{"id":34802,"date":"2024-03-28T12:55:25","date_gmt":"2024-03-28T16:55:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=34802"},"modified":"2024-03-28T12:56:41","modified_gmt":"2024-03-28T16:56:41","slug":"60-anos-do-golpe-brasil-nao-fez-acerto-de-contas-com-o-passado-e-vive-com-legados-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/03\/28\/60-anos-do-golpe-brasil-nao-fez-acerto-de-contas-com-o-passado-e-vive-com-legados-da-ditadura\/","title":{"rendered":"60 anos do golpe: Brasil n\u00e3o fez acerto de contas com o passado e vive com legados da ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images01.brasildefato.com.br\/2b77c36c13d30ad4b6ed80eebaded836.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<h2 class=\"description\">Estruturas da seguran\u00e7a p\u00fablica, das For\u00e7as Armadas e do capitalismo nacional foram cristalizadas durante o per\u00edodo<\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Caroline Oliveira<\/div>\n<div class=\"place-and-time\">\n<div class=\"place\">Brasil de Fato<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da ditadura civil-militar para a Nova Rep\u00fablica na d\u00e9cada de 90 poderia ter sido um per\u00edodo de revis\u00e3o do autoritarismo encrustado na sociedade brasileira desde a sua forma\u00e7\u00e3o. No entanto, os tra\u00e7os autorit\u00e1rios, exacerbados ao longo da ditadura, s\u00e3o legados que o pa\u00eds carrega at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da vig\u00eancia desses tra\u00e7os, est\u00e3o uma sociedade e seguidos governos que se recusam a fazer um acerto de contas com o passado. Recentemente, o presidente da Rep\u00fablica,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/21\/lula-e-incoerente-com-a-questao-da-ditadura-diz-historiador-as-vesperas-dos-60-anos-do-golpe-militar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a>\u00a0(PT), afirmou que n\u00e3o pode &#8220;ficar remoendo sempre&#8221; o passado ditatorial, quando questionado sobre o cancelamento da cerim\u00f4nia de anivers\u00e1rio de 60 anos do golpe de 1964, planejada para o dia 1\u00ba de abril deste ano.<\/p>\n<p>&#8220;O que eu n\u00e3o posso \u00e9 n\u00e3o saber tocar a hist\u00f3ria para frente, ficar remoendo sempre, ou seja, \u00e9 uma parte da hist\u00f3ria do Brasil que a gente ainda n\u00e3o tem todas as informa\u00e7\u00f5es, porque tem gente desaparecida ainda, porque tem gente que pode se apurar. Mas eu, sinceramente, eu n\u00e3o vou ficar remoendo e eu vou tentar tocar esse pa\u00eds para frente&#8221;, disse em entrevista para o programa\u00a0<em>\u00c9 Not\u00edcia<\/em>, da\u00a0<em>RedeTV!<\/em>.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images03.brasildefato.com.br\/dbaa4fce73782510300805680ec18cdb.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nEstudantes e trabalhadores formaram uma das frentes de resist\u00eancia ao longo da ditadura \/ Arquivo Nacional\/Correio da Manh\u00e3<\/p>\n<p>Ivo Lebauspin, que foi preso e torturado durante a ditadura, afirma que &#8220;\u00e9 um erro n\u00e3o trabalhar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/30\/ideia-de-ditabranda-contribuiu-para-apologia-a-ditadura-hoje-diz-eugenia-gonzaga\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a mem\u00f3ria da ditadura<\/a>&#8220;. &#8220;H\u00e1 uma narrativa de que \u00e9 melhor se reconciliar com o passado e esquecer o que aconteceu. Isso \u00e9 imposs\u00edvel sem saber o que efetivamente aconteceu&#8221;, afirma o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>&#8220;Algumas pessoas acham que para se avan\u00e7ar no plano pol\u00edtico \u00e9 preciso varrer essas coisas para baixo dos tapetes, por uma pedra em cima desse passado, ir em frente e fazer acordos. Isso j\u00e1 foi feito. Isso vem sendo feito h\u00e1 anos. Desde o fim da ditadura militar n\u00e3o se analisa a ditadura militar, n\u00e3o se julga, n\u00e3o se faz nada&#8221;, defende.<\/p>\n<p>Lebauspin associa, por exemplo, a presen\u00e7a militar na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/08\/operacao-expoe-plano-para-unir-militares-prender-pacheco-e-ministros-do-stf-e-incitar-golpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tentativa de golpe<\/a>\u00a0para manter Jair Bolsonaro (PL) na Presid\u00eancia como um resqu\u00edcio da interven\u00e7\u00e3o militar. &#8220;Tem tudo a ver com a n\u00e3o mem\u00f3ria da ditadura e o n\u00e3o julgamento. Na Alemanha se faz um esfor\u00e7o monumental para lembrar sempre tudo que aconteceu. Tem museus do Holocausto em v\u00e1rias partes, e as pessoas sabem o que aconteceu. Houve julgamento, os fatos foram analisados e julgados. Aqui n\u00e3o houve isso.