{"id":9063,"date":"2017-03-10T10:48:33","date_gmt":"2017-03-10T14:48:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=9063"},"modified":"2017-03-10T10:48:33","modified_gmt":"2017-03-10T14:48:33","slug":"e-racional-parar-de-dialogar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/03\/10\/e-racional-parar-de-dialogar\/","title":{"rendered":"\u00c9 racional parar de dialogar"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"9064\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/03\/10\/e-racional-parar-de-dialogar\/cerebro_engrenagens\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?fit=800%2C450\" data-orig-size=\"800,450\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cerebro_engrenagens\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?fit=600%2C338\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?resize=600%2C338\" alt=\"cerebro_engrenagens\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"alignnone size-full wp-image-9064\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?resize=768%2C432 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cerebro_engrenagens.jpg?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No Almanaqueiras<br \/>\nPor Vladimir Safatle <\/p>\n<p>Faz parte de uma certa leitura hegem\u00f4nica da vida social moderna a ideia de que a raz\u00e3o se realiza necessariamente na vida social por meio da consolida\u00e7\u00e3o de um horizonte de di\u00e1logo.<!--more--><\/p>\n<p>Assim, uma sociedade cujas institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas s\u00e3o racionais seria necessariamente capaz de regular seus conflitos a partir da capacidade de exigir dos sujeitos a explicita\u00e7\u00e3o de suas raz\u00f5es para agir e a avalia\u00e7\u00e3o de tais a\u00e7\u00f5es a partir da procura do melhor argumento. Ou seja, a raz\u00e3o nos permitiria orientar nossas a\u00e7\u00f5es a partir do consenso poss\u00edvel produzido pela procura do melhor argumento.<\/p>\n<p>Uma posi\u00e7\u00e3o como esta, no entanto, s\u00f3 pode produzir niilismo e viol\u00eancia. Pode parecer paradoxal afirmar que a organiza\u00e7\u00e3o dos conflitos a partir da expectativa de di\u00e1logo produza necessariamente niilismo e viol\u00eancia, afinal aprendemos que o di\u00e1logo \u00e9 exatamente o inverso da viol\u00eancia, que ele \u00e9 seu melhor ant\u00eddoto. Mas talvez devamos assumir que h\u00e1 uma viol\u00eancia impl\u00edcita no di\u00e1logo.<br \/>\nO fil\u00f3sofo franc\u00eas Jacques Derrida lembrava, com propriedade, que n\u00e3o h\u00e1 nada mais violento do que dizer: &#8220;posso ouvir suas considera\u00e7\u00f5es, posso levar em conta o que voc\u00ea tem a dizer, mas desde que voc\u00ea fale a minha l\u00edngua&#8221;.<\/p>\n<p>Esta &#8220;minha l\u00edngua&#8221; n\u00e3o \u00e9 exatamente a l\u00edngua que falo agora, mas algo mais determinante, a saber, o conjunto de valores, a gram\u00e1tica que organiza minha sintaxe, a compreens\u00e3o do que \u00e9 um enunciado v\u00e1lido ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Para dialogar \u00e9 necess\u00e1rio pressupor uma gram\u00e1tica comum. Mais do que isto. \u00c9 necess\u00e1rio pressupor que todos os conflitos e todas as posi\u00e7\u00f5es conflitantes far\u00e3o sempre refer\u00eancia \u00e0 mesma gram\u00e1tica comum.<\/p>\n<p>No entanto, talvez o problema esteja exatamente neste ponto. Pois e se boa parte de nossos conflitos visassem exatamente mostrar que n\u00e3o h\u00e1 uma gram\u00e1tica comum no interior da vida social? Que quando nos digladiamos a respeito do que significa &#8220;liberdade&#8221;, &#8220;justi\u00e7a&#8221; n\u00e3o temos uma gram\u00e1tica comum na qual nos apoiarmos, pois estamos ligados, pois somos legat\u00e1rios de experi\u00eancias hist\u00f3ricas muito distintas?<\/p>\n<p>Nossas sociedades n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 momentaneamente antag\u00f4nicas. N\u00e3o estamos simplesmente divididos e voltaremos a nos unir assim que as paix\u00f5es se arrefecerem. Nossas sociedades s\u00e3o estruturalmente antag\u00f4nicas e a divis\u00e3o \u00e9 sua verdade. Pois julgamos a partir da ades\u00e3o a formas de vida e o que nos distingue s\u00e3o formas diferente de vida. N\u00e3o queremos as mesmas coisas, n\u00e3o temos as mesmas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Neste ponto, h\u00e1 os que dir\u00e3o que esta \u00e9 a maior prova de que precisamos de sociedades baseadas no respeito a diferen\u00e7a. Sendo sociedades antag\u00f4nicas, devemos neutralizar os combates e construir uma forma de conviv\u00eancia entre as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas o que fazer quando temos aqueles que defendem a tortura, que exaltam ditaduras militares (e, por favor, que n\u00e3o venha pela en\u00e9sima vez dizer: &#8220;mas, e Cuba?&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos de esquerda que n\u00e3o compactuam com regimes degenerados como o cubano) ou que naturalizam a espolia\u00e7\u00e3o social das mulheres? H\u00e1 de se respeitar esta &#8220;diferen\u00e7a&#8221;? Mas voc\u00ea realmente acredita que podemos resolver tais diferen\u00e7as por meio do di\u00e1logo?<\/p>\n<p>Neste ponto, seria importante lembrar que nem todos os modos de circula\u00e7\u00e3o da linguagem se resumem ao di\u00e1logo e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A palavra que circula na experi\u00eancia est\u00e9tica do poema, na experi\u00eancia anal\u00edtica da cl\u00ednica e mesmo nas convers\u00f5es de toda ordem n\u00e3o argumenta nem comunica. Ela instaura, ela mobiliza novos afetos e desativa antigos, ela reconstr\u00f3i identifica\u00e7\u00f5es, em suma, ela persuade com uma persuas\u00e3o que n\u00e3o se resume a explicita\u00e7\u00e3o de argumentos, e isto vale tamb\u00e9m para os verdadeiros embates pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O que nos falta n\u00e3o \u00e9 di\u00e1logo, mas encontrar a palavra nesta sua for\u00e7a instauradora.<\/p>\n<p>Triste \u00e9 a sociedade que v\u00ea nesta persuas\u00e3o a explos\u00e3o da irracionalidade, pois ela conhece apenas um conceito de raz\u00e3o baseado em dicotomias que remetem, ao fim, a distin\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica entre o corpo e a alma. Um conceito pr\u00e9-pascaliano de raz\u00e3o. Pois h\u00e1 de se lembrar de Pascal, para quem: &#8220;o cora\u00e7\u00e3o conhece raz\u00f5es que a raz\u00e3o desconhece&#8221;. A frase foi muito usada e gasta, mas a ideia era precisa. Compreender circuitos de afetos n\u00e3o \u00e9 calar a raz\u00e3o, mas ampli\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Almanaqueiras Por Vladimir Safatle Faz parte de uma certa leitura hegem\u00f4nica da vida social moderna a ideia de que a raz\u00e3o se realiza necessariamente na vida social por meio da consolida\u00e7\u00e3o de um horizonte de di\u00e1logo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-9063","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-2mb","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9063"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9065,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9063\/revisions\/9065"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}