{"id":5375,"date":"2016-10-26T09:27:44","date_gmt":"2016-10-26T13:27:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=5375"},"modified":"2016-10-26T09:27:44","modified_gmt":"2016-10-26T13:27:44","slug":"carta-capital-vamos-falar-sobre-genero","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/10\/26\/carta-capital-vamos-falar-sobre-genero\/","title":{"rendered":"CARTA CAPITAL: Vamos falar sobre g\u00eanero?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"5376\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/10\/26\/carta-capital-vamos-falar-sobre-genero\/milet\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?fit=768%2C512\" data-orig-size=\"768,512\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"milet\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?resize=600%2C400\" alt=\"milet\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-5376\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/milet.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/>CARTA <\/p>\n<p>Por Joana Burrigo<\/p>\n<p>Est\u00e1 ficando cada vez mais dif\u00edcil falar sobre g\u00eanero sem que o debate descambe para a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nesta semana mesmo foi divulgada uma grava\u00e7\u00e3o (autorizada) de um professor do curso de Direito da Universidade Federal de Rond\u00f4nia (UNIR), na qual ele afirma que \u201cesse neg\u00f3cio de g\u00eanero \u00e9 PT, meu bem, \u00e9 PT quem inventou isso\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>G\u00eanero \u00e9 um conceito relativamente novo no discurso popular, mas estudos sobre o tema existem desde pelo menos a d\u00e9cada de 1950 \u2013 e, sinto informar, n\u00e3o surgiram no Brasil, muito menos por iniciativa do PT.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de demandas por pol\u00edticas p\u00fablicas referentes a quest\u00f5es de g\u00eanero independe de quem est\u00e1 no poder. \u00c9 assombroso que um docente de um curso de tamanha influ\u00eancia social profira uma barbaridade como essa. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3: a palavra g\u00eanero anda cerceada por obscurantismo e discursos de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o toma tons tragic\u00f4micos, como no caso do candidato \u00e0 prefeitura de S\u00e3o Bernardo do Campo, que acusou seu oponente (um tucano!) de estar ligado a \u201ccomunistas que querem a ideologia de g\u00eanero nas escolas\u201d. O pastiche aumenta: o candidato que fez a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 membro de um partido de origem socialista.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar sobre g\u00eanero quando a conversa \u00e9 interrompida por uma falta de clareza acerca de outros conceitos pol\u00edticos, o que tende a estimular simplifica\u00e7\u00f5es selvagens e a aglutina\u00e7\u00e3o acr\u00edtica de signos distintos sob um mesmo significado.<\/p>\n<p>E se s\u00e3o c\u00f4micos por serem mal informados, esses reducionismos acabam por ser realmente tr\u00e1gicos: quando significados ficam fixos, dialogar com quem deles n\u00e3o abre m\u00e3o torna-se uma miss\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Para muita gente g\u00eanero, esquerda, PT e comunismo s\u00e3o tudo a mesma coisa. \u00c9 evidente que n\u00e3o s\u00e3o, tanto que chega a parecer redundante listar as diferen\u00e7as. Mas sem fazer isso, como sequer come\u00e7ar a dialogar com quem n\u00e3o est\u00e1 disposto a assimilar que \u201cquerer ideologia de g\u00eanero na escola\u201d \u00e9 uma frase inteiramente falaciosa?<\/p>\n<p>A parcela da popula\u00e7\u00e3o que se prop\u00f5e a estimular a inser\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre g\u00eanero nas escolas tamb\u00e9m n\u00e3o quer ideologia de g\u00eanero nas escolas.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito de discutir g\u00eanero nas escolas \u00e9 justamente para que n\u00e3o haja imposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, na escola, acerca de g\u00eanero. Discutir g\u00eanero na escola, bem como no trabalho, em Hollywood, na fam\u00edlia, no mundo dos neg\u00f3cios, na Hist\u00f3ria, enfim, em geral, \u00e9 discutir as formas com que g\u00eanero pauta nossas vidas sociais.<\/p>\n<p>G\u00eanero \u00e9 um elemento importante para o nosso entendimento acerca de n\u00f3s mesmos e dos outros, por isso discutir g\u00eanero n\u00e3o deveria ser algo amedrontador. Visto que existimos em um sistema codificado por g\u00eanero, \u00e9 de interesse geral que se compreenda esta faceta da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>N\u00e3o falar sobre g\u00eanero n\u00e3o impede a exist\u00eancia de quest\u00f5es de g\u00eanero na sociedade. \u00c9 impedir que se fale sobre g\u00eanero o que nega, apaga ou camufla a exist\u00eancia de quest\u00f5es de g\u00eanero na sociedade. Discutir g\u00eanero n\u00e3o oferece risco \u00e0 dignidade humana, tampouco \u00e9 um ataque pessoal a ningu\u00e9m. Mas n\u00e3o discutir g\u00eanero acoberta viol\u00eancias que s\u00e3o cometidas por conta de g\u00eanero.