{"id":33437,"date":"2022-03-14T09:59:32","date_gmt":"2022-03-14T13:59:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33437"},"modified":"2022-03-14T10:00:03","modified_gmt":"2022-03-14T14:00:03","slug":"anais-da-tragedia-brasileira-a-metastase","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/03\/14\/anais-da-tragedia-brasileira-a-metastase\/","title":{"rendered":"Anais da trag\u00e9dia brasileira; A Met\u00e1stase"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1094\" height=\"590\" data-attachment-id=\"33438\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/03\/14\/anais-da-tragedia-brasileira-a-metastase\/27915fe8-b744-4057-aa31-0ad4d3358708\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?fit=1094%2C590\" data-orig-size=\"1094,590\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?fit=300%2C162\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?fit=600%2C323\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?fit=600%2C323\" alt=\"\" class=\"wp-image-33438\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?w=1094 1094w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?resize=300%2C162 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?resize=1024%2C552 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?resize=768%2C414 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/27915FE8-B744-4057-AA31-0AD4D3358708.jpeg?resize=556%2C300 556w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O assassinato de Marielle Franco e o avan\u00e7o das mil\u00edcias no Rio<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>Allan de Abreu<\/strong>, na Revista Piau\u00ed <\/p>\n\n\n\n<p><br>No primeiro semestre de 2001, o professor Marcelo Baumann Burgos reuniu 22 alunos do curso de ci\u00eancias sociais da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro para um estudo sociol\u00f3gico na favela Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade. Pesou na escolha da comunidade, al\u00e9m de seu tamanho \u2013 40 mil habitantes na \u00e9poca e 80 mil hoje \u2013, o fato de ser uma das poucas da capital fluminense sem narcotraficantes. Isso facilitava o trabalho dos pesquisadores e era motivo de elogios da parte de Burgos \u2013 o professor chegou a definir Rio das Pedras como \u201cum o\u00e1sis em meio \u00e0 barb\u00e1rie\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm uma cidade marcada pelo recrudescimento da viol\u00eancia urbana, [\u2026] morar em uma favela sem ter que conviver com a sombria presen\u00e7a de traficantes torna-se, compreensivelmente, raz\u00e3o suficiente para aumentar o apego do morador ao lugar\u201d, escreveu o soci\u00f3logo no livro que trouxe o resultado da pesquisa,&nbsp;<em>A Utopia da Comunidade: Rio das Pedras, uma Favela Carioca<\/em>, publicado em 2002. Quando fizeram o trabalho, nem Burgos nem seus alunos perceberam que aquela sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a derivava do poder exercido no local por uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o criminosa que surgia no Rio \u2013 os grupos paramilitares.<\/p>\n\n\n\n<p>A favela data de 1969, quando o ent\u00e3o governador do estado da Guanabara, Francisco Negr\u00e3o de Lima, decidiu desapropriar uma \u00e1rea \u00e0s margens do rio das Pedras para abrigar dez fam\u00edlias de migrantes do Nordeste amea\u00e7adas de expuls\u00e3o pelo dono da propriedade. A partir de ent\u00e3o, como costuma acontecer em v\u00e1rios lugares no tr\u00e1gico processo de urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a comunidade cresceu descontroladamente. Nos anos 80 a prefeitura delegou \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de moradores a tarefa de organizar a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Com isso, acabou fazendo dessa entidade privada uma extens\u00e3o do poder p\u00fablico, criando, segundo Burgos, \u201cuma autoridade paralela\u201d, personalista, \u201cque n\u00e3o foi constitu\u00edda para gerir bens p\u00fablicos para os cidad\u00e3os em geral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o passou a controlar Rio das Pedras com m\u00e3o de ferro. A fim de evitar a entrada do tr\u00e1fico na comunidade e manter a ordem, patrocinou nas d\u00e9cadas de 80 e 90 um grupo de justiceiros \u2013 no qual havia policiais \u2013 encarregado de expulsar ou, em certos casos, matar traficantes e usu\u00e1rios de drogas. Na virada para o s\u00e9culo XXI, esse grupo ganhou proemin\u00eancia na favela, o que n\u00e3o deixou de ser notado pelo soci\u00f3logo na pesquisa: \u201cComo estamos em territ\u00f3rio da cidade informal, o grau de arb\u00edtrio desse tipo de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 fracamente regulado pelo ordenamento jur\u00eddico, estando amplamente perme\u00e1vel a uma moralidade local, para a qual \u00e9 leg\u00edtima a m\u00e1xima \u2018aqui, s\u00f3 quem faz besteira some\u2019.\u201d Burgos tamb\u00e9m percebeu atividades econ\u00f4micas em expans\u00e3o em Rio das Pedras, como o transporte por vans e a tev\u00ea a cabo, na \u00e9poca com 5 mil \u201cassinantes\u201d, sem associ\u00e1-las, por\u00e9m, ao emergente neg\u00f3cio dos paramilitares, que j\u00e1 controlavam esses servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo modelo de organiza\u00e7\u00e3o criminosa, lucrativa, expandiu-se rapidamente para bairros pr\u00f3ximos de Rio das Pedras, tomando \u00e1reas do tr\u00e1fico de drogas. Formados por policiais e bombeiros, da ativa ou aposentados, esses grupos eram chamados inicialmente de \u201cpol\u00edcia mineira\u201d \u2013 a express\u00e3o tem origem na maneira truculenta com que policiais de Minas Gerais capturavam criminosos durante incurs\u00f5es pelo Rio nos anos 60 e 70. Durante um tempo, os paramilitares foram apontados como respons\u00e1veis pela autoprote\u00e7\u00e3o das comunidades e n\u00e3o faltaram pol\u00edticos que os tratassem com benevol\u00eancia. \u201cAs autodefesas comunit\u00e1rias s\u00e3o um problema menor, muito menor, do que o tr\u00e1fico\u201d, disse em 2006 o ent\u00e3o prefeito do Rio, C\u00e9sar Maia, que comparou os paramilitares cariocas \u00e0s Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia, grupo paramilitar que, entre 1997 e 2006, combateu a guerrilha das Farc e lucrou com o com\u00e9rcio de drogas. Os grupos do Rio, por\u00e9m, ao fincar ra\u00edzes, passaram a extorquir comerciantes e moradores, e rapidamente migraram para outras frentes econ\u00f4micas, como a grilagem de terras \u2013 a ocupa\u00e7\u00e3o irregular, mediante fraude e falsifica\u00e7\u00e3o de documentos. \u201cNo Rio h\u00e1 muitos t\u00edtulos de propriedade falsos, decorrentes de um sistema cartorial corrupto. Os paramilitares usam esse argumento para tirar os donos originais \u00e0 for\u00e7a\u201d, me disse a antrop\u00f3loga Alba Zaluar, que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas pesquisa o crime organizado no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>V<\/strong>era Ara\u00fajo trabalha h\u00e1 trinta anos como jornalista e se especializou na cobertura de temas relacionados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio. Em mar\u00e7o de 2005, numa reportagem que publicou no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, mostrou que onze grupos de paramilitares controlavam 42 favelas na capital, principalmente na Zona Oeste. Pela primeira vez, o termo \u201cmil\u00edcia\u201d foi utilizado para identificar esses agrupamentos de policiais e ex-policiais. A escolha se deu por um motivo prosaico, me disse a rep\u00f3rter: era uma palavra curta, mais f\u00e1cil de ser encaixada no t\u00edtulo de uma reportagem de jornal do que o termo \u201cparamilitares\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, os milicianos de Rio das Pedras eram comandados por F\u00e9lix dos Santos