{"id":33982,"date":"2022-07-12T09:49:16","date_gmt":"2022-07-12T13:49:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33982"},"modified":"2022-07-12T09:49:22","modified_gmt":"2022-07-12T13:49:22","slug":"a-imprensa-que-insiste-na-polarizacao-e-cumplice-na-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/07\/12\/a-imprensa-que-insiste-na-polarizacao-e-cumplice-na-barbarie\/","title":{"rendered":"A imprensa que insiste na polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 c\u00famplice na barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1935\" height=\"1311\" data-attachment-id=\"33983\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/07\/12\/a-imprensa-que-insiste-na-polarizacao-e-cumplice-na-barbarie\/c645a976-bdda-4a53-8bb8-2338dcdf85fc\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?fit=1935%2C1311\" data-orig-size=\"1935,1311\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?fit=300%2C203\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?fit=600%2C407\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?fit=600%2C407\" alt=\"\" class=\"wp-image-33983\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?w=1935 1935w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?resize=300%2C203 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?resize=1024%2C694 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?resize=768%2C520 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?resize=1536%2C1041 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?resize=443%2C300 443w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/C645A976-BDDA-4A53-8BB8-2338DCDF85FC.jpeg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>The Intercept &#8211; <\/strong>Mesmo ap\u00f3s anos de evid\u00eancias e fatos, como o assassinato de Marcelo Arruda, jornalistas e ve\u00edculos ainda investem em uma polariza\u00e7\u00e3o que nunca existiu.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>por <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/equipe\/fabiana-moraes\/\">Fabiana Moraes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A ROUPA MAIS PREZADApela maioria dos jornalistas \u00e9 aquela costurada com o fio da objetividade. Sentem-se n\u00e3o apenas mais bonitos, mas principalmente mais blindados e, portanto, mais seguros, com ela. Tornam-se semi-deuses: enxergam tudo do alto, sem se misturar com mesquinharias cotidianas como posicionamento pol\u00edtico (coisa de ativista) e as quest\u00f5es do machismo (problema das mulheres), do racismo (problema dos negros) e do classismo (problema dos pobres).<\/p>\n\n\n\n<p>Para costurar essa roupa-escudo, os jornalistas usam como principal mat\u00e9ria-prima os fatos e as evid\u00eancias. \u00c9 algo que vai na mesma linha do \u201ccientificamente demonstrado\u201d. Se algo aconteceu daquele jeito, s\u00f3 pode ser explicado pela descri\u00e7\u00e3o da ocorr\u00eancia, como se um acontecimento n\u00e3o tivesse passado, contexto, futuro, raiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, vamos brincar de Jornalista Equilibrado Usando Terno e Dono de Algum MBA Gringo e levar em considera\u00e7\u00e3o que os fatos s\u00e3o suficientes para explicarmos as coisas que ocorrem \u201cl\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/10\/09\/moa-do-katende-vitima-eleicoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Moa do Katend\u00ea<\/a>: assassinado com 12 facadas por um eleitor de Bolsonaro durante o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais em 2018 ap\u00f3s declarar seu voto em Fernando Haddad.<\/li><li><a href=\"https:\/\/abraji.org.br\/noticias\/jornalista-e-agredida-e-ameacada-de-estupro-em-recife-pe\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jornalista espancada com peda\u00e7o de ferro e amea\u00e7ada de estupro<\/a>&nbsp;tamb\u00e9m no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018. Sa\u00eda do local no qual havia acabado de votar quando dois homens a arrastaram pelo bra\u00e7o ao verem seu crach\u00e1 de jornalista. Os agressores disseram que ela era \u201cde esquerda\u201d. Um deles usava cal\u00e7a jeans e uma camiseta preta com a foto de Jair Bolsonaro (PSL) e os dizeres \u201cBolsonaro Presidente\u201d.