{"id":7536,"date":"2017-01-09T12:18:33","date_gmt":"2017-01-09T16:18:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=7536"},"modified":"2017-01-09T12:21:21","modified_gmt":"2017-01-09T16:21:21","slug":"cuidado-tem-prefeito-que-se-esforca-pra-parecer-com-doria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/01\/09\/cuidado-tem-prefeito-que-se-esforca-pra-parecer-com-doria\/","title":{"rendered":"Cuidado, tem prefeito que se esfor\u00e7a pra parecer com Doria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"7537\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/01\/09\/cuidado-tem-prefeito-que-se-esforca-pra-parecer-com-doria\/dodoria\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?fit=980%2C818\" data-orig-size=\"980,818\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"dodoria\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?fit=300%2C250\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?fit=600%2C501\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?resize=600%2C501\" alt=\"dodoria\" width=\"600\" height=\"501\" class=\"alignnone size-full wp-image-7537\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?w=980 980w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?resize=300%2C250 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?resize=768%2C641 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/dodoria.jpg?resize=359%2C300 359w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Doria Gray e as leis do poder<\/p>\n<p>Como compreender o novo prefeito de S\u00e3o Paulo a partir do seu livro de cabeceira<!--more--><\/p>\n<p>ELIANE BRUM<\/p>\n<p>Fa\u00e7a os outros trabalharem por voc\u00ea, mas sempre fique com o cr\u00e9dito. Use a sabedoria, o conhecimento e o esfor\u00e7o f\u00edsico dos outros em causa pr\u00f3pria. N\u00e3o s\u00f3 essa ajuda lhe economizara\u0301 um tempo e uma energia valiosos, como lhe dar\u00e1 uma aura divina de efici\u00eancia e rapidez. No final, seus ajudantes ser\u00e3o esquecidos e voc\u00ea ser\u00e1 lembrado. N\u00e3o fa\u00e7a voc\u00ea mesmo o que os outros podem fazer por voc\u00ea.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a Lei 7 de um livro que se tornou obrigat\u00f3rio para compreender o novo prefeito de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria(PSDB). H\u00e1 mais 47 mandamentos desta estirpe. A leitura pode ajudar seus eleitores a entender o homem a quem deram o poder de comandar a maior cidade do Brasil e a popula\u00e7\u00e3o a compreender esse tipo ascendente de pol\u00edtico \u2013 e ascendente n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo, como a vit\u00f3ria de Donald Trump demonstrou \u2013 que se anuncia como n\u00e3o pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Em seu discurso de posse, em 1 de janeiro, Doria dirigiu-se a seu padrinho, Geraldo Alckmin (PSDB), e citou a lei 28: \u201cE finalizo, governador, citando uma frase de Robert Greene, que escreveu, o senhor que gosta de boas cita\u00e7\u00f5es, As 48 Leis do Poder. Disse Green: \u2018Sejamos ousados, qualquer erro cometido com ousadia \u00e9 facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram os corajosos. Ningu\u00e9m louva os covardes\u2019\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 comum pol\u00edticos citarem frases e autores ao tomar posse de seus cargos p\u00fablicos. Sempre d\u00e1 \u201cum lustro\u201d. Mas como escolher, entre toda a literatura mundial de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, o conhecimento impresso atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, qual \u00e9 o livro e o autor que merecem ser eleitos tanto para representar a apoteose pessoal de cada um como para ilustrar o momento hist\u00f3rico diante das c\u00e2meras?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso admirar muito autor e livro, tanto por acreditar que cit\u00e1-los vai agregar valor a si mesmo como porque estar\u00e1 se juntando a eles em discurso que, bom ou ruim, \u00e9 de imediato registrado na hist\u00f3ria. Assim, a maioria prefere optar por obras e autores j\u00e1 consagrados pela fortuna cr\u00edtica, podendo citar um fil\u00f3sofo como S\u00eaneca ou um escritor como Guimar\u00e3es Rosa. Mas como Doria, \u201co ousado\u201d, ousa, \u201cporque todos admiram os corajosos\u201d, arriscou-se a Robert Greene.