{"id":34712,"date":"2024-03-21T19:53:35","date_gmt":"2024-03-21T23:53:35","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=34712"},"modified":"2024-03-21T19:53:35","modified_gmt":"2024-03-21T23:53:35","slug":"eric-nepomuceno-gabo-e-galeano-retrataram-fielmente-a-america-latina-sob-oticas-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/03\/21\/eric-nepomuceno-gabo-e-galeano-retrataram-fielmente-a-america-latina-sob-oticas-diferentes\/","title":{"rendered":"Eric Nepomuceno: Gabo e Galeano retrataram fielmente a Am\u00e9rica Latina sob \u00f3ticas diferentes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"34713\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/03\/21\/eric-nepomuceno-gabo-e-galeano-retrataram-fielmente-a-america-latina-sob-oticas-diferentes\/img_0745\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?fit=800%2C480\" data-orig-size=\"800,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_0745\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?fit=300%2C180\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?fit=600%2C360\" class=\"alignnone size-full wp-image-34713\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?resize=600%2C360\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?resize=300%2C180 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?resize=768%2C461 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_0745.webp?resize=500%2C300 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<h2 class=\"description\">Escritor e tradutor fala sobre obra p\u00f3stuma de Garc\u00eda M\u00e1rquez, ditadura no Brasil e grandes escritores latino-americanos<\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Brasil de Fato<\/p>\n<div>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u201cEu n\u00e3o come\u00e7o a escrever meus contos, e nem minhas tradu\u00e7\u00f5es, no computador. Eu escrevo a m\u00e3o. Dois, tr\u00eas par\u00e1grafos a m\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque \u00e0 m\u00e3o, eu escrevo muito mais devagar do que no computador. Ent\u00e3o, eu sinto o peso da palavra na m\u00e3o\u201d. Assim Eric Nepomuceno revela seu sentimento ao traduzir e escrever obras liter\u00e1rias. E a mais recente traduzida \u00e9 a obra in\u00e9dita de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez <em>Em agosto nos vemos,<\/em>\u00a0lan\u00e7ado postumamente.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Nepomuceno comenta que o novo livro \u00e9 um pouco diferente dos demais escritos de Garc\u00eda M\u00e1rquez, mas ainda impressionante. \u201cAcontece que <em>Em Agosto Nos Vemos<\/em>\u00a0rompe com tudo. Tem coisas mais expl\u00edcitas. Agora, o que me impressionou \u00e9 como ele escreve e descreve coisas t\u00e3o expl\u00edcitas, sem perder a atmosfera de delicadeza, de poesia, de mist\u00e9rio, de coisas suspensas no ar. Eu fiquei muito impressionado com isso&#8221;, descreve.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Nesta entrevista ao <em>Programa Bem Viver<\/em>, o jornalista, tradutor e escritor, um dos principais respons\u00e1veis por traduzir grandes cl\u00e1ssicos latino-americanos para a l\u00edngua portuguesa, se surpreende ao ser questionado sobre as semelhan\u00e7as entre <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/06\/gabriel-garcia-marquez-saiba-mais-sobre-o-mestre-do-realismo-magico-em-7-frases-marcantes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/a>, e <em>As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina<\/em>, de Eduardo Galeano, em rela\u00e7\u00e3o ao retrato que fazem da Am\u00e9rica Latina<br \/>\n\u201cEu nunca pensei nisso. (&#8230;) Eu tinha lido v\u00e1rios outros livros, do Gabo, achava o m\u00e1ximo e tal. Agora, <em>As Veias Abertas<\/em>, eu nunca pensei. Mas agora que voc\u00ea mencionou, eu acho que s\u00e3o dois olhos, dois pontos de vista, um ficcional, um n\u00e3o-ficcional, literatura de fic\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, que convergem, sim\u201d, diz.