<\/li><li>Em uma lancha, ao lado de apoiadores,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/noticias\/em-lancha-bolsonaro-danca-funk-que-compara-mulheres-de-esquerda-a\/209957\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bolsonaro dan\u00e7a um funk que compara mulheres de esquerda a cadelas<\/a>. Dezembro de 2021, durante as f\u00e9rias do presidente do pa\u00eds, no Guaruj\u00e1, litoral de S\u00e3o Paulo.<\/li><li>Um compilado de fatos: ataques coordenados contra a jornalista&nbsp;<a href=\"https:\/\/cultura.uol.com.br\/noticias\/50277_tjsp-mantem-condenacao-a-bolsonaro-por-ofensas-contra-patricia-campos-mello.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Patr\u00edcia Campos Mello<\/a>; Marielle Franco; \u201cFuzilar a petralhada\u201d; \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/shorts\/CKVyYIM58II\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Varrer essa turma vermelha do Brasil<\/a>\u201c; \u201cPetralhada, vai tudo voc\u00eas para a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/12\/bolsonaro-fez-referencia-a-area-de-desova-de-mortos-pela-ditadura.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ponta da praia<\/a>\u201d (lugar de desova de corpos na ditadura).<\/li><li>Jair Bolsonaro concede indulto ao deputado Daniel Silveira,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2022\/05\/5006765-planalto-diz-a-stf-que-indulto-de-daniel-silveira-e-constitucional.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">condenado pelo STF<\/a>&nbsp;ap\u00f3s atacar a corte e dizer que imaginava ministros&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/04\/veja-video-que-levou-daniel-silveira-a-prisao-por-criticas-ao-stf.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201clevando uma surra\u201d<\/a>.<\/li><li>Nas \u00faltimas semanas, diversos atos violentos em eventos envolvendo a campanha de Lula foram registrados, desde a explos\u00e3o de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/eleicoes\/2022\/07\/07\/ataque-ato-lula-cinelandia-rio.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">bombas caseiras com fezes&nbsp;<\/a>\u00e0 invas\u00e3o<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WR0wZHudGrI\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;de reuni\u00f5es<\/a>.<\/li><li>O assassinato do guarda municipal e tesoureiro do PT Marcelo Aloizio de Arruda, que comemorava seu anivers\u00e1rio de 50 anos quando foi atacado pelo policial penal federal Jorge Jos\u00e9 da Rocha Guaranho. O caso possui semelhan\u00e7as com o ocorrido com Moa do Katend\u00ea: no caso deste, o criminoso se envolveu em uma discuss\u00e3o, foi at\u00e9 em casa e se armou com uma faca do tipo peixeira. No segundo, o assassino deixou mulher e filha em casa e voltou com sua arma de fogo. Mas Marcelo tamb\u00e9m estava armado: morreu ap\u00f3s disparar contra Guaranho.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Eu sei, eu sei: voc\u00ea j\u00e1 leu tudo isso que est\u00e1 aqui. A gente se engana achando que jornalismo trata necessariamente de novidade. Na verdade, ele tem muito de repeti\u00e7\u00e3o. E \u00e9 exatamente isso que est\u00e1 acontecendo desde o \u00faltimo terr\u00edvel fato elencado a\u00ed em cima, o assassinato de Marcelo. Mesmo ap\u00f3s anos de evid\u00eancias e fatos que desenham um ambiente pol\u00edtico novo no Brasil, no qual o bolsonarismo passa a mirar diariamente uma arma real ou simb\u00f3lica contra nossas cabe\u00e7as, uma penca de jornalistas insiste em colocar o campo democr\u00e1tico na mesma balan\u00e7a do discurso de morte e exterm\u00ednio do presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 de qualquer \u201ccampo democr\u00e1tico\u201d que estamos falando: \u00e9 preciso nomear o ex-presidente Lula para entender melhor o fen\u00f4meno dos jornalistas e\/ou articulistas \u201cobjetivos\u201d que ignoram os adorados fatos quando o ex-metal\u00fargico ou o Partido dos Trabalhadores est\u00e3o na roda.