{"id":33580,"date":"2022-04-19T16:00:46","date_gmt":"2022-04-19T20:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33580"},"modified":"2022-04-19T16:00:50","modified_gmt":"2022-04-19T20:00:50","slug":"genocidio-em-reportagem-de-1969-o-exterminio-sem-fim-dos-indios-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/04\/19\/genocidio-em-reportagem-de-1969-o-exterminio-sem-fim-dos-indios-no-brasil\/","title":{"rendered":"GENOC\u00cdDIO: Em reportagem de 1969, o exterm\u00ednio sem fim dos \u00edndios no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"764\" data-attachment-id=\"33582\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/04\/19\/genocidio-em-reportagem-de-1969-o-exterminio-sem-fim-dos-indios-no-brasil\/148_questoes-brasileiras-ii\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?fit=1200%2C764\" data-orig-size=\"1200,764\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"148_questoes-brasileiras-II\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?fit=300%2C191\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?fit=600%2C382\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?fit=600%2C382&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-33582\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?resize=300%2C191 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?resize=1024%2C652 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?resize=768%2C489 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/148_questoes-brasileiras-II.jpg?resize=471%2C300 471w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Texto originalmente publicado na Sunday Times Magazine em 1969, e depois publicado no livro A View of the World, pela editora Eland. A repercuss\u00e3o do artigo estimulou a cria\u00e7\u00e3o da Survival International, uma organiza\u00e7\u00e3o que trabalha pelos direitos dos povos ind\u00edgenas no mundo inteiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Na Revista Piau\u00ed &#8211; <em>Tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0Renato Marques de Oliveira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>S<\/strong>e por acaso voc\u00ea \u00e9 uma daquelas pessoas que sentem afei\u00e7\u00e3o pelas civiliza\u00e7\u00f5es gentis e atrasadas \u2013 nagas, papuas, miaos do Vietn\u00e3, remanescentes polin\u00e9sios e melan\u00e9sios \u2013, pelos t\u00edmidos povos primitivos, amedrontados e ofuscados pelo avassalador avan\u00e7o de nossa era implac\u00e1vel, ent\u00e3o o ano passado [<em>1968<\/em>] foi um ano ruim para voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>A julgar pelas descri\u00e7\u00f5es de todos os que os viram, n\u00e3o havia no planeta seres humanos mais inofensivos e encantadores do que os ind\u00edgenas silv\u00edcolas do Brasil, e de chofre fomos informados de que eles haviam sido impelidos para a beira da extin\u00e7\u00e3o. A trag\u00e9dia dos nativos nos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX estava sendo repetida, mas em um intervalo de tempo mais curto. Onde uma d\u00e9cada antes viviam centenas de \u00edndios, agora havia dezenas. Uma revista norte-americana publicou uma nost\u00e1lgica reportagem sobre uma tribo da qual tinham sobrevivido apenas 135 membros\u2026 um tanto delicados demais para praticar a ca\u00e7a. Eles viviam nus, como Ad\u00e3o e Eva, no crep\u00fasculo de uma hist\u00f3ria de inoc\u00eancia, pescando, colhendo amendoim, tocando flauta, fazendo amor\u2026 esperando pela morte. Ficamos sabendo que era somente por obra e gra\u00e7a da solicitude paterna do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios [<em>SPI<\/em>], \u00f3rg\u00e3o do governo brasileiro, que eles haviam sobrevivido at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos esses relatos monit\u00f3rios \u2013 e foram muitos \u2013 havia um ponto cego, uma falta de sinceridade, uma falha de responsabilidade social, uma evidente avers\u00e3o em apontar a dire\u00e7\u00e3o de onde a desgra\u00e7a se aproximava. Ao que tudo indicava, esperava-se que supus\u00e9ssemos que os \u00edndios estavam simplesmente desaparecendo, dizimados pelo clima rigoroso da \u00e9poca, e fomos convidados a n\u00e3o perguntar mais nada nem investigar mais a fundo. Coube ao pr\u00f3prio governo brasileiro solucionar o mist\u00e9rio, e, em mar\u00e7o de 1968, ele o fez com brutal franqueza e sem se esfor\u00e7ar muito na sua autodefesa. As tribos haviam sido praticamente exterminadas, n\u00e3o&nbsp;<em>a despeito<\/em>&nbsp;dos esfor\u00e7os do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, mas com sua&nbsp;<em>coniv\u00eancia<\/em>&nbsp;\u2013 ami\u00fade com sua veemente coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O SPI, admitiu o general Afonso Augusto de Albuquerque Lima, ministro do Interior, havia sido convertido em um instrumento para a opress\u00e3o dos \u00edndios e, portanto, fora dissolvido. Haveria uma investiga\u00e7\u00e3o judicial acerca da conduta de 134 funcion\u00e1rios. Uma p\u00e1gina de jornal inteira, em letras mi\u00fadas, foi necess\u00e1ria para listar os crimes dos quais esses homens eram acusados. Em conversa informal, o procurador federal, J\u00e1der de Figueiredo Correia, afirmou duvidar que dez funcion\u00e1rios do SPI, de um total de mais de mil, poderiam ser totalmente eximidos de culpa e inocentados pela Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio oficial tinha um tom sereno \u2013 fleum\u00e1tico, quase \u2013, raz\u00e3o ainda maior da efic\u00e1cia de seu conte\u00fado, que revelava e denunciava atrocidades. Desbravadores, latifundi\u00e1rios e garimpeiros mancomunados com pol\u00edticos corruptos vinham continuamente usurpando terras ind\u00edgenas, e destru\u00edram tribos inteiras em uma luta cruel na qual se empregou guerra bacteriol\u00f3gica, com a doa\u00e7\u00e3o de roupas impregnadas com o v\u00edrus da var\u00edola e de suprimentos de comida envenenados. Crian\u00e7as foram raptadas, e o assassinato em massa ficou impune. O pr\u00f3prio governo foi culpado, em certa medida, pela progressiva inani\u00e7\u00e3o de recursos do SPI durante um per\u00edodo de trinta anos. O SPI tamb\u00e9m teve que enfrentar \u201co impacto desastroso da atividade mission\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, o procurador federal convocou a imprensa e estava preparado para fornecer todos os detalhes. Uma Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito resultou em uma expedi\u00e7\u00e3o que havia passado 58 dias visitando postos do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios de uma ponta a outra do pa\u00eds, coletando ind\u00edcios de abusos, maus-tratos e crueldades.<\/p>\n\n\n\n<p>As enormes perdas sofridas pelas tribos ind\u00edgenas nessa tr\u00e1gica d\u00e9cada foram catalogadas em parte. Dos 19 mil mundurucus que se acreditava terem existido nos anos 30, restavam apenas 1 200. A popula\u00e7\u00e3o de guaranis foi reduzida de 5 mil para trezentas pessoas. Restavam quatrocentos caraj\u00e1s dos 4 mil de outrora. Dos cintas-largas, que haviam sofrido um ataque a\u00e9reo e foram expulsos para as montanhas, possivelmente quinhentos sobreviveram de um total de 10 mil. A orgulhosa e nobre na\u00e7\u00e3o Kadiw\u00e9u \u2013 \u201cos cavaleiros \u00edndios\u201d \u2013 encolhera para um lament\u00e1vel grupo de cerca de duzentos indiv\u00edduos que agora mendigavam ou vasculhavam o lixo em busca de comida. Restavam apenas poucas centenas dos formid\u00e1veis xavantes que espreitavam no pano de fundo a expedi\u00e7\u00e3o de Peter Fleming no Brasil,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;mas eles haviam sido reduzidos a uma ral\u00e9, mat\u00e9ria-prima para a atividade mission\u00e1ria \u2013 o mesmo destino melanc\u00f3lico que se abateu sobre os bororos, que ajudaram a modificar as ideias de Claude L\u00e9vi-Strauss a respeito da natureza da evolu\u00e7\u00e3o humana. Muitas tribos eram agora representadas por uma \u00fanica fam\u00edlia, outras por um ou dois indiv\u00edduos. Algumas desapareceram por completo, como os tapaiunas \u2013 nesse caso, em decorr\u00eancia de um presente na forma da doa\u00e7\u00e3o de um carregamento de a\u00e7\u00facar misturado com ars\u00eanico. Estima-se que apenas algo entre 50 mil e 100 mil ind\u00edgenas sobrevivam hoje.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em seu relat\u00f3rio, Figueiredo calculou que propriedades no valor de 62 milh\u00f5es de d\u00f3lares haviam sido roubadas dos ind\u00edgenas nos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n\n\n\n<p>E acrescentou: \u201cN\u00e3o \u00e9 apenas pela malversa\u00e7\u00e3o de fundos, mas pela admiss\u00e3o de pervers\u00f5es sexuais, assassinatos e todos os outros crimes enumerados no C\u00f3digo Penal contra os \u00edndios e suas propriedades, que se pode ver que o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios foi, durante anos, um antro de corrup\u00e7\u00e3o e assassinatos indiscriminados.\u201d O diretor do SPI, o major Lu\u00eds Neves, foi acusado de 42 crimes, incluindo conluio em v\u00e1rios assassinatos, a venda ilegal de terras e o desvio de 300 mil d\u00f3lares. Os documentos que continham as provas coletadas pelo procurador federal pesavam 103 quilos, ele informou aos jornalistas, e totalizavam 5 115 p\u00e1ginas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias seguintes, apareceram mais manchetes e vieram a p\u00fablico novas declara\u00e7\u00f5es do minist\u00e9rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLatifundi\u00e1rios ricos do munic\u00edpio de Pedro Alfonso [<em>ent\u00e3o no estado de Goi\u00e1s, agora no Tocantins<\/em>] atacaram a tribo dos cra\u00f4s e mataram cerca de cem pessoas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO pior massacre ocorreu em Aripuan\u00e3 [<em>Mato Grosso<\/em>], onde os \u00edndios cintas-largas foram atacados com o bombardeio de bast\u00f5es de dinamite atirados de avi\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs maxacalis ganharam aguardente dos propriet\u00e1rios de terra, que empregaram jagun\u00e7os armados para mat\u00e1-los a tiros quando estivessem b\u00eabados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPropriet\u00e1rios de terras contrataram um famoso pistoleiro e seu bando para massacrar os \u00edndios canelas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs \u00edndios nambiquaras foram dizimados com disparos de metralhadoras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDuas tribos patax\u00f3s foram exterminadas por meio de inje\u00e7\u00f5es com o v\u00edrus da var\u00edola.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo Minist\u00e9rio do Interior, declarou-se ontem que chegam a mais de mil os crimes cometidos por certos ex-funcion\u00e1rios do SPI, desde arrancar as unhas dos \u00edndios at\u00e9 deix\u00e1-los morrer sem nenhum tipo de assist\u00eancia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom o intuito de exterminar a tribo dos bei\u00e7os de pau, explicou Ramis Bucair, chefe da 6\u00aa Inspetoria Regional do SPI, formou-se uma expedi\u00e7\u00e3o que subiu o rio Arinos levando presentes e uma grande quantidade de alimentos para os \u00edndios. Aos v\u00edveres foram misturados ars\u00eanico e formicidas [\u2026] No dia seguinte, um grande n\u00famero de \u00edndios morreu, e os brancos espalharam o boato de que isso era resultado de uma epidemia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C<\/strong>omo sempre, as fronteiras com a Col\u00f4mbia e o Peru (cen\u00e1rio das aventuras pir\u00e1ticas da antiga Companhia Amaz\u00f4nica Peruana da Borracha, de registro brit\u00e2nico), causaram problemas. Um breve surto de prosperidade na extra\u00e7\u00e3o de borracha silvestre provocado pela \u00faltima guerra [<em>1939-45<\/em>], povoou essa \u00e1rea com uma nova gera\u00e7\u00e3o de homens com cora\u00e7\u00f5es de pedra. Na d\u00e9cada de 40, uma empresa seringalista punia os escravos ind\u00edgenas que ficassem aqu\u00e9m da sua devida cota de produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria arrancando-lhes uma orelha pelo primeiro desacato; os reincidentes perdiam a segunda orelha; por fim, quem n\u00e3o atingia a meta pagava com a vida. Quando perseguida por soldados brasileiros, a empresa simplesmente se mudou com toda a sua m\u00e3o de obra para o outro lado da fronteira, estabelecendo-se no Peru. Hoje, a maioria dos propriet\u00e1rios de terras locais \u00e9 um pouco menos espetaculosa em suas modalidades de opress\u00e3o. Diz-se que um latifundi\u00e1rio acorrentava leprosos a postes, abandonando-os \u00e0 pr\u00f3pria sorte durante uma semana, sem comida e sem \u00e1gua, for\u00e7ados a urinar e defecar ali mesmo. Ele era um mau exemplo, mas seu m\u00e9todo para manter os \u00edndios ticunas em estado de escravid\u00e3o era o mais usado. Os \u00edndios recebiam 50 centavos de cruzeiro pelo trabalho de um dia e depois tinham que pagar 3 cruzeiros por um peda\u00e7o de sab\u00e3o. Os que tentavam fugir eram detidos (pela for\u00e7a policial privada dos latifundi\u00e1rios) e encarcerados como ladr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Neves da Costa Vale, delegada da Pol\u00edcia Federal que investigou o caso e as condi\u00e7\u00f5es locais em geral, constatou que pouca coisa havia mudado desde os velhos e maus tempos. Ela observou que centenas de ind\u00edgenas estavam sendo escravizados por propriet\u00e1rios de terras em ambos os lados da fronteira, e que colombianos e peruanos avan\u00e7avam pelos rios brasileiros para ca\u00e7ar os ticunas. \u00cdndios semicivilizados, disse ela, estavam sendo aliciados e recrutados para agir como bandidos na Col\u00f4mbia. A \u00e1rea \u00e9 conhecida como Solim\u00f5es, e a delegada Costa Vale ficou chocada com a desesperadora condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos \u00edndios. Os leprosos eram abundantes, e ela confirmou a exist\u00eancia de uma ilha chamada Arma\u00e7a, onde se confinavam ind\u00edgenas velhos ou doentes para que l\u00e1 aguardassem a morte. Disse que eles n\u00e3o contavam com nenhum tipo de assist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o importa de que fonte provinham, tra\u00e7avam o relato da cat\u00e1strofe. Ningu\u00e9m sabia exatamente quantos \u00edndios tinham sobrevivido, porque n\u00e3o havia como cont\u00e1-los em seus derradeiros baluartes nas montanhas e florestas. A estimativa mais otimista colocava o n\u00famero na casa dos 100 mil, mas outros consideravam que o total de sobreviventes era a metade disso. Tampouco seria poss\u00edvel fazer algo al\u00e9m do mais grosseiro c\u00e1lculo quanto \u00e0 velocidade dos processos de exterm\u00ednio. A opini\u00e3o consensual sugere que, quando os europeus entraram em cena pela primeira vez, quatro s\u00e9culos atr\u00e1s, encontraram uma popula\u00e7\u00e3o densa e vigorosa. Frei Gaspar de Carvajal, cronista