<\/p>\n<p>N\u00e3o falar sobre g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o falar sobre cultura do estupro e sobre o fato de sermos o pa\u00eds que mais mata popula\u00e7\u00e3o LGBTQI. N\u00e3o falar sobre g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o falar sobre meninas que morrem ao nascer por serem identificadas como meninas. N\u00e3o falar sobre g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o falar sobre feminic\u00eddio, \u00e9 n\u00e3o falar sobre todas as meninas e mulheres cujos corpos s\u00e3o marcados por viol\u00eancia, \u00e9 n\u00e3o falar sobre a viol\u00eancia simb\u00f3lica dos padr\u00f5es de feminilidade e beleza, que chegam a resultar em autoflagelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o falar sobre g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o falar sobre pessoas cuja exist\u00eancia e dignidade est\u00e3o em risco por causa de g\u00eanero. N\u00e3o \u00e9 natural que estejamos em risco por causa de g\u00eanero. \u00c9 cultural. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que mulheres n\u00e3o femininas, que mulheres trans, que homens trans e que mulheres l\u00e9sbicas estejam em risco porque suas exist\u00eancias n\u00e3o se adequam um ide\u00e1rio de feminino.<\/p>\n<p>De onde vem esse risco? Onde est\u00e1 a amea\u00e7a? Na exist\u00eancia feminina ou n\u00e3o feminina destas pessoas? Ou nos efeitos que a feminilidade ou sua aus\u00eancia t\u00eam sobre um outro, que reage com viol\u00eancia? N\u00e3o falar sobre g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o falar sobre estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Falar sobre g\u00eanero n\u00e3o revela um desejo secreto de impor pr\u00e1ticas de tratamento que sejam pautadas no g\u00eanero das pessoas. Isso a sociedade j\u00e1 faz muito bem, afinal \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 senso comum que \u201cmenino n\u00e3o chora\u201d e \u201ctoda mulher ama flores\u201d? Sabemos que meninos choram, e que h\u00e1 mulheres que detestam flores.<\/p>\n<p>Falar sobre g\u00eanero \u00e9 interromper o senso comum quando ele n\u00e3o faz sentido, ou pior: quando ele oprime. Falar sobre g\u00eanero \u00e9 estimular o debate sobre as formas como suas normas e padr\u00f5es r\u00edgidos s\u00e3o causa e efeito de viol\u00eancias estruturais.<\/p>\n<p>Dialogar \u00e9 o oposto da imposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, e discutir g\u00eanero n\u00e3o significa prescrever comportamentos, mas sim libertar pessoas das prescri\u00e7\u00f5es de g\u00eanero para que sua exist\u00eancia n\u00e3o seja determinada por elas.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que, se tomarmos como correta, natural e intranspon\u00edvel apenas uma narrativa poss\u00edvel a respeito de papeis de g\u00eanero na sociedade, haver\u00e1 resist\u00eancia para entender outras sugest\u00f5es neste sentido.<\/p>\n<p>Mas esta resist\u00eancia \u00e9 isso: uma resist\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 porque uma forma de existir \u00e9 normal que ela deve ser a \u00fanica forma de viver. Falar sobre g\u00eanero \u00e9 questionar o que \u00e9 normal: \u00e9 perceber o normal como normativo, e n\u00e3o como algo natural, quem dir\u00e1 superior ou correto.<\/p>\n<p>Falar sobre g\u00eanero, fundamentalmente, \u00e9 respeitar a exist\u00eancia das pessoas, e lutar por sua dignidade. N\u00e3o falar sobre g\u00eanero estimula o faz-de-conta que insiste que pessoas n\u00e3o sofrem viol\u00eancias (ou ainda, que n\u00e3o s\u00e3o sumariamente executadas) por conta de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Impedir que se fale sobre g\u00eanero n\u00e3o impede a exist\u00eancia de quest\u00f5es de g\u00eanero. O que ent\u00e3o est\u00e1 por tr\u00e1s do desejo e do esfor\u00e7o para que n\u00e3o se fale sobre isso?<\/p>\n<p>Dizem que somente resolvemos um problema quando o identificamos. J\u00e1 identificamos os mecanismos da viol\u00eancia de g\u00eanero. Debater g\u00eanero \u00e9 uma das formas de lutar contra essa viol\u00eancia. Exigir que n\u00e3o se fale sobre g\u00eanero \u00e9, portanto, uma tentativa de silenciar quem sofre por conta de g\u00eanero. Vamos falar sobre g\u00eanero!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTA Por Joana Burrigo Est\u00e1 ficando cada vez mais dif\u00edcil falar sobre g\u00eanero sem que o debate descambe para a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. 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