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O autor tamb\u00e9m fala de ditadura no Brasil e critica a postura do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) de n\u00e3o realizar atos de mem\u00f3ria sobre o golpe de 1964.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Confira a entrevista completa:<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Brasil de Fato: Como\u00a0foi essa tradu\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma? Conta-se, alguns familiares do Gabo diziam que ele n\u00e3o tinha interesse que ela fosse publicada, mas que fizeram uma avalia\u00e7\u00e3o e ela acabou vindo a p\u00fablico. Qual a sua percep\u00e7\u00e3o sobre essa obra?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Eric Nepomuceno: <\/strong>No ano passado, l\u00e1 para maio, junho, eu soube que o livro ia ser publicado, porque a Record tinha comprado os direitos. A Record publica o Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, me publica, h\u00e1 29 anos. Eu sou muito vinculado a Record, desde o tempo do S\u00e9rgio Machado, mesmo agora com a irm\u00e3 dele, a S\u00f4nia Machado Jardim.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Assim que o livro chegou, eu estava ainda passando a maior parte do tempo em Petr\u00f3polis, uma casa que eu tinha l\u00e1. E eu comecei a ler. Eu n\u00e3o costumo ler antes de traduzir. Eu quero ter, quando eu traduzo, o mesmo mecanismo que eu tenho quando escrevo minhas coisas. Chega o momento em que eu acho que eu sei como \u00e9 que vai continuar e eu posso parar e dormir.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Outra coisa: eu n\u00e3o come\u00e7o a escrever meus contos, e nem minhas tradu\u00e7\u00f5es, no computador. Eu escrevo a m\u00e3o. Dois, tr\u00eas par\u00e1grafos a m\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque \u00e0 m\u00e3o, eu escrevo muito mais devagar do que no computador. Ent\u00e3o, eu sinto o peso da palavra na m\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">E eu lembro que eu li o primeiro par\u00e1grafo e falei: Epa! E a\u00ed comecei a traduzir a m\u00e3o, sei l\u00e1, dez linhas, e estava pronto para ir para a m\u00e1quina. N\u00e3o fui. No dia seguinte eu peguei o livro e eu traduzi muito r\u00e1pido.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Esse livro \u00e9 curtinho. 130 p\u00e1ginas. Eu acho que foram umas 20 jornadas de trabalho, 20 dias e a tradu\u00e7\u00e3o estava pronta. Acabou. A\u00ed vem o que interessa. Eu levei uns tr\u00eas meses para revisar e deixar no ponto que o Garc\u00eda M\u00e1rquez deixou.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Com um detalhe. Eu lembro que ele, que \u00e9 um exemplo, demorava um ano para escrever um livro. Demorava dois, tr\u00eas anos para entregar para o editor. Era de um rigor, que nesse livro ele n\u00e3o teve. E, \u00e0s vezes, d\u00e1 para notar isso.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Tem umas imagens meio lugar comum, tem umas repeti\u00e7\u00f5es. Agora, o n\u00edvel de uma beleza t\u00e3o grande, que isso a\u00ed voc\u00ea passa direto. A n\u00e3o ser que voc\u00ea seja aquele cara que faz quest\u00e3o de descobrir onde \u00e9 que est\u00e1 o erro.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Mesmo se voc\u00ea descobrir onde \u00e9 que est\u00e1 o erro, voc\u00ea n\u00e3o vai poder negar jamais que \u00e9 puro Garc\u00eda M\u00e1rquez na veia. Que tem um ritmo narrativo peculiar s\u00f3 dele. Que tem uma carga po\u00e9tica s\u00f3 dele. E que tem uma grande surpresa, que \u00e9 a carga de erotismo, uma carga de erotismo expl\u00edcita.