{"id":34173,"date":"2022-09-13T20:21:18","date_gmt":"2022-09-14T00:21:18","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=34173"},"modified":"2022-09-13T20:21:22","modified_gmt":"2022-09-14T00:21:22","slug":"por-que-os-garimpeiros-comem-as-vaginas-das-mulheres-yanomami","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/09\/13\/por-que-os-garimpeiros-comem-as-vaginas-das-mulheres-yanomami\/","title":{"rendered":"\u201cPor que os garimpeiros comem as vaginas das mulheres Yanomami?\u201d"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"937\" height=\"1390\" data-attachment-id=\"34174\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2022\/09\/13\/por-que-os-garimpeiros-comem-as-vaginas-das-mulheres-yanomami\/8a293056-43e2-47af-8d83-d548cc0a47d4\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?fit=937%2C1390\" data-orig-size=\"937,1390\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1663099974&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?fit=202%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?fit=600%2C890\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?fit=600%2C890\" alt=\"\" class=\"wp-image-34174\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?w=937 937w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?resize=202%2C300 202w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?resize=690%2C1024 690w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/8A293056-43E2-47AF-8D83-D548CC0A47D4.jpeg?resize=768%2C1139 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A pergunta denuncia o horror imposto pela omiss\u00e3o deliberada do governo Bolsonaro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da maior terra ind\u00edgena demarcada no Brasil, invadida por cerca de 20 mil mineradores ilegais, acusados de violar as mulheres e a floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/sumauma.com\/autor\/talita-bedinelli\/\">TALITA BEDINELLI<\/a>, Suma\u00fama Jornalismo <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fotos: Pablo Albarenga<br><\/strong><strong>Tradu\u00e7\u00e3o do Yanomami:<\/strong>&nbsp;Ana Maria Machado&nbsp;e Ehuana Yaira&nbsp;Yanomami<\/p>\n\n\n\n<p>A MULHER YANOMAMI SENTA NO BANCO DE MADEIRA, ESPANTA COM AS M\u00c3OS OS PERNILONGOS QUE TEIMAM EM SE APROXIMAR. O longo colar de mi\u00e7angas amarelas cruza seus seios descobertos e contorna sua barriga de gr\u00e1vida. O filho, de 4 anos, se aninha a ela, que lamenta sua magreza. \u201cA mal\u00e1ria comeu ele\u201d, explica. Na floresta invadida e controlada pelo garimpo, crian\u00e7as como ele morrem da doen\u00e7a depois de dias ou semanas de febre alta e v\u00f4mitos ininterruptos. A desnutri\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade h\u00e1 v\u00e1rios anos e tem se agravado em v\u00e1rias aldeias. Nos territ\u00f3rios controlados pela minera\u00e7\u00e3o ilegal, pequenos Yanomami vomitam vermes. Os medicamentos demoram a chegar ou n\u00e3o chegam. Ent\u00e3o a mulher come\u00e7a a nos contar sobre o que teme ainda mais do que a fome e a mal\u00e1ria, ainda mais do que crian\u00e7as vomitando vermes. Ela conta sobre o que fazem com suas vaginas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/20220814_yanomami_dji_0024_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/20220813_yanomami__dsc8647_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>O corpo da maior floresta tropical do mundo, grande reguladora do clima do planeta, foi violado e invadido por cerca de 20 mil mineradores ilegais na Terra Ind\u00edgena Yanomami, um territ\u00f3rio de 9,6 milh\u00f5es de hectares entre os estados de Roraima e Amazonas, no norte do Brasil, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com a Venezuela. Eles abrem crateras no ch\u00e3o, reviram o leito dos rios com suas imensas dragas, despejam fezes, merc\u00fario, gasolina e diesel em grandes quantidades nas \u00e1guas da floresta. Parte deles usa armas militares, em algumas regi\u00f5es h\u00e1 envolvimento com fac\u00e7\u00f5es do crime organizado -o narcogarimpo. E avan\u00e7am, diante dos sinais de omiss\u00e3o deliberada do governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, uma centena deles se aproximou da aldeia dessa mulher Yanomami em busca de ouro. As seis balsas se instalaram a uma hora de sua casa. Um jovem da comunidade foi com a esposa at\u00e9 o garimpo. De olho em sua companheira, um grupo de garimpeiros o estimulou a beber at\u00e9 que o homem caiu desacordado no ch\u00e3o. \u201cEle estava b\u00eabado, ca\u00eddo, por isso comeram a vagina dela\u201d, conta a mulher. E os estupros seguiram. Uma adolescente de 17 anos foi atra\u00edda a uma das balsas por outro jovem ind\u00edgena que atuava como barqueiro para os criminosos. \u201cEle disse pra ela: \u2018vamos conseguir uma espingarda para o seu pai [ca\u00e7ar], eu quero pegar um motor [de barco]!