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que significativa a escolha de Doria, que pelo seu comportamento parece acreditar ser uma vers\u00e3o atual de \u201cPr\u00edncipe\u201d, de citar um autor que j\u00e1 foi chamado de \u201co novo Maquiavel\u201d, assim como um best-seller internacional. E tamb\u00e9m \u00e9 significativo que o fa\u00e7a olhando para seu padrinho, o governador Geraldo Alckmin que, como diz o afilhado, \u201cgosta de boas cita\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Vejamos as \u201cboas cita\u00e7\u00f5es\u201d do livro indicado pelo novo prefeito de S\u00e3o Paulo. A Lei 12, por exemplo: \u201cUm gesto sincero e honesto encobrira\u0301 dezenas de outros desonestos. Ate\u0301 as pessoas mais desconfiadas baixam a guarda diante de atitudes francas e generosas. (&#8230;) Uma vez que a sua honestidade seletiva as desarma, voc\u00ea pode engan\u00e1-las e manipul\u00e1-las a\u0300 vontade\u201d.<\/p>\n<p>Ou a Lei 27: \u201cJogue com a necessidade que as pessoas t\u00eam de acreditar em alguma coisa para criar um s\u00e9quito de devotos. As pessoas t\u00eam um desejo enorme de acreditar em alguma coisa. Torne-se o foco desse desejo oferecendo a elas uma causa, uma nova fe\u0301 para seguir. Use palavras vazias de sentido, mas cheias de promessas (&#8230;) De\u0302 aos seus novos disc\u00edpulos rituais a serem cumpridos, pe\u00e7a-lhes que se sacrifiquem por voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Ou ainda a Lei 17: \u201cMantenha os outros em um estado latente de terror. Cultive uma atmosfera de imprevisibilidade. Os homens s\u00e3o criaturas de h\u00e1bitos, com uma necessidade insaci\u00e1vel de ver familiaridade nos atos alheios. A sua previsibilidade lhes d\u00e1 um senso de controle. Vire a mesa: seja deliberadamente imprevis\u00edvel. O comportamento que parece incoerente ou absurdo os manter\u00e1 desorientados, e eles v\u00e3o ficar exaustos tentando explicar seus movimentos. Levada ao extremo, esta estrat\u00e9gia pode intimidar e aterrorizar\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pense que Robert Greene e suas 48 leis dos poder s\u00e3o apenas uma reciclagem mal ajambrada de cl\u00e1ssicos do ramo, como o O Pr\u00edncipe, de Nicolau Maquiavel (1649-1527), ou A Arte da Guerra, de Sun Tzu (s\u00e9c IV a.C). O livro, lan\u00e7ado em 1998, \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de tudo o que prega. A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 vistosa \u2013 no Brasil, ele saiu pela Rocco, com a palavra \u201cPoder\u201d escrita em dourado na capa. E permite v\u00e1rias entradas para a leitura. <\/p>\n<p>Os textos s\u00e3o curtos, a estrutura \u00e9 clara, o alinhamento \u00e9 arejado e o uso de duas cores destaca a organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCada cap\u00edtulo apresenta o enunciado da lei, seguido pelo resumo da lei, sob o t\u00edtulo \u201cjulgamento\u201d. E ent\u00e3o \u201ca lei observada\u201d e\/ou \u201ca lei transgredida\u201d, com hist\u00f3rias saborosas de personagens hist\u00f3ricos t\u00e3o d\u00edspares quanto Galileu e Mata Hari \u2013 e a sua interpreta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio preocupar-se com reflex\u00f5es pr\u00f3prias: as laterais, onde muita gente costuma fazer anota\u00e7\u00f5es a l\u00e1pis no caso de livros impressos, j\u00e1 est\u00e3o ocupadas com prov\u00e9rbios e cita\u00e7\u00f5es sobre o tema. <\/p>\n<p>Em seguida, v\u00eam \u201cas chaves do poder\u201d, uma an\u00e1lise da lei e sua pot\u00eancia. Por fim, \u201co inverso\u201d, um curto t\u00f3pico que protege o autor de qualquer problema que o leitor possa vir a ter ao seguir aquele mandamento. Afinal, pode haver momentos em que a melhor escolha \u00e9 fazer exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A Lei 6, por exemplo, determina: \u201cChame aten\u00e7\u00e3o a qualquer pre\u00e7o. Julga-se tudo pelas apar\u00eancias; o que n\u00e3o se v\u00ea n\u00e3o conta. N\u00e3o fique perdido no meio da multid\u00e3o, portanto, ou mergulhado