Tostes, inspetor da Pol\u00edcia Civil, que seria morto em fevereiro de 2007 em uma disputa pelo controle da associa\u00e7\u00e3o de moradores do bairro. No mesmo m\u00eas do assassinato, o ent\u00e3o deputado estadual Marcelo Freixo prop\u00f4s uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito para investigar as mil\u00edcias. \u201cEstava no terceiro dia de mandato e fui motivo de chacota\u201d, recordou o parlamentar do PSOL quando o encontrei numa tarde de fevereiro em seu apartamento na Zona Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois da proposta de Freixo, em 2008, a not\u00edcia de que uma rep\u00f3rter, um fot\u00f3grafo e um motorista do jornal&nbsp;<em>O Dia<\/em>&nbsp;haviam sido torturados por milicianos na favela do Batan, em Realengo, reacendeu o tema. Pressionados, os deputados da Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, aprovaram por maioria a instala\u00e7\u00e3o da CPI, presidida por Freixo. Durante cinco meses, a comiss\u00e3o ouviu 47 pessoas, incluindo o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, que havia substitu\u00eddo F\u00e9lix Tostes como chefe da mil\u00edcia de Rio das Pedras e era suspeito de ser o mandante do assassinato do inspetor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em depoimento sigiloso, Nadinho decidiu contribuir com a CPI e delatar outros onze milicianos que agiam na comunidade de Rio das Pedras. Pagaria caro por isso: foi morto com dez tiros um ano depois, em 2009. A CPI indiciou 226 pessoas, das quais 25 seriam assassinadas nos dez anos seguintes. Desde ent\u00e3o, Freixo, que foi amea\u00e7ado de morte por grupos paramilitares, vive sob escolta policial. \u201cA mil\u00edcia n\u00e3o \u00e9 o estado paralelo, \u00e9 o estado leiloado, porque transforma o dom\u00ednio territorial em dom\u00ednio eleitoral. Por isso elege representantes e dialoga com o poder\u201d, define o deputado do PSOL, hoje com 51 anos. As mil\u00edcias n\u00e3o pararam de crescer na cidade. Atualmente, est\u00e3o presentes em 88 das 1 018 comunidades do Rio, de acordo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico. Em v\u00e1rios lugares, transformaram-se em narcomil\u00edcias e passaram a disputar o controle do tr\u00e1fico de drogas com o crime organizado que supostamente combatiam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M<\/strong>arielle Franco esteve com Marcelo Freixo na investiga\u00e7\u00e3o parlamentar contra os milicianos. Por nove anos, entre 2007 e 2016, a jovem negra criada no Complexo da Mar\u00e9 \u2013 um conjunto de dezesseis favelas onde moram 130 mil pessoas, na Zona Norte \u2013 foi assessora de Freixo. Ao mesmo tempo que cursava ci\u00eancias sociais na PUC-Rio, ela coordenava na Assembleia Legislativa a Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, presidida pelo deputado. Em 2016, Marielle decidiu concorrer pela primeira vez a um cargo p\u00fablico. Candidatou-se a vereadora pelo PSOL e obteve a quinta maior vota\u00e7\u00e3o na cidade \u2013 46 mil votos, a maior parte deles oriundos da Zona Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu mandato foi marcado pela defesa das mulheres, dos negros e das minorias, e tamb\u00e9m por duras cr\u00edticas \u00e0 viol\u00eancia policial. \u201cMais um homic\u00eddio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. [\u2026] Quantos mais v\u00e3o precisar morrer para que essa guerra acabe?\u201d, escreveu Marielle no Twitter em 13 de mar\u00e7o do ano passado, a respeito da morte de um rapaz na favela do Jacarezinho. Na noite do dia seguinte, ela pr\u00f3pria seria assassinada no Centro do Rio, aos 38 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>rel\u00f3gio no painel do carro marcava 21h14. Fazia menos de dez minutos que Marielle, a sua assessora, Fernanda Chaves, e o motorista Anderson Gomes haviam deixado a Casa das Pretas, na rua dos Inv\u00e1lidos, no Centro da cidade, depois do debate \u201cJovens Negras Movendo as Estruturas\u201d, organizado pelo PSOL. \u201cN\u00e3o sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas\u201d, disse Marielle no encontro, citando a escritora norte-americana Audre Lorde \u2013 negra, feminista e gay, como a vereadora. \u201cVamos que vamos, vamos juntas ocupar tudo\u201d, concluiu diante do p\u00fablico de pouco mais de vinte mulheres. Foi aplaudida, abriu o sorriso grande que lhe era caracter\u00edstico e levantou-se, ajeitando a saia com estampas florais e a blusa azul-marinho de al\u00e7as finas. Na sa\u00edda, uma amiga a convidou para ir a um bar na Lapa. Marielle disse estar cansada e preferiu ir para casa, na Tijuca. Habitualmente, ela embarcava ao lado do motorista, mas naquele dia sentou-se atr\u00e1s, ao lado da assessora, a bordo de um Agile branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum dos tr\u00eas percebeu, mas, assim que o Agile deixou a rua dos Inv\u00e1lidos, foi seguido por um Chevrolet Cobalt prata \u2013 o ve\u00edculo com placas clonadas estava no local desde as sete da noite, quando Marielle chegou \u00e0 Casa das Pretas para o debate. No banco traseiro do Cobalt, um homem segurava uma submetralhadora alem\u00e3 HK MP5, calibre 9 mil\u00edmetros, conhecida pela precis\u00e3o de seus disparos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, \u00e0s 21h20, o carro com a vereadora dobrou a esquina das ruas Joaquim Palhares e Jo\u00e3o Paulo I, no bairro do Est\u00e1cio, ainda no Centro, o Cobalt emparelhou com o Agile a uma dist\u00e2ncia de 2 metros. Do vidro aberto do carro prata, a HK disparou treze tiros entre a porta direita traseira e o fim da lateral do Agile, exatamente no local onde estava Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p>Atingida por quatro balas no lado direito da cabe\u00e7a \u2013 duas pr\u00f3ximas \u00e0 orelha, uma perto do olho direito e uma rente \u00e0 boca \u2013, a vereadora morreu instantaneamente. O motorista Anderson Gomes, que estava na linha de tiro, foi atingido por tr\u00eas balas nas costas. Soltou um gemido e largou as m\u00e3os do volante. Fernanda Chaves, a \u00fanica a n\u00e3o ser atingida, abaixou-se rapidamente e puxou o freio de m\u00e3o do ve\u00edculo. Marielle estava com o corpo seguro pelo cinto de seguran\u00e7a, a cabe\u00e7a ca\u00edda para a frente, o sangue escorrendo pela nuca. Havia onze c\u00e2meras p\u00fablicas de v\u00eddeo no trajeto feito pelo carro. Misteriosamente, cinco tinham sido desligadas, um ou dois dias antes dos assassinatos \u2013 uma delas, a poucos metros da cena do crime, n\u00e3o grava imagens e serve apenas para contar os ve\u00edculos que passam pela via.<\/p>\n\n\n\n<p>As mortes de Marielle e de Anderson indignaram os cariocas e o pa\u00eds. Na tarde do dia 15, cerca de 50 mil pessoas se aglomeraram em frente \u00e0 C\u00e2mara Municipal para o vel\u00f3rio, num ato que misturava dor e protesto. Houve manifesta\u00e7\u00f5es populares em dezessete estados naquela noite. O crime foi destaque na imprensa internacional, ganhando as p\u00e1ginas dos jornais The&nbsp;<em>New York Times<\/em>,&nbsp;<em>The Washington Post<\/em>,&nbsp;<em>The Guardian<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Clar\u00edn<\/em>, entre outros. \u201cO Estado, atrav\u00e9s dos diversos \u00f3rg\u00e3os competentes, deve garantir uma investiga\u00e7\u00e3o imediata e rigorosa\u201d, cobrou a Anistia Internacional. \u201cN\u00e3o podem restar d\u00favidas a respeito do contexto, motiva\u00e7\u00e3o e autoria do assassinato de Marielle Franco.