{"id":35619,"date":"2024-07-24T09:56:49","date_gmt":"2024-07-24T13:56:49","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=35619"},"modified":"2024-07-24T09:56:49","modified_gmt":"2024-07-24T13:56:49","slug":"valemos-menos-situacao-do-brasil-frente-a-uniao-europeia-e-sub-humana-diz-larissa-bombardi-sobre-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/07\/24\/valemos-menos-situacao-do-brasil-frente-a-uniao-europeia-e-sub-humana-diz-larissa-bombardi-sobre-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"&#8216;Valemos menos&#8217;: situa\u00e7\u00e3o do Brasil frente \u00e0 Uni\u00e3o Europeia \u00e9 sub-humana, diz Larissa Bombardi sobre agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"35620\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2024\/07\/24\/valemos-menos-situacao-do-brasil-frente-a-uniao-europeia-e-sub-humana-diz-larissa-bombardi-sobre-agrotoxicos\/img_7054\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?fit=1019%2C658\" data-orig-size=\"1019,658\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"IMG_7054\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?fit=300%2C194\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?fit=600%2C387\" class=\"alignnone size-full wp-image-35620\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?resize=600%2C387\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?w=1019 1019w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?resize=300%2C194 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?resize=768%2C496 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_7054.jpeg?resize=465%2C300 465w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<h2 class=\"description\">Pesquisadora fala sobre heran\u00e7a colonialista no uso de subst\u00e2ncias produzidas por multinacionais europeias<\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"person\">\n<div>\n<div class=\"name\">Brasil de Fato &#8211; Beatriz Drague Ramos &#8211; A popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 tida como sub-humana frente \u00e0 Uni\u00e3o Europeia (UE). A constata\u00e7\u00e3o \u00e9 da pesquisadora Larissa Bombardi, que estuda os impactos e o funcionamento do com\u00e9rcio mundial de agrot\u00f3xicos. &#8220;Quando eu olho o fato de que no Brasil o res\u00edduo de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/16\/glifosato-como-a-monsanto-impos-uma-substancia-cancerigena-a-agricultura-e-por-que-nao-e-proibida-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">glifosato<\/a> autorizado na \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 cinco mil vezes maior do que aquele autorizado na Uni\u00e3o Europeia. Quando eu vejo que o res\u00edduo de malationa no Brasil \u00e9 400 vezes maior do que o autorizado na Uni\u00e3o Europeia, sou obrigada a pensar que, no conjunto das rela\u00e7\u00f5es internacionais, a popula\u00e7\u00e3o brasileira, latino-americana e africana \u00e9 tida como sub-humana. N\u00f3s valemos menos.&#8221;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>Dos dez agrot\u00f3xicos mais vendidos no Brasil, cinco s\u00e3o proibidos na UE. Isso significa que s\u00e3o autorizados em territ\u00f3rio nacional agrot\u00f3xicos cancer\u00edgenos, que provocam m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal, altera\u00e7\u00f5es hormonais, infertilidade e mal de Parkinson, por exemplo.<br \/>\nPor tr\u00e1s disso, empresas como as alem\u00e3s Bayer e Basf, as estadunidenses Corteva e FMC, a estatal chinesa Syngenta e a indiana Upl venderam, em 2020, juntas, US$ 43 bilh\u00f5es dessas subst\u00e2ncias. Mais de 80% desse mercado \u00e9 controlado pela Bayer, Corteva e Syngenta.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Novo colonialismo<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_4\"><\/div>\n<p>A autoriza\u00e7\u00e3o de venda de agrot\u00f3xicos proibidos na UE para na\u00e7\u00f5es do sul global, como o Brasil, coloca o pa\u00eds numa nova esp\u00e9cie de colonialismo, que se une, segundo Bombardi, \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de terras, \u00e0 viol\u00eancia contra povos origin\u00e1rios e \u00e0s nossas origens escravocratas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem uma oligarquia que controla politicamente o pa\u00eds, que representa esse monop\u00f3lio das terras no Brasil, que se afina com os interesses externos. O campesinato brasileiro \u00e9 um campesinato que nasce sem terra. \u00c9 um campesinado exclu\u00eddo. \u00c9 uma sociedade que se constr\u00f3i na exclus\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A an\u00e1lise est\u00e1 posta em <em>Agrot\u00f3xicos e Colonialismo Qu\u00edmico<\/em>, livro lan\u00e7ado em outubro do ano passado e divulgado pela pr\u00f3pria autora no Brasil somente neste m\u00eas, quando ela finalmente volta &#8211; ainda que de passagem &#8211; ao pa\u00eds. Bombardi est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos exilada na Europa por conta de ataques sofridos ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o do <em>Atlas Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia<\/em>, publicado em 2017.