&#8217;\u201d. Ao chegarem l\u00e1, deram cacha\u00e7a \u00e0 menina. E seu corpo foi violado por um homem. E depois por outro. E mais outro. \u201cFoi um tanto assim [de gente]\u201d, diz ela, sinalizando com as m\u00e3os uma quantidade que n\u00e3o sabe precisar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o estupro coletivo, a fam\u00edlia da adolescente recebeu pacotes de arroz, feij\u00e3o, calabresa, farinha e sardinha. N\u00e3o h\u00e1 para quem denunciar. E, ainda que alguma queixa formal fosse registrada, seria muito dif\u00edcil encontrar homens que entram e saem da floresta ilegalmente quando e como querem. No territ\u00f3rio demarcado h\u00e1 exatos 30 anos, sob prote\u00e7\u00e3o constitucional do Estado brasileiro, h\u00e1 regi\u00f5es controladas pela minera\u00e7\u00e3o ilegal em que os chefes de garimpo tornaram-se o Estado. Nos quase quatro anos da presid\u00eancia de Jair Bolsonaro, essa realidade s\u00f3 se agravou, sem nenhuma ofensiva consistente e realmente eficaz por parte do poder p\u00fablico. Diante da press\u00e3o nacional e internacional, o governo se limita a fazer opera\u00e7\u00f5es pirot\u00e9cnicas pontuais, que por 15 dias destroem maquin\u00e1rios e aeronaves, rendem boas imagens na imprensa, mas nada mudam. Em 2021, foram feitas tr\u00eas. Neste ano, apenas uma, no in\u00edcio de agosto, e os garimpeiros j\u00e1 retornaram.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher finalmente nos pergunta em sua l\u00edngua. H\u00e1 dor e revolta em sua voz: \u201cPor que os garimpeiros comem as vaginas das mulheres Yanomami?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por qu\u00ea? Como respondemos a essa pergunta para uma mulher que testemunha seu mundo ser destru\u00eddo desde que o primeiro&nbsp;<em>nap\u00ebp\u00eb&nbsp;<\/em>[branco, estrangeiro, inimigo] colocou os p\u00e9s na floresta? Por onde come\u00e7ar?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/20220809_yanomami__dsc8034_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ana Maria Machado me acompanha. Indigenista e antrop\u00f3loga, ela \u00e9 das poucas tradutoras de uma das seis l\u00ednguas faladas pelos Yanomami e convive com algumas comunidades h\u00e1 15 anos. Foi inclu\u00edda \u00e0 equipe porque buscamos a palavra exata e queremos compreender o que vive o povo Yanomami em seus pr\u00f3prios termos. Mas mesmo Ana n\u00e3o estava preparada para o que escuta e para o que testemunha. Meninas que ela conhece desde os primeiros passos foram violadas e prostitu\u00eddas, adolescentes que viu crescer aliciam amigos em troca de celulares. \u00c9 um mundo em dissolu\u00e7\u00e3o e Ana sabe que, se os garimpeiros partirem, essas marcas permanecer\u00e3o, porque o que est\u00e1 mudando \u00e9 uma forma de ser floresta e de estar na floresta, como aponta o grande xam\u00e3&nbsp;<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/quando-nos-yanomami-acabarmos-a-terra-ira-se-vingar\/\">Davi Kopenawa em artigo<\/a>&nbsp;desta edi\u00e7\u00e3o. Como a floresta amaz\u00f4nica, os Yanomami podem estar perto do ponto de n\u00e3o retorno. O exterm\u00ednio em curso n\u00e3o \u00e9 apenas f\u00edsico, por armas de fogo, doen\u00e7as e contamina\u00e7\u00e3o, mas de um modo de vida que plantou parte da floresta que agora pisamos com nossos p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Sab\u00edamos que seria muito dif\u00edcil alcan\u00e7ar as regi\u00f5es dominadas pelo garimpo, porque os criminosos controlam n\u00e3o s\u00f3 o ch\u00e3o, mas tamb\u00e9m o ar. T\u00eam informa\u00e7\u00e3o sobre todos que chegam e at\u00e9 mesmo equipes de sa\u00fade enfrentam dificuldades para prestar assist\u00eancia. Testemunhamos a floresta virar um territ\u00f3rio controlado por uma esp\u00e9cie de mil\u00edcia, como aconteceu com as favelas e comunidades de grandes cidades brasileiras como o Rio de Janeiro. E vimos os adolescentes ind\u00edgenas serem aliciados como foram os meninos negros das comunidades urbanas, primeiro pelo tr\u00e1fico de drogas, depois pelas mil\u00edcias formadas por ex-integrantes das for\u00e7as p\u00fablicas de seguran\u00e7a. Est\u00e1 acontecendo agora. Diante da escassa resposta do poder p\u00fablico, a principal resist\u00eancia \u00e9 de lideran\u00e7as como Davi Kopenawa, de organiza\u00e7\u00f5es como a&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.hutukara.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami<\/a>&nbsp;e de ativistas socioambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados que obtivemos por meio da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o mostram que, desde julho de 2020, polos de sa\u00fade que funcionam dentro do territ\u00f3rio Yanomami foram fechados por 13 vezes devido a amea\u00e7as aos profissionais ou a conflitos armados provocados muitas vezes por garimpeiros nos territ\u00f3rios. No Homoxi, garimpeiros expulsaram a equipe de sa\u00fade e transformaram o local em um dep\u00f3sito de combust\u00edvel para suas aeronaves. Neste momento, 5 dos 37 polos do territ\u00f3rio est\u00e3o desativados, sem nenhum funcion\u00e1rio de sa\u00fade. S\u00e3o 3.485 ind\u00edgenas abandonados sem qualquer assist\u00eancia num momento de explos\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando precisam ser socorridos com urg\u00eancia, os Yanomami que t\u00eam celulares s\u00e3o obrigados a pedir aos garimpeiros para usar a internet instalada pela pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o criminosa. Desesperados, pedem ajuda \u00e0 Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai). O \u00fanico helic\u00f3ptero dispon\u00edvel para a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade Yanomami \u00e0s vezes est\u00e1 quebrado, segundo relatos de profissionais da sa\u00fade, enquanto nos c\u00e9us as dezenas de aeronaves dos garimpeiros voam ilegalmente sem problemas. Na regi\u00e3o do Xitei, onde o posto est\u00e1 fechado h\u00e1 cinco meses, pela terceira vez desde meados de 2020, dados oficiais mostram que 7 crian\u00e7as morreram no ano passado por falta de atendimento. No territ\u00f3rio Yanomami como um todo, 46 crian\u00e7as de menos de cinco anos perderam a vida no ano passado por falta de diagn\u00f3stico e tratamento. Segundo a Hutukara, em 2022, desde o final de julho at\u00e9 agora,&nbsp;<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/oito-criancas-indigenas-morrem-sem-atendimento-por-doencas-facilmente-trataveis-afirma-hutukara-associacao-yanomami\/\">morreram mais oito crian\u00e7as<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mapa_localizador_pt.