{"id":35603,"date":"2024-07-23T10:31:46","date_gmt":"2024-07-23T14:31:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=35603"},"modified":"2024-07-23T10:37:11","modified_gmt":"2024-07-23T14:37:11","slug":"dona-onete-reforca-em-bagaceira-que-palavras-sao-feitas-para-cantar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/07\/23\/dona-onete-reforca-em-bagaceira-que-palavras-sao-feitas-para-cantar\/","title":{"rendered":"Dona Onete refor\u00e7a, em &#8216;Bagaceira&#8217;, que palavras s\u00e3o feitas para cantar"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"35604\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/07\/23\/dona-onete-reforca-em-bagaceira-que-palavras-sao-feitas-para-cantar\/img_7032\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?fit=768%2C512\" data-orig-size=\"768,512\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_7032\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?fit=600%2C400\" class=\"alignnone size-full wp-image-35604\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?resize=600%2C400\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7032.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Folha Ilustrada &#8211; &#8220;Bagaceira&#8221;, Dona Onete explica, \u00e9 um termo que designa fim de festa. Mas no dicion\u00e1rio da cantora e compositora paraense \u2014e do universo popular que, ao completar 85 anos, ela domina e representa\u2014, fim de festa n\u00e3o \u00e9 pejorativo, indicativo de farra decadente. \u00c9 o oposto disso.<!--more--><\/p>\n<p>Bagaceira \u00e9 quando a coisa fica boa, p\u00e9s j\u00e1 sem sapatos, as etiquetas e travas sociais deixadas de lado em nome da alegria, que reina soberana e sincera. &#8220;Bagaceira&#8221;, rec\u00e9m-lan\u00e7ado quarto disco de Dona Onete, materializa essa alegria pura e desarmada em dez m\u00fasicas, todas compostas por ela, que se espalham por 38 minutos num passeio por diferentes g\u00eaneros do cancioneiro paraense, do boi ao brega, do bangu\u00ea ao carimb\u00f3.<\/p>\n<p>Pura, desarmada. Nada \u00e9 ing\u00eanuo, por\u00e9m, em &#8220;Bagaceira&#8221;. Muitas vezes \u2014mal\u2014 entendida como na\u00eff, &#8220;raiz&#8221;, &#8220;aut\u00eantica&#8221;, uma figura &#8220;do povo&#8221; que reproduz &#8220;tradi\u00e7\u00f5es&#8221; do Norte, Dona Onete \u00e9, pelo contr\u00e1rio, artista com &#8220;A&#8221; mai\u00fasculo, pensadora cultural que apreende o mundo que a cerca e o elabora em forma de can\u00e7\u00e3o, processando, recriando e inventando tradi\u00e7\u00f5es. Seu novo disco \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o dessa natureza que ela mostra desde o in\u00edcio \u2014tardio, aos 73 anos\u2014 de sua carreira.<\/p>\n<p>&#8220;Bagaceira&#8221; exp\u00f5e uma gram\u00e1tica po\u00e9tica e musical, um universo imag\u00e9tico e sonoro, personagens e cen\u00e1rios \u2014a assinatura de Dona Onete. Elementos que, pelas suas m\u00e3os, desenham um Par\u00e1 t\u00e3o documental quanto deliberadamente constru\u00eddo, tal qual a Mangueira de Cartola, o Pernambuco de Alceu Valen\u00e7a e a Bahia de Dorival Caymmi.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"35606\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/07\/23\/dona-onete-reforca-em-bagaceira-que-palavras-sao-feitas-para-cantar\/img_7033\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?fit=512%2C768\" data-orig-size=\"512,768\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_7033\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?fit=200%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?fit=512%2C768\" class=\"alignnone size-full wp-image-35606\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?resize=512%2C768\" alt=\"\" width=\"512\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?w=512 512w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7033.jpeg?resize=200%2C300 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/p>\n<p>J\u00e1 na primeira faixa, que d\u00e1 nome ao disco, aparecem alguns desses elementos. A m\u00fasica de Dona Onete n\u00e3o raro confunde os limites da representa\u00e7\u00e3o e da coisa em si. Ou seja, a festa da qual fala &#8220;Bagaceira&#8221; n\u00e3o \u00e9 apenas contada na can\u00e7\u00e3o, \u00e9 realizada ali \u2014os gritos de &#8220;\u00ea&#8221;, a din\u00e2mica explosiva do arranjo emulando a din\u00e2mica da pr\u00f3pria farra com instrumentos entrando e saindo, o ritmo mudando de bangu\u00ea para brega no verso que diz &#8220;toca brega&#8221;.