{"id":9979,"date":"2017-04-17T14:11:28","date_gmt":"2017-04-17T18:11:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=9979"},"modified":"2017-04-17T14:13:15","modified_gmt":"2017-04-17T18:13:15","slug":"escola-sem-pinto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/04\/17\/escola-sem-pinto\/","title":{"rendered":"Escola Sem Pinto"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"9980\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/04\/17\/escola-sem-pinto\/pinto\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?fit=1960%2C1287\" data-orig-size=\"1960,1287\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"pinto\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?fit=300%2C197\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?fit=600%2C394\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?resize=600%2C394\" alt=\"pinto\" width=\"600\" height=\"394\" class=\"alignnone size-full wp-image-9980\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?w=1960 1960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?resize=300%2C197 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?resize=768%2C504 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?resize=1024%2C672 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?resize=457%2C300 457w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pinto.jpg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Como a tentativa de censura a um livro did\u00e1tico no norte do pa\u00eds mostra que, no Brasil atual, a ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas uma trag\u00e9dia nacional, mas um instrumento pol\u00edtico usado por mil\u00edcias de \u00f3dio<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds<br \/>\nEliane Brum<\/p>\n<p>No final de mar\u00e7o, um grupo de pais de uma escola p\u00fablica estadual da cidade de Ji-Paran\u00e1, no norte do Brasil, entregou um abaixo-assinado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico de Rond\u00f4nia. Eles exigiam a retirada da sala de aula de um livro de ci\u00eancias cujo conte\u00fado de educa\u00e7\u00e3o sexual seria \u201cimpr\u00f3prio\u201d para alunos da oitava s\u00e9rie do ensino fundamental. O desenho de um p\u00eanis ereto, usada pelas autoras da obra did\u00e1tica para explicar o funcionamento do \u00f3rg\u00e3o, \u00e9 um dos principais motivos da tentativa de censura. O pinto duro n\u00e3o deveria estar l\u00e1.<\/p>\n<p>Neste pequeno grande acontecimento h\u00e1 muitas trag\u00e9dias. E todas elas contam de n\u00f3s. H\u00e1 quem ache bizarro. Eu s\u00f3 consigo achar triste. Seria mais f\u00e1cil se este fosse um caso isolado, numa escola p\u00fablica do interior de Rond\u00f4nia, no norte do Brasil, lugar distante para a maioria. Seria mais f\u00e1cil, mas falso. \u00c9 preciso prestar muita aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 acontecendo no Brasil: incitados pelos novos inquisidores, cada vez \u00e9 maior o n\u00famero de fogueiras onde queimam livros, reputa\u00e7\u00f5es e, principalmente, direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 na Escola onde tudo se articula.<\/p>\n<p>1) Por que querem castrar um livro did\u00e1tico?<\/p>\n<p>Uma das m\u00e3es afirma ao portal G1, da Globo: \u201cNeste livro, eles incitam a crian\u00e7a, que est\u00e1 no in\u00edcio da adolesc\u00eancia, a descobrir a vida sexual. Tamb\u00e9m vulgarizam a virgindade da crian\u00e7a, dizendo que ela pode sofrer bullying e que, se ela perder a virgindade, pode ser melhor\u201d.<\/p>\n<p>O coordenador regional de educa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Medeiros, diz ao portal UOL: &#8220;Este livro traz uma abordagem sobre sexualidade e tem ilustra\u00e7\u00f5es, de certo modo, at\u00e9 um pouco agressivas. Ficou muito expl\u00edcito as simula\u00e7\u00f5es de car\u00edcias, de est\u00edmulo sexual, e at\u00e9 umas imagens demonstrando penetra\u00e7\u00e3o, mostrando o \u00f3rg\u00e3o sexual masculino e feminino&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O vereador de Ji-Paran\u00e1, Johny Paix\u00e3o (PRB), afirmou \u00e0 TV Globo que os temas do livro podem incitar \u00e0 pr\u00e1tica n\u00e3o consensual do sexo. \u201cMeu compromisso com eles (pais) \u00e9 lutar com todas as for\u00e7as poss\u00edveis para que n\u00f3s venhamos a retirar esse livro da sala de aula, porque ele \u00e9 tendencioso. As imagens s\u00e3o tendenciosas. Elas afloram a sexualidade. Por que vou aflorar a sexualidade se as crian\u00e7as n\u00e3o podem fazer sexo?\u201d.<\/p>\n<p>Dito assim, a impress\u00e3o de quem l\u00ea as mat\u00e9rias e assiste \u00e0s not\u00edcias sobre a \u201cpol\u00eamica\u201d \u00e9 de que o livro Ci\u00eancias 8o ano \u2013 Ensino Fundamental II da cole\u00e7\u00e3o Projeto Apoema (Editora do Brasil) \u00e9 uma esp\u00e9cie de Kama Sutra escolar.<\/p>\n<p>2) Mas o que diz o livro amea\u00e7ado de fogueira pelos novos inquisidores?<\/p>\n<p>Tenho um h\u00e1bito cada vez mais raro: antes de opinar sobre um livro ou um texto, eu o leio. Esta frase pode ser interpretada como ironia. Gostaria que fosse. Quero deixar expl\u00edcito que n\u00e3o \u00e9. Infelizmente.<\/p>\n<p>A seguir, um trecho do cap\u00edtulo 5, intitulado \u201cAdolesc\u00eancia\u201d, do livro indicado para adolescentes de 13 anos ou mais:<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos 30 anos, tem-se falado muito sobre sexualidade. Propuseram-se diversas teorias, realizaram-se v\u00e1rios estudos, e o tema \u00e9 at\u00e9 hoje explorado nos jornais, nas revistas e nos programas de televis\u00e3o. No entanto, muitas vezes, h\u00e1 uma idealiza\u00e7\u00e3o da vida sexual, dando a falsa impress\u00e3o de que existe uma f\u00f3rmula \u00fanica de viver plenamente a sexualidade, um padr\u00e3o sexual, um modelo r\u00edgido ao qual todas as pessoas devem se adaptar (&#8230;). Cada um pode viver muito bem, e plenamente, do seu jeito e conforme sua orienta\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 faz\u00ea-lo com responsabilidade e ter direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o para expressar suas opini\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Num outro ponto, o livro reproduz a fala de um m\u00e9dico ginecologista: \u201c\u00c9 preciso lembrar que o sexo \u00e9 bom quando \u00e9 bom para os dois\u201d. E segue: \u201cO m\u00e9dico explica que ser virgem n\u00e3o significa de maneira alguma estar fora do mundo atual, mas estar em um momento de reflex\u00e3o: \u2018A pessoa virgem ainda n\u00e3o se sente preparada para enfrentar a rela\u00e7\u00e3o sexual com a maturidade que ela merece. E isso independe de idade\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Em nenhuma das ilustra\u00e7\u00f5es os homens s\u00e3o eunucos: deveriam ser?