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde que o pre\u00e7o do ouro disparou, fac\u00e7\u00f5es criminosas passaram a incluir a&nbsp;<em>commodity&nbsp;<\/em>em sua carteira de neg\u00f3cios ilegais, avan\u00e7ando sobre regi\u00f5es como o territ\u00f3rio Yanomami. Com frequ\u00eancia contam com a cumplicidade de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e o apoio de uma parcela das elites locais, que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o com a floresta marcada pelo extrativismo predat\u00f3rio. Se h\u00e1 28 mil ind\u00edgenas no local, os invasores s\u00e3o cerca de 20 mil, segundo estimativa de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, e a tend\u00eancia \u00e9 aumentar. T\u00eam armas capazes de enfrentar a Pol\u00edcia Federal e a For\u00e7a Nacional. O Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na Terra Ind\u00edgena Yanomami, da Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami, mostra que atuam em \u00e1reas que afetam 273 das 350 aldeias, provocando impactos em regi\u00f5es ocupadas por 56% da popula\u00e7\u00e3o Yanomami.<\/p>\n\n\n\n<p>O que resta para as mulheres, adultas e crian\u00e7as, as principais v\u00edtimas de todas as guerras? Como ent\u00e3o come\u00e7ar a responder \u00e0 pergunta da mulher Yanomami que d\u00e1 t\u00edtulo a esta reportagem?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela vive na regi\u00e3o da Miss\u00e3o Catrimani, uma das \u00e1reas que pertencem \u00e0 Terra Ind\u00edgena Yanomami. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel alcan\u00e7armos&nbsp;sua casa sem corrermos risco de morte. O dom\u00ednio dos garimpeiros j\u00e1 se estendeu at\u00e9 l\u00e1 e a entrada \u00e9 controlada. Em cada regi\u00e3o que planejamos chegar, pessoas que Ana Maria conhece h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada avisam que, se entrarmos, poderemos n\u00e3o sair. Os Yanomami est\u00e3o sitiados e, assim, suas vozes mais e mais silenciadas. Para enfrentar essa barreira sem nos tornarmos v\u00edtimas, como recentemente aconteceu com o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips, executados em junho, no Vale do Javari, outra regi\u00e3o amaz\u00f4nica invadida pelo crime organizado, buscamos uma solu\u00e7\u00e3o. Para que as mulheres pudessem ser escutadas, contamos com o apoio do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Socioambiental<\/a>&nbsp;(ISA), uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es socioambientais brasileiras, para retirar mulheres dos territ\u00f3rios afetados, de avi\u00e3o, e lev\u00e1-las ao Demini, regi\u00e3o liderada pelo xam\u00e3 Davi Kopenawa, onde poderiam testemunhar sobre o que vivem sem correr riscos. Botamos em curso uma complexa opera\u00e7\u00e3o de jornalismo em territ\u00f3rio de guerra, uma guerra cujas for\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o desproporcionais que a palavra mais exata seria massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>Levamos outro grupo de mulheres para um s\u00edtio pr\u00f3ximo \u00e0 capital de Roraima, Boa Vista, uma cidade cujo principal monumento \u00e9 a est\u00e1tua de um garimpeiro. L\u00e1 pedimos que desenhassem o que escutam, veem, sofrem. S\u00e3o estes desenhos que se misturam \u00e0s fotografias da terceira pessoa da equipe de&nbsp;<em>Suma\u00fama<\/em>, Pablo Albarenga. Como elas ter\u00e3o que voltar para o territ\u00f3rio controlado pelos criminosos, n\u00e3o podem ser identificadas sem correr risco de execu\u00e7\u00e3o, assim como suas fam\u00edlias e comunidades. Pablo tem a miss\u00e3o dif\u00edcil de documentar a realidade dram\u00e1tica do territ\u00f3rio Yanomami em imagens \u2013 sem identificar as mulheres. A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi mesclar suas fotos a seus desenhos. Cada foto desta reportagem associa uma mulher \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o pessoal de como o garimpo a afeta. Esta \u00e9 a imagem que elas revelam ao mundo com o rosto que precisam ocultar.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagens de sat\u00e9lite mostram a evolu\u00e7\u00e3o do desmatamento feito pelo garimpo em tr\u00eas \u00e1reas do territ\u00f3rio. Em amarelo, as aldeias<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/homoxi-1.gif?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/kayanau-1.gif?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/xitei-1.gif?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/20220813_yanomami__dsc8693_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Uma delas usa uma camiseta branca velha e uma saia curta preta. Em sua casa se veste sempre com uma tanga de l\u00e3 e mi\u00e7angas adornando o corpo, mas nesse momento est\u00e1 em tratamento m\u00e9dico na cidade. Faz quest\u00e3o de tingir seu rosto com cinco listras vermelhas feitas com uma pasta de urucum minutos antes de dar entrevista. Sabe que sua imagem n\u00e3o poder\u00e1 ser mostrada, mas com o ritual ela se apropria do que \u00e9. A tinta do fruto amaz\u00f4nico \u00e9 usada pelas mulheres da floresta para se enfeitar, perfumar e tamb\u00e9m como protetor solar. Depois de pronta, ela faz o desenho que abre esta reportagem, os p\u00eanis desproporcionais que ela estampa deixam o lugar dos pesadelos e migram para o papel.