Meu sonho doido de realidade, graças a Kafka

Meu sonho doido de realidade, graças a Kafka

barata

Há dias não sonhava e muito por exagerar no vinho pra ter mesmo sonos búfalo.

Por sonhar demais acordada e frequentando os extremos, ou sonho com coisa muito boa ou muito ruim, então prefiro só dormir mesmo.

Hoje inventei de adormecer de novo ao retornar da escola do meu filho e acordei com Ernande se esfregando nas minhas costas bem na hora em que metamorfoseava.

Estava em 1915, de barriga pra cima, na parte mais angustiante da magistral obra de Kafka.

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.”

Como Samsa, ouvi a voz familiar anunciando o novo dia, mas como podia aparecer na figura de uma barata asquerosa?

Aí lembrei do meu aniversário que se aproxima, das festas de fim de ano e tudo o que desejei foi não acordar daquele sono pra encarar a rejeição da família ao meu aspecto físico alterado.

Escapei por pouco do pesadelo de duelar com meus fantasmas.

Um novo dia é só mais uma chance pra se equilibrar numa corda bamba segurando dois baldes, um com o desafio de ser e o outro com o de ter. E nessa corda não caminhamos sozinhos, por isso balança tanto, tantos caem e fazem os outros cair.

Cada um dá seu jeito pra atravessar o dia e quem não imita o senso comum, afronta as convenções, pode ser visto como um inseto monstruoso e provar a rejeição mesmo tendo sido bonzinho a vida toda.

Ah… e como a morte do diferente pode libertar todos os indiferentes.

Égua! Que sonho doido de realidade!

Como Kafka sugeriu, seu livro que li há muito tempo, me alterou os sentidos.

“Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós.”

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