<\/p>\n<p>H\u00e1 ilustra\u00e7\u00f5es de um homem na fase infantil, adolescente e adulta. Nenhum deles \u00e9 eunuco. Deveriam ser? Se fossem, haveria um problema, j\u00e1 que homens castrados e com p\u00eanis decepados, na nossa sociedade, s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia. H\u00e1 tamb\u00e9m o desenho de um p\u00eanis \u201cfl\u00e1cido\u201d e de um p\u00eanis \u201cem ere\u00e7\u00e3o\u201d, para ilustrar a explica\u00e7\u00e3o sobre anatomia e aspectos biol\u00f3gicos: \u201cO tamanho do p\u00eanis varia entre os homens e n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica com fertilidade nem com pot\u00eancia sexual\u201d.<\/p>\n<p>Outra reclama\u00e7\u00e3o se refere a uma s\u00e9rie de ilustra\u00e7\u00f5es que ensinam as mulheres a realizarem o autoexame de mamas, como um ato de preven\u00e7\u00e3o ao c\u00e2ncer. E, sim, nas imagens a mulher tem seios. Se n\u00e3o tivesse, haveria um problema de informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que mulheres t\u00eam peitos, dos mais diversos formatos e tamanhos, mas decididamente peitos. Sem contar que seria dif\u00edcil ensinar a fazer o toque, no exame preventivo, sem que houvesse um seio no desenho. Como detectar um caro\u00e7o ou uma altera\u00e7\u00e3o suspeita num seio sem um seio? E haveria ainda mais uma complica\u00e7\u00e3o: mulheres mastectomizadas, na maioria das vezes, perderam os seios devido ao desenvolvimento de tumores, exatamente a doen\u00e7a que este cap\u00edtulo do livro pretender colaborar para prevenir.<\/p>\n<p>Reproduzi aqui os principais pontos atacados. Mas o livro ainda n\u00e3o foi proibido e pode ser lido por todos, para que tirem suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>3) Como ler a tentativa de censura?<\/p>\n<p>Minha primeira hip\u00f3tese \u00e9 a de que as pessoas que atacaram o livro n\u00e3o leram o livro. Lembrando que ler \u00e9 bem diferente de apenas passar os olhos. A diferen\u00e7a entre o que \u00e9 dito sobre este cap\u00edtulo do livro e o que est\u00e1 de fato escrito no livro \u00e9 enorme, como se pode ver nos exemplos citados. Em alguns momentos, o que dizem que o livro disse \u00e9 exatamente o oposto do que o livro de fato diz. Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Aqui, estamos diante de duas trag\u00e9dias contempor\u00e2neas, expl\u00edcitas nas redes sociais da internet. A primeira delas \u00e9 que as pessoas n\u00e3o leem, mas mesmo assim jogam o texto na fogueira. Ou leem apenas o enunciado e d\u00e3o uma olhada nas imagens e \u201cqueimam\u201d o livro. E, como ler exige tempo e aten\u00e7\u00e3o, mas reproduzir o discurso de \u00f3dio leva apenas um segundo, em pouco tempo as chamas j\u00e1 incineraram o alvo do ataque. Isso vale para livros, como \u00e9 o caso, vale para reputa\u00e7\u00f5es. Assim, livros que exigiram anos de pesquisa de seus autores, como \u00e9 o caso deste, ou reputa\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo de uma vida inteira, s\u00e3o destru\u00eddas sem que uma parte dos linchadores perceba a viol\u00eancia e a amplid\u00e3o do seu ato.<\/p>\n<p>A segunda trag\u00e9dia \u00e9 a da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o. A internet escancarou uma realidade conhecida, mas cujas propor\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham ficado t\u00e3o claras at\u00e9 ent\u00e3o. Muitos leem de fato o texto, o livro, mas n\u00e3o conseguem interpret\u00e1-lo. Qualquer frase um pouco mais elaborada ou mais longa ou menos direta se torna um enigma. Ironias n\u00e3o s\u00e3o compreendidas, met\u00e1foras s\u00e3o decodificadas como literalidades. Pessoas t\u00eam alcan\u00e7ado a universidade sem conseguir interpretar um texto.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que parte destes pais \u2013 parte \u2013 tenha lido o cap\u00edtulo do livro e n\u00e3o tenha conseguido interpret\u00e1-lo, adotando assim a vers\u00e3o que estava dispon\u00edvel. E se a vers\u00e3o que estava dispon\u00edvel era a da necessidade de proteger os filhos do mal, ali representado pelo livro, podemos supor que pode ter se tornado f\u00e1cil aderir ao protesto. Aderir sem uma reflex\u00e3o maior que poderia, inclusive, ter sido proporcionada pela escola.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m passa pelo sistema educacional e chega \u00e0 vida adulta sem condi\u00e7\u00f5es de interpretar o que l\u00ea esta pessoa \u00e9 tamb\u00e9m uma v\u00edtima<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil culpar os pais e apontar uma suposta ignor\u00e2ncia. E, vale a pena deixar claro, uso ignor\u00e2ncia neste texto no sentido daquele que ignora um fato ou informa\u00e7\u00e3o, daquele que n\u00e3o teve ou n\u00e3o tem acesso ao conhecimento. Como parte de uma sociedade, somos todos respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia educacional. \u00c9 muito triste que as pessoas n\u00e3o consigam ler ou interpretar um texto ou por falta de acesso \u00e0 escola ou porque a escola que deveria ensin\u00e1-lo n\u00e3o foi capaz de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m passa pelo sistema educacional e chega \u00e0 vida adulta sem condi\u00e7\u00f5es de interpretar o que l\u00ea isso representa uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0quela pessoa, com graves consequ\u00eancias para a sua vida e para a vida da comunidade. Assim, se parte destes pais s\u00e3o algozes de um livro, s\u00e3o tamb\u00e9m v\u00edtimas de um sistema educacional em que, com poucas exce\u00e7\u00f5es, a escola p\u00fablica tem pr\u00e9dios prec\u00e1rios e cheios de problemas, a maioria dos professores \u00e9 mal paga e uma parcela deles \u00e9 mal preparada, uma escola p\u00fablica onde falta at\u00e9 mesmo o b\u00e1sico. E, ainda assim, contra tudo, muitos profissionais lutam para criar espa\u00e7os de qualidade e educar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar ainda que os pais e m\u00e3es deste abaixo-assinado fizeram um percurso. Eles levaram suas quest\u00f5es at\u00e9 a autoridade na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o e buscaram a C\u00e2mara de Vereadores. O coordenador regional de educa\u00e7\u00e3o e o vereador que assumiu a \u201ccausa\u201d t\u00eam uma responsabilidade p\u00fablica e devem responder publicamente por ela. Como se v\u00ea nas mat\u00e9rias, seguiram o caminho do ataque f\u00e1cil. Do representante da educa\u00e7\u00e3o, em especial, seria leg\u00edtimo esperar uma abordagem mais respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem ser contornadas, mas acolhidas e enfrentadas. Este epis\u00f3dio, surgido a partir do susto de uma m\u00e3e, poderia ter se tornado uma oportunidade de encontro, de di\u00e1logo e de reflex\u00e3o coletiva, inclusive dentro da escola. Mas, por irresponsabilidades variadas, da qual n\u00e3o escapa a imprensa, assumiu de imediato contornos de fogueira. \u00c9 assim que os cada vez mais escassos espa\u00e7os de debate est\u00e3o sendo interditados neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>4) O que o pinto duro tem a ver com isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar o tema que alimentou a fogueira. Fosse outro, talvez a leitura tivesse se mostrado mais acess\u00edvel e a interpreta\u00e7\u00e3o do texto n\u00e3o sofresse tanta interdi\u00e7\u00e3o. Mas era de educa\u00e7\u00e3o sexual que se tratava. E de um mito (ou seria tabu?) muito dif\u00edcil de ser desmontado, que \u00e9 o da crian\u00e7a assexuada. Ele aparece em todas as falas reproduzidas pelas mat\u00e9rias da imprensa. A ideia de uma crian\u00e7a sem sexualidade se confunde com a pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia na modernidade, j\u00e1 que em outros per\u00edodos hist\u00f3ricos pessoas desta faixa et\u00e1ria n\u00e3o eram vistas desta maneira.<\/p>\n<p>Os principais pensadores da inf\u00e2ncia derrubam esse mito. Mas ele persiste. E aparece das mais variadas formas, muitas delas inconscientes. Se algu\u00e9m observar as mat\u00e9rias de imprensa, por exemplo, vai descobrir frases como esta: \u201cHomens, mulheres e crian\u00e7as&#8230;\u201d. Ou seja, as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o homens e mulheres, mas seres assexuados. Eu mesma cometia esse equ\u00edvoco, sem perceber o que fazia, at\u00e9 ser alertada por uma amiga. Passei a usar ent\u00e3o \u201cAdultos e crian\u00e7as, homens e mulheres&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>A ideia de que as crian\u00e7as s\u00e3o \u201cpuras\u201d e que uma das provas disso \u00e9 que n\u00e3o teriam sexualidade \u00e9 amplamente difundida no senso comum. E assim os pais acabam por reprimir qualquer manifesta\u00e7\u00e3o que desminta essa cren\u00e7a. Para piorar, a repress\u00e3o \u00e9 respaldada por algumas religi\u00f5es. Isso n\u00e3o significa que as crian\u00e7as ter\u00e3o rela\u00e7\u00f5es sexuais, obviamente. Seu corpo nem est\u00e1 preparado para isso. Mas significa que v\u00e3o se tocar, descobrir o corpo, e que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com isso. Pelo contr\u00e1rio. \u00c9 saud\u00e1vel que se descubra tamb\u00e9m o pr\u00f3prio corpo na idade em que tudo se descobre.<\/p>\n<p>Aos pais cabe orientar e respeitar seus filhos e filhas, ajudando-os a se tornarem adultos capazes de respeitar o corpo e o desejo do outro e capazes de respeitar seu pr\u00f3prio corpo, fazendo do sexo uma experi\u00eancia prazerosa e respons\u00e1vel quando o momento chegar. E \u00e9 tamb\u00e9m pelo conhecimento que se conhece e se respeita o pr\u00f3prio corpo e o corpo do outro. A ignor\u00e2ncia \u00e9 uma grande aliada da viol\u00eancia que se faz consigo mesmo e com o outro.<\/p>\n<p>Se \u00e9 mais f\u00e1cil reprimir as crian\u00e7as exatamente porque s\u00e3o crian\u00e7as e dependem para tudo dos pais, o mesmo n\u00e3o se pode dizer dos filhos na fase que se nomeou \u201cadolesc\u00eancia\u201d. E este talvez seja o susto de parte destes pais. N\u00e3o h\u00e1 nenhum mist\u00e9rio nisso. Qualquer um, eu e voc\u00ea, estivemos l\u00e1 (na adolesc\u00eancia) e nos lembramos muito bem. Estes pais tamb\u00e9m devem se lembrar que um dos principais interesses \u2013 ou talvez o principal interesse \u2013 era justamente sexo.<\/p>\n<p>\u00c9 abrindo os livros \u2013 e n\u00e3o fechando-os \u2013 que os pais estariam melhor acompanhados<\/p>\n<p>Assim, acusar o livro, como fez uma m\u00e3e e o vereador, por fazer \u201caflorar o sexo\u201d em adolescentes de 13 anos ou mais \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o completa da realidade. Aos 13 anos, a maioria dos humanos quase s\u00f3 pensa nisso, o que n\u00e3o significa que vai fazer sexo com um parceiro ou parceira de imediato, passar do pensamento ao ato, da masturba\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual com outro corpo. Esta \u00e9 uma decis\u00e3o que cada um dever\u00e1 tomar no seu tempo, com conhecimento e responsabilidade e respeito com seu corpo e com o corpo do outro, como o pr\u00f3prio livro t\u00e3o bem sublinha.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, considerar que o desenho de um p\u00eanis ereto vai surpreender algum adolescente n\u00e3o faz qualquer sentido. Com permiss\u00e3o para uma brincadeira, porque o tema deveria ser tamb\u00e9m l\u00fadico, o que talvez surpreenda mais um menino nesta faixa et\u00e1ria \u00e9 o desenho do \u201cp\u00eanis fl\u00e1cido\u201d. Do mesmo modo, \u00e9 comum uma menina conferir v\u00e1rias vezes por dia no espelho se seu peito cresceu, apalpando-o e acariciando-o, sem qualquer problema em ter prazer com isso. Assim como \u00e9 natural tocar seu p\u00eanis ou sua vagina para descobrir o que lhe d\u00e1 prazer e conhecer seu corpo, o que tamb\u00e9m vai ajud\u00e1-lo a ter prazer e dar prazer ao outro quando o dia chegar.