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher ind\u00edgena conta que, h\u00e1 cinco meses, foi retirada gr\u00e1vida de sua aldeia e levada \u00e0s pressas a um hospital da cidade. \u201cPerdi meu filho na barriga. Ele nasceu morto no hospital.\u201d Encolhe-se na cadeira. \u00c9 o terceiro aborto seguido que sofreu nos \u00faltimos anos. Antes, teve dois filhos, que est\u00e3o com 20 e com 9 anos. Abortos espont\u00e2neos, indesejados, s\u00e3o incomuns na vida de mulheres como ela. Ou eram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel saber a causa exata das mortes de seus filhos sem uma investiga\u00e7\u00e3o. Mas o merc\u00fario usado no garimpo para separar o ouro das rochas pode levar \u00e0 m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o fetal e, como consequ\u00eancia, a um aborto. \u201cO metal contamina os animais aqu\u00e1ticos e acaba ingerido pelas pessoas durante a alimenta\u00e7\u00e3o. Depois, se distribui por todos os \u00f3rg\u00e3os e tecidos do corpo\u201d, explica Paulo Basta, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em 2014, uma pesquisa liderada por ele j\u00e1 denunciava uma alta contamina\u00e7\u00e3o pela subst\u00e2ncia nos corpos dos Yanomami. Outro estudo, divulgado em agosto deste ano, tamb\u00e9m pela Fiocruz, estima que 45% do merc\u00fario usado em garimpos ilegais \u00e9 despejado em rios e igarap\u00e9s da Amaz\u00f4nia sem qualquer tratamento ou cuidado. No in\u00edcio de 2021, os pesquisadores coletaram amostras de peixes no rio Uraricoera, que cruza o territ\u00f3rio Yanomami e \u00e9 um dos mais afetados pela minera\u00e7\u00e3o ilegal. Descobriram que, a cada dez peixes, seis apresentaram n\u00edveis de merc\u00fario acima dos limites estipulados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pessoa contaminada por merc\u00fario pode ter alucina\u00e7\u00f5es, convuls\u00f5es, dores de cabe\u00e7a constantes e perdas de vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da morte do feto, gestantes expostas \u00e0 subst\u00e2ncia podem ter filhos que demorar\u00e3o para se sentar, engatinhar, dar os primeiros passos, falar e aprender. \u00c9 um dano que atravessar\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que o merc\u00fario pode permanecer no meio ambiente por at\u00e9 100 anos. \u201cO que est\u00e1 acontecendo com os Yanomami \u00e9 uma crise sanit\u00e1ria e humanit\u00e1ria sem precedentes\u201d, afirma o cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 mais uma pergunta que n\u00e3o sabemos por onde come\u00e7ar a responder: por que a mulher que desenha p\u00eanis desproporcionais foi condenada a tr\u00eas abortos? Por que \u00e9 condenada a temer a pr\u00f3xima gravidez tanto quanto teme a proximidade dos homens donos dos p\u00eanis que desenha? Quem vai fazer os criminosos pararem de violar os corpos das mulheres, os rios e a floresta?<\/p>\n\n\n\n<p>Um sobrevoo pelo territ\u00f3rio Yanomami mostra que o corpo da floresta est\u00e1 coberto por feridas, crateras abertas e reviradas de lama que engoliram as \u00e1rvores. Marrom avan\u00e7ando sobre verde. A imagem se assemelha ao estrago produzido por bombas lan\u00e7adas do c\u00e9u. Um \u00fanico buraco chega a ocupar at\u00e9 300 hectares da floresta. Pense em 422 campos oficiais de futebol emendados e ter\u00e1 uma imagem aproximada. Em agosto, \u00faltimo m\u00eas com dados dispon\u00edveis, o desmatamento provocado pela minera\u00e7\u00e3o ilegal j\u00e1 atingia 4.411 hectares \u2013 o equivalente a mais de 6 mil campos de futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>No ch\u00e3o, a viol\u00eancia tem cheiro. \u201cA \u00e1gua fede\u201d, conta uma Yanomami da regi\u00e3o do Parima. Os garimpeiros est\u00e3o perto de sua aldeia e despejam suas fezes no rio, onde sua comunidade se banha, pesca e coleta \u00e1gua para beber e cozinhar. \u201cEles fazem coc\u00f4 na \u00e1gua e a gente fica com diarreia\u201d, relata. Quando n\u00e3o tinha garimpeiro, est\u00e1vamos bem. Peg\u00e1vamos caranguejos e peixes bons, beb\u00edamos \u00e1gua muito boa, mas agora est\u00e1 ruim. Se mandarem eles para bem longe, se a \u00e1gua ficar limpa novamente, ser\u00e1 que os peixes v\u00e3o voltar a ficar gostosos?\u201d, pergunta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/20220813_yanomami__dsc8669_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>FOTOGRAFIA: PABLO ALBARENGA,&nbsp; DESENHOS: MULHERES YANOMAMI<\/p>\n\n\n\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a primeira invas\u00e3o massiva do territ\u00f3rio Yanomami. No final da d\u00e9cada de 1980, 40 mil homens se espalharam pela regi\u00e3o. Levaram v\u00edrus, bact\u00e9rias e armas de fogo. O resultado foi o exterm\u00ednio de 14% da popula\u00e7\u00e3o. Dessa \u00e9poca, a principal documenta\u00e7\u00e3o \u00e9 de Claudia Andujar, fot\u00f3grafa que se tornou tamb\u00e9m uma das principais vozes a ecoar o massacre do povo Yanomami na imprensa internacional.&nbsp;<em>Xawara<\/em>&nbsp;\u00e9 como os Yanomami chamam essa onda avassaladora de doen\u00e7as que mata seu povo. Naquele momento o territ\u00f3rio n\u00e3o estava demarcado e a como\u00e7\u00e3o global foi determinante para a homologa\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Yanomami, em 1992, sete anos ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil e quatro anos ap\u00f3s a primeira Constitui\u00e7\u00e3o que reconhecia os direitos dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Davi Kopenawa Yanomami, que teve sua m\u00e3e e parte da fam\u00edlia dizimada pelo sarampo trazido anos antes por mission\u00e1rios evang\u00e9licos, se tornou a voz de seu povo.