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias, artigos como o escrito por&nbsp;<a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/assassinato-em-foz-lula-e-bolsonaro-as-bestas-do-apocalipse\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ricardo Kertzman, na Isto\u00c9<\/a>&nbsp;(coloca Lula e Bolsonaro como \u201cas bestas do apocalipse\u201d), e o de F\u00e1bio Zanini, na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/07\/fim-de-semana-mais-tenso-desde-a-facada-prenuncia-escalada-assustadora.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Folha<\/a>(\u201cAto de bolsonaristas pelas armas, fala de Lula e crime no Paran\u00e1 mostram clima desfavor\u00e1vel \u00e0 pacifica\u00e7\u00e3o\u201d), entre outros, nos mostraram como barb\u00e1rie tamb\u00e9m se desenha a partir do ar-condicionado do home office ou das reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNesse ambiente, eventos banais tornam-se mortais, especialmente se os dois lados estiverem armados\u201d, diz um trecho do artigo do \u00faltimo colunista. Essa \u00e9 uma falsa equival\u00eancia estarrecedora, e n\u00e3o somente pelo fato de dezenas de eventos violentos pulularem ap\u00f3s o espraiamento do bolsonarismo no pa\u00eds, mas por diminuir o peso imenso da caneta e do discurso de algu\u00e9m que est\u00e1 no poder \u2013 e ainda turbinad\u00edssimo pelo Centr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um lado \u00e9 o presidente do Brasil. O outro \u00e9 um candidato.<\/p>\n\n\n\n<p>Um lado \u00e9 o presidente do Brasil. O outro \u00e9 um candidato.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou repetir: um lado \u00e9 o presidente do Brasil. E ele \u00e9 parte m\u00e1xima de nossa institucionalidade.A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sempre existiu no pa\u00eds. O que \u00e9 novo entre n\u00f3s e que continua a ser tratada com punhos de renda \u00e9 a viol\u00eancia do bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sempre existiu no pa\u00eds. O que \u00e9 novo entre n\u00f3s e que continua a ser tratada com punhos de renda \u00e9 a viol\u00eancia do bolsonarismo. O que n\u00e3o \u00e9 novo entre n\u00f3s \u00e9 uma imprensa dotada de uma vis\u00e3o prec\u00e1ria de democracia.&nbsp;Acho muito ruim que o candidato elogie atos violentos como o realizado pelo&nbsp;ex-vereador Manoel Eduardo Marinho, conhecido como Maninho do PT, como fez em um evento no fim de semana. Mas comparar essa fala infeliz ao pared\u00e3o de viol\u00eancia do bolsonarismo \u00e9 for\u00e7ar a barra.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdi a conta do n\u00famero de pessoas que me disseram ter vontade de se expressar politicamente usando bandeiras ou adesivos em seus carros, janelas, roupas. N\u00e3o o fazem por uma raz\u00e3o simples: medo de apanhar na rua. Ou, como no caso de Marcelo, de serem assassinadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00eas t\u00eam not\u00edcias de bolsonaristas com medo de usar adesivo do presidente ou pendurar em seus carros bandeirinhas do Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o chamando \u201cum lado\u201d (para usar o termo raso) que tem apanhado, morrido, se lascado e est\u00e1 em parte acuado, de \u201cextremista\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a palavra \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d vem sendo repetida por uma estrutura midi\u00e1tica acostumada a binarismos diversos, expl\u00edcitos em termos como \u201cgente do bem\u201d e, vejam s\u00f3, \u201cdois lados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas l\u00f3gicas bin\u00e1rias n\u00e3o se associam Daniel Silveira, funk mis\u00f3gino e os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, por exemplo. Ou incentivo ao garimpo, racismo e xenofobia. Divide-se o bolsonarismo em gavetinhas e, usando-o aos poucos de cada vez, tem-se a impress\u00e3o que ele pode n\u00e3o ser t\u00e3o terr\u00edvel assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte de nossa imprensa continua a trope\u00e7ar nas pr\u00f3prias platitudes ao se negar a trabalhar com a complexidade l\u00e1 fora. Assim, constr\u00f3i mitos e