\u201d Dois dias ap\u00f3s o crime, a assessora Fernanda Chaves deixou o Rio de Janeiro \u00e0s pressas e, em seguida, foi com a fam\u00edlia para a Espanha. S\u00f3 retornou ao Brasil quatro meses depois, em julho do ano passado. Mesmo assim, por seguran\u00e7a, permanece fora do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Freixo, que sempre manteve uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com a vereadora, afirma que ela n\u00e3o recebeu nenhuma amea\u00e7a de morte, inclusive naqueles dias que precederam o assassinato. \u201cToda semana, religiosamente, eu tomava um caf\u00e9 com a Marielle. Na ter\u00e7a-feira, 13 de mar\u00e7o, v\u00e9spera do crime, no fim do dia, eu falei com ela pelo telefone e combinamos de ir \u00e0 Mar\u00e9 no s\u00e1bado seguinte. Ela estava tranquil\u00edssima. N\u00e3o tinha a menor ideia de que sua vida corria risco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A seguran\u00e7a p\u00fablica do Rio de Janeiro estava sob interven\u00e7\u00e3o federal, decretada pelo ent\u00e3o presidente Michel Temer em fevereiro, um m\u00eas antes da morte de Marielle. Nos dias seguintes ao assassinato, procuradores chegaram a aventar a hip\u00f3tese de que o atentado fora um recado aos militares que comandavam a interven\u00e7\u00e3o. Logo, no entanto, essa hip\u00f3tese perdeu for\u00e7a. Quando o Ex\u00e9rcito saiu do Rio, em dezembro \u00faltimo, foi descartada. Ficou cada vez mais evidente que o crime era obra de milicianos \u2013 e quanto a isso n\u00e3o h\u00e1 mais d\u00favidas. A guerra de vers\u00f5es que se trava em torno do caso h\u00e1 doze meses envolve disputas entre mil\u00edcias e seus respectivos padrinhos na pol\u00edtica carioca. Envolve ainda disputas surdas entre a Pol\u00edcia Civil, de um lado, e a Pol\u00edcia Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico, de outro. Envolve, por fim, diverg\u00eancias entre jornalistas, sobretudo no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>D<\/strong>epois de viver uma d\u00e9cada no Rio de Janeiro, o delegado Giniton Lages, 44 anos, praticamente perdeu o sotaque caipira. Paulista de Ja\u00fa, ele se formou em direito no interior de S\u00e3o Paulo. Seu sonho era ser promotor de Justi\u00e7a. Durante cinco anos prestou concursos p\u00fablicos para a carreira, sem sucesso. Decidiu ent\u00e3o tentar uma vaga de delegado na Pol\u00edcia Civil. Passou em concursos da corpora\u00e7\u00e3o em Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Escolheu o \u00faltimo estado. Em 2008, assumiu o distrito policial de Japeri, na Baixada Fluminense, e de l\u00e1 foi para a vizinha Belford Roxo. Em 2010, chegou \u00e0 Delegacia de Homic\u00eddios (DH) da Baixada, onde atuou por oito anos. Em 17 de mar\u00e7o do ano passado, tr\u00eas dias ap\u00f3s a morte de Marielle, Lages assumiu a chefia da DH na capital, com a miss\u00e3o de elucidar o crime. A Delegacia de Homic\u00eddios conta com 10 delegados, 22 peritos, 206 agentes e 48 carros. De cada dez assassinatos ocorridos na capital, esclarece dois, me disse Lages \u2013 duas vezes mais do que a m\u00e9dia no estado do Rio, conforme pesquisa do Monitor da Viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSem d\u00favida o caso Marielle \u00e9 o maior desafio da minha carreira\u201d, afirmou Lages na sede da DH, em \u00e1rea residencial da Barra da Tijuca, na tarde de 8 de fevereiro, sexta-feira. De olhos vincados e cabelos bem curtos, exibia no peito o t\u00edpico distintivo dos delegados fluminenses, preso por um cord\u00e3o no pesco\u00e7o. A sala ampla onde ele despacha contrasta com o espa\u00e7o ex\u00edguo em que trabalham outros delegados e escriv\u00e3es. Na mesa em formato de \u201cL\u201d repousavam dezesseis dos mais de vinte volumes do inqu\u00e9rito&nbsp;<a href=\"tel:901-00385\">901-00385<\/a>\/2018, que apura o duplo homic\u00eddio. Lages mant\u00e9m os documentos sob diligente sigilo. \u201cNenhum advogado teve acesso. Qualquer publicidade sobre as investiga\u00e7\u00f5es pode p\u00f4r todo o nosso trabalho a perder\u201d, justificou.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversei com tr\u00eas pessoas que tiveram acesso ao inqu\u00e9rito. Os pap\u00e9is, segundo elas, revelam que faltou foco na a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nas primeiras semanas de apura\u00e7\u00e3o. Lages solicitou \u00e0 Pol\u00edcia Militar toda a rela\u00e7\u00e3o de policiais lotados no 41\u00ba Batalh\u00e3o, em Acari, Zona Norte, o recordista no estado em mortes provocadas por policiais \u2013 quatro dias antes de morrer, Marielle fez a seguinte cr\u00edtica no Twitter: \u201cO que est\u00e1 acontecendo agora em Acari \u00e9 um absurdo! E acontece desde sempre! O 41\u00b0 batalh\u00e3o da PM \u00e9 conhecido como Batalh\u00e3o da morte. CHEGA de esculachar a popula\u00e7\u00e3o! CHEGA de matarem nossos jovens!\u201d No entanto, nenhum policial daquele destacamento foi formalmente ouvido pela Delegacia de Homic\u00eddios. O delegado tamb\u00e9m convocou todos os propriet\u00e1rios de autom\u00f3veis Cobalt de cor prata na capital a apresentarem seus ve\u00edculos \u00e0 pol\u00edcia \u2013 s\u00e3o 7 375 apenas na capital, segundo o Departamento de Tr\u00e2nsito. Lages afirmou que foi feita vistoria em todos eles. O ve\u00edculo utilizado no crime, por\u00e9m, nunca foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de 21 de mar\u00e7o, quarta-feira, a jornalista Vera Ara\u00fajo, d\u2019<em>O Globo<\/em>, decidiu ir at\u00e9 o cruzamento das ruas Joaquim Palhares e Jo\u00e3o Paulo I, onde tinha ocorrido o crime uma semana antes. Seu objetivo era localizar algu\u00e9m que habitualmente passasse por aquele local sempre \u00e0s quartas-feiras, entre nove e nove e meia da noite. Foi assim que ela encontrou duas testemunhas, que n\u00e3o tinham sido ouvidas pela pol\u00edcia. Uma delas era um morador de rua, que presenciou o crime a uma dist\u00e2ncia de apenas 10 metros. \u201cFoi tudo muito r\u00e1pido. O carro dela [<em>Marielle<\/em>] quase subiu na cal\u00e7ada. O ve\u00edculo do assassino imprensou o carro branco [<em>onde estava a vereadora<\/em>]. O homem que deu os tiros estava sentado no banco de tr\u00e1s e era negro. Eu vi o bra\u00e7o dele quando apontou a arma, que parecia ter silenciador\u201d, disse o homem \u2013 para proteg\u00ea-lo de uma poss\u00edvel retalia\u00e7\u00e3o, a jornalista n\u00e3o o identificou na reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher tamb\u00e9m viu a cena, embora de uma dist\u00e2ncia maior. Tanto ela quanto o morador de rua contaram \u00e0 rep\u00f3rter que PMs do 4\u00ba Batalh\u00e3o, em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, chegaram minutos ap\u00f3s o crime e pediram para que todos se afastassem do local, sem se interessar por poss\u00edveis testemunhas. Antes de publicar a reportagem, Ara\u00fajo telefonou para o ent\u00e3o chefe da Pol\u00edcia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa. \u201cEle nem deu bola. Depois que publicamos a hist\u00f3ria, ficou irritado, dizendo que eu expus aquelas pessoas.