no esquecimento. Destaque-se. Fique vis\u00edvel a qualquer pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Inspirado por ela, seria poss\u00edvel criar uma par\u00e1bola num pa\u00eds de fic\u00e7\u00e3o: \u201cO mandat\u00e1rio de uma cidade bem grande quer ser visto todo dia e o dia inteiro, porque planeja alcan\u00e7ar cargos ainda mais elevados, \u00e0 altura do Pr\u00edncipe que acredita ser, e ocupar pal\u00e1cios ainda mais grandiosos. Como j\u00e1 seguiu a Lei 29, que manda planejar cada passo e antecipar todos os reveses e obst\u00e1culos para que outros n\u00e3o fiquem com os louros no seu lugar, este mandat\u00e1rio sabe que ficar labutando entre quatro paredes n\u00e3o rende nenhuma imagem. Sem contar as instala\u00e7\u00f5es francamente aqu\u00e9m de sua pessoa em compara\u00e7\u00e3o com seu pr\u00f3prio castelo, um dos dez maiores da cidade t\u00e3o desigual, que j\u00e1 conseguiu erguer seguindo com prodigioso afinco todas as 48 leis.<\/p>\n<p>Assim, este mandat\u00e1rio convoca os narradores e promove pelo menos um espet\u00e1culo por dia, quando n\u00e3o por hora. Como ele j\u00e1 convive com os ricos e os poderosos, os bar\u00f5es e os bispos, com a desenvoltura de um peixe dourado num aqu\u00e1rio de cristal blindado, ele aposta em aparecer ao lado dos \u2018humildes\u2019 e dos \u2018simples\u2019, porque \u00e9 desta massa pobre e cinzenta que vem a vit\u00f3ria nas urnas. <\/p>\n<p>Algo r\u00e1pido, como postar-se junto a trabalhadores que ganham sal\u00e1rio de fome para trilhar quil\u00f4metros di\u00e1rios limpando o lixo das ruas da vasta cidade. E ent\u00e3o, duas vassouradas e 10 segundos que depois se transformam em horas e horas de repeti\u00e7\u00f5es nas telas de todos os tamanhos. Algo capaz de garantir uma imagem-s\u00edmbolo, mas sem contamin\u00e1-lo, afinal a Lei 10 alerta: \u2018A mis\u00e9ria alheia pode matar voc\u00ea (&#8230;) Associe-se aos felizes e afortunados\u2019. Este mandat\u00e1rio cerca-se ainda de alguns expoentes de outros reinos porque, enquanto n\u00e3o puder esmag\u00e1-los, eles n\u00e3o s\u00f3 lhe agregam valor como s\u00e3o neutralizados. Em especial se forem inimigos, j\u00e1 que a Lei 2 \u00e9 taxativa: &#8216;N\u00e3o confie demais nos amigos, aprenda a usar os inimigos\u201d. Sem contar a imagem de conciliador que vai consolidando em sua escalada do poder&#8217;.<\/p>\n<p>Esta par\u00e1bola poderia integrar uma nova edi\u00e7\u00e3o de As 48 Leis do Poder. Cada mandamento do livro \u00e9 ilustrado com curtos epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, como nos antigos almanaques, e at\u00e9 mesmo com f\u00e1bulas como as de Esopo e prov\u00e9rbios sufis. Parece haver sempre um prov\u00e9rbio sufi neste tipo de livro, ali\u00e1s. O escritor best-seller convoca pensadores de todas as \u00e9pocas hist\u00f3ricas para trabalhar para ele e deix\u00e1-lo rico.<\/p>\n<p>Robert Greene conhece profundamente o seu p\u00fablico. H\u00e1 personagens famosos, que frequentam o imagin\u00e1rio coletivo. Estes servem para que o leitor n\u00e3o se sinta burro. Ao deparar-se com um nome que conhece, o leitor j\u00e1 entra na obra sentindo-se um iniciado. E, portanto, com muito mais boa vontade. Ao mesmo tempo, qualquer prurido que possa ter diante da podrid\u00e3o exalada pelo mandamento \u00e9 anulado pela rela\u00e7\u00e3o manipulada com grandes nomes da hist\u00f3ria. Logo, o seguidor passa a acreditar que ele e Napole\u00e3o s\u00e3o almas g\u00eameas separadas apenas por oceanos de tempo.<\/p>\n<p>Mas Greene tem o cuidado de selecionar tamb\u00e9m epis\u00f3dios mais obscuros, assim como autores menos conhecidos do grande p\u00fablico. Afinal, ele precisa mostrar que trabalhou um pouco e que se difere dos numerosos concorrentes no g\u00eanero autoajuda para d\u00e9spotas. E seu leitor precisa sentir que est\u00e1 aprendendo algo. Desta maneira, ao encontrar um nome como Baltasar Graci\u00e1n (1601-1658), os seguidores de seus mandamentos t\u00eam a impress\u00e3o de que est\u00e3o ganhando uma certa erudi\u00e7\u00e3o. Tudo isso com textos curtos, que n\u00e3o exigem esfor\u00e7o e podem ser lidos salteados.