her\u00f3is, vil\u00f5es e desgarrados, tudo a depender das suas necessidades econ\u00f4micas e pol\u00edticas no momento. A quest\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o fatos, nem a leitura mais acurada dos mesmos, no final. A quest\u00e3o \u00e9 \u2013 em nome de uma ideologia, bom dizer \u2013 instrumentaliz\u00e1-los, mesmo quando flertam com a destrui\u00e7\u00e3o de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que equipara Bolsonaro e o bolsonarismo a qualquer coisa que j\u00e1 tenha acontecido na pol\u00edtica brasileira, o jornalismo pula o cercadinho e vai fazer companhia ao presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia brasileira conviveu durante d\u00e9cadas com o pluripartidarismo sem que rep\u00f3rteres e editores precisassem recorrer a toda hora a termos que conformassem as legendas como \u201cextremistas\u201d. Isso era termo usado, no m\u00e1ximo, para tratar aquelas com poucas chances de atingir postos majorit\u00e1rios, como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU, e o Partido da Causa Oper\u00e1ria, o PCO, ambos \u00e0 esquerda, ou o Partido de Reedifica\u00e7\u00e3o da Ordem Nacional, o Prona, j\u00e1 extinto, \u00e0 direita. O Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, PMDB, hoje Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, MDB, o Partido dos Trabalhadores, o PT, ou o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, por exemplo, transitavam entre centro, centro-direita e centro-esquerda, sem ocuparem os postos m\u00e1ximos da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nosso espectro pol\u00edtico majorit\u00e1rio foi historicamente \u201cequilibrado\u201d ao centro com matizes \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, o que muda no cen\u00e1rio para que a imprensa e mesmo n\u00f3s, sociedade perpassada mais pelo senso comum do que pelo senso cr\u00edtico, pass\u00e1ssemos a ver tudo pela lente \u201cradical\u201d?A instrumentaliza\u00e7\u00e3o da objetividade jornal\u00edstica ajudou n\u00e3o s\u00f3 a propagar um racismo estrutural e epist\u00eamico quanto nos trouxe de presente um Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta est\u00e1 no crescimento da ultra-direita brasileira, uma explos\u00e3o de visibilidade embalada por ao menos tr\u00eas fatores. O primeiro \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de um contexto pol\u00edtico e social mais conservador em todo o mundo, no qual se misturam, entre outros componentes, o colapso pol\u00edtico de v\u00e1rios pa\u00edses causado por violentas disputas internas e uma onda in\u00e9dita de imigra\u00e7\u00e3o (foram 272 milh\u00f5es de imigrantes em 2019, 51 milh\u00f5es a mais do que em 2010, segundo&nbsp;<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/numero-de-imigrantes-no-mundo-chega-272-milhoes-aponta-relatorio-da-onu-23955058\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio<\/a>&nbsp;da ONU). A precariza\u00e7\u00e3o global do trabalho, resultando em um aumento de preconceito e viol\u00eancia sobretudo entre popula\u00e7\u00f5es imigrantes, somente agrava essa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo fator se ancora na agudiza\u00e7\u00e3o dos sentimentos de raiva, impot\u00eancia e medo derivados do contexto esbo\u00e7ado acima: trata-se da instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de dados e algoritmos, principalmente nas redes sociais. O mais c\u00e9lebre esc\u00e2ndalo desse uso indevido de informa\u00e7\u00f5es foi protagonizado pela Cambridge Analytica, empresa que utilizou dados pessoais de usu\u00e1rios do Facebook para influenciar as elei\u00e7\u00f5es presidenciais americanas em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro fator para o crescimento da extrema direita no Brasil, apesar de seu precedente tamb\u00e9m global, ainda \u00e9 pouco investigado entre n\u00f3s \u2013 e \u00e9 sobre ele que precisamos atentar: ele decorre dessa insist\u00eancia em tratar Bolsonaro e o bolsonarismo como um extremo em oposi\u00e7\u00e3o a outro, supostamente existente.