&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/livro\/9788535926200\/a-queda-do-ceu?idtag=8b590d5a-7d0b-42b9-ac24-6a7a936d017c&amp;gclid=CjwKCAjwsfuYBhAZEiwA5a6CDNdSiiRO4NjpoOQvYXdP1M3xqosyDg-alGwcmSjN-xO58zkmjLFmXRoCjzoQAvD_BwE\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A queda do c\u00e9u<\/a>,&nbsp;<\/em>o livro que escreveu com o antrop\u00f3logo franc\u00eas Bruce Albert, se tornou um marco na literatura mundial e um ponto de inflex\u00e3o na antropologia. \u00c9 o testemunho de um xam\u00e3 a respeito do avan\u00e7o colonizador sobre o corpo da floresta e sobre o corpo dos seres da floresta. \u00c9 tamb\u00e9m o testemunho de um humano da floresta sobre o colapso clim\u00e1tico. Os xam\u00e3s seguram o c\u00e9u, mas os xam\u00e3s est\u00e3o sendo mortos pelos&nbsp;<em>nap\u00ebp\u00eb<\/em>&nbsp;e suas&nbsp;<em>xawara<\/em>. A express\u00e3o po\u00e9tica de Kopenawa se alinha \u00e0 melhor ci\u00eancia, ao mostrar que a a\u00e7\u00e3o da floresta, esse ente complexo de alta tecnologia formado pelo interc\u00e2mbio constante de tantos viventes, \u00e9 quem \u201ccria\u201d o c\u00e9u \u2013 ou a atmosfera terrestre. Se ela deixa de agir como floresta pela destrui\u00e7\u00e3o acelerada em curso, o c\u00e9u \u201ccai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Yanomami e a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, depois de uma ditadura empresarial-militar que durou 21 anos e converteu a floresta num corpo para explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, significava uma possibilidade de mudan\u00e7a na forma de tratar a natureza e os povos que jamais se separaram dela. Mas os governos democr\u00e1ticos nunca foram capazes ou quiseram estancar a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, a floresta e seus povos sofreram ataques do garimpo ilegal, de grandes mineradoras transnacionais, do agroneg\u00f3cio, de empreendimentos madeireiros e da grilagem (roubo de terras&nbsp; p\u00fablicas). Tamb\u00e9m foram usurpados por grandes obras governamentais, como hidrel\u00e9tricas, rodovias e ferrovias. Antes das invas\u00f5es garimpeiras, em 1973, durante a ditadura, a abertura da Perimetral Norte marcou o momento em que os contatos espor\u00e1dicos com os Yanomami passaram a ser massivos. Alguns indigenistas apontam que a estrada assinalou o in\u00edcio do holocausto vivido por um dos povos mais complexos do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase 50 anos depois, Jair Bolsonaro, not\u00f3rio defensor da ditadura, assim como o atual Congresso, dominado por representantes dos interesses do agroneg\u00f3cio e da minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, ampliou e acelerou a destrui\u00e7\u00e3o da floresta num momento em que o colapso clim\u00e1tico provoca eventos cada vez mais extremos. Expoente da nova extrema-direita global, Bolsonaro j\u00e1 fez garimpo ilegal quando pertencia aos quadros do Ex\u00e9rcito. Ao assumir a presid\u00eancia, em 2019, promoveu um desmonte nas estruturas dos \u00f3rg\u00e3os que fiscalizam crimes ambientais no pa\u00eds, ao mesmo tempo em que estimulava a explora\u00e7\u00e3o da floresta em suas falas p\u00fablicas. \u201cPor mim, eu abro o garimpo. Tem projeto para abrir o garimpo em terra ind\u00edgena\u201d, disse ele, em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a campanha, ele j\u00e1 havia deixado claro quais seriam suas bandeiras: \u201cPode ter certeza que, se eu chegar l\u00e1 [na Presid\u00eancia] n\u00e3o vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidad\u00e3o vai ter uma arma de fogo dentro de casa e n\u00e3o vai ter um cent\u00edmetro demarcado para reserva ind\u00edgena ou para quilombola\u201d, afirmou em um evento p\u00fablico. A promessa de n\u00e3o demarcar um cent\u00edmetro a mais de terra ind\u00edgena foi cumprida \u00e0 risca. A abertura do garimpo legalizado em terras ind\u00edgenas est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de Bolsonaro provocou comunica\u00e7\u00f5es ao Tribunal Penal Internacional por genoc\u00eddio ind\u00edgena. Durante a pandemia, ele chegou a vetar \u00e1gua pot\u00e1vel para os povos origin\u00e1rios, entre v\u00e1rias outras decis\u00f5es que impediram o combate eficaz \u00e0 covid-19 e resultaram na morte de algumas das principais lideran\u00e7as ind\u00edgenas no Brasil \u2014 pelo menos uma delas o \u00faltimo anci\u00e3o de seu povo, caso da etnia Juma. A pandemia tamb\u00e9m afastou da floresta as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais que atuavam em defesa da natureza e de seus povos, mas n\u00e3o afastou os predadores. Pelo contr\u00e1rio. A frase \u201cDestruidores da Amaz\u00f4nia n\u00e3o fazem<em>&nbsp;home office<\/em>\u201d se tornou famosa em v\u00e1rias l\u00ednguas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pandemias como a de covid-19 est\u00e3o conectadas ao desmatamento de florestas e de outros biomas: v\u00edrus que antes estavam contidos pela mata, passam a alcan\u00e7ar os humanos ao perder seu habitat. Ainda assim, no Brasil a pandemia foi usada para expandir ainda mais a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Em outubro de 2018, dois meses antes de Bolsonaro assumir o poder, o projeto da Hutukara que monitora o desmatamento provocado pelo garimpo apontava uma devasta\u00e7\u00e3o de cerca de 1.200 hectares na \u00e1rea demarcada. Em dezembro de 2021, quase dois anos ap\u00f3s o primeiro caso de covid-19 no Brasil, a destrui\u00e7\u00e3o mais do que dobrou, atingindo 3.272 hectares. Em 2022, at\u00e9 agosto, mais 1.100 hectares da floresta foram consumidos pela atividade ilegal. Outro monitoramento, realizado pelo governo federal, aponta que apenas em janeiro deste ano foram emitidos 216 alertas de desmatamento por extra\u00e7\u00e3o mineral dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena, quase sete por dia. H\u00e1 casos ainda mais alarmantes: na regi\u00e3o do Xitei, a \u00e1rea desmatada aumentou 1.101% entre dezembro de 2020 e o mesmo m\u00eas de 2021.