<\/p>\n<p>Debater este tema \u00e9 responsabilidade tamb\u00e9m da escola. E os pais deveriam enxergar nela uma aliada para que seus filhos tenham de fato educa\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o apenas em uma disciplina, mas em todas. E, assim, sentirem-se \u00e0 vontade para discutir as transforma\u00e7\u00f5es que lhe causam ang\u00fastia e conhecer o seu corpo n\u00e3o s\u00f3 pela biologia, mas por todas as \u00e1reas que atravessam o tema da sexualidade. O conhecimento \u00e9 o principal fator de preven\u00e7\u00e3o de gravidez adolescente indesejada, doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, viol\u00eancias sexuais e bullying. \u00c9 pelo conhecimento e pelo di\u00e1logo que adolescentes poder\u00e3o tomar as melhores decis\u00f5es sobre a sua vida e construir, no seu tempo, uma vida sexual respons\u00e1vel e prazerosa.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea o livro jogado na fogueira percebe claramente o esfor\u00e7o das autoras para cumprir este papel. \u00c9 uma pena que seus detratores n\u00e3o consigam \u2013 ou n\u00e3o queiram \u2013 enxergar que livros como este, assim como professores que ajudem os estudantes a interpret\u00e1-los e debat\u00ea-los, s\u00e3o justamente os que n\u00e3o deixam os pais sozinhos num mundo t\u00e3o complicado e violento, em que os adultos t\u00eam se sentido t\u00e3o desamparados para educar crian\u00e7as e adolescentes. \u00c9 abrindo os livros \u2013 e n\u00e3o fechando-os \u2013 que os pais estariam melhor acompanhados.<\/p>\n<p>5) Onde se esconde a maldade?<\/p>\n<p>Ainda que seja improv\u00e1vel (mas n\u00e3o imposs\u00edvel) que o livro seja formalmente banido das salas de aula, como quer uma parcela dos pais desta escola, a obra j\u00e1 foi \u201cqueimada\u201d publicamente. A fogueira j\u00e1 foi acesa e ardeu, porque as fogueiras hoje s\u00e3o sem mat\u00e9ria (por enquanto), mas suas labaredas t\u00eam longo alcance e graves consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Diante da repercuss\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, numa pr\u00f3xima sele\u00e7\u00e3o, n\u00e3o escolha este livro. \u00c9 poss\u00edvel que os professores das escolas privadas prefiram pular esta obra para n\u00e3o se arriscar a pol\u00eamicas. E \u00e9 poss\u00edvel que os autores de livros did\u00e1ticos passem a contornar o tema da educa\u00e7\u00e3o sexual em suas obras, para se protegerem de eventuais inquisidores. Assim como jornalistas, pol\u00edticos e intelectuais j\u00e1 come\u00e7am a evitar certos temas para se protegerem de linchamentos que atingem n\u00e3o s\u00f3 a eles, mas come\u00e7am a alcan\u00e7ar suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia e a falta de conhecimento geram ades\u00e3o em vez de reflex\u00e3o, gritos em vez de di\u00e1logo<\/p>\n<p>Depois da fogueira p\u00fablica, o resto acontece em sil\u00eancio. E acontece (tamb\u00e9m) por causa do sil\u00eancio. \u00c9 desta maneira insidiosa que a ignor\u00e2ncia se infiltra. \u00c9 por esse caminho sombrio que o medo penetra e domina. \u00c9 por essa t\u00e9cnica que historicamente os fascismos subjugaram as mentes e os corpos e produziram seus crimes. \u00c9 preciso prestar muita aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 acontecendo no Brasil.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas a escola p\u00fablica foi abandonada, enquanto o ensino privado foi se tornando um neg\u00f3cio cada vez mais lucrativo, cada vez menos pedag\u00f3gico e mais empresarial. Por d\u00e9cadas os professores foram desvalorizados, os pr\u00e9dios foram sendo depredados, a escola se afastando mais e mais da comunidade \u2013 e a comunidade se afastando mais e mais da escola. Por d\u00e9cadas muito poucos se perguntaram seriamente como se sentiam alunos em escolas \u00e0s vezes literalmente caindo aos peda\u00e7os, sem equipamentos b\u00e1sicos, em salas de aula ocupadas por professores mal pagos, sobrecarregados e, em alguns casos, despreparados. Por d\u00e9cadas um n\u00famero crescente de pais passou a se esfalfar para conseguir dinheiro para matricular os filhos numa escola particular, mesmo que ruim, e aqueles que tinham mais condi\u00e7\u00f5es de fazer a disputa por qualidade de educa\u00e7\u00e3o deixaram a escola p\u00fablica. Permaneceu quem n\u00e3o p\u00f4de sair \u2013 e permaneceram os idealistas, sempre em menor n\u00famero. A escola p\u00fablica passou a ocupar o lugar de resto. E como resto professores e alunos foram tratados.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, um movimento com muita pot\u00eancia surgiu. Estudantes passaram a ocupar as escolas e, transgress\u00e3o das transgress\u00f5es, passaram a cuidar delas e a exigir qualidade na educa\u00e7\u00e3o. Como restos eles n\u00e3o incomodavam. Como protagonistas, cidad\u00e3os, foram criminalizados como \u201cinvasores\u201d e \u201cv\u00e2ndalos\u201d.<\/p>\n<p>Pais e alunos t\u00eam sido estimulados por mil\u00edcias de \u00f3dio na internet a tornarem-se inquisidores<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m nos \u00faltimos anos um movimento muito mais articulado se organizou. Ele n\u00e3o \u00e9 novo, mas ganhou uma articula\u00e7\u00e3o nova. E sua principal arma \u00e9 justamente a deseduca\u00e7\u00e3o que a escola no lugar de resto produziu. Sua principal arma \u00e9 a ignor\u00e2ncia e a falta de conhecimento, que geram ades\u00e3o em vez de reflex\u00e3o, gritos em vez de di\u00e1logo. Fogueira.<\/p>\n<p>Depois da corros\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica produzida pela ditadura civil-militar (1964-1985), a resposta dos governos democr\u00e1ticos que vieram a seguir foi insuficiente para a urg\u00eancia do problema. Houve avan\u00e7os significativos em algumas gest\u00f5es, como a de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, mas muito menores do que seria necess\u00e1rio para uma mudan\u00e7a que produzisse transforma\u00e7\u00e3o estrutural. E, como todo vazio acaba sendo ocupado, ressurgiu o velho engodo embalado em papel novo e disseminado para milh\u00f5es de seguidores nas redes sociais: o problema da escola p\u00fablica \u00e9 \u201cmoral\u201d \u2013 e \u201cde doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d. Percebendo o risco, era preciso ocupar. Isso fica expl\u00edcito no momento em que os estudantes tomam o partido da escola p\u00fablica e restauram o valor da pol\u00edtica, mas s\u00e3o duramente reprimidos n\u00e3o s\u00f3 pela pol\u00edcia, mas tamb\u00e9m pelas mil\u00edcias de \u00f3dio em defesa do projeto nomeado \u201cEscola Sem Partido\u201d.