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Porque eu lembro que <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/03\/29\/bdf-indica-15-livros-para-ler-durante-a-quarentena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O Amor nos Tempos do C\u00f3lera<\/em><\/a>, fica no ar, isso paira no ar o tempo inteiro. Ali\u00e1s, em <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em> tamb\u00e9m. Eu lembro, quando eu traduzi <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, que eu nunca tinha lido em portugu\u00eas e ele n\u00e3o gostava nada da tradu\u00e7\u00e3o que existia. E vivia me pedindo: \u201cfaz uma tradu\u00e7\u00e3o, faz\u201d. Mas n\u00e3o depende de mim, depende de editora. At\u00e9 que a editora me chamou, era uma edi\u00e7\u00e3o comemorativa, n\u00e3o lembro direito, que eu traduzi.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">E pouco depois eu fui ao M\u00e9xico e, como fazia sempre, a gente foi almo\u00e7ar na casa dele. E eu comentei com ele: cara, eu traduzi, terminei os Cem Anos e com uma surpresa. Ele falou: &#8220;nessa altura ainda tem surpresa?&#8221;<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Tem uma carga de sensualidade em <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/05\/15\/cem-anos-de-solidao-completa-cinquentenario-como-marco-do-realismo-magico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em><\/a> que eu tinha lido esse livro 40 vezes, n\u00e3o inteiro, claro, que eu nunca tinha percebido. A gente estava na mesa, no jardim, era ele e eu, a Mercedes e uma prima dele, que era que nem uma irm\u00e3 dele. A\u00ed a Mercedes come\u00e7ou a rir, e eu fiquei sem entender, n\u00e3o lhe falei alguma besteira. A\u00ed ele falou a Mercedes o tempo inteiro disse isso, e s\u00f3 ela dizia isso, da carga sutil\u00edssima de sensualidade em 100 anos de solid\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">No <em>Amor nos Tempos de C\u00f3lera<\/em> isso a\u00ed \u00e9 bem mais insinuado. O cara fica esperando, sei l\u00e1, 400 p\u00e1ginas, at\u00e9 poder fugir com o amor da juventude dele.\u00a0 No <em>Mem\u00f3ria de Minhas Putas Tristes<\/em>, \u00e9 mais que insinuado, \u00e9 bem insinuado.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Acontece que <em>Em Agosto Nos Vemos<\/em>\u00a0rompe com tudo. Tem coisas mais expl\u00edcitas. Agora, o que me impressionou \u00e9 como ele escreve e descreve coisas t\u00e3o expl\u00edcitas, sem perder a atmosfera de delicadeza, de poesia, de mist\u00e9rio, de coisas suspensas no ar. Eu fiquei muito impressionado com isso.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Quero te ouvir\u00a0sobre uma compara\u00e7\u00e3o\u00a0entre <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, e <em>As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina<\/em>, de Eduardo Galeano. Talvez n\u00e3o na forma, assim, de escrita, porque, de fato, um \u00e9 um romance e outro se semelha muito mais a um artigo, uma disserta\u00e7\u00e3o. Mas, em conte\u00fado, as obras abordam, de uma maneira muito semelhante, um retrato fiel da Am\u00e9rica Latina&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu nunca pensei nisso. O Galeano era um irm\u00e3o mais velho que a vida me deu. Eu nunca pensei nisso e nunca conversei isso com ele. Eu lembro que eu demorei muito para ler o <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>. Eu s\u00f3 fui ler esse livro nos fins de 1973, come\u00e7o de 1974, por insist\u00eancia do Galeano. Por que que eu demorei tanto? Porque eu tenho alergia a best-seller.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu tinha lido v\u00e1rios outros livros, do Gabo, achava o m\u00e1ximo e tal. Agora, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/04\/24\/50-anos-de-veias-abertas-da-america-latina-um-livro-para-entender-a-vida-e-o-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>As Veias Abertas<\/em><\/a>, eu nunca pensei. Mas agora que voc\u00ea mencionou, eu acho que s\u00e3o dois olhos, dois pontos de vista, um ficcional, um n\u00e3o-ficcional, literatura de fic\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, que convergem, sim.