respons\u00e1vel pelos di\u00e1rios e registros da expedi\u00e7\u00e3o capitaneada por Francisco de Orellana, afirma que certa feita o navio espanhol em que viajavam foi atacado por um contingente de 50 mil nativos. \u00c0 \u00e9poca, acreditam os especialistas, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena pode ter girado em torno de 3 a 6 milh\u00f5es. Em 1900, calculam as mesmas autoridades, talvez restasse 1 milh\u00e3o. Mas na realidade \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de conjectura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>s primeiros europeus que puseram os olhos nos \u00edndios do Brasil desembarcaram da frota de Pedro \u00c1lvares Cabral no ano de 1500 e tiveram uma recep\u00e7\u00e3o que os encantou; quando os navios zarparam novamente, foi com relut\u00e2ncia que os portugueses partiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Pero Vaz de Caminha, escriv\u00e3o oficial da expedi\u00e7\u00e3o cabralina, enviou ao rei uma carta plena de entusiasmo. Era o relato de um homem que se livrara da monotonia dos mares e encarava com olhos frescos experi\u00eancias novas e miraculosas, descritas como se dirigisse a um amigo do peito em sua cidade natal. \u00cdndias nuas tinham desfilado praia afora, esplendidamente indiferentes aos olhares fitos dos marinheiros portugueses \u2013 e Caminha conduz o olhar do rei pelos encantos das nativas com extraordin\u00e1ria min\u00facia e sem pressa. As mo\u00e7as \u00edndias, rec\u00e9m-sa\u00eddas do refrescante banho no rio, eram \u201climpas das cabeleiras\u201d, sem pelos no corpo. O escriv\u00e3o descreve com simpatia e nos m\u00ednimos pormenores os atrativos sexuais das nativas, acrescentando que a genit\u00e1lia delas era t\u00e3o graciosa que a muitas mulheres portuguesas causaria vergonha. Naquela \u00e9poca, os europeus raramente tomavam banho (um tratado sobre maneiras de evitar a infesta\u00e7\u00e3o por piolhos era um best-seller), de modo que se sup\u00f5e que os portugueses eram o mais das vezes repugnantes nas partes pudendas. Para Caminha foi inevit\u00e1vel voltar ao tema antes de se fixar em detalhes prosaicos do clima e das riquezas naturais da terra rec\u00e9m-descoberta. As \u201cmo\u00e7as bem novinhas e gentis\u201d, diz ele, \u201cs\u00e3o como aves, ou alim\u00e1rias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que \u00e0s mansas, porque os corpos seus s\u00e3o t\u00e3o limpos, t\u00e3o gordos e t\u00e3o formosos que n\u00e3o pode mais ser\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os europeus tamb\u00e9m ficaram impressionados com a magnific\u00eancia dos costumes dos \u00edndios. Se manifestassem admira\u00e7\u00e3o por qualquer um de seus colares ou adornos pessoais feitos de penas ou conchas, instantaneamente eram presenteados com esses objetos pelos nativos. Em outros encontros, o mesmo ocorria com as bugigangas de ouro, e sempre havia esposas tempor\u00e1rias \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para quem quisesse. As mulheres mais ousadas vinham e se esfregavam nas pernas dos marinheiros, mostrando seu fasc\u00ednio pela resposta sexual instant\u00e2nea e inequ\u00edvoca dos homens brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamanha generosidade era deslumbrante para esses representantes de uma sociedade inibida, mas gananciosa ao extremo. O escriv\u00e3o preencheu p\u00e1gina ap\u00f3s p\u00e1gina com um cat\u00e1logo de virtudes ind\u00edgenas. Para completar essa imagem da sociedade humana perfeita faltava apenas o conhecimento do verdadeiro Deus. E como aqueles homens n\u00e3o eram circuncidados, por conseguinte n\u00e3o eram mu\u00e7ulmanos nem judeus, e nada havia que impedisse sua convers\u00e3o. Quando a primeira missa foi celebrada, os ind\u00edgenas, com polidez e tato caracter\u00edsticos, ajoelharam-se ao lado dos portugueses e, imitando seus convidados, beijaram, sorridentes, os crucifixos que lhes foram entregues. Como as conversas se limitavam a gestos, os portugueses desconfiaram de que sua faina mission\u00e1ria estava incompleta e, quando a esquadra levantou \u00e2ncora, dois degredados foram deixados para tr\u00e1s de modo a cuidar da convers\u00e3o dos nativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a carta de Caminha que incentivou Voltaire a formular sua teoria do Bom Selvagem.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;Aqui estava a inoc\u00eancia \u2013 aqui estava a aparente liberdade, at\u00e9 mesmo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o do pecado original. Os \u00edndios, disseram os primeiros relatos, nada conheciam de crimes ou puni\u00e7\u00f5es. N\u00e3o havia carrascos ou torturadores entre eles; n\u00e3o havia pobres. Eles tratavam um ao outro, seus filhos \u2013 at\u00e9 mesmo seus animais \u2013 com afeto constante. Eles seriam sacrificados por um processo que estava al\u00e9m do controle desses admirados visitantes. Espanha e Portugal tornaram-se na\u00e7\u00f5es parasit\u00e1rias, incapazes de produzir sua pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As terras f\u00e9rteis na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica haviam sido abandonadas, os sistemas de irriga\u00e7\u00e3o deixados pelos mouros estavam em decad\u00eancia, os camponeses foram arrastados para combater em guerras intermin\u00e1veis das quais nunca voltaram. For\u00e7as econ\u00f4micas que os rec\u00e9m-chegados na Am\u00e9rica jamais conseguiriam entender estavam prestes a transform\u00e1-los em assassinos e traficantes de escravos. Os nativos cediam graciosamente, e os invasores agarravam com m\u00e3os \u00e1vidas o que eles lhes ofereciam, e quando n\u00e3o havia mais nada para dar, tiveram in\u00edcio a escravid\u00e3o e a matan\u00e7a. O continente americano estava na imin\u00eancia de ser dominado pelo que L\u00e9vi-Strauss descreveu, quatrocentos anos depois, como \u201caquele monstruoso e incompreens\u00edvel cataclismo que o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental significou para uma fra\u00e7\u00e3o da humanidade t\u00e3o vasta e t\u00e3o inocente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminha e seus companheiros desembarcaram em Porto Seguro, a cerca de 1 mil quil\u00f4metros costa acima do atual Rio de Janeiro, e n\u00e3o \u00e9 mais do que uma coincid\u00eancia que um punhado de \u00edndios tenha conseguido sobreviver at\u00e9 hoje em Itabuna, mais ao norte. A presen\u00e7a ininterrupta desses patax\u00f3s \u00e9 em certa medida um mist\u00e9rio, porque durante quatro s\u00e9culos a \u00e1rea foi devastada por negociantes de escravos, colonos beligerantes e toda sorte de bandidos e bandoleiros. Os sobreviventes s\u00e3o encontrados em uma paisagem trigueira e austera, composta por rochas nuas interligadas, nas fendas das quais eles desenvolveram uma aptid\u00e3o para a auto-oculta\u00e7\u00e3o; criaturas furtivas em farrapos tropicais, correm para se esconder quando algu\u00e9m se aproxima. Eles s\u00e3o vistos em trechos de terras improdutivas \u00e0 beira das estradas ou linhas f\u00e9rreas, que eles fertilizam com seus pr\u00f3prios excrementos para cultivar alguns legumes e verduras antes de seguir em frente. Ou ent\u00e3o ganham a vida a duras penas em uma miser\u00e1vel subexist\u00eancia, vendendo magia e rem\u00e9dios feitos de ervas para os brancos neur\u00f3ticos que os visitam em segredo, e tamb\u00e9m recorrendo \u00e0 espor\u00e1dica prostitui\u00e7\u00e3o e a roubos de pequena monta. Sofrem de tuberculose, doen\u00e7as ven\u00e9reas, doen\u00e7as oculares, e de epidemias de sarampo e gripe, as duas \u00faltimas em formas particularmente letais.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas das tribos mantiveram-se aferradas, firmes e fortes, mesmo nos momentos mais dif\u00edceis, a um naco de sua terra original at\u00e9 dez anos atr\u00e1s, quando um m\u00e9dico \u2013 que agora se sup\u00f5e enviado pelo Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios da \u00e9poca \u2013, em vez de vacin\u00e1-los, inoculou-os com o v\u00edrus da var\u00edola. Essa opera\u00e7\u00e3o teve \u00eaxito pleno, e as terras devolutas foram imediatamente absorvidas pelas propriedades vizinhas de latifundi\u00e1rios brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma d\u00fazia desses deprimentes acampamentos ao longo de quase 5 mil quil\u00f4metros de litoral, e eles s\u00e3o os \u00faltimos \u00edndios habitantes da costa, como os que foram vistos por Caminha, e que outrora apareciam, \u00e0s centenas, para espiar por entre as \u00e1rvores sempre que um navio ancorava a pouca dist\u00e2ncia da praia. Os patax\u00f3s s\u00e3o oficialmente classificados como&nbsp;<em>integrados<\/em>. \u00c9 o pior r\u00f3tulo que pode ser associado a qualquer ind\u00edgena, j\u00e1 que a extin\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre nos calcanhares da integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As atrocidades dos conquistadores espanh\u00f3is descritas pelo bispo Bartolomeu de Las Casas, que foi testemunha ocular do que deve ter sido a maior de todas as guerras de exterm\u00ednio, resistem \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algo de remoto e sombrio no horror em escala t\u00e3o vasta. Os n\u00fameros come\u00e7am a n\u00e3o significar nada \u00e0 medida que lemos, com uma esp\u00e9cie de credulidade distra\u00edda e desfocada, os relatos de esfola\u00e7\u00f5es, eviscera\u00e7\u00f5es, mutila\u00e7\u00f5es e assassinatos em massa em fogueiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Doze milh\u00f5es foram mortos, diz Las Casas, a maioria deles de maneira atroz. \u201cO Todo-Poderoso parece ter inspirado essas pessoas com uma mansid\u00e3o e brandura de humor como as dos cordeiros; e os conquistadores que se arremessaram no mesmo instante em que os conheceram parecem lobos, le\u00f5es e tigres crudel\u00edssimos [\u2026]. Vi os espanh\u00f3is lan\u00e7arem seus ferozes e famintos c\u00e3es sobre os \u00edndios para rasg\u00e1-los em peda\u00e7os e devor\u00e1-los [\u2026]. Atearam fogo a tantas cidades e aldeias que me \u00e9 imposs\u00edvel lembrar do n\u00famero exato delas [\u2026]. Essas coisas todas as fizeram sem a menor provoca\u00e7\u00e3o, puramente pelo gosto de praticar o mal.\u201d Onde quer que fossem alcan\u00e7ados, nas ilhas do Caribe e nas plan\u00edcies costeiras, os \u00edndios estavam fadados ao exterm\u00ednio. Os do Brasil foram salvos da extin\u00e7\u00e3o por uma floresta tropical do tamanho da Europa, e ao sul dela, 1,3 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados de matagal e pantanais \u2013 em Mato Grosso \u2013 que continuaram suficientemente misteriosos at\u00e9 nossos dias para que exploradores como o coronel Percy Harrison Fawcett, \u00e0 procura de cidades cobertas de ouro, perdessem ali a vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P<\/strong>ara aqueles que perseguiam os \u00edndios nas entranhas da floresta, havia perigos piores do que flechas com as pontas embebidas em veneno. Bichos-de-p\u00e9 depositavam seus ovos sob a pele; uma esp\u00e9cie de mosca se alimentava da superf\u00edcie do olho e podia levar \u00e0 cegueira; abelhas enxameavam-se para se agarrar aos vest\u00edgios de muco nas narinas e nos cantos da boca; formigas-de-fogo (ou lava-p\u00e9s) podiam causar paralisia tempor\u00e1ria e, o pior de tudo, um pequeno besouro por vezes encontrado nos telhados de cabanas abandonadas costumava cair sobre a pessoa adormecida para administrar uma \u00fanica e fatal picada.<\/p>\n\n\n\n<p>De mais a mais, havia os perigos comuns de cobras venenosas, mir\u00edades de aranhas e escorpi\u00f5es, e os rios continham n\u00e3o apenas piranhas, enguias el\u00e9tricas e arraias, mas tamb\u00e9m um pequeno bagre com barbatanas espinhosas que se contorcia nos orif\u00edcios humanos e n\u00e3o podia ser removido sem uma opera\u00e7\u00e3o que mutilava a v\u00edtima. Acima de tudo, os mosquitos transmitiam n\u00e3o apenas a mal\u00e1ria, mas tamb\u00e9m a febre amarela, end\u00eamica no sangue de muitos macacos. Os \u00fanicos n\u00e3o \u00edndios a penetrar nos recessos finais da floresta foram mais tarde os negros, que escapavam em grande n\u00famero dos engenhos de a\u00e7\u00facar e das minas para formar os quilombos, povoa\u00e7\u00f5es de escravos fugidos do cativeiro. Mas estes, al\u00e9m de se servirem \u00e0 vontade das mulheres \u00edndias onde quer que as encontrassem, seguiam a regra de viver e deixar viver, fundiram-se com as tribos vizinhas e perderam sua identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os assassinatos e a escravid\u00e3o dos \u00edndios diminu\u00edram durante os tr\u00eas s\u00e9culos seguintes, mas isso ocorreu porque havia menos deles para assassinar e escravizar. Expedi\u00e7\u00f5es de grande envergadura com o intuito de arrebanhar m\u00e3o de obra para as lavouras do Maranh\u00e3o e do Par\u00e1 despovoaram todas as aldeias de f\u00e1cil acesso pr\u00f3ximas \u00e0s principais vias naveg\u00e1veis da Amaz\u00f4nia, e comenta-se que a perda de vidas humanas teria sido maior do que a mortandade envolvida no com\u00e9rcio de escravos com a \u00c1frica. Os que escapavam do trabalho nas fazendas terminavam frequentemente nas reservas dos jesu\u00edtas \u2013 campos de concentra\u00e7\u00e3o religiosos onde as condi\u00e7\u00f5es de vida quase nunca eram menos severas, e os mais insignificantes pecados e infra\u00e7\u00f5es eram punidos com terr\u00edveis flagelos ou aprisionamento: \u201cN\u00e3o h\u00e1 melhor prega\u00e7\u00e3o do que a espada e a vara de ferro\u201d, definiu o jesu\u00edta mission\u00e1rio Jos\u00e9 de Anchieta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N<\/strong>o s\u00e9culo XIX, chegou-se a uma esp\u00e9cie de impasse melanc\u00f3lico. Estava mais dif\u00edcil obter escravos ind\u00edgenas, e com a crescente racionaliza\u00e7\u00e3o da oferta e a consequente queda no custo dos negros da \u00c1frica Ocidental \u2013 que em todo caso suportavam melhor as duras condi\u00e7\u00f5es do trabalho \u2013, o pre\u00e7o do produto local foi reduzido. \u00c0 medida que os \u00edndios tornaram-se menos valiosos como mercadoria, passou a ser poss\u00edvel v\u00ea-los por meio de um olhar vitoriano enevoado de l\u00e1grimas, e pelo menos um romance sobre eles foi escrito, embrulhado em sentimentalismo e no clima de&nbsp;<em>O \u00daltimo dos Moicanos<\/em>. Um ponto de vista mais pr\u00e1tico foi adotado na \u00e9poca do grande&nbsp;<em>boom&nbsp;<\/em>da borracha, na virada do s\u00e9culo, quando se descobriu que os \u00edndios inofensivos e pitorescos estavam mais bem equipados do que os negros para vasculhar florestas \u00e0 cata de seringueiras. Enquanto se evitava os olhos do mundo, todos os excessos e torturas conhecidos foram renovados, at\u00e9 que, com o fim do surto da borracha e o reavivamento da consci\u00eancia, criou-se o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na crua e bruta vulgaridade que demonstrava em seu consumo da riqueza f\u00e1cil, o&nbsp;<em>boom<\/em>&nbsp;da borracha brasileira ultrapassou tudo o que se tinha visto antes no mundo ocidental desde os tempos da corrida do ouro em Klondike.