\u201d A mulher encontrada por Ara\u00fajo s\u00f3 foi ouvida duas semanas depois pela pol\u00edcia, que n\u00e3o conseguiu localizar o morador de rua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>o dia seguinte ao crime, 15 de mar\u00e7o, o ent\u00e3o ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann, e a procuradora-geral da Rep\u00fablica, Raquel Dodge, desembarcaram no Rio. A dupla se reuniu \u00e0 tarde na Cidade da Pol\u00edcia, no bairro do Jacar\u00e9, Zona Norte, com Rivaldo Barbosa, o general do Ex\u00e9rcito Walter Souza Braga Netto, na \u00e9poca interventor na seguran\u00e7a p\u00fablica do estado, e o procurador-geral de Justi\u00e7a no Rio, Jos\u00e9 Eduardo Gussem. Na reuni\u00e3o, Dodge anunciou que iria instaurar uma apura\u00e7\u00e3o preliminar do caso no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF). Embasaria assim um poss\u00edvel pedido ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a para que a investiga\u00e7\u00e3o fosse feita pela Pol\u00edcia Federal e pelo MPF, e n\u00e3o mais pelas autoridades fluminenses. Uma emenda de 2004 \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Federal prev\u00ea a federaliza\u00e7\u00e3o na investiga\u00e7\u00e3o de crimes quando h\u00e1 \u201cgraves viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos\u201d e se constata a incapacidade das for\u00e7as de seguran\u00e7a estaduais para elucidar o delito. \u201cCertamente a participa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal \u00e9 importante nesse epis\u00f3dio\u201d, disse Raquel Dodge em entrevista coletiva, ap\u00f3s a reuni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele mesmo dia, ela nomeou cinco procuradores do MPF do Rio para \u201cacompanhar todos os atos referentes \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es\u201d das mortes de Marielle e Anderson, com o objetivo de instruir o pedido de federaliza\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es ao STJ. O grupo de procuradores, entretanto, s\u00f3 teve tempo de solicitar \u00e0 Pol\u00edcia Civil informa\u00e7\u00f5es sobre a estrutura da Divis\u00e3o de Homic\u00eddios do Rio. Em 21 de mar\u00e7o, o procurador-geral Gussem ingressou com um pedido no Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico para que a apura\u00e7\u00e3o dos procuradores federais fosse suspensa. \u201cO Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro v\u00ea-se surpreendido por uma incompreens\u00edvel, desproporcional e prematura viol\u00eancia institucional\u201d, argumentou.<\/p>\n\n\n\n<p>O coordenador do grupo nomeado por Dodge, procurador Marcelo de Figueiredo Freire, rebateu: \u201cEsclare\u00e7o que n\u00e3o houve nenhuma usurpa\u00e7\u00e3o da atividade conferida ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual. N\u00e3o houve investiga\u00e7\u00e3o \u2018paralela\u2019 dos fatos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 3 de abril, foi concedida uma liminar proibindo a atua\u00e7\u00e3o dos procuradores federais no caso at\u00e9 o julgamento do pedido de Gussem. Em 21 de maio, antes que o caso fosse julgado, Dodge revogou a portaria que designava os cinco procuradores, desistindo de levar adiante a federaliza\u00e7\u00e3o das apura\u00e7\u00f5es. Recuou, mas n\u00e3o abandonou o caso \u2013procuradores do MPF no Rio seguiram enviando a ela relat\u00f3rios detalhados sobre o andamento das investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>U<\/strong>m m\u00eas ap\u00f3s os assassinatos, o rep\u00f3rter Ant\u00f4nio Werneck recebeu na reda\u00e7\u00e3o do jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>&nbsp;o telefonema de uma pessoa que disse haver um grande \u201cfuro\u201d \u00e0 espera dele na Superintend\u00eancia da Pol\u00edcia Federal do Rio. Werneck \u2013 que trabalha no jornal h\u00e1 29 anos \u2013 especializou-se, como Vera Ara\u00fajo, em investiga\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica. Quando o jornalista chegou \u00e0 PF, encontrou tr\u00eas delegados federais: H\u00e9lio Khristian Cunha de Almeida, conhecido como HK, Lorenzo Martins Pomp\u00edlio da Hora e Fel\u00edcio Later\u00e7a. HK n\u00e3o tem curr\u00edculo que se possa admirar: em 2002, quando trabalhava em Bel\u00e9m, capital do Par\u00e1, foi denunciado pelo MPF por corrup\u00e7\u00e3o passiva ao aceitar passagem a\u00e9rea de um empres\u00e1rio investigado por corrup\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria PF. Quatro anos depois, j\u00e1 no Rio, HK foi novamente denunciado \u00e0 Justi\u00e7a por concuss\u00e3o (extors\u00e3o de dinheiro praticada por funcion\u00e1rio p\u00fablico), ao supostamente forjar um inqu\u00e9rito por crime previdenci\u00e1rio contra um empres\u00e1rio carioca e exigir dele 5 milh\u00f5es de reais para arquivar a investiga\u00e7\u00e3o. O delegado foi absolvido em primeira inst\u00e2ncia, os procuradores recorreram e o TRF da 2\u00aa Regi\u00e3o o condenou a dois anos e meio de pris\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o passiva. Como o crime pelo qual foi condenado (corrup\u00e7\u00e3o) difere daquele pelo qual fora denunciado pelos procuradores (concuss\u00e3o), HK conseguiu anular a decis\u00e3o. Ainda n\u00e3o h\u00e1 data para um novo julgamento \u2013 a defesa do delegado garante que vai provar sua inoc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A trinca de delegados apresentou o rep\u00f3rter Werneck ao sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira, que estava ali para fazer uma revela\u00e7\u00e3o. Suspeito ele mesmo de ser um miliciano, Ferreira acusava duas pessoas de terem tramado o assassinato de Marielle: o vereador Marcello Siciliano, do PHS, e o ex-policial militar Orlando Oliveira de Ara\u00fajo, que estava preso desde outubro de 2017, acusado de comandar uma mil\u00edcia no bairro de Curicica, na Zona Oeste \u2013 da\u00ed, seu apelido: Orlando de Curicica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os neg\u00f3cios de Siciliano come\u00e7aram no final dos anos 90, com a compra e venda de carros. Depois, ele passou a investir no mercado imobili\u00e1rio em Vargem Grande e em terraplanagem no vizinho, Jacarepagu\u00e1. Abriu uma boate na Barra e mergulhou na pol\u00edtica: depois de duas candidaturas malsucedidas, conseguiu se eleger vereador em 2016 com 13,5 mil votos \u2013 menos de um ter\u00e7o dos conquistados por Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 fortes ind\u00edcios do envolvimento do vereador com paramilitares \u2013 em escutas telef\u00f4nicas autorizadas pela Justi\u00e7a em outro inqu\u00e9rito da Pol\u00edcia Civil, ele conversa com um miliciano e se despede com um \u201cte amo, irm\u00e3o\u201d. Uma investiga\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico constatou que o nome de Siciliano aparece em mais de oitenta transa\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias em \u00e1reas dominadas por paramilitares. Uma dessas \u00e1reas \u00e9 Vargem Grande, onde assessores de Marielle participaram, em janeiro de 2018, de uma reuni\u00e3o na associa\u00e7\u00e3o de moradores de Novo Palmares, comunidade encravada no bairro, para discutir programas de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. O objetivo seria combater a grilagem de terras praticada pela mil\u00edcia no local.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dos delegados e de Werneck, o sargento Ferreira relatou que Orlando de Curicica era uma esp\u00e9cie de capataz de Siciliano e ajudava o vereador na grilagem de terras na Zona Oeste. Por causa das a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias de Marielle na regi\u00e3o, Siciliano teria ficado irritado com a vereadora. \u201cEla peitava o miliciano e o vereador. Os dois [<em>Orlando e Marielle<\/em>] chegaram a travar uma briga por meio de associa\u00e7\u00f5es de moradores da Cidade de Deus e da Vila Sap\u00ea\u201d, afirmou Ferreira. A favela Vila Sap\u00ea fica entre os bairros Curicica e Cidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferreira disse ainda ter ouvido os dois tramarem a morte de Marielle em um restaurante da Zona Oeste, em junho de 2017. \u201cEu estava numa mesa, a uma dist\u00e2ncia de pouco mais de 1 metro dos dois. Eles estavam sentados numa mesa ao lado. O vereador falou alto: \u2018Tem que ver a situa\u00e7\u00e3o da Marielle. A mulher est\u00e1 me atrapalhando.\u2019 Depois, bateu forte com a m\u00e3o na mesa e gritou: \u2018Marielle, piranha do Freixo.\u2019\u201d Um m\u00eas antes do atentado \u2013 contou o sargento \u2013, Orlando de Curicica, mesmo preso na penitenci\u00e1ria de Bangu 9, acusado de doze homic\u00eddios, transmitiu a ordem para que o plano de matar a vereadora fosse colocado em pr\u00e1tica por seus subordinados.