<\/p>\n<p>Dentre as amea\u00e7as sofridas por ela estiveram um pedido para &#8220;fechar a boca, porque est\u00e1 falando demais&#8221; em um programa de r\u00e1dio e um convite para passear em um avi\u00e3o de pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. &#8220;Em um determinado momento, os movimentos sociais disseram: &#8216;Voc\u00ea n\u00e3o pode continuar usando as mesmas rotas, os mesmos hor\u00e1rios, tem que evitar rotina'&#8221;, o que \u00e9 humanamente imposs\u00edvel para uma m\u00e3e solo de dois filhos.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Desigualdade de g\u00eanero<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das intimida\u00e7\u00f5es \u00e0 sua integridade fis\u00edca, Larissa sofreu o que ela chama de &#8220;terrorismo psicol\u00f3gico&#8221; quando tentaram desqualificar sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dizendo que seus dados n\u00e3o eram corretos. &#8220;Aquilo que a gente mais zela \u00e9 pelo cuidado, pelo rigor cient\u00edfico.&#8221;<\/p>\n<p>A descredibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho cient\u00edfico feito de mulheres \u00e9 o ponto de partida em <em>Agrot\u00f3xicos e o Colonialismo Qu\u00edmico<\/em> que traz na ep\u00edgrafe um pouco do trabalho da bi\u00f3loga Rachel Carson (1907-1964) e de toda a desqualifica\u00e7\u00e3o que ela sofreu sendo chamada de &#8220;louca&#8221;, &#8220;comunista&#8221; e &#8220;hist\u00e9rica&#8221; por expor os efeitos do DDT [Dicloro-Difenil-Tricloroetano] e de outros agrot\u00f3xicos h\u00e1 mais de 60 anos. &#8220;\u00c9 muito interessante trazer isso \u00e0 luz, porque ela foi desqualificada como mulher, \u00e9 algo que atravessa as d\u00e9cadas todas, de muitas mulheres que t\u00eam lidado com esse sistema.&#8221;<\/p>\n<p>Ao longo das cerca de 85 p\u00e1ginas a pesquisadora traz um panorama da desigualdade de g\u00eanero que permeia os impactos do uso e venda de agrot\u00f3xicos no Brasil e apresenta iniciativas de agroecologia protagonizadas por mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;As mulheres acabaram sendo as guardi\u00e3s dessas pr\u00e1ticas e s\u00e3o justamente quem, muitas vezes, atrav\u00e9s dessa mimetiza\u00e7\u00e3o da natureza, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/04\/03\/mulheres-resistem-e-fazem-agroecologia-no-polo-da-borborema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">est\u00e3o protagonizando as experi\u00eancias agroecol\u00f3gicas<\/a>, n\u00e3o s\u00f3 protagonizando, mas multiplicando, trocando entre elas, fazendo interc\u00e2mbios de conhecimentos, de sementes, de resist\u00eancias, de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, etc.&#8221;<\/p>\n<p>Por outro lado, os efeitos das subst\u00e2ncias t\u00f3xicas recaem de forma muito mais severa sobre as mulheres, indo de abortos espot\u00e2neos a problemas psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Commodities<\/p>\n<p>Bombardi \u00e9 a convidada desta semana do <strong>BdF Entrevista<\/strong> e denuncia que grande parte da agricultura do mundo hoje \u00e9 voltada para a produ\u00e7\u00e3o de energia ou de commodities, que s\u00e3o produtos de origem agropecu\u00e1ria ou de extra\u00e7\u00e3o mineral, em estado bruto ou em pequeno grau de industrializa\u00e7\u00e3o e produzidos em larga escala, como a soja, o milho e o algod\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, eles dominam a maior parte da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola total. \u00c9 por isso que impor a monocultura \u00e0 natureza \u00e9 dar um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9. &#8220;Estamos vendo uma grande parte dos efeitos clim\u00e1ticos, como o aumento da temperatura global, relacionados com o desmatamento e com o uso de fertilizantes qu\u00edmicos.