&#8221;<\/p>\n<p>Na mesma linha, o professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Aar\u00e3o Reis Filho, afirma que lembra de &#8220;l\u00edderes de partidos progressistas, como Tancredo Neves em 1985, conclamando as pessoas a n\u00e3o olharem para o espelho retrovisor, mas a olhar para frente e n\u00e3o ficar remoendo as feridas&#8221;. Isso mostra que o Brasil &#8220;dedicou pouca aten\u00e7\u00e3o para refletir sobre a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/03\/31\/relembre-7-vezes-em-que-o-governo-bolsonaro-se-espelhou-no-brasil-da-ditadura-militar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estrutura de Estado<\/a>\u00a0montado durante a ditadura e suas pol\u00edticas&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">For\u00e7as Armadas<\/p>\n<p>Com isso tra\u00e7os autorit\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 do per\u00edodo da ditadura militar, mas de outros governos, como do Estado Novo de Get\u00falio Vargas e do per\u00edodo escravocrata, continuam presentes na sociedade brasileira. Entre esses legados, o professor elenca a autonomia das\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/08\/governo-lula-3-navega-em-aguas-turbulentas-na-relacao-com-as-forcas-armadas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">For\u00e7as Armadas<\/a>. &#8220;S\u00e3o um verdadeiro Estado dentro do Estado. Elas t\u00eam uma estrutura educacional pr\u00f3pria e uma justi\u00e7a espec\u00edfica. Isso permitiu que as For\u00e7as Armadas cultivassem ideologias cada vez mais anacr\u00f4nicas, mas muito vigentes dentro das For\u00e7as Armadas.&#8221;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images02.brasildefato.com.br\/7f80c6ad0a89850b48c251661f73f9ac.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nEstudantes presos no Congresso da UNE em Ibi\u00fana em 1968 \/ Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>O professor explica que somente a partir do governo de Dilma Rousseff (PT) \u2014 e ainda timidamente \u2014 foram feitos esfor\u00e7os para revisar essa estrutura militar, principalmente com a cria\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/11\/18\/comissao-da-verdade-10-anos-importante-lembrar-o-que-e-regime-de-excecao-diz-dilma-rousseff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV)<\/a>, em 18 de novembro de 2011. Ainda assim, Aar\u00e3o afirma que &#8220;houve uma esp\u00e9cie de pacto: a gente n\u00e3o mexe com voc\u00eas, voc\u00eas n\u00e3o mexem com a gente. Esse pacto na esperan\u00e7a ilus\u00f3ria de que, com o tempo, as feridas iriam ser sanadas&#8221;.<\/p>\n<p>Um ano depois do encerramento da comiss\u00e3o, ocorrido em 2014, o pesquisador e integrante da CNV, Lucas Figueiredo, afirmou que o relat\u00f3rio final com 4.328 p\u00e1ginas ficou &#8220;muito fraco&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O pai da crian\u00e7a \u00e9 o Tancredo (Neves), que fala abertamente que n\u00e3o vai investigar. (Jos\u00e9) Sarney entrou vendido porque era muito fraco, ele se escorava nos militares. Depois Collor e Itamar fazem vistas grossas. FHC e Lula colocam a Uni\u00e3o para combater a abertura dos arquivos na Justi\u00e7a, que \u00e9 uma postura mais grave. E voc\u00ea tem a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/11\/18\/comissao-da-verdade-10-anos-importante-lembrar-o-que-e-regime-de-excecao-diz-dilma-rousseff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dilma<\/a>, que \u00e9 de uma passividade absoluta, porque as For\u00e7as Armadas mentiram descaradamente para ela durante a CNV e ela n\u00e3o fez nada&#8221;, disse em entrevista \u00e0 BBC na \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.brasildefato.com.br\/media\/011fbd622b4dadd81b231389a2571412.jpg?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nMilitares na rua durante o per\u00edodo ditatorial \/ Mem\u00f3rias da Ditadura<\/p>\n<p>Essa passividade dos seguidos governos se somou \u00e0 articula\u00e7\u00e3o da extrema direita dentro dos quart\u00e9is, que foi ganhando terreno principalmente a partir da ditadura militar. O professor Daniel Aar\u00e3o Reis Filho afirma a tend\u00eancia de extrema direita entre os militares &#8220;\u00e9 muito forte&#8221;. &#8220;Nada nos diz que essa tend\u00eancia est\u00e1 neutralizada.