{"id":36602,"date":"2025-03-18T11:13:09","date_gmt":"2025-03-18T15:13:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=36602"},"modified":"2025-03-18T11:13:09","modified_gmt":"2025-03-18T15:13:09","slug":"florescer-na-lama-o-jornalismo-de-que-a-america-latina-precisa-frente-ao-desafio-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2025\/03\/18\/florescer-na-lama-o-jornalismo-de-que-a-america-latina-precisa-frente-ao-desafio-de-trump\/","title":{"rendered":"Florescer na lama: o jornalismo de que a Am\u00e9rica Latina precisa frente ao desafio de Trump"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-group alignwide\">\n<div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"338\" width=\"600\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/infoamazonia.org\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/OjoPublico-Editorial-1024x576.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em><strong>InfoAmaz\u00f4nia &#8211; Em um contexto hostil para os cidad\u00e3os e para o planeta, n\u00f3s, 19 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, refletimos sobre as implica\u00e7\u00f5es globais e regionais do retorno de Donald Trump \u00e0 Presid\u00eancia dos Estados Unidos. Sua sa\u00edda do Acordo de Paris, sua pol\u00edtica anti-imigra\u00e7\u00e3o e seu negacionismo clim\u00e1tico geram impactos transversais que afetam o futuro do planeta. N\u00f3s nos comprometemos com um jornalismo que v\u00e1 al\u00e9m do catastrofismo e se ancore na complexidade da realidade. Nosso objetivo \u00e9 denunciar abusos de poder, dar visibilidade \u00e0 resili\u00eancia e amplificar as vozes dos setores mais vulner\u00e1veis. Em um cen\u00e1rio marcado pela polariza\u00e7\u00e3o, desinforma\u00e7\u00e3o e satura\u00e7\u00e3o informativa, reafirmamos nossa miss\u00e3o de investigar, explicar e conectar os pontos cr\u00edticos a fim de contribuirmos para uma compreens\u00e3o mais profunda e matizada destes tempos desafiadores.<\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Tem sido dif\u00edcil acompanhar o ritmo do presidente Donald Trump desde seu retorno \u00e0 Casa Branca, em 20 de janeiro. Em tempo recorde, Trump assinou tantas ordens executivas e proclamou tantos planos grandiosos como amea\u00e7as, que jornalistas, comentaristas e analistas descreveram o in\u00edcio de seu mandato como uma\u00a0<em>blitz<\/em>, um bombardeio, um terremoto, uma tempestade ou uma avalanche.<\/p>\n<p>O caos instaurado n\u00e3o \u00e9 fruto da improvisa\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. O ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, j\u00e1 havia antecipado essa situa\u00e7\u00e3o em 2019 com outra met\u00e1fora que aludia igualmente a uma cat\u00e1strofe: era preciso \u201cinundar a zona\u201d o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Assim, jornalistas e meios de comunica\u00e7\u00e3o (considerados opositores por Trump e Bannon) ficariam t\u00e3o sobrecarregados que n\u00e3o conseguiriam reagir a tempo. Sem informa\u00e7\u00e3o oportuna e de qualidade, cidad\u00e3os e demais poderes estariam desarmados.<\/p>\n<p>O plano funcionou apenas em parte. Os jornalistas t\u00eam trabalhado sem descanso, e v\u00e1rias dessas ordens executivas em avalanche j\u00e1 foram contestadas judicialmente por sua legalidade duvidosa. No entanto, enquanto o assunto \u00e9 debatido nos tribunais dos Estados Unidos \u2013 e o Executivo acata ou n\u00e3o as decis\u00f5es judiciais \u2013, as medidas de Trump j\u00e1 afetaram milh\u00f5es de pessoas ao redor do mundo: milhares de imigrantes foram deportados, a Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid)\u00a0<a href=\"https:\/\/infoamazonia.org\/2025\/02\/20\/efeitos-dos-cortes-da-usaid-para-organizacoes-da-amazonia\/\">est\u00e1 sendo desmantelada<\/a>, compromissos internacionais foram rompidos e a guerra comercial come\u00e7ou com a imposi\u00e7\u00e3o seletiva de tarifas.