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/desmatamento_pt-2.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Vetores de doen\u00e7as variadas, os garimpeiros e sua for\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o multiplicaram a mal\u00e1ria no territ\u00f3rio Yanomami. Uma mulher da regi\u00e3o de Hakoma cruza os bra\u00e7os na frente do t\u00f3rax, fecha as p\u00e1lpebras com for\u00e7a e chacoalha o corpo inteiro. \u00c9 como explica a febre de mais de 40 graus que teve ao contrair a doen\u00e7a. Conta ter ficado em \u201c<em>poremu\u201d<\/em>, o que significa um estado de fantasma ou de espectro porque sua imagem vital foi afetada. N\u00e3o conseguia fazer nada, sequer aguentava levantar de sua rede. Em sua aldeia, foi medicada e se recuperou. Algum tempo depois, teve mal\u00e1ria pela segunda vez, o quadro se agravou e ela precisou ser levada para o hospital de Boa Vista.<\/p>\n\n\n\n<p>De sua casa, na aldeia, ela escuta o dia inteiro o barulho das m\u00e1quinas de extra\u00e7\u00e3o de ouro que trabalham na floresta. \u201cP\u00f3-p\u00f3-p\u00f3-p\u00f3-p\u00f3-p\u00f3-p\u00f3\u201d, narra ela. Marca o ritmo que se tornou cotidiano com os punhos fechados. O ru\u00eddo n\u00e3o para nem quando a noite chega. \u201cL\u00e1 descem muitos avi\u00f5es. No lugar onde eles fazem os buracos descem espingardas, cartuchos, len\u00e7\u00f3is, comida, combust\u00edvel, essas coisas\u201d, conta. &nbsp;Os dados que obtivemos por meio da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o demonstram um aumento avassalador da doen\u00e7a. Entre 2018, quando o n\u00famero de garimpeiros ilegais disparou no territ\u00f3rio, e 2021, os casos de mal\u00e1ria aumentaram 105%. Se em 2014 foram 2.928 ocorr\u00eancias, em 2021 esse n\u00famero saltou para 20.394. Pelo menos 15 pessoas morreram no ano passado, dez delas eram crian\u00e7as de 1 a 9 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O medicamento usado para o tratamento da doen\u00e7a provocada por um dos tipos de protozo\u00e1rios, o&nbsp;<em>Plasmodium vivax<\/em>, est\u00e1 em falta no Brasil, segundo admite uma nota t\u00e9cnica do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, obtida com exclusividade pela ag\u00eancia de jornalismo independente e investigativo<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/falta-cloroquina\/\">&nbsp;<em>Amaz\u00f4nia Real<\/em><\/a>, assinada em junho deste ano. \u00c9 a cloroquina, que foi falsamente propagandeada por Jair Bolsonaro como um ant\u00eddoto para combater precocemente a covid-19. Al\u00e9m de dar uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a diante da pandemia, a mentira disseminada pelo presidente brasileiro causou desabastecimento de um medicamento essencial para combater a mal\u00e1ria, ampliando a trag\u00e9dia entre os ind\u00edgenas. \u201cA sa\u00fade est\u00e1 em colapso\u201d, define J\u00fanior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Sa\u00fade Ind\u00edgena Yanomami (Condisi). \u201cN\u00e3o tem rem\u00e9dio para verme, n\u00e3o tem cloroquina, a fome est\u00e1 chegando. A nossa hist\u00f3ria est\u00e1 sendo interrompida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mal\u00e1ria<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2014 e 2021, os casos da doen\u00e7a entre os Yanomami saltaram de 2.928 para 20.394<\/p>\n\n\n\n<p>FONTE MINIST\u00c9RIO DA SA\u00daDE<\/p>\n\n\n\n<p>*dados de 2022 at\u00e9 maio<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/malaria_1_pt-1.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/20220813_yanomami__dsc8682_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Com a doen\u00e7a, vem a fome e a desnutri\u00e7\u00e3o. O modo de vida tradicional dos Yanomami envolve passar a maior parte do tempo cuidando da ro\u00e7a, coletando frutos e outros alimentos da floresta, al\u00e9m da pesca e da ca\u00e7a. Quando grande parte da popula\u00e7\u00e3o adoece, a ro\u00e7a \u00e9 perdida e a coleta n\u00e3o \u00e9 feita. A contamina\u00e7\u00e3o dos peixes e outros animais dos rios por merc\u00fario e outras subst\u00e2ncias t\u00f3xicas agrava a situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar. Com a invas\u00e3o de milhares de homens e suas vilas abertas \u00e0 for\u00e7a na mata, os animais que poderiam ser ca\u00e7ados desaparecem. \u00c9 uma destrui\u00e7\u00e3o em cadeia do sistema alimentar de um povo, que v\u00ea seu modo de vida milenar se tornar repentinamente imposs\u00edvel. Passa ent\u00e3o a ser obrigado a mendigar comida de seus algozes, em geral alimentos ultraprocessados. O pre\u00e7o que pagam \u00e9 sempre muito, muito alto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossa ro\u00e7a alagou tudo. Foi muita \u00e1gua. As macaxeiras apodreceram. Meu neto diz que est\u00e1 com fome\u201d, diz outra mulher Yanomami. \u201cN\u00e3o tem macaxeira e por isso eu e meu marido viemos para a cidade [para tentar conseguir cestas b\u00e1sicas]. Nossa nova ro\u00e7a ainda est\u00e1 pequena. Todas as crian\u00e7as emagreceram, por isso estou muito triste!