<\/p>\n<p>Nesta manipula\u00e7\u00e3o, vendida \u00e0 sociedade como um projeto restaurador da ordem (mas qual ordem?), o problema n\u00e3o seria a escola caindo aos peda\u00e7os, os professores mal pagos, a falta de estrutura material e pedag\u00f3gica, mas uma suposta \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d praticada por professores \u201cesquerdistas\u201d, \u201ccomunistas\u201d e moralmente desvirtuados a servi\u00e7o do mal. (Com a esquerda mal parando em p\u00e9, isso deveria ser piada, mas n\u00e3o \u00e9, j\u00e1 que uma das consequ\u00eancias da ignor\u00e2ncia \u00e9 sua v\u00edtima n\u00e3o entender piada, muito menos humor ou ironia.)<\/p>\n<p>Diante do medo e do desamparo, sentimentos que crescem em qualquer crise, a resposta moral sempre cola. Assim como um inimigo forjado. E cola mais ainda quando n\u00e3o existe uma proposta alternativa que as pessoas possam compreender e confiar. O problema ent\u00e3o torna-se o outro \u2013 e ele deve ser destru\u00eddo. Diante de pais assustados, com todo o direito tanto de querer que seus filhos sejam bem educados como de concluir que n\u00e3o est\u00e3o sendo, qualquer m\u00e3o estendida, mesmo que seja na forma de uma resposta estapaf\u00fardia e violenta, geradora de mais desconhecimento e ignor\u00e2ncia, \u00e9 agarrada.<\/p>\n<p>E assim pais s\u00e3o incitados por mil\u00edcias de \u00f3dio na internet a tornarem-se inquisidores. Em vez de irem \u00e0 escola para dialogar, compartilhar e reivindicar, construir junto, s\u00e3o estimulados a apontar o dedo e a linchar. Na \u00e9poca da ditadura, este servi\u00e7o odioso era realizado nas escolas p\u00fablicas por professores cooptados pelas for\u00e7as da repress\u00e3o, que espionavam os colegas e faziam seus relat\u00f3rios, enquanto ganhavam pontos na carreira. Hoje, o que antes acontecia nos cantos escuros \u00e9 amplamente incitado nas redes. A inf\u00e2mia \u00e9 vendida como virtude moral.<\/p>\n<p>Construir \u00e9 dif\u00edcil, lento e d\u00e1 trabalho. Queimar \u00e9 imediato. E nada mais c\u00f4modo do que poder extravasar sua frustra\u00e7\u00e3o culpando o outro e, se poss\u00edvel, eliminando-o. Ou deletando-o do espa\u00e7o p\u00fablico. A estrat\u00e9gia \u00e9 velha, muito velha. A \u00fanica novidade \u00e9 a entrada da internet na equa\u00e7\u00e3o. Mas como a hist\u00f3ria n\u00e3o foi bem ensinada para as gera\u00e7\u00f5es que a\u00ed est\u00e3o, ela \u00e9 vendida e comprada como nova.<\/p>\n<p>6) O que diz a autora do cap\u00edtulo atacado?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, epis\u00f3dios de censura ou tentativas de censura a livros did\u00e1ticos e de literatura t\u00eam pipocado pelo pa\u00eds. Alguns casos se tornam conhecidos, outros s\u00e3o abafados. \u00c9 raro professores, bibliotec\u00e1rios e autores se arriscarem a defender a obra publicamente. Em geral, temem a demiss\u00e3o e, mais recentemente, o linchamento pessoal. Algumas editoras costumam aconselhar seus autores a silenciar, na expectativa de que o inc\u00eandio se extinga com menos preju\u00edzos. Na minha opini\u00e3o, isso \u00e9 um erro e uma omiss\u00e3o de responsabilidade p\u00fablica. Tentativas de censura e ataques a livros e autores dizem respeito a toda sociedade e devem ser enfrentados como o que s\u00e3o.<\/p>\n<p>O livro de Ci\u00eancias para o 8o ano, da cole\u00e7\u00e3o Projeto Apoema, \u00e9 assinado por Ana Maria Pereira, Margarida Santana e M\u00f4nica Waldhelm. O cap\u00edtulo atacado foi escrito por M\u00f4nica. Ela \u00e9 professora do Ensino M\u00e9dio, titular de Biologia no Centro Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica do Rio de Janeiro (CEFET\/RJ). Tem 50 anos de idade e 33 de magist\u00e9rio. \u00c9 doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela PUC-Rio e consultora da Unesco. Enviei a ela algumas perguntas por e-mail e ela respondeu a todas elas. A seguir, os principais pontos:<\/p>\n<p>Pergunta. Como voc\u00ea se sentiu ao tomar conhecimento deste epis\u00f3dio?<\/p>\n<p>Resposta. Confesso que custei a entender o motivo alegado para o abaixo-assinado feito pelo grupo de m\u00e3es e pais. Ao ler e ouvir as declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o reconhecia naquelas palavras o conte\u00fado do livro: Pornografia? Vulgariza\u00e7\u00e3o do sexo? Est\u00edmulo \u00e0 promiscuidade? Imagens fortes? Sabia de todo cuidado que tivemos ao produzir cada volume e constatei que havia um ru\u00eddo na comunica\u00e7\u00e3o ou algo mais preocupante por tr\u00e1s desta a\u00e7\u00e3o. Foi um misto de surpresa, perplexidade e tristeza.<\/p>\n<p>P. O livro j\u00e1 havia sofrido algum tipo de ataque antes?<\/p>\n<p>\u201cAcho difi\u0301cil um aluno reconhecer-se nas estranhas figuras assexuadas\u201d<\/p>\n<p>R. Esta cole\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o n\u00e3o. Recebemos um parecer muito positivo na \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o do MEC no \u00e2mbito do Programa Nacional do Livro Did\u00e1tico (PNLD), e os livros s\u00e3o adotados por escolas p\u00fablicas e privadas de todo o Brasil. Contudo, este campo da sexualidade \u00e9 tradicionalmente espinhoso. Ao longo de 20 anos como autora, visitando escolas de Norte a Sul e conversando com os colegas professores, j\u00e1 ouvi alguns relatos de situa\u00e7\u00f5es delicadas. Em uma escola, embora os professores manifestassem explicitamente o desejo de utilizar nossos livros, a presen\u00e7a de imagens de vulvas e p\u00eanis foi motivo de controv\u00e9rsia por parte da coordenac\u0327a\u0303o pedag\u00f3gica. Tamb\u00e9m soubemos de uma escola na qual uma professora de Cie\u0302ncias venceu a resiste\u0302ncia da coordenadora e adotou a cole\u00e7\u00e3o, mas depois teve problemas com a ma\u0303e de uma aluna. Esta m\u00e3e simplesmente grampeou as pa\u0301ginas do livro que continham figuras de vulvas, pe\u0302nis, camisinha e similares. Mas foram casos isolados e resolvidos com conversa e media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P. Voc\u00ea escreveu a parte relativa \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual. Quais s\u00e3o os cuidados que toma nas suas escolhas?