&#8221;<\/p>\n<p>O uso de agrot\u00f3xicos varia significativamente entre os estados, refletindo diretamente na produ\u00e7\u00e3o de commodities. Em termos de uso por hectare, os estados mais destacados s\u00e3o Mato Grosso, Rond\u00f4nia, Goi\u00e1s e S\u00e3o Paulo. Em 2019, Mato Grosso liderou, com aproximadamente 121 mil toneladas de ingredientes ativos de agrot\u00f3xicos consumidos, seguido por S\u00e3o Paulo, com 92 mil toneladas, Goi\u00e1s, com 49 mil toneladas e Mato Grosso do Sul, com 38 mil toneladas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos efeitos do monocultivo nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/07\/12\/inseguranca-alimentar-70-milhoes-no-brasil-nao-tinham-alimentos-suficientes-entre-2020-e-2022\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">inseguran\u00e7a alimentar<\/a>, sobretudo entre a popula\u00e7\u00e3o rural, ainda \u00e9 alta. A fome ainda est\u00e1 acima do patamar de 2013, apesar de ter recuado nos \u00faltimos cinco anos. Em 2023 a inseguran\u00e7a alimentar era realidade para 64 milh\u00f5es de pessoas, cerca de 8,6 milh\u00f5es de brasileiros sofreram com essa priva\u00e7\u00e3o grave. Os dados s\u00e3o da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (PnadC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Em 2023, o percentual de lares enfrentando inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 inferior ao registrado em 2017 e 2018 (36,7%), durante a recess\u00e3o, mas superior ao de uma d\u00e9cada atr\u00e1s (22,6%). Nas \u00e1reas urbanas, aproximadamente 8,9% dos lares sofreram com inseguran\u00e7a alimentar moderada ou grave, enquanto nas \u00e1reas rurais esse percentual era de 12,7%.<\/p>\n<p>Parte da explica\u00e7\u00e3o da persist\u00eancia da fome no Brasil v\u00eam da falta de cultivo de alimentos b\u00e1sicos da mesa do brasileiro, fazendo com que haja a necessidade de importar, aumentando assim os pre\u00e7os nos supermercados. &#8220;A \u00e1rea para cultivo de feij\u00e3o diminuiu 40%, a de arroz, cerca de 30%. O pre\u00e7o dos alimentos flutuam ao sabor do mercado internacional inclusive, por isso, o Brasil importa. \u00c9 uma l\u00f3gica que n\u00e3o est\u00e1 voltada para a seguran\u00e7a e para a soberania alimentar.&#8221;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eIatFD1nzWs?si=cY68ZtmjS-HRGMML\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Confira alguns trechos da entrevista abaixo. No v\u00eddeo acima, voc\u00ea pode conferir a entrevista na \u00edntegra.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: O que \u00e9 o conceito de colonialismo qu\u00edmico? E o que ele produz historicamente?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Bombardi: <\/strong>A gente tem uma Europa que hoje se beneficia do com\u00e9rcio e controla 30% das vendas mundiais agrot\u00f3xicos. Ela vende para os pa\u00edses subst\u00e2ncias que ela n\u00e3o tolera no pr\u00f3prio territ\u00f3rio e \u00e9 protegida pela atual regula\u00e7\u00e3o internacional para isso.<\/p>\n<p>Existem hoje tr\u00eas conven\u00e7\u00f5es mundiais para as subst\u00e2ncias t\u00f3xicas. Nenhuma delas \u00e9 especialmente direcionada para agrot\u00f3xicos e, dentre essas conven\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma estrutura jur\u00eddica, um acordo que se chama <em>PIC, Prior Informancy Consent<\/em>, que significa consentimento de autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.<\/p>\n<p>\u00c9 o fato de que quando o Brasil, por exemplo, vai importar uma subst\u00e2ncia que \u00e9 proibida na Europa, ele d\u00e1 a sua anu\u00eancia, ent\u00e3o, h\u00e1 esse acordo internacional de que quando um pa\u00eds importa uma subst\u00e2ncia que \u00e9 proibida do pa\u00eds que est\u00e1 exportando, o pa\u00eds que importa tem que dar a sua anu\u00eancia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que acaba acontecendo \u00e9 que essa pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter colonialista tamb\u00e9m. Porque protege os interesses da Uni\u00e3o Europeia, ou dos pa\u00edses que controlam a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias, embora essas subst\u00e2ncias n\u00e3o sejam toleradas no pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>No colonialismo hist\u00f3rico, a gente teve todo esse processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva que se deu por meio do colonialismo, esse ac\u00famulo de recursos na Europa, particularmente na Inglaterra, que se deu pela expolia\u00e7\u00e3o, pelo genoc\u00eddio, pela pilhagem dos recursos naturais da Am\u00e9rica Latina. A gente v\u00ea algo paralelo acontecendo hoje, como se a gente reatualizasse, digamos assim, essa acumula\u00e7\u00e3o primitiva por meio desse avan\u00e7o sobre os territ\u00f3rios ind\u00edgenas e da grilagem de terras.