{"id":33988,"date":"2022-07-13T12:03:39","date_gmt":"2022-07-13T16:03:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=33988"},"modified":"2022-07-13T12:10:08","modified_gmt":"2022-07-13T16:10:08","slug":"amazonia-real","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/07\/13\/amazonia-real\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia Real"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"1480\" data-attachment-id=\"33990\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/07\/13\/amazonia-real\/fd706779-757b-47dd-9c17-9d3a02418ac9\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?fit=1140%2C1480\" data-orig-size=\"1140,1480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?fit=231%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?fit=600%2C779\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?fit=600%2C779\" alt=\"\" class=\"wp-image-33990\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?w=1140 1140w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?resize=231%2C300 231w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?resize=789%2C1024 789w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/FD706779-757B-47DD-9C17-9D3A02418AC9.jpeg?resize=768%2C997 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Ao caminhar pelas ruas das comunidades ribeirinhas de Rond\u00f4nia, na Amaz\u00f4nia Ocidental, \u00e9 comum ver crian\u00e7as correndo, jogando bola e empinando pipa tendo como fundo as balsas de garimpeiros ancoradas nos barrancos do rio Madeira. O garimpo est\u00e1 sempre aberto para quem quiser entrar na atividade. \u00c9 o contr\u00e1rio das escolas da regi\u00e3o que t\u00eam salas de aulas fechadas, n\u00e3o h\u00e1 transporte escolar fluvial e o ensino h\u00edbrido tenta impor uma nova l\u00f3gica educacional, que as crian\u00e7as e adolescentes dessas localidades est\u00e3o exclu\u00eddas. Essas viol\u00eancias em territ\u00f3rios tradicionais t\u00eam criado uma situa\u00e7\u00e3o grave: meninos garimpeiros que preferem atuar na ilegalidade do que esperar pela educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega. Meninas v\u00e3o trabalhar nas cozinhas dentro das balsas e algumas s\u00e3o aliciadas para os chamados \u201cbregas\u201d, pontos de explora\u00e7\u00e3o sexual.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Por&nbsp;<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/author\/thais-espinosa\/\">Tha\u00eds Espinosa<\/a>, da Amaz\u00f4nia Real<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Distrito de Nazar\u00e9 (RO)<\/strong><em>&nbsp;\u2013&nbsp;<\/em>\u201cPara ganhar dinheiro eu n\u00e3o preciso estudar.\u201d Esta frase martela a cabe\u00e7a do educador e ativista cultural Timaia Nunes, do distrito de Nazar\u00e9, regi\u00e3o ribeirinha de Porto Velho, a capital de Rond\u00f4nia. Quem pensa assim n\u00e3o \u00e9 ele, mas uma gera\u00e7\u00e3o de estudantes que j\u00e1 passaram pelas suas aulas, mas hoje trabalham no garimpo. S\u00e3o meninos de 10, 11, 12, 13 anos de idade. No Baixo Madeira, as escolas que garantiriam o futuro est\u00e3o fechadas ou nem todos conseguem acesso a elas. Mas as balsas que fa\u00edscam o ouro extra\u00eddo do rio Madeira est\u00e3o ali, por toda parte, brilhando nos olhos de muitos que s\u00f3 sonham com uma vida menos sofrida.<\/p>\n\n\n\n<p>Rond\u00f4nia \u00e9 um Estado at\u00edpico do Brasil, mas alinhado \u00e0 atual pol\u00edtica destruidora da floresta amaz\u00f4nica. Em janeiro de 2021, o governador Marcos Rocha (sem partido) assinou um&nbsp;<a href=\"https:\/\/orondoniense.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Decreto.n%c2%b0-25780.-licenca-ambiental.pdf\">decreto<\/a>&nbsp;regulamentando o garimpo nos rios. A atividade de extra\u00e7\u00e3o do ouro \u00e9 antiga, remonta aos anos 1980. Mas quando o poder p\u00fablico confere um ar de legalidade \u00e0 atividade, isso serve de impulso para quem j\u00e1 n\u00e3o tem est\u00edmulo algum para estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um adolescente garimpeiro ganha de 3 mil a 4 mil reais por semana se trabalhar na minera\u00e7\u00e3o, informou o professor Timaia Nunes \u00e0 reportagem. \u00c9 o valor que ele ouviu de seus alunos e ex-alunos. Conforme relataram os jovens \u00e0 reportagem, a atividade tem boa lucratividade apenas no ver\u00e3o, \u00e9poca de seca do rio (julho a outubro), quando fam\u00edlias inteiras costumam se deslocar para trabalhar nas balsas. As meninas trabalham nas cozinhas. Mas algumas seguem para os \u201cbregas\u201d, como s\u00e3o chamados os pontos de explora\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>No restante do ano muitas dragas da minera\u00e7\u00e3o ficam inoperantes j\u00e1 que, no inverno, quando o rio est\u00e1 cheio, a extra\u00e7\u00e3o do ouro \u00e9 dificultada e, portanto, menos lucrativa.