{"id":37347,"date":"2025-08-26T14:55:32","date_gmt":"2025-08-26T18:55:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=37347"},"modified":"2025-08-26T14:55:32","modified_gmt":"2025-08-26T18:55:32","slug":"entre-o-medo-da-morte-e-da-fome-reflexos-de-um-conflito-longe-do-fim-na-resex-jaci-parana-ro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2025\/08\/26\/entre-o-medo-da-morte-e-da-fome-reflexos-de-um-conflito-longe-do-fim-na-resex-jaci-parana-ro\/","title":{"rendered":"Entre o medo da morte e da fome: reflexos de um conflito longe do fim na Resex Jaci-Paran\u00e1 (RO)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"37348\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2025\/08\/26\/entre-o-medo-da-morte-e-da-fome-reflexos-de-um-conflito-longe-do-fim-na-resex-jaci-parana-ro\/img_6271\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?fit=1280%2C855\" data-orig-size=\"1280,855\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_6271\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?fit=600%2C401\" class=\"alignnone size-medium wp-image-37348\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?resize=300%2C200\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?resize=1024%2C684 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?resize=768%2C513 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?resize=449%2C300 449w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?w=1280 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_6271.webp?w=1200 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Esperan\u00e7osa na federaliza\u00e7\u00e3o de UC estadual invadida e degradada, testemunha amea\u00e7ada narra o drama de fam\u00edlias extrativistas entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte, seja resistindo ou fugindo.<!--more--><\/p>\n<p>O Eco, por ELIZABETH OLIVEIRA &#8211; Para al\u00e9m de meio de sobreviv\u00eancia, nas comunidades tradicionais o territ\u00f3rio representa a conex\u00e3o visceral dos povos com a natureza e com as heran\u00e7as culturais expressas em modos de vida passados de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. Na <a href=\"https:\/\/uc.socioambiental.org\/arp\/1319\">Reserva Extrativista Jaci-Paran\u00e1<\/a>, de gest\u00e3o estadual em Rond\u00f4nia, esses e outros v\u00ednculos est\u00e3o sendo destru\u00eddos por grileiros e fazendeiros que expulsaram fam\u00edlias, desmataram e saquearam milhares de hectares de florestas. Eles seguem lucrando com esse cen\u00e1rio e vivendo impunemente da cria\u00e7\u00e3o de gado e outras atividades incompat\u00edveis com a prote\u00e7\u00e3o da UC, criada em 1996. \u201cA pessoa chegava em casa e o fog\u00e3o e as panelas estavam furados de bala\u201d, narra a testemunha expulsa e amea\u00e7ada, n\u00e3o identificada por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, em entrevista a ((o))eco. \u201cIsso acabou com a vida das pessoas que foram expulsas dali\u201d, acrescenta o depoimento emocionado de quem tamb\u00e9m perdeu bens materiais, al\u00e9m de refer\u00eancias culturais e afetivas.<\/p>\n<p>A dor da perda segue sendo extravasada nesse di\u00e1logo: \u201cA gente n\u00e3o pode mais voltar para l\u00e1, sen\u00e3o \u00e9 morte na certa\u201d. Confira a seguir, na \u00edntegra dessa conversa, os reflexos de um panorama de descaso e impunidade, al\u00e9m de um fio de esperan\u00e7a depositado em um processo de federaliza\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o se configura como solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel nas intencionalidades governamentais.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>((o))eco \u2013 Quais s\u00e3o os principais problemas envolvendo o conflito socioambiental na Resex Jaci-Paran\u00e1?<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Testemunha expulsa \u2013<\/strong> O conflito que est\u00e1 acontecendo l\u00e1, com expuls\u00e3o de fam\u00edlias extrativistas por madeireiros e fazendeiros, envolve v\u00e1rias viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos como o direito ao territ\u00f3rio e \u00e0 moradia. Isso causa um grande impacto para os moradores, levando \u00e0 perda de suas atividades, seus modos de vida tradicionais e suas culturas. Isso tamb\u00e9m prejudica muito os povos extrativistas que ainda vivem l\u00e1.