{"id":5131,"date":"2016-10-16T21:12:46","date_gmt":"2016-10-17T01:12:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=5131"},"modified":"2016-10-16T21:12:46","modified_gmt":"2016-10-17T01:12:46","slug":"a-historia-so-surpreende-a-quem-de-historia-nada-entende","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/10\/16\/a-historia-so-surpreende-a-quem-de-historia-nada-entende\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria s\u00f3 surpreende a quem de hist\u00f3ria nada entende"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5132\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/10\/16\/a-historia-so-surpreende-a-quem-de-historia-nada-entende\/dodo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/dodo.jpeg?fit=620%2C465\" data-orig-size=\"620,465\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"dodo\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/dodo.jpeg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/dodo.jpeg?fit=600%2C450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/dodo.jpeg?resize=600%2C450\" alt=\"dodo\" width=\"600\" height=\"450\" class=\"alignnone size-full wp-image-5132\" \/><\/p>\n<p>Os anseios populares de transforma\u00e7\u00e3o cooptados pela via eleitoral da domina\u00e7\u00e3o<!--more--><\/p>\n<p>Elei\u00e7\u00f5es se converteram em um verdadeiro mercado em que vence partidos com mais dinheiro, que se utilizam da m\u00e1quina p\u00fablica para campanhas e maior capacidade de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do marketing, processo o qual individualiza o eleitor e oculta \u00e0s formas coletivas presentes na pol\u00edtica.<!--more--><\/p>\n<p>No Le Monde Diplomatique Brasil<br \/>\npor Sandro Barbosa de Oliveira<\/p>\n<p>Que a via eleitoral n\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda para as necessidades populares muitos de n\u00f3s j\u00e1 sabemos h\u00e1 tempos. Mas entender a manifesta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores perif\u00e9ricos nas recentes elei\u00e7\u00f5es \u00e9 o desafio de qualquer meio de comunica\u00e7\u00e3o, coletivo, organiza\u00e7\u00e3o e movimento que se prop\u00f5e a lutar por transforma\u00e7\u00e3o social. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es municipais ocorridas em 2 de outubro a popula\u00e7\u00e3o da periferia de S\u00e3o Paulo deu um recado evidente aos partidos pol\u00edticos e candidatos: 21,84% de absten\u00e7\u00f5es, 11,35% nulos e 5,29% brancos \u2013 cerca de 38,48% n\u00e3o votaram ou se abstiveram de votar em qualquer candidato. A somat\u00f3ria de votos brancos e nulos mais as absten\u00e7\u00f5es totalizaram 3.096.304, superior aos 3.085.187 votos que elegeram o candidato vitorioso nessas elei\u00e7\u00f5es. O que isso significa? A hip\u00f3tese de que quase a metade da popula\u00e7\u00e3o da maior cidade do pa\u00eds est\u00e1 desiludida com o sistema pol\u00edtico vigente e que continua intoc\u00e1vel, sem mudan\u00e7as e reformas necess\u00e1rias exigidas pela popula\u00e7\u00e3o que foi \u00e0s ruas em 2013 em luta por garantias de direitos e participa\u00e7\u00e3o popular nas decis\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Toda sociedade democr\u00e1tica precisa garantir ao conjunto da popula\u00e7\u00e3o inst\u00e2ncia e participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es pol\u00edticas, pois s\u00e3o essas decis\u00f5es que afetam a vida cotidiana das pessoas. No entanto, na democracia burguesa brasileira os limites de participa\u00e7\u00e3o se limitam aos grupos organizados em partido pol\u00edtico, que representam uma parcela pequena da popula\u00e7\u00e3o. Para se ter a dimens\u00e3o dessa forma de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a popula\u00e7\u00e3o estimada da cidade de S\u00e3o Paulo em 2016 \u00e9 de 12.038.175 (milh\u00f5es),[1] o que representa cerca de 5,8% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Por sua vez, os partidos