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;Seu centro foi Manaus, constru\u00edda na conflu\u00eancia de dois grandes rios naveg\u00e1veis, o Amazonas e o Negro, dada a facilidade para lan\u00e7ar a partir dali expedi\u00e7\u00f5es escravistas, que viviam decad\u00eancia similar \u00e0 da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a inven\u00e7\u00e3o do autom\u00f3vel e do pneu de borracha, e o reconhecimento de que a&nbsp;<em>Hevea brasiliensis<\/em>&nbsp;\u2013 a seringueira ou \u00e1rvore-da-borracha \u2013 da Amaz\u00f4nia produzia sem sombra de compara\u00e7\u00e3o a melhor mat\u00e9ria-prima, Manaus estava de volta aos neg\u00f3cios, instantaneamente convertida em uma Gomorra tropical. Enrico Caruso recusou um inacredit\u00e1vel cach\u00ea para apresentar-se na casa de \u00f3pera local, mas Adelina Patti aceitou. Nesse per\u00edodo, grassavam orgias babil\u00f4nicas em que as cortes\u00e3s tomavam banhos semip\u00fablicos de champanhe, bebida que tamb\u00e9m era servida, em baldes, aos cavalos que venciam as corridas de turfe. Homens afeitos \u00e0 moda enviavam suas roupas sujas \u2013 as de cama e as de baixo \u2013 para serem lavadas na Europa. Mulheres mandavam incrustar de diamantes suas dentaduras, e entre as importa\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas inclu\u00eda-se um carregamento regular de virgens da Pol\u00f4nia. Essas meninas cuja m\u00e9dia de idade era de 13 anos podiam custar at\u00e9 100 libras [<em>cerca de 8 mil libras em valores atuais, ou aproximadamente 38 mil reais<\/em>] na primeira noite, porque a rela\u00e7\u00e3o sexual com uma virgem era tida como uma cura certeira para doen\u00e7as ven\u00e9reas. Depois disso, o pre\u00e7o cairia para um vig\u00e9simo desse valor.<\/p>\n\n\n\n<p>A mais din\u00e2mica das grandes firmas de borracha da \u00e9poca era a Companhia Amaz\u00f4nica Peruana da Borracha, que operava na imprecisa fronteira noroeste do Brasil, onde podia colocar os governos da Col\u00f4mbia, Peru e Brasil uns contra os outros, o que era melhor para estabelecer seu vasto e horripilante imp\u00e9rio de explora\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Um jovem engenheiro norte-americano, Walter Hardenburg, desejoso de correr o mundo, deixou-se levar pela inadvertida curiosidade de conhecer al\u00e9m dos limites dos seringais da companhia; foi imediatamente detido por jagun\u00e7os e encarcerado por alguns dias, per\u00edodo durante o qual teve a oportunidade de testemunhar o tipo de coisa que acontecia. V\u00e1rios milhares de \u00edndios uitotos tinham sido escravizados, e no posto fortificado onde Hardenburg foi aprisionado, El Encanto, ele via os ind\u00edgenas seringueiros trazendo de volta sua coleta de l\u00e1tex no fim do dia. Os corpos dos homens estavam cobertos de imensos verg\u00f5es descarnados, obra dos chicotes de couro de anta dos capatazes, e Hardenburg notou que os \u00edndios que conseguiam cumprir sua cota di\u00e1ria dan\u00e7avam de alegria, ao passo que os que fracassavam pareciam aterrorizados, embora ele n\u00e3o tenha presenciado sua puni\u00e7\u00e3o. Mais tarde, soube que repetidas falhas na coleta podiam significar uma senten\u00e7a de cem vergastadas, das quais os supliciados levavam seis meses para se recuperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um elemento de competi\u00e7\u00e3o estava presente quando se tratava de matar \u00edndios. De uma feita, 150 trabalhadores irremediavelmente ineficientes foram capturados, reunidos e cortados em peda\u00e7os, empregando-se uma pavorosa habilidade local que inclu\u00eda o \u201ccorte do bananeiro\u201d, em que a l\u00e2mina do fac\u00e3o era brandida para tr\u00e1s e para a frente decepando duas cabe\u00e7as de uma s\u00f3 vez, e o \u201ccorte maior\u201d, em que um corpo era fatiado em duas ou mais partes antes que pudesse tocar no ch\u00e3o. Dias de grandes festejos tamb\u00e9m eram celebrados com eventos esportivos, quando alguns dos coletores de l\u00e1tex mais ativos \u2013 e, portanto, mais valiosos \u2013 podiam ser sacrificados para tornar a ocasi\u00e3o especial. Eles eram vendados e encorajados a fazer o melhor que podiam para fugir enquanto os capatazes e seus convidados, de espingarda em punho, disparavam contra eles.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00faditos brit\u00e2nicos de Barbados foram recrutados pela Companhia Amaz\u00f4nica Peruana como ca\u00e7adores de ind\u00edgenas selvagens e despachados em um sem-n\u00famero de expedi\u00e7\u00f5es para \u00e1reas onde a empresa planejava estabelecer novas trilhas de explora\u00e7\u00e3o de borracha. Esses mercen\u00e1rios recebiam sua paga por empreitada e eram obrigados a recolher a cabe\u00e7a de suas v\u00edtimas e retornar com elas como prova para suas reivindica\u00e7\u00f5es de pagamento. Fazendas de garanh\u00f5es existiam na \u00e1rea onde meninas \u00edndias selecionadas dariam \u00e0 luz a m\u00e3o de obra escrava do futuro, quando os \u00edndios selvagens tivessem sido exterminados. Tamb\u00e9m havia suspeitas de que algumas companhias de extra\u00e7\u00e3o de borracha n\u00e3o tinham dado um basta imediato ao canibalismo, e circulavam fortes rumores sobre a exist\u00eancia de acampamentos nos quais trabalhadores adoentados e insatisfat\u00f3rios eram usados para abastecer a provis\u00e3o de carne dos seringueiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O esc\u00e2ndalo de repercuss\u00e3o mundial da Companhia Amaz\u00f4nica Peruana, exposto por sir Roger Casement,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;coincidiu com o colapso do ciclo da borracha causado pela concorr\u00eancia das novas planta\u00e7\u00f5es na Mal\u00e1sia, e a crise de consci\u00eancia acentuou-se com a amea\u00e7a do desastre econ\u00f4mico. A fal\u00eancia instant\u00e2nea de Manaus foi acompanhada por acontecimentos espetaculares. As fontes de dinheiro secaram de s\u00fabito, e a popula\u00e7\u00e3o excedente de trapaceiros, aventureiros e prostitutas abarrotou os barcos a vapor em desenfreada fuga rumo \u00e0 costa, pagando suas passagens com bens como abotoaduras de diamante e an\u00e9is solit\u00e1rios. Comerciantes ricos e influentes, cujas fortunas estavam investidas na borracha invend\u00edvel, cometeram suic\u00eddio. Os c\u00e9lebres bondes el\u00e9tricos \u2013 os primeiros do seu tipo na Am\u00e9rica Latina \u2013 pararam quando o fornecimento de energia foi cortado e acabaram incendiados por passageiros enfurecidos. Alguns cavalos de corrida foram parar na canga dos carros de boi. A casa de \u00f3pera fechou, para nunca mais abrir.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quando os brasileiros acostumaram-se \u00e0 ideia de que a renda proveniente da borracha havia realmente chegado ao fim, come\u00e7aram a examinar a quest\u00e3o do custo em vidas humanas daquela empreitada, \u00e0 luz do fato, agora muito conhecido, de que s\u00f3 a Companhia Amaz\u00f4nica Peruana tinha assassinado quase 30 mil \u00edndios. O Brasil, mais uma vez, ca\u00eda em si a respeito dos ind\u00edgenas, e seus legisladores lembraram-se dos princ\u00edpios t\u00e3o nobres enunciados por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva em 1823 e incorporados \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. \u201cNunca devemos nos esquecer\u201d, disse ele, \u201cde que somos os usurpadores nesta terra, e que tamb\u00e9m nos consideramos crist\u00e3os.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo estado de \u00e2nimo surgiu da determina\u00e7\u00e3o de que nada daquilo deveria acontecer outra vez, e um Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios \u2013 de altru\u00edsmo singular e extraordin\u00e1rio na Am\u00e9rica \u2013 foi fundado em 1910, sob a lideran\u00e7a do marechal C\u00e2ndido Mariano da Silva Rondon, ele pr\u00f3prio um \u00edndio e, portanto, em tese, excepcionalmente qualificado para interpretar as necessidades do ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o de Rondon consistia em integrar o \u00edndio ao modo de vida preponderante no Brasil \u2013 educ\u00e1-lo, mudar seu credo religioso, romper com seu h\u00e1bito de nomadismo, mudar a cor de sua pele por meio do casamento inter-racial, afast\u00e1-lo das florestas e atra\u00ed-lo para as cidades, a fim de transform\u00e1-lo em um assalariado e um eleitor. Rondon passou os \u00faltimos anos de sua vida tentando fazer isso, mas pouco antes de sua morte ocorreu-lhe uma grande mudan\u00e7a. Ele deixou de acreditar que a integra\u00e7\u00e3o fosse desej\u00e1vel. Tudo tinha sido um erro tr\u00e1gico, ele disse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>conclus\u00e3o de todos aqueles que viveram com o ind\u00edgena e o estudaram al\u00e9m do \u00e2mbito da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que ele \u00e9 o perfeito produto humano de seu ambiente \u2013 donde se segue, portanto, que n\u00e3o pode ser removido sem resultados calamitosos. Abrigado na floresta em que seus ancestrais viveram por milhares de anos, o ind\u00edgena \u00e9 parte dela, como a anta e a on\u00e7a: autossuficiente, art\u00edfice de todas as suas necessidades, em conc\u00f3rdia com seu entorno e profundamente consciente de seu lugar na vida do universo vis\u00edvel e invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Admite-se agora que o funcion\u00e1rio m\u00e9dio do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios recrutado para lidar com esse ser humano complexo e respeit\u00e1vel era por demais venal, ignorante e insensato, e que naturalmente chamaria em seu aux\u00edlio os mission\u00e1rios que havia no Brasil aos milhares, respaldados por recursos de que ele pr\u00f3prio n\u00e3o dispunha. Mas o mission\u00e1rio hist\u00f3rico n\u00e3o impressionava em termos de realiza\u00e7\u00f5es, e mesmo aqueles incompar\u00e1veis colonizadores da f\u00e9, os jesu\u00edtas, tinham pouco a mostrar al\u00e9m do fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos primeiros tempos, eles vestiram seus desafortunados convertidos com longas t\u00fanicas brancas, segregaram os sexos e os puseram para realizar \u201ctrabalhos piedosos\u201d, mitigados pela entoa\u00e7\u00e3o de salmos em latim, exerc\u00edcios de desenvolvimento mental em mnem\u00f4nica e discuss\u00f5es especulativas sobre t\u00f3picos tais como o n\u00famero de anjos capazes de empoleirar-se na cabe\u00e7a de um alfinete. Isso era oferecido como amostra e antegozo das del\u00edcias do para\u00edso crist\u00e3o, inclusive sem que houvesse a chance de casar e dar algu\u00e9m em casamento, e muitos dos convertidos morreram de melancolia. Depois de algum tempo, a desmoraliza\u00e7\u00e3o se espalhou entre os pr\u00f3prios padres, e alguns deles sa\u00edram dos trilhos e chegaram ao ponto de se envolver no tr\u00e1fico de escravos. Quando esses assentamentos religiosos foram finalmente invadidos pelos sanguin\u00e1rios bandeirantes de S\u00e3o Paulo, a morte n\u00e3o significava muito mais que uma feliz liberta\u00e7\u00e3o para o rebanho ind\u00edgena abatido e desnorteado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser institu\u00eddo o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, os mission\u00e1rios das v\u00e1rias ordens cat\u00f3licas estavam sendo rapidamente sobrepujados em n\u00famero pelos n\u00e3o conformistas,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;vindos principalmente dos Estados Unidos. Estes eram um tipo muito diferente de ser humano, armados n\u00e3o apenas do fogo do inferno e da dana\u00e7\u00e3o, mas de atualizadas t\u00e9cnicas de vendas para tratar dos problemas da convers\u00e3o. Em 1968, o&nbsp;<em>Jornal do Brasil<\/em>&nbsp;chegou a afirmar: \u201cNa realidade, quem est\u00e1 no comando desses postos de prote\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas s\u00e3o mission\u00e1rios norte-americanos \u2013 presentes em todos os postos \u2013, que desfiguram a cultura ind\u00edgena original e impingem a aceita\u00e7\u00e3o do protestantismo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os cat\u00f3licos, malgrado todos os seus erros desastrosos, levavam, em geral, uma vida simples, muitas vezes austera, mas os n\u00e3o conformistas pareciam se ver como representantes de um tipo de f\u00e9 mais exuberante e materialista. Faziam quest\u00e3o de se instalar, aonde quer que fossem, em casas de pedra, grandes e bem constru\u00eddas, inevitavelmente equipadas com um gerador el\u00e9trico e todos os dispositivos modernos que poupassem trabalho bra\u00e7al. Alguns deles tinham at\u00e9 mesmo seus pr\u00f3prios avi\u00f5es. Se havia estradas, dispunham de um ou dois autom\u00f3veis, e quando viajavam pelo rio preferiam uma lancha com um motor de popa \u00e0 canoa nativa habitualmente usada pelos padres cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o logo os ind\u00edgenas eram atra\u00eddos para as imedia\u00e7\u00f5es, um com\u00e9rcio mission\u00e1rio poderia ser aberto, e o primeiro pequeno passo rumo ao objetivo final da convers\u00e3o seria dado por meio da explica\u00e7\u00e3o do valor e dos usos do dinheiro, e de como, munido dele, o ind\u00edgena poderia obter todos aqueles bens que, esperava-se, viriam a se tornar necess\u00e1rios para ele. Os mission\u00e1rios s\u00e3o absolutamente sinceros e at\u00e9 autocongratulat\u00f3rios com rela\u00e7\u00e3o a seus m\u00e9todos. Para cativar e reter o \u00edndio, \u00e9 preciso criar desejos e depois expandi-los continuamente \u2013 desejos que em \u00e1reas t\u00e3o remotas somente o mission\u00e1rio poderia suprir. Uma cobi\u00e7a por ninharias desimportantes e n\u00e3o essenciais deve ser incutida e fomentada.