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es dos \u00faltimos dias n\u00e3o impactam apenas o presente, mas tamb\u00e9m o futuro do planeta e de seus habitantes. Uma das primeiras ordens assinadas por Trump foi a retirada do Acordo de Paris. Isso ocorre justamente quando a temperatura global j\u00e1 ultrapassou o limite adicional de 1,5 grau Celsius, estabelecido no tratado. No entanto, dados e ci\u00eancia parecem n\u00e3o preocupar o presidente do pa\u00eds mais poluente do mundo nem os lobistas do petr\u00f3leo nomeados por ele para a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (EPA), que negam qualquer impacto da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis sobre a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 Am\u00e9rica Latina e ao Caribe, uma das regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, Trump deixou sua posi\u00e7\u00e3o clara j\u00e1 no segundo dia de mandato: \u201cEles precisam muito mais de n\u00f3s do que n\u00f3s deles. N\u00e3o precisamos deles\u201d. O lema \u201cEstados Unidos em primeiro lugar\u201d substituiu conceitos como responsabilidade compartilhada e multilateralismo. A mudan\u00e7a de termos, tom e postura da Casa Branca e do Departamento de Estado reflete a ideia de que os pa\u00edses da regi\u00e3o far\u00e3o o que Trump quiser, por bem ou por mal.<\/p>\n<p>Isso ficou evidente no tratamento dado aos imigrantes, a maioria de origem latino-americana, e na inefic\u00e1cia dos poucos protestos diplom\u00e1ticos contra a nova pol\u00edtica anti-imigra\u00e7\u00e3o de Washington. Ap\u00f3s a captura de mais de 14 mil pessoas em opera\u00e7\u00f5es de deporta\u00e7\u00e3o, a maior parte delas foi enviada para M\u00e9xico, Guatemala, Col\u00f4mbia, Brasil, Peru, Equador e Venezuela, depois de um acordo pragm\u00e1tico negociado com Nicol\u00e1s Maduro. Nos pr\u00f3ximos meses, espera-se um aumento no n\u00famero de deporta\u00e7\u00f5es para a Venezuela, j\u00e1 que Trump revogou o Estatuto de Prote\u00e7\u00e3o Tempor\u00e1ria (TPS) para mais de 300 mil venezuelanos que acreditavam estar a salvo. Essas medidas violam seus direitos ao asilo, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o, ao devido processo e \u00e0 unidade familiar, entre outros.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses da regi\u00e3o ter\u00e3o de lidar com essa situa\u00e7\u00e3o com seus pr\u00f3prios recursos, sem contar com a ajuda humanit\u00e1ria anteriormente financiada pelo governo dos EUA. Esse financiamento tamb\u00e9m destinava milh\u00f5es de d\u00f3lares a outras causas, como a prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, territ\u00f3rio compartilhado por Brasil, Col\u00f4mbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de menor import\u00e2ncia: a Amaz\u00f4nia \u00e9 um ecossistema estrat\u00e9gico para a regula\u00e7\u00e3o do clima e o equil\u00edbrio biol\u00f3gico devido aos rios voadores, concentra 20% do carbono global, abriga 10% das esp\u00e9cies conhecidas e \u00e9 o lar de 308 povos Ind\u00edgenas que falam mais de 200 l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Esse ecossistema j\u00e1 sofre forte press\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o ilegal de ouro e do narcotr\u00e1fico, que promovem a invas\u00e3o de terras e o desmatamento para o cultivo de coca. Embora Trump tenha prometido um combate severo ao narcotr\u00e1fico e ao crime organizado, seus discursos e declara\u00e7\u00f5es iniciais sugerem que ele espera que os pa\u00edses da regi\u00e3o assumam essa responsabilidade sozinhos, sem necessariamente contar com o mesmo apoio financeiro que Washington ofereceu no passado.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro quantos recursos os EUA destinar\u00e3o ou cortar\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina, mas a nova pol\u00edtica externa de Washington e as respostas de Moscou e Pequim a essa nova ordem geopol\u00edtica ter\u00e3o grande peso nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Equador (cujo segundo turno ocorrer\u00e1 em abril), da Bol\u00edvia, do Chile, de Honduras e do Haiti \u2013 se a situa\u00e7\u00e3o interna do pa\u00eds este ano permitir \u2013, al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es de 2026 na Col\u00f4mbia, no Peru, no Brasil e na Costa Rica.