que tiveram maior visibilidade midi\u00e1tica re\u00fanem parcela restrita de filiados entre a popula\u00e7\u00e3o paulistana: o Partido dos Trabalhadores (PT), cujo candidato a reelei\u00e7\u00e3o foi Fernando Haddad, t\u00eam 137.299 filiados na cidade de S\u00e3o Paulo e 462.497 no estado,[2] enquanto o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que venceu as elei\u00e7\u00f5es com Jo\u00e3o D\u00f3ria, t\u00eam 60.074 filiados na cidade e 410.410 no estado. O Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (PMDB), da candidata Marta \u201cex-Suplicy\u201d, t\u00eam 100.327 filiados na cidade e 617.224 no estado, enquanto que o Partido Republicano Brasileiro (PRB), do candidato foi Celso Russomanno, t\u00eam 10.211 filiados na cidade e 72.938 no estado. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que correu por fora com a candidata Luiza Erundina que teve cerca de 10 segundos do tempo de televis\u00e3o na propaganda eleitoral, t\u00eam 6.779 filiados na cidade e 29.885 no estado. Parte dessas candidaturas se articulou por coliga\u00e7\u00f5es com outros partidos, para que tivessem tempo de televis\u00e3o e consolidassem uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as partid\u00e1rias na gest\u00e3o municipal.<\/p>\n<p>Ademais, o que os dados acima informam? Que somados s\u00f3 os filiados desses partidos (sem contar os filiados de outras siglas) se chega a 314.620 pessoas que estariam organizadas em partidos pol\u00edticos na cidade de S\u00e3o Paulo, o que representa cerca de 2,6% da popula\u00e7\u00e3o, parcela muito pequena para dizer que vivemos em uma cidade e numa sociedade democr\u00e1ticas. Por um lado, sabe-se que boa parte das pessoas filiadas n\u00e3o participa ativamente das discuss\u00f5es e inst\u00e2ncias partid\u00e1rias, por outro, existem outras organiza\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas para al\u00e9m dos partidos que tamb\u00e9m influenciam nos rumos da pol\u00edtica partid\u00e1ria e estatal.<\/p>\n<p>Mas por que a popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo n\u00e3o est\u00e1 filiada e participativa nos partidos pol\u00edticos? Ao que parece, os 38,48% da popula\u00e7\u00e3o que se manifestou \u201ccontra\u201d as elei\u00e7\u00f5es e as candidaturas est\u00e3o desacreditados e n\u00e3o se reconhecem nessa forma pol\u00edtica de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Por qual motivo? Talvez pelo simples fato de n\u00e3o participarem das decis\u00f5es pol\u00edticas que afetam suas vidas cotidianas, j\u00e1 que sua participa\u00e7\u00e3o efetiva foi reduzida ao mero voto a cada quatro anos e a cada elei\u00e7\u00e3o, e por sentirem que suas reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o ouvidas e\/ou atendidas pelos partidos pol\u00edticos. Mesmo aqueles que participam de partidos tendem a ser cooptados por interesses de pequenos grupos ou tend\u00eancias que disputam posi\u00e7\u00f5es predominantes no interior dessas organiza\u00e7\u00f5es, de modo que tais grupos passam a \u201cdar a linha\u201d pol\u00edtica em favor de seus interesses e de seus aliados, aspecto que tende a afastar as pessoas.<\/p>\n<p>A Constituinte de 1988 acabou de completar 28 anos. Ainda jovem e sem atingir sua fase adulta, foi despojada de seus atributos legais com o recente golpe parlamentar em n\u00edvel federal, que acabou por decretar sua morte precoce em proveito de interesses de grupos econ\u00f4micos alheios aos interesses da popula\u00e7\u00e3o sob o mote de \u201ccombate a corrup\u00e7\u00e3o\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1, a Constitui\u00e7\u00e3o permitiu a cria\u00e7\u00e3o de conselhos municipais, estaduais e federal, promoveu a amplia\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos e a organiza\u00e7\u00e3o da chamada sociedade civil atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es representativas, ap\u00f3s longo processo de reabertura