<\/p>\n<p>R. Como docente \u2013 e at\u00e9 quando fui aluna \u2013 sempre me incomodou a maneira como o corpo historicamente \u00e9 apresentado e, deste modo, estudado nos livros dida\u0301ticos de Cie\u0302ncias. O tema sexualidade humana quase sempre \u00e9 abordado nos cap\u00edtulos finais dos livros, onde o professor em geral nunca chega durante o ano letivo \u2013 e de modo reduzido ao aspecto da reprodu\u00e7\u00e3o. As figuras aparecem quase sempre na forma de esquemas em cortes transversais ou longitudinais. Com seu corpo ainda desengonc\u0327ado e com acne, o adolescente se depara, nos livros dida\u0301ticos, com figuras e modelos \u201cperfeitos\u201d, bem torneados e com dentes corretos e, enta\u0303o, na\u0303o se reconhece como tal. Tamb\u00e9m acho difi\u0301cil um aluno da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica reconhecer-se nas estranhas figuras assexuadas. Ainda hoje, em muitos livros, pe\u0302nis e vulvas\/vaginas, em geral, so\u0301 aparecem em cortes &#8220;estrate\u0301gicos&#8221;, expondo apenas sua anatomia interna. Al\u00e9m disso, com imagens humanas idealizadas e retocadas no computador, os livros acabam por reforc\u0327ar o que faz a produ\u00e7\u00e3o mi\u0301diatica predominante, que hipervaloriza a apare\u0302ncia fi\u0301sica e acaba por determinar padro\u0303es este\u0301ticos. Estes \u201cpadro\u0303es\u201d sa\u0303o buscados febrilmente por jovens nas academias de gina\u0301stica e no uso de anabolizantes. Tamb\u00e9m se refletem nos consulto\u0301rios me\u0301dicos, onde v\u00e3o em busca de &#8220;reparos&#8221;, assim como no avan\u00e7o de distu\u0301rbios como bulimia e anorexia.<\/p>\n<p>P. Esta foi a raz\u00e3o para a sua investiga\u00e7\u00e3o no mestrado?<\/p>\n<p>\u201cA propagada neutralidade religiosa, sexual e pol\u00edtica n\u00e3o tem nada de neutra. Reflete as vis\u00f5es e cren\u00e7as de um grupo conservador na sociedade\u201d<\/p>\n<p>R. Este inc\u00f4modo com certeza motivou minha pesquisa no mestrado em Educa\u00e7\u00e3o realizada na Universidade Federal Fluminense (1998), na qual investiguei a produ\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica do corpo nos livros did\u00e1ticos de Ci\u00eancias editados nas d\u00e9cadas de 1960 e 1990. Ao ser convidada logo depois para escrever livros did\u00e1ticos, tive a oportunidade de propor um material que modificasse, ainda que em parte, este cen\u00e1rio preocupante. Hoje \u00e9 consenso no meio educacional que o curri\u0301culo escolar na\u0303o pode estar desvinculado da realidade dos alunos, tendo em vista que uma das func\u0327o\u0303es da escola e\u0301 a preparac\u0327a\u0303o para a vida cidada\u0303. No contexto desta discussa\u0303o, entendo que as questo\u0303es relativas ao corpo, ge\u0302nero, sexualidade e papeis sociais devem ser trazidas para sala de aula, dado o impacto que provocam na vida dos alunos. Muitas vezes, pore\u0301m, as angu\u0301stias e tabus acerca da sexualidade esta\u0303o baseadas no desconhecimento da anatomia e da fisiologia do pro\u0301prio corpo. Dai\u0301 a importa\u0302ncia de criar condic\u0327o\u0303es para que os professores possam conversar com os alunos, levando-os a expressar suas crenc\u0327as e seus mitos em relac\u0327a\u0303o ao corpo e a\u0300 sexualidade como ponto de partida para o estudo dos aspectos biolo\u0301gicos do sexo. No volume did\u00e1tico alvo da pol\u00eamica, num total de seis unidades, optamos por abordar a sexualidade na terceira unidade. Queri\u0301amos evitar que este tema fosse relegado a segundo plano caso ficasse no fim do livro. O texto escrito por mim foi objeto de cuidadosa ana\u0301lise tamb\u00e9m das outras autoras e da equipe da editora, pois na\u0303o quer\u00edamos correr o risco de produzir nem reforc\u0327ar subjetividades hegemo\u0302nicas que levassem a preconceitos e discriminac\u0327a\u0303o por ge\u0302nero, etnia, orientac\u0327a\u0303o sexual etc. Em diversos momentos, na vers\u00e3o para o professor, colocamos \u201cbilhetes\u201d sinalizando para a importa\u0302ncia de debater determinados to\u0301picos e atentar para atitudes preconceituosas. Ao abordar as caracteri\u0301sticas anato\u0302micas femininas e masculinas inclu\u00edmos tambe\u0301m representac\u0327o\u0303es de corpos inteiros e com as estruturas externas visi\u0301veis. Cuidamos para na\u0303o reforc\u0327ar a \u201cpedagogia do terror\u201d, associando sexualidade somente a\u0300 doenc\u0327a ou \u00e0 gravidez indesejada. Destacamos a importa\u0302ncia do cuidado com o corpo, associando-o a\u0300 promoc\u0327a\u0303o da sau\u0301de e a\u0300 vive\u0302ncia prazerosa e responsa\u0301vel da sexualidade.<\/p>\n<p>P. Como voc\u00ea insere esse epis\u00f3dio no contexto mais amplo do pa\u00eds?<\/p>\n<p>R. N\u00e3o h\u00e1 como negar que uma onda conservadora vem assolando nosso pa\u00eds. E isto tem provocado repercuss\u00e3o e embates travados tanto no campo das ideias quanto das a\u00e7\u00f5es e at\u00e9 das pol\u00edticas p\u00fablicas. No campo educacional n\u00e3o \u00e9 diferente. Tentativas de censura e cerceamento de pr\u00e1ticas docentes e uso de materiais did\u00e1ticos t\u00eam sido recorrentes e at\u00e9 apoiadas por representantes pol\u00edticos que se dizem \u201cdefensores da moral e bons costumes\u201d das fam\u00edlias brasileiras. A retirada dos termos \u201cg\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d da \u00faltima vers\u00e3o do texto da Base Nacional Comum Curricular entregue ao Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 in\u00f3cua. Embora o MEC insista que as escolas ter\u00e3o autonomia para construir seus curr\u00edculos, a n\u00e3o explicita\u00e7\u00e3o do termo esvazia sua legitimidade e import\u00e2ncia. Curr\u00edculo \u00e9 um territ\u00f3rio de poder e de embates. Esta omiss\u00e3o no documento norteador