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Houve um esfor\u00e7o geral em transformar as For\u00e7as Armadas brasileiras, que eram plurais, em verdadeiros monolitos. As escolas militares continuam intoxicando com teorias pr\u00f3prias da Guerra Fria, anticomunistas e que continuam alimentando que os militares s\u00e3o os donos do civismo e os salvadores da paz, os tutores da Rep\u00fablica. Eles montaram o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/11\/21\/como-funcionam-as-escolas-militarizadas-que-governo-bolsonaro-vai-financiar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sistema educacional<\/a>\u00a0extremamente unificado, monol\u00edtico, sem pluralismo e sem um culto \u00e0 legalidade. Esse \u00e9 um dos legados da ditadura extremamente nocivo \u00e0 democracia&#8221;, afirma o professor da UFF.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Capitalismo<\/p>\n<p>Outro legado que o professor elenca \u00e9 o processo das desigualdades sociais e regionais. &#8220;A ditadura propulsou o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/15\/dilemas-da-humanidade-o-capitalismo-desaparecera-se-conseguirmos-organizar-nossa-luta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">capitalismo brasileiro<\/a>\u00a0para um patamar mais alto. Ao contr\u00e1rio da ditadura argentina, que empurrou o capitalismo argentino para baixo, aqui no Brasil, o capitalismo deu um salto para frente, mas \u00e0 custa de desigualdade sociais.&#8221;<\/p>\n<p>Ao longo da ditadura, houve uma aproxima\u00e7\u00e3o entre as burguesias industrial e agr\u00e1ria, somada \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro na economia, seguida pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/08\/27\/dossie-tricontinental-dependencia-e-superexploracao-a-relacao-entre-o-capital-estrangeiro-e-as-lutas-sociais-na-america-latina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">depend\u00eancia econ\u00f4mica<\/a>\u00a0de pa\u00edses hegem\u00f4nicos. Nesse cen\u00e1rio, o Estado atuou para garantir as demandas e os lucros das elites em detrimento dos direitos da classe trabalhadora, aumentando a desigualdade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images01.brasildefato.com.br\/4fabf991a805ae8129f0bcaa397a29d1.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nRepress\u00e3o policial a trabalhadores em manifesta\u00e7\u00e3o no ABC paulista durante a greve de 1979 \/ Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Os preju\u00edzos para a classe trabalhadora foram observados na diminui\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio; na perda da terra entre os trabalhadores rurais devido ao aumento dos latif\u00fandios; e na repress\u00e3o. De acordo com o Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/04\/22\/enaltecido-por-defensores-da-ditadura-milagre-economico-foi-relativo-e-excludente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sal\u00e1rio m\u00ednimo caiu<\/a>\u00a0cerca de 40% entre 1964 e 1974, saindo de R$ 2.142 para R$ 1.247, com a corre\u00e7\u00e3o pela infla\u00e7\u00e3o e pelas diferentes moedas que o Brasil teve ao longo das d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do professor da UFF, desde ent\u00e3o, o Brasil n\u00e3o conseguiu inverter &#8220;radicalmente o curso das desigualdades sociais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O capitalismo brasileiro continua, fundamentalmente, no padr\u00e3o do modelo criado pela ditadura, na hegemonia do capital financeiro, que continua sugando as nossas riquezas atrav\u00e9s dos juros da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/12\/01\/divida-publica-mecanismo-infinito-de-escoamento-de-dinheiro-publico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">d\u00edvida p\u00fablica<\/a>. Metade or\u00e7amento brasileiro \u00e9 destinado a pagar os juros da d\u00edvida p\u00fablica. Tem um processo de hegemonia do chamado mercado, fundamentalmente especulativo, que n\u00e3o se destaca por investimentos produtivos, e essa hegemonia foi consagrada na \u00e9poca da ditadura&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Seguran\u00e7a p\u00fablica<\/p>\n<p>Entre outros legados, o professor cita a quest\u00e3o da seguran\u00e7a. &#8220;A gente sempre teve uma tradi\u00e7\u00e3o aqui