{"id":8495,"date":"2017-02-13T13:08:06","date_gmt":"2017-02-13T17:08:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=8495"},"modified":"2017-02-13T13:08:06","modified_gmt":"2017-02-13T17:08:06","slug":"o-frevo-que-se-canta-hoje-no-recife","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/02\/13\/o-frevo-que-se-canta-hoje-no-recife\/","title":{"rendered":"O frevo que se canta hoje no Recife"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"8496\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/02\/13\/o-frevo-que-se-canta-hoje-no-recife\/frevo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?fit=490%2C280\" data-orig-size=\"490,280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"frevo\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?fit=300%2C171\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?fit=490%2C280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?resize=490%2C280\" alt=\"frevo\" width=\"490\" height=\"280\" class=\"alignnone size-full wp-image-8496\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?w=490 490w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frevo.jpg?resize=300%2C171 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/p>\n<p>No 247<br \/>\nPor Urariano Mota<\/p>\n<p>No Marco Zero, tocava uma orquestra afinada, passistas faziam um passo de acrobatas, cercados de gente de muitas idades e lugares. Mas eis que de repente, no azul do c\u00e9u do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1, de Nelson Ferreira. <!--more--><\/p>\n<p>Para mim, coisa melhor n\u00e3o h\u00e1, e me deixei ficar em desarmada preliba\u00e7\u00e3o do que viria. Um calor de felicidade correu no peito em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 lembran\u00e7a que guardamos da letra, da can\u00e7\u00e3o, do coral de Batutas de S\u00e3o Jos\u00e9, do tempo imorredouro da melodia. Ent\u00e3o a voz da cantora soltou:<\/p>\n<p>&#8220;Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon<br \/>\nCad\u00ea teus blocos famosos?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Mas esses primeiros versos n\u00e3o dizem bem o que ouvi. Outra can\u00e7\u00e3o se fez presente j\u00e1 no come\u00e7o, porque a cantora cometeu um &#8220;F\u00ea-linto&#8221;. De imediato, esclare\u00e7o que tal varia\u00e7\u00e3o na pros\u00f3dia local n\u00e3o \u00e9 coisa boba, sem import\u00e2ncia. N\u00f3s estamos falando de um hino da cidade. Trata-se de uma das maiores obras de Nelson Ferreira. Mas o melhor veio depois. Terminada a m\u00fasica, fui ao animador do encontro e lhe fiz ver que aquela &#8220;pron\u00fancia&#8221; n\u00e3o era conforme a original. Ent\u00e3o ele me respondeu com o ar mais puro da tarde:<\/p>\n<p>&#8211; Todos cantam assim.<\/p>\n<p>Eu lhe respondi:<\/p>\n<p>&#8211; A grava\u00e7\u00e3o original da Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1 n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>O rapaz ficou at\u00f4nito. Que coisa mais chata \u00e9 esse cara vir dizer que est\u00e3o cantando mal Nelson Ferreira. Mas ele foi salvo por uma senhora, que a tudo ouvia e, mesmo sem ser chamada, achou por bem intervir. Ela me mostrou o celular onde estava a letra da Evoca\u00e7\u00e3o no trecho &#8220;Felinto, Pedro Salgado&#8230;.&#8221;. E me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 vendo? \u00c9 assim que se escreve: F\u00ea-lin-t\u00f4.<\/p>\n<p>Toma, al\u00e9m de me ver como um homem sem mem\u00f3ria, ela me transformou num analfabeto. Eu lhe respondi:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 assim que a senhora l\u00ea? F\u00ea-lin-t\u00f4?<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; E me fitou de cima a baixo, indignada, como a me responder &#8220;se o senhor n\u00e3o sabe ler, o problema \u00e9 seu&#8221;. Mas veio mais suave, apesar de autorit\u00e1ria: &#8211; Eu sou professora de portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o a senhora sabe que as palavras n\u00e3o se leem como se escrevem.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9? Saiba que portugu\u00eas n\u00e3o \u00e9 ingl\u00eas. \u00c9 diferente: aqui a gente l\u00ea como se escreve.<\/p>\n<p>Voc\u00eas veem que era um di\u00e1logo imposs\u00edvel. Uma verdadeira peleja do bem, que \u00e9 a nova pron\u00fancia, contra o mal, que pesquisa a hist\u00f3ria de uma cidade. E o mal sempre perde no fim. Mas para o leitor retomo a palavra que n\u00e3o p\u00f4de ser ouvida. Primeiro, escute a grava\u00e7\u00e3o original da Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7FNhDiqLErY<\/p>\n<p>Ouvimos Filinto, n\u00e3o \u00e9? Depois, ou\u00e7a os F\u00ea-lintos, at\u00e9 no Bloco da Saudade.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Evoca\u00e7\u00e3o N\u00famero 1 -  Bloco da Saudade\" width=\"600\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jre2nzziqyU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Lembro que a mudan\u00e7a no som das vogais n\u00e3o \u00e9 exclusiva da Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1. Cantam agora o Bloco da Vit\u00f3ria, de Nelson Ferreira, assim: &#8220;quando o povo d\u00ea-cide&#8221;.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"O BLOCO DA VIT\u00d3RIA\/ BLOCO CARNAVALESCO L\u00cdRICO O BONDE\" width=\"600\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZeroK43LGt4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Ora, o verso de Nelson vinha do refr\u00e3o eleitoral &#8220;quando o povo diz Cid&#8221;. O original do Bloco da Vit\u00f3ria fazia um trocadilho entre &#8220;o povo diz Cid&#8221;, da campanha de Cid Sampaio em 1958, e o verbo decidir. Da\u00ed que &#8220;diz Cid&#8221; virou &#8220;decide&#8221; na letra e dicide no som.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nelson Ferreira - Bloco da Vit\u00f3ria\" width=\"600\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BuhSbY_r9a8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Mas por que a mudan\u00e7a hoje? Seria uma evolu\u00e7\u00e3o natural da l\u00edngua, que virou a nova pros\u00f3dia pernambucana? Na verdade, os cantores dos frevos de bloco reproduzem um modelo de fala que julgam culta, educada. \u00c9 constrangedor ouvir, ver blocos de carnaval do Recife submissos \u00e0 pros\u00f3dia dos apresentadores de televis\u00e3o. Cantam Nelson Ferreira traduzido para um modelo de locu\u00e7\u00e3o que vem de fora. Nada mais antipernambucano, violentador da hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n<p>A nossa elite n\u00e3o sabe, despreza: a fala popular \u00e9 a pr\u00f3pria l\u00edngua da hist\u00f3ria. A popula\u00e7\u00e3o fala a l\u00edngua que guarda um fio de continuidade entre a identidade de um lugar e a civiliza\u00e7\u00e3o. Os professores deviam gravar a fala do povo nas feiras, nos mercados p\u00fablicos. A\u00ed aprenderiam que Felinto sempre foi Filinto, jamais F\u00ea-lin-t\u00f4. Pelo menos no Recife.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No 247 Por Urariano Mota No Marco Zero, tocava uma orquestra afinada, passistas faziam um passo de acrobatas, cercados de gente de muitas idades e lugares. Mas eis que de repente, no azul do c\u00e9u do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1, de Nelson Ferreira.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-8495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-2d1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8497,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8495\/revisions\/8497"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}