deixa autores de livros did\u00e1ticos e docentes sem respaldo legal para abordar o tema. E pode simplesmente impedir a discuss\u00e3o sobre diversidade sexual, estere\u00f3tipos de g\u00eanero e atitudes homof\u00f3bicas nas escolas. Iniciativas como a tentativa de censura ao nosso livro de Ci\u00eancias, a livros de Geografia que incluem fam\u00edlias homoafetivas, a peri\u00f3dica conclama\u00e7\u00e3o em redes sociais a fam\u00edlias para que induzam seus filhos a filmarem epis\u00f3dios de \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o\u201d nas escolas, assim como um vereador querendo \u201cfiscalizar\u201d as aulas e v\u00e1rios projetos de lei em andamento s\u00e3o elementos de um cen\u00e1rio que causa extrema preocupa\u00e7\u00e3o com a liberdade de express\u00e3o dos educadores em geral. A propagada neutralidade religiosa, sexual e pol\u00edtica n\u00e3o tem nada de neutra. Reflete as vis\u00f5es e cren\u00e7as de um grupo conservador na sociedade.<\/p>\n<p>P. Como voc\u00ea interpreta a manifesta\u00e7\u00e3o destes pais? O que, afinal, eles temem, a ponto de querer proibir o livro?<\/p>\n<p>R. Acho que h\u00e1 v\u00e1rios aspectos envolvidos. Um deles \u00e9 o que envolve o desejo e a cren\u00e7a de controle total sobre os filhos (incluindo seus corpos, sexualidade, formas de pensar e ver o mundo). E sei que este desejo n\u00e3o \u00e9 mal intencionado. Um outro se refere ao fato de cada pai e m\u00e3e como pessoa ter seu conjunto de cren\u00e7as e refer\u00eancias culturais influenciado por experi\u00eancias pessoais, familiares, religiosas e outras. E embora a escola p\u00fablica seja para todos, alguns pretendem impor sua forma de ver o mundo como verdade absoluta. Ent\u00e3o o racista n\u00e3o quer ver o racismo discutido, o homof\u00f3bico n\u00e3o quer que se aborde g\u00eanero e preconceito, o mis\u00f3gino acha desnecess\u00e1rio falar sobre feminismo e por a\u00ed vai. Paradoxalmente, constato que enquanto em v\u00e1rias escolas e livros de Ci\u00eancias a questa\u0303o da sexualidade e\u0301 ignorada ou abordada superficialmente, no dia-a-dia \u00e9 crescente a erotizac\u0327a\u0303o da infa\u0302ncia e da adolesc\u00eancia. A realidade \u00e9 bem diferente do que muitos pais querem admitir. Adolescentes procuram informa\u00e7\u00f5es onde podem. E a escola pode trazer esta informa\u00e7\u00e3o de modo adequado. Sabemos que n\u00e3o basta informar, \u00e9 preciso debater, problematizar, lev\u00e1-los a refletir, a construir projetos de vida. Enquanto os pais acham que seus filhos com 13-15 anos ainda n\u00e3o devem discutir sexualidade e ver imagens de p\u00eanis, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade reduziu a idade m\u00ednima para a vacina\u00e7\u00e3o contra HPV para 9 anos para garantir imuniza\u00e7\u00e3o antes do in\u00edcio da vida sexual. Soma-se a isso o alarmante nu\u0301mero de gra\u0301vidas adolescentes, o crescimento do HIV entre jovens, o suic\u00eddio e homic\u00eddio de jovens homossexuais&#8230;<\/p>\n<p>P. E como voc\u00ea avalia a rela\u00e7\u00e3o entre escola e comunidade?<\/p>\n<p>\u201cQuestionar o preconceito e a exclusa\u0303o social e\u0301 papel de uma escola que pretende ajudar a construir um Brasil menos sexista, menos racista e menos homofo\u0301bico\u201d<\/p>\n<p>R. Ainda existe falta de di\u00e1logo entre muitas escolas e as fam\u00edlias dos alunos. Uma maior aproxima\u00e7\u00e3o, buscando esclarecer a proposta pedag\u00f3gica, a realiza\u00e7\u00e3o de projetos envolvendo a comunidade e trabalhos intersetoriais (com o posto de sa\u00fade local, por exemplo) s\u00e3o estrat\u00e9gias que refor\u00e7am a parceria e trazem sinergia ao processo educativo. Nosso livro prop\u00f5e v\u00e1rias atividades envolvendo a comunidade por reconhecer a import\u00e2ncia desta intera\u00e7\u00e3o. A sexualidade envolve pessoas e, consequentemente, sentimentos, que precisam ser percebidos e respeitados. Envolve tambe\u0301m crenc\u0327as e valores, assim como ocorre em um determinado contexto sociocultural e histo\u0301rico, o que tem papel determinante nos comportamentos. Nada disso pode ser ignorado quando se debate a sexualidade com os jovens. O papel de problematizador e orientador do debate, que cabe ao educador, e\u0301 essencial para que os adolescentes aprendam a refletir e a tomar deciso\u0303es coerentes com seus valores, no que diz respeito a\u0300 sua pro\u0301pria sexualidade, ao outro e ao coletivo, conscientes de sua inser\u00e7\u00e3o em uma sociedade que incorpora a diversidade. Consideramos que silenciar \u2013 nos discursos e pra\u0301ticas \u2013 no a\u0302mbito das questo\u0303es relativas a\u0300 sexualidade humana tem implicac\u0327o\u0303es gravi\u0301ssimas na formac\u0327a\u0303o de nossas crianc\u0327as e jovens.<\/p>\n<p>P. Como voc\u00ea nomearia o que est\u00e1 acontecendo? E como um professor pode enfrentar essa conjuntura?<\/p>\n<p>R. Como autora, professora, m\u00e3e e cidad\u00e3, refor\u00e7o e valorizo a necessidade de um movimento de resist\u00eancia organizado e coletivo \u2013 e portanto com mais impacto e efici\u00eancia \u2013 por parte dos educadores, frente \u00e0s recentes e sistem\u00e1ticas a\u00e7\u00f5es que buscam tirar a autonomia docente e isolar a sala de aula e a escola da vida real, alijando os alunos do debate acerca de quest\u00f5es contempor\u00e2neas cada vez mais relevantes. A busca por uma sociedade pautada na solidariedade, na alteridade, na justi\u00e7a social, no respeito e na convive\u0302ncia paci\u0301fica passa pelo reconhecimento da diversidade como positiva. Questionar as muitas formas de preconceito e de exclusa\u0303o social e\u0301 papel de uma escola que pretende ajudar a construir um Brasil menos sexista, menos racista e menos homofo\u0301bico \u2013 e isso deve comec\u0327ar na Educac\u0327a\u0303o Infantil.<\/p>\n<p>7) Por que a ONU se manifestou?<\/p>\n<p>Apenas nas \u00faltimas semanas, v\u00e1rios golpes articulados acentuaram a crise educacional e \u00e9tica do pa\u00eds. E colaboraram para aumentar a viol\u00eancia e ampliar a ignor\u00e2ncia no \u00e2mbito da escola p\u00fablica. Tanto que, em 13 de abril, a ONU fez um comunicado manifestando sua preocupa\u00e7\u00e3o com amea\u00e7as ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 liberdade de express\u00e3o no Brasil e pedindo que o governo brasileiro se manifeste em 60 dias.