\u201d. Ela mora no Palimiu, onde o desmatamento aumentou 228% entre dezembro de 2020 e o mesmo m\u00eas de 2021. Conta que os garimpeiros usam uma mangueira para drenar a \u00e1gua para as m\u00e1quinas que separam o ouro e jogam o l\u00edquido contaminado de volta \u00e0 floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2021, um grupo de Yanomami do Palimiu barrou uma embarca\u00e7\u00e3o dos invasores que passava em frente \u00e0 aldeia e apreendeu 990 litros de combust\u00edvel que eles levavam ao garimpo. Mineradores que vinham em outra embarca\u00e7\u00e3o atiraram contra os ind\u00edgenas. Depois disso, outros nove ataques a tiros se seguiram at\u00e9 agosto do ano passado. Em um deles, duas crian\u00e7as se perderam de seus parentes. Foram encontradas mortas dentro do rio, com sinais de afogamento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/20220813_yanomami__dsc8689_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em outras aldeias, por\u00e9m, a entrada de garimpeiros tem acontecido sem resist\u00eancia. Os invasores s\u00e3o, muitas vezes, chamados pelos pr\u00f3prios homens da comunidade. No ano de 1500, quando os primeiros invasores portugueses aportaram no Brasil, ficou cl\u00e1ssica a troca de quinquilharias como espelhinhos por ouro. A mesma troca ordin\u00e1ria se repete neste momento, mais de cinco s\u00e9culos depois, no territ\u00f3rio Yanomami e em outras regi\u00f5es amaz\u00f4nicas. Jovens ind\u00edgenas se aliam aos destruidores em troca da vers\u00e3o contempor\u00e2nea dos espelhinhos, que vai de cacha\u00e7a a celulares baratos. Mais recentemente, tamb\u00e9m querem ouro. Davi Kopenawa costuma nomear os brancos como \u201cpovo da mercadoria\u201d, porque gostam de coisas, bugigangas, e as trocam pela vida. Esse gosto por mercadorias come\u00e7a a seduzir os adolescentes Yanomami.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 relatos de que jovens Yanomami aliciam meninas que rec\u00e9m-menstruaram para que garimpeiros fa\u00e7am sexo com elas em prost\u00edbulos montados dentro dos acampamentos. Relatos de alcoolismo de ind\u00edgenas nessas corrutelas de garimpo j\u00e1 se multiplicam. A bebida costuma ser comprada com o que recebem no trabalho com garimpeiros. \u201cQuando eles querem comprar cacha\u00e7a [na cantina do garimpo], eles compram e voltam b\u00eabados!\u201d, diz uma das mulheres que entrevistamos. Esses acampamentos v\u00e3o virando vilas, com v\u00e1rios com\u00e9rcios e cabar\u00e9s e, se seguirem a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil e n\u00e3o forem barrados pelo Estado, logo haver\u00e1 pequenas cidades totalmente ilegais dentro da Terra Ind\u00edgena Yanomami, uma afronta sem precedentes \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o do Brasil e \u00e0s leis internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das mulheres que entrevistamos \u00e9 ainda uma menina. Seu par de chinelos cor-de-rosa \u00e9 tamanho 30, usado por crian\u00e7as de seis anos com a estatura esperada para a idade. Ela tem 18 anos, mas mede menos de 1,20 metro e fala t\u00e3o baixo que por vezes \u00e9 imposs\u00edvel entend\u00ea-la. Est\u00e1 em Boa Vista, mas n\u00e3o lembra como chegou \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina morava em um garimpo ilegal, pr\u00f3ximo \u00e0 sua aldeia, e dormia com outras tr\u00eas garotas Yanomami, duas de 14, e uma de 13 anos, na varanda de uma casa de madeira. Diz que era um \u201cprost\u00edbulo\u201d. Convencida por um jovem de sua comunidade a fugir de casa junto a uma prima, conta que ficava ali por comida. Sua meia irm\u00e3, de 14 anos, j\u00e1 tinha sido levada antes dela. Fazia sexo com os invasores em troca de arroz, bolacha, macarr\u00e3o e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres n\u00e3o ind\u00edgenas dormiam no lado de dentro, mas as adolescentes Yanomami atavam suas redes no lado de fora. No garimpo, adoeceu de mal\u00e1ria. Sem ajuda, desmaiou e seu corpo foi abandonado pelos garimpeiros em sua aldeia. A emerg\u00eancia foi chamada, e ela foi levada de avi\u00e3o diretamente \u00e0 UTI em Boa Vista. E assim acordou sozinha na cidade. Agarrada a um pirulito cor-de-rosa, a pequena Yanomami n\u00e3o admite se prostituir, apenas afirma que as outras se prostitu\u00edam. N\u00e3o faz ideia de que preservativos existem.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aldeia Demini, a artista Ehuana Yaira Yanomami, que nos ajudou a traduzir outras l\u00ednguas Yanomami, vive em um dos redutos da floresta onde o garimpo ainda n\u00e3o chegou. A \u00fanica fotografia em que as mulheres exp\u00f5em o rosto s\u00e3o dela e de suas duas irm\u00e3s. Ehuana escuta o som das araras e das folhas balan\u00e7ando com o vento. Anda entre as \u00e1rvores que conhece desde crian\u00e7a e abre caminho com um fac\u00e3o para chegar a um trecho do rio onde os peixes j\u00e1 est\u00e3o aparecendo. Com ela est\u00e3o as mulheres que levamos para esse encontro, vindas de regi\u00f5es corro\u00eddas pelo garimpo. Reencontram naquele momento um modo de vida que se distancia delas, lembram ali do que lhes foi arrancado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na comunidade, organizam uma pescaria coletiva com folhas de timb\u00f3 retiradas de suas ro\u00e7as. A erva t\u00f3xica, macerada e misturada com a terra, \u00e9 jogada no rio. Isso faz com que os peixes boiem, ap\u00f3s ficarem temporariamente asfixiados, e possam ser facilmente capturados. Os movimentos precisos dos meninos e homens com suas flechas e das meninas e mulheres com seus fac\u00f5es e cestos garantem o alimento. Repetem ali os gestos dos ancestrais, enquanto a amea\u00e7a se aproxima do Demini.