pol\u00edtica e \u201credemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d. Em vez de sociedade civil, entendemos por sociedade de classes as rela\u00e7\u00f5es em que indiv\u00edduos est\u00e3o inseridos mediados por conflitos da divis\u00e3o social do trabalho e da propriedade privada. A forma pol\u00edtica da sociedade de classes e das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 a da organiza\u00e7\u00e3o institucional regulada pela m\u00e1quina do Estado, que faz a media\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho e garante a reprodu\u00e7\u00e3o capitalista por meio da separa\u00e7\u00e3o entre economia e pol\u00edtica. Esta forma pol\u00edtica aprisionou em uma \u201ccamisa de for\u00e7a\u201d os anseios, desejos e possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de outras formas de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de trabalhadores perif\u00e9ricos que contestam a desigualdade e lutam por direitos sociais, pelo simples fato de se limitar ao voto direto de representantes. N\u00e3o por acaso, houve a prolifera\u00e7\u00e3o de in\u00fameros coletivos e movimentos que n\u00e3o se pautam pela via institucional da Constitui\u00e7\u00e3o e buscam ir al\u00e9m dessa forma pol\u00edtica eleitoral que separa quem pensa de quem faz, forma que acaba acarretando um status de privil\u00e9gio para quem participa dela e se reduz aos cargos pol\u00edticos negociados no varejo.[3]<\/p>\n<p>Elei\u00e7\u00f5es se converteram em um verdadeiro mercado em que vence partidos com mais dinheiro, que se utilizam da m\u00e1quina p\u00fablica para campanhas e maior capacidade de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do marketing, processo o qual individualiza o eleitor e oculta \u00e0s formas coletivas presentes na pol\u00edtica. Prova disso foi a vit\u00f3ria de Jo\u00e3o D\u00f3ria na cidade, que se elegeu em primeiro turno com 53,29% dos votos v\u00e1lidos em uma campanha com o discurso de que Jo\u00e3o \u00e9 \u201ctrabalhador\u201d, n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico mas sim gestor, e n\u00e3o precisa do sal\u00e1rio de prefeito porque j\u00e1 \u00e9 rico. Marketing preciso, por\u00e9m enganoso, pois Jo\u00e3o D\u00f3ria \u00e9 de fam\u00edlia rica e abastada, sua atua\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais pol\u00edtica do que administrativa e o sal\u00e1rio de prefeito provavelmente ir\u00e1 para seu partido. Curiosamente, foi o \u00fanico candidato que se utilizou do discurso de que \u201c\u00e9 trabalhador\u201d, ao contr\u00e1rio do PT que focou no discurso de que governou para a cidade (uma abstra\u00e7\u00e3o), o que mostra o mito de que feitos administrativos de realiza\u00e7\u00e3o de obras pesasse na decis\u00e3o do voto. Al\u00e9m do mais, as inten\u00e7\u00f5es de votos em D\u00f3ria deslancharam quando o governador e padrinho pol\u00edtico Geraldo Alckmin (PSDB) entrou na campanha para apoiar seu afilhado. Todos devem lembrar que Alckmin se elegeu tamb\u00e9m em primeiro turno nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, aspecto que mostrou uma for\u00e7a eleitoral ilus\u00f3ria em um contexto de difus\u00e3o sistem\u00e1tica do \u201cantipetismo\u201d e associa\u00e7\u00e3o do PT como \u00fanico partido corrupto no imagin\u00e1rio popular. Para acabar com a corrup\u00e7\u00e3o, bastava acabar com o PT, algo que amoldou a percep\u00e7\u00e3o das camadas populares das quais o petismo havia se distanciado e que sem d\u00favidas se originou entre as classes m\u00e9dias ao qual o partido sempre quis ampliar sua influ\u00eancia, basta ver a pol\u00edtica de Haddad para o centro expandido e Pinheiros. Em contrapartida, o debate sobre as causas da corrup\u00e7\u00e3o no sistema pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 feito, o que parece time de futebol: \u00e9 mais f\u00e1cil culpar o t\u00e9cnico e demiti-lo do que encarar os problemas estruturais que envolve o time e o clube (econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais).<\/p>\n<p>Como disse o soci\u00f3logo Mauro Iasi em artigo sobre as elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil: o PT foi o maior derrotado nessas elei\u00e7\u00f5es.[4] Mas quem ganhou? A m\u00eddia monopolista usou o argumento de que o grande vencedor teria sido o PSDB, mas este partido j\u00e1 estava em segundo lugar no n\u00famero de prefeituras, enquanto que o PMDB permaneceu em primeiro. O PT, que perdeu o terceiro lugar, caiu muito de posi\u00e7\u00e3o, o que mostra seu \u201cdesaparecimento\u201d repentino da pol\u00edtica municipal em n\u00edvel nacional e a mudan\u00e7a do realinhamento eleitoral apontado por Andr\u00e9 Singer.[5] Iasi destacou ainda que o petismo no governo, da mesma forma que nacionalmente, optou por uma governabilidade pelo alto e \u00e0s vezes contra sua base social e sua identidade de esquerda, ao mostrar que Haddad empenhou-se em conseguir acordos com os empres\u00e1rios do transporte, afirmando a necessidade de aumentar as tarifas no momento em que a juventude explodia nas ruas nas jornadas de junho de 2013.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que as intensas manifesta\u00e7\u00f5es de ruas que eclodiram em junho de 2013 anunciaram um novo ciclo de lutas entre for\u00e7as pol\u00edticas por transforma\u00e7\u00e3o social, que talvez tenha terminado com o recente impedimento da presidenta Dilma Rousseff do PT pelo Congresso Nacional conduzido por for\u00e7as conservadoras. Essas lutas foram organizadas inicialmente pelo Movimento do Passe Livre de S\u00e3o Paulo (MPL-SP) contra o aumento das tarifas, ao reunir o ac\u00famulo de revoltas populares que j\u00e1 havia se manifestado recentemente nas cidades brasileiras, se massificar por todo o pa\u00eds e reintroduzir na pauta pol\u00edtica o direito \u00e0 cidade a partir do problema dos transportes coletivos e p\u00fablicos. Essas lutas contribu\u00edram para \u201cdesvelar o v\u00e9u\u201d que encobria a m\u00e1quina de lucro das empresas de transportes coletivos, permitindo repensar as formas de gest\u00e3o nas cidades[6] e exigindo participa\u00e7\u00e3o popular na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas. No entanto, \u201cnovos personagens\u201d entraram em cena nas ruas: uma nova gera\u00e7\u00e3o de pessoas que \u201cnunca\u201d havia participado de manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas foi para as ruas e que, de certo modo, foi influenciada por for\u00e7as conservadoras que modificaram o conte\u00fado das manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 de luta pelo direito \u00e0 cidade e revolta contra o aumento da tarifa passou-se a predominar a pauta da \u201canticorrup\u00e7\u00e3o\u201d. Como se viu, a direita organizada em camadas m\u00e9dias da pequena burguesia e da classe m\u00e9dia saiu de casa pela porta da esquerda[7] e direcionou, com o apoio da m\u00eddia monopolista, os rumos desse movimento ao impedimento de Dilma em 2016 ap\u00f3s perceber, junto \u00e0s fra\u00e7\u00f5es burguesas, que o PT n\u00e3o conseguia conter mais as lutas populares em sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>Entre junho de 2013 e o impedimento de Dilma houve um processo de muitas lutas dos Comit\u00eas Populares sobre a Copa do Mundo at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e de governos estaduais de 2014. O que aconteceu? O Tribunal Superior Eleitoral fez intensa campanha sob o lema \u201cvem pra urna\u201d, convocando a juventude para o voto. Qual foi o problema dessa campanha? Descaracterizar e desestimular a juventude rebelde de que a luta nas ruas era o caminho, j\u00e1 que o lema do MPL foi \u201cvem pra rua vem, contra o aumento\u201d. As for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda, que estiveram nas ruas, &#8220;deixaram&#8221; o palco pol\u00edtico ap\u00f3s o anuncio da