<\/p>\n<p>No documento, os relatores das Na\u00e7\u00f5es Unidas apontam o projeto \u201cEscola Sem Partido\u201d e as \u201cvisitas-surpresa\u201d a escolas municipais feitas pelo vereador de S\u00e3o Paulo Fernando Holiday (DEM) como motivos de apreens\u00e3o. O vereador entrou nas escolas para \u201canalisar se h\u00e1 doutrina\u00e7\u00e3o no conte\u00fado que est\u00e1 sendo dado nas salas de aula\u201d. No v\u00eddeo divulgado por ele se anuncia: \u201cEscola Sem Partido. Holiday faz visitas supresas em escolas de SP e quer que voc\u00ea denuncie casos de doutrina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a Folha de S. Paulo, o epis\u00f3dio provocado pelo vereador quase causou a demiss\u00e3o do secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, Alexandre Schneider. O secret\u00e1rio, respeitado na \u00e1rea educacional, repudiou com veem\u00eancia a tentativa de intimida\u00e7\u00e3o dos professores, citando a Constitui\u00e7\u00e3o. Em seguida, foi v\u00edtima de uma campanha de desqualifica\u00e7\u00e3o promovida por grupos articulados na internet. Segundo o jornal, o secret\u00e1rio n\u00e3o teria se sentido apoiado pelo prefeito Jo\u00e3o Doria (PSDB). O prefeito pode ter preferido manter o apoio das mil\u00edcias de \u00f3dio na internet, que o inflam nas redes como o grande \u201cgestor\u201d.<\/p>\n<p>No comunicado, os relatores da ONU afirmam que, se os projetos de lei baseados no Escola Sem Partido forem aprovados, isso pode significar restri\u00e7\u00e3o indevida ao direito de liberdade de express\u00e3o de alunos e professores no Brasil, com impacto no ensino do pa\u00eds em diversos temas. Alertam ainda que o Escola Sem Partido pode representar \u201ccensura significativa\u201d e restringir o direito do aluno a receber informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O documento manifesta ainda a preocupa\u00e7\u00e3o com o impacto destas ideias sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas, como a retirada da express\u00e3o \u201corienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d da Base Nacional Comum Curricular do pa\u00eds, que define as compet\u00eancias e os objetivos do aprendizado dos estudantes em cada etapa da vida escolar. Os relatores afirmam tamb\u00e9m que a mudan\u00e7a contraria a recomenda\u00e7\u00e3o da ONU para que o pa\u00eds reforce os programas de combate \u00e0 homofobia.<\/p>\n<p>O projeto Escola Sem Partido prop\u00f5e exatamente o que afirma combater: doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e proselitismo<\/p>\n<p>Escola Sem Partido \u00e9 um projeto idealizado pelo advogado Miguel Nagib em 2004, nos \u00faltimos anos adotado como bandeira pelas mil\u00edcias de \u00f3dio na internet e por algumas das vozes mais atrasadas do Legislativo. A escolha do nome \u00e9 esperta. Ela sugere uma finalidade leg\u00edtima: a de impedir que professores fa\u00e7am proselitismo pol\u00edtico-partid\u00e1rio em sala de aula ou o que tem sido difundido como \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d. Na pr\u00e1tica, o Escola Sem Partido prop\u00f5e exatamente o que afirma combater: doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e proselitismo. Mas para isso \u00e9 preciso capacidade de interpretar texto e de \u201cler\u201d a realidade, justamente o que a Escola deveria promover, mas tem fracassado por todos os motivos conhecidos.<\/p>\n<p>O nome do projeto, que j\u00e1 era esperto quando foi concebido, tornou-se ainda mais eficiente num momento em que os principais partidos pol\u00edticos do pa\u00eds est\u00e3o atolados na lama exposta pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e parte da classe pol\u00edtica virou caso de pol\u00edcia. Assim, em vez do \u201cpol\u00edtico\u201d, estes grupos lan\u00e7am a figura do \u201cgestor\u201d, aquele que supostamente est\u00e1 \u201climpo\u201d porque n\u00e3o foi enlameado pela pol\u00edtica, reduzida por eles a palavr\u00e3o.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas uma trag\u00e9dia, mas um instrumento<\/p>\n<p>Se h\u00e1 dificuldade de interpretar textos, como esperar que exista interpreta\u00e7\u00e3o de subtextos e de entrelinhas? Quantos v\u00e3o perceber que negar a pol\u00edtica, uma das cria\u00e7\u00f5es mais potentes do pensamento humano, respons\u00e1vel por alguns dos maiores avan\u00e7os da humanidade, \u00e9 um ato pol\u00edtico? E que se autodenominar \u201cgestor\u201d \u00e9 uma esperteza pol\u00edtica de um pol\u00edtico esperto?<\/p>\n<p>De novo estamos de volta \u00e0 trag\u00e9dia da educa\u00e7\u00e3o. E agora ela ecoa para muito al\u00e9m dos muros das escolas. A ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas uma trag\u00e9dia, mas um instrumento. E, no Brasil, este instrumento nunca foi usado de forma t\u00e3o articulada como hoje.<\/p>\n<p>8) Quem silencia?<\/p>\n<p>Como a hist\u00f3ria ensina, para quem teve a chance de aprender, a opress\u00e3o se instala devagar. \u00c9 um acontecimento aqui, outro l\u00e1, aparentemente sem conex\u00e3o. E assim ela vai se infiltrando primeiro nas franjas do cotidiano, nas periferias dos debates. E depois vai avan\u00e7ando para a \u00e1rea central at\u00e9 tornar-se o pr\u00f3prio centro. A cada novo linchamento, a cada nova fogueira, e elas s\u00e3o ateadas pela direita, mas tamb\u00e9m pela esquerda, muitos t\u00eam se calado. H\u00e1 gente demais se esquecendo de sua responsabilidade p\u00fablica e soprando as brasas para longe de si. Muitos que t\u00eam espa\u00e7o para falar e resson\u00e2ncia para ser escutado t\u00eam silenciado, na esperan\u00e7a de que a v\u00edtima mais recente da inquisi\u00e7\u00e3o promovida nas redes sociais e em certa m\u00eddia se incinere sozinho na fogueira da sua reputa\u00e7\u00e3o e que nenhuma brasa caia no seu quintal. Lamento dizer, mas vai cair. E a\u00ed, talvez, seja tarde demais para reagir.<\/p>\n<p>Eliane Brum \u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. 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