no Brasil de que a pol\u00edcia, em vez de proteger a cidadania, reprime a cidadania. Esse esquema, que vem de antes da ditadura, foi potencializado enormemente durante e permaneceu depois dela. Tem\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/03\/pm-de-sao-paulo-matou-34-a-mais-no-primeiro-ano-do-governo-tarcisio-de-freitas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a autonomia das pol\u00edcias militares<\/a>, a cria\u00e7\u00e3o desses batalh\u00f5es de opera\u00e7\u00f5es de choque, os famigerados BOPES [Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Policiais Especiais], que vivem barbarizando as popula\u00e7\u00f5es mais pobres&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Na mesma linha, Rodrigo Lentz, advogado, professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa, afirma que a seguran\u00e7a p\u00fablica no pa\u00eds revela &#8220;a manuten\u00e7\u00e3o de um terrorismo de Estado, numa coopera\u00e7\u00e3o entre Minist\u00e9rio P\u00fablico, Judici\u00e1rio e For\u00e7as de Seguran\u00e7a, num processo amplo de cria\u00e7\u00e3o de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/25\/moradores-de-periferias-da-baixada-santista-denunciam-brutalidade-policial-em-evento-da-faculdade-de-direito-da-usp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">crime de terror<\/a>\u00a0das periferias brasileiras&#8221;.<\/p>\n<p>Esse processo conta com a &#8220;atua\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias militares completamente de forma ilegal e de viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de direitos humanos de determinado grupo social, onde a democracia n\u00e3o chegou do ponto de vista de liberdades democr\u00e1ticas e garantias individuais&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images03.brasildefato.com.br\/3916625ddb9295f84d0559d1d8544221.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nMaria de Bel\u00e9m Souto, no enterro de seu filho, o estudante Edson Lu\u00eds, morto pela ditadura militar \/ Arquivo Nacional\/Correio da Manh\u00e3<\/p>\n<p>O pesquisador defende que o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/12\/13\/mpf-cobra-criacao-de-comissao-nacional-indigena-da-verdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hist\u00f3rico de tortura<\/a>, execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias ou de falsifica\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de crime como atos de leg\u00edtima defesa t\u00eam legitimidade quando h\u00e1 execu\u00e7\u00e3o pelo pr\u00f3prio Estado. &#8220;Tudo isso \u00e9 registro da nossa Rep\u00fablica. A tortura como um mecanismo institucional, sobretudo, ficou assim implementada durante a ditadura do Estado Novo, no governo Vargas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A pol\u00edtica de exterm\u00ednio como a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica come\u00e7ou na d\u00e9cada de 50, quando Amaury Kruel foi o chefe do Departamento de Pol\u00edcia da Capital Federal. Eram pr\u00e1ticas que j\u00e1 existiam antes, mantidas durante a ditadura e hoje&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Lentz, inclusive, relaciona esse hist\u00f3rico violento e autorit\u00e1rio ao que ocorre\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/05\/pm-vai-a-enterros-e-invade-casas-de-familiares-de-vitimas-da-operacao-escudo-na-baixada-santista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hoje na Baixada Santista<\/a>\u00a0com a Opera\u00e7\u00e3o Escudo, que matou 45 pessoas em 36 dias, entre 7 de fevereiro e 14 de mar\u00e7o. &#8220;H\u00e1 uma legitima\u00e7\u00e3o social, uma produ\u00e7\u00e3o de um consenso, que leva a sociedade a legitimar esse tipo de pr\u00e1tica&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio governador de S\u00e3o Paulo Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos) declarou que &#8220;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/08\/tarcisio-ironiza-denuncias-contra-abusos-da-pm-pode-ir-na-onu-na-liga-da-justica-to-nem-ai\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed<\/a>&#8221; com as den\u00fancias de letalidade policial que foram feitas \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Em 2023, a primeira fase da Opera\u00e7\u00e3o Escudo matou 28 pessoas entre os dias 28 de julho e 5 de setembro, como resposta \u00e0 morte de um policial da Rota. A segunda fase da opera\u00e7\u00e3o matou uma pessoa a cada 19,2 horas.