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Por\u00e9m, eu acho que outra convers\u00e3o est\u00e1 entre <em>Cem Anos<\/em> e a trilogia do Galeano, <em>Mem\u00f3ria do Fogo<\/em>, em que ele conta a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o da humanidade dos mitos ind\u00edgenas do s\u00e9culo XII at\u00e9 1984. Eu acho que talvez a\u00ed haja uma proximidade maior. Por qu\u00ea? Porque ele n\u00e3o conta hist\u00f3ria de her\u00f3is. Quer dizer, conta tamb\u00e9m. Mas, por exemplo, quando ele fala do Benjamin Franklin, o personagem principal \u00e9 irm\u00e3 do Benjamin Franklin, que era quem protegia ele, quem bancava as maluquices dele. Sem ela, ele n\u00e3o teria feito o que fez. E eu acho isso muito legal nessa trilogia do Galeano.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Eric, o que voc\u00ea tem acompanhado dos artistas, dos escritores e escritoras da contemporaneidade? Voc\u00ea segue lendo os artistas e escritores latino-americanos?\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Para ser sincero, at\u00e9 2019, 2018, eu viajava bastante e tinha contato. Agora, nesses \u00faltimos quatro anos, eu leio os jornais do M\u00e9xico, da Argentina, que eu leio todo dia, que tem aparecido v\u00e1rios nomes, mas eu n\u00e3o tenho acompanhado de verdade.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu sempre menciono uma chilena, que \u00e9 uma contista incr\u00edvel, jovem, Alejandra Costa Magna, que eu acho que ela foi publicada no Brasil, sem maior repercuss\u00e3o. Tem uma outra Argentina, jovem, que tem um reconhecimento mundo afora, aqui no Brasil tamb\u00e9m, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/12\/21\/leia-mulheres-12-obras-de-escritoras-latino-americanas-para-conhecer-em-2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samanta Schweblin<\/a>, minha querida amiga. Eu brigo muito com ela, porque nunca traduzi nada dela.\u00a0N\u00e3o t\u00e3o jovem, bem mais jovem que eu \u2014 mas todo mundo hoje \u00e9 bem mais jovem que eu \u2014 tem um grande mexicano, que o Brasil n\u00e3o descobriu, Juan Villoro, incr\u00edvel de bom.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Ent\u00e3o, o Brasil continua um pa\u00eds amn\u00e9sico que n\u00e3o lembra de si pr\u00f3prio, n\u00e3o lembra a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, olha no espelho e n\u00e3o quer ver a pr\u00f3pria face, quer ver a face do amo, do senhor. \u00c9 um pa\u00eds profundamente ignorante em rela\u00e7\u00e3o aos nossos irm\u00e3os latino-americanos.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu lembro perfeitamente do meu, eu chamava ele de meu vice-pai, o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/11\/se-estivessem-vivos-berta-e-darcy-ribeiro-estariam-indignados-com-citacao-de-andre-mendonca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Darcy Ribeiro<\/a>, que dizia que enquanto o Brasil n\u00e3o entender que fazemos parte da Am\u00e9rica Latina, nada vai mudar. E dizia uma coisa legal: a m\u00e3o tem cinco dedos, cada um tem um tema digital, um dedo sozinho serve para quase nada. Os cinco juntos te ajudam a viver, fazem a tua vida.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Essa era a esperan\u00e7a dele, foi a luta dele para fazer os brasileiros entenderem que n\u00f3s somos cidad\u00e3os latino-americanos. O Brasil \u00e9 nossa p\u00e1tria-chica, nossa p\u00e1tria pequena. A nossa p\u00e1tria grande \u00e9 a Am\u00e9rica Latina. S\u00f3 que o Brasil, isso \u00e9 fruto de d\u00e9cadas de ignor\u00e2ncia, fruto da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/30\/ideia-de-ditabranda-contribuiu-para-apologia-a-ditadura-hoje-diz-eugenia-gonzaga\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ditadura militar<\/a>que arrasou com gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Enfim, eu sou um cidad\u00e3o latino-americano, nascido, criado no Brasil e que, atualmente, faz j\u00e1 uns 30, 40 anos, resido no Brasil. \u00c9 isso, a