<\/p>\n\n\n\n<p>Werneck gravou toda a conversa com o PM Ferreira, mas disse que s\u00f3 publicaria o relato se a testemunha formalizasse o depoimento aos tr\u00eas delegados, o que foi feito. A chefia de reda\u00e7\u00e3o do jornal, no entanto, preferiu aguardar o depoimento do policial aos delegados da Delegacia de Homic\u00eddios, o que ocorreria dias depois. Foram seis oitivas em tr\u00eas semanas, realizadas no C\u00edrculo Militar da Praia Vermelha, na Urca, para evitar a imprensa, que se aglomerava diariamente em frente \u00e0 sede da delegacia, na Barra da Tijuca, atr\u00e1s de novidades no caso. Na quarta-feira, 9 de maio, a reportagem de Werneck foi manchete d\u2019<em>O Globo<\/em>: \u201cDelator envolve vereador no assassinato de Marielle.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daquele dia, Siciliano e Orlando da Curicica passaram a ser tratados como os principais suspeitos pelos assassinatos. O vereador deu dois longos depoimentos ao delegado Giniton Lages, sempre rebatendo o relato da testemunha. Siciliano n\u00e3o demorou a enxergar naquele enredo as digitais da fam\u00edlia Braz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>s irm\u00e3os Domingos e Chiquinho Braz\u00e3o s\u00e3o velhos conhecidos da pol\u00edtica carioca. Domingos, 54 anos, \u00e9 o segundo mais novo dos seis filhos de um casal de portugueses radicados em Jacarepagu\u00e1. Ele foi o primeiro da fam\u00edlia Braz\u00e3o a se aventurar nas urnas, em 1996, quando conseguiu uma cadeira de vereador. Dois anos mais tarde, elegeu-se deputado estadual pelo PMDB, fun\u00e7\u00e3o que exerceu por dezessete anos. Nesse per\u00edodo, Domingos acumulou um patrim\u00f4nio declarado de 14,5 milh\u00f5es de reais, em valores corrigidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dono de uma rede de postos de combust\u00edveis em sociedade com os irm\u00e3os, o deputado foi investigado na Pol\u00edcia Federal por um suposto envolvimento em um esquema de adultera\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis e sonega\u00e7\u00e3o fiscal, mas, por falta de provas, n\u00e3o chegou a ser denunciado \u00e0 Justi\u00e7a. Em 2015, um ano ap\u00f3s ser reeleito pela quarta vez consecutiva, tornou-se conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, onde ficou at\u00e9 mar\u00e7o de 2017, quando ele e mais quatro conselheiros foram presos pela Lava Jato fluminense na Opera\u00e7\u00e3o Quinto do Ouro, acusados de corrup\u00e7\u00e3o. Todos acabaram soltos nove dias depois, mas permanecem afastados do TCE.<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o mais velho, Jo\u00e3o Francisco In\u00e1cio Braz\u00e3o, o Chiquinho, 57 anos, tamb\u00e9m foi eleito vereador em sua primeira disputa eleitoral, em 2012, embalado pela carreira pol\u00edtica de Domingos. No pleito seguinte, foi reeleito.<\/p>\n\n\n\n<p>Os currais eleitorais dos irm\u00e3os Braz\u00e3o e de Siciliano espalham-se pela mesma regi\u00e3o do Rio, os bairros da Zona Oeste situados entre o Parque Nacional da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca: Tanque, Taquara, Pechincha, Curicica, Freguesia, Anil, Gard\u00eania Azul, Itanhang\u00e1, Rio das Pedras, Vargem Grande, Vargem Pequena, Pra\u00e7a Seca e Recreio dos Bandeirantes. Juntos, esses locais, todos com maior ou menor presen\u00e7a de milicianos, somam 527 mil eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Domingos Braz\u00e3o costumava fazer campanha em Rio das Pedras, como afirmou o vereador Nadinho na CPI das Mil\u00edcias, em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de abril do ano passado, antes da publica\u00e7\u00e3o da reportagem de Ant\u00f4nio Werneck, Chiquinho e Domingos convidaram Marcello Siciliano para um almo\u00e7o no Terra\u00e7o Restaurante, no Centro do Rio. Conforme relato de Siciliano sobre a conversa, Domingos lhe disse que Chiquinho iria se candidatar a deputado federal nas elei\u00e7\u00f5es de outubro. Como sabia que o rival tamb\u00e9m planejava sua candidatura, foi direto ao ponto: \u201cMarcello, vou te pedir um favor. N\u00e3o me atrapalha, porque precisamos ganhar essa elei\u00e7\u00e3o.\u201d Dois interlocutores de Siciliano confirmaram o di\u00e1logo \u00e0&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>. Chiquinho n\u00e3o quis se pronunciar sobre o epis\u00f3dio. \u00c0 pol\u00edcia, Domingos negou ter desaven\u00e7as pol\u00edticas com o rival da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Acuado pelo caso Marielle, depois das acusa\u00e7\u00f5es veiculadas em maio, Marcello Siciliano desistiu de disputar as elei\u00e7\u00f5es de 2018. Chiquinho se elegeu deputado federal pelo Avante \u2013 em todas as quinze se\u00e7\u00f5es eleitorais da favela de Rio das Pedras ele foi o campe\u00e3o de votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia mais raz\u00f5es para suspeitar que os irm\u00e3os Braz\u00e3o tinham alguma influ\u00eancia sobre o depoimento do sargento Ferreira ao jornalista Werneck. O trio de delegados, antes de encaminhar Ferreira \u00e0 Delegacia de Homic\u00eddios, convidou o rep\u00f3rter para ouvir o relato nas instala\u00e7\u00f5es da Superintend\u00eancia da Pol\u00edcia Federal, e o pr\u00f3prio superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi, ignorava a presen\u00e7a da testemunha ali. Al\u00e9m disso, HK, um dos tr\u00eas delegados envolvidos na hist\u00f3ria, era um bom amigo de Domingos Braz\u00e3o e, na \u00e9poca da dela\u00e7\u00e3o, investigava Siciliano por irregularidades fiscais na boate do vereador na Barra. \u201cFoi um depoimento feito para vazar para a imprensa. Teve outro objetivo que n\u00e3o a investiga\u00e7\u00e3o\u201d, me disse Marcelo Freixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Policiais federais que apuram o caso suspeitam que o delator tenha sido levado at\u00e9 o trio de delegados por Gilberto Ribeiro da Costa, um policial federal aposentado muito pr\u00f3ximo de HK e Lorenzo Pomp\u00edlio da Hora e que tamb\u00e9m foi assessor de Domingos Braz\u00e3o no Tribunal de Contas do Estado. Costa nega ter participa\u00e7\u00e3o no epis\u00f3dio: \u201cIsso \u00e9 um devaneio, uma hist\u00f3ria fantasiosa. J\u00e1 prestei depoimento na DH, tudo foi esclarecido.\u201d A advogada de Ferreira, Camila Moreira Lima Nogueira, afirmou ter sido ela a respons\u00e1vel por levar seu cliente at\u00e9 a PF: \u201cEu n\u00e3o tinha acesso a ningu\u00e9m da Pol\u00edcia Civil [\u2026] Na PF, tamb\u00e9m n\u00e3o tinha. Eu fui at\u00e9 l\u00e1 porque tinha um cliente que conhecia os delegados\u201d, me disse por telefone.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M<\/strong>enos de uma semana depois da publica\u00e7\u00e3o da reportagem de Werneck com acusa\u00e7\u00f5es do sargento Ferreira contra Siciliano e Orlando de Curicica, o delegado Giniton Lages foi ouvir esse \u00faltimo em Bangu 9. Curicica admitiu ter se encontrado com Siciliano em um restaurante da Zona Oeste, mas disse que se limitou a cumprimentar o vereador. Tamb\u00e9m negou ter participado das mortes de Marielle. No dia seguinte, o advogado de Curicica convocou a imprensa para apresentar uma carta escrita pelo cliente. No documento, o miliciano identifica nominalmente o PM que o delatou \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o, os jornais vinham omitindo a identidade dele \u2013 e o ataca. \u201cN\u00e3o tenho qualquer envolvimento nesse crime b\u00e1rbaro\u201d, escreveu. \u201cO policial Rodrigo Ferreira n\u00e3o tem qualquer credibilidade, haja vista o mesmo chefiar as mil\u00edcias do Morro do Banco [<em>em Itanhang\u00e1, Zona Oeste<\/em>] em conjunto com o tr\u00e1fico de drogas da regi\u00e3o.