<\/p>\n\n\n\n<p>O verbo em portugu\u00eas empregado para descrever esse processo \u00e9 \u201cconquistar\u201d, e \u00e9 aplicado sem distin\u00e7\u00e3o para designar seja a sujei\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a, seja a sujei\u00e7\u00e3o pela ast\u00facia. O que normalmente acontece \u00e9 que os presentes \u2013 alimentos, em geral \u2013 s\u00e3o deixados onde os ind\u00edgenas incivilizados possam encontr\u00e1-los. Isso exige um bocado de paci\u00eancia. Pode levar anos at\u00e9 que os membros da tribo sejam conquistados por esses repetidos pr\u00f3logos, mas, quando isso acontece, o fim \u00e9 iminente. Tudo o que resta \u00e9 incentivar os \u00edndios a deslocar sua aldeia para a \u00e1rea da miss\u00e3o e deixar que as coisas sigam seu curso natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase sempre, o propriet\u00e1rio de terras local espera que os \u00edndios fa\u00e7am esse movimento \u2013 talvez tenha sido alertado pelo pr\u00f3prio mission\u00e1rio \u2013, e, assim que acontece, est\u00e1 pronto para ocupar a terra da tribo. Os \u00edndios est\u00e3o agora enredados em uma armadilha. N\u00e3o podem voltar atr\u00e1s, mas no momento isso parece desimportante, porque o mission\u00e1rio continua a aliment\u00e1-los por mais algum tempo, embora a quest\u00e3o da convers\u00e3o agora venha \u00e0 baila. Isso geralmente apresenta uma ligeira dificuldade, e a natural polidez ind\u00edgena \u2013 e, nesse caso, a gratid\u00e3o \u2013 leva a efeito o resto. Se o ind\u00edgena entende do que se trata, \u00e9 outra quest\u00e3o. A ele se pedir\u00e1 que passe por algo que talvez considere, com grande simpatia, uma cerim\u00f4nia de invoca\u00e7\u00e3o da chuva, uma vez que h\u00e1 aspers\u00e3o de \u00e1gua e f\u00f3rmulas repetidas em uma l\u00edngua desconhecida. Al\u00e9m disso, talvez seja o caso de deixar as coisas como est\u00e3o. Qualquer mission\u00e1rio dir\u00e1 que um \u00edndio n\u00e3o tem capacidade para pensamentos abstratos. Como pode ele compreender o mist\u00e9rio e a universalidade de Deus quando o mais pr\u00f3ximo de uma divindade que suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam a oferecer talvez seja um ancestral tribal comum visto como um jaguar ou um jacar\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>De agora em diante, as ordens e as proibi\u00e7\u00f5es jorrar\u00e3o aos borbot\u00f5es. A inoc\u00eancia da nudez \u00e9 a primeira a ser destru\u00edda, e o \u00edndio, que nunca vestiu nada al\u00e9m de uma bainha de p\u00eanis lindamente adornada para sufocar ere\u00e7\u00f5es inesperadas, deve agora vestir-se com o estoque de refugos da miss\u00e3o, em detrimento imediato a sua sa\u00fade. Ele fica sujeito a doen\u00e7as de pele e, como na pr\u00e1tica as roupas nunca mais s\u00e3o retiradas e se permite que elas sequem no pr\u00f3prio corpo depois de uma tempestade, a pneumonia \u00e9 um resultado frequente.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem que at\u00e9 ent\u00e3o viveu praticando as habilidades de ca\u00e7ador e horticultor \u2013 os \u00edndios s\u00e3o dedicados e incompar\u00e1veis jardineiros \u2013 agora se v\u00ea, vassoura ou p\u00e1 na m\u00e3o, como algu\u00e9m que faz biscates e presta servi\u00e7os ocasionais na miss\u00e3o e em suas depend\u00eancias. Dentro de suas roupas deplor\u00e1veis e imundas, ele encolhe a olhos vistos, seu rosto fica enrugado e emurchecido, seu corpo est\u00e1 mais assolado por doen\u00e7as, sua mente mais ap\u00e1tica. H\u00e1 um terr\u00edvel testemunho desse processo no manual do Minist\u00e9rio da Agricultura brasileiro sobre os ind\u00edgenas: a fotografia de um deles todo sorridente e simp\u00e1tico no primeiro dia de sua chegada da selva e em seguida uma imagem do mesmo homem dez anos depois, quando ele parece ter enlouquecido de tristeza. \u201cSua express\u00e3o torna o coment\u00e1rio desnecess\u00e1rio\u201d, l\u00ea-se na legenda. \u201cNoventa por cento do seu povo morreu de gripe e sarampo. Mal imaginava ele o destino que os esperava quando procuraram ter seu primeiro contato com os brancos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 nessas hist\u00f3rias de aliciamento que levam \u00e0 extin\u00e7\u00e3o algo do cruel conto de fadas sobre as crian\u00e7as presas pela bruxa em uma casa feita de doces. Mas a lenta decad\u00eancia, a morte em vida que \u00e9 o confinamento nas miss\u00f5es, n\u00e3o era o pior que poderia acontecer. Muito mais terr\u00edvel podia ser a decis\u00e3o do fazendeiro \u2013 como tantas vezes acontecia \u2013 de recrutar o trabalho dos \u00edndios cujas terras ele havia invadido e que eram abandonados para morrer de fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trecho do relat\u00f3rio da comiss\u00e3o sobre atrocidades: \u201cEm seu depoimento, o sr. Jord\u00e3o Aires disse que oito anos antes os (seiscentos) \u00edndios ticunas tinham sido trazidos pelo frade Jeremias para sua propriedade. O mission\u00e1rio conseguiu convenc\u00ea-los de que o fim do mundo estava prestes a acontecer e Bel\u00e9m era o \u00fanico lugar em que eles estariam seguros [\u2026]. O sr. Aires confirmou que, quando os \u00edndios desobedeciam \u00e0s ordens, sua pol\u00edcia privada os acorrentava. A delegada Costa Vale, da Pol\u00edcia Federal, afirmou que alguns dos \u00edndios acorrentados eram leprosos e tinham perdido os dedos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>ficialmente \u00e9 o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios e 134 de seus agentes que est\u00e3o sendo julgados, mas de todos esses relatos surgem logo os tra\u00e7os caracter\u00edsticos de uma personalidade mais sinistra, o fazendeiro \u2013 o grande latifundi\u00e1rio \u2013, e \u00e0 sua sombra o agente do SPI se reduz a uma figura subserviente, invariavelmente corrompida por subornos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os padr\u00f5es europeus, o fazendeiro disp\u00f5e de um imenso poder anacr\u00f4nico, dono que \u00e9, na maioria das vezes, de um feudo tropical do tamanho de um condado ingl\u00eas, protegido da interfer\u00eancia da autoridade central pelas vastas dist\u00e2ncias, pelas tradi\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o e pelo absoluto sil\u00eancio de seus vassalos. Todas as terras que possui \u2013 boa parte das quais pode nem ter sido explorada \u2013 foram tomadas dos \u00edndios por ele ou seus ancestrais, ou foram compradas de outros que as obtiveram dessa maneira. Na maioria dos casos, sua grande casa-fortaleza, a fazenda, foi constru\u00edda pelo trabalho \u00e1rduo dos escravos ind\u00edgenas, que quando necess\u00e1rio eram aprisionados em masmorras. No passado, um fazendeiro s\u00f3 conseguiria sobreviver se dominasse um ambiente feroz e, embora hoje em dia provavelmente tenha educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, talvez ainda durma com uma espingarda carregada ao lado da cama. Fazendas isoladas ainda s\u00e3o ocasionalmente atacadas por \u00edndios selvagens (isto \u00e9, \u00edndios com algum agravo contra os brancos), por garimpeiros que se tornaram bandidos, por bandidos francamente profissionais ou por seus pr\u00f3prios escravos amotinados. O fazendeiro se defende com guarda-costas arregimentados entre seus empregados mais violentos \u2013 muitos deles nos rinc\u00f5es, foragidos da Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 raro encontrar, pelos padr\u00f5es crist\u00e3os comuns, o fazendeiro que seja um homem bom, t\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 ele degenerar em um Gilles de Rais<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;ou em um Ivan, o Terr\u00edvel das florestas amaz\u00f4nicas, assassino e imprevis\u00edvel. Pode ser o&nbsp;<em>Que Viva M\u00e9xico!,<\/em>&nbsp;de Eisenstein, com cavalos galopando por cima de homens enterrados at\u00e9 o pesco\u00e7o \u2013 ou pior. Algumas das hist\u00f3rias contadas sobre as casas-grandes do Brasil do s\u00e9culo passado em seus dias de respeit\u00e1vel escravid\u00e3o e licenciosidade romana desafiam a imagina\u00e7\u00e3o: um escravo acusado de algum crime de \u00ednfima gravidade \u00e9 castrado e queimado vivo; por ordem de uma senhora enciumada, os dentes de uma bela jovem s\u00e3o arrancados e seus seios amputados, apenas por garantia; outra mo\u00e7a, que descobrem estar gr\u00e1vida, \u00e9 jogada viva dentro do forno.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trecho do relat\u00f3rio do presidente da Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito do ano passado [<em>1968<\/em>] sobre atrocidades contra os \u00edndios corrige o ponto de vista complacente de que vivemos em dias mais amenos: \u201cNa 7\u00aa Inspetoria paranaense, os \u00edndios foram torturados, esmagando-se os ossos de seus p\u00e9s no \u00e2ngulo de duas estacas de madeira, empurradas para o ch\u00e3o. As esposas se revezaram com seus maridos na aplica\u00e7\u00e3o dessa tortura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se alega, nessa investiga\u00e7\u00e3o, que houve casos em que o corpo nu de um ind\u00edgena foi lambuzado com mel antes de ser exposto, at\u00e9 a morte, \u00e0s mordidas de formigas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que toda essa crueldade sem sentido? O que \u00e9 que faz com que homens e mulheres, provavelmente de extrema respeitabilidade em sua vida cotidiana, torturem pelo mero prazer da tortura? Montaigne acreditava que a crueldade \u00e9 a vingan\u00e7a do homem fraco por sua fraqueza; uma esp\u00e9cie de par\u00f3dia doentia da bravura. \u201cA matan\u00e7a ap\u00f3s uma vit\u00f3ria \u00e9 geralmente perpetrada pela ral\u00e9 e pela criadagem que carrega a bagagem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9<\/strong>o in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o chuvosa, e de uma altitude de 600 metros a floresta esfuma\u00e7a aqui e ali como se estivesse sob um bombardeio espor\u00e1dico, enquanto o sol suga o vapor de um aguaceiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Supostamente Mato Grosso visto de cima deveria propiciar um mon\u00f3tono cen\u00e1rio verde, mas nem sempre \u00e9 assim. Neste momento, por exemplo, v\u00ea-se um p\u00e2ntano preto como carv\u00e3o cingido por areias cor de marfim. A \u00e1rea \u00e9 obscurecida por plumas cambiantes de nuvens, que se abrem novamente para mostrar um desfiladeiro, uma Garganta de Cheddar<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>&nbsp;de vermelhos l\u00fagubres. A floresta retorna, salpicada de lagos que parecem conter n\u00e3o \u00e1gua, mas solu\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas reluzentes: sulfato de cobre, violeta de genciana. O t\u00e1xi-a\u00e9reo aterrissa, sacolejante, ao longo de um minguado trecho de terra batida, e os urubus passam feito trapos negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas cidadezinhas nessa terra onde falta tudo s\u00e3o id\u00eanticas. Um impronunci\u00e1vel nome guarani para uma rua de casebres de ripas, afunilando-se nas duas extremidades em choupanas colmadas de sap\u00e9 ou folhas de palmeiras; um armaz\u00e9m, um hotel estilo Laramie,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>&nbsp;com homens dormindo na varanda; um cavalo-espantalho, os ossos prestes a irromper pele afora, amarrado em 1 metro quadrado de sombra; porcos peludos; poeira arom\u00e1tica que a brisa quente levanta.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida passa em c\u00e2mera lenta e em pequena escala. A loja vende cigarros \u2013 se for preciso, divididos meticulosamente com uma l\u00e2mina de barbear \u2013, conchadas de farinha de mandioca, pequenas pilhas de v\u00edsceras para sopa, comprimidos de purgante de 1,2 cent\u00edmetro de di\u00e2metro e coldres lindamente trabalhados. Os fregueses entram n\u00e3o para comprar, mas para estar l\u00e1, perambulando pelas fieiras de peixes secos empoeirados, pendurados no teto. S\u00e3o \u00edndios, mas t\u00e3o desracializados pelo t\u00e9dio e com roupas de algod\u00e3o t\u00e3o molambentas que poderiam ser esquim\u00f3s ou vietnamitas. Eles t\u00eam a express\u00e3o de homens que fitam com olhos estreitos e escrutinadores o interior de bolas de cristal, e falam em voz infantil de grande do\u00e7ura. Como ocorre com os \u00edndios de toda parte, a menor ingest\u00e3o de \u00e1lcool produz uma mudan\u00e7a instant\u00e2nea e mort\u00edfera.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica distra\u00e7\u00e3o que a cidade oferece \u00e9 um cartomante, que trabalha basicamente em sistema de escambo. Ele prediz o futuro de um modo negativo, mas realista, preocupado n\u00e3o tanto com a boa sorte, mas com a evita\u00e7\u00e3o do azar. Os cantos dos olhos de todas as crian\u00e7as est\u00e3o repletos de moscas entorpecidas e que mal se movem. A fazenda, a alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, absorveu tudo, \u00e9 dona da cidade inteira, at\u00e9 mesmo da rua principal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um lugar onde se sup\u00f5e que a crueldade tenha acontecido, mas a superf\u00edcie das coisas foi remendada e renovada, e o aroma da atrocidade se dispersou. Tudo pode ser explicado agora em termos de extremo exagero, ou das m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es dos inimigos pol\u00edticos, e todas as testemunhas da defesa foram arroladas. Por fim, as viol\u00eancias cotidianas de um pa\u00eds violento s\u00e3o citadas para nos fazer lembrar de que isso aqui n\u00e3o \u00e9 a Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Fulano mora com a fam\u00edlia em tr\u00eas c\u00f4modos de uma das poucas edifica\u00e7\u00f5es de alvenaria. Sua postura \u00e9 amb\u00edgua. Ex-agente do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, ele foi inocentado de pr\u00e1ticas financeiras il\u00edcitas e espera para breve um emprego na nova funda\u00e7\u00e3o. Tem um rosto abiss\u00ednio com olhos melanc\u00f3licos, levemente desdenhosos, uma testa alta e nil\u00f3tica e um delicado nariz semita. Orgulha-se do fato de seu pai ser meio negro, meio judeu, um negociante que capturou em casamento uma mo\u00e7a robusta de uma das tribos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNem todos os fazendeiros s\u00e3o ruins\u201d, diz Fulano. \u201cLonge disso. Pelo contr\u00e1rio, a maioria \u00e9 de homens bons. As pessoas sentem inveja do sucesso deles e est\u00e3o de olho em uma maneira de prejudic\u00e1-los.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo caso que voc\u00ea mencionou\u201d, ele continua, \u201co homem era um ladr\u00e3o e um encrenqueiro. Como puni\u00e7\u00e3o, foi trancado em um galp\u00e3o, mais nada. Estava b\u00eabado, entende?, e ele mesmo ateou fogo ao galp\u00e3o. Morreu no inc\u00eandio, sim, mas o m\u00e9dico atestou morte acidental. N\u00e3o houve necessidade nenhuma de um inqu\u00e9rito policial. Em trinta anos de SPI, vi um \u00fanico caso de viol\u00eancia \u2013 se voc\u00ea quiser chamar isto de viol\u00eancia. Os \u00edndios estavam b\u00eabados de cacha\u00e7a mais uma vez, e atacaram o posto. Eles tiveram uma chance de parar, quando os homens atiraram por cima da cabe\u00e7a deles, mas isso n\u00e3o os conteve. Estavam loucos de bebida. O que poder\u00edamos fazer? N\u00e3o tenho sangue nas minhas m\u00e3os.