<\/p>\n<p>Procedimento semelhante se repete em outras can\u00e7\u00f5es. Em &#8220;Chamego Caboclo&#8221;, Dona Onete canta &#8220;o choque do poraqu\u00ea&#8221; \u2014peixe-el\u00e9trico da bacia amaz\u00f4nica\u2014 separando as s\u00edlabas, &#8220;cho-que&#8221;, como se lan\u00e7asse na palavra a descarga el\u00e9trica do animal. J\u00e1 no carimb\u00f3 &#8220;Curi\u00f3 Cantador&#8221;, ela alonga a nota da palavra &#8220;voou&#8221;. O efeito sugere o pr\u00f3prio voo do p\u00e1ssaro, sumindo no horizonte.<\/p>\n<p>&#8220;Festa no Ver-o-Peso&#8221; lan\u00e7a olhar carinhoso e debochado de quem conhece e entende aquela feira \u00e0 beira-rio de Bel\u00e9m. Na can\u00e7\u00e3o, a elegante gar\u00e7a namoradeira, que Dona Onete descreve como &#8220;fit, light, diet e society&#8221;, convive ali com o urubu, o rato, a barata, a mosca e a formiga, quinteto que comanda a m\u00fasica da tal festa. Com direito a onomatopeia para o som de cada um. Esp\u00e9cie de &#8220;O Pato&#8221; da bossa nova sem o selo da vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na pena de Dona Onete, o vocabul\u00e1rio \u00e9 mais do que cor local, testemunha do processo cultural que moldou o portugu\u00eas da regi\u00e3o Norte. Palavras como &#8220;popop\u00f4&#8221;, &#8220;piti\u00fa&#8221;, &#8220;pavulagem&#8221; e &#8220;tamaguar\u00e9&#8221; s\u00e3o exploradas em sua for\u00e7a imag\u00e9tica e em sua musicalidade, na del\u00edcia de suas s\u00edlabas. Em nenhum momento a artista perde de vista que suas palavras nascem para serem cantadas.<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o de uma palavra \u00e9 outro recurso comum em suas can\u00e7\u00f5es, com efeito sempre eficaz. Seu primeiro sucesso, &#8220;Jamburana&#8221;, tinha &#8220;o jambu treme, treme, treme, treme, treme&#8221;. No novo disco, h\u00e1 v\u00e1rios exemplos \u2014&#8221;minha paix\u00e3o \u00e9 cabocla, \u00e9 cabocla, \u00e9 cabocla, \u00e9 cabocla&#8221;, em &#8220;Paix\u00e3o Cabocla&#8221;, ou em &#8220;essa mulher vem chegando, chegando, chegando, chegando, chegando&#8221;, em &#8220;Lunlambumbari\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos como Pio Lobato, Marcos Sarrazin e Felix Robatto d\u00e1 consist\u00eancia ao Par\u00e1 de Dona Onete. \u00cdntimos das linguagens paraenses, eles s\u00e3o ao mesmo tempo inventivos e precisos no trato das harmonias simples e melodias diretas, t\u00edpicas dos g\u00eaneros populares que a compositora explora. Frases de sax saltitantes, m\u00e3o direita nervosa nas guitarras e banjo, baixo marcando o di\u00e1logo irresist\u00edvel com a percuss\u00e3o e a bateria.<\/p>\n<p>Calor em forma de m\u00fasica. Calor e umidade tamb\u00e9m se mostram de forma evidente na por\u00e7\u00e3o sensual e rom\u00e2ntica do repert\u00f3rio, outra marca de Dona Onete \u2014apelidada, n\u00e3o \u00e0 toa, de rainha do carimb\u00f3 chamegado. O brega abolerado de &#8220;Feiti\u00e7o da Lua&#8221; e o brega jovem guarda de &#8220;Avesso do Avesso&#8221;, can\u00e7\u00f5es de dores do amor, s\u00e3o bons exemplos.<\/p>\n<p>Mais quentes e \u00famidas s\u00e3o &#8220;Bangu\u00ea Latino&#8221; e &#8220;Paix\u00e3o Cabocla&#8221;, que busca met\u00e1foras amaz\u00f4nicas para dar conta de descrever o desejo \u2014&#8221;toda vez que eu vejo voc\u00ea\/ o meu corpo se desloca\/ nas ondas da pororoca&#8221;. S\u00edntese simb\u00f3lica da integra\u00e7\u00e3o entre paisagem e artista que se mostra em Dona Onete \u2014 no que ela tem de ess\u00eancia e, sobretudo, de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Folha Ilustrada &#8211; &#8220;Bagaceira&#8221;, Dona Onete explica, \u00e9 um termo que designa fim de festa. Mas no dicion\u00e1rio da cantora e compositora paraense \u2014e do universo popular que, ao completar 85 anos, ela domina e representa\u2014, fim de festa n\u00e3o \u00e9 pejorativo, indicativo de farra decadente. \u00c9 o oposto disso.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1062,1061,1063],"class_list":["post-35603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-bagaceira","tag-dona-onete","tag-para"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-9gf","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35603"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35603\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35608,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35603\/revisions\/35608"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}