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou repetir: de um lado est\u00e1 o presidente do Brasil. \u00c9 o cargo m\u00e1ximo de nossa institucionalidade. Do outro, s\u00e3o movimentos sociais, candidatos, popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro, como j\u00e1 escrevi, n\u00e3o nasceu somente gra\u00e7as ao Superpop e ao CQC, sejamos claros. Essa \u00e9 outra platitude que s\u00f3 serve para manter bonitinhos os ternos e MBAs dos Jornalistas Equilibrados. Ele sofreu um banho de loja realizado pela imprensa que se autointitula como \u201cprofissional\u201d e transformou o autor da frase \u201co erro da ditadura foi torturar e n\u00e3o matar\u201d (dita em 2008 e 2016) em um cara \u201ccontroverso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a madrugada de domingo, a respeito do assassinato de Marcelo, li v\u00e1rias vezes que um lulista e um bolsonarista \u201ctrocaram tiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m tem a festa invadida, a pr\u00f3pria vida e a da fam\u00edlia e amigos amea\u00e7ada por um homem armado. Usa seu pr\u00f3prio rev\u00f3lver para se defender. E o resumo \u00e9 \u201ctroca de tiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ser \u201cleg\u00edtima defesa\u201d, mas estamos falando de algo que envolve o PT.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que o jornalismo \u201cneutro\u201d, empresarial, das redes e conglomerados mais assentados, passou a se constituir como norma. Tudo aquilo que n\u00e3o est\u00e1 conformado nele seria, assim, um desvio, uma anormalidade situada, como j\u00e1 colocou a pesquisadora e jornalista M\u00e1rcia Veiga.&nbsp;Um ve\u00edculo como, por exemplo, este&nbsp;<strong>The Intercept Brasil<\/strong>, foi e \u00e9 criticado por se posicionar demais, ou, pior, por ser&nbsp;\u201cativista\u201d.&nbsp;Mas, se entendemos que o&nbsp;<strong>Intercept<\/strong>&nbsp;foi \u201cideol\u00f3gico\u201d ao publicar as mensagens da Vaza Jato, devemos pensar o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao Jornal Nacional no momento em que este vazou a liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica entre Dilma Rousseff e Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>Para marcar esse lugar que parece limpo e equilibrado, esse \u201cestar acima das paix\u00f5es\u201d, nossos ve\u00edculos naturalizaram o discurso criminoso de um pol\u00edtico celebrizado midiaticamente. Primeiro, ele era apenas um cara controverso; depois, j\u00e1 presidente, um extremista que est\u00e1 em uma ponta enquanto Lula (cujo governo foi marcado por alian\u00e7as com partidos como PMDB, hoje MDB, est\u00e1 na outra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental perceber como o ex-presidente vai ser continuamente constru\u00eddo como o Bolsonaro do outro lado do espelho. Est\u00e1 posta a \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d que \u2013 sugerem esses ve\u00edculos \u2013 nos apequena enquanto sociedade e da qual precisamos nos livrar; afinal, precisamos valorizar a democracia \u00e0 brasileira, na qual ind\u00edgenas e pretos s\u00e3o tratados como cidad\u00e3os de segunda classe e uma distribui\u00e7\u00e3o de renda mais justa \u00e9 uma ideia estapaf\u00fardia. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o da objetividade jornal\u00edstica (atrav\u00e9s, por exemplo, do jornalismo declarat\u00f3rio) ajudou n\u00e3o s\u00f3 a propagar um racismo estrutural e epist\u00eamico quanto nos trouxe de presente um Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto imprensa e outras institui\u00e7\u00f5es fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o de nossa relutante democracia assinarem embaixo das pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias e preconceituosas, enquanto normalizarem Bolsonaro o colocando como um espelho reverso de Lula, vamos seguindo o bonde em dire\u00e7\u00e3o ao precip\u00edcio. No volante, algu\u00e9m \u201caut\u00eantico\u201d que foi confundido pela imprensa s\u00e9ria como um tioz\u00e3o do pav\u00ea que \u00e0s vezes soltava um