\u201d Ele levanta as m\u00e3os, como que em confirma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o pequenas e bem cuidadas, com palmas p\u00e1lidas e rosadas. Quase fora do campo de vis\u00e3o, sua esposa ocupa-se com alguma tarefa barulhenta na copa da min\u00fascula casa. H\u00e1 um retrato do presidente na parede, outro de sua filhinha vestida para a primeira comunh\u00e3o, e nada comprova, no mobili\u00e1rio barato e feio, que o senhor Fulano tenha conseguido enfeitar o seu ninho com sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conta que ingressou no SPI por voca\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9ramos todos jovens e idealistas. O sal\u00e1rio era menor do que o que se pagava a um carteiro, mas ningu\u00e9m pensava nisso. Dedicar\u00edamos nossa vida para trabalhar em prol dos nossos semelhantes menos afortunados. Se algu\u00e9m por acaso morasse no Rio de Janeiro, assim que sa\u00eda sua nomea\u00e7\u00e3o para o posto era recebido pelo ministro em pessoa, que o cumprimentava e desejava boa sorte. Eu era um rapaz do interior, mas meus amigos contrataram uma banda para a minha despedida na esta\u00e7\u00e3o. Todo mundo insistiu em me dar um presente. Eu tinha tantos len\u00e7os de renda que poderia abrir uma loja. Trazia muito prest\u00edgio trabalhar no SPI naqueles dias.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No declive de ambas as ma\u00e7\u00e3s do rosto dele, sob os tristes olhos am\u00e1ricos, h\u00e1 tr\u00eas marcas esbranqui\u00e7adas e reluzentes, cavidades deixadas pela var\u00edola, e \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o nelas. Ele sacode a cabe\u00e7a. \u201cNingu\u00e9m acreditaria nas condi\u00e7\u00f5es em que n\u00f3s viv\u00edamos. Eles costumavam mostrar fotos do lugar onde os funcion\u00e1rios iriam trabalhar: uma casa com varanda, a escola e o posto de sa\u00fade. Quando cheguei para ocupar meu cargo, chorei feito crian\u00e7a ao ver o lugar. A viagem demorou um m\u00eas e o homem com quem eu deveria estar trabalhando morreu de var\u00edola. Lembro que a primeira coisa que vi foi um \u00edndio morto na beira do rio onde amarraram o barco. Cheguei no meio de uma epidemia de sarampo. Metade do telhado da casa tinha desmoronado. No lugar nunca teve escola, nem aspirina. Quando o sol se punha, era tanto mosquito que eles cobriam o nosso corpo feito uma segunda pele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ele encontra um \u00e1lbum de recortes de jornal em que s\u00e3o registradas as escassas ocasi\u00f5es importantes de sua vida. Em uma fotografia, est\u00e1 de terno escuro e colarinho engomado, recebendo um diploma e os cumprimentos de um pol\u00edtico pelo seu trabalho como civilizador. Em outra, posa ao lado da Miss Pernambuco 1952, e em mais uma foto aparece paternal em uma cerim\u00f4nia na qual uma tribo rec\u00e9m-pacificada est\u00e1 prestes a vestir roupas pela primeira vez. H\u00e1 imagens de \u201cantes\u201d e \u201cdepois\u201d das mulheres tribais, primeiro nuas e em seguida usando jardineiras e saias, n\u00e3o apenas mudadas, mas irreconhec\u00edveis de um minuto para o outro, como se algum feiti\u00e7o maligno tivesse sido lan\u00e7ado sobre elas enquanto se contorciam nas roupas mal-ajambradas e informes. Os poucos recortes pelos quais o visitante passa os olhos por polidez falam do senhor Fulano como um modelo de abnega\u00e7\u00e3o e altru\u00edsmo, e as palavras \u201cservi\u00e7o\u201d e \u201cdevo\u00e7\u00e3o\u201d reaparecem constantemente. \u201cMeu sal\u00e1rio era de 100 cruzeiros novos (12 libras) por m\u00eas\u201d, diz ele, \u201ce \u00e0s vezes o pagamento demorava at\u00e9 seis meses para chegar. S\u00f3 no primeiro ano, tive sarampo, icter\u00edcia e mal\u00e1ria tr\u00eas vezes. Se n\u00e3o fosse pelo fazendeiro eu teria morrido. Ele cuidou de mim como um pai. Era um homem dos mais elevados princ\u00edpios morais poss\u00edveis, e fez muita caridade, como doar 100 mil cruzeiros para uma igreja em Salvador. Agora eu vejo que o filho dele foi formalmente acusado de invadir terras ind\u00edgenas. Tudo o que posso dizer \u00e9 o seguinte: o que os \u00edndios fariam sem ele, eu n\u00e3o sei.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fulano \u00e9 um sujeito leal, nada mais nada menos. \u201cOs fazendeiros n\u00e3o s\u00e3o diferentes de ningu\u00e9m\u201d, diz ele. \u201cHoje em dia tentam insinuar que eles s\u00e3o monstros. Voc\u00ea n\u00e3o deve acreditar em tudo o que l\u00ea.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Seguramente, n\u00e3o seria poss\u00edvel encontrar vivalma nesta cidade capaz de contradiz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>o longo de meio s\u00e9culo, o grande aniquilador do \u00edndio foi a borracha, e, de repente, passou a ser a especula\u00e7\u00e3o com terras. Espalharam-se rumores de vast\u00edssimos recursos minerais \u00e0 espera de explora\u00e7\u00e3o em 2,6 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados at\u00e9 recentemente inacess\u00edveis \u2013 e teve in\u00edcio a grande corrida especulativa. Nenhum recanto, nenhum cafund\u00f3, por mais remoto, por mais impreciso que fosse seu mapeamento, estava a salvo dos agrimensores enviados pelos fazendeiros, por pol\u00edticos e por empresas imobili\u00e1rias e incorporadoras para mensurar o tamanho de suas demandas. Em S\u00e3o Paulo, a sede do&nbsp;<em>boom<\/em>&nbsp;da especula\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio com terras, o grileiro \u2013 especialista em neg\u00f3cios suspeitos e obscuros envolvendo a ocupa\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o de terras \u2013 fez parcerias secretas com seu amigo no governo que estava em posi\u00e7\u00e3o de garantir que os neg\u00f3cios seriam aprovados e levados adiante. Uma grande por\u00e7\u00e3o dessa terra aparentemente vazia estava vazia apenas na medida em que n\u00e3o continha nenhum assentamento de brancos e que os cart\u00f3grafos ainda n\u00e3o haviam colocado os rios e as montanhas nos mapas. Talvez houvesse \u00edndios l\u00e1 \u2013 ningu\u00e9m estaria certo disso at\u00e9 que as terras tivessem sido exploradas \u2013, mas essa possibilidade apresentava apenas uma pequena inconveni\u00eancia. Em teoria, a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira garante aos \u00edndios a posse inviol\u00e1vel de todas as terras por eles ocupadas, mas uma vez provado que a terra ind\u00edgena foi abandonada, ela ser\u00e1 revertida para o governo, ap\u00f3s o que poder\u00e1 ser vendida da maneira habitual. A tarefa do grileiro \u00e9 descobrir \u00e1reas sem ocupantes ou forjar provas de que determinada extens\u00e3o de terras n\u00e3o est\u00e1 mais ocupada \u2013 um problema que, se enfrentado com honestidade, torna-se mais complicado pelo fato de que a maioria dos ind\u00edgenas \u00e9 semin\u00f4made, cultivando lavouras em uma \u00e1rea durante o per\u00edodo de chuvas de ver\u00e3o, em seguida deslocando-se para outras plagas a fim de ca\u00e7ar e pescar durante o inverno seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Um atalho para a resolu\u00e7\u00e3o do problema \u00e9 a expuls\u00e3o dos \u00edndios. Outros grileiros simplesmente ignoram a exist\u00eancia dos ind\u00edgenas, oferecendo terras para compradores ing\u00eanuos, que as adquirem a partir de mapas, e esperando poder resolver as pend\u00eancias legais por meio de manipula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em algum momento posterior.<\/p>\n\n\n\n<p>O grileiro, com suas fraudulentas manobras nos bastidores, foi mantido sob algum controle enquanto o presidente Jo\u00e3o Goulart estava no poder, e por fim ficou claro para os especuladores de terras em grande escala que eles n\u00e3o chegariam a lugar algum at\u00e9 que tivessem um outro presidente. Embora fosse ele pr\u00f3prio um abastado propriet\u00e1rio de terras, Goulart sustentava que o Brasil jamais ocuparia no hemisf\u00e9rio ocidental o lugar a que tinha direito por suas dimens\u00f5es continentais e seus imensos recursos naturais enquanto seguisse claudicando em seus modos feudais, com um \u00edndice de analfabetismo de 86% e a terra concentrada nas m\u00e3os de uma minoria infinitesimalmente pequena, boa parte da qual n\u00e3o empreendia nenhum esfor\u00e7o para desenvolver o pa\u00eds de qualquer forma. O rem\u00e9dio que Goulart prop\u00f4s foi redistribuir 3% das terras de propriedade privada, mas tamb\u00e9m \u2013 o que era muito mais s\u00e9rio \u2013 ressuscitar uma antiga lei que permitia ao governo nacionalizar at\u00e9 10 quil\u00f4metros das faixas de terras ao lado das vias de transporte nacionais \u2013 estradas, ferrovias e canais.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso teria sido um golpe de morte para os especuladores, cuja expectativa era revender suas terras por valores muitas vezes mais altos do que o pre\u00e7o que pagaram, t\u00e3o logo elas se tornassem acess\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de estradas. Uma dessas empresas havia anunciado na imprensa brit\u00e2nica 40 mil hectares de terras \u00e0 venda, oferecidos em lotes m\u00ednimos de 40 hectares, a 5 libras o hectare. Uma fatia inicial de terras j\u00e1 havia sido vendida, anunciou a empresa, \u201cprincipalmente para firmas e fundos de investimento, seguradoras e v\u00e1rios sindicatos\u201d. Um voo fretado seria disponibilizado para compradores de Manchester, Birmingham, Glasgow, Edimburgo, Liverpool e representantes de agricultores do Qu\u00eania que j\u00e1 haviam comprado 20 mil hectares. \u201cH\u00e1 pouca esperan\u00e7a\u201d, dizia o material promocional, \u201cde que a compra da terra d\u00ea algum retorno em poucos anos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, em 1964 as perspectivas especulativas se intensificaram enormemente quando um golpe de Estado foi deflagrado para depor o problem\u00e1tico Goulart, e a corrida pela terra p\u00f4de prosseguir. Um vigoroso ataque promocional foi lan\u00e7ado no mercado dos Estados Unidos, com a distribui\u00e7\u00e3o de folhetos de acabamento luxuoso e palavras astuciosas, que ofereciam encantos e lucros no po\u00e9tico estilo dos an\u00fancios norte-americanos de carros. Propriedades foram colocadas \u00e0 venda fazendo-se refer\u00eancias \u00e0 \u201caventura amaz\u00f4nica\u201d, com alus\u00f5es a macacos e araras e ao brilho oculto de pedras preciosas nas margens de imensos rios navegados pelos navios de Orellana. A campanha obteve algum sucesso. V\u00e1rios astros e estrelas do cinema apostaram em Mato Grosso. Em abril de 1968, de fato, um deputado, Haroldo Veloso, revelou que a maior parte da \u00e1rea da foz do Amazonas havia passado para as m\u00e3os de estrangeiros. Ele mencionou que o pr\u00edncipe Rainier de M\u00f4naco havia comprado em Mato Grosso extens\u00f5es de terra equivalentes a doze vezes o tamanho do principado e que algu\u00e9m, provavelmente fincando a ponta do l\u00e1pis em um mapa, havia adquirido a montanha mais alta do Brasil, o pico da Neblina \u2013 pagou uma ninharia, mas para chegar l\u00e1 qualquer expedi\u00e7\u00e3o devidamente equipada levaria semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o dia do Ju\u00edzo Final para as tribos que tinham sido pacificadas e assentadas em \u00e1reas onde era poss\u00edvel lidar de maneira conveniente com elas. Nas plan\u00edcies das fronteiras com o Paraguai, foi o fim da linha para os kadiw\u00e9us. Em 1865, na guerra contra o Paraguai, eles pegaram suas lan\u00e7as e, no lombo de cavalos desselados, cavalgaram nus em pelo, mas impecavelmente pintados \u2013 uma fant\u00e1stica Carga da Brigada Ligeira,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00e0 frente do Ex\u00e9rcito brasileiro \u2013, para uma vit\u00f3ria esmagadora contra a cavalaria do psicopata ditador paraguaio Solano L\u00f3pez. Por causa da ajuda na guerra, o imperador Pedro ii recebeu o cacique kadiw\u00e9u, paramentado com uma tanga decorada com pedras preciosas, e concedeu \u00e0 sua na\u00e7\u00e3o a posse perp\u00e9tua de 81 milh\u00f5es de hectares na regi\u00e3o fronteiri\u00e7a. Ali, esses espartanos do Ocidente \u2013 poetas e artistas que praticavam o infantic\u00eddio, adotando as crian\u00e7as de outras tribos quando elas tinham idade suficiente para montar cavalos \u2013 foram reduzidos a duzentos sobreviventes, trabalhando como vaqueiros para os fazendeiros que haviam tomado todas as suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tamb\u00e9m o dia do Ju\u00edzo Final para os bororos de L\u00e9vi-Strauss. O formid\u00e1vel antrop\u00f3logo viveu v\u00e1rios anos entre eles na d\u00e9cada de 30, e os bororos o levaram \u00e0s conclus\u00f5es da \u201cantropologia estrutural\u201d, incluindo a proposi\u00e7\u00e3o de que \u201cum povo primitivo n\u00e3o \u00e9 um povo atrasado ou retardado; pode demonstrar um esp\u00edrito de inven\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o que deixa muito aqu\u00e9m os \u00eaxitos dos civilizados\u201d. Acerca desses ind\u00edgenas ele havia dito que \u201cpoucos povos s\u00e3o t\u00e3o profundamente religiosos [\u2026], poucos t\u00eam um sistema metaf\u00edsico de tamanha complexidade. Suas cren\u00e7as espirituais e atividades cotidianas s\u00e3o inextricavelmente entremescladas\u201d. Fazia alguns anos que os bororos viviam longe das complicadas aldeias onde L\u00e9vi-Strauss os estudou, na reserva de Tereza Cristina, no sul de Mato Grosso, terra a eles cedida em regime de \u201cposse perp\u00e9tua\u201d, como sempre, em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria do grande marechal Rondon, ele pr\u00f3prio de ascend\u00eancia bororo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>vida na reserva estava longe de ser feliz para os bororos. Eles viviam da ca\u00e7a, da pesca e, \u00e0 sua maneira, eram excelentes agricultores, mas a reserva era pequena, n\u00e3o restava nenhum animal para ca\u00e7ar, e os rios da regi\u00e3o estavam exauridos de peixes em consequ\u00eancia da pesca ilegal e predat\u00f3ria realizada por empresas comerciais que operavam em grande escala; l\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para praticar o cultivo \u00e0 moda antiga, de maneira semin\u00f4made. O governo tentara transformar os ind\u00edgenas em criadores de gado, mas eles nada sabiam sobre rebanhos. Muitas de suas vacas foram sub-repticiamente vendidas por agentes do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, que embolsaram o dinheiro. Outras \u2013 uma vez que os bororos n\u00e3o faziam ideia de que precisavam construir currais \u2013 perambulavam para fora da reserva e eram surrupiadas pelos fazendeiros das propriedades dos arredores. Antes que acabassem morrendo de doen\u00e7as ou fome, os \u00edndios comeram as poucas vacas que restaram, e depois disso foram reduzidos \u00e0 dieta normal dos tempos dif\u00edceis \u2013 lagartos, gafanhotos e cobras \u2013 al\u00e9m das espor\u00e1dicas esmolas de comida de uma das miss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tamb\u00e9m sofreram com o grande vazio e a falta de prop\u00f3sitos dos \u00edndios cuja cultura tradicional foi destru\u00edda. Os mission\u00e1rios, dos quais eles eram desgra\u00e7adamente dependentes, proibiram a dan\u00e7a, a cantoria e o fumo, e embora os ind\u00edgenas aceitassem com inato estoicismo esse ataque ao princ\u00edpio do prazer, havia uma quarta proibi\u00e7\u00e3o contra a qual continuamente se rebelavam, mas em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00edndios s\u00e3o obcecados por sua rela\u00e7\u00e3o com os mortos e pela condi\u00e7\u00e3o das almas no al\u00e9m-t\u00famulo \u2013 preocupa\u00e7\u00e3o refletida, \u00e0 maneira dos antigos eg\u00edpcios, pelos mais elaborados ritos funer\u00e1rios: orgias de luto e embriaguez, que \u00e0s vezes se prolongavam por dias a fio. Os bororos, aparentemente incapazes de se separar de seus mortos, os enterram duas vezes, e o costume est\u00e1 na base emocional de sua vida. No primeiro sepultamento \u2013 como que na esperan\u00e7a de algum renascimento milagroso \u2013, o corpo \u00e9 colocado em um t\u00famulo tempor\u00e1rio, no centro da aldeia, e coberto de galhos. Quando o processo de decomposi\u00e7\u00e3o e desfigura\u00e7\u00e3o est\u00e1 avan\u00e7ado, a carne \u00e9 removida dos ossos, que s\u00e3o limpos, pintados e amorosamente adornados com penas, ap\u00f3s o que ocorre o enterro final nas profundezas da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o desse costume por um mission\u00e1rio norte-americano reduziu os bororo ao desespero. Mas o mission\u00e1rio conseguiu persuadir a pol\u00edcia local a fazer cumprir sua determina\u00e7\u00e3o de banir os ritos f\u00fanebres, e o grupo de famintos membros da tribo que se arrastaram a p\u00e9 por 320 quil\u00f4metros at\u00e9 a capital do estado e se apresentaram, aos prantos, ao comiss\u00e1rio de pol\u00edcia, foi ignorado.