<\/p>\n<p>Quando a gente v\u00ea por exemplo, casos criminosos de uso de agrot\u00f3xicos, a gente vai ver que a subst\u00e2ncia utilizada foi produzida por justamente por uma dessas empresas sediadas na Uni\u00e3o Europei. Fica claro um mecanismo que remete ao per\u00edodo colonial, ou seja, um deslocamento dessa agricultura capitalista, dessa monocultura, que avan\u00e7a sobre \u00e1reas de camponeses, de povos origin\u00e1rios, utilizando como arma nessa viol\u00eancia dos conflitos fundi\u00e1rios, uma subst\u00e2ncia que \u00e9 proibida no territ\u00f3rio em que ela foi produzida.<\/p>\n<p>Bem, e o colonialismo n\u00e3o existe sem a colonialidade. O que que \u00e9 essa colonialidade? Esse monop\u00f3lio de terras que a gente tem no Brasil, em que 1% dos propriet\u00e1rios controla 50% das terras, e que escolhe o destino do que ser\u00e3o essas terras no pa\u00eds. Essa oligarquia \u00e9 ultra-representada.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que \u00e9 majoritariamente urbano se a gente for pensar em termos da popula\u00e7\u00e3o. Mas o interesse dessas oligarquias rurais que congregam os interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, elas est\u00e3o ultra representadas no nosso Senado, na nossa C\u00e2mara dos Deputados. Isso no nosso pa\u00eds e tamb\u00e9m nos demais pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente vive um drama que tem a ver com as nossas entranhas, com as nossas ra\u00edzes coloniais, que n\u00e3o foram superadas. A gente n\u00e3o superou isso. O racismo estrutural existente no Brasil \u00e9 reflexo dessa estrutura colonialista. A gente tem uma oligarquia que controla politicamente o pa\u00eds, que representa esse grande controle, esse monop\u00f3lio das terras no Brasil, que se afina com os interesses externos.<\/p>\n<p><strong>Um outro ponto tratado no livro \u00e9 a queda da produ\u00e7\u00e3o de alimentos b\u00e1sicos, como o arroz e o feij\u00e3o, em compara\u00e7\u00e3o com a soja. A trag\u00e9dia ocorrida no Rio Grande do Sul acendeu um alerta sobre o cultivo de arroz no Brasil e, consequentemente, os valores dele nos supermercados. O nosso modelo agr\u00edcola est\u00e1 potencializando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? Ele est\u00e1 alimentando a popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Grande parte da agricultura do mundo hoje \u00e9 uma agricultura voltada para a produ\u00e7\u00e3o de energia ou de commodities, que s\u00e3o coisas estranhas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.\u00a0Diante da crise clim\u00e1tica, discute-se a quest\u00e3o de combust\u00edveis verdes, o que \u00e9 um grande problema, porque a gente n\u00e3o discute o padr\u00e3o de consumo, o padr\u00e3o de transporte e vai, supostamente, substituir o combust\u00edvel f\u00f3ssil pelo de origem agr\u00edcola, como se isso fosse uma substitui\u00e7\u00e3o que trouxesse um benef\u00edcio ambiental. Mas na verdade n\u00e3o traz porque a gente est\u00e1 transformando a terra, que \u00e9 a base da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, em um substrato para a produ\u00e7\u00e3o de energia, por meio da monocultura. Quando a gente fala em monocultura, necessariamente a gente est\u00e1 falando da utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, porque a monocultura vai na contram\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>Hoje a gente tem no Brasil uma \u00e1rea que equivale a Alemanha s\u00f3 em soja. Mais de 90% dessa soja \u00e9 transg\u00eanica, o que significa que, como uma grande parte das sementes transg\u00eanicas no Brasil, s\u00e3o sementes tamb\u00e9m preparadas para receber herbicidas. A gente tem hoje uma \u00e1rea no Brasil do tamanho da Alemanha em cultivos transg\u00eanicos que recebem agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>O que passa a acontecer \u00e9 que os destinos dessas terras t\u00eam sido para a produ\u00e7\u00e3o de commodities, essas mercadorias que s\u00e3o comercializadas na bolsa de mercadorias e futuro, que t\u00eam o seu pre\u00e7o conhecido nesse grande casino internacional, e para a agroenergia. E a\u00ed, o que acontece com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos? Ela decaiu.