revoga\u00e7\u00e3o do aumento e o fim da Copa e deram espa\u00e7o para as for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras em continuar seu pleito: a pauta da anticorrup\u00e7\u00e3o, que tem sido tratada com reducionismo, sensacionalismo e despolitiza\u00e7\u00e3o, ganhou for\u00e7a e ficou difusa entre as diversas camadas da popula\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada por \u201cnovos\u201d agentes como o Movimento Brasil Livre (MBL)[8] e o movimento \u201cVem pra rua\u201d, que em seu oportunismo liberal-conservador refor\u00e7aram o \u00f3dio ao PT e as ilus\u00f5es meritocr\u00e1ticas ao defenderem o neoliberalismo, se empoderando \u00e0s avessas da sigla e do mote do MPL.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s vit\u00f3ria eleitoral acirrada de Dilma com o discurso de ricos versus pobres sabia-se das dificuldades de seu segundo mandato, devido ao fato de ter sido eleita para a C\u00e2mara e o Senado a maior ala conservadora das \u00faltimas d\u00e9cadas. O que n\u00e3o se sabia \u00e9 que as for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras, aquelas que querem preservar privil\u00e9gios de acesso aos recursos do Estado e mant\u00ea-los direcionados para seus interesses de classes, iriam jogar pesado e articular um golpe parlamentar que derrubou a presidenta. Ao n\u00e3o aceitarem a derrota nas urnas, os partidos de oposi\u00e7\u00e3o ao governo n\u00e3o deixaram Dilma governar. Cabe destacar que a m\u00e1quina do Estado pol\u00edtico \u00e9 constitu\u00edda por tr\u00eas poderes que se sup\u00f5em independentes: executivo (governo), legislativo (parlamento) e judici\u00e1rio (ju\u00edzes e ministros), por isso, a presidenta n\u00e3o governa sozinha, como nenhuma pessoa governa sozinha sua casa, empresa ou institui\u00e7\u00e3o. Com efeito, a ingovernabilidade do executivo agravou a crise econ\u00f4mica, o que se desdobrou em inevit\u00e1vel crise pol\u00edtica e institucional nas manifesta\u00e7\u00f5es massivas de ruas pelo impeachment de Dilma em 2015 e meados de 2016, convocados pelo MBL e Vem pra rua, com inteira ades\u00e3o e apoio da m\u00eddia monopolista que transmitia ao vivo as manifesta\u00e7\u00f5es aos domingos (alterando at\u00e9 hor\u00e1rio de partidas de futebol). Houve tamb\u00e9m manifesta\u00e7\u00f5es de movimentos da Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo em defesa do governo e do mandato de Dilma.<\/p>\n<p>A crise pol\u00edtica, que vem desde 2013 com a revolta da tarifa sob matizes e circunst\u00e2ncias distintas, revelou forte insatisfa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, mas tamb\u00e9m das camadas m\u00e9dias e das classes dominantes. Ser\u00e1 preciso distinguir a insatisfa\u00e7\u00e3o de acordo com cada classe e fra\u00e7\u00e3o de classe para entender a complexidade do processo. Contudo, a insatisfa\u00e7\u00e3o universalizada da classe m\u00e9dia de certa maneira foi canalizada para o PT, num momento de oportunismo dessas for\u00e7as conservadoras entre 2015 e 2016, ainda que for\u00e7as pol\u00edticas tenham se mantido na base do partido. O PT tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel (ainda que menor nessa ciranda pol\u00edtica) por ter acreditado na possibilidade de apaziguar o conflito social e conciliar os interesses de classes. O fim da negocia\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava delineado nas elei\u00e7\u00f5es de 2014 e, ainda assim, Dilma sinalizou ao \u201cmercado financeiro\u201d, com a nomea\u00e7\u00e3o do ministro Joaquim Levy, que continuaria o governo de perspectiva monet\u00e1ria com aumento dos juros (para \u201catrair\u201d investimentos), cortes de gastos do Estado e manuten\u00e7\u00e3o dos programas sociais. Talvez Dilma gostasse de ser encarada como benfeitora de todas as classes, mas, como nos ensinou Marx em O dezoito de Brum\u00e1rio, n\u00e3o se pode dar a uma classe sem tirar de outra.