<\/p>\n<p>O livro citado pelo prefeito de uma das maiores cidades do mundo j\u00e1 foi definido como a \u201cB\u00edblia dos Psicopatas\u201d. Mas, quando lhe acusam de estar promovendo o pior, Robert Greene se limita a dizer: \u201cEu n\u00e3o sou mau, sou apenas realista\u201d. Logo, quem o critica \u00e9 um tolo, porque n\u00e3o percebe o mundo real \u2013 ou um dissimulado, porque finge n\u00e3o perceb\u00ea-lo. Ser escroto, neste caso, \u00e9 convertido num ato de honestidade. Ainda que as pessoas n\u00e3o precisem ficar sabendo, como alerta a Lei 3: \u201cEnvolva-as em bastante fuma\u00e7a e, quando elas perceberem as suas inten\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 tarde demais\u201d.<\/p>\n<p>Logo no pref\u00e1cio, o grande compilador j\u00e1 se antecipa e procura bloquear qualquer ataque que possa receber. Investe v\u00e1rios par\u00e1grafos para reduzir todas as pessoas que possam considerar as 48 leis um exemplo de cinismo e corros\u00e3o \u00e9tica a manipuladores piores e ainda mais furtivos. Robert Greene explica ao leitor que hoje o mundo se assemelha muito \u00e0 antiga corte aristocr\u00e1tica: \u201cTudo deve parecer civilizado, decente, democr\u00e1tico e justo. Mas, se obedecermos com muita rigidez a estas regras, (&#8230;) somos esmagados pelos que est\u00e3o ao nosso redor e n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o tolos\u201d.<\/p>\n<p>E, em seguida: \u201cPor fora voc\u00ea deve aparentar que \u00e9 uma pessoa de escr\u00fapulos, mas, por dentro, a n\u00e3o ser que voc\u00ea seja um tolo, vai aprender logo a fazer o que Napole\u00e3o aconselhava: cal\u00e7ar a sua m\u00e3o de ferro com uma luva de veludo\u201d. E ainda: \u201cA fraude e o disfarce n\u00e3o devem ser vistos como feios e imorais. Todas as intera\u00e7\u00f5es humanas exigem que se trapaceie em muitos n\u00edveis\u201d. E segue: \u201cTreinando para ser dissimulado, voc\u00ea prospera na corte moderna, aparentando ser um modelo de dec\u00eancia enquanto est\u00e1 sendo um consumado manipulador\u201d.<br \/>\nNuma entrevista ao jornal brit\u00e2nico The Guardian, publicada em 2012, Greene alegou que a maioria dos e-mails que recebe s\u00e3o de jovens dizendo que usam seu livro para entender como pessoas manipuladoras agem e aprender a se proteger delas. Mas ele tamb\u00e9m admite que o livro ajuda alguns canalhas a mergulhar no territ\u00f3rio da sociopatia, o que faria com que ele se sentisse mal. Mais importante do que saber se Greene convenientemente se protege na dubiedade, seguindo as leis do seu livro, enquanto segue ganhando dinheiro com suas cartilhas sobre como esmagar pessoas e alcan\u00e7ar o poder, \u00e9 saber o que se passa no nosso vasto quintal. <\/p>\n<p>Ao evocar o livro em sua posse, o que o prefeito de S\u00e3o Paulo diz? E para quem?<br \/>\nDoria galgou uma longa escadaria esfor\u00e7ando-se para ser \u201co cortes\u00e3o perfeito\u201d dos eventos que promovia reunindo os ricos e os poderosos do pa\u00eds. Lembra o cortes\u00e3o da corte contempor\u00e2nea da Lei 24: \u201cO cortes\u00e3o perfeito prospera num mundo onde tudo gira em torno do poder e da habilidade pol\u00edtica. Ele domina a arte da dissimula\u00e7\u00e3o; ele adula, cede aos superiores, e assegura o seu poder sobre os outros da forma mais gentil e dissimulada. Aprenda e aplique as leis da corte e n\u00e3o haver\u00e1 limites para a sua escalada na corte\u201d.<\/p>\n<p>Quando Doria empunhou a vassoura para produzir uma imagem-s\u00edmbolo em sua primeira segunda-feira no comando de S\u00e3o Paulo foi comparado a J\u00e2nio Quadros, o prefeito do \u201cvarre, varre vassourinha, varre, varre a bandalheira\u201d, entre outras pirotecnias. Mas este n\u00e3o \u00e9 o populismo do s\u00e9culo 20. O que se assiste hoje \u00e9 muito, mas muito pior. \u00c9 a pol\u00edtica reduzida ao entretenimento. Cabe \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ocupar o lugar n\u00e3o de cidad\u00e3os, mas de plateia. De claque de audit\u00f3rio. Por isso o verbo \u201cassistir\u201d \u00e9 t\u00e3o exato. A passividade \u00e9 rompida apenas para ser refor\u00e7ada, ao apertar o bot\u00e3o de \u201ccurtir\u201d.