<\/p>\n\n\n\n<p>A derradeira cat\u00e1strofe veio na esteira da devolu\u00e7\u00e3o, pelo governo federal, de alguns de seus poderes \u2013 particularmente os relativos \u00e0 posse e venda de terras \u2013 \u00e0 Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso. Esta imediatamente invocou uma lei pela qual as terras que, ap\u00f3s certo limite de tempo, n\u00e3o haviam sido legalmente medidas e demarcadas voltavam a ser de propriedade do governo. Era um dispositivo legal que sobrecarregava os \u00edndios, muitos dos quais nem sequer percebiam que estavam vivendo no Brasil e com a responsabilidade de contratar advogados para cuidar de seus interesses. A manobra j\u00e1 tinha sido empregada uma vez antes, e com refinamentos adicionais de velhacaria, numa tentativa de roubar os \u00faltimos quinh\u00f5es de terra dos desafortunados kadiw\u00e9us. Na ocasi\u00e3o, parece que existiam apenas dois exemplares dispon\u00edveis da publica\u00e7\u00e3o oficial que registrava a promulga\u00e7\u00e3o da lei, um dos quais havia sido depositado nos arquivos do estado, e o outro, levado no mesmo dia \u00e0 reserva pelas pessoas que propunham o compartilhamento das terras entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma pressa ficou patente na ocupa\u00e7\u00e3o da reserva de Tereza Cristina. Foi uma opera\u00e7\u00e3o desordenada e confusa, aos trancos e barrancos, e no fim ficou claro que a quantidade de terras vendidas no papel era consideravelmente maior do que a \u00e1rea efetiva da reserva. Isso foi antes da desmoraliza\u00e7\u00e3o final e do colapso do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, e as autoridades locais n\u00e3o apenas questionaram a legalidade da venda, mas solicitaram, em v\u00e3o, que tropas estaduais fossem enviadas para recha\u00e7ar uma invas\u00e3o de fazendeiros encabe\u00e7ada por seus ex\u00e9rcitos particulares munidos de submetralhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado de coisas em Tereza Cristina apenas cinco anos depois, em 1968, \u00e9 retratado no testemunho de uma menina bororo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHavia duas fazendas, uma delas chamada Tereza, onde os \u00edndios trabalhavam como escravos. Eles me tiraram da minha m\u00e3e quando eu era crian\u00e7a. Depois ouvi dizer que enforcaram minha m\u00e3e durante a noite [\u2026]. Ela estava muito doente e eu queria v\u00ea-la antes de ela morrer [\u2026]. Quando voltei, eles me deram uma surra com um chicote de couro cru [\u2026]. Eles prostitu\u00edam as \u00edndias [\u2026]. Um dia o agente do SPI ligou para um velho carpinteiro e mandou construir um forno para a casa da fazenda. Quando o carpinteiro terminou, o agente perguntou o que ele queria como pagamento pelo trabalho. O carpinteiro disse que queria uma menina \u00edndia, e o agente o levou at\u00e9 a escola e pediu que ele escolhesse uma. Ningu\u00e9m nunca mais a viu ou ouviu falar dela [\u2026]. Nem mesmo as crian\u00e7as escapavam. A partir dos 2 anos de idade, elas eram postas para trabalhar debaixo de chicote [\u2026]. Havia um moinho para esmagar a cana, e para poupar os cavalos eles usavam quatro crian\u00e7as para girar a m\u00f3. Eles obrigaram o \u00edndio Otaviano a bater na pr\u00f3pria m\u00e3e [\u2026]. Os \u00edndios eram usados para pr\u00e1tica de tiro ao alvo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A<\/strong>ssim os \u00edndios foram desarmados, tra\u00eddos e empurrados no caminho da extin\u00e7\u00e3o. No entanto, no cora\u00e7\u00e3o das florestas de Mato Grosso e da Amaz\u00f4nia, havia tribos que ainda resistiam. Classificados pelo manual do governo como \u201cisolados\u201d, os \u00edndios dessas tribos s\u00e3o descritos como aqueles dotados do maior vigor f\u00edsico. Ningu\u00e9m sabe quantas dessas tribos existem. Pode haver trezentos ou mais, com uma popula\u00e7\u00e3o total de 50 mil, incluindo na\u00e7\u00f5es min\u00fasculas, aut\u00f4nomas, autossuficientes e aparentemente indestrut\u00edveis, que t\u00eam cada uma sua pr\u00f3pria l\u00edngua, organiza\u00e7\u00e3o e costumes completamente separados. Alguns desses ind\u00edgenas s\u00e3o gigantes com bra\u00e7os e pernas herc\u00faleos, armados com imensos arcos longos do tipo que um arqueiro poderia ter usado na Batalha de Cr\u00e9cy.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>&nbsp;Alguns grupos s\u00e3o etnicamente misteriosos, com olhos azuis e cabelos alourados, instigando entre os viajantes da Amaz\u00f4nia desvairadas teorias sobre a exist\u00eancia de uma tribo que supostamente teria emigrado h\u00e1 cerca de 2 mil anos da ilha japonesa de Hokkaido para essas florestas. Um fator comum une todas essas tribos: uma brilhante aptid\u00e3o para a sobreviv\u00eancia \u2013 at\u00e9 agora. Por quatrocentos anos, eles evitaram os traficantes de escravos e sobreviveram \u00e0s epidemias. Armaram-se com constante vigil\u00e2ncia. Prepararam-se para adotar um novo nomadismo t\u00e1tico. Fizeram da desconfian\u00e7a a maior de suas virtudes. Acima de tudo, seus caciques tiveram a intelig\u00eancia e a for\u00e7a para rejeitar as mort\u00edferas ofertas deixadas nas imedia\u00e7\u00f5es de suas aldeias, por meio das quais os brancos buscam primeiro comprar sua amizade e depois tirar sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cintas-largas eram uma dessas tribos que viviam em um magn\u00edfico isolamento, embora prec\u00e1rio, na cabeceira do rio Aripuan\u00e3. Havia cerca de quinhentos deles, ocupando v\u00e1rias aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles usavam machados de pedra, embebiam a ponta de suas flechas em curare, pegavam pequenos peixes envenenando a \u00e1gua, tocavam flautas de 2 metros de comprimento feitas de gigantescos bambus e celebravam duas grandes festas anuais: uma de inicia\u00e7\u00e3o de meninas na puberdade e outra em mem\u00f3ria dos mortos. Em ambos os festejos, dizia-se que usavam uma mistura de ervas desconhecidas para produzir embriaguez durante o ritual. Eles estavam em uma regi\u00e3o que ainda dependia da borracha para obter suas escassas receitas, e isso expunha os ind\u00edgenas a rotineiros ataques de seringueiros, contra os quais eles haviam aprendido a se defender. Sua trag\u00e9dia foi que dep\u00f3sitos de metais raros estavam sendo encontrados na \u00e1rea. Quais eram esses metais, n\u00e3o estava claro. Algum tipo de bloqueio de seguran\u00e7a havia sido imposto, rompido apenas de modo intermitente por vagas not\u00edcias das atividades de empresas norte-americanas e europeias, e do contrabando dos referidos metais raros em avi\u00f5es de carga para os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>David St. Clair, em seu livro&nbsp;<em>The&nbsp;<\/em><em>Mighty, Mighty Amazon<\/em>&nbsp;[<em>Poderosa, Poderosa Amaz\u00f4nia, 1968<\/em>] menciona a exist\u00eancia de empresas que se especializaram em lidar com tribos quando a presen\u00e7a dos ind\u00edgenas passava a ser considerada um inc\u00f4modo, atacando suas aldeias com c\u00e3es famintos e matando todos que tentavam escapar. O \u00eaxito dessas expedi\u00e7\u00f5es dependia da ajuda de um rio naveg\u00e1vel que propiciaria o f\u00e1cil acesso do bando agressor instalado bem perto do povoado ou das aldeias a serem destru\u00eddas. Foi dessa maneira que os bei\u00e7os de pau haviam sido alcan\u00e7ados, e a aproxima\u00e7\u00e3o com eles se deu por meio da doa\u00e7\u00e3o de alimentos misturados com venenos, mas os 5 cent\u00edmetros que no mapa de pequena escala do Brasil separavam essas duas tribos vizinhas continham cordilheiras inexploradas, e o \u00fanico rio corria na dire\u00e7\u00e3o errada. Os cintas-largas, ent\u00e3o, permaneceram, por ora, fora de alcance. Em 1962, um padre mission\u00e1rio, Jo\u00e3o Dornstauder, chegou at\u00e9 eles e fez uma tentativa de pacific\u00e1-los, mas concluiu que era imposs\u00edvel e n\u00e3o valia a pena, ent\u00e3o desistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os planos para livrar-se dos cintas-largas foram definidos em Aripuan\u00e3. Essa pequena vers\u00e3o tropical de Dodge City<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>&nbsp;em 1860 tem o rosto e o f\u00edsico de todos os infernais antros latino-americanos, povoados por homens desesperados que l\u00e1 permanecem apenas porque, por um motivo ou outro, n\u00e3o podem ir embora. Uma fieira de choupanas de madeira sobre palafitas se estende rio abaixo, sob a forte luz do sol. Crian\u00e7as de barriga inchada acocoram-se para tirar piolhos umas das outras; cachorros comem excremento; urubus mancam e se equilibram na borda de uma vala abarrotada de esgoto escuro; o condutor de um carro de boi incita os animais \u2013 carca\u00e7as de couro e ossos \u2013, espetando um graveto sob sua cauda. Todo o mundo carrega uma arma. A cacha\u00e7a oferece o esquecimento a 1 centavo a dose, mas o t\u00e9dio apodrece a mente. Existem duas classes: os que imp\u00f5em sofrimento e os que s\u00e3o totalmente servis. Neste caso, nove d\u00e9cimos da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora s\u00e3o de seringueiros, a maioria foragidos da Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 barato e \u00e0s vezes eficaz \u2013 al\u00e9m de ser procedimento bastante normal, onde as aldeias est\u00e3o fora do alcance \u2013 subornar outros \u00edndios para atac\u00e1-las; e isso foi tentado em um primeiro momento com os cintas-largas. Os kaiabis ou caiabis, vizinhos dos cintas-largas e dos bei\u00e7os de pau, haviam sido dispersados quando o governo de Mato Grosso vendeu as terras da tribo para v\u00e1rios empreendimentos comerciais \u2013 parte dos ind\u00edgenas migrou para uma serra distante, enquanto um pequeno grupo permaneceu nessa \u00e1rea de Aripuan\u00e3, onde vivia em estado de indig\u00eancia. Esse grupo pegou a comida e as armas que lhe foram oferecidas como pagamento inicial, depois levantou acampamento e, na surdina, fugiu na dire\u00e7\u00e3o oposta, para nunca mais ser visto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, um garimpo \u2013 um grupo organizado de exploradores de diamantes \u2013 apareceu na vizinhan\u00e7a. Os garimpeiros estavam todos em p\u00e9ssimo estado por causa de dist\u00farbios ocasionados pela desnutri\u00e7\u00e3o. Tinham atacado uma aldeia ind\u00edgena, foram espancados e depois emboscados, e v\u00e1rios deles ficaram feridos. A inten\u00e7\u00e3o tinha sido capturar pelo menos uma mulher, n\u00e3o apenas para uso sexual, mas como fonte de suprimento de urina feminina fresca, tida como um rem\u00e9dio certeiro para as feridas infectadas que fazem sofrer os garimpeiros em geral e s\u00e3o causadas pelas arraias que pululam nos rios em que eles trabalham.<\/p>\n\n\n\n<p>Os garimpeiros s\u00e3o organizados sob as ordens de um capit\u00e3o que lhes fornece alimentos e equipamentos, e a quem eles s\u00e3o obrigados a vender seus diamantes \u2013 sob pena de serem abandonados na floresta e morrerem de fome. Assim como os seringueiros \u2013 seus inimigos tradicionais \u2013, eles s\u00e3o em sua maioria procurados pela pol\u00edcia. A disputa entre esses dois tipos de foras da lei surge do h\u00e1bito dos seringueiros de espreitar e atirar no garimpeiro solit\u00e1rio, na esperan\u00e7a de que ele possa ter consigo um ou dois diamantes. Nesse caso, emiss\u00e1rios negociaram uma tr\u00e9gua, e os garimpeiros foram levados para a cidade e receberam comida; um m\u00e9dico da companhia fez curativos nos homens feridos. Prop\u00f4s-se ent\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o conjunta contra os cintas-largas, e o capit\u00e3o aceitou a sugest\u00e3o e concordou em destacar seis homens para esse fim t\u00e3o logo todos estivessem totalmente descansados. Na condi\u00e7\u00e3o em que se encontravam, talvez estivessem dispostos a concordar com qualquer coisa, mas assim que os garimpeiros ganharam um pouco de peso e seus ferimentos sararam, houve um abrupto esfriamento no clima de amizade. Aripuan\u00e3 n\u00e3o era uma cidade grande o suficiente para conter duas personalidades t\u00e3o afeitas a conflitos armados como o capit\u00e3o do garimpo e o capataz dos seringueiros. Durante algum tempo, os paup\u00e9rrimos seringueiros toleraram a situa\u00e7\u00e3o, enquanto os pr\u00f3speros garimpeiros comportavam-se com arrog\u00e2ncia nos bares, bancando os valent\u00f5es e monopolizando as prostitutas da cidade. Por fim, inevitavelmente, a&nbsp;<em>entente cordiale<\/em>&nbsp;descambou em tiroteio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1963, uma s\u00e9rie de expedi\u00e7\u00f5es foi organizada sob a lideran\u00e7a de Francisco Amorim de Brito, encarregado-geral da empresa seringalista Arruda, Junqueira &amp; Cia., de Ju\u00edna-Mirim, perto de Aripuan\u00e3, no rio Juruena.<\/p>\n\n\n\n<p>Brito era um monstro lend\u00e1rio que mantinha a ordem entre os rufi\u00f5es que ele comandava gra\u00e7as a uma pistola autom\u00e1tica calibre .45 e um chicote de couro de anta de 1,5 metro. Ele gostava de fazer tro\u00e7a dos \u00edndios, e quando um deles era capturado, levava-o para o que era conhecido como \u201ca visita ao dentista\u201d: o \u00edndio recebia ordens para \u201cabrir bem a boca\u201d, e, ato cont\u00ednuo, Brito sacava uma pistola e atirava dentro. Havia entre os seringueiros uma ferrenha competi\u00e7\u00e3o para saber quem era o maior assassino de \u00edndios, e, embora o t\u00edtulo de campe\u00e3o fosse ostentado por Brito, a opini\u00e3o local era de que sua pontua\u00e7\u00e3o havia sido superada por um de seus subordinados, que se especializou em matar \u00edndios de forma aleat\u00f3ria, disparando das margens do rio como um franco-atirador.