<\/p>\n<p>As \u00e1reas de arroz, feij\u00e3o, trigo e mandioca, por exemplo, ca\u00edram muito. A \u00e1rea para cultivo de feij\u00e3o diminuiu 40%, de arroz, se eu n\u00e3o estou equivocada, diminuiu 30%. Ent\u00e3o, todos os pilares da alimenta\u00e7\u00e3o brasileira tiveram sua \u00e1rea diminu\u00edda. O Brasil importa feij\u00e3o h\u00e1 dez anos. Para mim, isso \u00e9 o maior s\u00edmbolo do esc\u00e2ndalo e mostra o quanto essa agricultura n\u00e3o alimenta a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o dos alimentos flutua ao sabor do mercado, do mercado internacional, inclusive. Por isso, o Brasil importa. O Brasil tamb\u00e9m exporta, mas importa, ent\u00e3o \u00e9 uma l\u00f3gica que n\u00e3o est\u00e1 voltada para a seguran\u00e7a e para a soberania alimentar. \u00c9 uma agricultura que n\u00e3o nos alimenta. A fome aumentou nos \u00faltimos dez anos. Obviamente que recrudesceu nesse per\u00edodo da pandemia, mas ela vem aumentando e acho que um dado fundamental e que elimina, de uma vez por todas, essa falsa ideia de que essa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola alimenta o pa\u00eds \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o rural tem mais fome do que a popula\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p><strong>Em 2023, o governo Lula aprovou 555 agrot\u00f3xicos, houve uma queda de 15% em rela\u00e7\u00e3o a 2022. Apesar disso, n\u00famero de aprova\u00e7\u00f5es \u00e9 o 3\u00ba maior da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada h\u00e1 24 anos. O governo federal est\u00e1 tratando esse tema de forma diferente? Se sim, como?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Bem, eu penso que o governo est\u00e1 tratando isso de forma diferente. Claro, \u00e9 um esc\u00e2ndalo, ser o terceiro maior n\u00famero de aprova\u00e7\u00f5es. Mas eu tamb\u00e9m acredito que h\u00e1 mudan\u00e7as pela frente. Por exemplo, a gente tem o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, que est\u00e1 resgatando o tema da pol\u00edtica nacional de redu\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, a PNARA [Pol\u00edtica Nacional de Redu\u00e7\u00e3o de Agrot\u00f3xicos], que est\u00e1 resgatando o Plano de Produ\u00e7\u00e3o Org\u00e2nica e Agroecol\u00f3gica [Planapo]. Isso est\u00e1 em pauta no governo. \u00c9 muito diferente do governo ultraconservador de extrema direita em que isso n\u00e3o era tema. Mas \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 um desafio.<\/p>\n<p>A colonialidade \u00e9 uma marca que atravessa o pa\u00eds mesmo durante os governos progressistas, n\u00e3o \u00e9 algo superado por um governo progressista que se elege. Ent\u00e3o de avan\u00e7os, por exemplo, eu poderia dizer que o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio selou compromissos com hospitais p\u00fablicos, por exemplo, em S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o o deputado Paulo Teixeira [PT] e o professor F\u00falvio Scorza viabilizaram contratos com hospitais em que a alimenta\u00e7\u00e3o hospitalar vai ser fornecida por produtores agroecol\u00f3gicos, por pequenos produtores. Isso \u00e9 inovador.<\/p>\n<p>O que poderia ser feito imediatamente e o que a gente tem que almejar? A gente tem que almejar a elimina\u00e7\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, uma pr\u00e1tica proibida na Europa desde 2009. N\u00e3o s\u00f3 por avi\u00e3o, como tamb\u00e9m por drone, porque a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea \u00e9 a principal forma de contamina\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Emergencialmente o que poderia ser feito \u00e9 banir as subst\u00e2ncias banidas na Uni\u00e3o Europeia, proibir a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea e rever os limites de agrot\u00f3xicos, tanto na \u00e1gua, quanto nos alimentos. No mundo, como n\u00f3s fal\u00e1vamos no in\u00edcio, a atual regula\u00e7\u00e3o internacional para as subst\u00e2ncias t\u00f3xicas \u00e9 incipiente. O n\u00famero de agrot\u00f3xicos internacionalmente banidos corresponde s\u00f3 a 3% do volume total, do n\u00famero total de agrot\u00f3xicos autorizados. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nada. \u00c9 quase nada.<\/p>\n<p>A gente precisa caminhar na dire\u00e7\u00e3o de uma regula\u00e7\u00e3o internacional para agrot\u00f3xicos. Tenho trabalhado nisso, coordenando uma alian\u00e7a que se chama IPSA, uma Alian\u00e7a Internacional para a Padroniza\u00e7\u00e3o de Agrot\u00f3xicos, que visa, obviamente, a elimina\u00e7\u00e3o programada dessas subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Deve haver um padr\u00e3o de limite de res\u00edduo de agrot\u00f3xicos, deve haver um padr\u00e3o para a proibi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, porque enquanto, por exemplo, a Uni\u00e3o Europeia j\u00e1 proibiu, ou nunca autorizou uma quantidade de 269 agrot\u00f3xicos, o resto do mundo mal chega \u00e0 casa dos 30, outros nem \u00e0 casa dos 100 agrot\u00f3xicos. Ent\u00e3o \u00e9 algo muito grave.