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando acordamos, um pouco antes do amanhecer, \u00e0s vezes pensamos: \u2018ser\u00e1 que preciso arrancar macaxeira agora cedo? Estamos sem beiju, vamos ficar com fome!\u2019. E sa\u00edmos para arrancar macaxeira. Mas antes comemos um pouquinho esperando o dia clarear. Comemos um pouco de banana, n\u00e3o sa\u00edmos com fome. Quando vamos arrancar macaxeira levamos nossas filhas, os homens n\u00e3o nos acompanham.&nbsp; Depois carregamos lenha para casa, para que possamos cozinhar. \u00c9 assim que o nosso pensamento nos faz agir. Se ao acordar quisermos ir para a floresta, se tivermos dormido com fome e quisermos pescar, vamos at\u00e9 a ro\u00e7a colher folhas de timb\u00f3. Carregamos essas folhas e fazemos a pescaria. Quando voltamos para casa com os peixes, os cozinhamos e comemos e assim ficamos de barriga cheia e deitamos em nossas redes. Depois vamos tomar banho e, no final do dia, quando estiver quase anoitecendo, alimentamos nossa fam\u00edlia novamente. Se tiver carne de ca\u00e7a, comemos um pouco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/20220811_yanomami__dsc8559_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o dia contado por uma mulher do Demini. Ela e as outras mulheres da aldeia se vestem diariamente com tangas de l\u00e3 vermelha que cobrem suas vaginas, colares de mi\u00e7anga trespassados no peito, seios livres para os filhos menores se nutrirem sempre que tiverem vontade. Como quase todas as mulheres Yanomami, t\u00eam em m\u00e9dia tr\u00eas a seis filhos e andam sempre com o menor grudado ao corpo, carregado por uma tipoia de l\u00e3, e rodeada pelos outros pequenos. Elas percorrem a p\u00e9 os v\u00e1rios caminhos da floresta perto de sua comunidade, conhecem o nome de cada \u00e1rvore, planta ou inseto ali. Detestam quando precisam ir \u00e0 cidade fazer tratamento m\u00e9dico e preferem o frescor da floresta. Algumas nunca sa\u00edram da mata. A floresta \u00e9 casa, alimento, medicina, \u00e1gua, luz e sombra. Uma vida que se basta porque est\u00e1 em interc\u00e2mbio constante com tudo o que \u00e9 vivo. As fam\u00edlias convivem sem paredes que as separam. Nas rodas de conversas entre as redes, as mulheres soltam gargalhadas. Sabem, por\u00e9m, que seu mundo est\u00e1 em convuls\u00e3o. E, se continuar, o c\u00e9u vai cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, no Demini, terra do xam\u00e3 Davi Kopenawa, n\u00e3o correm riscos, n\u00e3o ainda. Mas temem. Aquelas que chegaram para contar do mal que avan\u00e7a na floresta as enchem de press\u00e1gios. \u201cNo futuro os brancos v\u00e3o acabar com a gente\u201d, diz uma delas. \u201cOs nap\u00ebp\u00eb estragam os Yanomami.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres do Demini olham com temor os grandes&nbsp;<em>moxi xawarap\u00eb<\/em>, a palavra Yanomami para \u201cp\u00eanis cheios de doen\u00e7as\u201d, desenhados pelas visitantes. Sabem o que os nap\u00ebp\u00eb e seus&nbsp;<em>moxi xawarap\u00eb&nbsp;<\/em>reservam \u00e0s mulheres ind\u00edgenas. Uma delas verbaliza: \u201cSe os garimpeiros comerem nossos \u00e2nus, v\u00e3o nos fazer sofrer. V\u00e3o matar nossos filhos e comer a vagina de nossas filhas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma delas sabe responder \u00e0 pergunta de por que eles comem as vaginas das mulheres Yanomami, por que invadem a floresta e seus corpos, porque estupram a elas e \u00e0 mata. Nenhuma resposta \u00e9 sequer sussurrada. Esse mist\u00e9rio brutal s\u00f3 os nap\u00ebp\u00eb conhecem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/20220814_yanomami__dsc9433_pa.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o:&nbsp;<strong>Eliane Brum<\/strong><br>Assessoria antropol\u00f3gica:&nbsp;<strong>Ana Maria Machado<\/strong><br>Infografia:&nbsp;<strong>Rodolfo Almeida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>* Suma\u00fama teve apoio do Instituto Socioambiental (ISA) para fazer essa reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Se voc\u00ea achou este conte\u00fado importante para a vida das gera\u00e7\u00f5es futuras, apoie Suma\u00fama, para que possamos fazer mais nas pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es.&nbsp;<a href=\"https:\/\/apoia.se\/sumaumajornalismo\">https:\/\/apoia.se\/sumaumajornalismo<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pergunta denuncia o horror imposto pela omiss\u00e3o deliberada do governo Bolsonaro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da maior terra ind\u00edgena demarcada no Brasil, invadida por cerca de 20 mil mineradores ilegais, acusados de violar as mulheres e a floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-34173","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-8Tb","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34173"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34175,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34173\/revisions\/34175"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}