\u201d A not\u00edcia sobre a carta, divulgada inicialmente pelo jornal&nbsp;<em>O Dia<\/em>, teve pouco destaque na edi\u00e7\u00e3o impressa d\u2019<em>O Globo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizendo-se amea\u00e7ado de morte no pres\u00eddio, Curicica conseguiu ser transferido em 9 de maio para a penitenci\u00e1ria de Bangu 1, de seguran\u00e7a m\u00e1xima. Quarenta dias depois foi transferido novamente \u2013 dessa vez para o pres\u00eddio federal de Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, tamb\u00e9m de seguran\u00e7a m\u00e1xima. Em julho, a Pol\u00edcia Civil prendeu dois policiais militares suspeitos de integrar a mil\u00edcia de Orlando de Curicica; um deles teria participa\u00e7\u00e3o nos assassinatos de Marielle e de Anderson. O cerco ao miliciano se fechava cada vez mais. Acuado, ele decidiu contra-atacar.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de agosto de 2018, Curicica pediu ao juiz Walter Nunes da Silva J\u00fanior, corregedor do pres\u00eddio federal em Mossor\u00f3, que o pusesse em contato com um procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. Queria falar o que sabia. Por orienta\u00e7\u00e3o do juiz, o advogado de Curicica formalizou o pedido, e Silva J\u00fanior encaminhou o documento \u00e0 procuradora Caroline Maciel, coordenadora do grupo de direitos do cidad\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Norte. O depoimento de Curicica a Maciel durou mais de uma hora. O conte\u00fado era explosivo, mas n\u00e3o veio a p\u00fablico naquele momento. Ao retornar de Mossor\u00f3, a procuradora transcreveu as palavras do miliciano em um documento e o encaminhou, em sigilo, para a procuradora-geral da Rep\u00fablica, Raquel Dodge.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dias antes, em 19 de agosto,&nbsp;<em>O Globo<\/em>publicou uma reportagem n\u00e3o assinada que tratava de uma poss\u00edvel liga\u00e7\u00e3o entre a morte de Marielle e um grupo de matadores de aluguel formado por milicianos, chamado Escrit\u00f3rio do Crime. Pela primeira vez, o grupo era vinculado ao caso. Era uma reviravolta nas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem dizia que o Escrit\u00f3rio do Crime \u00e9 suspeito de praticar assassinatos por valores que variam entre 200 mil reais e 1 milh\u00e3o de reais, conforme o perfil da v\u00edtima e a complexidade da a\u00e7\u00e3o. A fama da gangue viria do fato de n\u00e3o deixar rastros de seus crimes. Uma de suas bases territoriais \u00e9 justamente a regi\u00e3o de Rio das Pedras, por onde passou o Cobalt prata com os matadores da vereadora do PSOL. O grupo de sic\u00e1rios se formou no in\u00edcio deste s\u00e9culo com a fun\u00e7\u00e3o de proteger os bicheiros na violenta disputa por territ\u00f3rios. O Minist\u00e9rio P\u00fablico suspeita que o Escrit\u00f3rio do Crime esteja envolvido em pelo menos dezenove homic\u00eddios n\u00e3o esclarecidos nos \u00faltimos quinze anos no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem d\u2019<em>O Globo<\/em>&nbsp;baseava-se no depoimento \u00e0 Pol\u00edcia Civil, dias antes, de um \u201cintegrante do bando\u201d que andou pela regi\u00e3o onde Marielle e o motorista Anderson foram mortos. Ele havia circulado pelo local minutos antes do crime, como descobriu um rastreamento feito pela pol\u00edcia em seu celular. A identidade do suposto integrante do Escrit\u00f3rio do Crime foi revelada apenas em janeiro deste ano. Tratava-se do major Ronald Paulo Alves Pereira. O policial militar, de 43 anos, foi acusado de participar, em 2003, da chamada chacina da Via Show, na qual quatro jovens, ap\u00f3s terem sido sequestrados na sa\u00edda de uma boate em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense, foram cruelmente assassinados. Apesar de estar respondendo na Justi\u00e7a pelo crime \u2013 o j\u00fari est\u00e1 previsto para abril deste ano \u2013, Pereira foi promovido de capit\u00e3o a major alguns anos depois. Quando dep\u00f4s a respeito do Escrit\u00f3rio do Crime, em agosto \u00faltimo, estava prestes a se tornar coronel, posto mais alto da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n\n\n\n<p>O major \u00e9 apontado como um dos l\u00edderes do Escrit\u00f3rio do Crime, junto com o ex-capit\u00e3o da PM Adriano Magalh\u00e3es da N\u00f3brega, 42 anos. Quando atuava no Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Policiais Especiais do Rio, o Bope, N\u00f3brega tornou-se conhecido por sua habilidade com todo tipo de armas \u2013 era atirador de rara precis\u00e3o \u2013 e pela crueldade com que comandava os treinamentos entre o fim dos anos 90 e o in\u00edcio dos anos 2000. \u201cEle batia nos alunos com barra de ferro. Chegou a quebrar o bra\u00e7o de um e a estourar o rim de outro\u201d, me disse um policial que atuou no batalh\u00e3o na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Adriano N\u00f3brega quanto Ronald Pereira foram homenageados na Assembleia Legislativa do Rio com men\u00e7\u00f5es honrosas propostas pelo ent\u00e3o deputado estadual Fl\u00e1vio Bolsonaro. Para justificar a homenagem a N\u00f3brega, que ocorreu em 2003, Fl\u00e1vio argumentou que o ent\u00e3o capit\u00e3o prestava \u201cservi\u00e7os \u00e0 sociedade, desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades\u201d. N\u00f3brega havia sido apresentado a Fl\u00e1vio por um antigo colega do Bope, Fabr\u00edcio Queiroz \u2013 o ex-assessor do filho de Jair Bolsonaro que est\u00e1 no centro do esc\u00e2ndalo envolvendo repasses suspeitos de dinheiro para Fl\u00e1vio na Alerj.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2005, ap\u00f3s prender doze traficantes num morro no Rio, N\u00f3brega ganhou outra homenagem, tamb\u00e9m promovida por Fl\u00e1vio: a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Alerj.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ainda estava no Bope, N\u00f3brega envolveu-se com o jogo do bicho, atuando como seguran\u00e7a, e come\u00e7ou a ser acionado para praticar assassinatos a mando dos chef\u00f5es da jogatina. Foi preso em 2011 em uma opera\u00e7\u00e3o policial contra os contraventores e, tr\u00eas anos mais tarde, acabou expulso da PM. Isso n\u00e3o impediu Fl\u00e1vio Bolsonaro de empregar a mulher e a m\u00e3e do ex-capit\u00e3o em seu gabinete na Assembleia Legislativa \u2013 a primeira desde 2007; a segunda, a partir de 2016. As duas s\u00f3 foram exoneradas em novembro do ano passado, depois que o nome de N\u00f3brega surgiu nas investiga\u00e7\u00f5es do caso Marielle. Em janeiro deste ano, depois que a liga\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio com o ex-PM foi revelada pela imprensa, o atual senador divulgou uma nota em que dizia sempre defender agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas atribuiu a nomea\u00e7\u00e3o das duas mulheres a uma indica\u00e7\u00e3o de Queiroz.<\/p>\n\n\n\n<p>Fl\u00e1vio foi o principal cabo eleitoral da campanha de Wilson Witzel, do PSC, ao governo fluminense. O apoio do filho de Bolsonaro catapultou o ent\u00e3o desconhecido ex-juiz federal para a vit\u00f3ria no segundo turno, em 28 de outubro. Durante a campanha, Witzel apareceu no alto de um caminh\u00e3o no Centro de Petr\u00f3polis, na serra fluminense, ao lado de dois candidatos a deputado pelo PSL, partido dos Bolsonaro. Ambos exibiam orgulhosos uma placa de rua com o nome de Marielle rasgada em dois peda\u00e7os. Segurando a placa mutilada, o ent\u00e3o candidato a deputado estadual Rodrigo Amorim bradou: \u201cEsses vagabundos, eles foram na Cinel\u00e2ndia [<em>Centro do Rio<\/em>] e, \u00e0 revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa da pra\u00e7a Marechal Floriano e botaram uma placa escrito rua Marielle Franco.\u201d E continuou: \u201cEu e Daniel [<em>Silveira, candidato a deputado federal<\/em>] essa semana fomos l\u00e1 e quebramos a placa.&nbsp;A gente vai varrer esses vagabundos. Acabou PSOL, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora \u00e9 Bolsonaro, porra.