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full my-5\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-187999 shadow\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=640%2C384&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1023px) 100vw, 1023px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?w=1023&amp;ssl=1 1023w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=300%2C180&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=640%2C384&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=500%2C300&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=800%2C480&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reserva-jaci-parana-ro_christian-braga-greenpeace-01-scaled-1-1024x614-1.webp?resize=150%2C90&amp;ssl=1 150w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"384\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption text-right text-muted font-italic small mt-2\">\u00c1rea queimada dentro da Resex Jaci-Paran\u00e1, em Rond\u00f4nia, para abertura de pasto. Foto: Christian Braga\/Greenpeace<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>H\u00e1 uma estimativa de quantas fam\u00edlias viviam na Resex antes das amea\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/h4>\n<p>L\u00e1 moravam cerca de 250 fam\u00edlias. Quando come\u00e7aram as invas\u00f5es, a maioria n\u00e3o quis nem correr o risco. Os grileiros atiravam nas panelas. A pessoa chegava em casa e o fog\u00e3o e as panelas estavam furados de bala. A\u00ed muitas fam\u00edlias tamb\u00e9m foram embora.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quantas ainda est\u00e3o l\u00e1 e que cen\u00e1rio est\u00e3o enfrentando?<\/strong><\/h4>\n<p>Atualmente est\u00e3o resistindo cerca de 37 fam\u00edlias extrativistas. Elas vivem com medo, pois n\u00e3o deixam de sofrer press\u00e3o por parte dos fazendeiros. Eles coagem. Chegam nas coloca\u00e7\u00f5es dos moradores e retiram madeira, falando que l\u00e1 \u00e9 deles. Assim, as fam\u00edlias vivem em constante amea\u00e7a. Mas muitos se sa\u00edrem dali v\u00e3o passar fome na cidade, igual a tantos que sa\u00edram e est\u00e3o na cidade com depress\u00e3o, ansiedade e juntando materiais recicl\u00e1veis para sobreviver. Isso acabou com a vida das pessoas que foram expulsas dali.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que aconteceu com voc\u00ea e a sua fam\u00edlia?<\/strong><\/h2>\n<p>Eu, particularmente, sofri amea\u00e7as de morte por jagun\u00e7os de fazendeiros. Eu morava na Reserva desde a d\u00e9cada de 1980. O meu av\u00f4 foi soldado da borracha [seringueiro]. L\u00e1 era um lugar muito bom de se viver. Mas me expulsaram de tr\u00eas coloca\u00e7\u00f5es diferentes com a minha fam\u00edlia. Na terceira vez teve forte amea\u00e7a. A gente n\u00e3o pode mais voltar para l\u00e1, sen\u00e3o \u00e9 morte na certa.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quanto \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es em defesa da federaliza\u00e7\u00e3o da Resex, quais s\u00e3o as suas expectativas?<\/strong><\/h4>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full my-5 my-md-2\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-187998 shadow\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=640%2C855&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?w=650&amp;ssl=1 650w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=640%2C855&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=500%2C668&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=150%2C200&amp;ssl=1 150w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"855\" data-recalc-dims=\"1\" data-cfsrc=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-2.jpg?resize=640%2C855&amp;ssl=1\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption text-right text-muted font-italic small mt-2\">Fazenda de gado dentro da Resex. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>N\u00f3s estamos buscando essa federaliza\u00e7\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rios anos. Para n\u00f3s, \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que tem para aquele territ\u00f3rio voltar a ser como era antes. Para se ter uma no\u00e7\u00e3o, de mais de 190 mil hectares j\u00e1 foram derrubados cerca de 185 mil. \u00c9 muita coisa para as autoridades n\u00e3o enxergarem isso. A Sedam [Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental] foi omissa e entregou aquilo ali de bandeja para os invasores. Eles tiraram toda a madeira que tinha l\u00e1 dentro e colocaram gado. Tinha uma base da Sedam l\u00e1 dentro.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Se a federaliza\u00e7\u00e3o que representa uma esperan\u00e7a n\u00e3o se concretizar, o que pode acontecer?<\/strong><\/h4>\n<p>Com certeza essa \u00e9 a \u00fanica esperan\u00e7a. Se isso n\u00e3o acontecer, como eles est\u00e3o criando essas leis a\u00ed para regularizar a situa\u00e7\u00e3o dos invasores, isso n\u00e3o vai ter jeito e vai abrir precedentes para outras Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o serem destru\u00eddas tamb\u00e9m. Vai ser um pr\u00eamio para os grileiros. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 \u00e9 bem clara sobre a quest\u00e3o do direito \u00e0 moradia, ao territ\u00f3rio e ao meio ambiente. E ali foram violados v\u00e1rios desses direitos. A <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Conven%C3%A7%C3%A3o_OIT_sobre_Povos_Ind%C3%ADgenas_e_Tribais_em_pa%C3%ADses_independentes_n%C2%BA._169\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Conven\u00e7\u00e3o 169 <\/a>da OIT [Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho] tamb\u00e9m diz sobre todas essas viola\u00e7\u00f5es<strong>.<\/strong><\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como voc\u00ea avalia as tentativas de fragiliza\u00e7\u00e3o das salvaguardas ambientais vigentes?<\/strong><\/h4>\n<p>O Poder Legislativo de Rond\u00f4nia est\u00e1 passando por cima de todas as leis por interesse pr\u00f3prio. Eles [parlamentares] n\u00e3o est\u00e3o pensando no meio ambiente, nas vidas que tiveram que partir das suas casas, na \u00e1gua que existia. L\u00e1 era um lugar muito rico em rios e nascentes. Eles n\u00e3o pensaram na fauna ou na flora. Muitas plantas medicinais acabaram. Isso \u00e9 muito triste. Eles est\u00e3o l\u00e1 para representar a gente. Mas passam por cima das leis. S\u00f3 pensam no capital.<\/p>\n<div class=\"wp-block-group alignwide p-5 has-central-palette-4-background-color has-background\">\n<div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>MPF pede federaliza\u00e7\u00e3o da Resex em a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica<\/strong><\/h3>\n<p>Diante do alto n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o ambiental e das vulnerabilidades enfrentadas pelas fam\u00edlias extrativistas da Resex Jaci-Paran\u00e1, o<a href=\"https:\/\/oeco.org.br\/noticias\/mpf-quer-intervencao-federal-na-resex-jaci-parana-em-rondonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) ingressou com A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica<\/a> pedindo \u00e0 Justi\u00e7a Federal, em julho, uma decis\u00e3o urgente quanto \u00e0 transfer\u00eancia de gest\u00e3o estadual da UC para a esfera federal.<\/p>\n<p>\u201cEm 2014, o governo federal cedeu ao Estado de Rond\u00f4nia o uso gratuito de \u00e1reas para v\u00e1rias unidades de conserva\u00e7\u00e3o, incluindo a Resex Jaci-Paran\u00e1. Em paralelo a esse tr\u00e2mite, o governo de Rond\u00f4nia e a Assembleia Legislativa agiam para extinguir ou diminuir as unidades de conserva\u00e7\u00e3o estaduais j\u00e1 existentes, sendo uma delas a pr\u00f3pria Resex Jaci-Paran\u00e1. As tentativas foram barradas pela Justi\u00e7a, que declarou inconstitucionais os decretos estaduais de redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas\u201d,\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.mpf.mp.br\/ro\/sala-de-imprensa\/noticias-ro\/mpf-pede-que-gestao-da-reserva-extrativista-jaci-parana-em-rondonia-passe-para-a-uniao\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">informou o comunicado do MPF<\/a>.<\/p>\n<p>Os problemas continuaram, ainda de acordo com os argumentos do MPF: \u201cSete anos depois, em 2021, o governo do Estado e a Assembleia Legislativa tentaram diminuir a \u00e1rea da Resex de 191 mil hectares para 22 mil hectares (uma redu\u00e7\u00e3o de mais de 88%), com a justificativa de que haveria \u201cdificuldade do Poder P\u00fablico em implementar Pol\u00edticas de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental\u201d e que existiriam \u201ccerca de 120 mil cabe\u00e7as de gado no interior da Reserva, impossibilitando a regenera\u00e7\u00e3o natural\u201d. A desafeta\u00e7\u00e3o (redu\u00e7\u00e3o da \u00e1rea protegida) e a pretens\u00e3o de regulariza\u00e7\u00e3o das invas\u00f5es (<a href=\"https:\/\/sapl.al.ro.leg.br\/media\/sapl\/public\/normajuridica\/1996\/1215\/1215_texto_integral.pdf\">Lei Complementar 1.089<\/a>) foram, no entanto, declaradas inconstitucionais pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Estado\u201d.<br \/>\nA Resex j\u00e1 foi apontada dentre as dez Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o mais desmatadas do Brasil, abrigando em seus limites cerca de 200 mil cabe\u00e7as de gado. Em janeiro do ano passado, uma investiga\u00e7\u00e3o da<a href=\"https:\/\/infoamazonia.org\/2024\/01\/16\/agropecuaria-ilegal-triplica-em-10-anos-na-resex-jaci-parana-em-rondonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">InfoAmaz\u00f4nia<\/a>, com base em dados do Projeto MapBiomas identificou uma explos\u00e3o da agropecu\u00e1ria na reserva. A atividade \u201csaltou de 43.104 hectares (21% da \u00e1rea total) para 145.973 hectares (74%) entre 2012 e 2022\u201d. \u201cO dado representa um aumento de 239%, ou seja, a atividade dentro da \u00e1rea protegida mais do que duplicou em 10 anos\u201d. Diante desse tipo de press\u00e3o, a \u00e1rea florestal foi reduzida em 68%, passando de 77% para 25% da \u00e1rea total da reserva.