improp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Engra\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Folcl\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Controverso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO avesso do fantoche \u00e9 o terrorista\u201d, escreveu o soci\u00f3logo Derrick de Kerckhove, que analisa democracia, dados e novos fen\u00f4menos da pol\u00edtica. \u00c9 uma an\u00e1lise que \u00e9 tamb\u00e9m um retrato de um Brasil, onde, depois de pouco mais de um ano na presid\u00eancia, o presidente resolveu levar at\u00e9 \u00e0 imprensa que o ajudou a chegar ao poder, um humorista, o Carioca, vestido como ele mesmo, Jair Bolsonaro. Na ocasi\u00e3o, o presidente foi questionado sobre o PIB q<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/economia\/2020\/03\/04\/internas_economia,832022\/pib-cresce-1-1-em-2019-e-fecha-o-ano-em-r-7-3-trilhoes.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ue crescera apenas 1,1% em 2019<\/a>. Em vez de falar com rep\u00f3rteres, Bolsonaro&nbsp;<a href=\"https:\/\/mais.opovo.com.br\/colunistas\/ericofirmo\/2020\/03\/04\/bolsonaro-humorista-fantasiado-responder-imprensa-distribuir-bananas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estimulou<\/a>Carioca a distribuir bananas e a responder em seu lugar. Caos instaurado, perguntas n\u00e3o respondidas, bananas jogadas, selfies, apoiadores transmitindo ao vivo, gargalhadas, \u201cmito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou repetir: \u00e9 o presidente do Brasil. \u00c9 o cargo m\u00e1ximo de nossa institucionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algo muito importante naquele dia e que talvez ainda n\u00e3o tenhamos entendido: Bolsonaro agiu com imensa coer\u00eancia quando colocou um humorista para ser nosso presidente. Ali nos deu, jornalistas, uma li\u00e7\u00e3o: ao ajudarmos a eleger um cara \u201cmeio controverso\u201d, demonstramos que podemos ser tratados como idiotas. Dos atos tantas vezes violentos contra a imprensa, talvez aquele tenha sido um dos mais did\u00e1ticos, e mesmo l\u00fadico: tivemos uma experi\u00eancia \u00fanica de ver algu\u00e9m sem qualquer capacidade para responder pela Rep\u00fablica ocupar os holofotes da pol\u00edtica para fazer gra\u00e7a, distrair, ocupar a nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o estou me referindo ao humorista, e sim ao fantoche. Falo do seu avesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou repetir: ele \u00e9 o presidente do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>*<\/strong><em>Segundo&nbsp;a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 2021 o Brasil registrou 430 casos de viol\u00eancia contra jornalistas. Foram mais casos que em 2020, quando foram registrados 428 ocorr\u00eancias. \u00c9 um recorde na s\u00e9rie hist\u00f3rica, iniciada em 1990.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>*&nbsp;<\/strong>Parte deste texto foi constru\u00edda a partir de uma an\u00e1lise sobre a constru\u00e7\u00e3o de Bolsonaro como celebridade, publicada no livro&nbsp;<\/em><a href=\"https:\/\/www.cobogo.com.br\/produto\/no-tremor-do-mundo-ensaios-e-entrevistas-a-luz-da-pandemia-as-the-world-trembles-essays-and-interviews-in-light-of-the-pandemic-658\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>No tremor do mundo: Ensaios e entrevistas \u00e0 luz da pandemia<\/em><\/a><em>, da editora Cobog\u00f3<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The Intercept &#8211; Mesmo ap\u00f3s anos de evid\u00eancias e fatos, como o assassinato de Marcelo Arruda, jornalistas e ve\u00edculos ainda investem em uma polariza\u00e7\u00e3o que nunca existiu.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[53,769,729],"class_list":["post-33982","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-bolsonaro","tag-estremismo","tag-polarizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Q6","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33982"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33982\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33984,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33982\/revisions\/33984"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}