\u201d Tanto ele quanto Silveira foram eleitos. Enquanto a plateia vibrava ao fundo da imagem, Witzel, que filmava tudo com o celular, virou o aparelho na pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o e disse: \u201c\u00c9 isso a\u00ed, pessoal, olha a resposta.\u201d Dias depois, ele pediria desculpas \u00e0 fam\u00edlia de Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>Escrit\u00f3rio do Crime reapareceria na imprensa em 1\u00ba de novembro, quando os jornalistas Vera Ara\u00fajo e Chico Ot\u00e1vio publicaram no site do jornal&nbsp;<em>O<\/em>&nbsp;<em>Globo<\/em>&nbsp;uma entrevista com Orlando da Curicica feita por escrito. O carioca Ot\u00e1vio construiu sua reputa\u00e7\u00e3o com reportagens investigativas sobre pol\u00edticos do Rio. Em parceria com Ara\u00fajo, o rep\u00f3rter havia mergulhado na cobertura do caso Marielle \u2013 \u201csem d\u00favida o maior que j\u00e1 cobri nessa \u00e1rea\u201d, ele me disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrevista de Curicica, realizada na \u00faltima semana de outubro, o miliciano resumiu o depoimento que tinha dado no final de agosto \u00e0 procuradora Caroline Maciel, em Mossor\u00f3. Disse que a Pol\u00edcia Civil, incluindo a c\u00fapula da corpora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o investigava o Escrit\u00f3rio do Crime porque recebia propinas do jogo do bicho, ao qual os matadores eram ligados. \u201cO que tenho a dizer, ningu\u00e9m gostaria de ouvir: existe no Rio hoje um batalh\u00e3o de assassinos agindo por dinheiro, a maioria oriunda da contraven\u00e7\u00e3o. A DH [<em>Delegacia de Homic\u00eddios<\/em>] e o chefe de Pol\u00edcia Civil, Rivaldo Barbosa, sabem quem s\u00e3o, mas recebem dinheiro de contraventores para n\u00e3o tocar ou direcionar as investiga\u00e7\u00f5es, criando assim uma rede de prote\u00e7\u00e3o para que a contraven\u00e7\u00e3o mate quem quiser. Diga, nos \u00faltimos anos, qual caso de homic\u00eddio teve como alvo de investiga\u00e7\u00e3o algum contraventor?\u201d, questionou o miliciano.<\/p>\n\n\n\n<p>Curicica tamb\u00e9m acusava o delegado Giniton Lages, que deu in\u00edcio \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es, de pression\u00e1-lo a assumir a autoria da morte de Marielle. \u201cNo dia 10 de maio, o delegado [\u2026] foi me ouvir, mas j\u00e1 chegou dizendo que tinha ido l\u00e1 para ouvir eu falar que o Siciliano tinha me pedido para matar a vereadora. Eu disse que isso n\u00e3o era verdade. Ele disse: \u2018Fala que o vereador [<em>Siciliano<\/em>] te procurou e voc\u00ea n\u00e3o quis, e outra pessoa fez.\u2019 Como me recusei, ele disse que ia futucar a minha vida e colocar inqu\u00e9ritos na minha conta, que me mandaria para Mossor\u00f3 e, de fato, foi o que fez. Mas o tempo todo percebi que eles [<em>os investigadores<\/em>] estavam perdidos, sem caminho nenhum.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Procurado pela&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>, Barbosa n\u00e3o quis se pronunciar. Na \u00e9poca, por meio de nota, refutou as acusa\u00e7\u00f5es feitas no jornal. Lages negou ter amea\u00e7ado o miliciano. \u201cPalavras o vento leva\u201d, me disse o delegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jornalistas Vera Ara\u00fajo e Chico Ot\u00e1vio, que pretendiam publicar a entrevista de Curicica no jornal impresso que circularia em 2 de novembro, tiveram de antecip\u00e1-la no site d\u2019<em>O Globo<\/em>&nbsp;ao saberem que o ent\u00e3o ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann, convocara uma entrevista para o fim da tarde do dia 1\u00ba. Em decorr\u00eancia do depoimento do miliciano ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal no Rio Grande do Norte, o ministro anunciou na coletiva a abertura de inqu\u00e9rito na Pol\u00edcia Federal para investigar uma poss\u00edvel obstru\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a por parte da Pol\u00edcia Civil fluminense no caso Marielle. \u201cA investiga\u00e7\u00e3o [<em>do homic\u00eddio<\/em>] de Marielle continua em n\u00edvel estadual. Continua com pol\u00edcia e Minist\u00e9rio P\u00fablico estadual. O que se est\u00e1 fazendo \u00e9 criar um outro eixo, que vai investigar aqueles que \u2013 sejam agentes p\u00fablicos, sejam aqueles ligados ao crime organizado ou a interesses pol\u00edticos \u2013 est\u00e3o procurando fazer de tudo para impedir que se elucide esse crime. \u00c9 uma investiga\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Jungmann aos jornalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias antes, o ministro se reunira em Bras\u00edlia com Raquel Dodge e com a coordenadora do MPF na \u00e1rea criminal, Raquel Branquinho, para discutir quais medidas seriam adotadas depois do depoimento de Orlando de Curicica. O trio teve a ideia de aproveitar as acusa\u00e7\u00f5es do miliciano para pedir \u00e0 PF que entrasse no caso por meio de um inqu\u00e9rito que apurasse as a\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Civil no caso Marielle. Uma equipe da Pol\u00edcia Federal em Bras\u00edlia, formada por um delegado e por seis agentes, mudou-se para o Rio e passou a trabalhar com a m\u00e1xima discri\u00e7\u00e3o, em endere\u00e7o sigiloso, longe da Superintend\u00eancia da PF.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>o in\u00edcio da noite de 14 de novembro, quarta-feira, o delegado Giniton Lages assistia ao telejornal local da Globo no Rio quando tomou um susto. \u201cO RJ2 teve acesso com exclusividade ao inqu\u00e9rito que apura as execu\u00e7\u00f5es da ex-vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Oito meses depois, a pol\u00edcia acumula milhares de p\u00e1ginas, mas ainda tem poucas conclus\u00f5es\u201d, disse o apresentador do telejornal. A reportagem afirmava que, apesar de o Escrit\u00f3rio do Crime ser citado no inqu\u00e9rito, at\u00e9 aquele momento a principal linha de investiga\u00e7\u00e3o da Delegacia de Homic\u00eddios ainda apontava para o vereador Marcello Siciliano e o miliciano Orlando de Curicica. Parte dos pap\u00e9is, em p\u00e1ginas digitalizadas, havia vazado para o jornalista Leslie Leit\u00e3o, produtor da TV Globo no Rio, que acompanha o caso Marielle desde o in\u00edcio \u2013 depois de atuar na imprensa como rep\u00f3rter de esportes e de pol\u00edcia, ele migrou em 2017 para a emissora carioca.<\/p>\n\n\n\n<p>Lages sup\u00f4s que a Globo preparava uma reportagem especial sobre o caso Marielle para o&nbsp;<em>Fant\u00e1stico<\/em>&nbsp;do domingo seguinte, dia 18, o que, segundo Leit\u00e3o, n\u00e3o estava nos planos da emissora. O delegado deixou o feriado de 15 de novembro passar e, na manh\u00e3 do dia seguinte, bateu \u00e0 porta do juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4\u00aa Vara Criminal do Rio, onde tramita o inqu\u00e9rito do caso. Pediu ao juiz que concedesse liminar impedindo a emissora de citar detalhes da investiga\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da tarde, Kalil acatou o pedido: a Globo foi proibida de falar do inqu\u00e9rito em reportagens, sob pena de pagar uma multa de 1 milh\u00e3o de reais a cada cita\u00e7\u00e3o do documento. \u201cO vazamento do conte\u00fado dos autos \u00e9 deveras prejudicial, pois exp\u00f5e dados pessoais das testemunhas, assim como prejudica o bom andamento das investiga\u00e7\u00f5es, obstaculizando e retardando a elucida\u00e7\u00e3o dos crimes hediondos em an\u00e1lise\u201d, justificou o magistrado.<\/p>\n\n\n\n<p>A emissora foi notificada da decis\u00e3o ainda naquele dia. Coube aos apresentadores Alexandre Garcia e Giuliana Morrone ler um editorial no&nbsp;<em>Jornal Nacional<\/em>&nbsp;daquela noite: \u201cA TV Globo quer assegurar o direito constitucional do p\u00fablico de se informar sobre o que podem ser as falhas do inqu\u00e9rito que em oito meses n\u00e3o conseguiu avan\u00e7ar na elucida\u00e7\u00e3o dos b\u00e1rbaros assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson. E deseja fazer isso seguindo seus princ\u00edpios editoriais, o que significa informar sem prejudicar testemunhas ou investiga\u00e7\u00f5es.