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ativistas socioambientais mant\u00eam mobiliza\u00e7\u00e3o e reiteram cen\u00e1rio de tens\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cO discurso \u00e9 de que est\u00e1 tudo desmatado e cheio de gado na Resex Jaci-Paran\u00e1 e que l\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais para ser UC. Mas a gente diz que a gente restaura o que foi degradado e os extrativistas voltam para o seu territ\u00f3rio\u201d,\u00a0 afirma Neidinha Suru\u00ed, cofundadora da Associa\u00e7\u00e3o de Defesa Etnoambiental Kanind\u00e9 e ativista de longa trajet\u00f3ria, em conversa por telefone com a reportagem. Ela reiterou o clima de fortes tens\u00f5es na reserva e mencionou a postura considerada omissa tanto do Governo do Estado como dos parlamentares da Assembleia Legislativa de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA gente est\u00e1 reivindicando h\u00e1 anos a federaliza\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, os criminosos est\u00e3o sendo premiados com leis que defendem anistia para invasores e extin\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o no estado\u201d, denuncia a ambientalista que manteve contato recente com o MMA para compartilhar preocupa\u00e7\u00f5es sobre o cen\u00e1rio de tens\u00f5es enfrentado pelas fam\u00edlias que ainda est\u00e3o resistindo no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es apontadas pela ativista se referem \u00e0 Lei<a href=\"https:\/\/sapl.al.ro.leg.br\/norma\/12630\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Complementar 1.274<\/a>, promulgada pela Assembleia Legislativa, em abril deste ano, visando \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o de fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado estabelecidas na Resex e tamb\u00e9m anistia para crimes ambientais de invasores. \u201cO governador de Rond\u00f4nia barrou a lei, mas a Assembleia rejeitou o veto e promulgou a norma. Isso levou o MP\/RO a ajuizar uma a\u00e7\u00e3o direta de inconstitucionalidade no Tribunal de Justi\u00e7a de Rond\u00f4nia, ainda sem decis\u00e3o\u201d, segundo o MPF.<\/p>\n<p>Para ampliar a compreens\u00e3o p\u00fablica sobre a complexidade que envolve o tema, \u201cdesde 2004, o MPF e o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Rond\u00f4nia (MP\/RO) j\u00e1 ajuizaram mais de 50 a\u00e7\u00f5es judiciais contra invasores na Resex Jaci-Paran\u00e1\u201d, segundo informado pelo MPF. \u201cOs resultados foram algumas reintegra\u00e7\u00f5es de posse com retirada dos animais e invasores, mas muitas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o surtiram efeito\u201d, reconhece o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter size-full my-5\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-187997 shadow\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=640%2C438&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1050px) 100vw, 1050px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?w=1050&amp;ssl=1 1050w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=300%2C205&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=640%2C438&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=500%2C342&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=800%2C548&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=150%2C103&amp;ssl=1 150w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"438\" data-recalc-dims=\"1\" data-cfsrc=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Resex-1.jpg?resize=640%2C438&amp;ssl=1\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption text-right text-muted font-italic small mt-2 caption-resized\">A paisagem recorrente da reserva extrativista. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Diante de todos os problemas enfrentados historicamente, para Neidinha, sem a federaliza\u00e7\u00e3o da Resex, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda poss\u00edvel. Ela compara os parlamentares de Rond\u00f4nia aos que defendem pautas antiambientais no Congresso Nacional: \u201celes legislam contra o povo e a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Resex Jaci-Paran\u00e1 talvez seja a Resex mais cobi\u00e7ada pelos poderosos de Rond\u00f4nia\u201d, analisa Edjales Ben\u00edcio de Brito, gestor ambiental e membro daAssocia\u00e7\u00e3o de Defesa Etnoambiental Kanind\u00e9 e da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do Grupo de Trabalho Amaz\u00f4nico (GTA). Segundo ele, n\u00e3o por acaso a UC vem sendo alvo de investidas pol\u00edticas tanto no Governo do Estado como na Assembleia Legislativa.