<\/p>\n<p>Para dificultar o avan\u00e7o esperado no processo de consci\u00eancia social dos trabalhadores veio abaixo quando o PT fortaleceu a ideologia individualista atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o de \u201cclasse C\u201d, ao buscar nessa categoria o que seria uma \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d para fundamentar o que foi o lema da gest\u00e3o de Dilma: \u201cBrasil, pa\u00eds de classe m\u00e9dia\u201d. Para legitimar as pol\u00edticas eram necess\u00e1rias pesquisas e teorias que consolidassem as mudan\u00e7as no \u00e2mbito da consci\u00eancia popular. Por isso, nesse per\u00edodo foram difundidas an\u00e1lises emp\u00edricas que estabeleceram \u201cnovas\u201d denomina\u00e7\u00f5es de \u201cclasses\u201d vinculadas a teoria da estratifica\u00e7\u00e3o social, no\u00e7\u00f5es que passaram a fazer parte do imagin\u00e1rio popular. Marcelo Neri[9] da FGV, um dos respons\u00e1veis por essas pesquisas, mostrou as mudan\u00e7as em uma d\u00e9cada ao indicar que a renda dos mais pobres teria aumentado 68% e dos mais ricos em 10%. Segundo sua pesquisa, desde 2003, o pa\u00eds teria ganhado quase 50 milh\u00f5es de consumidores, o que equivale ao contingente populacional da Espanha. Para Neri, somente em 2009 13,1 milh\u00f5es de brasileiros teriam sido incorporados \u00e0s chamadas classes A, B e C. \u00c9 ineg\u00e1vel a import\u00e2ncia de redu\u00e7\u00e3o da pobreza e a sa\u00edda de cerca de 36 milh\u00f5es de pessoas da condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. Contudo, muitos desses trabalhadores passaram a acessar celulares, televisores Led, micro-ondas, mas continuaram a viver em um barraco na favela. Disto, passou-se a predominar uma percep\u00e7\u00e3o de estratifica\u00e7\u00e3o por renda e consumo que individualiza o trabalhador pela ocupa\u00e7\u00e3o e faixa salarial e cujo objetivo era integr\u00e1-los \u00e0 classe m\u00e9dia, ao passo que as rela\u00e7\u00f5es de classes \u2013 de que a exist\u00eancia de uma se vincula \u00e0 outra \u2013foram jogadas para os bastidores, j\u00e1 que o lulismo havia encontrado um ponto de fuga para a luta de classes sob o modelo de diminui\u00e7\u00e3o da pobreza com manuten\u00e7\u00e3o da ordem por meio de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d e reformismo fraco, que ajudou a criar um ambiente ideol\u00f3gico em que direita e esquerda foram reduzidas \u201ca vozes de fundo\u201d (Singer).<\/p>\n<p>Como disse certa vez o soci\u00f3logo Jos\u00e9 Chasin: \u201cA hist\u00f3ria s\u00f3 surpreende a quem de hist\u00f3ria nada entende\u201d. Por isso, o golpe parlamentar foi a consequ\u00eancia l\u00f3gica das amea\u00e7as da burguesia monopolista (industrial, banc\u00e1ria, agr\u00e1ria e comercial), cujas fra\u00e7\u00f5es tem liga\u00e7\u00f5es com o imperialismo, e da pequena-burguesia e suas fra\u00e7\u00f5es e camadas m\u00e9dias, com apoio de alguns trabalhadores de n\u00edvel m\u00e9dio e profissionais liberais que defendem desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e redu\u00e7\u00e3o dos direitos sociais. O setor banc\u00e1rio, que lucrou no 1\u00ba semestre de 2016 cerca de R$ 30 bilh\u00f5es, est\u00e1 vinculado ao capital monopolista e ao imperialismo na defesa da abertura comercial e financeira (privatiza\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal e desobriga\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s), o que mostra os retrocessos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas sociais sob a apar\u00eancia de um projeto de ajuste fiscal que vai mutilar e reduzir os direitos em nome de uma suposta responsabilidade fiscal. Cerca de 45% do or\u00e7amento da uni\u00e3o \u00e9 destinado para pagamento da d\u00edvida e juros (t\u00edtulos do tesouro ofertados aos \u201cinvestidores\u201d), o que compromete a capacidade de investimento do Estado nas pol\u00edticas estrat\u00e9gicas e sociais