\u201d A Globo recorreu, mas o Tribunal de Justi\u00e7a manteve a decis\u00e3o de Kalil. A emissora acatou a medida e n\u00e3o voltou a exibir reportagens sobre o inqu\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p>O delegado Lages critica o comportamento da m\u00eddia no caso Marielle. \u201cO jornalista deve ter um freio \u00e9tico. A imprensa atrapalha demais. O tempo do inqu\u00e9rito n\u00e3o \u00e9 o meu, nem o do Freixo, nem o da Globo. \u00c9 o tempo dele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Rio passou por uma dan\u00e7a de cadeiras importante no decorrer das investiga\u00e7\u00f5es. Desde o in\u00edcio, o caso Marielle esteve sob os cuidados de Homero das Neves Freitas Filho, titular da 23\u00aa Promotoria de Investiga\u00e7\u00e3o Penal, respons\u00e1vel por acompanhar os inqu\u00e9ritos da Delegacia de Homic\u00eddios na capital. Em junho de 2018, em entrevista ao jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, o promotor esbanjava otimismo: \u201cDentro dos recursos dispon\u00edveis, considero que os avan\u00e7os na investiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o grandes, com reais possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o dos executores e mandantes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as semanas passavam, e o inqu\u00e9rito se arrastava, sem rumo. Pressionado, em 21 de agosto o procurador-geral de Justi\u00e7a, Eduardo Gussem, decidiu promover Freitas Filho \u00e0 Procuradoria \u2013 ele passaria a atuar em a\u00e7\u00f5es que tramitavam em segunda inst\u00e2ncia, no TJ do Rio, e deixaria o caso Marielle. A mudan\u00e7a coincidiu com o depoimento em que Curicica acusava a Delegacia de Homic\u00eddios de neglig\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o. Freitas Filho se aposentou em 1\u00ba de fevereiro deste ano. Procurado pela&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>, n\u00e3o quis se manifestar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o lugar dele, o procurador-geral nomeou a promotora Let\u00edcia Emile Alqueres Petriz, 38 anos, que h\u00e1 uma d\u00e9cada atua no Minist\u00e9rio P\u00fablico. Petriz decidiu ent\u00e3o pedir aux\u00edlio ao Gaeco (Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Especial no Combate ao Crime Organizado), um setor especializado do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Foi prontamente atendida. A dire\u00e7\u00e3o do Gaeco incumbiu a promotora Simone Sibilio do Nascimento de auxiliar Petriz nas investiga\u00e7\u00f5es do caso Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ingressar no Minist\u00e9rio P\u00fablico, em 2003, Nascimento, 46 anos, foi policial militar \u2013 chegou ao posto de capit\u00e3 \u2013 e delegada na Pol\u00edcia Civil. Herdou dos tempos de PM o rigor e a disciplina profissional. Formou-se em direito pela PUC-Rio em 1999 com o estudo \u201cControle externo do mp na atividade policial\u201d. O t\u00edtulo do trabalho j\u00e1 prenunciava os embates que ela teria com a DH no caso Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente do promotor Homero Freitas Filho, Petriz e Nascimento sempre suspeitaram da veracidade das declara\u00e7\u00f5es da testemunha que acusou Siciliano e Curicica pelo crime. Na investiga\u00e7\u00e3o que passaram a fazer com a ajuda dos policiais federais vindos de Bras\u00edlia, as duas apostaram suas fichas no envolvimento do Escrit\u00f3rio do Crime na morte de Marielle. Com autoriza\u00e7\u00e3o judicial, o grupo j\u00e1 obteve trinta quebras de sigilo banc\u00e1rio e oitenta quebras de sigilo telef\u00f4nico de alvos ligados ao grupo miliciano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas conversas gravadas, o ex-capit\u00e3o N\u00f3brega \u00e9 chamado de \u201cpatr\u00e3oz\u00e3o\u201d pela mil\u00edcia de Rio das Pedras. Em um dos di\u00e1logos, um miliciano afirma ter recebido quatro caixas de u\u00edsque de um deputado \u2013 o parlamentar n\u00e3o \u00e9 identificado pelo Gaeco. Em 21 de janeiro, as promotoras recorreram \u00e0 Draco (Delegacia de Repress\u00e3o \u00e0s A\u00e7\u00f5es Criminosas Organizadas), da Pol\u00edcia Civil \u2013 e n\u00e3o \u00e0 Delegacia de Homic\u00eddios \u2013 para cumprir os mandados de pris\u00e3o, na manh\u00e3 do dia seguinte, de treze membros do Escrit\u00f3rio do Crime. Entre eles estavam o ex-capit\u00e3o Adriano N\u00f3brega e o major Ronald Pereira. A opera\u00e7\u00e3o foi batizada de \u201cOs Intoc\u00e1veis\u201d \u2013 era uma maneira de real\u00e7ar a impunidade que havia anos pairava sobre o grupo. A fim de evitar vazamentos, os celulares de todos os policiais envolvidos na opera\u00e7\u00e3o foram confiscados at\u00e9 o dia seguinte. O cuidado n\u00e3o foi suficiente: oito dos trezes alvos conseguiram escapar do cerco policial, e seis continuavam foragidos at\u00e9 o fim do m\u00eas do passado. Entre eles, N\u00f3brega.<\/p>\n\n\n\n<p>A promotora Petriz fez quest\u00e3o de ir \u00e0 casa do major Pereira, em Curicica, para acompanhar sua pris\u00e3o. Ao v\u00ea-lo algemado, ela foi direto ao assunto: \u201cO que voc\u00ea tem a dizer sobre o assassinato de Marielle?\u201d O PM abaixou a cabe\u00e7a e ficou em sil\u00eancio. Nem Petriz nem Nascimento quiseram falar com a&nbsp;<strong>piau\u00ed<\/strong>. A defesa do major nega tanto o envolvimento dele com o Escrit\u00f3rio do Crime quanto a participa\u00e7\u00e3o na morte de Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 6h15 do dia 21 de fevereiro, exatamente um m\u00eas ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o \u201cOs Intoc\u00e1veis\u201d, Domingos Braz\u00e3o levou um susto ao se deparar com quinze agentes da PF dentro de sua casa. Com uniformes camuflados, capacetes e metralhadoras, eles arrombaram a porta da resid\u00eancia de Braz\u00e3o, em um condom\u00ednio fechado na Barra da Tijuca. Os policiais cumpriam um dos oito mandados de busca e apreens\u00e3o para \u201capurar poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es que estariam sendo praticadas com o intuito de obstacularizar as investiga\u00e7\u00f5es dos homic\u00eddios de Marielle e Anderson\u201d, conforme nota divulgada pela PF. Os outros alvos eram o delegado HK, o agente aposentado Gilberto Costa, o sargento Rodrigo Ferreira e sua advogada, Camila Nogueira.<\/p>\n\n\n\n<p>As promotoras e a Pol\u00edcia Federal j\u00e1 est\u00e3o certas da participa\u00e7\u00e3o do grupo de assassinos no crime contra a vereadora. Quem mandou matar e por qual motivo s\u00e3o quest\u00f5es ainda sem respostas. \u201cO crime se espalhou pelo poder constitu\u00eddo do Rio. Tem bancada. \u00c9 uma met\u00e1stase sem controle. O estado n\u00e3o sai mais dessa situa\u00e7\u00e3o por suas pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d, me disse uma autoridade que participa das investiga\u00e7\u00f5es do caso Marielle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assassinato de Marielle Franco e o avan\u00e7o das mil\u00edcias no Rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[677,678,680],"class_list":["post-33437","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-marielle-franco","tag-milicias","tag-rio-das-pedras"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Hj","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33437"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33437\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33440,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33437\/revisions\/33440"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}