<\/p>\n<p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito tensa porque t\u00eam extrativistas que j\u00e1 foram expulsos literalmente \u00e0 bala\u201d, ressalta. Ele menciona o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QNvB8dVGESc&amp;t=83s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Exilados<\/em><\/a>, realizado em parceria pela Associa\u00e7\u00e3o de Defesa Etnoambiental Kanind\u00e9, pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Seringueiros de Rond\u00f4nia e pelo WWF-Brasil, como um produ\u00e7\u00e3o que apresenta em profundidade justamente esse panorama enfrentado na UC.<\/p>\n<p>\u201cNo nosso ponto de vista, o governo estadual perdeu a capacidade de governan\u00e7a do territ\u00f3rio e a federaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica alternativa para a gente salvar aquela \u00e1rea. Nossa esperan\u00e7a vem de uma luta antiga do movimento extrativista de Rond\u00f4nia\u201d, opina Brito. \u201cJaci \u00e9 uma \u00e1rea problem\u00e1tica. Mas se um ente federativo n\u00e3o d\u00e1 conta de gerir, como\u00a0 ocorre com o governo de Rond\u00f4nia, cabe ao ente federativo maior assumir, nesse caso, a Uni\u00e3o\u201d, defende. \u201cE a \u00e1rea \u00e9 da Uni\u00e3o, que colocou condicionantes para o estado criar e implementar a Resex. A\u00ed o estado criou, mas n\u00e3o implementou.\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Para o gestor ambiental, n\u00e3o h\u00e1 argumento jur\u00eddico, t\u00e9cnico ou administrativo que possa impedir a Uni\u00e3o de assumir a gest\u00e3o da Resex Jaci-Paran\u00e1. Ele defende que o caso envolve \u201cvontade pol\u00edtica\u201d. \u201cTem que ter coragem\u201d, conclui.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>MMA afirma acompanhar conflito com aten\u00e7\u00e3o, mas aponta responsabilidade estadual\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Em resposta \u00e0s quest\u00f5es apresentadas pela reportagem, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima (MMA) informou, por interm\u00e9dio de sua assessoria de imprensa, que acompanha, \u201ccom aten\u00e7\u00e3o\u201d, os desafios relacionados \u00e0 gest\u00e3o da Resex Jaci-Paran\u00e1, em Rond\u00f4nia, juntamente com o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio).<\/p>\n<p>Ainda que se trate de uma Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o estadual, institu\u00edda e sob responsabilidade do governo de Rond\u00f4nia, foi ressaltado em comunicado que o MMA e o ICMBio \u201ct\u00eam recebido manifesta\u00e7\u00f5es da sociedade civil e de comunidades locais sobre a situa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea e seguem atentos \u00e0s demandas apresentadas\u201d.<\/p>\n<p>O comunicado enfatizou, tamb\u00e9m, que tanto a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, como a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (SNUC), estabelecem a reparti\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias entre Uni\u00e3o, Estados e Munic\u00edpios. \u201cO respeito a esse pacto federativo \u00e9 essencial para a boa governan\u00e7a ambiental, garantindo que cada esfera de governo assuma as responsabilidades que lhe cabem. Assim, a solu\u00e7\u00e3o para os desafios da Resex Estadual Jaci-Paran\u00e1 depende, prioritariamente, da atua\u00e7\u00e3o do Estado de Rond\u00f4nia, respons\u00e1vel legal por sua gest\u00e3o, ainda que o governo federal possa cooperar em iniciativas de apoio e di\u00e1logo\u201d.<\/p>\n<p>Foi reiterado, ainda, o compromisso do MMA e do ICMBio com a prote\u00e7\u00e3o socioambiental da Amaz\u00f4nia e com o fortalecimento do SNUC, \u201catuando de forma cooperativa com estados e munic\u00edpios para garantir a integridade das \u00e1reas protegidas e os direitos das comunidades tradicionais\u201d.<\/p>\n<p>A reportagem tamb\u00e9m entrou em contato com a Sedam, solicitando um posicionamento do \u00f3rg\u00e3o sobre den\u00fancias apresentadas nesta reportagem, al\u00e9m de esclarecimentos sobre a gest\u00e3o da Resex frente \u00e0s invas\u00f5es que v\u00eam ocorrendo historicamente nessa UC e, consequentemente, os problemas socioambientais acarretados. No entanto, at\u00e9 o fechamento desta edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve retorno \u00e0s demandas encaminhadas por e-mail.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperan\u00e7osa na federaliza\u00e7\u00e3o de UC estadual invadida e degradada, testemunha amea\u00e7ada narra o drama de fam\u00edlias extrativistas entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte, seja resistindo ou fugindo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-37347","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-9In","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37349,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37347\/revisions\/37349"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}