{"id":36951,"date":"2025-06-25T17:07:45","date_gmt":"2025-06-25T21:07:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=36951"},"modified":"2025-06-25T17:07:45","modified_gmt":"2025-06-25T21:07:45","slug":"juliana-gaza-e-o-silencio-entre-cliques","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2025\/06\/25\/juliana-gaza-e-o-silencio-entre-cliques\/","title":{"rendered":"Juliana, Gaza e o sil\u00eancio entre cliques"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"36952\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2025\/06\/25\/juliana-gaza-e-o-silencio-entre-cliques\/img_3462-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?fit=1170%2C700\" data-orig-size=\"1170,700\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_3462\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?fit=300%2C179\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?fit=600%2C359\" class=\"alignnone size-medium wp-image-36952\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?resize=300%2C179\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"179\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?resize=300%2C179 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?resize=1024%2C613 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?resize=768%2C459 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?resize=501%2C300 501w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/IMG_3462.webp?w=1170 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h2 class=\"article__lead\">O que emerge n\u00e3o \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o das dores, mas a forma como aprendemos a consumi-las. A cada imagem, uma camada a menos de humanidade<\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Brasil 247, por Sara Goes &#8211; \u00a0A insensibiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 lenta, mas certeira. N\u00e3o chega como nega\u00e7\u00e3o, mas como excesso. De tanto ver, deixa-se de sentir. De tanto deslizar, o dedo desaprende o toque. Juliana Marins caiu em uma trilha na Indon\u00e9sia e ficou presa a 650 metros de profundidade. Durante dias, resistiu. Sua morte, a trag\u00e9dia em camadas, se tornou debate p\u00fablico, uma mulher que ousa viajar s\u00f3, o desamparo do guia, a exig\u00eancia da fam\u00edlia em envolver esfor\u00e7os do governo, o debate sobre sua intimidade. Me vi um pouco nela, me senti t\u00e3o s\u00f3. Havia algo naquele corpo im\u00f3vel, naquela espera em v\u00e3o, que tocava uma solid\u00e3o muito \u00edntima, uma ang\u00fastia sem plateia mesmo sob os olhos do mundo inteiro.<\/p>\n<p>Do outro lado do mundo, desde outubro de 2023, crian\u00e7as s\u00e3o soterradas em Gaza todos os dias. Seus corpos aparecem em v\u00eddeos, amontoados, cobertos de poeira, sem nome, sem hist\u00f3ria, sem voz. A n\u00e3o ser pelas entidades como a FEPAL, que tentam resgatar esses nomes, reconstruir essas vidas, devolver rosto aos corpinhos esfacelados. A Federa\u00e7\u00e3o \u00c1rabe Palestina do Brasil publica diariamente identidades, datas de nascimento, rostos que ningu\u00e9m quer ver. Mas a grande e velha m\u00eddia s\u00f3 viu o nome de Juliana, de olho nos cliques que o debate em torno dela poderia render, da aventura solit\u00e1ria \u00e0 intimidade vasculhada, da falha log\u00edstica ao apelo diplom\u00e1tico. S\u00f3 a ela foi permitido existir como algu\u00e9m. Os outros seguem como n\u00fameros, manchas, ru\u00eddos. Ontem ouvi uma frase da professora Ednalva Neves, da UFSM, que me cortou por dentro. O ser humano virou res\u00edduo.<\/p>\n<p>Desde minha primeira gesta\u00e7\u00e3o, toda imagem de uma crian\u00e7a morta me atravessa como uma amea\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 compara\u00e7\u00e3o, \u00e9 conex\u00e3o. Quando vejo aquelas m\u00e3es carregando pequenos corpos embrulhados em len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o consigo pensar em outra coisa sen\u00e3o no corpo do meu filho. A maternidade faz com que o mundo se torne mais fr\u00e1gil e mais real, e assistir ao genoc\u00eddio com um beb\u00ea nos bra\u00e7os \u00e9 como segurar futuro e fim ao mesmo tempo. Mas mesmo isso, aos poucos, come\u00e7a a se diluir. As imagens seguem vindo, uma atr\u00e1s da outra, e a dor j\u00e1 n\u00e3o encontra mais onde pousar.<\/p>\n<p>A isso soma-se a insensibiliza\u00e7\u00e3o programada pelas redes, tema central nas reflex\u00f5es de Reynaldo Aragon. Ele descreve como o deslizar constante de imagens sobrepostas rouba de n\u00f3s o tempo do afeto, a d\u00favida, a ang\u00fastia, o receio, o espa\u00e7o onde o outro come\u00e7a a existir. A aus\u00eancia de hesita\u00e7\u00e3o e erro, pe\u00e7as fundamentais do v\u00ednculo humano, \u00e9 substitu\u00edda por gestos autom\u00e1ticos que eliminam o atrito emocional, esse tempo do n\u00e3o saber que ainda preserva a profundidade do encontro. Ele prossegue apontando que o design persuasivo das plataformas molda emo\u00e7\u00f5es para a produtividade e o consumo, transformando amor, t\u00e9dio, raiva e desejo em fun\u00e7\u00f5es de um sistema que quer otimizar engajamento e eliminar o inc\u00f4modo da d\u00favida. Hesitar, parar de clicar, recusar o fluxo, \u00e9, para Aragon, um ato pol\u00edtico e humano, uma forma de resgatar o afeto genu\u00edno.<\/p>\n<p>Vivemos numa era em que a dor virou conte\u00fado. E a forma como ela \u00e9 exibida, com mais ou menos filtros, mais ou menos intimidade, mais ou menos repeti\u00e7\u00e3o, define n\u00e3o s\u00f3 o quanto nos comovemos, mas o quanto continuamos a clicar. A como\u00e7\u00e3o por Juliana ainda carrega algum resqu\u00edcio de empatia. J\u00e1 o genoc\u00eddio de Gaza parece ter se convertido em ru\u00eddo de fundo, como se o horror reiterado tivesse gasto o poder de choque.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de comparar trag\u00e9dias, mas de reconhecer o que estamos deixando de sentir. A insensibiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma falha moral individual, \u00e9 uma arquitetura de satura\u00e7\u00e3o. Somos espectadores de um espet\u00e1culo cont\u00ednuo, onde a dor precisa ser performada e a morte precisa parecer pr\u00f3xima para ser lamentada. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas que nos mostram demais, \u00e9 que estamos sendo ensinados a n\u00e3o sentir quase nada. Soa \u00f3bvio, mas permanece urgente lembrar que desacelerar, hesitar, recusar o fluxo autom\u00e1tico das redes n\u00e3o \u00e9 recusa da dor ou ignor\u00e2ncia da trag\u00e9dia, \u00e9 talvez a \u00fanica forma que resta de preservar o humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que emerge n\u00e3o \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o das dores, mas a forma como aprendemos a consumi-las. 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