<\/p>\n<p>Sobre vassouras e m\u00e3os limpas, a prop\u00f3sito, h\u00e1 um mandamento espec\u00edfico. \u00c9 a Lei 26: \u201cVoc\u00ea deve parecer um modelo de civilidade e efici\u00eancia. Suas m\u00e3os n\u00e3o se sujam com erros e atos desagrad\u00e1veis. Mantenha essa apar\u00eancia impec\u00e1vel fazendo os outros de joguete e bode expiat\u00f3rio para disfar\u00e7ar a sua participa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na sexta-feira (6\/1), duas figuras que costumam ser relacionadas aos direitos humanos, o Padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, e o vereador Eduardo Suplicy (PT), foram reduzidas a jurados de programa de audit\u00f3rio. O show era de Doria, que convocou a imprensa para anunciar que havia conseguido emprego para uma \u00fanica pessoa: o irm\u00e3o do ambulante espancado e morto no metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo no Natal.<br \/>\nPara quem consegue se distanciar do palco e lembrar a trag\u00e9dia real, tanto a da fam\u00edlia do homem assassinado quanto a da corrup\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico em prol do espet\u00e1culo, as imagens produzidas s\u00e3o um show de horrores. Mas a Lei 25 \u00e9 cristalina: \u201cSeja senhor da sua pr\u00f3pria imagem, em vez de deixar que os outros a definam para voc\u00ea. Incorpore artif\u00edcios dram\u00e1ticos aos gestos e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013 seu poder se fortalecera\u0301 e sua personagem parecera\u0301 maior do que a realidade\u201d.<\/p>\n<p>Pode ser complementada ainda pela Lei 37: \u201cImagens surpreendentes e grandes gestos simb\u00f3licos criam uma aura de poder \u2013 todos reagem a eles. Encene espet\u00e1culos para os que o cercam, repletos de elementos visuais interessantes e s\u00edmbolos radiantes que realcem a sua presen\u00e7a. Deslumbrados com as apar\u00eancias, ningu\u00e9m notara\u0301 o que voc\u00ea realmente esta\u0301 fazendo\u201d.<\/p>\n<p>Ao testemunhar Doria arregimentando para seus espet\u00e1culos figuras p\u00fablicas que at\u00e9 pouco tempo o criticavam, quando n\u00e3o empregando-as, \u00e9 inevit\u00e1vel lembrar a Lei 5: \u201c(&#8230;) Aprenda a destruir seus inimigos minando as suas pr\u00f3prias reputa\u00e7\u00f5es. Depois, afaste-se e deixe a opini\u00e3o p\u00fablica acabar com eles\u201d. H\u00e1 ainda a 21: \u201cFa\u00e7a-se de ot\u00e1rio para pegar os ot\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Se Geraldo Alckmin acolher a indica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do afilhado, poder\u00e1 descobrir-se identificado com uma vaca. Diz a Lei 23: \u201cAo procurar fontes de poder para promov\u00ea-lo, descubra um patrono-chave, a vaca cheia de leite que o alimentar\u00e1 durante muito tempo\u201d. Em caso de d\u00favida, a n\u00famero 1 \u00e9 tamb\u00e9m bastante esclarecedora: \u201cN\u00e3o ofusque o brilho do mestre. (&#8230;) Fa\u00e7a com que seus mestres pare\u00e7am mais brilhantes do que s\u00e3o na realidade e voc\u00ea alcan\u00e7ar\u00e1 o \u00e1pice do poder\u201d. Isso, como o autor alerta, apenas at\u00e9 o Mestre tornar-se uma \u201cestrela cadente\u201d. Neste caso, ele aconselha: \u201cN\u00e3o tenha miseric\u00f3rdia\u201d. Mas, enquanto isso n\u00e3o acontece, \u201ca melhor maneira de se proteger \u00e9 ser t\u00e3o fluido e amorfo como a \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Ao encarar o retrato de Doria Gray em todas as telas, com seu sorriso de dentes t\u00e3o brancos, \u00e9 inevit\u00e1vel pensar se h\u00e1 um outro escondido em algum lugar, respirando no escuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doria Gray e as leis do poder Como compreender o novo prefeito de S\u00e3o Paulo a partir do seu livro de cabeceira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-7536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-1Xy","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7536","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7536"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7536\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7541,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7536\/revisions\/7541"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}