minha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Voc\u00ea lan\u00e7ou importantes obras aqui no Brasil, uma delas \u00e9 <em>O Massacre,<\/em>\u00a0um livro-reportagem que relata o que aconteceu em 17 de abril de 1996, o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/04\/17\/massacre-de-eldorado-do-carajas-completa-24-anos-um-dia-para-nao-esquecer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s<\/a>, no Par\u00e1, quando 19 trabalhadores rurais sem-terra, do MST, foram assassinados pela Pol\u00edcia Militar. Voc\u00ea segue acompanhando os passos do MST? Como voc\u00ea v\u00ea hoje o movimento?<\/strong><\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O massacre foi \u00fanico, nunca mais aconteceu e espero com toda a minha confian\u00e7a, minha f\u00e9, que nunca mais aconte\u00e7a. Agora, evidentemente, a gente passou por quatro anos de destrui\u00e7\u00e3o total e de incentivo aos que louvam o massacre at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu acompanho de longe, repito, com muita preocupa\u00e7\u00e3o essa coisa da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/15\/especialistas-veem-indicios-de-que-invasao-zero-e-milicia-rural-e-age-fora-da-lei\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">viol\u00eancia no campo<\/a>, dos ataques no campo, que \u00e9 uma coisa brutal, da injusti\u00e7a. Agora vamos ver, vamos ver o que se consegue. Eu tenho f\u00e9 de que, de alguma forma, a gente vai conseguir avan\u00e7ar, apesar de todas as barreiras. N\u00e3o vamos esquecer que a gente est\u00e1 vivendo, debaixo do <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/10\/07\/lavajatismo-e-congresso-mais-conservador-veja-o-cenario-que-se-anuncia-para-o-legislativo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pior congresso<\/a>, desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O que eu insisto em dizer que \u00e9 de uma injusti\u00e7a, imoral, \u00e9 afirmar que esse \u00e9 um Congresso que se vende. Acho isso indecente, uma ofensa dos deputados e senadores. N\u00e3o \u00e9 de jeito nenhum Congresso que se vende. \u00c9 um Congresso que se aluga, o que \u00e9 muito pior.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><strong>Esse ano marca os 60 anos do golpe de 1964. Como voc\u00ea v\u00ea esse anivers\u00e1rio de 60 anos do golpe? Principalmente a partir dessa fala do presidente Lula, que falou que a gente n\u00e3o precisa remoer o passado, fazendo refer\u00eancia que a gente n\u00e3o precisa relembrar essa data nesse momento&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu conhe\u00e7o o Lula desde, sei l\u00e1, quando. 1984, 1985. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o pessoal muito pr\u00f3xima, muito afetiva, muito amistosa. Desde que ele assumiu a presid\u00eancia, eu tenho por norma n\u00e3o procurar. Nunca procurei Lula na presid\u00eancia. Se ele precisar de mim, se ele quiser falar comigo, ele sabe me encontrar. Eu tive com ele uma vez, desde que ele assumiu.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu lembro que ele brincou: \u201co Nepomuceno, voc\u00ea sumiu\u201d. Eu falei: \u201cLula, eu ando ocupad\u00edssimo, mas eu prometo que eu vou abrir uma brechinha na minha agenda pra te receber\u201d. Ele riu e eu ri, acabou a\u00ed.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Apesar dessa admira\u00e7\u00e3o que eu tenho pelo Lula, dessa rela\u00e7\u00e3o amistosa com ele, eu n\u00e3o tenho essa rela\u00e7\u00e3o, essa admira\u00e7\u00e3o pelo PT. Eu sou muito cr\u00edtico do PT. Eu acho gra\u00e7a quando me dizem que eu sou petista. De jeito nenhum. Eu sou lulista, \u00e9 bem diferente.