&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, a cifra de 3 mil reais semanais, astron\u00f4mica para um Estado cuja renda per capita n\u00e3o ultrapassa os&nbsp;<a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/ro\/panorama\">1.023 mil reais<\/a>, tem atra\u00eddo meninos para as balsas garimpeiras. Alguns v\u00e3o por conta pr\u00f3pria; outros s\u00e3o levados pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias que vivem dentro chamadas \u201cfofocas\u201d, as balsas que se enfileiram como cidades flutuantes e que avan\u00e7am centenas de metros pelo rio Madeira. Comunidades inteiras vivem em torno da economia garimpeira. H\u00e1 uma aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que incentivem outras formas de trabalho, como a agricultura e a pesca.<\/p>\n\n\n\n<p>K\u00e1ssio, morador do distrito de Nazar\u00e9, tem 15 anos e comenta que com 13 foi pela primeira vez trabalhar em uma balsa. Era o ano de 2020 e, ao chegar no garimpo, teve uma surpresa. \u201cQuando fui pra l\u00e1 at\u00e9 que achei divertido estar com os amigos. N\u00e3o tinha escola, n\u00e9, pra gente se encontrar e brincar\u201d, lembra. Muitos alunos, desde um ano antes, n\u00e3o podiam estudar por n\u00e3o haver transporte fluvial. Nessa regi\u00e3o, a locomo\u00e7\u00e3o deles \u00e9 feita por barcos \u201cvoadeiras\u201d, um servi\u00e7o que deveria ser contratado pelo poder p\u00fablico. Depois veio a pandemia do novo coronav\u00edrus e os jovens n\u00e3o voltaram mais para a escola. \u201cMeus amigos de 14 anos j\u00e1 est\u00e3o tudo no garimpo. Mas \u00e9 muito pesado, eu n\u00e3o quero mais voltar.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem ouviu jovens do Baixo Madeira que relatam a rotina dura no garimpo. Os turnos s\u00e3o de 6 horas girando o \u201csarinho\u201d, objeto em forma de roda com quatro cabos que controla o fluxo de \u00e1gua e o sedimento que \u00e9 sugado at\u00e9 cair sobre um carpete que recolhe as part\u00edculas de ouro. Eles trabalham entre m\u00e1quinas e motores que operam dia e noite, sem pausas, e inalam a fuma\u00e7a e o cheiro forte de diesel. Nas balsas menores, \u00e9 comum ter apenas dois operadores que se revezam. Um conduz as m\u00e1quinas, enquanto o outro descansa. O respons\u00e1vel pela draga ensina os novatos a operarem os equipamentos durante uma semana. Passado esse per\u00edodo, \u201ca\u00ed \u00e9 s\u00f3 tu e tu dentro da balsa, \u00e9 a sua vida que t\u00e1 em risco, tem que confiar e estar atento o tempo todo, num pode vacilar n\u00e3o, p\u00f4\u201d, comenta Marcelo. Ele, K\u00e1ssio e os demais citados jovens que atuam nos garimpos s\u00e3o nomes fict\u00edcios. \u00c9 arriscado expor a identidade dos adolescentes garimpeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u201cvacila\u201d, explica Marcelo, de 22 anos, \u201ccorre o risco de morrer, de te matarem, tu pode morrer afogado, daqui&nbsp;<em>prali<\/em>&nbsp;nas balsas some gente\u201d. Em \u00e9poca de temporal no Baixo Madeira, o vento forma grandes ondas e j\u00e1 aconteceu de afundar uma \u201cfofoca\u201d com mais de 20 balsas. \u201cSe tu n\u00e3o souber o que tu t\u00e1 fazendo, afunda tudinho.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Gustavo tem 20 anos e trabalha desde os 13 em garimpo. H\u00e1 pouco, voltou de um trabalho no Amazonas em que ficou durante quatro meses controlando sozinho duas balsas. \u201cFoi ruim, eu sentia saudade do meu pai, estava longe, n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m pra conversar. O que eu passei no garimpo esses tempo ali pra baixo foi o inferno. Mexeu demais comigo, parei de estudar e \u00e9 o que eu me arrependo hoje.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>As \u201cfofocas\u201d do garimpo<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-68.