<\/p>\n<p>Independentemente do que venha a acontecer nos pr\u00f3ximos anos, os jornalistas dessa rede de meios independentes na Am\u00e9rica Latina t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de explicar como as decis\u00f5es de um \u00fanico homem \u2013 ou de dois, se considerarmos Elon Musk \u2013 no Sal\u00e3o Oval podem impactar de forma transversal n\u00e3o apenas a pol\u00edtica regional, mas tamb\u00e9m as comunidades mais vulner\u00e1veis do continente. Para isso, precisamos fortalecer nossas redes de trabalho colaborativo, tanto no \u00e2mbito transnacional quanto hiperlocal, e manter a aten\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es de dif\u00edcil acesso, como parte da Amaz\u00f4nia, al\u00e9m de cobrir temas frequentemente negligenciados e sub-representados no debate p\u00fablico.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote alignwide is-style-jeo\">\n<blockquote><p>Precisamos fortalecer nossas redes de trabalho colaborativo, tanto no \u00e2mbito transnacional quanto hiperlocal, e manter a aten\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es de dif\u00edcil acesso, como parte da Amaz\u00f4nia, al\u00e9m de cobrir temas frequentemente negligenciados e sub-representados no debate p\u00fablico.<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p>Estes s\u00e3o tempos desafiadores e exigentes para o jornalismo, por diversos motivos: os ataques sistem\u00e1ticos de governantes e do crime organizado, a polariza\u00e7\u00e3o e a desinforma\u00e7\u00e3o, que frequentemente visam minar a credibilidade da imprensa e dos jornalistas, al\u00e9m da fadiga informativa do p\u00fablico, sobrecarregado por um fluxo incessante de m\u00e1s not\u00edcias.<\/p>\n<p>Nos propomos a praticar um jornalismo que escape da reatividade e do catastrofismo, que n\u00e3o se deixe sufocar pelo ru\u00eddo informativo e pelas mentiras das redes sociais, mas que se comprometa genuinamente com a realidade, sempre mais complexa e cheia de nuances. Por isso mesmo, devemos nos esfor\u00e7ar para documentar tamb\u00e9m a capacidade de resili\u00eancia, de adapta\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia da sociedade, as institui\u00e7\u00f5es e as lideran\u00e7as, sem deixar de investigar os abusos de poder e a corrup\u00e7\u00e3o dentro de uma pr\u00e1tica rigorosa do of\u00edcio jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o e ao caos provocados por Trump, n\u00e3o nos resta outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser continuar colaborando e estendendo nossas ra\u00edzes no barro. Afinal, a Vit\u00f3ria-r\u00e9gia, o maior nen\u00fafar do mundo e s\u00edmbolo de nossa Amaz\u00f4nia, floresce na lama e ao anoitecer.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p>Este texto \u00e9 um editorial da\u00a0<strong>InfoAmazonia<\/strong>\u00a0publicado em parceria com outros 18 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina:<\/p>\n<p>OjoP\u00fablico (Peru)<br \/>\nSUMA\u00daMA (Brasil)<br \/>\nEl Espectador (Col\u00f4mbia)<br \/>\nCasa Macondo (Col\u00f4mbia)<br \/>\nPopLab (M\u00e9xico)<br \/>\nLado B (M\u00e9xico)<br \/>\nRaichal\u00ed (M\u00e9xico)<br \/>\nIstmo Press (M\u00e9xico)<br \/>\nPerimetral (M\u00e9xico)<br \/>\nLa Liga Contra el Silencio (Col\u00f4mbia)<br \/>\nRevista N\u00f3mada (Bol\u00edvia)<br \/>\nC\u00f3digo Vidrio (Equador)<br \/>\nPlan V (Equador)<br \/>\nAgenda Propia (Colombia)<br \/>\nCuesti\u00f3n P\u00fablica (Colombia)<br \/>\nGK (Ecuador)<br \/>\nPeriodistas por el Planeta (Argentina)<br \/>\nLa Verdad de Ju\u00e1rez (M\u00e9xico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>InfoAmaz\u00f4nia &#8211; Em um contexto hostil para os cidad\u00e3os e para o planeta, n\u00f3s, 19 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, refletimos sobre as implica\u00e7\u00f5es globais e regionais do retorno de Donald Trump \u00e0 Presid\u00eancia dos Estados Unidos. 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