<\/p>\n\n\n\n<p>As expedi\u00e7\u00f5es montadas por Brito foram bem-sucedidas na elimina\u00e7\u00e3o dos cintas-largas de uma dada \u00e1rea, insignificante para os padr\u00f5es brasileiros, embora equivalente a cerca de metade da \u00e1rea da Inglaterra ao sul do T\u00e2misa; mas restava uma grande aldeia considerada inacess\u00edvel a p\u00e9 ou de canoa, e decidiu-se atac\u00e1-la por meio de avi\u00e3o. Nesse ponto, fica evidente que um tipo melhor de c\u00e9rebro come\u00e7ou a se interessar por essas opera\u00e7\u00f5es, e quem quer que tenha planejado o ataque a\u00e9reo estava claramente empenhado em descobrir tudo o que podia sobre os costumes dos cintas-largas.<\/p>\n\n\n\n<p>Era considerado essencial produzir o m\u00e1ximo de v\u00edtimas em uma investida devastadora, num momento em que o maior n\u00famero poss\u00edvel de \u00edndios estivesse presente na aldeia. Um especialista aconselhou que a melhor ocasi\u00e3o para isso seria durante a festa anual do quarup. Essa grandiosa cerim\u00f4nia ritual\u00edstica dura um dia e uma noite, e sob um ou outro nome \u00e9 realizada por quase todas as tribos ind\u00edgenas cuja cultura n\u00e3o foi destru\u00edda. O quarup \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o teatral das lendas da cria\u00e7\u00e3o entrela\u00e7adas com as da pr\u00f3pria tribo, tanto um mist\u00e9rio medieval quanto uma reuni\u00e3o de fam\u00edlia de que participam n\u00e3o apenas os esp\u00edritos vivos, mas tamb\u00e9m os ancestrais. Estes aparecem como dan\u00e7arinos mascarados, para serem consultados sobre problemas imediatos, consolar os enlutados e atestar que nem mesmo a morte \u00e9 capaz de perturbar a unidade da tribo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>U<\/strong>m monomotor Cessna usado para servi\u00e7os comerciais comuns foi alugado para o ataque, e seu piloto habitual foi substitu\u00eddo por um aventureiro de ascend\u00eancia \u00edtalo-nip\u00f4nica. A aeronave foi carregada com bast\u00f5es de dinamite \u2013 \u201cbananas\u201d, como s\u00e3o chamadas no Brasil \u2013 e decolou de uma pista de pouso na selva perto de Aripuan\u00e3. O Cessna chegou ao vilarejo por volta do meio-dia. Os \u00edndios haviam passado a noite inteira se preparando, orando e cantando, e agora estavam todos reunidos no espa\u00e7o aberto no centro da vila. No primeiro sobrevoo, pacotes de a\u00e7\u00facar foram jogados para aplacar os temores dos que haviam se espalhado e corrido para abrigos ao avistar o avi\u00e3o. Eles abriram os pacotes e estavam saboreando o a\u00e7\u00facar dez minutos depois, quando a aeronave voltou e deu um rasante para desferir o ataque e dinamitar a aldeia. Ningu\u00e9m jamais conseguiu descobrir quantos \u00edndios morreram, porque os corpos foram enterrados na margem do rio e a aldeia foi abandonada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo essa solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mostrou definitiva. Do avi\u00e3o foram avistados sobreviventes, e houve relatos de que eles estavam construindo novos assentamentos na cabeceira do Aripuan\u00e3, e mais uma vez Brito arregimentou um contingente terrestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mateiros seriam conduzidos em canoas por um homem chamado Chico, um subalterno de Brito. A hist\u00f3ria completa do que aconteceu foi descrita por um dos participantes do grupo de ataque, o seringueiro Ata\u00edde Pereira dos Santos, que, atormentado por sua consci\u00eancia e tamb\u00e9m incomodado pelo fato de nunca ter recebido os 15 d\u00f3lares que lhe prometeram por seus atos sangrentos, foi confessar tudo ao padre Edgar Schmidt, um sacerdote jesu\u00edta, que registrou o depoimento em um gravador e entregou a fita ao Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s fomos de lancha pelo Juruena\u201d, diz Ata\u00edde. \u201c\u00c9ramos seis, homens experientes, comandados pelo Chico, que costumava enfiar a metralhadora na cara da pessoa sempre que dava uma ordem!\u201d (Por fim, descobriu-se que Chico n\u00e3o era um mero s\u00e1dico comum das terras baldias brasileiras. Para esse tipo de latino-americano \u2013 e eles t\u00eam sido os carrascos de tantas revolu\u00e7\u00f5es \u2013, o suprassumo da empolga\u00e7\u00e3o est\u00e1 no uso man\u00edaco do fac\u00e3o em suas v\u00edtimas, e foi para usar o fac\u00e3o que Chico partiu naquela expedi\u00e7\u00e3o.) \u201cLevamos muitos dias rio acima at\u00e9 a Serra do Norte. Depois disso, nos perdemos na floresta, apesar do Chico ter trazido uma b\u00fassola japonesa. No final, o avi\u00e3o nos encontrou. Era o mesmo avi\u00e3o que usaram para massacrar os \u00edndios, e eles nos jogaram comida e muni\u00e7\u00e3o. Depois disso, continuamos. A nossa comida acabou de novo. A\u00ed encontramos uma aldeia ind\u00edgena que tinha sido destru\u00edda por um bando liderado por um atirador chamado Tenente, e desenterramos mandioca dos \u00edndios para comer e pegamos uns peixes pequenos. A essa altura, a gente estava de saco cheio e alguns j\u00e1 queriam voltar, mas o Chico disse que mataria qualquer um que tentasse desertar. Cinco dias depois, vimos uma fuma\u00e7a. Mesmo assim, os cintas-largas estavam a uns dias de dist\u00e2ncia. N\u00f3s t\u00ednhamos muito medo uns dos outros. Nesse lugar, as pessoas atiram umas nas outras e tomam tiro sem nem saber por qu\u00ea. Quando fazem um buraco em voc\u00ea, eles enfiam uma flecha na ferida, para botar a culpa nos \u00edndios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa expedi\u00e7\u00e3o respirava o medo no ar. Ata\u00edde relata que havia diamantes e ouro em todos os rios, e a sombra dos garimpeiros os espreitava de tr\u00e1s de cada pedra e \u00e1rvore. A morte violenta levaria a maioria desses homens, mais cedo ou mais tarde. Por causa das febres sem fim, da desnutri\u00e7\u00e3o, exaust\u00e3o, desesperan\u00e7a e bebedeira, a meia-idade tomava conta prematuramente dos seringueiros, aos 20 e poucos anos, eram raros os que viviam o suficiente para completar o trig\u00e9simo anivers\u00e1rio. Sua vida era ceifada por infec\u00e7\u00f5es que se convertiam em gangrena ou envenenamento do sangue; ou ent\u00e3o sofriam uma morte horrenda, depois de ficarem paral\u00edticos, ou cegos, ou loucos, devido a alguma doen\u00e7a tropical obscura; ou simplesmente se matavam uns aos outros em uma s\u00fabita explos\u00e3o neur\u00f3tica de \u00f3dio provocada por qualquer motivo, at\u00e9 o mais insignificante \u2013 uma aposta, ou uma briga por causa de alguma prostituta enfermi\u00e7a durante um baile no povoado.<\/p>\n\n\n\n<p>Abrindo caminho \u00e0 base de picadas em recessos profundos da floresta, l\u00e1 onde a luz do sol n\u00e3o chega nunca, ao longo de um m\u00eas ou mais de marcha a partir do pavoroso alojamento onde moravam, os homens dependiam do psicopata Chico e de sua b\u00fassola japonesa para sobreviver. Era o come\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o das chuvas: depois de uma manh\u00e3 de calor sufocante, chuvaradas torrenciais e repentinas os deixavam encharcados todas as tardes. Eles eram assolados por insetos que tinham acabado de ser chocados, como os piuns, os piores de todos e que, quase invis\u00edveis, enterram-se na pele das pessoas para se empanturrar de sangue, e contra os quais a \u00fanica defesa \u00e9 esparramar uma camada de sujeira em todas as partes expostas do corpo. Alguns dos homens estavam empolados de p\u00fastulas causadas pela seiva ardente que escorria dos cip\u00f3s que eles cortavam a golpes de fac\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFomos escolhidos a dedo para o trabalho\u201d, diz Ata\u00edde, numa med\u00edocre tentativa de&nbsp;<em>esprit de corps<\/em>, \u201c\u00e9ramos t\u00e3o silenciosos quanto qualquer \u00edndio quando se tratava de se deslocar furtivamente entre as \u00e1rvores. Quando chegamos \u00e0 maloca dos cintas-largas, ningu\u00e9m mais conversou, e nem um cigarro foi fumado. Assim que vimos a aldeia deles, fizemos uma parada para passar a noite. Acordamos antes do amanhecer, depois nos arrastamos metro a metro pela vegeta\u00e7\u00e3o rasteira at\u00e9 chegar ao alcance da linha de mira; depois disso, esperamos o sol nascer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAssim que raiou o dia os \u00edndios sa\u00edram e come\u00e7aram a trabalhar numas choupanas que estavam construindo. Chico me deu a tarefa de ir atr\u00e1s do chefe e mat\u00e1-lo. Eu notei que um dos \u00edndios estava isolado, sem fazer nenhum trabalho. Ele s\u00f3 ficava encostado numa pedra, fiscalizando e dando ordem pros outros, e por isso pensei que ele devia ser o homem que a gente procurava. Contei pro Chico e ele disse: \u2018Cuida dele e deixa o resto comigo\u2019, e eu o atingi no peito com o meu primeiro tiro. Eu era considerado o atirador de elite da equipe, e apesar de eu s\u00f3 ter uma carabina velha posso garantir que eu nunca erro. Chico disparou contra o chefe uma rajada de metralhadora, s\u00f3 para ter certeza, e depois disso abriram fuzilaria\u2026 Tudo o que os meus companheiros tinham que fazer era acabar com qualquer um que mostrasse sinal de vida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que eu vou relatar agora \u00e9 brutal, e eu fui contra isso. Sobrou uma jovem \u00edndia em quem eles n\u00e3o atiraram; ela estava de p\u00e9 segurando pela m\u00e3o um menino de uns de 5 anos, que se esgoelava de tanto chorar e gritar. Chico foi para cima dela. Eu falei para ele n\u00e3o fazer isso, mas ele disse: \u2018\u00c9 preciso matar essas pragas.\u2019 Eu disse: \u2018Olha, voc\u00ea n\u00e3o pode fazer isso \u2013 o que os padres v\u00e3o dizer quando voc\u00ea voltar?\u2019 Ele n\u00e3o deu a m\u00ednima. Atirou com a .45 na cabe\u00e7a do menino, e depois agarrou a mulher \u2013 que ali\u00e1s era muito bonita. \u2018Seja sensato\u2019, insisti. \u2018Por que voc\u00ea precisa matar a mo\u00e7a?\u2019 A meu ver aquilo era, al\u00e9m de tudo o mais, um desperd\u00edcio. \u2018Por que a gente n\u00e3o entrega ela pros rapazes? Faz seis semanas que eles n\u00e3o botam os olhos em mulher. Se isso n\u00e3o der certo, a gente pode levar a mo\u00e7a de volta com a gente e dar de presente pro Brito. N\u00e3o faz mal nenhum ficar numa boa com ele.\u2019 Tudo o que ele respondeu foi: \u2018Quem quiser mulher que v\u00e1 buscar no mato.\u2019\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodos n\u00f3s achamos que ele tinha ficado louco, e sentimos muito medo dele. Ele arrastou a mulher e pendurou com uma corda em uma \u00e1rvore, de cabe\u00e7a para baixo, as pernas bem abertas e com um s\u00f3 golpe do fac\u00e3o abriu o corpo dela ao meio. A aldeia parecia um matadouro. Ele s\u00f3 se acalmou depois que esquartejou o corpo da mulher, e mandou que toc\u00e1ssemos fogo na maloca e jog\u00e1ssemos os corpos no rio. Depois disso, pegamos nossas coisas e fizemos o caminho de volta. Continuamos at\u00e9 o anoitecer e tomamos o cuidado de apagar o nosso rastro. Se os \u00edndios tivessem nos encontrado, n\u00e3o adiantava tentar enganar dizendo que a gente era s\u00f3 uns sertanejos comuns. Levamos seis semanas para encontrar os cintas-largas e uma semana para voltar. Eu quero dizer agora que pessoalmente eu n\u00e3o tenho nada contra os \u00edndios. O Chico encontrou alguns minerais e levou de volta para deixar a companhia satisfeita. O fato \u00e9 que os \u00edndios est\u00e3o montados em cima de terras valiosas e n\u00e3o fazem nada com elas. Eles t\u00eam uma maneira de encontrar a melhor terra para o plantio e todos esses minerais valiosos tamb\u00e9m. Eles t\u00eam que ser convencidos a ir embora, mas se tudo o mais falhar, bom, ent\u00e3o tem que ser pela for\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Brito, o homem que organizou a expedi\u00e7\u00e3o, morreria um ano depois em circunst\u00e2ncias terr\u00edveis. Quando ele tinha alguma queixa contra um de seus companheiros, normalmente o amarrava e o espancava at\u00e9 o sangue escorrer e molhar as botinas do homem, mas em casos graves obrigava um de seus capangas a usar o chicote enquanto estuprava a esposa do culpado. Um italiano chamado Cavalcanti, que tentou atacar o capataz depois de receber uma severa puni\u00e7\u00e3o, foi logo morto a tiros e teve seu corpo incinerado. Seguiu-se uma revolta dos seringueiros, na qual nove foram mortos. N\u00e3o foi f\u00e1cil matar Brito, que, encurralado, absorveu como Rasputin v\u00e1rias balas, al\u00e9m de uma estocada de fac\u00e3o no est\u00f4mago, antes de tombar. Depois disso, foi estripado, teve as entranhas recolocadas e cobertas com um tamp\u00e3o de palha, foi arrastado ainda vivo para um descampado e deixado ali para as formigas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Q<\/strong>uantas ca\u00e7adas a \u00edndios como a que se organizou contra os cintas-largas devem ter passado despercebidas no passado, censuradas, na pior das hip\u00f3teses, como um mal necess\u00e1rio? Ata\u00edde fala delas como se fossem um lugar-comum, e a probabilidade \u00e9 confirmada pelo depoimento de certo padre Waldemar Weber ao inspetor de pol\u00edcia Salgado, da 3\u00aa \u00c1rea Divisional de Cuiab\u00e1, que investigou o caso. O padre declarou: \u201cN\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a firma Arruda, Junqueira &amp; Cia. comete crimes contra os \u00edndios. V\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es foram organizadas no passado. Essa firma atua como fachada para outros empreendimentos que est\u00e3o interessados em adquirir terras ou que pretendem explorar os ricos dep\u00f3sitos minerais existentes nessa \u00e1rea.