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"399\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-68-1024x681.jpg?resize=600%2C399&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102290\"\/><\/a><figcaption><em>Balsas da garimpo no rio Madeira (Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os meninos garimpeiros operam as balsas submetidos a uma rotina solit\u00e1ria, fisicamente exaustiva e de muita responsabilidade. Nas horas de folga, muitos s\u00e3o atra\u00eddos pelos chamados \u201cbregas\u201d, \u201ccabar\u00e9s\u201d ou \u201cpiseiros\u201d, locais pr\u00f3ximos \u00e0s \u201cfofocas\u201d de garimpo. O relato \u00e9 a presen\u00e7a de drogas, bebidas e prostitui\u00e7\u00e3o nesses lugares. O professor Timaia afirma que, como educador, \u00e9 constrangedor ver seus alunos nessa condi\u00e7\u00e3o:&nbsp; \u201c\u00c9 triste de ver, tem muito aluno viciado. Teve uma vez que eu fui esperar o barco l\u00e1 na frente e vi os alunos trabalhando em uma condi\u00e7\u00e3o bem triste. Parecia que n\u00e3o eram eles\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas comunidades que giram em torno do garimpo, ocorre um amadurecimento for\u00e7ado e precoce das crian\u00e7as e dos adolescentes, conforme relatos de professores e de moradores das comunidades. S\u00e3o eles que dizem que h\u00e1 garotas que com 12 ou 13 anos saem para trabalhar na cozinha das balsas ou se prostituir nos \u201cbregas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O drama relatado pelos entrevistados&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bxVLkjZnLrI\">\u00e9 social, mas tamb\u00e9m ambiental<\/a>. Mesmo que o garimpo no Baixo Madeira ocorra nas \u201cfofocas\u201d, no meio do rio, ele avan\u00e7a tamb\u00e9m sobre a mata. \u201cO ouro, todo mundo fala que \u00e9 amaldi\u00e7oado. E \u00e9. Ouro traz riqueza, mas tamb\u00e9m muita ambi\u00e7\u00e3o e olho grande\u201d, afirma Gustavo. A ambi\u00e7\u00e3o se d\u00e1 quando, ele pr\u00f3prio, admite que j\u00e1 derrubou barrancos para conseguir extrair mais ouro. \u201cJ\u00e1 cerrei \u00e1rvore na beira do barranco para trabalhar entrando na terra, derrubando barranco. Quanto mais desbarranca, mais d\u00e1 ouro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A grande destrui\u00e7\u00e3o, contudo, vem da polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. O merc\u00fario, tamb\u00e9m chamado de \u201cazougue\u201d, ainda \u00e9 usado em larga escala nos garimpos para separar e extrair o ouro, servindo como um \u00edm\u00e3 para juntar as part\u00edculas do min\u00e9rio. A \u00e1gua do rio \u00e9 sugada por uma mangueira, passa por uma esteira e, ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do ouro, o l\u00edquido contaminado \u00e9 despejado no rio. Em um ambiente sem oxig\u00eanio, esse azougue se transforma em metilmerc\u00fario, subst\u00e2ncia altamente t\u00f3xica que vai parar nos peixes. Quando ingerido por humanos, o metilmerc\u00fario pode desencadear sintomas como fraqueza e cansa\u00e7o frequente, fetos s\u00e3o contaminados ainda no ventre de suas m\u00e3es, provocando danos ao sistema nervoso e defici\u00eancias de aprendizado e cogni\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal de Rond\u00f4nia, um quilo de ouro representa cerca de 1,7 milh\u00e3o de reais em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NbHyKKYI2rw\">danos ambientais<\/a>, o que resulta em um custo quase 10 vezes maior que o pre\u00e7o real do metal precioso. Mas o lucro imediato fala mais alto. \u201cT\u00e1 muito polu\u00eddo o rio com o azougue, em alguns lugares j\u00e1 t\u00e1 t\u00e3o contaminado que tu num pega mais o ouro puro, o ouro j\u00e1 t\u00e1 todo azougado, sem falar que o peixe come e a gente come o peixe, n\u00e9?\u201d, diz Marcelo, outro adolescente garimpeiro.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O garimpo legalizado<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-87.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-87-1024x682.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102309\"\/><\/a><figcaption><em>Damiana, no interior da balsa que levou 6 anos para terminar de pagar&nbsp;<\/em><br><em>(Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos distritos de Pombal e Papagaio, a maior parte da arrecada\u00e7\u00e3o at\u00e9 2012 costumava vir da venda de peixes. A constru\u00e7\u00e3o das usinas Jirau e Santo Ant\u00f4nio, no rio Madeira, represou as \u00e1guas e escasseou o pescado. Muitas fam\u00edlias que tinham o pr\u00f3prio ro\u00e7ado tamb\u00e9m n\u00e3o investem mais porque temem os riscos de uma grande inunda\u00e7\u00e3o. Moradores relatam que a heran\u00e7a deixada por seus familiares eram os p\u00e9s de a\u00e7a\u00ed, graviola, cupua\u00e7u e cacau. A forma\u00e7\u00e3o artificial dos lagos das hidrel\u00e9tricas acabou com essa produ\u00e7\u00e3o. Com seus modos de vida tradicionais e suas bases econ\u00f4micas e identit\u00e1rias severamente agredidos, muitos encontram no garimpo uma \u2013 sen\u00e3o a \u00fanica \u2013 alternativa para garantir a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas pessoas comentam que viver do ro\u00e7ado exige trabalho \u00e1rduo o ano inteiro capinando debaixo de sol sem ter garantia de uma lucratividade, enquanto que no garimpo h\u00e1 certeza de um retorno financeiro, apesar dos riscos. Damiana Almeida aponta a preocupa\u00e7\u00e3o de seus familiares com o seu trabalho&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeus irm\u00e3os, \u00e0s vezes, me ligam chorando e pedindo: \u2018Mana, pelo amor de Deus, bota as coisa pra terra porque eles [pol\u00edcia] v\u00e3o tacar fogo na balsa de voc\u00eas\u2019. Tamb\u00e9m chamam a gente de bandido\u201d, diz Damiana, morada do distrito de Santa Catarina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O temor da fam\u00edlia de Damiana \u00e9 reflexo da Opera\u00e7\u00e3o Uiara, que, em dezembro de 2021, incendiou balsas de 131 fam\u00edlias, na altura do munic\u00edpio de Autazes (AM). A a\u00e7\u00e3o foi deflagrada pela Pol\u00edcia Federal para combater o garimpo ilegal no rio Madeira. Apesar do&nbsp;<a href=\"https:\/\/orondoniense.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Decreto.n%c2%b0-25780.-licenca-ambiental.pdf\">decreto&nbsp;<\/a>do governador coronel Marcos Rocha (sem partido)<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ro\/rondonia\/noticia\/2021\/01\/29\/marcos-rocha-regulamenta-garimpo-em-rios-de-rondonia.ghtml\">regulamentando o garimpo<\/a>&nbsp;em rios de Rond\u00f4nia, a maioria dos garimpeiros continua atuando de forma ilegal porque o processo para adquirir a certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito custoso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu n\u00e3o sou a favor do garimpo, mas ao mesmo tempo entendo que n\u00e3o \u00e9 criminalizando as pessoas das comunidades que se viram obrigadas a irem trabalhar no garimpo que a gente vai resolver os problemas de impactos ambientais, sociais e culturais\u201d, afirma a educadora ind\u00edgena M\u00e1rcia Mura, moradora do distrito de Nazar\u00e9. Ela lembra de uma de suas alunas que foi com a m\u00e3e e o filho pequeno trabalhar no garimpo. \u201cConstru\u00edram a pr\u00f3pria draga para garantir o sustento. N\u00e3o \u00e9 pra ficar rico, por que quem ganha com isso? S\u00e3o os grandes empres\u00e1rios, os donos das grandes dragas que exploram essas fam\u00edlias. \u00c9 mais uma modalidade de extrema explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra que sequestra as crian\u00e7as do espa\u00e7o escolar e da inf\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em uma comunidade chamada ramal S\u00e3o Domingos, na capital Porto Velho (RO),&nbsp;<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/especiais\/marcia-mura\/\">M\u00e1rcia Mura \u00e9 guerreira de seu povo<\/a>, ind\u00edgenas que circulam por vastas \u00e1reas do rios Madeira, Purus e Amazonas. Conhecedora da realidade amaz\u00f4nica, ela \u00e9 at\u00e9 perseguida por sua \u201cinsist\u00eancia em inserir a tem\u00e1tica ind\u00edgena e local para todos os estudantes\u201d. Esta \u00faltima frase consta do relat\u00f3rio de exonera\u00e7\u00e3o que a removeu de seu cargo de professora concursada da escola estadual na comunidade de Nazar\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rcia Mura sabe que existem for\u00e7as maiores que engolem o futuro das popula\u00e7\u00f5es locais. O garimpo \u00e9 uma dessas for\u00e7as. \u201cA causa disso tudo \u00e9 bem maior. Existe uma superestrutura ligada \u00e0s pr\u00f3prias pol\u00edticas de Estado, postas de cima para baixo que desenraiza as pessoas dos espa\u00e7os, dos seus lugares e passam a ser mais uma m\u00e3o-de-obra consumida e devorada pelo capitalismo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sem \u201cvoadeiras\u201d<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-92.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-92-1024x683.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102314\"\/><\/a><figcaption><em>\u00cdcaro acompanha a equipe de reportagem nas visitas aos alunos de outras comunidades (Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00cdcaro Valente, de 16 anos, nunca trabalhou no garimpo, mas teve amigos que sim. Morador da comunidade de Boa Vit\u00f3ria, ele se emocionou dizendo que sua juventude acabou 3 anos atr\u00e1s, quando deixou de ir \u00e0 escola. \u201cDa minha sala todo mundo tinha um futuro. Todos n\u00f3s compartilh\u00e1vamos sonhos. Uns pararam de ir para a escola pra trabalhar em garimpo e ajudar os pais. Os que restaram, poucos falam um com o outro, todo mundo virou desconhecido\u201d, lamenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As aulas j\u00e1 voltaram, mas estudantes como \u00cdcaro e mais de 70% de seus colegas do distrito de Nazar\u00e9 ainda n\u00e3o puderam retornar ao ensino presencial porque dependem do transporte escolar. \u201cFaz tanto tempo que n\u00e3o vou para a escola que quando eu for vou parecer um esquisito, um estranho.