, do encanto, da polirritmia, da s\u00edncope, da corporeidade do transe.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como define o \u201cencantamento\u201d das coisas, do corpo e do mundo, elemento t\u00e3o central em sua obra?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muita gente me pergunta se penso encantamento a partir do Weber, que trabalhou com a ideia do desencanto do mundo. N\u00e3o, \u00e9 a partir do tambor de mina, da encantaria maranhense, que conheci porque minha fam\u00edlia teve um envolvimento com os guerreiros de encantaria. O encantado \u00e9 aquele que dribla a morte e se coloca em disponibilidade para se alterar \u2013 esse \u00e9 o fen\u00f4meno da encantaria. Para ele, n\u00e3o existe a dicotomia entre a vida e a morte, o que basicamente existe \u00e9 a vida e a n\u00e3o vida, o encanto e o desencanto. Nesse sentido, uma pessoa que est\u00e1 viva, respirando, com batimentos card\u00edacos e pulsa\u00e7\u00e3o,&nbsp;pode estar sendo acossada pela n\u00e3o vida, pode estar num estado de mortandade. Por outro lado, nessa perspectiva, algu\u00e9m que de repente j\u00e1 morreu h\u00e1 350 anos pode estar viv\u00edssimo, baixando como caboclo num terreiro. A gente vive em um mundo que desencanta o tempo inteiro, que domestica os corpos e os disciplina na l\u00f3gica produtiva do tempo do trabalho. Quando falo, por exemplo, do transe, n\u00e3o o penso do ponto de vista da religi\u00e3o, mas em uma dimens\u00e3o de transitar para um outro lugar, voc\u00ea se colocar em disponibilidade para o canto, para a festa, para a alegria, para a transgress\u00e3o daquela condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel de domestica\u00e7\u00e3o do corpo como uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o incessante de mercadoria. Quando falo em terreiro, \u00e9 um espa\u00e7o praticado na dimens\u00e3o do encantamento do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como esse processo de \u201cterreiriza\u00e7\u00e3o\u201d se d\u00e1 na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pra\u00e7a que tem em frente \u00e0 minha casa pode ser terreirizada por uma crian\u00e7a que joga amarelinha, por um grupo que chega com um cavaquinho e um tantan e come\u00e7a a fazer uma roda de samba. O viaduto de Madureira \u00e9 um territ\u00f3rio funcional horroroso da cidade do Rio de Janeiro, constru\u00eddo para ligar um lado ao outro do bairro pelo carro. Mas debaixo dele as pessoas come\u00e7aram a perceber que havia espa\u00e7o para fazer um baile, uma roda de jongo. Voc\u00ea terreirizou aquilo, praticou aquilo na dimens\u00e3o do encantamento do mundo. Quando a gente fala da macumba, portanto, \u00e9 no sentido de que constr\u00f3i essa possibilidade de encantamento do mundo diante de experi\u00eancias constantes de desencanto, a partir da ideia de que os corpos, os espa\u00e7os, o ch\u00e3o podem ser praticados numa dimens\u00e3o diferente, e que n\u00e3o somos \u2013 n\u00e3o precisamos ser ou n\u00e3o dever\u00edamos ser \u2013 m\u00e1quinas adequadas a uma l\u00f3gica miser\u00e1vel de submiss\u00e3o \u00e0 mercadoria. A luta pelo encantamento do mundo tamb\u00e9m \u00e9 \u2013 e essa dimens\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 fundamental \u2013 a luta contra a preponder\u00e2ncia do capital. N\u00e3o adianta despolitizar essa luta, n\u00e3o adianta achar que vou me encantar se eu trabalhar que nem um miser\u00e1vel e tirar meia hora do meu dia, por exemplo, para meditar ou botar uma m\u00fasica e come\u00e7ar a dan\u00e7ar. A luta pelo encantamento do mundo tem que ser dimensionada politicamente a partir de um combate feroz \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o absoluta da vida, das cidades e dos corpos promovida pela l\u00f3gica do capital.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crises complexas que temos atravessado enquanto pa\u00eds e humanidade, como a da Covid-19 e a clim\u00e1tica, nos provam que n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es individuais ou elitizadas: ou a sa\u00edda \u00e9 coletiva, ou simplesmente n\u00e3o \u00e9. O que saberes n\u00e3o ocidentais historicamente marginalizados podem nos ensinar sobre isso? E como beber nessa fonte em tempos de negacionismo cient\u00edfico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00eddas individuais s\u00e3o apenas para, no m\u00e1ximo, aplacar nossa consci\u00eancia. Claro que acho que individualmente podemos fazer coisas, mas n\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que precisamos nos pensar como coletividade, que n\u00e3o faz sentido a nossa vida sem a coletividade. E a\u00ed, novamente, acho que a gente tem que mergulhar em algumas sabedorias n\u00e3o brancas vindas das florestas, das praias diversas etc, que pensam a dimens\u00e3o coletiva da vida. \u00c9 entender que esses saberes n\u00e3o operam na nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, muitas vezes operam numa complementaridade em rela\u00e7\u00e3o a ela. Acredito fielmente na ci\u00eancia da bot\u00e2nica, na heran\u00e7a de uma bot\u00e2nica europeia, acho fundamental, n\u00e3o nego, e percebo que essa bot\u00e2nica pode dialogar profundamente com o conhecimento das folhas trazido pelas sabedorias ancestrais ind\u00edgenas e por Ossain, o orix\u00e1 das folhas. Essa \u00e9 a encruzilhada fundamental para a gente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cBolsonaro \u00e9 uma experi\u00eancia de horror in\u00e9dita na hist\u00f3ria republicana porque traz toda a carga horrorosa do colonialismo brasileiro\u201d, afirma Simas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Chegamos ao quarto ano de governo Bolsonaro. Pode-se dizer que ele \u00e9 um representante tradicional do projeto colonial, como outros governantes que o Brasil j\u00e1 teve, ou tem algo de diferente nesse sentido?