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se considera o clima miasm\u00e1tico de submiss\u00e3o em que esses remotos baronatos operam, no qual a voz que se levanta em protesto pode ser instantaneamente sufocada e tantas falsas testemunhas quantas forem necess\u00e1rias surgem com o estalar de um dedo, parece extraordin\u00e1rio que uma a\u00e7\u00e3o policial pudesse um dia ser cogitada contra a Arruda, Junqueira &amp; Cia. Ainda mais quando se examinam os escassos recursos judiciais existentes na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Den\u00fancias como as feitas por Ata\u00edde s\u00e3o esquecidas nos arquivos policiais \u00e0s centenas, simplesmente porque a pol\u00edcia aprendeu a n\u00e3o desperdi\u00e7ar suas for\u00e7as tentando o imposs\u00edvel. Nove crimes graves de cada dez provavelmente nunca v\u00eam \u00e0 tona. O problema do descarte do corpo \u2013 aspecto t\u00e3o poderoso para impedir assassinatos \u2013 n\u00e3o existe nesses lugares em que o cad\u00e1ver pode ser jogado no riacho mais pr\u00f3ximo, onde, se um jacar\u00e9 n\u00e3o der cabo dele, as piranhas podem reduzi-lo a um esqueleto limpo em poucos minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do descarado e desdenhoso d\u00e9cimo crime, quando um homem mata sua v\u00edtima em p\u00fablico e n\u00e3o toma a menor iniciativa de ocultar o homic\u00eddio, ele sabe que est\u00e1 sob a poderosa prote\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia e da inacessibilidade. Aripuan\u00e3 fica a 965 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, a capital e sede da Justi\u00e7a de Mato Grosso, e s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel chegar l\u00e1 por meio de voos irregulares. De mais a mais, na \u00e9poca em que o inspetor Job Maia Salgado iniciou sua investiga\u00e7\u00e3o, cerca de mil processos criminais aguardavam julgamento em Cuiab\u00e1, onde, como a min\u00fascula cadeia local s\u00f3 tem capacidade para cerca de cinquenta pessoas (detentos de todos os sexos e idades s\u00e3o mantidos juntos), a maioria dos criminosos permanece em liberdade aguardando julgamento, o que pode demorar e sofrer longos adiamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa de Salgado imediatamente complicou-se em raz\u00e3o de fatores n\u00e3o relacionados \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es normais da geografia e das comunica\u00e7\u00f5es. Principal testemunha e assassino confesso, Ata\u00edde era agora dono de uma barraca de doces nas ruas de Cuiab\u00e1 e poderia ser capturado a qualquer momento, mas outras testemunhas essenciais come\u00e7avam a desaparecer. Dois dos membros da expedi\u00e7\u00e3o de Chico conseguiram morrer afogados \u201cem viagens de pesca\u201d. O piloto do avi\u00e3o usado no ataque aos cintas-largas teria morrido em um acidente a\u00e9reo. Brito tinha sido, claro, assassinado na revolta dos seringueiros, e at\u00e9 mesmo o padre Schmidt, que havia gravado a confiss\u00e3o de Ata\u00edde, n\u00e3o p\u00f4de ser encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da s\u00e9rie de contratempos, Salgado concluiu o inqu\u00e9rito policial contra Ant\u00f4nio Junqueira e Sebasti\u00e3o Arruda exatamente tr\u00eas anos ap\u00f3s o in\u00edcio das investiga\u00e7\u00f5es, e os documentos foram enviados ao juiz. De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o brasileira, no entanto, o procedimento seguinte \u00e9 a acusa\u00e7\u00e3o formal, a den\u00fancia, que deve ser feita pelo promotor p\u00fablico, e agora est\u00e1 evidente que o caso jamais conseguir\u00e1 superar esse obst\u00e1culo. Em pa\u00edses como o Brasil, onde a classe m\u00e9dia est\u00e1 apenas emergindo, a aristocracia fundi\u00e1ria e os chef\u00f5es de grandes firmas comerciais est\u00e3o protegidos de maneira quase inexpugn\u00e1vel das consequ\u00eancias de seus delitos e contraven\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as a casamentos din\u00e1sticos, interesses interligados e pactos de seguran\u00e7a m\u00fatua entre esses homens com poderosos amigos pol\u00edticos. N\u00e3o se trata, de forma alguma, de um fen\u00f4meno exclusivamente latino-americano, e predomina em igual medida na Europa mediterr\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o promotor p\u00fablico, Lu\u00eds Vidal da Fonseca, prontamente objetou que o crime n\u00e3o poderia ser julgado em Cuiab\u00e1 porque Aripuan\u00e3 estava sob a jurisdi\u00e7\u00e3o, alegou ele, do munic\u00edpio de Diamantino. Os documentos foram despachados para Diamantino, de onde o juiz imediatamente enviou-os de volta a Cuiab\u00e1. A quest\u00e3o foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, e determinou-se que o julgamento deveria ocorrer em Cuiab\u00e1. At\u00e9 ent\u00e3o, somente um m\u00eas havia sido perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonseca ent\u00e3o se declarou impedido de atuar no caso, alegando que era advogado da firma Arruda, Junqueira &amp; Cia. Um segundo promotor p\u00fablico recusou o fardo desse embara\u00e7oso encargo, e o juiz de Cuiab\u00e1 concordou com ele e indeferiu o pedido de Fonseca. Para anular a decis\u00e3o local, Fonseca recorreu novamente ao Supremo Tribunal Federal. O pedido foi recusado. Nove meses se passaram em manobras desse tipo, e j\u00e1 era abril de 1967.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, empreendeu-se uma tentativa de solucionar as dificuldades, para a satisfa\u00e7\u00e3o de todas as partes interessadas, nomeando-se um promotor substituto \u2013 que imediatamente declarou-se impedido de julgar o caso com base na rela\u00e7\u00e3o um tanto remota de sua esposa com Sebasti\u00e3o Arruda. O pedido foi acatado, e em seguida nomeou-se outro promotor p\u00fablico, que se recusou a arbitrar, fundamentando sua recusa na invalidade legal da obje\u00e7\u00e3o de Fonseca. Toda a papelada do processo foi devolvida a Fonseca.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1967, foi nomeado um quarto promotor substituto, que, em vez de agir, enviou os documentos ao procurador federal, que confirmou a decis\u00e3o original de que Fonseca, que se mudara, era competente para atuar no caso. A isso seguiu-se um intermin\u00e1vel vaiv\u00e9m jur\u00eddico em meio a pendengas sobre min\u00facias legais e \u00e0 entrada e sa\u00edda de uma s\u00e9rie de promotores substitutos at\u00e9 mar\u00e7o de 1968, quando o procurador federal foi instado a protestar: \u201cDesde agosto de 1966, os documentos relativos a esse caso v\u00eam sendo embaralhados e transferidos em um intermin\u00e1vel jogo de desculpas e pretextos farsescos, em grave detrimento do prest\u00edgio da Justi\u00e7a.\u201d Com tal encorajamento, o oitavo ou nono procurador substituto tomou atitudes concretas e formalizou uma acusa\u00e7\u00e3o contra os assassinos dos cintas-largas, quase todos agora, depois de cinco anos, mortos ou desaparecidos. Os nomes de Ant\u00f4nio Junqueira e Sebasti\u00e3o Arruda foram omitidos da den\u00fancia, \u201cposto que sua anu\u00eancia ao massacre dos \u00edndios nunca foi estabelecida\u201d. Com isso, a pol\u00edcia tentou fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, ordenando a pris\u00e3o preventiva dos dois homens. O que n\u00e3o p\u00f4de ser efetuado, pois eles estavam escondidos ou vivendo na clandestinidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Lemos a hist\u00f3ria dos quatro anos de batalha judicial contra a firma Arruda, Junqueira &amp; Cia., e a imagina\u00e7\u00e3o titubeia ao vislumbrar o que o futuro reserva aos defensores da justi\u00e7a para os \u00edndios \u2013 a h\u00e1bil e met\u00f3dica perda de tempo, as alega\u00e7\u00f5es de impedimento ou de suspei\u00e7\u00e3o, as demandas por novos julgamentos, os recursos e os contrarrecursos, \u00e0 medida que os meses se convertem em anos e os anos em d\u00e9cadas, e o \u00edndio lentamente desaparece do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>E se algum dia, depois de resolvidas todas as a\u00e7\u00f5es judiciais, uma pequena fatia de terra for arrancada dos grandes bancos, das corpora\u00e7\u00f5es, dos fazendeiros, das concession\u00e1rias de explora\u00e7\u00e3o madeireira e de minera\u00e7\u00e3o que agora s\u00e3o donas de vastas \u00e1reas \u2013 o que ainda deve ser feito? Pode o \u00edndio que se tornou parasita da miss\u00e3o, miraculosamente reformado no corpo e no esp\u00edrito, retornar \u00e0 vida livre dos isolados? Existe algum rem\u00e9dio para o \u00edndio que, no grande dia da reintegra\u00e7\u00e3o de posse de sua terra, encontrar\u00e1 a floresta extinta e, no lugar dela, uma plan\u00edcie arruinada, sufocada pela caatinga? Pode um povo feliz, vi\u00e1vel e autossuficiente ser restaurado com alguns poucos grupos de seres humanos alquebrados?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong>novo \u00f3rg\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), encontra algumas raz\u00f5es para a esperan\u00e7a no Parque Nacional do Xingu [<em>atual Parque Ind\u00edgena do Xingu<\/em>]. Essa \u00e9 a magn\u00edfica cria\u00e7\u00e3o surgida quase que do esfor\u00e7o exclusivo de dois devotados indigenistas fundamentalistas, os irm\u00e3os Villas-B\u00f4as \u2013 Orlando, Cl\u00e1udio e Leonardo \u2013, que acreditam que o parque permanecer\u00e1 por toda a eternidade como um reduto imut\u00e1vel do antigo modo de vida ind\u00edgena \u2013 uma convic\u00e7\u00e3o que \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem dela compartilhe. Foi fundado h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o, quando as fazendas ainda estavam laboriosamente absorvendo territ\u00f3rios fronteiri\u00e7os a centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, entretanto seus apetites voltaram a se agu\u00e7ar agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O parque abriga talvez \u00edndios de uma d\u00fazia de tribos, que l\u00e1 vivem alegremente obcecados com seus rituais da Idade da Pedra, absortos pelo artesanato perfeccionista, pela pintura corporal, mantendo acesas preciosas fogueiras. Os irm\u00e3os Villas-B\u00f4as acreditam que at\u00e9 mesmo a aspirina \u00e9 prejudicial \u00e0 autossufici\u00eancia do \u00edndio; eles excluem os mission\u00e1rios e n\u00e3o acolhem de bom grado visitantes de qualquer tipo. No mapa do parque afixado no escrit\u00f3rio da Funai h\u00e1 linhas pontilhadas mostrando as extens\u00f5es a que eles se prop\u00f5em chegar, e que supostamente duplicar\u00e3o sua \u00e1rea atual; e, lembrando-se do destino do presidente Jo\u00e3o Goulart, quando o idealismo e os interesses comerciais entraram em rota de colis\u00e3o, s\u00f3 se pode imaginar e especular.<\/p>\n\n\n\n<p>Na melhor das hip\u00f3teses, e se esse incremento na extens\u00e3o territorial do parque vier a ocorrer, um total de 4 mil \u00edndios isolados estar\u00e3o protegidos, al\u00e9m de algumas outras centenas em uma nova reserva rec\u00e9m-criada nas montanhas do Tumucumaque, no extremo norte, onde estar\u00e3o resguardados como as raras aves de rapina das Terras Altas da Esc\u00f3cia. O futuro dos 50 mil ou 100 mil ind\u00edgenas \u2013 seja l\u00e1 qual for a cifra \u2013 deixados de fora dessas reservas parece, com efeito, incerto. No momento, eles est\u00e3o at\u00e9 certo ponto protegidos por um sentimento nacional de autorrecrimina\u00e7\u00e3o, que, quase certamente, h\u00e1 de arrefecer at\u00e9 a indiferen\u00e7a. Existem no Brasil, no m\u00e1ximo, 100 mil \u00edndios puros em uma popula\u00e7\u00e3o total de 80 milh\u00f5es de pessoas, e \u00e9 irrealista acreditar que o bem-estar deles possa um dia tornar-se uma obsess\u00e3o para um pa\u00eds no qual multid\u00f5es s\u00e3o jogadas juntas no fosso da pen\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;O militar e escritor Peter Fleming (1907-71) esteve no Brasil em 1932, no encal\u00e7o do explorador e coronel brit\u00e2nico Percy Fawcett, que desapareceu na Amaz\u00f4nia. Fleming contou a viagem no livro&nbsp;<em>Uma Aventura no Brasil<\/em>, publicado originalmente em 1933 e s\u00f3 lan\u00e7ado no Brasil em 2007. Ele era o irm\u00e3o mais velho do escritor Ian Fleming, criador de James Bond.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;No censo de 2010 do IBGE, 897 mil pessoas se declararam ind\u00edgenas. Dessas, 672,5 mil disseram o nome da etnia \u00e0 qual pertencem. Em rela\u00e7\u00e3o aos povos citados pelo autor, os dados indicam que em 2010 havia no pa\u00eds 13,1 mil munducurus; 7,5 mil guaranis; 4,3 mil caraj\u00e1s; 1,8 mil cintas-largas; 1,5 mil kadiw\u00e9us; 2,3 mil bororos; 19 mil xavantes; e 135 tapaiunas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;O autor se refere provavelmente a Montaigne. Em geral \u00e9 a ele e a Rousseau que se costuma atribuir a a figura do \u201cbom selvagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;O autor se refere \u00e0 regi\u00e3o na conflu\u00eancia dos rios Klondike e Yukon, no Canad\u00e1, onde se descobriu ouro em 1896.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;Roger Casement (1864-1916), diplomata e poeta brit\u00e2nico de origem irlandesa, denunciou os abusos da coloniza\u00e7\u00e3o no Congo e tamb\u00e9m os cometidos na Amaz\u00f4nia, para onde viajou duas vezes, em 1910 e 1911, como c\u00f4nsul-geral brit\u00e2nico no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;O Teatro Amazonas passou por reformas em 1929, 1974 e 1989, e est\u00e1 atualmente em funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;\u201cN\u00e3o conformistas\u201d \u00e9 o termo usado no Reino Unido para designar todos os protestantes brit\u00e2nicos que n\u00e3o seguem a doutrina da Igreja Anglicana, como os batistas, congregacionistas e presbiterianos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;Gilles de Rais (1404-40), nobre e militar franc\u00eas, foi condenado \u00e0 forca, acusado de tortura e morte de centenas de crian\u00e7as e adolescentes, entre outros crimes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>&nbsp;Desfiladeiro no condado de Somerset, no sudoeste da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>&nbsp;Cidade t\u00edpica do Oeste dos Estados Unidos, localizada no estado de Wyoming.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>&nbsp;Carga de cavalaria brit\u00e2nica lan\u00e7ada contra os russos durante a Batalha de Balaclava (1854), na Guerra da Crimeia (1853-56). Alguns consideram-na desastrosa; outros, heroica. O epis\u00f3dio inspirou o poema \u201cThe charge of the light brigade\u201d, de Alfred Tennyson.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>&nbsp;A Batalha de Cr\u00e9cy, travada na tarde de 26 de agosto de 1346, no norte da Fran\u00e7a, foi uma das principais da primeira d\u00e9cada da Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Apesar de contar com muito menos homens, o Ex\u00e9rcito ingl\u00eas imp\u00f4s ao franc\u00eas uma humilhante derrota.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/genocidio\/#_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>&nbsp;Dodge City, cidade no estado do Kansas, no oeste dos Estados Unidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto originalmente publicado na Sunday Times Magazine em 1969, e depois publicado no livro A View of the World, pela editora Eland. A repercuss\u00e3o do artigo estimulou a cria\u00e7\u00e3o da Survival International, uma organiza\u00e7\u00e3o que trabalha pelos direitos dos povos ind\u00edgenas no mundo inteiro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-33580","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8JC","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33580"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33583,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33580\/revisions\/33583"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}