para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, o desastre para os trabalhadores est\u00e1 anunciado com o desgoverno Temer e o Congresso conservador que lhe sustenta: retirada de direitos trabalhista; reforma na educa\u00e7\u00e3o sem dialogar com pais, alunos e comunidade; privatiza\u00e7\u00e3o paulatina do Sistema \u00danico de Sa\u00fade; medidas que retirar\u00e3o direitos hist\u00f3ricos dos trabalhadores. Com o golpe parlamentar que empossou Temer e as elei\u00e7\u00f5es municipais, sobretudo, em S\u00e3o Paulo, com um empres\u00e1rio eleito que pretende privatizar at\u00e9 parques p\u00fablicos, vemos como o sistema pol\u00edtico da m\u00e1quina Estatal \u00e9 antidemocr\u00e1tico e exerce o papel de domina\u00e7\u00e3o sobre as classes subalternas que estar\u00e3o condenadas \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o e pauperiza\u00e7\u00e3o permanente do trabalho, a ter que pagar pela crise e por educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade para sustentar as classes dominantes, seus lucros e ganhos nos neg\u00f3cios da cidade. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel dizer adeus ao per\u00edodo democr\u00e1tico (burgu\u00eas, se \u00e9 que existiu) com o capital monopolista e financeiro a frente do Estado que desvelou seu conte\u00fado capitalista de domina\u00e7\u00e3o. A democracia se revelou como farsa e forma aparente das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, daqui para frente, repress\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o ser\u00e3o a t\u00f4nica dos conflitos que se iniciam no novo ciclo de lutas sociais.<\/p>\n<p>Para finalizar, tal como sintetizou o soci\u00f3logo Maur\u00edcio Tragtenberg:[10] o cidad\u00e3o est\u00e1 alienado na esfera do social e do ps\u00edquico pela oculta\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico e do inconsciente, ao passo que h\u00e1 uma tend\u00eancia de regress\u00e3o do pol\u00edtico ao ps\u00edquico que se d\u00e1 quando a luta de classes n\u00e3o pode se aprofundar na sociedade. Vivemos o tempo da psicologiza\u00e7\u00e3o do social nas a\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos atomizados pela ideologia liberal e de oculta\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico que desvele o ser social. Entretanto, em movimento inverso ao dominante e diante de suas contradi\u00e7\u00f5es, esperamos que os trabalhadores percam em breve a paci\u00eancia com o desmonte do que restou dos direitos sociais do Estado capitalista burgu\u00eas e passem a agir como classe em defesa de suas necessidades e seus interesses materiais para sua exist\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o social. Para isso, ser\u00e1 necess\u00e1rio a recria\u00e7\u00e3o da esquerda numa perspectiva de fazer com os trabalhadores e estar presente em seu cotidiano de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida social.<\/p>\n<p>Sandro Barbosa de Oliveira<\/p>\n<p>Sandro Barbosa de Oliveira \u00e9 cientista social, educador popular e professor. Mestre em Ci\u00eancias Sociais pela UNIFESP e doutorando em Sociologia pela UNICAMP, com gradua\u00e7\u00e3o e bacharelado em Ci\u00eancias Sociais pela Funda\u00e7\u00e3o Santo Andr\u00e9. Participa do Grupo de Pesquisa Trabalho e Marxismo e do Grupo LACAM da UNICAMP. Participou do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho da UNIFESP. \u00c9 associado e cientista social da Usina CTAH<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os anseios populares de transforma\u00e7\u00e3o cooptados pela via eleitoral da domina\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-1kL","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5131"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5131\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5133,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5131\/revisions\/5133"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}