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Democracia de baixa intensidade<\/p>\n<p>Diante deste quadro permeado por legados autorit\u00e1rios, \u00e9 de se questionar se o regime pol\u00edtico brasileiro se constitui como uma democracia. &#8220;Nenhuma sociedade passa de forma inc\u00f3lume por 20 anos de um regime autorit\u00e1rio, considerando toda a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira. Algumas coisas estruturam, o governo, o Estado e a sociedade&#8221;, afirma Lentz.<\/p>\n<p>O pesquisador defende que o Brasil est\u00e1 &#8220;longe&#8221; da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/08\/democracia-esta-em-permanente-disputa-e-deve-ser-exercida-cotidianamente-afirmam-especialistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ideia de democracia<\/a>\u00a0no sentido etimol\u00f3gico da palavra, como governo do povo. &#8220;\u00c9 muito longe daquilo que a gente vive nas democracias liberais pluralistas, onde Brasil mais se encaixa, que s\u00e3o democracias governadas por elites, com competi\u00e7\u00e3o eleitoral, com um sistema de um Estado submetido a regras eleitorais de maioria e com garantias de algumas liberdades individuais de forma seletiva.&#8221;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images01.brasildefato.com.br\/6128bb8a6c73a8a0b5f011a158fadd37.webp?w=600&#038;ssl=1\" \/><br \/>\nCivil sendo preso por militares em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, no dia 1\u00ba de abril de 1964 \/ Arquivo Nacional\/Correio da Manh\u00e3<\/p>\n<p>A ideia de &#8220;democracia de baixa intensidade&#8221;, criada pelo soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos, parece se encaixar no caso brasileiro, de acordo com o pesquisador. &#8220;A democracia de baixa intensidade se caracteriza, sobretudo, pela baixa participa\u00e7\u00e3o social. \u00c9 uma democracia representativa, mas que n\u00e3o conta com a participa\u00e7\u00e3o social e por isso tem baixa legitimidade&#8221;, afirma. &#8220;Quanto menor a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/25\/para-advogada-aliar-lei-e-pressao-popular-e-fundamental-para-garantir-direito-a-moradia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">participa\u00e7\u00e3o social<\/a>\u00a0nas institui\u00e7\u00f5es e na tomada de decis\u00e3o do Estado, menor o alcance das pol\u00edticas dessa democracia em torno da sua popula\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O pesquisador tamb\u00e9m destaca que esse quadro gera uma esp\u00e9cie de &#8220;desencanto social e legitima\u00e7\u00e3o de sa\u00eddas e solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias&#8221;, o que demanda urgentemente uma mudan\u00e7a estrutura. &#8220;Eu n\u00e3o diria que a gente vive num regime autorit\u00e1rio, mas tamb\u00e9m a gente vive com a democracia bastante prec\u00e1ria e seletiva. Isso \u00e9 uma das raz\u00f5es de estar permanentemente amea\u00e7ada pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/26\/como-vivem-os-monstros-um-panorama-da-extrema-direita\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">extrema direita<\/a>\u00a0hoje.&#8221;<\/p>\n<p>Uma pesquisa Datafolha de dezembro do ano passado mostrou que aumentou a quantidade de pessoas para quem tanto faz se o pa\u00eds \u00e9 uma democracia ou ditadura. Em outubro de 2022, o percentual era de 11% entre os entrevistados. Ano passado, subiu para 15%. Tamb\u00e9m cresceu o n\u00famero de entrevistados que consideram um regime ditatorial aceit\u00e1vel sob determinadas circunst\u00e2ncias: de 5% para 7%.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Matheus Alves de Almeida<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estruturas da seguran\u00e7a p\u00fablica, das For\u00e7as Armadas e do capitalismo nacional foram cristalizadas durante o per\u00edodo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[325,881,449],"class_list":["post-34802","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-ditadura","tag-impunidade","tag-militares"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-93k","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34802"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34802\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34805,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34802\/revisions\/34805"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}