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que a gente traga esse debate para o \u00e2mbito internacional porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o mundo viva com regras t\u00e3o d\u00edspares em que uma grande parte da humanidade, especialmente dos pa\u00edses do Sul, estejam submetidos a um impacto dos agrot\u00f3xicos de forma diferente daquela da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Norte.<\/p>\n<p><strong>Uma das respostas tamb\u00e9m passa por punir as empresas e empres\u00e1rios que intoxicam a popula\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um caminho tamb\u00e9m que deve ser considerado, sim, porque normalmente as empresas se isentam da responsabilidade, mas a gente sabe que, ao fim e ao cabo, elas s\u00e3o as respons\u00e1veis pelo que vem acontecendo. Uma fotografia clara de como as empresas s\u00e3o respons\u00e1veis \u00e9 o fato da Bayer, hoje, nos Estados Unidos, (a Bayer \u00e9 uma companhia alem\u00e3 que comprou a Monsanto), est\u00e1 sendo processada na esfera dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares em fun\u00e7\u00e3o dos casos envolvendo o c\u00e2ncer por exposi\u00e7\u00e3o a glifosato.<\/p>\n<p>\u00c9 algo que caminha. Tem uma entidade muito importante que se chama <em>Justice Pesticides<\/em>, sediada na Fran\u00e7a, mas que tem representantes no mundo inteiro, e que faz parte da IPSA, que congrega casos na justi\u00e7a envolvendo agrot\u00f3xicos, informa\u00e7\u00f5es sobre agrot\u00f3xicos e justi\u00e7a, processos contra as empresas ou de outra ordem.<\/p>\n<p>\u00c9 um tema que cresce e que deve merecer lugar central tamb\u00e9m no combate. As empresas t\u00eam que ser responsabilizadas. A gente n\u00e3o pode, como tem sido feito, responsabilizar as v\u00edtimas. Eu me lembro, claramente, da ex-ministra da agricultura do governo Bolsonaro, afirmando que os camponeses se intoxicam muitas vezes porque manipulam os agrot\u00f3xicos e depois fumam. Isso \u00e9 algo triste, ter que lidar com esse tipo de narrativa no Brasil, quando a gente sabe muito bem o descontrole de como essas subst\u00e2ncias s\u00e3o utilizadas.<\/p>\n<p>As companhias n\u00e3o se responsabilizam por isso e tanto \u00e9 fato que as contamina\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos n\u00e3o est\u00e3o restritas ao universo do manejo no ambiente de trabalho. A gente tem um n\u00famero de beb\u00eas de zero a um ano que se intoxicam com agrot\u00f3xicos no Brasil. Ent\u00e3o \u00e9 algo que sai da esfera das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e contamina a popula\u00e7\u00e3o brasileira de uma forma muito cruel, especialmente as crian\u00e7as e os adolescentes.<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_last\"><\/div>\n<p>N\u00f3s estamos submetidos a uma exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica a essas subst\u00e2ncias.\u00a0Precisamos olhar isso sob uma outra perspectiva e entender que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00edtima, que os trabalhadores s\u00e3o v\u00edtimas e que as empresas devem, sim, ser responsabilizadas pelos efeitos, seja na sa\u00fade humana, seja na sa\u00fade ambiental.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Martina Medina<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora fala sobre heran\u00e7a colonialista no uso de subst\u00e2ncias produzidas por multinacionais europeias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1066,5,1067],"class_list":["post-35619","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas","tag-agrotoxicos","tag-brasil","tag-ue"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-9gv","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35619","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35619"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35619\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35621,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35619\/revisions\/35621"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35619"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35619"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35619"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}