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O sofrimento de jovens como \u00cdcaro come\u00e7ou quando veio \u00e0 tona, em 2019, o esc\u00e2ndalo das fraudes no transporte escolar fluvial. O esquema, deflagrado pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cgu\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2018\/05\/operacao-ciranda-combate-fraudes-no-transporte-escolar-fluvial-em-porto-velho-ro\">Opera\u00e7\u00e3o Ciranda<\/a>, envolvia a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o (Semed) de Porto Velho e a empresa Flecha, acusada de desviar recursos para o transporte dos estudantes por meio de barcos. Na \u00e9poca, as escolas foram fechadas para que os estudantes que dependem das voadeiras n\u00e3o ficassem em desvantagem com rela\u00e7\u00e3o aos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo semestre de 2019, a responsabilidade de contrata\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de transporte fluvial foi transferida da Semed para a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Estadual (Seduc), trazendo esperan\u00e7a \u00e0s fam\u00edlias de que a situa\u00e7\u00e3o seria regularizada. Mas as aulas s\u00f3 retornaram em outubro. Quando a maioria estava prestes a encerrar as atividades para entrar de f\u00e9rias, estudantes dessas comunidades do Baixo Madeira se preparavam para o primeiro dia de aula do ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra empresa, Canoa, chegou a assumir o servi\u00e7o, mas o contrato com o governo estadual foi contestado na Justi\u00e7a, j\u00e1 que ela sequer tinha barcos. Para o promotor de Justi\u00e7a da Educa\u00e7\u00e3o do MP-RO, Julian Imthon Farago, entender os caminhos que levaram a Seduc a aprovar uma empresa que n\u00e3o tinha as embarca\u00e7\u00f5es e os aparatos necess\u00e1rios para executar um servi\u00e7o \u00e9 quest\u00e3o central da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pandemia houve a suspens\u00e3o das atividades escolares, e, mais uma vez, o transporte fluvial foi interrompido. Em fevereiro deste ano, as aulas presenciais retomaram nas comunidades, por\u00e9m mais da metade dos estudantes ainda est\u00e1 sem acesso porque n\u00e3o houve a retomada do servi\u00e7o de transporte escolar fluvial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o conhecida como Baixo Rio Madeira abriga 26 comunidades, sendo que 11 delas ofertam o ensino fundamental dos anos iniciais e apenas 3, o ensino m\u00e9dio: a escola Professor Juracy Lima Tavares, localizada no distrito de S\u00e3o Carlos, em Nazar\u00e9, a Professor Francisco Desmoret Passos e a escola General Os\u00f3rio, ambas no distrito de Calama. Isso significa que estudantes de 23 comunidades necessitam de transporte para chegar \u00e0 escola. Seguem sem aula mais de 2 mil estudantes distribu\u00eddos nas comunidades de Terra Firme, Ilha Nova, Assun\u00e7\u00e3o, Papagaio, Concei\u00e7\u00e3o da Galera , Bomfim, Laranjal, Catarina, Pombal,Tira fogo, Boa vit\u00f3ria, Curicaca,Terra Ca\u00edda, Cavalcante, Primor, Bom Serazim, Alian\u00e7a, Pau Darco, Bom Jardim, S\u00e3o Miguel, Porto Chuelo e Belmont.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem \u00cdcaro \u00e9 um dos prejudicados por essa falta de transporte. \u201cN\u00e3o s\u00f3 eu como todos os alunos precisamos do transporte pra gente aprender, ter um futuro, porque todo mundo tem um e eu tamb\u00e9m gostaria de ir para a escola, mas isso depende deles. Eu s\u00f3 pe\u00e7o que devolva o transporte, pelo amor de Deus, porque a gente quer estudar e aprender.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em nota, a Seduc afirma que o ano letivo de 2022 foi retomado de forma presencial nas escolas da rede p\u00fablica estadual, mas admite que para \u201calgumas comunidades ribeirinhas do munic\u00edpio de Porto Velho, os estudantes que dependem do transporte fluvial, est\u00e3o sendo atendidos de forma remota com ponto de aux\u00edlio presencial dentro das comunidades\u201d. A secretaria diz ainda que \u201cest\u00e1 buscando todos os meios legais para dar continuidade no transporte escolar fluvial\u201d, por\u00e9m sem estabelecer prazos para que isso ocorra.