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao extremo do horror, ao extremo do pus. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que o horror \u00e9 a dimens\u00e3o do genoc\u00eddio, do exterm\u00ednio, de um Brasil mis\u00f3gino, homof\u00f3bico, extremamente violento, bo\u00e7al, que vem l\u00e1 dos bandeirantes, o Brasil dos feitores, visto do alpendre da casa grande. Esse Brasil est\u00e1 a\u00ed o tempo inteiro, \u00e0s vezes mais ou menos exposto. Me parece que Bolsonaro \u00e9 uma experi\u00eancia de horror in\u00e9dita na hist\u00f3ria republicana porque traz toda a carga horrorosa do colonialismo brasileiro, mas temperada pelos totalitarismos mais medonhos de extrema direita da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. Isso \u00e9 muito temperado pelos fascismos, pelo nazismo, por uma pol\u00edtica genocida fundamentada em doutrinas de supremacia racial. Bolsonaro consegue ser um caldeir\u00e3o de horrores impactante. Imagine o que \u00e9 misturar a viol\u00eancia do processo colonial do Brasil, o extremismo de direita do nazismo, o extremismo supremacista daquela direita medonha norte-americana, os radicalismos de extrema direita do leste europeu \u2013 ele consegue misturar tudo, \u00e9 um sarapatel de horrores. \u00c0s vezes voc\u00ea tem a colonialidade que se manifesta com o m\u00ednimo de civilidade, mas essa \u00e9 uma experi\u00eancia sem o m\u00ednimo de civilidade, \u00e9 simplesmente uma experi\u00eancia de horror.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As elei\u00e7\u00f5es deste ano representam a chance de nos contrapormos a esse projeto colonial e totalit\u00e1rio de Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 certo ponto at\u00edpica na hist\u00f3ria do Brasil porque \u00e9 marcada pela urg\u00eancia absoluta de derrotar o fascismo, ou pelo menos tentar derrot\u00e1-lo eleitoralmente. Minha impress\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 uma chance efetiva do Bolsonaro perder a elei\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o vai significar a derrota do bolsonarismo. S\u00e3o etapas e v\u00e1rias frentes de luta: a luta tem que estar na rua, no cotidiano, nas inst\u00e2ncias coletivas. A luta passa por uma etapa eleitoral evidentemente, n\u00e3o s\u00f3 na elei\u00e7\u00e3o presidencial, mas na do Congresso, que vai ter import\u00e2ncia t\u00e3o grande quanto. Mas o que acho fundamental entender \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 o processo eleitoral que derrotar\u00e1 o fascismo, o bolsonarismo. Podemos derrotar o Bolsonaro, o que j\u00e1 seria fundamental, mas a luta contra o extremismo fascista, a pol\u00edtica genocida e supremacista que o bolsonarismo de certa forma catalisou \u00e9 um processo que vai continuar e que vai exigir do Brasil um tempo longo at\u00e9 que a gente, quem sabe, consiga superar esse tipo de coisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel dizer que os governos do ex-presidente Lula \u2013 at\u00e9 o momento o grande advers\u00e1rio de Bolsonaro nas urnas \u2013 representaram, em certa medida, a aproxima\u00e7\u00e3o entre brasilidade e Brasil oficial?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fui um dos mais entusiasmados eleitores do Lula e nem me defino exatamente como lulista. Ressaltando todos os problemas dos seus governos, porque houve problemas \u2013 tamb\u00e9m n\u00e3o vamos dourar a p\u00edlula, tem Belo Monte, tem o que aconteceu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Olimp\u00edadas e Copa do Mundo, o que ocorreu com certos movimentos sociais que sofreram com esse processo \u2013, na circunst\u00e2ncia em que estamos, acho que a candidatura do Lula \u00e9 a mais vi\u00e1vel para derrotar o bolsonarismo. E h\u00e1 di\u00e1logo, a gente tem condi\u00e7\u00f5es, por exemplo, de criticar esse ponto ou aquele do governo do Lula, dizer que errou ali, que aquilo poderia ter sido diferente. Com o bolsonarismo n\u00e3o h\u00e1 a m\u00ednima possibilidade de di\u00e1logo, porque voc\u00ea n\u00e3o dialoga com nazismo ou o fascismo, isso a hist\u00f3ria prova. Vejo a candidatura do Lula, nessa circunst\u00e2ncia atual, como importante para derrotar o bolsonarismo e come\u00e7ar a tentar remover o entulho. O pr\u00f3ximo governo vai penar. N\u00e3o acredito em milagre, n\u00e3o espero de um poss\u00edvel governo Lula, quem sabe, que ele contemple todos os meus desejos. Neste momento, meu desejo \u00e9 tirar o Bolsonaro, mas a remo\u00e7\u00e3o do entulho vai ser custosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ag\u00eancia P\u00fablica &#8211; Luiz Antonio Simas \u00e9 refer\u00eancia quando o assunto \u00e9 carnaval e manifesta\u00e7\u00f5es da cultura popular brasileira. O historiador, professor e compositor carioca duas vezes ganhador do aclamado pr\u00eamio Jabuti, tem sido uma voz cr\u00edtica \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de grandes eventos privados de carnaval enquanto a festa p\u00fablica est\u00e1 impedida de tomar as ruas&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/02\/24\/luiz-simas-ataque-ao-carnaval-publico-gerou-o-fortalecimento-do-carnaval-privado\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-33327","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Fx","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33327"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33329,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33327\/revisions\/33329"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}