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu acho que essa atitude que ele est\u00e1 tomando, eu entendo que seja por precau\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ati\u00e7ar <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/08\/operacao-expoe-plano-para-unir-militares-prender-pacheco-e-ministros-do-stf-e-incitar-golpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">as for\u00e7as armadas<\/a>, que foram estupradas, compradas, violadas, pelo (ex-presidente Jair) Bolsonaro. A contamina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas brasileiras hoje \u00e9 um neg\u00f3cio que deveria ser alarmante para quem tem consci\u00eancia do que acontece nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es? Evidente que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o maioria? Imensa maioria. Por\u00e9m h\u00e1 uma minoria que \u00e9 complicada, \u00e9 perigosa. E o Lula, pelo que eu entendo, essa atitude dele \u00e9 para n\u00e3o botar fogo nessa tropa. Eu estou radicalmente, absolutamente em desacordo com ele. Total desacordo com ele. Eu acho que sem mem\u00f3ria voc\u00ea n\u00e3o existe.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu vivi a ditadura na minha juventude. Quando houve o golpe, em 1964, eu tinha 15 anos. E at\u00e9 73 quando eu fui embora no Brasil, eu vivi debaixo da ditadura. Eu trabalhava em reda\u00e7\u00e3o de jornal com o um censor. Voc\u00ea mandava o texto para o teu editor, ele mandava corrigir aqui e ali, o editor mandava para o secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o, o secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o mandava para um policial.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Foram tempos muito duros. Eu acho que isso a\u00ed tem de ser lembrado, n\u00e3o pode ser esquecido. Na mem\u00f3ria de quem sobreviveu e na mem\u00f3ria de quem n\u00e3o conseguiu sobreviver. Na mem\u00f3ria de quem lutou da maneira que for: em igreja, em hospital, sabe, no parlamento, em jornal, em sindicato, onde for, em universidade, em col\u00e9gio.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eu estou radicalmente contra essa <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/21\/lula-e-incoerente-com-a-questao-da-ditadura-diz-historiador-as-vesperas-dos-60-anos-do-golpe-militar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">decis\u00e3o do Lula<\/a>e n\u00e3o vou ter o menor temor. Por acaso, tenho colunas dominicais no exterior, que dia 31 cai no domingo. E eu vou criticar o Lula nas minhas colunas fora do Brasil. M\u00e9xico, na Argentina.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">E quem quiser falar comigo aqui, com toda admira\u00e7\u00e3o, com toda rela\u00e7\u00e3o amistosa que eu tenho com Lula, com o respeito ol\u00edmpico que eu tenho com ele, com a minha solidariedade infinita com tudo que fizeram com ele, neste ponto espec\u00edfico. H\u00e1 muitos outros pontos no governo dele que eu n\u00e3o concordo, mas eu tenho d\u00favidas, me falta informa\u00e7\u00e3o, eu sei l\u00e1 o que est\u00e1 no bastidor.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Agora neste caso do <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/15\/deputado-que-pediu-punicao-a-vai-vai-por-criticas-a-policia-e-defensor-da-ditadura-militar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">31 de mar\u00e7o<\/a>&#8230; Est\u00e1 bom que ele n\u00e3o fizesse uma celebra\u00e7\u00e3o gigantesca e tal, mas que registrasse a data. Fizesse ele, presidente da rep\u00fablica, fizesse um registro. N\u00e3o precisa atacar os militares de hoje, n\u00e3o. S\u00f3 lembrar o que que o pa\u00eds viveu e o que custou para a gente chegar aonde a gente chegou. E o que custou para todos n\u00f3s que o Lula pudesse chegar pela, terceira vez, onde chegou.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Matheus Alves de Almeida<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritor e tradutor fala sobre obra p\u00f3stuma de Garc\u00eda M\u00e1rquez, ditadura no Brasil e grandes escritores latino-americanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-34712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-91S","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}