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, lembra o professor Timaia, os alunos iam para as escolas \u201cno remo de Boa Hora, comunidade abaixo de Curicacas\u201d, e que as coisas melhoraram com a chegada do transporte fluvial. Por\u00e9m, o problema atual fez tudo voltar \u00e0 estaca zero. \u201c\u00c9 desgastante e triste ao mesmo tempo porque s\u00e3o essas crian\u00e7as que ser\u00e3o o futuro daqui. \u00c9 como se o povo n\u00e3o tivesse mais voz. \u00c0s vezes, penso at\u00e9 que se toda a popula\u00e7\u00e3o fosse l\u00e1 talvez n\u00e3o adiantaria nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sem transpar\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-99.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-99-1024x682.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102321\"\/><\/a><figcaption><em>Mural da transpar\u00eancia em branco, parede da escola estadual Francisco Desmorest Passos, na comunidade de Nazar\u00e9. Muitos alunos ainda n\u00e3o tem como retornar \u00e0 escola (Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br>\u201cEstamos desde a pandemia imprimindo as tarefas. Os pais v\u00eam aqui pegar a cada 15 dias para entregar aos filhos, mas ainda n\u00e3o sabemos quando ir\u00e1 retornar de forma presencial\u201d, comenta Francinete Ara\u00fajo, diretora da Escola Municipal Francisco Desmaret em Nazar\u00e9. Escolas municipais que atendem crian\u00e7as em idade de alfabetiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o funcionando sem a presen\u00e7a do professor no processo de aprendizagem. Uma das dificuldades, principalmente durante a pandemia, foi que muitos pais s\u00e3o analfabetos ou t\u00eam baixa escolaridade e n\u00e3o conseguem auxiliar os filhos nas tarefas.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor Jonir Tavares, do distrito de S\u00e3o Carlos, lembra que a falta de transporte est\u00e1 na origem das perdas que o ensino teve. \u201cN\u00f3s, professores, nos preocupamos porque a gente t\u00e1 vendo que [os alunos] n\u00e3o est\u00e3o tendo a aprendizagem que deveriam ter. Eles t\u00eam direito ao transporte. Muitas fam\u00edlias das comunidades mais pr\u00f3ximas que ficam na outra margem do rio at\u00e9 possuem voadeira, mas ainda assim n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de trazer seus filhos. Gastariam pelo menos 20 reais por dia de gasolina e a maioria n\u00e3o tem recurso para isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O MP promove reuni\u00f5es com a Seduc e a Cooperativa de Agroextrativismo do M\u00e9dio e Baixo Madeira (Coomade), numa tentativa de suprir a falta do transporte escolar fluvial. \u201cApresentamos a disponibilidade da cooperativa com as embarca\u00e7\u00f5es, a forma de contrata\u00e7\u00e3o de nossos pilotos e dissemos que \u00e9 poss\u00edvel atend\u00ea-los. Agora, aguardamos retorno do contrato para executar o trabalho\u201d, afirma Jo\u00e3o Batista, presidente da Coomade.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Depress\u00e3o e ansiedade<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-33.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-33-1024x682.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102257\"\/><\/a><figcaption><em>Gabriele visita a sala de leitura que em 2019 abria com as amigas e desde o come\u00e7o da pandemia est\u00e1 fechada e se tornou um dep\u00f3sito&nbsp;<br>(Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Gabriele, Jenifher e Leila, moradoras do distrito de Nazar\u00e9,&nbsp;<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/sem-aulas-ha-nove-meses-criancas-vao-a-biblioteca-por-conta-propria-em-rondonia\/\">abriam todos os dias o espa\u00e7o da biblioteca comunit\u00e1ria<\/a>para estudarem por conta pr\u00f3pria quando ocorreu a primeira paralisa\u00e7\u00e3o das aulas, em 2019. A atitude delas foi um incentivo para os colegas frequentarem o espa\u00e7o. Mas, durante a pandemia, essa foi mais uma porta que se fechou e permanece trancada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2022, a reportagem pediu \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola para entrar na biblioteca e convidou Gabriele para acompanhar essa visita. Ao entrar na sala, um cheiro de mofo invadiu as narinas. Ao abrir as janelas, a luz entrou movimentando a poeira que se espalhava pelo ar. \u201cNossa, passa um filme na cabe\u00e7a\u201d, disse respirando fundo e olhando com tristeza o entorno na tentativa de conter o choro. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil\u201d, disse j\u00e1 com l\u00e1grimas nos olhos. Gabi \u00e9 apaixonada por literatura, toda semana aparecia em casa com um livro da biblioteca, empolgada para se debru\u00e7ar em diferentes hist\u00f3rias. Ela participou da constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o em 2016 com o N\u00facleo de Apoio \u00e0s Popula\u00e7\u00f5es Ribeirinhas da Amaz\u00f4nia (Napra) e a dire\u00e7\u00e3o escolar, ajudando na cataloga\u00e7\u00e3o dos livros e na escolha do nome da biblioteca, intitulada de \u201cEspa\u00e7o Comunit\u00e1rio Sua Leitura\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Gabi, olhar o ambiente empoeirado, com mesas e cadeiras empilhadas e um dep\u00f3sito de materiais mofados, era como se estivesse observando muitos de seus sonhos se esvaindo. Em cima de uma mesa grande havia v\u00e1rios frascos de \u00e1lcool em gel enfileirados, s\u00edmbolo desta \u00e9poca. A jovem passou uma quantidade em um pano e limpou uma das cadeiras para sentar. \u201cEu queria um futuro bonito, cheio de vida e ver os meus colegas l\u00e1, todos\u201c, disse, olhando para a estante de livros na esperan\u00e7a de ver o movimento de antes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A colega Leila sonha em ser policial, pois se encanta com a possibilidade de \u201csalvar a vida de outras pessoas\u201d, mesmo com os perigos que a profiss\u00e3o oferece. Ela relata que os \u00faltimos anos n\u00e3o foram f\u00e1ceis, \u201cperdi amigos e parentes por causa da Covid, fiquei com problemas de ansiedade e, de l\u00e1 pra c\u00e1, s\u00f3 vem piorando\u201d. O prolongado isolamento f\u00edsico com colegas, professores, familiares e redes comunit\u00e1rias, somado \u00e0 perda de entes queridos e ao medo de infec\u00e7\u00e3o pela Covid-19, fragilizaram a todos. As consequ\u00eancias da Covid-19 ficam evidentes nos relatos dos jovens entrevistados: tristeza profunda, des\u00e2nimo de viver, solid\u00e3o, depress\u00e3o e ataques de p\u00e2nico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Revista Educa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade divulgou um relat\u00f3rio sobre o impacto do isolamento social na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, apontando que dura\u00e7\u00f5es mais longas de quarentena foram associadas \u00e0 piora da sa\u00fade mental e ao aparecimento de sintomas de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, comportamentos de esquiva, raiva e uma sensa\u00e7\u00e3o de isolamento do resto do mundo. Nas comunidades do Baixo Madeira, n\u00e3o foi diferente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00cdcaro, que frequentava a escola de Nazar\u00e9, passou a se preocupar com os muitos colegas que entraram em depress\u00e3o. Uma amiga sua, Camila, da comunidade Concei\u00e7\u00e3o, relatou a dificuldade de enfrentar esse momento, o que o fez enxergar essa quest\u00e3o com outros olhos. \u201cNem todo mundo acredita nisso, alguns dizem que \u00e9 frescura, mas n\u00e3o \u00e9. Tem dias que eu n\u00e3o consigo nem dormir, confesso que paro para pensar e choro por tudo o que est\u00e1 acontecendo. Isso acabou com a inf\u00e2ncia de muitos, n\u00e3o ir pra escola, n\u00e3o brincar, prejudicou bastante a nossa vida\u201d, desabafa o jovem.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O fr\u00e1gil ensino remoto<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-97.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Especial-Educacao-e-garimmpo-97-1024x682.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-102319\"\/><\/a><figcaption><em>Sala de aula durante uma aula da media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica (Foto: Tulasi Resende\/Amaz\u00f4nia Real)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No Baixo Madeira, os alunos tinham muita expectativa com o retorno das aulas presenciais neste ano de 2022, depois de tantos meses de isolamento social. Mas logo esse sentimento virou frustra\u00e7\u00e3o ao se depararem com um sistema completamente diferente de ensino. Em algumas comunidades, foi implementado o projeto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/jpe\/article\/download\/79897\/44194\">media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<\/a>, processo de ensino-aprendizagem que se estabelece por meio de televis\u00e3o via sat\u00e9lite. Um professor de Porto Velho ministra as aulas online, enquanto que o professor da escola, chamado de \u201cmediador\u201d, fica respons\u00e1vel por ligar o equipamento e passar as atividades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que os conte\u00fados transmitidos pela televis\u00e3o n\u00e3o necessariamente condizem com a \u00e1rea de compet\u00eancia do professor que est\u00e1 do lado do aluno. Uma aula gravada de qu\u00edmica pode ser mediada por um professor de l\u00edngua portuguesa, por exemplo. Perde-se a autonomia do professor em propor atividades que dialoguem com as necessidades dos alunos. Quando estes t\u00eam alguma d\u00favida, o mediador reexibe o v\u00eddeo ou tem de enviar uma mensagem via Whatsapp ao professor que est\u00e1 na capital rondoniense e aguarda o retorno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, significa que o professor Timaia, lideran\u00e7a cultural na comunidade de Nazar\u00e9, tem de deixar de fazer o que ele fazia de melhor. Ele e sua fam\u00edlia s\u00e3o respons\u00e1veis por organizar o festejo da comunidade, que h\u00e1 mais de 50 anos re\u00fane manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas da tradi\u00e7\u00e3o ribeirinha, com dan\u00e7as t\u00edpicas como boi curumim, carimb\u00f3, seringand\u00f4 e quadrilha. O evento chega a atrair turistas de toda a regi\u00e3o. \u201cA gente est\u00e1 afastando as pessoas das rela\u00e7\u00f5es humanas. Eu fico indignado em ver meus alunos, excelentes alunos, dormindo em frente de uma televis\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A justificativa da Seduc para adotar esse sistema de media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e9 porque existem regi\u00f5es de dif\u00edcil acesso e com d\u00e9ficit de professores em Rond\u00f4nia, sobretudo nas zonas rurais. Mas o documento do projeto que cria esse sistema omite a aus\u00eancia de concursos p\u00fablicos para preenchimento de vagas nessas localidades desde 2016. Tampouco fala da demiss\u00e3o em massa de professores tempor\u00e1rios e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho do magist\u00e9rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este ano, a Seduc tentou implementar a media\u00e7\u00e3o em toda a regi\u00e3o do Baixo Madeira. No distrito de S\u00e3o Carlos, a comunidade foi convocada pela escola a um debate e posterior vota\u00e7\u00e3o, que resultou na maioria das fam\u00edlias se posicionando contra seus filhos estudarem por de uma televis\u00e3o. No distrito de Nazar\u00e9, as fam\u00edlias sequer foram escutadas. Poucos dias antes do in\u00edcio das aulas presenciais, elas apenas foram comunicadas pela dire\u00e7\u00e3o da escola de que, a partir deste ano, seria implementada a media\u00e7\u00e3o no ensino m\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom a media\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 sendo legal. Eu n\u00e3o concordo, \u00e9 muito chato. Al\u00e9m de ter o professor em sala de aula, a gente quer interagir com ele\u201d, comenta a estudante Jenifher Coutinho, de 16 anos. \u201cOutra dificuldade \u00e9 quando a energia vai embora, a gente fica l\u00e1 esperando e, se a energia n\u00e3o volta, tem que ir embora pra casa, porque o mediador da sala n\u00e3o pode nem dar aula\u201d, acrescenta Kerlon.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Meninos Garimpeiros\" width=\"600\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NvCQAxlAobA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>*&nbsp;<em>Esta reportagem foi financiada pelo Amazon Rainforest Journalism Fund (Amazon RJF) em parceria com o Pulitzer Center<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao caminhar pelas ruas das comunidades ribeirinhas de Rond\u00f4nia, na Amaz\u00f4nia Ocidental, \u00e9 comum ver crian\u00e7as correndo, jogando bola e empinando pipa tendo como fundo as balsas de garimpeiros ancoradas nos barrancos do rio Madeira. O garimpo est\u00e1 sempre aberto para quem quiser entrar na atividade. \u00c9 o contr\u00e1rio das escolas da regi\u00e3o que t\u00eam&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/07\/13\/amazonia-real\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[770,195,8],"class_list":["post-33988","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-distrito-de-nazare","tag-garimpo","tag-porto-velho"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Qc","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33988"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33988\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33995,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33988\/revisions\/33995"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}